Esta página está duplicada como minha postagem de 20 de junho de 2011.

Antes de viajar à Escócia em 2008, pesquisei um bocado sobre os celtas. O povo celta ainda existe miscigenado como parte dos povos da Europa Ocidental, mas sua cultura foi bastante sufocada e diluída desde as invasões germânicas a partir do século V. Em consequência, não são muitos os lugares onde se falam línguas derivadas das antigas línguas celtas.

Não são muitos, mas são notáveis. Hoje em dia, os exemplos mais marcantes de culturas celtas são a Irlanda (onde ainda se fala Gaeilge, gaélico irlandês), as Terras Altas da Escócia (onde se fala Gàidhlig, gaélico escocês), a Ilha de Man (onde se fala Gaelg, gaélico de Man), Gales (onde se fala galês), Cornualha (onde se fala córnico), Bretanha (península da França, não confundir com a Grã-Bretanha), e Galícia, na Espanha, onde se fala galego. Observe que todas essas localidades são extremidades ocidentais de territórios tomados por tribos germânicas.

(Você notou a recorrência de certos fonemas? A Escócia era chamada de “Caledônia” pelos romanos. Caledônia, gaélico, Gales, Galícia, Gália (território celta onde hoje é a França). E tem a Galácia, a mesma da Epístola de Paulo aos Gálatas, também celtas. Isso não é coincidência. Os celtas adoravam divindades femininas da fertilidade que eram avatares da terra e das florestas; uma delas era a deusa-mãe Caillaech ou Calleach, cujo nome teria originado todos esses nomes de povos celtas começando com “cal-” ou “gal-“. Mais sobre isso aqui: http://usuarios.multimania.es/Celtic_Galiza/origin.html

Por outro lado, todas as fontes dizem que o nome de Gales vem do germânico “wehlas”, que não se relaciona a essa etimologia. Além disso, as páginas da Wikipedia apontam para uma complexidade muito maior na origem dos vários nomes de povos celtas, que teriam convergido para uma semelhança sem terem partido de uma origem comum. Então fica esse contraponto, mostrando que não necessariamente todas essas palavras eram uma só.)

As línguas celtas têm uma certa sonoridade que é perfeitamente reconhecível, mesmo que você não as entenda. Por exemplo, têm encontros consonantais com R como os nossos, em português: BRasil, CRime, PRoGResso, TRanquilo. Também tendem a ter ditongo, como EO, EA. Finalmente, há muitos casos de palavras terminadas com G ou com CH.

Então, no domingo, 22 de maio de 2011, caminhando pela avenida San Martín, em Bariloche, deparamo-nos com o cartaz do restaurante Breogan. Em razão da pesquisa que eu fizera em 2008 e que comentei acima, imediatamente percebemos que o nome “Breogan” era vigorosamente celta. Dito e feito: o estabelecimento anunciava comida galega e comida espanhola.

(Atenção: eu disse “comida galega”. Nunca chame de espanhol a um galego, a um catalão ou a um basco. Várias culturas regionais da Península Ibérica foram sufocadas pela formação do Estado nacional centralizador da Espanha a partir do século XV e até a época do Generalíssimo Franco, mas o sangue delas ainda é quente. Então, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Embora hoje a Galícia, a Catalunha e o país basco façam parte da Espanha, as culturas tradicionais galega, catalã e basca não são a cultura tradicional espanhola.)

Imediatamente determinamos que TÍNHAMOS que jantar no Breogan antes do fim da viagem. Então, na noite de terça, 24/05, fazia um frio desgraçado (como, aliás, por toda a semana) quando lá entramos e logo o ambiente nos aqueceu. Não apenas pela temperatura, mas porque estava cheio (destoando dos outros e vazios restaurantes de Bariloche) e as cores internas puxavam para amarelo e marrom.

Não foi difícil conseguir mesa. Enquanto escolhíamos os pratos, chamou-nos atenção a decoração, espanhola na sua pujança: as paredes estavam forradas de cartazes, fotografias, cartões postais, flâmulas, leques e outros adereços remontando à Espanha. No cardápio, vários pratos espanhóis além das especialidades locais. Os pratos galegos eram de frutos do mar, quase todos com mexilhões, que não posso comer (mas recomendo o polvo à galega, uma delícia grelhada com batatas, azeite e açafrão, que por duas vezes comemos na Espanha; não conheço o do Breogan). Como estávamos longe do mar, preferimos alguma coisa menos ambiciosa. Quando fomos atendidos por um garçom cheio de serviço mas prestativo, pedimos um cervo com cogumelos do Sul (56 pesos) e um salmão ao champanha (51 pesos). Uma cerveja local (17 pesos) completou o pedido.

O cervo e o salmão estavam excelentes, mas foi depois disso que a noite ficou mais pitoresca. Bariloche está a menos de cem quilômetros do Chile, de modo que, como o cardápio mencionava pisco sour (19 pesos), não pude deixar de pedir um. Como é feito com pisco e a dose seria de uns 200 ml, pedi ao garçom que o fizesse fraquinho, e deu vontade de pedir outro e mais outro até não conseguir mais levantar. O cardápio tinha outro item que aguçou nossa curiosidade: a queimada. Quando perguntei por ela, o garçom explicou que era feita com grappa, açúcar, laranja e café. Tentador, não?

