Memphis Belle: filme de ação e lição de História

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Ontem revi este filme angloamericano de 1990 (link para o IMDB), que mostra a guerra aérea sobre a Europa em 1943. É um filme bastante didático para quem não tem íntimo conhecimento daquele específico período da II Guerra Mundial, e um espetáculo para os fãs de História da aviação militar.

Para começar, por alguma razão que não alcanço, meu exemplar é uma edição minimalista em DVD. O formato de tela é 4:3, não há quaisquer extras, e o filme contém falhas e granulação que fazem pensar se não é mera transposição do VHS. O texto da capa traseira e os nomes dos capítulos são traduções literais que perdem o sentido em português. Claramente uma edição descuidada e apressada.

As técnicas de filmagem indicam a idade da obra. A montagem dos aviões sobre o céu acaba aparecendo, especialmente quando o editor de vídeo transforma os cinco aviões usados para a filmagem em dezenas de aviões se perdendo na distância. É o que havia em 1990, pouco tempo antes do uso intenso de efeitos digitais no cinema.

Apesar das limitações, o filme é primoroso. O contexto está reproduzido fielmente, ainda que os cineastas tenham tomado algumas liberdades em relação aos eventos reais. 1943 foi o primeiro ano da campanha pesada de bombardeio da Alemanha conduzida todos os dias pela USAAF (Força Aérea do Exército dos Estados Unidos, mais tarde transformada na Força Aérea dos Estados Unidos) e todas as noites pela RAF (Real Força Aérea, da Inglaterra).

Decolando de bases na Inglaterra, os inúmeros esquadrões da 8a. Força Aérea da USAAF (a “Oitava”), compostos cada um por 24 bombardeiros B-17, atravessavam o Mar do Norte e aventuravam-se sobre território inimigo, para dentro de França, Bélgica, Holanda, Alemanha e Tchecoslováquia. Naturalmente, os alvos mais valiosos e defendidos estavam na Alemanha. Os Aliados estavam empenhados em bombardear as fábricas que sustentavam a máquina de guerra alemã, de modo a sufocar a capacidade do inimigo conforme a doutrina desenvolvida nos anos 30.

Aliás, foi em 1935 que voou o primeiro Boeing B-17. Desde o início este modelo foi chamado de Fortaleza Voadora porque fôra projetado para voar tão alto que ficaria imune ao alcance dos caças e da Flak (artilharia antiaérea). Já em 1943, a antiaérea e os caças eram bastante capazes de atingir esses bombardeiros. Para se defenderem ao menos dos caças, as B-17 passaram a ser dotadas de inúmeras metralhadoras em volta da fuselagem, e também se descobriu que sua extrema robustez permitia que continuassem voando apesar de impressionantes danos causados pelo fogo inimigo. Com o tempo, formou-se o equívoco (comum ainda hoje) de pensar que o nome Fortaleza Voadora tivesse vindo dessa capacidade de autodefesa e de sua construção resistente. Seguem exemplos:

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De fato, Memphis Belle enfatiza bastante as características e vulnerabilidades das B-17. Naquele tempo, as tripulações formavam vínculos de carinho e gratidão com seus aviões, que suportavam severo fogo inimigo e ainda assim as traziam de volta em segurança. Era costume que cada avião individual tivesse seu próprio nome, pintado no nariz, muitas vezes com uma figura decorativa. Este filme retrata a ocasião histórica em que a tripulação da B-17 batizada de Memphis Belle foi a primeira a completar 25 missões.

Na época, a USAAF seguia a política de que, após 25 voos de combate, os tripulantes podiam voltar para casa e descansar antes de entrarem novamente em combate. O marco atingido pela Memphis Belle foi objeto de um documentário comemorativo, exibido nos cinemas americanos em 1944 como propaganda de guerra.

Já este filme de 1990 é uma história de ficção, mas representa acuradamente a rotina daquelas longas jornadas a bordo das B-17. Nele acompanhamos a 25a. missão da Memphis Belle, até seu alvo na Alemanha e de volta, na companhia de Windy City, C-Cup, Mother and Country e outras 356 aeronaves iguais a elas. Os personagens são fictícios, mas são o espelho de uma tripulação real.

Memphis Belle também é uma lição de como se conta uma história didàticamente, introduzindo os conceitos à audiência de modo gradual e explicando-os pelos diálogos, que não passam a impressão de uma aula, tão comum em outros filmes. A história começa ao entardecer, quando os ocupantes de uma base aérea acompanham a chegada de um esquadrão na volta de mais um difícil bombardeio, os aviões semidestruídos, sendo contados pelos companheiros em terra com a expectativa angustiada de que todos tenham retornado. Em seguida, os tripulantes da Memphis Belle são apresentados à audiência um a um, fazendo ver como são jovens, inexperientes, arrancados de uma vida simples e sùbitamente lançados a este ambiente tecnológico e assustador onde devem cumprir missões que contrariam todo senso de autopreservação em nome do esforço maior da guerra.

À noite, um baile comemora o primeiro aniversário do grupo (cada quatro esquadrões formavam um grupo). Na manhã seguinte, vêm as instruções para a missão, a espera ansiosa pelo momento da decolagem, e então o esquadrão se enfileira e decola. Seguem-se momentos de tédio e tensão até a entrada em território dominado pela Alemanha, seguidos pela tentativa dos ágeis caças de defesa alemães de derrubar os bombardeiros enquanto os atiradores se defendem freneticamente e os pilotos não podem fazer manobras evasivas, sob o risco de se chocarem contra os aviões vizinhos. Então, já na corrida final de bombardeio, vem a densa barragem de artilharia antiaérea, mas os bombardeiros devem continuar voando em linha reta até o objetivo e assim permanecem como alvos fáceis, para aflição de todos a bordo. Apesar de robustas, muitas B-17 eram atingidas em cheio pelas defesas de caças e canhões alemães, e percentuais tão altos como 20% delas acabavam não voltando.

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Era um cenário sombrio, em que a vida de um jovem tripulante podia acabar em segundos. Essa lúgubre lembrança faz-se ostensiva de vários modos por toda a duração do filme.

A antiaérea sobre Schweinfurt. Foto histórica.

A antiaérea sobre Schweinfurt. Foto histórica.

Naturalmente, Memphis Belle traz a carga patriótica esperada de um filme sobre a II Guerra Mundial. Mas, diferente dos filmes dos anos 40-50, não retrata seus personagens como perfeitos. Os tripulantes demonstram medos, inseguranças e egoísmos, e são capazes de mentir e contar farol. Infelizmente, a história chega a exagerar quando mostra irregularidades a bordo (o navegador, que se embebeda na véspera e passa a missão toda de ressaca; o co-piloto, que descumpre as normas e vai buscar emoção como atirador de cauda no calor do combate; o atirador que cola um cartaz de mau gosto nas costas do colega). Na vida real, os tripulantes estariam concentrados em suas tarefas e jamais cometeriam essas indisciplinas.

Pode-se ainda apontar um anacronismo. No filme, as instruções de pré-voo mostram que, em torno do alvo (uma fábrica), existem uma escola, um hospital e várias casas. Ao chegar à zona do alvo, o piloto recusa-se a liberar sua carga mortífera se não puder ter absoluta certeza de que só atingirá a fábrica, evitando bombardear os civis inocentes, e por isso retorna e executa uma segunda passagem (sob os protestos da tripulação, que, com razão, vê nisso uma prática suicida). Acontece que, em 1943, não havia esse tipo de pudor, que só viria a se tornar regra na década de 90. Ainda que houvesse essa preocupação, teria sido impossível satisfazê-la, pois o nível de precisão necessário a se atingir um único edifício de uma altitude de 16 mil pés só foi obtido com a tecnologia dos anos 70. Durante a II Guerra Mundial, a regra era que centenas de bombardeiros despejassem seus milhares de bombas com a esperança de que algumas atingiriam o alvo, mas sabendo-se que os ventos, a distância entre os aviões e a imprecisão natural do processo espalhariam a maior parte desses artefatos em áreas de centenas de milhares de metros quadrados.

Bombardeio de precisão ao estilo da Oitava em 1943. Fotografia histórica.

Bombardeio de precisão ao estilo da Oitava em 1943. Fotografia histórica.

Outro absurdo que só acontece nos filmes: um dos tripulantes, ferido, perde muito sangue e chega a ter uma parada cardíaca. Entretanto, quando o bombardeiro finalmente consegue pousar, a equipe de resgate gentilmente espera que se organize uma fotografia da heróica tripulação antes de levá-lo em uma ambulância!

Apesar das liberdades dramáticas, o filme se mostra razoavelmente fiel à realidade nos aspectos aeronáuticos. Em 1943, a versão de B-17 que estava em uso na Oitava era a B-17F, dotada de dez tripulantes e dez metralhadoras. No nariz, situava-se o bombardeador, que precisava enxergar o alvo para definir o momento da liberação das bombas e, até chegar lá, operava uma metralhadora atirando à direita; atrás dele, o navegador, com outra metralhadora atirando à esquerda. Ambos ficavam abaixo do cockpit, onde iam piloto, co-piloto e mecânico de bordo (que também operava duas metralhadoras no dorso). O compartimento de bombas ficava logo atrás do cockpit, e atrás vinham, na sequência, operador de rádio, atirador ventral (com duas metralhadoras), atirador de boreste (com uma), atirador de bombordo (com outra), e atirador de cauda (com outras duas metralhadoras). Boa parte do filme transcorre a bordo do avião, de modo que podemos ver os papeis desempenhados e a interação entre esses tripulantes. (Parêntese: o atirador ventral é interpretado por um imberbe Sean Astin, onze anos antes de ajudar o Senhor Frodo a destruir o Um Anel.)

Para a produção do filme, foram usadas cinco B-17. Algumas eram da versão B-17G, equipada com metralhadoras sob o nariz, que, portanto, tiveram que ser removidas para a filmagem, em um downgrade que lhes deu a aparência da versão B-17F. A pintura dos aviões também é representativa do ano em que se passa o filme.

Em maio de 1943, as B-17 eram escoltadas por caças P-47, que as defendiam contra os caças alemães. Infelizmente, os P-47 tinham alcance limitado e eram forçados a retornar antes que as B-17 chegassem até seus alvos, devolvendo-as à própria sorte justamente onde elas mais estavam expostas. O filme mostra o conforto dos aeronautas ao verem a chegada dos caças de escolta (“little friends”) e seu lamento ao vê-los se afastarem. Entretanto, comete uma imprecisão: nessas cenas, os caças que vemos são P-51 Mustangs, especìficamente da versão P-51D, que só veio a ser usada a partir do fim de 1943. A grande diferença do P-51D é que ele tinha alcance para escoltar os bombardeiros até Berlim, de modo que, a partir de sua introdução, uma proporção maior das B-17 passou a ser capaz de chegar a seus alvos e retornar em segurança, favorecendo dramaticamente as estatísticas dos Aliados.

Já os caças alemães são de dois modelos: Messerschmitt 109 e Focke-Wulf 190. Como não havia nenhum 109 em condições de voo para a filmagem, os produtores usaram aviões do modelo HA.1112 Buchón. O HA.1112 era um 109 fabricado na Espanha no pós-guerra, que pode ser facilmente diferenciado do modelo original pela enorme carenagem sob o motor (tanto que o nome espanhol se traduz como “barrigão”).

Duas aeronaves foram usadas para representar Memphis Belle neste filme, e uma delas foi a B-17G Sally B. Esta é uma B-17 que permanece voando até hoje, apresentando-se regularmente em shows aéreos.

Sally B em 2005

Sally B em 2005

Terminada a filmagem, Sally B teve repintados seu nome e sua pin-up a bombordo, mas manteve o nome e a pintura de Memphis Belle a boreste, como referência a sua participação no filme. Em 1998, mediante a módica quantia de duas libras, o autor deste texto teve a oportunidade de fotografá-la por dentro na antiga base aérea de Duxford, que é seu lar, onde funciona o Museu Imperial da Guerra e onde foi rodada parte do filme (embora as cenas com a torre de controle tenham sido filmadas na base aérea de Binbrook, também inativa). Em 2008, reencontrei Sally B no show aéreo Flying Legends, novamente em Duxford, mas ela estava apenas exposta, faltando-lhe o motor número 1, que estava em manutenção. Em compensação, vi voando Pink Lady, que voou no papel de Mother and Country no filme.

Sally B, pintada como Memphis Belle no lado direito (foto do autor)

Sally B em 2008, pintada como Memphis Belle no lado direito (foto do autor)

Em 2010, em novo reencontro no Flying Legends, pude ver Sally B voando, mantendo vivo o legado das bravas tripulações que sacrificaram suas vidas nos céus da Europa Ocidental para que hoje meu Leitor pudesse ler estas linhas a salvo dos odiosos coturnos do regime nazista.

Não ser uma âncora

Acontece muito: você tem um sonho, que pode ser simples ou complicado. Você conta do seu sonho para alguém. Daí a pessoa logo diz que você não vai conseguir, melhor desistir etc.

Aí você vê a Internet, e vários livros, e várias crônicas, todos dizendo que você tem que acreditar em si mesmo, não dar ouvidos à multidão, que as pessoas vão tentar te derrubar, mas seja forte, acredite no sonho… Você sabe como é.

Aconteceu até comigo. Quando eu estava na segunda metade do primeiro grau (hoje seria sexta a nona série do ensino fundamental), minha escola premiava com medalha o aluno que concluísse todas as disciplinas com média 7. Na sétima série, a escola tinha a disciplina de Datilografia, que era terceirizada e onde as notas não eram números, mas os subjetivos S (Sofrível), R (Regular), B (Bom), MB (Muito Bom) e E (Excelente). Sendo a disciplina terceirizada, e sendo a nota expressa desse modo tão diferente, já estávamos no segundo semestre quando perguntei à instrutora se ela contaria para a concessão da medalha.

Não integrando a equipe do colégio, a instrutora não sabia dessa premiação, de modo que pensou que eu estivesse viajando na maionese, imaginando uma medalha fantasiosa. Sabe o que ela me respondeu?

“Hm! Sonha, passarinho…” e sorriu com escárnio enquanto já se afastava.

Se ela apenas dissesse que a nota de Datilografia contava (embora não contasse, como depois vim a saber), eu não teria me incomodado, pois era o que eu tinha perguntado. Mas a resposta continha uma vigorosa dose de desprezo. Ela me magoou tão profundamente que me lembro até hoje. Afinal consegui a tal medalha, e você pensaria que isso tivesse o poder de apagar o sentimento ou de substituí-lo com uma satisfação de vingança, mas não, especialmente porque a agressora nunca soube. Talvez nem se ela viesse a saber.

Por causa disso, ali mesmo em 1987, decidi que nunca, na minha vida, eu menosprezaria o sonho de outra pessoa. Nunca seria eu a dizer “você não vai conseguir”. Posso estar convicto de que o sujeito não tenha a menor chance, posso perceber que ele não tenha o menor preparo, mas não serei eu a dizer-lhe que deva desistir. Às vezes eu posso dizer “você precisa estudar tal assunto”, mas então estarei ajudando-o a suprir uma deficiência e a tornar possível aquilo que hoje é impossível. Também posso considerá-lo tão sem esperança que eu não responda nada, mas não serei eu a lhe tirar a ilusão.

É claro que sempre existe a possibilidade de eu estar errado e o sujeito ter, sim, alguma chance de concluir seu insano projeto. Nesse caso, ao tirar-lhe a esperança, serei mais um daqueles milhares de medíocres de quem mais tarde, ao ter sucesso, ele dirá que “muitas pessoas tentaram me puxar para trás, mas não desisti” — é assim que desejo ser lembrado? Se, porém, eu estiver certo, ainda assim eu farei mal em desencorajá-lo, pois o sonho lhe dá forças, trazendo-lhe a nobreza dos visionários e a sublimidade dos loucos, cuja desconexão os poupa deste mundo cão. No mínimo, não gostaria de ser eu aquele que ouve que deveria desistir, tal como de fato fui um dia.

Em 2005, tive aula com o Juiz Marcelo Tavares, que, em determinado momento, explicou um pouco de seu ofício. Disse que é preciso ouvir as pessoas que formulam seus pedidos em juízo, e levar esses pedidos a sério, mesmo que seja para depois indeferi-los. Pois, segundo ele, “você não pode tirar o sonho de uma pessoa, porque às vezes é tudo que ela tem”. (É claro que, ao negar o pedido, o juiz pode estar fazendo exatamente isso, mas, ao ouvir o pleito e mostrar que o considerou antes de decidir, não estará desprezando seu autor. Às vezes, a pessoa só quer ser ouvida.)

Essas lembranças me vieram ontem, quando fui assistir à exposição The Art of the Brick, de obras do escultor Nathan Sawaya. Uma das figuras era esta.

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Conforme a legenda, sempre haverá mãos para segurar você.

Não serei eu!

O terror que deduzimos

Neste Mês das Crianças (sez who?), entrei duas vezes em uma famosa loja de varejo desta cidade. Em ambas as vezes, lá estava aquele tenebroso disco de música alegadamente infantil a tocar em todas as caixas de som da loja. Um coro de crianças entoava famosas canções de roda, acompanhado por repetitivos baixos sintéticos, teclados eletrônicos e samplers. A “música” era tão assustadora como um palhaço de filme de terror ou a pobre vítima infantil de Cemitério Maldito.

Estou convicto de que todas as faixas do disco foram gravadas enquanto um guarda mantinha seu revólver apontado para as cabeças das crianças. É a única forma de explicar o que eu ouvia.

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Recriando o passado

Nos últimos tempos andei postando narrativas e reflexões deprimentes. Então vamos variar um pouco hoje e falar de uma eterna fonte de alegria: SORVETE!

Lá nos sempre mui pranteados anos 80, havia no Rio de Janeiro uma rede de sorveterias chamada Sem Nome. Aliás o nome da sorveteria tinha sua própria história, que não consigo confirmar por absoluta falta de rastreabilidade de todas as coisas que antecedem a Web; mas a história era a seguinte: a marca havia sido criada como “Ébom”. Supostamente a Kibon teria percebido, aí, uma espécie de golpe de marketing, que a imitava. Então teria entrado com uma ação judicial e conseguido que o fabricante do Ébom abandonasse a marca. Nas sorveterias, os alvarás de funcionamento ainda mostravam a razão social como “Italiano Ébom” (disso me lembro bem), mas a marca já não era essa. Em um segundo e mais esperto golpe de marketing, tendo ficado sem um nome com que se apresentar ao público, o fabricante passou a se chamar Sem Nome. Quem se dispuser a investigar a versão, por favor, venha aqui depois me confirmar se é verdade.

As sorveterias Sem Nome estavam espalhadas pela cidade. Ainda que sob o risco de me lembrar de tudo errado, recordo-me de uma na Gávea, em uma bifurcação da qual se subia para o Parque da Cidade, presumìvelmente onde acaba a rua Marquês de São Vicente, começa a rua Mary Pessoa e hoje há um posto BR. Mas, principalmente, recordo-me de uma na rua Conde de Bonfim, 816, onde hoje funciona uma dessas padarias de luxo.

Até a arquitetura interna da sorveteria era atraente. A entrada ocupava toda a largura da loja. O piso eram lajotas da cor do sorvete de creme. O ambiente era todo muito limpo, a sorveteria estava sempre vazia (mau sinal?), o balcão era enorme, esticando-se ao longo da parede esquerda (para quem entra), e havia um sem-número de mesas com bancos de madeira e um poço de iluminação natural lá no fundo, com pedras redondas formando um fundo e, dispostas em volta, algumas plantas em grandes vasos de cerâmica.

Um dos principais argumentos publicitários da Sem Nome era que tinha mais de quarenta sabores. Só que, toda vez que eu ia lá, constatava duas coisas: (1) não chegava a haver quarenta sabores listados na parede e (2) NUNCA havia todos os sabores que estavam listados na parede. Na verdade, com o tempo, havia cada vez menos; e, à medida que a sorveteria foi declinando, os nomes deixaram de ser impressos e passaram a vir escritos a mão, em papeis, em menor quantidade. Minha teoria, formada na época mas que ainda sustento, é que jamais o fabricante teve a intenção de sequer criar receitas para alguns daqueles sabores, que só estavam listados para fazer número. Lamentei o dia em que a Sem Nome, de sorveteria, transformou-se em lanchonete, servindo até hambúrguer. Não estava longe o fim, que, àquela distorcida altura, nem cheguei mais a lamentar, como se fosse mera eutanásia comercial a poupar os olhos de sofrerem pela decadência da outrora digna e inovadora sorveteria carioca (aliás nem sei se era mesmo carioca).

Mesmo assim, os sabores eram realmente muitos e excelentes e, no auge da Sem Nome, eu a frequentava com entusiasmo. Em uma época em que a Kibon só fabricava a ubíqua rotina creme-chocolate-morango-flocos-napolitano, a saudosa concorrente oferecia o diferencial de certas novidades como laranja, manga, melão, ameixa, passas ao rum, doce de leite, coco queimado, doce de leite com coco, abóbora com coco, e um de meus favoritos: milho verde.

Também havia receitas próprias de sundaes. Além dos convencionais Colegial* e Banana Split**, praticados em outras sorveterias e restaurantes, a Sem Nome oferecia combinações batizadas com os nomes de cidades italianas. Assim, lembro-me de um sundae (infelizmente não lembro qual era a cidade) que tinha seis bolas de sorvete empilhadas! Seria um desafio que nunca encarei.

Em especial, até hoje continuo me lembrando muito bem do Copa Veneza: duas metades de um pêssego em calda, duas metades de uma banana, duas bolas de sorvete de sabores diferentes à escolha do freguês, duas coberturas diferentes (posso estar enganado quanto à quantidade de coberturas, mas é isso que lembro), castanha de caju, marshmallow (ou será que era chantilly?), uma cereja, e um tubete (que, na época, não se chamava “tubete”; e talvez não houvesse e eu o esteja trazendo da lembrança de outro sundae), tudo isso em uma taça alta e larga de vidro grosso. Invariàvelmente, meus dois sabores de sorvete eram coco e amendoim, inclusive porque a Kibon não os tinha; e as coberturas eram de caramelo e morango. Muitas foram as vezes em que tomei Copas Venezas e às vezes fico pensando como eu conseguia! Meu metabolismo atual jamais permitiria que eu deglutisse impune todas essas calorias, e mesmo essa deliciosa deglutição só será possível se eu estiver com a barriga totalmente vazia…

Nos tempos atuais, os sabores da sorveteria Itália ocupam dignamente o vácuo deixado pelos da Sem Nome. Infelizmente, as Itálias são minúsculas, mal tendo alguns banquinhos (nas ruas Santo Afonso, Visconde de Pirajá e Figueiredo de Magalhães e no Downtown), reduzindo-se a quiosques (no Shopping Tijuca) ou até mesmo consistindo apenas em geladeiras (nas franquias do Rei do Mate). Por isso, apesar de todos os deliciosos sabores, não creio que a Itália vá um dia ocupar o nicho deixado pela Sem Nome em matéria de espaço e experiência.

(Considerando que um dia a Itália possa tomar o mesmo caminho da Sem Nome — embora eu torça para que não –, fica aqui registrado que ela oferece ou já ofereceu, entre diversos outros, os sabores de limão, limão siciliano, manga, manga com gengibre, tangerina, abóbora com coco, amarena (creme de cereja), banana caramelada, biscoito (chocolate com pedaços de biscoito), brownie (chocolate com pedaços de bolo de chocolate), café puro, “café chips” (café com bolinhas de chocolate duro), canela com mel, “chocolate africano” (com amendoins), chocolate branco com maracujá, chocolate com amêndoas, chocolate com avelã, chocolate “de origem”, chocolate meio amargo, coco, cookie (creme com pedaços de biscoito de chocolate), doce de leite, doce de leite com chocolate, doce de leite com doce de leite, flocos, iogurte, iogurte com calda de goiaba, iogurte com limão siciliano, iogurte com pêssego, menta com flocos de chocolate, milho verde, morango com pedaços, nata, nozes, paçoca, passas ao rum, pistache com pedaços, queijo, romeu e julieta, “sonho de valsa”, tapioca, “torrone”, torta alemã (camadas de creme, chocolate e biscoito), torta de limão (com camadas de biscoito)… A Itália também tem diversos picolés, que têm bastante saída, com sabores que incluem alguns desses e também açaí e groselha.)

Pois bem. Esta postagem nasceu porque, por muitos anos, eu quis reconstruir o Copa Veneza, até que, em dezembro de 2013, comprei duas taças de vidro as que encontrei mais parecidas com as da Sem Nome (um requisito essencial), mais todos os ingrediente, e pus mãos à obra.

Infelizmente, a Itália não faz sorvete de amendoim, de modo que tive que recorrer à coisa mais próxima, que é o sorvete Sonho de Valsa, fabricado pela Kibon sobre a marca da Lacta. Não é idêntico ao de minha lembrança porque tem pedaços de chocolate na massa, mas haveria de servir. Também não se encontra mais sorvete de coco, que a Kibon fabricava até há pouco tempo e que eliminou na recente reformulação de sua complexa linha. Mas, nessa mesma reformulação, existem três potes que são compostos por trios de sabores, e um deles é dito de “frutas tropicais”: manga, abacaxi e coco. Então, tal como Homer Simpson, que só compra napolitano por causa do chocolate, comprei o trio por causa do coco (não que tenha jogado o resto fora depois, se é que me entende).

Além disso, percebi que, se eu usasse dois sabores de cobertura como no Copa Veneza original, eles formariam uma barafunda indistinta de gostos e eu não sentiria nenhum. Então, para maior curtição dos sentidos, um sabor estaria de bom tamanho. Escolhi caramelo, que é mais neutro do que morango e, assim, não interferiria no pêssego e na banana. Quanto à dúvida entre chantili e marshmallow, o primeiro foi escolhido sem discussão pelo simples fato de que não se encontra marshmallow nestas paragens subequatoriais. Pelo menos o resultado também fica mais leve.

A montagem de um sundae não é caótica. Tal como se constrói um edifício, existe uma ordem, um propósito na sucessão dos ingredientes. Então, de baixo para cima, fui adicionando as metades do pêssego e da banana, as bolas de sorvete, a cobertura de caramelo, as castanhas de caju picadas (não moídas, marque bem), o chantili e as cerejas. Sim, aS cerejaS, que já são idos os tempos em que garçons e sorveterias ficavam regulando cereja prà gente. Ora, se agora faço o sundae na minha casa e compro cereja a granel, com muito mais razão vou compensar o recalque e lançar logo uma porção delas, não é mesmo? Então são três cerejas para cada taça, e perdoe-me a falecida Sem Nome por adulterar a clássica receita.

Finalmente, lembrar que nunca fui entusiasmado por tubetes (será que não era biscoito Champagne? Tomara que não, porque esses são mais caros; e acho que não, porque são grandes também). Então, minha variação do Copa Veneza vai sem biscoito.

O resultado está aqui. Posso lhe assegurar que estava tão gostoso quanto aparentava!

Dois sundaes Copa Veneza recém-montados

Dois sundaes Copa Veneza recém-montados

* Colegial: uma bola de sorvete (geralmente de creme), cobertura de chocolate, castanha de caju e uma cereja, servido em uma taça baixa, de vidro. Sim, é simples mesmo.

** Banana split: uma banana grande, partida ao meio, com três bolas de sorvete dispostas horizontalmente entre as metades (geralmente de creme, morango e chocolate), cobertura, às vezes marshmallow ou chantilly, castanha de caju e uma cereja, servido em uma pequena travessa.

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Desta vez, acho que o papo é sério

Durante os anos 80, vivíamos em um período de recrudescimento da Guerra Fria. Reagan de um lado, Brejnev e depois Andropov do outro, e nunca se acumularam tantas armas nucleares e convencionais como naquele tempo (pode pesquisar). Exercícios eram conduzidos por uns na porteira do quintal dos outros, as Alemanhas eram um palco permanente de vigilância e intriga (pois eram a fronteira entre os dois blocos), os mares estavam coalhados de navios de superfície, submarinos, sonares e aviões de patrulha, e todos vivíamos em tensão. Filmes de espionagem eram mais abundantes que os de ação, e os soviéticos eram vilões temíveis, sempre tramando, sempre sorrindo sobre facas afiadas. Foi a época de grandes suspenses de sucesso no cinema como Jogos de Guerra e A Raposa de Fogo.

Naquele tempo, abundava a literatura sobre veículos de combate. Os interessados hão de se lembrar com saudade das inúmeras publicações que saíram traduzidas no Brasil, como Aviões de guerra, Guerra nos céus, Guerra moderna, Corpos de elite, Máquinas de guerra, os Guias de Armas de Guerra, as séries Aviões de Combate e Aero Militar, e assim por diante. Era um material ótimo, como nunca mais se viu. Endereçado mormente a um público curioso mas não realmente especializado no assunto, tinha uma certa redundância de texto e imagens, e foi ali que os atuais quarentões tiveram contato com um conhecimento de (por exemplo) aviões militares que já está bastante desatualizado, embora frequentemente achem que aquilo tudo ainda é verdade (dica: não é. A RAF planeja a aposentadoria do Tornado GR4 já faz um tempo, você que só conheceu Tornado GR1; e os Tornados F3, Harriers, F-4, seu querido F-14 de Top Gun e versões iniciais do F-16 já sumiram do mapa faz tempo).

Mas havia também uma literatura mais séria. Os dois lados da Cortina de Ferro passavam o tempo a traçar cenários, prever ações e planejar reações. Do lado de cá, vimos parte do resultado em livros de ficção como os de Tom Clancy (sendo o mais famoso o primeiro, A caçada ao Outubro Vermelho), mas havia também uns trabalhos de não-ficção, um dos quais saiu pelo Círculo do Livro: Terceira Guerra Mundial: agosto de 1985, organizado pelo General Sir John Hackett e lançado em inglês em 1979. O livro refletia a visão da OTAN sobre como se iniciaria a dita guerra, com uma invasão em massa de blindados soviéticos através dos campos alemães, seguida de todo o desdobramento do que as melhores previsões diziam que aconteceria. Não se tratava de mero romance; era realmente uma peça de doutrina militar, explicitando o pensamento mais atual e planejado da OTAN para sua política de defesa. O assustador O Dia Seguinte, de 1983, partia de uma premissa semelhante e bastante repetida na época: após muita tensão e diplomacia, forças soviéticas invadiam um país do Oriente Médio (agora não lembro se era o Irã; podia ser; não esqueça que o Afeganistão esteve ocupado pela URSS de 1979 a 1989, com resultados desastrosos para o país do Urso) invadiam a Alemanha (será que eu lembrei errado mesmo? Mas ainda me lembro nìtidamente de ser Oriente Médio). O resultado da invasão era uma escalada muito rápida de reações mútuas até o ponto em que os soviéticos, derrotados, retiravam sua tropa da área e, em um gesto de despeito supremo, soltavam ali um artefato nuclear tático. A consequência disso era o imediato disparo de mísseis intercontinentais de um lado a outro do Pólo Norte, uns caindo no Meio-Oeste dos Estados Unidos, outros em alvos siberianos ou similares.

As lições, bastante óbvias, alertavam para os riscos da permanente tensão entre as superpotências, com as sobrevivências dos dois lados tornadas dependentes de gatilhos muito sensíveis. Além dessa quase-platitude, há uma noção que o grande público às vezes não pega (mas tampouco os analistas esquecem): a Guerra Mundial tende a começar em um ponto próximo, mas não dentro de uma das superpotências. É sempre um Estado menor, um satélite de um lado, que é sùbitamente ameaçado ou invadido pelo outro lado. O primeiro, perdendo o território de amortecimento em seu entorno e naturalmente se percebendo acuado, ataca preventivamente com uma ogiva nuclear tática, localizada; e o precedente leva a uma imediata multiplicação de ataques nucleares de gravidade crescente, até a aniquilação. O mundo torna-se mais radioativo e a guerra é realmente bem curta, mesmo que ainda haja remanescentes dos países que a iniciam.

Então, quem passou a vida lendo sobre esses cenários chega a 2014 e se depara com quê? Com a Rússia atrás de qualquer pretexto para incorporar a Crimeia a seu território enquanto soldados russos ocupam postos estratégicos (militares ou não) na península e, do outro lado, os Estados Unidos enviam 6 F-15C de Lakenheath para defender o céu lituano (no que, aliás, não há qualquer novidade, pois faz anos que os países da OTAN se revezam para compor a força de caças no patrulhamento daquele pequeno espaço aéreo) e 12 F-16C de Aviano para desembainhar suas espadas na Polônia (onde, aí sim, há novidade). Cabe lembrar que, vinte anos após o fim da Guerra Fria, a OTAN cresceu e alguns países que compunham o Pacto de Varsóvia — notàvelmente a Polônia — agora fazem parte da OTAN. A Alemanha Oriental, fronteira do Pacto, foi absorvida para dentro da OTAN; a Lituânia também, ela que era parte da URSS. Então, vejam que o território sob domínio soviético encolheu, e a Crimeia pode ser interpretada como uma área em disputa… como era a Alemanha em 1983.

Esses caras estão brincando com fogo. A Rússia não é a Coreia do Norte, onde cão que ladra não morde. Não é a Venezuela, onde a venda de petróleo aos EUA prossegue tranquila longe dos olhos do público iletrado. A Rússia é comandada por um ex-agente da KGB que não tem medo de apertar o botão.