Antes de irmos embora, Esposa quis fotografar os fundos do restaurante, então aproveitei para elogiar a comida ao jovem proprietário Santiago, e ocorreu-me perguntar-lhe o porquê do nome “Breogan”. Animadíssimo, ele me explicou ser esse o nome do lendário herói fundador da nação galega. Comentei genèricamente de meu interesse em cultura celta, ao que Santiago me respondeu que, na verdade, o proprietário é seu pai, galego migrado para a Argentina, que abriu o restaurante tendo o propósito de divulgar essa cultura. Nisso enfrentou alguns desafios, como, por exemplo, na receita da queimada (que, segundo a explicação do jovem, consiste em rum, raspa de laranja, raspa de limão, café e açúcar). Aprendi que, tradicionalmente, o processo de elaboração dessa bebida requer a pronúncia de um conjuro, que já estava esquecido. Então, naquele tempo em que não havia Internet, o fundador do restaurante escreveu a sua família na Galícia, pedindo-lhes o texto do conjuro, que hoje adorna uma das paredes do estabelecimento. Santiago deu-me algumas folhas xerocadas, com a história do nome “Breogan” e o conjuro.

O galego é uma língua muito parecida com português antigo. Você até consegue ler sem dificuldade, não é mesmo? Isso, naturalmente, é porque as duas eram uma só língua até o século XII. Mesmo após o início da divergência, é de se notar que Portugal e Galícia sempre foram vizinhos. O próprio nome “Portugal” vem do latim “Portus Cale”, ou seja, “porto de celtas”, que era a referência dos romanos à cidade portuguesa que hoje se chama “Porto” e que fica bem perto da Galícia.

A ideia da queimada não nos saiu da cabeça. Por isso, na noite de sexta-feira, 27/05, o frio continuado foi apenas a desculpa necessária para voltarmos ao Breogan embora não tivéssemos fome suficiente para jantar. O lugar estava ainda mais cheio, e percebemos, pela atitude de algumas pessoas, que muitas eram prováveis habitués (espanhóis saudosos?). Mas também havia turistas anglófonos.

Qual não foi nossa decepção ao descobrirmos que a porção mínima de queimada seria de meio litro. Imagine você tomar meio litro de destilado alcoólico quase puro! Tivemos que desistir, mas, como prêmio de consolação, o garçom nos trouxe um licor de autoria da casa, à base de ervas. Absolutamente perfeito.

Para comer, pedimos só uma sopa de vegetais (20 pesos) e uma empanada de queijo e presunto (7 pesos). A sopa foi a única fibra que comemos a semana toda e estava bem feita, parecida com um minestrone só que sem o macarrão. Já a empanada, que é simplesmente um pastel, tem sobre os pastéis brasileiros a imensa vantagem de vir com muito recheio em vez de vento. Alimenta de verdade.

Na sequência, pedimos uma crema catalana (19 pesos). Essa sobremesa lembra uma cremogema com cobertura de caramelo e já a havíamos provado em Valencia em 2008. Só que, no Breogan, a receita inclui uma porção generosa de caramelo, canela e biscoito Champagne e, o melhor de tudo, estava temperada com uma raspa de limão que dá vontade de comer esse negócio até estourar.

Antes de irmos embora, o garçom veio nos avisar que uma queimada seria feita para uma das mesas e que ficássemos para observar o uso do conjuro. Depois de uma certa espera, notamos que a música ambiente havia parado. Então, entrou o tema de “parabéns pra você” em espanhol e o próprio Santiago veio com um carrinho e um pequeno tacho de cerâmica. Parou diante da mesa da aniversariante e começou a explicação sobre o contexto da queimada, contando como as pessoas se reuniam para beberem juntas e queimarem maus espíritos. É por isso que o conjuro é importante e foi nesse ponto que começamos a filmar.

Primeiro, põe-se fogo à grappa (ou ao rum que a substituir). A garotinha que estava à mesa ficou assustada com as chamas desse ponto em diante. Não sei por quê, mas a mim o fogo azul do álcool também sempre pareceu mais assustador do que o amarelo dos incêndios. De todo modo, à medida em que o preparador remexia com a concha e levantava o rum, era belíssimo como um halo azul circundava a cascata incendiada que se formava.

Na sequência, foram adicionados café, aquele licor de ervas da casa, e pedaços de casca de laranja. O fogo reclamava de cada ingrediente, levantando-se e mudando de cor, até que foi sumindo à medida em que o álcool era consumido e diminuía sua participação na solução aquosa para além da capacidade de sustentar a queima.

Ao fim da cerimônia, ainda ganhamos um copim de queimada cada um e fizemos um brinde com o empolgado proprietário do Breogan.

V11-2084 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, restaurante Breogan, 27 de maio de 2011 - brinde com queimada

Em Bariloche, o restaurante Breogan é especializado em culinária espanhola e galega e divulga a cultura céltica da Galícia. O jovem Santiago, filho do proprietário, preparou uma queimada para uma mesa onde havia um aniversário. Explicou o significado cultural da bebida e demonstrou o modo de preparo: incendeia-se uma tigela de grappa e, enquanto se remexem as chamas para queimar bruxas e maus espíritos, recita-se o conjuro tradicional e acrescenta-se laranja e café. O resultado é excelente.