O que eu sei é que hoje meu sono não será tranquilo.

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Então furaram seu lugar na fila? Grandesm*rda

Aconteceu comigo em 10/01/2014.

Eu estava na fila do restaurante Delírio Tropical da Rua da Assembleia, uma fila que, notória e frequentemente, estende-se por vários metros ao longo da calçada, do lado de fora do restaurante. À minha frente, duas jovens profissionais conversavam animadas. Atrás de mim, um bocado de gente, e eu já estava razoàvelmente perto da porta.

Sùbitamente, às duas moças se reuniram outras duas, furando a fila na maior cara de pau, sem olhar para trás mas tornando a conversa ainda mais animada. Pensei que tivesse sido algum engano da parte das recém-chegadas: certamente não repararam que suas companheiras de fofoca não eram as últimas da fila; certamente não haviam olhado para trás nem, portanto, notado que a fila se estendia ainda por mais de uma dúzia de pessoas.

Além disso, considerando que sempre posso ser eu o errado, preferi abordar as recém-chegadas com uma pergunta simples.

— Com licença. Vocês estavam na fila?

— Não, a gente acabou de chegar, mas elas aqui estavam esperando a gente.

— Ah, tá, entendi. Só para eu saber: são só vocês ou tem mais gente vindo? Quantos ainda vão se juntar aí a vocês na fila?

A mocinha ainda foi debochada:

— Na verdade são vinte pessoas, mas —

— É. Ó, vocês lembraram de perguntar a essa gente toda aqui atrás (indiquei o povo) se eles concordavam com isso?

— Não, mas você fique à vontade para perguntar, tá?

Evidentemente, esse final eu mereci em razão de minha pergunta. E assim não falei mais nada, e a fila seguiu, e ainda houve um terceiro canalhinha juntando-se ao grupo das patricinhas furadoras de fila.

A primeira constatação é que eu fui um frouxo e um covarde, que deixei isso acontecer. A segunda é que eu fui um otário. Ambas estão corretíssimas — afinal é isso mesmo — e predominam sobre qualquer outra percepção que se tenha. O que é que eu esperava: que, com minha mera reclamação, baseada apenas na voz e desacompanhada de uma arma de fogo como estava, elas caíssem em si e fossem lá para trás? Ora, faça-me o favor. Então, passados dois dias, vamos a outras observações menos evidentes.

Atentemos à apresentação sócio-econômico-etária das cinco moças. Existe um estereótipo no qual se enquadram à perfeição, que é o de patricinhas entitled: moças crescidas em um ambiente onde ninguém nunca lhes negou nada (tripla negativa equivale a negativa única, certo?). O mundo sempre teve o dever de servir-lhes, dobrando-se diante de seus caprichos. Se a professora lhes dava nota baixa, lá estava Mamãe no dia seguinte, a exigir da diretora que corrigisse o abuso. Consequentemente, sempre tiveram direitos e nenhum dever. Nunca alguém lhes apresentou o conceito de fila, ou de direitos alheios: em face delas, ninguém tem direitos, pois todos devem render-se aos delas. O mundo é um passeio no parque onde têm automático direito a tempo bom e estão livres para defecarem no prato de comida dos outros.

Consequentemente, as patricinhas entitled não percebem que estão erradas ao furar a fila do Delírio Tropical na Rua da Assembleia. Na óptica delas — genuína! –, eu é que estou errado em interpelá-las, como se tivesse algo a reclamar por ocuparem o espaço que é delas por direito.

Outras observações podem ser feitas. Já não é a primeira vez que vejo isso. Nos últimos anos, tenho notado que, nos Delírios da Rua da Assembleia e da Rua do Rosário, é muito comum que mulheres estejam na fila e, sùbitamente, suas amigas venham juntar-se a elas, dobrando ou triplicando o grupo enquanto outras pessoas, atrás na fila, aceitam passìvamente a penetração de seus direitos.

Notem que eu digo isso mas não agi diferente: apesar da intervenção rabugenta, nada fiz de efetivo que defendesse minha posição. Tentei resistir na boa fé e me deparei com o reforço da ousadia: furamos a fila sim, e daí? O confronto e meu fracasso me fazem pensar se, na verdade, quem estava ali violando direitos não era eu: aparentemente, em matéria de fila do Delírio Tropical, o costume, jurìdicamente já assentado, é que mulheres esperem outras mulheres na fila e as recém-chegadas se incorporem à fila, sem qualquer consideração ao número de pessoas para trás. Pelo que estou entendendo, isso não se considera “furar fila”: é assim que funciona. (Até essa sexta, eu só havia visto mulheres fazendo isso. Foi a primeira vez que vi um homem aderindo à prática, que eu já estava considerando exclusivamente feminina. So much for sexismo.) Eu é que era um misantrópico perturbador da paz, querendo mudar a regra.

Também estive pensando em minhas alternativas. O que mais eu poderia ter feito: obrigado as recém-chegadas a irem lá para trás, na marra, em desforço necessário passível de enquadramento no Código Penal, artigo 345? E como fazer isso sem perder o lugar na fila? Deveria armar um barraco, iniciar uma gritaria que só poderia terminar com a minha remoção do lugar? Deveria chamar o vigilante do restaurante, o gerente? Nenhum dos dois tem qualquer responsabilidade sobre a fila. Deveria ligar 190, chamar o guarda? Boa sorte diante do silêncio (na melhor hipótese), da risada (na hipótese piorzinha) ou da acusação (justa) de tomar o tempo da autoridade com besteira, seguida de prisão em flagrante. Deveria alardear a quem estivesse atrás de mim, “estão furando a fila de vocês”? Isso seria a injusta terceirização do meu problema e um reforço da minha fraqueza, ou da do meu direito, que precisa do socorro dos outros para se afirmar.

Sejamos realistas: não havia NADA que eu pudesse ter feito, em termos práticos, que pudesse fazer valer meu lugar na fila. Tão cedo quanto eu perceba isso, tanto menor será o prejuízo. No momento em que as invasoras chegaram, deveria estar nítido para mim — desde cedo, desde antes — que o lugar era mesmo delas e que, portanto, delas era o direito de fazerem o que quisessem.

Aliás é cabível discutir que “problema” é esse de que falei aí em cima. Eu venho repetindo, já faz um tempo, que todos — TODOS — os males da humanidade decorrem do ego. Todas as guerras, todas as brigas e pecados, todas as frustrações, crimes e punições. Esse caso não foi exceção. Notem que fui o único integrante da fila a se importar com o furo das patricinhas, como se tivesse um grande direito, ó que importante, eu o centro do mundo, tendo meu espaço invadido. Acusei as patricinhas de atropelarem direitos alheios como se delas fossem, em total desconsideração, e ora veja, quem está se atribuindo demasiada importância sou eu, não elas. Eu é que estou aqui, tomando seu tempo de leitura com minhas insatisfações, enquanto elas estão por aí, usufruindo o serviço que o mundo lhes traz, todas pimponas.

Os praticantes do zen dirão que é uma questão de apego, ou de perdê-lo. Que estou me prendendo à agressão que sofri no meu passado, em um momento que, quanto mais se afasta de mim no tempo, mais cresce em minha memória em vez de diminuir, como devia. Que só me vejo agredido porque ainda insisto em me dar importância, com um ego ainda mais exagerado do que o delas. Que esses são os fantasmas que vão me corroendo e que um dia ainda vão me matar. Que eu devia deixar correr frouxo, que a longo prazo nada sofri, ainda consegui almoçar e voltar para o trabalho e agora estou aqui, e que eu é que estou errado em ficar remoendo essa história. E aliás não é a primeira que me acontece; já houve outra há uns meses, em outro estabelecimento, e não foi envolvendo fila, nem vou contar aqui qual foi.

Tudo isso pode ser. A sensação de ter sido lesado não vai embora, e é fácil falar tudo isso sobre ego versus zen quando não foi no calo do Mestre Yoda que pisaram mas no meu. Só que é verdade que há problemas muito mais graves no mundo; há fome na África, há presos políticos na China, há esgoto a céu aberto na maior parte do Brasil e da Índia, e aquecimento global e desmatamento e AIDS e corrupção. Diante de tudo isso, desaparece meu pseudoproblema, que é no mínimo ridículo.

Ao mesmo tempo, não posso deixar de reparar neste detalhe que acabei de mencionar: corrupção. As distintas senhorinhas certamente se julgavam em seu lugar natural, fila não vale para elas, e é exatamente aí que mora um dos vícios estruturais da sociedade brasileira. A invasão que sofri, tòpicamente, empalidece diante de sua causa, muito maior, que é a falta de uma visão cívica. Elas tomam o lugar dos outros na fila porque isso é o natural na sociedade brasileira, onde ninguém realmente tem direitos. Nem os ricos: eles de fato têm mais poder, e exercem esse poder e fazem valer seus desejos, mas nem eles nem os pobres têm direitos; as relações são meramente de força. Então, as jovenzinhas são exatamente as mesmas — as mesmas! — que fizeram passeata em junho do ano passado, exigindo o fim da corrupção, exigindo vergonha na cara, cansadas de serem pisoteadas pelos políticos e pleiteando educação e hospital público e enxovalhando os condenados do Mensalão… E agora não veem nada de errado em se enfiarem na fila alheia, em absoluta cegueira ao fato de que estão jogando para trás quem já tinha chegado antes.

… Não, não, eu me engano. É claro que elas repararam que havia mais gente. É justamente aí que está o exercício da função de patricinha entitled: só faz sentido, e só tem graça, quando já havia alguéns na fila. Senão não adianta. Não é que não percebam que prejudicam outras quinze ou vinte pessoas. É que isso não faz a menor diferença para elas. Elas são patricinhas entitled e entram onde quiserem.

Nada disso impede o fato de que este texto é a ruminação de um ego ferido, trabalhando o luto de sua dignidade. Eu poderia ser uma alma iluminada, transcendendo a ofensa, perdoando as ignorantes e percebendo que, a longo prazo, são pessoas infelizes, que vivem agressivamente e portanto se desgastam. Poderia construir uma ilusão de que, naquilo que importa na vida, eu já estivesse em melhor condição e tivesse mais curtição do que elas, “para que se importar com a fila se você tem mais qualidade de vida do que elas, coitadas?” Mas não é nada disso. Na verdade, não querendo mentir para mim mesmo e sabendo que wishful thinking não beneficia ninguém, sei muito bem que são, sim, pessoas mais tranquilas, mais resolvidas, com melhor conforto, mais e melhor entretenimento, melhor administração do tempo, com futuro financeiro já assegurado, sem nenhuma razão para qualquer dos temores ou incertezas que me afligem. É precisamente em razão de terem tudo isso, de estarem alguns degraus acima na escada social, que elas podem escolher o lugar que quiserem na fila que quiserem.

Então, se algum proveito essa experiência pode me dar, é que eu posso continuar na ilusão de um mundinho ordenadinho onde meu ego é preservado, ou posso largar a infância e vir ao mundo real das pessoas adultas, onde claramente ainda não sei agir mas onde claramente uma das medidas necessárias é passar por cima do cidadão ao lado. E onde, por enquanto e até onde enxergo adiante, o meu lugar é deixando que as patricinhas entitled tomem a frente. Eu tenho que saber o meu lugar. Se eu quiser começar a melhorar de vida, deveria já começar, isto sim, a seguir o exemplo delas. O primeiro passo para ser aceito como aprendiz e sonhar em ser aceito como um igual é reconhecer a própria ignorância e se render à regra verdadeira.

E não ficar alimentando um ódio que intensamente deseja que, onde quer que estejam, aquelas cinco patricinhas morram cruel, lenta e sangrentamente, em dor e desespero, como estou desejando agora.*

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* É sério. Nem Premonição atenderia, porque morte súbita não dói. Tá mais pra Jogos Mortais.

Microconto de Berlim

Tudo isto eu vi

O ônibus parou em frente à atração turística.

De dentro saíram milhares de japoneses, uma parada militar de saúvas, todos ostentando câmeras, todas alinhadas a laser na mesma direção, o mesmo objeto, o mesmo olhar. Alguns astrônomos cogitaram de usar o resultado para interferometria, até que alguém observou que os comprimentos de onda visíveis requeriam uma separação microscópica entre os CCDs.

Feitas as fotos do monumento, os japoneses iniciaram uma estranha coreografia, onde, com coordenação impecável, conseguiram fotografar uns aos outros em todas as combinações possíveis, sem repetição.

Então voltaram para dentro do veículo, com tanta ordem e celeridade quanto houvera em sua chegada.

Naquela noite, derrubaram o servidor do Flickr.

Genesis, surpresas e memórias

Comecei a gostar de Genesis no início dos anos 90, ou por aí. Provàvelmente em 1989. Na época, as músicas da banda com que eu tinha contato eram as que tocavam no rádio: That’s All, publicada no álbum Genesis, de 1983; In Too Deep, Throwing It All Away e Invisible Touch, do álbum Invisible Touch, de 1986; Follow You Follow Me, de …And Then There Were Three…, de 1978; e No Reply At All, de Abacab, 1981. Em todas essas, o vocalista era Phil Collins, que também fazia muito sucesso em sua carreira solo.

Um dia, meu colega Luiz Otávio me contou que o cantor Peter Gabriel havia sido integrante do Genesis muito tempo antes. Claro que isso não fazia o menor sentido para mim. Como assim?!? Eu nunca havia ouvido nada com Peter Gabriel, que era conhecido pelo recente sucesso Sledgehammer.

Mais tarde, na casa do meu tio, encontrei uma coleção de LPs lá dos anos 70. Títulos como Nursery Cryme, Foxtrot e Selling England By the Pound. Todos do Genesis, mas era muito estranho! As capas não tinham nada a ver com a apresentação visual que eu conhecia, as músicas eram muito diferentes, não parecia haver qualquer relação entre o estilo quase orquestral dessas antigas gravações e o rock técnico a que estava habituado, e duas constatações eram inacreditáveis para mim: uma, que a voz não era de Phil Collins (quem era então?); outra, que os álbuns eram incrìvelmente velhos: como assim, anos 70??

Não era possível — havia toda uma carreira de mais de dez anos do Genesis que era pré-existente (é assim que se escreve agora?) …pré-existente a tudo que eu conhecia, como se fizesse parte de alguma história oculta, algum universo paralelo que emergia em minha realidade…

Naturalmente, eram tempos anteriores à Internet. Tudo que se viesse a saber era uma descoberta surpreendente, eram tesouros súbitos, eram revelações. História do rock não era o tipo do assunto sobre o qual você encontrasse livros em qualquer biblioteca, e mesmo aquilo que encontrávamos era muito fragmentário. Ainda estavam muito distantes no futuro os grandes trabalhos de pesquisa do início da Web e os agregados de factóides da Web 2.0.

Hoje tenho 23 anos de ouvinte de Genesis. Acostumado a ouvir e reouvir os álbuns mais antigos, conhecedor da história e da carreira do grupo, às vezes me esqueço de como era o tempo em que eu não sabia nada, em que tudo era uma grande novidade, em que cada novo disco comprado era uma exploração.

Na verdade, assim a gente vai progredindo na vida com tudo mais. Chega um ponto em que você já domina determinado assunto, o que é inevitável quando esse assunto apaixona. Com o tempo, perde-se a perspectiva que se tinha no início, quando tudo era território inexplorado. Porém ainda ficam as memórias daquele deslumbramento inicial, e são memórias que se guardam com especial afetividade, em um lugar reservado da história pessoal, sempre vivo, seguro e preservado.

E passamos a novas explorações, que não se pode ficar estático, nem se pode para sempre perder aquele senso de descortinamento de um universo à espera. Novos assuntos nos ocupam, novos aprendizados. E no entanto levamos conosco aquela velha amizade, que sempre nos pode confortar pelo caminho, daquilo que um dia viemos a dominar e que hoje faz parte de nós.

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A Serra Gaúcha e o limite de número de garrafas

Em 2007, entrou em vigor uma norma internacional que limita o transporte de líquidos na bagagem de mão: somente embalagens de até 100 ml, dentro de um saco plástico de até um litro. Segundo a formulação original, essa norma só se aplica a voos internacionais, mas já a vi aplicada a voos domésticos no Brasil, o que não sei se é legal mas vou presumir que seja.

Pois bem. Atente a isto: para voos domésticos partindo do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, neste ano de 2012, você não pode incluir bebidas na bagagem despachada, e sua bagagem de mão só pode conter até cinco garrafas de até um litro cada uma. Essa segunda regra faz sentido em razão do limite de 5 kg da ANAC para a bagagem de mão, mas a primeira é uma completa novidade para mim, e não encontrei orientação sobre ela no saite da ANAC.

Não adianta espernear, e é melhor conhecer as regras de antemão. Não sei se a proibição quanto à bagagem despachada é sòmente para garrafas de vidro, mas sei o que vi: a moça do checkin perguntou se eu tinha bebidas nessa bagagem; e a moça do raio X viu que havia duas garrafas na bagagem de mão e pediu para vê-las em detalhe. Vendo-as, deteve-se no volume relatado pelos rótulos.

Aparentemente, a regra que limita a bagagem despachada é da Infraero. Não a vi sendo praticada em Curitiba nem no Rio, de modo que presumo que seja específica de Porto Alegre. Não vi divulgação em nenhum lugar; você só fica sabendo dela no ato do checkin. Vi pessoas com caixas de seis garrafas de vinho; não sei como fizeram para embarcarem, já que tampouco poderiam levá-las na mão.

As razões podem ser várias, mas só nos cabe especular. Uma possibilidade é que os carregadores de bagagem, com a gentileza que lhes é peculiar, tenham arremessado algu’a mala e inevitàvelmente quebrado as garrafas que estavam soltas ali dentro. Certamente o proprietário da mala não deve ter tomado nenhum cuidado de acolchoar e isolar o conteúdo, recebeu um monte de cacos e manchas de vinho na esteira ao fim da viagem e entrou com ação em face da Infraero, que deve ter sido condenada. A empresa deve ter imposto a regra a fim de evitar novos danos: “ah, é, eu sou responsável? Então, se sou responsável, ninguém mais pode levar garrafa nenhuma na bagagem, pronto” — no que não estaria de todo errada. Se alguém é responsável por alguma coisa, a esse alguém deve ser reconhecido o poder de impedir essa coisa.

Junte-se a isso o limite de 5 kg na bagagem de mão. Como o vinho tem densidade pràticamente igual à da água, quem levar cinco garrafas de um litro estará certamente violando o limite de peso (não se esqueça do peso do vidro). Daí a implicação mais refinada da regra da bagagem despachada: você tem pouca alternativa.

Não deve ser coincidência com o fato de que os brasileiros viajam cada vez mais de avião e cada vez mais vão à Serra Gaúcha, de lá trazendo bonsdrink. Ora, o vinho é o produto mais famoso daquela região e um dos que mais motivam o turismo por lá. Assim, a nova norma aeroportuária é uma boa forma de coibir o comércio de vinhos do Rio Grande do Sul para turistas, induzindo às vendas por atacado, que seguem por caminhão. Isso vai ser particularmente interessante por ocasião do Natal: em Gramado, essa temporada é tão importante quanto o inverno, e aumentam as vendas no comércio local.

A consequência prática é que ninguém pode trazer mais do que cinco garrafas de vinho da Serra Gaúcha se pretende voltar para casa de avião. Faz TODO o sentido, especialmente se só se avisarem os compradores sobre a bagagem despachada quando estiverem fazendo checkin.

Pelo menos, é o que eu faria, porque assim é muito mais divertido.

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A divisão de classes em tempos de crise

O conteúdo deste vídeo é uma constatação a que eu já havia chegado independentemente, por observação dos aviões, dos anúncios, dos websites e das notícias.

http://live.wsj.com/video/say-goodbye-to-first-class-on-us-airlines/3A3215ED-F2DC-42CD-840F-AB06C6D2B055.html?mod=wsj_blog_tboleft#!3A3215ED-F2DC-42CD-840F-AB06C6D2B055

Em síntese: as companhias aéreas estão deixando de operar a primeira classe. O motivo é a falta de procura. Os passageiros pagantes simplesmente não estão interessados em pagar o dobro da executiva, considerando que a primeira classe não oferece vantagem significativa sobre uma executiva que já é bem confortável, aparelhada e luxuosa. E os não pagantes, usando milhas, são três quartos dos que voam na primeira classe. Consequência: a primeira classe deixou de ser rentável.

As companhias aéreas criaram os programas de milhagem e, com isso, entraram em um caminho sem volta: graças à concorrência, nenhuma delas ousa deixar de manter seu programa. Tendo que cumpri-los, veem-se vítimas de seus próprios esquemas, porque a primeira classe acabou invadida pelos não pagantes e elas ficaram presas com isso. A solução? Extinguir a primeira classe: transformar esses assentos em executiva e, assim, passar a extrair dinheiro deles.

Além disso, o passageiro que tem um pouco mais de dinheiro e quer fugir da econômica, esse passageiro contenta-se com uma classe que surgiu há não mais do que cinco anos: a “econômica premium”, ou “econômica plus“. O tráfego aéreo está bem maior do que há vinte anos, e os aviões estão maiores também: veja o surgimento do mastodôntico A380, do recém-lançado 747-8I, do 777, do A340 (esses dois, inclusive, em versões mais longas, o 777-300 e o A340-600). Veja como as versões recentes do 737, que é um avião de curto alcance, têm pràticamente a capacidade dos 707 intercontinentais de há cinquenta anos; veja como os jatos regionais de cem lugares substituíram os turboélices de cinquenta. Há mais gente viajando e a passagem econômica ficou mais acessível. Com isso, as pessoas mais afluentes dentre essas da econômica acabam migrando para a econômica plus.

Assim, gradual (mas ràpida) mente, deixa de existir o trio primeira-executiva-econômica e passa a haver o trio executiva-econômica(plus)-econômica. No geral, que vemos? Afora os nomes, uma redução na qualidade oferecida nas duas classes superiores. Mas também um aumento de receita para a empresa aérea: o passageiro deixa de viajar na primeira classe (onde não pagaria) e passa a viajar na executiva (onde paga e, além disso, o custo é um pouco menor). Outros passam a viajar na econômica plus, onde há pouco acréscimo de qualidade mas o preço é 50% maior — tal como na executiva de bem antigamente.

A matéria fala de empresas americanas, mas veja só: em 2010, viajei à Inglaterra. Em um voo intercontinental como era aquele, NÃO HAVIA primeira classe; nem na ida nem na volta. O mais luxuoso que havia eram cerca de trinta lugares de executiva.

Claramente isso é uma consequência da crise financeira mundial, porque começou a acontecer aproximadamente em 2008, justamente um ano após o início das quebras de grandes bancos e do encolhimento das economias.

Mas não nos queixemos: como diz o analista do vídeo, em TODAS as classes que permanecem o conforto e o serviço estão muito mais evoluídos do que há quinze anos (ele disse dez, mas divirjo). Realmente, na executiva os assentos passaram a descer até a horizontal e a ter mais privacidade do que tinha a primeira classe de então; e o cardápio também se tornou mais variado e em pratos de porcelana, tal como era na primeira classe. Enquanto isso, na econômica, já faz uns cinco anos que cada passageiro tem sua própria tela de TV — algo que, há quinze anos, só existia da executiva para cima. Na econômica também passou a haver muito mais canais de áudio e vídeo dos quais escolher, e outras vantagens vieram também. Por sinal que os canais de áudio e vídeo são benefícios da econômica atual que não existiam nem na primeira classe daqueles tempos.

Tudo graças à concorrência, que se torna mais acirrada em tempos de crise.

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De ilusões de óptica

Na minha adolescência, muito ouvi meu pai se queixar de um colega de trabalho, que supostamente era arrogante e inflexível. Após meses e anos ouvindo os resmungos, houve uma curta transição após a qual meu pai reconheceu que, afinal de contas, o colega não era tão arrogante ou inflexível assim; que tinha havido uma falha de comunicação todo esse tempo e que o colega até tinha virtudes e dificuldades com as quais ele se solidarizava.

Disso retive a lição de que não temos que fazer para sempre a mesma imagem das pessoas próximas. Que, mesmo que elas não mudem, ainda podemos mudar nossa percepção sobre elas. Que, às vezes, a distorção (se for distorção) está em nossos olhos, não no objeto observado.

Na vila onde eu morava, sempre tive certa impressão do proprietário de uma das casas: parecia-me agressivo, prepotente e precipitado. Um dia, foi necessário reunir-me com ele em razão de questões exclusivas da vila. Eu, que nunca conversara com ele, fui tratado com educação. Comigo não foi agressivo nem prepotente, nem me pareceu precipitado.

Em outra história, não relacionada, era uma vez o General Guilherme, comandante da 1a. Divisão de Exército em meados dos anos 90. Jogue o nome “General Guilherme” no Google e o autocompletamento já segue com “… toquinho da maldade” — que era o apelido como era conhecido, e tão comum que foi parar no autocompletamento do Google. Na Vila Militar, todos o temiam e dali se espalhou sua fama de implacável, de que punia a todos por tudo, de que mandava prender e punha ordem etc. Vários anos depois, ouvi de um colega, que serviu sob seu comando, que o Gen Guilherme era apenas um militar que cumpria o regulamento, não mais rigoroso do que as previsões normativas. Mas que as pessoas sempre estão erradas e sabem que estão, então o temiam. E que quem andasse na linha não tinha o que temer.

Não sei qual versão é verdadeira, se é que alguma. Mas a lição aqui foi outra: a de que, toda vez que escuto que alguém em alto cargo é intolerante, rigoroso ou trovejante, tenho que interpretar que, na verdade, a pessoa age certo e quer que seus subordinados ajam certo. Atentar para os fatos de que, na maioria das vezes, as pessoas são preguiçosas, negligentes, acomodadas, indispostas a aprender, fazem corpo mole e carecem de iniciativa; e de que reagem à chefia que não tolera esses vícios. Então, sempre que ouço acusarem a diretora de que é exageradamente durona, eu, que nunca a encontrei, desconfio fortemente do que escuto, porque a impressão está sempre vindo de terceiros, e as pessoas são falhas; só terei uma impressão fidedigna quando EU mesmo a tiver. E, em princípio, cresce minha admiração por ela, e mais a respeito — quer dizer, a mensagem acaba funcionando ao contrário.

Tudo isso me confirma a lição que meu pai me transmitiu e vai além: em princípio, não é para pressupormos nada a respeito das pessoas com quem lidamos. Você sofre por antecipação (ou se decepciona, dependendo do caso) desnecessàriamente.

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Breogan, um restaurante galego em Bariloche

Antes de viajar à Escócia em 2008, pesquisei um bocado sobre os celtas. O povo celta ainda existe miscigenado como parte dos povos da Europa Ocidental, mas sua cultura foi bastante sufocada e diluída desde as invasões germânicas a partir do século V. Em consequência, não são muitos os lugares onde se falam línguas derivadas das antigas línguas celtas.

Não são muitos, mas são notáveis. Hoje em dia, os exemplos mais marcantes de culturas celtas são a Irlanda (onde ainda se fala Gaeilge, gaélico irlandês), as Terras Altas da Escócia (onde se fala Gàidhlig, gaélico escocês), a Ilha de Man (onde se fala Gaelg, gaélico de Man), Gales (onde se fala galês), Cornualha (onde se fala córnico), Bretanha (península da França, não confundir com a Grã-Bretanha), e Galícia, na Espanha, onde se fala galego. Observe que todas essas localidades são extremidades ocidentais de territórios tomados por tribos germânicas.

(Você notou a recorrência de certos fonemas? A Escócia era chamada de “Caledônia” pelos romanos. Caledônia, gaélico, Gales, Galícia, Gália (território celta onde hoje é a França). E tem a Galácia, a mesma da Epístola de Paulo aos Gálatas, também celtas. Isso não é coincidência. Os celtas adoravam divindades femininas da fertilidade que eram avatares da terra e das florestas; uma delas era a deusa-mãe Caillaech ou Calleach, cujo nome teria originado todos esses nomes de povos celtas começando com “cal-” ou “gal-“. Mais sobre isso aqui: http://usuarios.multimania.es/Celtic_Galiza/origin.html

Por outro lado, todas as fontes dizem que o nome de Gales vem do germânico “wehlas”, que não se relaciona a essa etimologia. Além disso, as páginas da Wikipedia apontam para uma complexidade muito maior na origem dos vários nomes de povos celtas, que teriam convergido para uma semelhança sem terem partido de uma origem comum. Então fica esse contraponto, mostrando que não necessariamente todas essas palavras eram uma só.)

As línguas celtas têm uma certa sonoridade que é perfeitamente reconhecível, mesmo que você não as entenda. Por exemplo, têm encontros consonantais com R como os nossos, em português: BRasil, CRime, PRoGResso, TRanquilo. Também tendem a ter ditongo, como EO, EA. Finalmente, há muitos casos de palavras terminadas com G ou com CH.

Então, no domingo, 22 de maio de 2011, caminhando pela avenida San Martín, em Bariloche, deparamo-nos com o cartaz do restaurante Breogan. Em razão da pesquisa que eu fizera em 2008 e que comentei acima, imediatamente percebemos que o nome “Breogan” era vigorosamente celta. Dito e feito: o estabelecimento anunciava comida galega e comida espanhola.

(Atenção: eu disse “comida galega”. Nunca chame de espanhol a um galego, a um catalão ou a um basco. Várias culturas regionais da Península Ibérica foram sufocadas pela formação do Estado nacional centralizador da Espanha a partir do século XV e até a época do Generalíssimo Franco, mas o sangue delas ainda é quente. Então, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Embora hoje a Galícia, a Catalunha e o país basco façam parte da Espanha, as culturas tradicionais galega, catalã e basca não são a cultura tradicional espanhola.)

Imediatamente determinamos que TÍNHAMOS que jantar no Breogan antes do fim da viagem. Então, na noite de terça, 24/05, fazia um frio desgraçado (como, aliás, por toda a semana) quando lá entramos e logo o ambiente nos aqueceu. Não apenas pela temperatura, mas porque estava cheio (destoando dos outros e vazios restaurantes de Bariloche) e as cores internas puxavam para amarelo e marrom.

Não foi difícil conseguir mesa. Enquanto escolhíamos os pratos, chamou-nos atenção a decoração, espanhola na sua pujança: as paredes estavam forradas de cartazes, fotografias, cartões postais, flâmulas, leques e outros adereços remontando à Espanha. No cardápio, vários pratos espanhóis além das especialidades locais. Os pratos galegos eram de frutos do mar, quase todos com mexilhões, que não posso comer (mas recomendo o polvo à galega, uma delícia grelhada com batatas, azeite e açafrão, que por duas vezes comemos na Espanha; não conheço o do Breogan). Como estávamos longe do mar, preferimos alguma coisa menos ambiciosa. Quando fomos atendidos por um garçom cheio de serviço mas prestativo, pedimos um cervo com cogumelos do Sul (56 pesos) e um salmão ao champanha (51 pesos). Uma cerveja local (17 pesos) completou o pedido.

O cervo e o salmão estavam excelentes, mas foi depois disso que a noite ficou mais pitoresca. Bariloche está a menos de cem quilômetros do Chile, de modo que, como o cardápio mencionava pisco sour (19 pesos), não pude deixar de pedir um. Como é feito com pisco e a dose seria de uns 200 ml, pedi ao garçom que o fizesse fraquinho, e deu vontade de pedir outro e mais outro até não conseguir mais levantar. O cardápio tinha outro item que aguçou nossa curiosidade: a queimada. Quando perguntei por ela, o garçom explicou que era feita com grappa, açúcar, laranja e café. Tentador, não?

Antes de irmos embora, Esposa quis fotografar os fundos do restaurante, então aproveitei para elogiar a comida ao jovem proprietário Santiago, e ocorreu-me perguntar-lhe o porquê do nome “Breogan”. Animadíssimo, ele me explicou ser esse o nome do lendário herói fundador da nação galega. Comentei genèricamente de meu interesse em cultura celta, ao que Santiago me respondeu que, na verdade, o proprietário é seu pai, galego migrado para a Argentina, que abriu o restaurante tendo o propósito de divulgar essa cultura. Nisso enfrentou alguns desafios, como, por exemplo, na receita da queimada (que, segundo a explicação do jovem, consiste em rum, raspa de laranja, raspa de limão, café e açúcar). Aprendi que, tradicionalmente, o processo de elaboração dessa bebida requer a pronúncia de um conjuro, que já estava esquecido. Então, naquele tempo em que não havia Internet, o fundador do restaurante escreveu a sua família na Galícia, pedindo-lhes o texto do conjuro, que hoje adorna uma das paredes do estabelecimento. Santiago deu-me algumas folhas xerocadas, com a história do nome “Breogan” e o conjuro.

O galego é uma língua muito parecida com português antigo. Você até consegue ler sem dificuldade, não é mesmo? Isso, naturalmente, é porque as duas eram uma só língua até o século XII. Mesmo após o início da divergência, é de se notar que Portugal e Galícia sempre foram vizinhos. O próprio nome “Portugal” vem do latim “Portus Cale”, ou seja, “porto de celtas”, que era a referência dos romanos à cidade portuguesa que hoje se chama “Porto” e que fica bem perto da Galícia.

A ideia da queimada não nos saiu da cabeça. Por isso, na noite de sexta-feira, 27/05, o frio continuado foi apenas a desculpa necessária para voltarmos ao Breogan embora não tivéssemos fome suficiente para jantar. O lugar estava ainda mais cheio, e percebemos, pela atitude de algumas pessoas, que muitas eram prováveis habitués (espanhóis saudosos?). Mas também havia turistas anglófonos.

Qual não foi nossa decepção ao descobrirmos que a porção mínima de queimada seria de meio litro. Imagine você tomar meio litro de destilado alcoólico quase puro! Tivemos que desistir, mas, como prêmio de consolação, o garçom nos trouxe um licor de autoria da casa, à base de ervas. Absolutamente perfeito.

Para comer, pedimos só uma sopa de vegetais (20 pesos) e uma empanada de queijo e presunto (7 pesos). A sopa foi a única fibra que comemos a semana toda e estava bem feita, parecida com um minestrone só que sem o macarrão. Já a empanada, que é simplesmente um pastel, tem sobre os pastéis brasileiros a imensa vantagem de vir com muito recheio em vez de vento. Alimenta de verdade.

Na sequência, pedimos uma crema catalana (19 pesos). Essa sobremesa lembra uma cremogema com cobertura de caramelo e já a havíamos provado em Valencia em 2008. Só que, no Breogan, a receita inclui uma porção generosa de caramelo, canela e biscoito Champagne e, o melhor de tudo, estava temperada com uma raspa de limão que dá vontade de comer esse negócio até estourar.

Antes de irmos embora, o garçom veio nos avisar que uma queimada seria feita para uma das mesas e que ficássemos para observar o uso do conjuro. Depois de uma certa espera, notamos que a música ambiente havia parado. Então, entrou o tema de “parabéns pra você” em espanhol e o próprio Santiago veio com um carrinho e um pequeno tacho de cerâmica. Parou diante da mesa da aniversariante e começou a explicação sobre o contexto da queimada, contando como as pessoas se reuniam para beberem juntas e queimarem maus espíritos. É por isso que o conjuro é importante e foi nesse ponto que começamos a filmar.

Primeiro, põe-se fogo à grappa (ou ao rum que a substituir). A garotinha que estava à mesa ficou assustada com as chamas desse ponto em diante. Não sei por quê, mas a mim o fogo azul do álcool também sempre pareceu mais assustador do que o amarelo dos incêndios. De todo modo, à medida em que o preparador remexia com a concha e levantava o rum, era belíssimo como um halo azul circundava a cascata incendiada que se formava.

Na sequência, foram adicionados café, aquele licor de ervas da casa, e pedaços de casca de laranja. O fogo reclamava de cada ingrediente, levantando-se e mudando de cor, até que foi sumindo à medida em que o álcool era consumido e diminuía sua participação na solução aquosa para além da capacidade de sustentar a queima.

Ao fim da cerimônia, ainda ganhamos um copim de queimada cada um e fizemos um brinde com o empolgado proprietário do Breogan.

V11-2084 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, restaurante Breogan, 27 de maio de 2011 - brinde com queimada

Em Bariloche, o restaurante Breogan é especializado em culinária espanhola e galega e divulga a cultura céltica da Galícia. O jovem Santiago, filho do proprietário, preparou uma queimada para uma mesa onde havia um aniversário. Explicou o significado cultural da bebida e demonstrou o modo de preparo: incendeia-se uma tigela de grappa e, enquanto se remexem as chamas para queimar bruxas e maus espíritos, recita-se o conjuro tradicional e acrescenta-se laranja e café. O resultado é excelente.

Bariloche em maio de 2011 — antes das cinzas do vulcão!

O propósito deste texto é apresentar dicas para quem cogita viajar a Bariloche depois que o vulcão liberar o espaço aéreo. Não vou simplesmente contar o que fiz nem onde estive, mas descrever o que se encontra e a que preço. É minha forma de retribuir e complementar os textos muito úteis onde pesquisei antes de viajar, com especial destaque para os do Ricardo Freire, do Viaje na Viagem, e para este tópico aqui, do Mochileiros.com.

Este ano estava cheio de compromissos na época das férias, de modo que, se eu reservasse (ou, pior, pagasse) qualquer viagem com antecedência, seria grande o risco de ter que desmarcar. Por isso não programei nada. No fim de abril, já não havia vagas nos resorts do Nordeste, e passagens para a Europa estariam muito caras em razão das apenas três semanas de antecedência. Então me ocorreu: todos dizem que a Argentina está barata para brasileiros, e Bariloche já devia estar mais fria na segunda metade do outono.

O suposto baixo custo também nos atraiu. De fato, nos dias em que lá estivemos, vendemos reais por 2,40 pesos, com as favoráveis consequências que aponto adiante.

Não gosto de montar viagem com trechos diferentes voados por empresas diferentes. Por isso procurei passagem para Bariloche pela Gol e pela TAM, mas só Aerolineas e LAN Chile tinham voos inteiramente próprios saindo do Rio, a primeira delas com conexão em Buenos Aires, até Bariloche. (A vantagem de fazer os dois trechos numa companhia só é que, em caso de atraso na conexão, a companhia responsável pelo segundo voo não pode alegar que seu atraso no primeiro não é culpa dela. Não pode a do primeiro voo alegar dificuldade de te alocar no segundo, nem a do segundo se isentar de responsabilidade. Uma teoria que me parece muito prática, mas confesso que nunca tive que testá-la. Quem tiver algum exemplo ou contra-exemplo, agradeço que comente a seguir.)

Buenos Aires tem dois aeroportos: Ezeiza — grande, usado por 747 e A340, como se vê no Google Earth — e o Aeroparque Jorge Newbery, que é bem parecido com Santos-Dumont, Congonhas e Pampulha. O Aeroparque é usado para voos regionais por bimotores a jato e turboélice, predominando a Aerolineas e sua subsidiária Austral. Ali se veem muitos A320 da TAM e da LAN (estes últimos, curiosamente, com registro LV, da Argentina, e não com registro chileno. Alguém me explica?, conforme gentilmente explicado nos comentários). Também se veem muitos MD-88 DC-9 e Embraer 190 da Austral e 737 da Aerolineas. É um aeroporto arrumado, aparentando ter recentemente passado por reforma.

V11-2363 (nome provisório) - Argentina, Buenos Aires, Aeroparque Jorge Newbery, 28 de maio de 2011 - pista - aviões

Aeroparque Jorge Newbery, Buenos Aires, 28/05/2011, 16:47 h, visto do assento 8F de um 737-700. O avião mais próximo é um Embraer 190; o do fundo, um DC-9. Desculpe o sol na cara, mas é a foto mais abrangente que tenho.

Chegando ao Aeroparque, o primeiro desaforo que ouvi em solo argentino veio de um brasileiro que, despreparado, não tinha uma reles caneta para preencher o formulário da imigração e cismou que tinha direito à minha. Um idiota.

Um hambúrguer, um peito de frango no pão francês, fritas e dois refris no Aeroparque custam 75 pesos. Um expresso duplo, 15 pesos. Pelo menos os argentinos sabem fazer café direito.

O avião da Austral que nos levou no trecho AEP-BRC era um MD-88 DC-9 mal conservado por dentro, sujo em alguns pontos e indicando a idade na medida em que meu assento tinha cinzeiro.

Nota aeronáutica: não se deixe iludir pelo nome “MD-88”. Os aviões de passageiros da McDonnell Douglas seguiam a nomenclatura DC, da antiga Douglas. No DC-9, as sucessivas versões eram DC-9-10, DC-9-20 etc., até que os últimos modelos foram batizados de DC-9-81 em diante. Comercialmente, a fabricante divulgava essas versões tardias não como DC-9-81, DC-9-82 etc., mas como MD-81, MD-82 etc. São aviões fabricados do fim dos anos 80 aos meados dos anos 90, mas, apesar da aparente mudança de nome perante o público, continuam sendo DC-9 perante as autoridades certificadoras. Para mais detalhes, http://en.wikipedia.org/wiki/McDonnell_Douglas_MD-88#Model_designation

O aeroporto de Bariloche tem apenas três portões, e, com duas fotos, cobri todo o pavimento do embarque. Pronto, o parágrafo já ficou maior do que ele. Mas, pelo menos, é muito mais arrumadinho e moderno do que aquele muquifo que é o aeroporto de Beauvais, ao norte de Paris, onde estive em 1998 e onde, com a ajuda do Monstro de Espaguete Voador, jamais hei de novamente pôr os pés.

V11-0154 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, aeroporto, 22 de maio de 2011 - desembarque

Esta é a vista de dentro de uma das pontes ao desembarcar de um DC-9 da Austral. Um frio de rachar lá fora, com a vista para oeste mostrando os Andes e a torre antiga do aeroporto. A fotografia foi feita às 15:14 h. Pronto, você já viu metade do pátio de aeronaves. A torre de controle não é a atual.

Ao reservar o hotel Panamericano, eu havia solicitado o traslado desde o aeroporto, e o hotel confirmou. Entretanto, chegando ao aeroporto, descobri que ninguém esperava por nós. Telefonando ao hotel, descobri que ninguém sabia de traslado nenhum, nem tinha como verificar. Azar o deles: pegamos uma van que cobrou 20 pesos por pessoa — resultando em 38% menos gasto do que no transporte do hotel.

O Panamericano aparece em todas as referências como um luxuoso cinco estrelas e, em todas as listagens, está acima de todos os mais de quinhentos hotéis de Bariloche, ressalvados apenas outros dois. Novamente, não se engane: certamente é limpo e confortável, com quartos espaçosos, um café da manhã bem farto e variado e um atendimento prestativo 24/7, mas, de cinco estrelas, só tem a entrada suntuosa. Enfim, a 620 pesos de diária, minha única queixa é uma lâmpada queimada no quarto.

Bariloche está diante do magnífico lago Nahuel Huapi, então naturalmente você quer um quarto com vista. Isso certamente o Panamericano oferece, assim como um sem-número de outros hotéis. Porém a cidade está construída em um declive, com avenidas paralelas ao lago e ruas transversais em ladeira. Os hotéis estão nas avenidas. Das de cima (Elflein, Mitre, Moreno e San Martín), quem chega à janela tem os quarteirões abaixo em primeiro plano antes do lago, como vimos do Panamericano, que fica na San Martín.

V11-0173 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, 22 de maio de 2011 - lago Nahuel Huapi

Este é o lado esquerdo da vista do sétimo andar do hotel Panamericano, na avenida San Martín, às 17:01 h.

V11-0174 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, 22 de maio de 2011 - lago Nahuel Huapi

Este é o lado direito da vista do sétimo andar do hotel Panamericano, na avenida San Martín, às 17:01 h. À direita, a passarela sobre a rua e o cassino são parte do hotel. Ao fundo, acabam os Andes e as nuvens e começa a Patagônia. Perdoe-me o arranjo esquisito da página, mas é que esta M*RDA de WordPress não obedece quando se tenta pôr as fotos uma ao lado da outra nem, às 01:55 da manhã, tenho saco de fazer a colagem eu mesmo. Vai assim.

Para ver só o lago, as montanhas e o céu, é preciso dar alguns passos para trás. Para se ter sòmente a vista desobstruída do lago, o melhor é um hotel na avenida mais próxima dele (a 12 de Octubre, Bustillo ou Rosas, conforme o trecho), como, por exemplo, o Cacique Inacayal ou El Candil. Nessas horas, como sempre e especialmente ao pesquisar para viagens, Google Earth é seu amigo.

Chegamos no domingo, 22/05, e saímos no sábado, 28/05. Eu esperava que a temperatura não tivesse caído a ponto de nevar, e de fato não nevou. Mas a previsão do www.foreca.com, extraída em 20/05, era de mínimas de zero a 1 grau e máximas de 7 a 10 graus. Realmente, fazia muito frio para um carioca. À noite, òbviamente fazia mais frio, tolerável se não ventasse.

Apesar da proximidade da muito seca Patagônia, Bariloche situa-se em uma faixa bem estreita de terra cujo clima é influenciando pelos ventos úmidos que sopram do Pacífico, ultrapassam os Andes e fazem chover deste outro lado. Portanto, é um dos lugares onde mais chove na Argentina, e sempre com vento gelado descendo das montanhas a oeste. Nas duas vezes em que ventou e nas duas vezes em que choveu, o frio entrou até os ossos, os olhos ficaram secos e os pés e dedos começaram a doer.

Até que não usamos muita roupa, mas anote aí a referência: eu, que nunca me considerei friorento, vesti sobre o peito uma camisa quente, um pullover de lã irlandês (quente!) e um casaco impermeável de lã (quente). Por baixo dos jeans, uma calça térmica de tecido sintético. Dois pares de meias grossas, um gorro de lã, e luvas de couro forradas de feltro. Já a pequena Esposa precisou de cinco camadas: camiseta, blusa térmica, pullover e dois casacos, além da calça térmica por baixo dos jeans. Meias quentes, cachecol, gorro, luvas e sapato impermeável são indispensáveis. Tudo isso pode ser comprado na cidade, com preço menor do que no Brasil (graças ao câmbio favorável), variedade e qualidade adequada ao uso (aqui no Rio é raro encontrar roupa de frio digna desse nome). Como se entra e sai de ambientes aquecidos, é bom usar várias camadas de roupa em vez de só uma camisa e um casaco pesado.

Por uma questão de simplicidade, a Argentina escolheu seguir um só fuso horário, que aliás é o mesmo de Brasília. Isso é muito conveniente, mas, em Bariloche, é extremo o deslocamento da longitude local em relação à longitude referencial do fuso. Com isso, no inverno a alvorada é às nove da manhã.

O comércio frequentado por turistas está concentrado na avenida Mitre, com inúmeras lojas de roupas de frio e de chocolates, restaurantes, sorveterias e lanchonetes. Em quase todos os estabelecimentos, o atendimento foi excelente. A grande quantidade de brasileiros há de ser a causa de tantos profissionais se desdobrarem para usar palavras do português mescladas ao espanhol. Em toda parte, brasileiros só falavam português e eram prontamente atendidos. Ademais, mui peculiarmente, os argentinos pronunciam todos os LL e Y como nosso J. Difícil entender, mais difícil ainda se acostumar.

A presença brasileira também se nota pela seleção musical nas rádios, que tocam Ritchie, Djavan, Tribalistas, Adriana Calcanhoto e música baiana. Também se ouve muito pop e rock dos anos 80: Alphaville, Blondie, Chris Isaac, New Order, The Police, muito Guns N’ Roses e a predominância de Bon Jovi.

Outra peculiaridade linguística: há uma fruta de polpa rosada e suco cor-de-rosa que, em inglês, chama-se “grapefruit” e, em português, “toranja”. Seu nome científico é Citrus paradisi. Em espanhol, essa fruta chama-se “pomelo”, mas não deve ser confundida com a fruta que chamamos de “pomelo” em português, que é a Citrus grandis. Fácil lembrar, já que, no Brasil, ninguém parece saber que grapefruit tem nome em português. De todo modo, é do grapefruit/toranja/pomelo que os argentinos fazem um dos sabores do refrigerante Paso de los Toros. Azedo e pouco doce, recomendo.

As únicas exceções ao excelente e cordial atendimento que recebi em Bariloche foram as lojas de chocolates Rapa Nui e del Turista, onde o tratamento era mais industrial, impessoal e rápido em despachar. Também, com o comércio vazio (já que a temporada ainda não havia começado), os seguranças armados de ambas as lojas ficaram ostensivamente nos seguindo enquanto examinávamos os produtos. E as moças do caixa da Rapa Nui foram as únicas pessoas argentinas a me tratarem com grosseria.

Essas duas lojas são as maiores e vendem não apenas uma enorme variedade de chocolates em barra e bombons, senão também sorvetes de vários sabores leitosos (chocolate ao leite, meio amargo, com nozes, biscoito, amendoim, doce de leite, framboesa etc.) e produtos regionais, como alfajores, licores, geleias de frutas típicas da Patagônia, carnes de caça defumadas e seus patês, cogumelos locais, cervejas fortes locais e até cosméticos.

A sorveteria Jauja (esquina de Mitre com Quaglia) revelou o melhor atendimento e o sorvete mais variado e mais barato: diferentemente das outras sorveterias, apresenta sabores como banana com doce de leite, boysenberry, laranja com gengibre, calafate com leite de ovelha, sauco com maracujá, arándano (variedade de arando, mirtilo, cranberry), mascarpone com framboesa e mate queimado.

O chocolate da Jauja era mais barato do que os de cinco lojas (Jauja, del Turista, Rapa Nui, Fenoglio e Abuela Goye), saindo por 120 pesos/kg em quantidades pequenas ou 96 pesos/kg na compra acima de 250 g. Em contraste, a Rapa Nui cobra 142 pesos/kg, ou 115 pesos/kg na promoção com o cupom que nos deu a Turisur (agência de turismo sobre a qual comento mais adiante) e pagando em dinheiro. Na del Turista, chocolate a 113 pesos/kg.

Todos os saites onde pesquisei mencionavam os baratos táxis de Bariloche e também os remises (“aluguel de carro com motorista”), mas não explicavam a diferença. Pois é a seguinte: o remise é um táxi, mas, em vez do taxímetro, usa preço pré-fixado para o percurso. Esse preço não é padronizado, de modo que é bom perguntar antes. Táxis e remises são fàcilmente identificados como tais. Outra diferença é que o táxi você pega na rua, mas para o remise você telefona, ou passa na loja para acertar, para que ele pegue você em tal lugar e hora. Além disso, diz a moça do hotel que, de modo geral, os remises têm melhor apresentação e profissionalismo, mais ou menos como um táxi chamado por telefone em comparação com os que você chama na rua no Rio de Janeiro (òbviamente, se você, Leitor, dirigir um dos que a gente chama na rua, ou tiver parente que faça isso, seu táxi é uma exceção). Os remises são indicados para percursos longos, para fora do centro da cidade.

Na avenida San Martín, existem pelo menos duas agências de remises que são 24 horas, assim como a da Autojet, que fica numa esquina bem perto da prefeitura e que é mais barata para ir do centro ao aeroporto (55 pesos) do que se o hotel a chamar para você (65 pesos).

Já que falo do comércio, observo que entramos em quatro livrarias no centro de Bariloche, uma cidade de 100.000 habitantes. Entende agora por que se diz que argentino lê muito mais que brasileiro?

Chegamos antes do inverno e, portanto, da temporada turística. A pequena desvantagem foi encontrar alguns estabelecimentos fechados, especialmente restaurantes. Mas muitos estavam abertos e tivemos a grande vantagem de estarem todos vazios, o que proporcionou atendimento rápido, garçons tranquilos e várias ofertas de tirarem fotos de nós. No Familia Weiss (o restaurante mais famoso e referido, grande e tìpicamente turístico) e no La Alpina, os respectivos garçons estavam sòzinhos, mas nos atenderam muito bem. Em Bariloche o que mais se come é carne, e a carne de Barilocha é realmente deliciosa. Um detalhe interessante é que a maioria dos restaurantes e chocolaterias que visitamos têm fotos históricas da cidade, indicando os nomes das ruas e um “você está aqui”.

Recomendo todos os lugares onde comemos. Em todos a comida estava ótima e o atendimento foi personalizado e simpático. A saber:

– Rapa Nui — esta cafeteria funciona nos fundos da loja de chocolate, mas as duas atuam como se não fossem ligadas. Estivemos várias vezes, e foi o único lugar que vimos sempre cheio. O motivo provável é que parece ser o local de reunião dos barilochenses (é assim que se diz?). As pessoas ficam horas digitando em seus notebooks enquanto saboreiam chocolate quente, café e milkshake. Por causa disso, o atendimento é lento.

– El Boliche de Alberto — São quatro filiais, sendo três concentradas em dois quarteirões vizinhos. Dessas três, só uma faz parrilla (churrasco na grelha, o tipo de comida que mais se vê por ali, pronunciado “parrija”). Onde comemos, o cardápio não poderia ser mais simples: você escolhe a carne e vem só ela, grelhada com sal grosso. A variedade de acompanhamentos e bebidas é espartana. O churrasqueiro também é o cumim. Cordeiro assado para duas pessoas, garrafa de vinho e porção (generosa) de excelentes e fininhas fritas saem por 120 pesos.

Breogan — restaurante galego tão interessante que ganhou um texto só para ele.

– Aire Sur — fica na Colônia Suíça, muito longe do centro da cidade. Uma casinha supersimpática, de madeira, com aquecedor a lenha espalhando calor pelo ambiente. Havia sòmente duas moças trabalhando, com ares de serem as proprietárias. Uma truta ao molho de amêndoas, um chucrute à moda da casa (com bacon, duas salsichas defumadas, batatas ao molho de azeite e purée de maçã), uma cerveja e um café suíço (com creme, espuma de leite, canela e licor de guindas) custam 130 pesos.

– La Alpina — Ao centro do restaurante há uma lareira a lenha, e as mesas têm bastante privacidade, mas também têm contato visual com o garçom. Aqui se destacam os fondues. Comemos um de queijo com cerveja preta, que aliás o garçom nos conta ser bem comum na região. (De todo modo, fondues são comuns sim, especialmente a título de sobremesa.) Acompanhado de um suco e um refri, deu 164 pesos.

– Friends — Este é uma lanchonete melhorada, de sanduíches e pizzas retangulares. Uma pizza de javali e outra de cogumelos, que vieram cada uma sobre uma tábua, mais uma cerveja, por 126 pesos.

– Familia Weiss — Aqui o Ricardo Freire, Autor do Viaje na Viagem, relatou ter comido “bem médio”. Atribuo isso ao estado do restaurante quando ele foi; mais de um saite relata que o lugar enche muito na alta temporada. Entretanto, pudemos aproveitar um almoço supertranquilo num restaurante silencioso, com arquitetura aconchegante e excelente iluminação natural (porque sentamos à janela, senão não). Um bife de chorizo e um Spätzle (mininhoque) com picadinho de cervo, mais a garrafa de vinho, saíram por 163 pesos. O bife estava sensacional; já o picadinho… bem médio. OK, o Ricardo tinha razão, e quem comentou a matéria dele também.

V11-1869 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, 27 de maio de 2011 - restaurante Familia Weiss

Chegamos para almoçar cerca das 16:20 h. Havia uma mesa ocupada e um garçom. O atendimento foi excelente, a comida também. Dizem que na alta temporada fica muito cheio...

Vários estabelecimentos fecham na hora da siesta, de umas 13:30 às 16 horas. Pelo menos a maioria tem o salutar costume de pôr seus horários de funcionamento na porta, como se faz na Europa.

Outro inconveniente grave: em Bariloche, o cartão de débito internacional Visa Travel Money não foi aceito. Cuidado, quem contava com ele!

Sempre se associa Bariloche a neve e esqui. Mas, quando não neva, ainda há diversos passeios que se podem fazer pelos arredores da cidade. No Centro Cívico, onde fica a prefeitura, há a Oficina de Informes Turisticos (“oficina” = espanhol para “escritório”), que fica aberta de 8 às 21 horas, inclusive aos domingos. O atendimento é excelente, os servidores municipais são atenciosos e vão te dar vários panfletos ricos em informação, que vão complementar com o tanto que sabem de útil.

Para explorar esse mercado, existem várias agências de turismo em Bariloche. Aliás, a cidade vive bàsicamente de turismo. Como chegamos em um domingo à tarde, só encontramos uma agência aberta, a Turisur, bem localizada no começo da avenida Mitre. Seu atendimento foi muito bom e os preços eram compatíveis com a faixa que nos havia sido estimada na Oficina de Informes. Por esses motivos, fizemos três passeios com eles, a saber:

– Cruzeiro de barco pelo lago Nahuel Huapi e visita ao bosque de arrayanes (que eles pronunciam “arrajanes”), por 230 pesos por pessoa (mais ingresso no Parque Nacional Nahuel Huapi, 61 pesos por pessoa). Você entra em um catamarã com dezenas de outros turistas e ràpidamente percorre o belíssimo lago, observando paisagens sensacionais abrigado do vento congelante lá de fora. Infelizmente, para melhor apreciá-las, é preciso tirar a bunda enorme da cabine bunda da enorme cabine e ir pro tombadilho lá fora, onde é preciso se lembrar de tirar o pingente de gelo do nariz antes de posar para foto.

V11-0269 (nome provisório) - Argentina, lago Nahuel Huapi, 23 de maio de 2011

Olhando para o Norte do lado de fora de um catamarã da Turisur às 14:39 h. No lado esquerdo da foto, ao fundo, os Andes.

(Em tempo: quem estuda Direito tributário brasileiro logo perceberá que, se o Direito tributário argentino for igual ao nosso, o que paguei não foi “ingresso” ao parque, mas uma taxa pelo exercício do poder de polícia de fiscalização contra predação do parque — regulado, no Brasil, pelo Código Tributário Nacional, arts 77 e 78.)

A visita ao bosque é interessantezinha, mas os guias fazem um escarcéu como se fosse o parque mais incrível do mundo. Meu, é só um pouco de reserva florestal, que você percorre num caminho todo delimitadinho em cima do calçamento de madeira. Aí a Turisur tem um fotógrafo que explica como a agência fez uma lanchonete numa cabana de madeira, pôs-lhe o nome de “casa do Bambi” e tira sua foto na frente, cobrando extorsivamente. Ridículo. Foi o primeiro dos casos que vi de turismo um-sete-um da Turisur. Se bem que me deram um cupom para desconto na chocolateria Rapa Nui, de 20% à vista ou 10% no cartão.

O passeio se completa com a visita à ilha Victoria, onde um magnata com preocupações ecológicas iniciou um jardim botânico em 1924 (dez anos antes da criação do Parque Nacional, que inclui a ilha). O jardim tem árvores de vários lugares do mundo, inclusive um bosque de sequoias.

Olha só. A guia explicou que as mudas de sequoias vieram da Califórnia. Necessàriamente isso aconteceu após o início do plantio do jardim em 1924, certo? Ao lado de uma dessas altíssimas árvores, há uma fotografia, feita em 1868, de uma sequoia do parque Yosemite. Pois saiba que esta brasileira do grupo, nova-rica deslumbrada sem cultura, logo me perguntou se era a mesma árvore. Expliquei-lhe que não, que as sequoias da ilha Victoria tinham sido plantadas sessenta anos depois da sequoia da foto. Ela contestou que as sequoias da ilha Victoria eram altíssimas, mas aí a informei de que as sequoias crescem um metro por ano, tornando perfeitamente possível que, de 1924 a 2011, as da ilha Victoria tivessem chegado à altura enorme que estávamos vendo. Expliquei-lhe que o Yosemite ficava na Califórnia, que não era ali por perto e que, portanto, as duas não eram a mesma árvore, mas a mulher não acreditou em mim. Estava convencida de que as sequoias tinham sido trazidas inteiras da Califórnia e replantadas ali na Argentina e que aquele ali era o parque Yosemite.

Gente ignorante exerce um paradoxo interessante. Em geral, não têm imaginação nenhuma; porém, quando se metem a duvidar da realidade, acreditam em absurdos que desafiam Tolkien, Asimov e Clarke. Não sei como a mulher concebeu que as árvores tivessem sido transportadas. Certamente algum lenhador as teria posto nos ombros e trazido de navio, lá da costa Oeste dos EUA até o interior mais austral da Argentina, subindo até Bariloche de caminhão numa época em que não havia nem luz elétrica na área. Porque a moça ficou atrás da guia, querendo se certificar de que não fossem rigorosamente as mesmas árvores que se viam na fotografia antiga.

– Cerro Tronador. Esta foi a melhor excursão, custando 143 pesos por pessoa. Partimos às oito da manhã, quando ainda estava escuro, numa van que tomou o rumo sul, contornando o lago Mascardi até uma das entradas do Parque Nacional (ingresso: 50 pesos por pessoa). A estrada só é asfaltada até certo ponto; como disse o guia Raúl, “… después: Patagónia!”. O passeio dura o dia inteiro e você vê paisagens magníficas de lagos, montanhas e floresta temperada.

V11-0493 (nome provisório) - Argentina, lago Mascardi, 24 de maio de 2011

Esta é a bifurcação central do lago Mascardi, vista de uma praia de cascalho às 09:19 h. Chegamos ali levados na van da Turisur. As montanhas são parte dos Andes, algumas dezenas de quilômetros a oeste de Bariloche.

V11-0504 (nome provisório) - Argentina, lago Mascardi, 24 de maio de 2011

Esta é outra vista da mesma praia. Por incrível que pareça, esta imagem não recebeu nenhum tratamento; a cor é natural (ou: tão natural quanto u'a máquina fotográfica digital consegue interpretar). Às 09:23 h, a manhã estava muito fria.

V11-0598 (nome provisório) - Argentina, lago Mascardi, 24 de maio de 2011

Este é o braço ocidental do lago, visto de um mirante às 12:11 h. As montanhas são parte dos Andes, algumas dezenas de quilômetros a oeste de Bariloche.

Para o almoço, a van pára no único restaurante que você vai ver dentro do parque. O lugar é simplesinho e não tem concorrência, mas o que importa é combater o frio de rachar lá de fora, e nisso a comida e o chocolate quente são eficazes. E saborosos também. Uma sopa, um guisado de lentilhas, uma empanada (pastel) de queijo e presunto e uma cerveja saem por 113 pesos.

Depois do almoço, vem a cereja do bolo que é o cerro Tronador: um vulcão de 3.500 metros que separa Chile e Argentina e do qual desce uma impressionante geleira. Não se impressione com a altitude, porque Bariloche está a 800 metros acima do nível do mar e você sobe de carro só até uns mil metros. Descendo do carro, caminha quinze minutos, com cuidado para não escorregar no gelo, e logo chega a uma esplanada (que, trinta anos atrás, estava embaixo de vários metros de gelo, cortesia do aquecimento global). Enquanto a montanha está escondida pelas nuvens, dali se descortina esta vista do limite inferior da geleira:

V11-0741 (nome provisório) - Argentina, cerro Tronador, 24 de maio de 2011

Esta é a base da geleira no lado argentino do cerro Tronador, que faz a fronteira com o Chile. O vulcão eleva-se acima de 3500 metros, mas a fotografia foi feita de cerca de 1000 metros, às 15:10 h.

O nome “Tronador” deve-se aos blocos de gelo que se soltam e despencam centenas de metros até se esborracharem cá embaixo. O ruído é idêntico ao de detonação de explosivos trovão.

Circuito Chico (“circuitinho”). Por 57 pesos por pessoa, a Turisur leva você aos mirantes ao longo do lago Nahuel Huapi. Uma subida de teleférico ao cerro Campanario (40 pesos por pessoa) mostra 360 graus desta paisagem.

V11-1265 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, Cerro Campanario, 26 de maio de 2011

Em dez minutos de teleférico, chegamos ao alto do Cerro Campanario, de onde se tem uma vista de 360 graus dos arredores de Bariloche. Às 10:28 h, fazia frio. Esta é a vista para Noroeste. À esquerda, o Cerro López e, atrás dele (não visível), o Cerro Tronador e os Andes. Ainda na esquerda, os dois braços do lago Perito Moreno. À direita, em primeiro plano, o lago Nahuel Huapi; em direção ao fundo, uma península, novamente o Nahuel Huapi e a ilha Victoria.

O resto do passeio é interessante, mas tem mais turismo um-sete-um. Primeiro, porque, por alguma razão que ainda hei de entender, alguém cismou que é atração turística levar você a percorrer o jardim diante do hotel Llao Llao, o mais antigo e sofisticado de Bariloche. Patèticamente, ninguém pode descer da van, que circula em baixa velocidade à frente da imponente construção. Parece até aquele episódio dos Simpsons onde as crianças vão visitar uma fábrica de caixas. Segundo, porque, depois de você ter tido APENAS QUINZE MINUTOS para apreciar o momento mais bonito da semana no cerro Campanario, a Turisur te põe durante MEIA HORA DENTRO DE UMA LOJA de cosméticos que só existem à venda ali, como se isso fosse atração turística. Cabe lembrar que todos os cosméticos são feitos de rosa mosqueta, uma plantinha que, no discurso da vendedora, resolve todo problema de pele, de remoção de manchas a queimaduras de terceiro grau. Ela só se esquece de dizer que a rosa mosqueta não é típica dali, mas veio da Europa meridional e se adaptou tão bem que hoje é uma praga na Patagônia.

Com o pouco trânsito de Bariloche e apesar de os argentinos serem latinos como nós, impressionou-nos que os ônibus cumprissem os horários da tabela que o servidor da Oficina de Informes nos deu. Pegamos a linha 10, que, ao preço de 6 pesos por passageiro e após cinquenta minutos na estrada que segue o lago, deixou-nos na Colônia Suíça.

A Colônia Suíça é mais um caso de turismo um-sete-um. Fontes escritas e faladas nos indicaram a localidade como um povoado histórico onde, todas as quartas-feiras, um festival traz artesanato e comidas típicas, inclusive curanto (carne assada em fogo enterrado durante várias horas — barreado, alguém?). Só que tudo que encontramos foi uma rua de terra que se percorre em cinco minutos, as barraquinhas e restaurantes quase todos fechados à espera da alta temporada, e uma meia dúzia de malucos-beleza vendendo um artesanato mequetrefe que qualquer maluco-beleza te vende em qualquer praça de cidade grande. Tem uma capela e uma casa antiga preservadas, mas a “colônia” acaba aí. A observação mais notável foi o posto da polícia, com um carro velho e batido que só dá mesmo é pena do policial.

As partes boas da visita à Colônia Suíça foram o restaurante Aire Sur, a vista de um lago próximo porém escondido atrás de algumas árvores e a própria viagem no ônibus, que não só é sempre um divertimento em terra estrangeira como nos ofereceu farta vista de paisagens do lago Nahuel Huapi. Na volta, o ônibus foi enchendo, inclusive de um grupo de mochileiros jovens e anglófonos. Desceram no mesmo ponto nosso e perguntei de onde eram. Um deles era de North Yorkshire. Embora muito novinho, tinha, à guisa de cachecol natural, uma barba de fazer inveja ao Alan Moore.

Por último, duas visitas a museus que recomendo sem reservas. Um é o Museu do Chocolate, integrado à fábrica da Fenoglio, que, entretanto, não está aberta a visitação (embora visível através de janelões). Sua exposição está muito bem montada, explicando vários fatos sobre o cacaueiro, o cacau e seu aproveitamento econômico, sobre a história da indústria do chocolate desde os astecas, passando pelos conquistadores e pela nobreza europeia, sobre a evolução do significado social do chocolate, sobre o contexto em que era bebido… Tudo com ilustrações pertinentes e objetos de época. A explicação do guia era dispensável, porque há bastante texto junto às imagens, contendo tudo que ele disse; mas a visita valeu os 16 pesos do ingresso.

V11-1733 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, Museu do Chocolate, 27 de maio de 2011

Em Bariloche, a fábrica de chocolate Fenoglio mantém este museu, cuja exposição está muito bem montada e é rica em informação e ilustrações sobre a evolução do uso social do chocolate desde os astecas, passando pela nobreza europeia, até o final do século XX. A fotografia mostra aproximadamente 2/3 da mostra. Atrás da parede à direita, o primeiro terço é sobre o cacaueiro, a composição orgânica do chocolate e os primeiros usos entre os astecas. À direita, o uso pelos astecas conforme testemunhado pelos Conquistadores e a adoção inicial pelos espanhóis. À esquerda, a propagação do chocolate na Europa durante os séculos XVII a XIX e o início da fabricação em massa durante a Revolução Industrial.

O outro museu é o paleontológico, aonde chegamos quando faltava meia hora para fechar. O museu não recebe dinheiro estatal, mas apenas dos ingressos (8 pesos) e da venda de produtos como camisetas. Funciona em um galpão que não deve ter mais de 100 metros quadrados e agrupa um excelente sortimento de fósseis. Apesar do espaço apertado, os fósseis estão dispostos de modo bem visível e didático. Nas paredes, paineis ilustrativos mostram a deriva continental, a formação dos fósseis, a genealogia evolutiva dos tipos de animais, a evolução das glaciações na Patagônia e os locais de onde vieram os fósseis. Estão presentes a mandíbula de um Charcharodon megalodon (versão gigante do tubarão-branco), a réplica dos ossos de um ictiossauro e centenas de fósseis de palmeiras, moluscos, insetos, aracnídeos, peixes, anfíbios, répteis e mamíferos, dispostos em ordem cronológica. O museu está quase escondido entre o lago Nahuel Huapi e a avenida 12 de Octubre, em frente a uma escola e a uma das sedes do órgão que fiscaliza parques nacionais.

E foi isso. Não há muito mais a contar, e espero ter sido útil. Nos vemos na próxima postagem, quando detalharei o excelente restaurante Breogan.

***
Em tempo: sabe a postagem anterior a esta? Pois fiquei sabendo que o seriado da Mulher-Maravilha foi cancelado. Ótimo. Assim ninguém passa vergonha.

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“Quando uma mente se expande, nunca mais volta ao tamanho original.”

Estava eu ontem conversando com uma amiga no almoço, contando-lhe de como assisti a Cosmos na infância. Para você que nasceu atrasado, Cosmos foi uma série em treze capítulos, escrita e apresentada pelo brilhante Astrônomo Carl Sagan, baseada no livro de mesmos nome e Autor. Foi exibida no Brasil na mesma época em que passou nos EUA: início dos anos 80. O assunto eram as maravilhas do mundo da Ciência, e Sagan procurava divulgar a beleza e o senso de descoberta e de admiração que a gente sente quando começa a estudar as ciências naturais e a Matemática. Havia capítulos sobre a biblioteca de Alexandria, sobre como Eratóstenes raciocinou que a Terra devia ser redonda e até calculou seu raio com precisão melhor do que 1%, sobre o disco da Voyager, sobre o googol (não o saite, o número)… Tudo de forma muito didática.

Graças a Cosmos, muitas crianças brasileiras e americanas passaram a se interessar por Ciência, foram tornar-se pesquisadores, biólogos, matemáticos, físicos, nerds. Os depoimentos abundam na Web. Ainda hoje muitos têm saudade, pouca coisa semelhante foi feita desde então, nada que superasse a original. Há quem suspire por uma versão atualizada, mas acho que não precisa (embora o próprio Sagan, pouco antes de morrer em 1996, tenha feito uma versão com adendos onde ràpidamente comenta os desenvolvimentos dos quinze anos anteriores, confirmando ou negando previsões).

Cosmos retratava muito bem a visão do ateu Sagan, na qual não é necessário um deus criador para que o universo exista, tenha seu próprio valor em si mesmo e seja muito mais mind-bogglingly overwhelming do que a mente humana possa alcançar. Sagan, o humanista, também dispensava um deus justiceiro como paradigma ético necessário para você se preocupar com o planeta e com seu semelhante e para ser gentil durante sua curta passagem pela Terra; haja vista o texto que acompanha esta foto: http://www.skyimagelab.com/pale-blue-dot.html. Sagan, o especialista em climas de outros planetas, mostrava que, mesmo sem “vida após a morte”, já estamos em sintonia com o universo na medida em que nossos corpos são feitos de poeira de estrelas (porque os átomos de nossos corpos se originaram na fornalha de um núcleo estelar) e se perpetuarão na eterna e cíclica conservação da matéria. Sagan, o filósofo, mostrava como a vida é preciosa, como é um bem tão improvável no universo que deve ser valorizada e preservada acima de tudo. Foi um dos grandes ativistas contra a corrida armamentista da Guerra Fria, alertando-nos sobre o risco de um inverno nuclear.

Em 1983, Cosmos foi exibida pela primeira vez no Brasil, nas manhãs de domingo da Rede Globo. Eu não queria perder um episódio, com sua inspirada trilha sonora de Vangelis imperturbada pelo silêncio matinal enquanto o sol entrava pela janela. Mas, em 1983, toda a minha turma faria primeira comunhão no colégio religioso. Como parte da preparação, teríamos que ir a tantas (sei lá quantas, umas vinte) missas dominicais ao longo do ano. Até que fui a várias. Mas o problema é que a missa era no mesmo horário de Cosmos. Aí eu tive um problema. As duas prioridades se chocavam em minha mente e o melhor compromisso a que pude chegar foi alternar domingos: num eu via Cosmos, no outro ouvia as histórias do deus misericordioso que podia enviar a todos para o Inferno se pensassem por conta própria ou vissem a vizinha tirar a roupa na janela.

Na época eu não percebi, nem por muito tempo depois, mas você observa agora o quanto esse embate era simbólico? Eu não sabia, mas, nas convoluções de meu cérebro pueril, havia uma decisiva batalha campal pelo domínio de minhas crenças. Duas trilhas, dois caminhos a seguir na vida, disputavam minha atenção: uma, mediante o senso de dever imposto por Dom Plácido (que até que era gente fina, mas, em retrospecto, tão fundamentalista quanto se poderia esperar de um monge dando catecismo à terceira série primária). A outra, através da paixão que me despertava pelo mundo do deslumbramento, do método científico, da exploração cética exercida pelas mentes curiosas. Absolutamente incompatíveis! Era uma briga de pólos radicalmente opostos! (Acho que essa última frase teve não um, mas dois pleonasmos; conte aí.)

Naquele ano, não fiz primeira comunhão com minha turma.

Mas naquele ano fui encaminhado, firme e inevitàvelmente, a percorrer o mundo com o olhar não do místico apavorado, mas do cético maravilhado, do cientista apaixonado.

O obscurantismo lutou bravamente, ainda fiz primeira comunhão no ano seguinte e fui crismado alguns anos depois. Mas, no final das contas, o relógio do relojoeiro cego já estava em movimento e não podia mais parar. Hoje minha dúvida é só quanto ao rótulo adequado.

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Por que não vou renovar minha assinatura de Scientific American Brasil

Em abril de 2010, encerrava-se minha assinatura da revista Scientific American Brasil, editada pela Duetto. A editora enviou-me a proposta de renovação, eu podendo parcelar em quatro ou seis vezes, sem desconto para pagamento à vista.

Já que não tinha desconto, escolhi manter meu dinheiro rendendo juros no banco por mais tempo até o fim do pagamento, em vez de entregá-lo todo à editora e deixá-lo rendendo juros COM ELA. Afinal, a prestação do serviço da Duetto (entregar doze edições da revista) seria parcelada — faria todo o sentido que a minha contraprestação (pagar pelas doze edições) também fosse.

Só que eu pedi para parcelar em seis vezes de R$ 19,83 no cartão de crédito. Seis vezes, marque bem. Foi aí que meus problemas começaram.

Comprei a nova assinatura em 20 de abril, e a operadora do cartão tomou ciência em 22 de abril. A fatura para vencimento em maio já estava fechada, de modo que a primeira cobrança, lançada em 22/04, venceu em junho.

Então faça aí a conta: seis prestações, a primeira vencendo em junho; então, as demais venceriam em julho, agosto, setembro, outubro e novembro. Certo?

A prestação seguinte foi lançada em 24/05 (ou seja, um mês depois da anterior) e venceu normalmente em julho. Em agosto não veio cobrança. Aí, em setembro, apareceu uma parcela com lançamento em 21/07 e descrita como “01/05”. A de outubro, também lançada em 21/07, veio como “02/05”.

Mas peraí. A parcela de setembro não era a primeira, era a terceira. A de outubro era a quarta. A continuar assim, eu acabaria pagando a quinta (“03/05”), a sexta (“04/05”) e uma sétima (“05/05”).

O que que eu podia ter feito em outubro? Podia ter ligado para a operadora do cartão e dito que a descrição das parcelas estava errada. E eu, que vivo defendendo a pró-atividade proatividade, não fiz isso. Verdade que não tinha o dever de fazê-lo. Verdade que, até dezembro, eu ainda estava pagando o que devia; e que não necessàriamente deveria presumir que estivesse por vir uma sétima e indevida parcela. Vamos tomar o cuidado de não culpar a vítima. Eu vivo dizendo que você tem que tomar sua vida nas suas mãos em vez de contar com, ou esperar, que os outros façam certo, mas isso não dá à Duetto ou à operadora do cartão o direito de me cobrar a mais.

Bom. Até que veio a cobrança de janeiro (a sétima). Não adianta eu simplesmente não pagar. Se eu não pagar integralmente uma fatura, estou criando um problema ainda maior, porque a operadora vai começar a cobrar juros, vai bloquear meu cartão, e eu vou acabar tendo que me aborrecer por muito mais do que uma simples parcela de R$ 19,83. Eles têm, sim, o poder de ferrar com a minha vida sem nem saberem que eu sequer existo (e sem se importarem com isso, o que é bem mais divertido de se fazer com seres desprezíveis do que dar a eles tanta importância a ponto de fazer questão de prejudicá-los). Se eu tenho um problema de cobrança a mais, tenho que resolvê-lo independentemente do pagamento: a operadora não tem como diminuir o valor da fatura já emitida. Se concordar com minha eventual alegação de que a cobrança não seja devida, o que ela vai fazer vai ser estornar o valor em outra fatura, independentemente do pagamento desta que está comigo.

Você, especialista em Direito do consumidor, a esta altura deve estar pensando em mil direitos que eu tenho, pensando que o consumidor é forte, que hoje em dia a lei nos protege, que é só eu não pagar, que posso mover ação por dano moral, que seria bom me negativarem no SPC para eu ganhar uma indenização polpuda… Mas tudo isso dá muito trabalho. Antes de se discutir o Direito, há uma questão prática, meramente econômica, que é: será que eu quero me aborrecer com a discussão? Observe que, antes de tudo isso ser uma relação jurídica, é uma relação de poder. O poder é desigual, e eles já começam ganhando. Mesmo que eu vença no final, o custo da vitória é muito alto. Uma das coisas fundamentais que a gente aprende sobre Direito é que ele existe justamente para que o Estado compense a desigualdade de forças e obrigue a parte forte a devolver o que tomou da parte fraca, que não conseguiria recuperar o que foi tomado. Então, antes de existir a relação de direito, existe a relação de poder; e aliás é por causa desta que existe aquela.

Mesmo assim, antes do vencimento da fatura de janeiro, telefonei para a editora Duetto, que não tem um zero-oitocentos e que só atende em horário comercial. Expliquei o caso, mas a editora me relatou que havia recebido um só pagamento, no valor cheio correto, lá em abril; que, daí por diante, o parcelamento havia sido repassado à operadora do cartão de crédito; e que, conforme seus registros, desde abril eu não devia mais nada à editora.

Faz sentido (afinal, é assim mesmo que funciona o financiamento por cartão de crédito), mas você pode observar que aí começa o pingue-pongue, muito comum em relações envolvendo mais de uma pessoa, onde cada uma diz que o problema foi com a outra e que você tem que procurar essa outra. “Se vira aí com ele, eu não tenho nada com isso.” Tenho certeza de que você já passou por uma dessas na vida. De certo modo, a Duetto até tinha razão. Se ela não me entregasse algum exemplar da SciAm BR, minha reclamação seria com ela. Só que, se alguma cobrança vem errada, eu tenho que reclamar com quem me cobra mesmo, que é a operadora; e elas que se entendessem depois (não dá razão à operadora o fato de ela, cobrando-me errado, dizer que eu tenho que me entender com a editora). Talvez nesse ponto eu tenha mesmo errado, não sei. Mas continuo sendo a vítima; o fato de eu não ter reclamado cedo NÃO DÁ à operadora o direito de me cobrar a mais.

Hoje, telefonei à operadora do cartão. No primeiro telefonema, a atendente disse, na minha cara remotamente, que não tinha acesso a nenhuma fatura mais antiga do que seis meses atrás; que, portanto, não podia averiguar nada do que eu dizia; que eu tinha que ter reclamado quando veio a primeira cobrança (!); e que agora não estornariam mais nada. Olhe como terminou o diálogo:

— Quer dizer, o que você está me dizendo, bàsicamente, é que eu perdi? ‘Cê tá me dando um perdeu, é isso?

— … Sim, é isso.

— Caraca. Que belo atendimento esse, hein!

(tu tu tu…)

Claro que fiquei uma fera com a atitude sonsa e mais a desligada na cara. A pressão subiu, meus olhos ficaram verdes, depois minha pele ficou verde, comecei a ficar musculoso, minha camisa rasgou, e meu calção roxo foi dilatando junto comigo.

Fiquei perdido, irracional, ia dar-me por vencido. Senti-me sòzinho diante de uma força invencível. Mas não é essa minha ética. Aprendi com o Capetão Kirk a nunca desistir, nem em face da própria morte: enquanto eu estiver vivo, há esperança de solução. Ou, como disse outro Capitão, Quincy Taggart, “never give up – never surrender”.

No segundo telefonema, comecei a explicar o problema e o atendente desligou na minha cara antes que eu terminasse. Nem fiquei com tanta raiva, porque, com o tempo, essas centrais de atendimento têm o dom de ir sugando sua energia vital. Você vai ficando fraco e cansado, e cai na poeira no meio da maratona. Os abutres vêm jantar em seu cadáver, os corvos comem seus olhos e a equipe do Grissom te encontra dias depois.

No terceiro telefonema, a moça teve mais paciência e disposição. Ouviu tudo, digitou, esperou enquanto eu ia buscar documentos para lhe dizer datas. Mas, afinal, também “não pôde fazer nada”, por supostamente não ter o poder de corrigir falhas cometidas mais de noventa dias antes. Meu “prazo” começara a contar em 21/07, quando fôra feito o primeiro lançamento errado, de modo que, faça a conta, eu devia ter telefonado até 18/10.

Na Faculdade de Direito, a gente aprende que “o direito não socorre os que dormem”, ou seja, você tem que se manter ligado e atuante para não perder o que é seu. Sempre achei esse princípio uma bruta duma sacanagem, porque equivale a dizer que tudo que é meu está à disposição dos outros para virem pegar, em um total desequilíbrio onde não me dão nada em troca, e, se eu quiser que ainda seja meu, tenho que lutar! Quer dizer, eu trabalho de escravo para dar aos outros o que tenho, ou, no mínimo, saio no prejuízo.

Entendo a necessidade de uma tal regra, que é o fundamento da prescrição e serve para dar segurança às situações consolidadas no tempo. O lance é que o prazo que a operadora admitiu para meu direito foi exíguo! E mais: ela não foi clara nem unívoca quando manteve a data de 21/07 nos lançamentos das prestações seguintes; ou seja, eu não tinha razão para afirmar, com certeza, que meu direito estivesse sendo violado.

De acordo com a operadora do cartão, eu ainda tinha uma solução: reclamar junto à editora, que havia recebido a mais. Pingue-pongue, alguém? Aliás, não é pingue-pongue não: lembra uma brincadeira, sem graça pra caramba, que os garotos mais velhos faziam com você na escola, chamada “bobinho”? Pois é. Bobinho. É disso que Duetto e operadora estão brincando comigo.

Olha só. Não sei quem foi que errou. Tanto pode ter sido a editora, informando erradamente que ainda faltavam cinco parcelas, como pode ter sido a operadora do cartão. Mas não me interessa; não quero identificar culpados, que isso não é incumbência nem problema meu; quero é meu dinheiro. De todo modo, o primeiro telefonema à editora, que não tem zero-oitocentos, custou-me cerca de nove reais. A operadora do cartão também não tem zero-oitocentos, de modo que esses três telefonemas também não foram de graça. Se eu telefonar de novo à Duetto, vou acabar tendo gasto no mínimo R$ 18 (e provàvelmente mais) para reaver R$ 19,83. Òbviamente, isso não é sensato do ponto de vista econômico.

Por isso não vou ligar à Duetto não. Tentei dar uma de esperto aceitando o parcelamento, sem perceber que estava caindo numa armadilha, e já perdi R$ 19,83 mais os telefonemas (que, juntos, devem ter superado R$ 9) e muito tempo e aborrecimento. Qualquer coisa que eu faça vai aumentar meu prejuízo. O que tenho que fazer agora é limitar minhas perdas, igual aos apostadores da bolsa de valores que sofrem prejuízo e têm que se livrar das ações podres antes que o preço caia mais ainda.

“Por que você não entra na Justiça?” Por causa de trinta reais? Fala sério. Eu já soube de juiz que se recusou a deferir o pedido porque o valor era irrisório, confirmando que as empresas podem tomar quanto quiserem dos clientes contanto que seja “irrisório” (irrisório pro tal juiz, que certamente ganhava vinte vezes o salário líquido do infeliz que confiou no sistema). Mesmo que meu pedido fosse deferido, olha quanto tempo e dinheiro eu ainda gastaria em transporte até o fórum, xerox dos documentos, impressão da petição inicial… Tudo isso parece pouco, mas já supera o valor a pedir. Um táxi até o fórum pode custar R$ 15. E isso se fosse pleitear sem advogado, o que me faria consumir ainda MAIS tempo. Com advogado, ainda teria que pagar os honorários, sem ser ressarcido pela parte contrária.

Então, como sempre, o sistema venceu. Especìficamente, as empresas venceram. Elas fazem muito isso, né: boa parte do lucro vem desses “errinhos”, onde vão comendo alguns reais de cada vez, às vezes centavos, às vezes dezenas de reais… No somatório, é um bocado de dinheiro. Elas sabem que a gente não vai reagir, sabem que nós fazemos a conta e percebemos que a tentativa de ressarcimento dá mais prejuízo. Para elas é um excelente negócio. Sabem que já começam ganhando e contam com isso.

Quanto a mim, já tive outras dificuldades com a Duetto. Primeiro, comuniquei mudança de endereço por correio eletrônico. Aí, pararam de entregar a revista. Depois de três meses sem receber, fui averiguar por quê. É que tinham o endereço errado. PQP! Eu ESCREVI o endereço; em princípio, estava certo, não? Presume-se que eu saiba meu endereço! Então, era só copiar-colar! Mas não. Quando não é pra copiar-colar, esse povo copia-e-cola, sem olhar o que está fazendo; mas, quando É pra copiar-colar, não fazem isso — e erram.

Depois, comprei deles um DVD, que só chegou depois que telefonei, quase um mês depois de pagar, dizendo que não queria só pagar por ele; queria recebê-lo também. Foi só aí que enviaram.

Agora me acontece essa que narrei: pague catorze edições e leve doze. Então agora chega: não hei de renovar a assinatura. Depois que esta expirar em abril, cada vez que sair SciAm BR, vou ficar sabendo pela banca. Se não me interessar, não compro — diferente do que acontece na assinatura, quando a editora já recebe o pagamento antes, mesmo que a edição do mês não venha a me interessar. Não dá, é muito desgastante isso. A revista pode ser boa, mas o preço que pago pela assinatura está muito alto.

Agora levanta a mão quem acha que é bem-feito. o/

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Os números de 2010

ABRE ASPAS

Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

Healthy blog!

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Este blog é fantástico!

Números apetitosos

Featured image

Um duende das estatísticas pintou esta imagem abstracta, com base nos seus dados.

Um Boeing 747-400 transporta 416 passageiros. Este blog foi visitado cerca de 4,200 vezes em 2010. Ou seja, cerca de 10 747s cheios.

Em 2010, escreveu 64 novo artigo, aumentando o arquivo total do seu blog para 302 artigos. Fez upload de 13 imagens, ocupando um total de 2mb. Isso equivale a cerca de uma imagem por mês.

O seu dia mais activo do ano foi 3 de Abril com 39 visitas. O artigo mais popular desse dia foi Acidente da Fumaça em Lages.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram leilakalomi.wordpress.com, trekbrasilis.org, search.conduit.com, google.com.br e sratoz.blogspot.com

Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por acianotico, escravos ladinos e escravos boçais, posters sratoz wordpress, acianótico e boçais e ladinos

Atracções em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

1

Acidente da Fumaça em Lages Abril, 2010

2

Boçais e ladinos Março, 2010

3

Pessoa jurídica comete estelionato? Fevereiro, 2010

4

Tragédias cariocas e proibição do fanque Setembro, 2009

5

Sobre a experiência de ir assistir a Homem de Ferro 2 Maio, 2010
3 comentários

FECHA ASPAS

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A quem tem pouco conteúdo só resta comentar no saite alheio

Agora há pouco, visitei o saite de Jana Lauxen (pseudônimo?) e me interessei pelo livro anunciado ali. Então, escrevi-lhe este email. Como tem um poquito de conteúdo original, resolvi dividi-lo com você.

(…) Li parte do seu belogue. Há anos eu defendo seus argumentos contra o voto nulo, inclusive seu raciocínio é o mesmo meu. Sobre ser a única escolha que ainda há, sobre escolher o menos ruim, sobre escolha ruim ser melhor do que nenhuma. Em síntese eu digo aos outros: é minha vida, não vou deixar que os eleitores de cabresto, os analfabetos, os iludidos, os deslumbrados e os de má fé a decidam por mim. Cada voto contrário ao meu é um voto contrário a minha vontade, a minha vida. Então tenho que lutar contra e votar sim.

Idem seu texto sobre você colher o que plantou [embora eu discorde fundamentalmente do mau uso da Terceira Lei de Newton para exemplo, porque ela não tem nada a ver com isso]. Bàsicamente é algo em que não paro de pensar desde 1989, quando li Ilusões, de Richard Bach, que me mostrou que TUDO que acontece na minha vida é decorrência de minhas decisões, e minhas apenas. Inúmeros desdobramentos dessa ideia, inclusive o seu — afinal, são 21 anos pensando nisso, não é tudo repetição do mesmo não. Adendo: Ilusões também me trouxe as ideias de que é fìsicamente impossível forçar uma pessoa a fazer alguma coisa e de que é impossível eu fazer algo que não queira.

Idem seu texto sobre censura. Penso muito em censura. Penso muito em como a imprensa manipula a ideia de censura em interesse próprio, em como diz que tem quando não tem e em como diz que não tem quando tem.

Juízo e bom trabalho!

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Uma coisa que me irrita

… no ambiente de trabalho: de vez em quando, alguém é cobrado. “Já fez tal coisa?” E responde que não: “estou esperando que Fulano faça tal outra coisa”.

Muito cômodo, não é mesmo? O carinha não faz o que lhe cabe, nem o serviço anda, porque ele está dependendo da atuação de outra pessoa, sobre a qual não tem nenhum poder de exigir resultado.

Fico p$%o da vida com isso. É uma intencional falta de iniciativa, pràticamente uma sabotagem. O sujeito simplesmente senta em cima da tarefa, quase que esquece o assunto até ser novamente provocado, ou melhor, tangido sob vara. Pombas, sempre tem outro jeito! Sempre dá pra telefonar perguntando se o tal Fulano precisa de ajuda, ir fazendo outra coisa paralela enquanto aquela etapa não sai… (caminho crítico, alguém?). Aliás, em geral, quando a resposta de Fulano está demorando muito, pode ir atrás que você vai descobrir que Fulano nem estava sabendo que a bola estava na quadra dele. Às vezes, a mensagem nem chegou a ele; outras vezes, ele não entendeu a mensagem… Cabe a você, interessado (quer dizer: supostamente interessado, porque, quando o que se tem é preguiça, é óbvio que não há ninguém interessado), mas eu dizia, cabe ao interessado procurar Fulano, ir dando andamento ao processo, e tudo mais.

Meu pai costuma dizer, com razão, que quem “faz a sua parte” na verdade não faz. Porque só acaba quando termina: enquanto ainda houver alguma coisa para fazer, qualquer coisa, sua atuação ainda é necessária. Mesmo que a próxima etapa não seja sua, mesmo que ela dependa de outra pessoa em quem você não manda, mesmo que supostamente a “sua parte” já tenha acabado — mesmo em todas essas circunstâncias, se o serviço ainda não estiver concluído, então você ainda tem que atuar. Se o final é algo que você tem que atingir, então, enquanto você não chegou a ele, é você quem tem que atuar. Se é você quem vai ter que apresentar resultado no final, não vai adiantar dizer que “fez a sua parte” ou que “foi Fulano quem atrasou”: foi você quem não entregou resultado, e Fulano não vai ser cobrado nem tem interesse nele. A “sua parte” não é aquele pedacinho onde você consegue atuar sòzinho ou fàcilmente; ela é TUDO.

Em suma: tem que haver menos princípio da inércia e mais Geraldo Vandré.

P.S. É claro que, na época da avaliação de equipe e da concessão de aumentos remuneratórios, os preguiçosos vão reclamar que não foram contemplados, que “trabalharam muito” e não estão sendo reconhecidos… Só que “trabalhar muito”, para mim, não é ficar sentado à mesa oito horas por dia, jogando Paciência no computador refazendo tarefas porque ficaram mal feitas na primeira vez. Para mim, “trabalhar muito” é entregar os resultados esperados ou mais.

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Os rótulos supersimplificadores

Hoje cedo, tou eu lá no elevador, aquele papo de vizinho só esperando a hora de chegar no térreo para não ter que ouvir mais besteira, e a vizinha me conta que, de acordo com o médico de seu genro, torcer o pé é pior do que quebrar. “É mesmo?”, pergunto, “por quê?” Ela me responde que não sabe, porque não perguntou. Aí eu digo, “por que não? Eu pergunto sempre, sabe por quê? Porque, em geral, depois vou acabar tendo que responder pela coisa, então é bom conhecer bem a ideia, antes de comprá-la”.

Aí ela me pergunta se eu sou advogado.

Ora, pombas, eu não sou minha profissão! Por incrível que pareça e a despeito do que falam de mim, eu sou (infelizmente) um ser humano, com toda uma formação, experiências, gostos diversos, já li sobre todo tipo de assunto, já viajei a alguns lugares, já vi vários filmes, li vários livros, e só trabalho durante dez das 24 horas do dia. O resto do tempo eu passo fazendo outras coisas. Sei fazer ovo frito, sei instalar um drive de CD com conector SATA, sei comandar rolamento num Cessna 172, e fico um tanto ofendido com essa abordagem minimalista e, principalmente, rotuladora: “você pensa assim, logo você é advogado”. “Você sabe que máquina de calcular também erra, logo você é engenheiro”. Essa última veio do professor de Contabilidade, que, aliás, não é contador e, portanto, devia saber como dói o rótulo.

Pois saiba a Dona Vizinha que eu comecei a pensar assim mais ou menos no tempo do pré-vestibular e que o que sedimentou esse pensamento foi o serviço militar, onde regularmente te chamam à responsabilidade, de modo que você logo aprende que devia ter feito várias perguntas antes de abraçar a missão porque, depois, quem vai ter que respondê-las é você. Não é à toa que, ao fim de uma instrução, o instrutor sempre pergunta, bem alto e demarcado, “Dúvi-DÁS?” e não há vergonha nenhuma em responder “Sim, SeNHOR!” Não é burrice, é prevenção e, acredite, isso não é mal visto. Porque, depois, já não é dúvida, é dívida. E pode ter certeza de que alguns superiores têm um desejo secreto de que nenhum subordinado queira ser aquela única voz a dizer “sim, senhor”, porque aí vão poder cair em cima depois, sabendo, de antemão, que a missão é muito mais difícil do que parece. Alguns, não todos.

Aliás, esta tem sido uma política de grande sucesso na minha vida e contribui, em muito, para reduzir minha responsabilidade sob a aparência de aumentá-la: sempre pergunto tudo que não entendi. Prefiro, sim, passar por burrão uma vez, ser aquele único cara que não entendeu. Porque a verdade é que tem muito mais gente que também não entendeu e que está morrendo de vergonha de perguntar; aliás, não sabe nem que pergunta fazer, porque entendeu ainda menos do que eu. Como diz meu pai: o sinal de inteligência não está tanto em responder certo quanto em perguntar certo. Só tem dúvida quem entendeu alguma coisa; quem não entendeu nada não tem nada a perguntar. Então, não vou ficar inerte feito os demais idiotas; como dizia Titio Roquete, “cobra que não se mexe não engole sapo”. Se eu pergunto, pelo menos eu saio dali sabendo alguma coisa; dos outros não sei.

Então, vou eventualmente passar por burrão uma vez (ou nem isso), mas vai ser a última vez, porque, daquele ponto em diante, serei aquele cara que sabe e nunca mais perguntarei aquilo. Essencialmente, mudarei de lado. Desse jeito é que pergunto tudo: pergunto ao médico, porque preciso saber o que fiz que me causou o problema; pergunto à chefe, porque depois vou ter que trazer resultados, então preciso entender bem o que ela espera de mim; pergunto ao professor, porque vou fazer prova e preciso saber como ele pensa; pergunto ao vendedor, porque quem vai ficar com um produto que afinal não me atende sou eu.

É claro que, às vezes, minha pergunta, feita com toda a boa fé (juro!), pode acabar, sem querer, desmascarando a ignorância de quem estava lá bostejando na esperança de ninguém perceber. Aí eu pergunto e o cara se irrita. Felizmente, com o correr dos anos fui aprendendo a detectar, bem cedo, quando é que o falsário não sabe do que está falando, e aí nem perguntar nada, ou só perguntar uma vez para já entender o que está acontecendo.

E isso mostra que sou advogado? Se mostra, então quem não entendeu nada fui eu. Há quem me diga que advogado é assim mesmo, questionador, sempre se insurgindo contra as regras, sempre combativo. Ora, mas eu só pergunto! Raramente começo ou sequer termino dizendo que “está errado”, raramente digo que não vou cumprir a regra. Ao contrário: no meu tempo de vida já encontrei vários advogados idiotas, muitos dos quais se limitam ao positivismo míope de que “está escrito, então tem que cumprir”, como se a regra fosse uma espécie de inevitabilidade sagrada, escrita na pedra, a ser fiscalizada por um ser onisciente que vai derramar enxofre e cinzas sobre quem for pego mijando fora do penico. Aliás, mais comuns são aqueles que pensam que as leis se cumprem sòzinhas, como se não fosse necessária uma vontade e uma atuação humanas para as regras se materializarem. O cara acha que, só porque alguém, sei lá, cometeu alguma improbidade funcional, automàticamente vai estar demitido do serviço público no dia seguinte, por milagre, ignorando o fato de que ainda é necessário (1) ser pego, (2) haver provas, (3) seguir-se um processo administrativo etc. etc. Ou, então, assim: “põe aí uma cláusula de que eles prometem que, se houver desconto, vão ter que devolver o dinheiro”. “Tá. Mas, e se não devolverem? As pessoas fazem o que querem mesmo, você sabe. E aí como faremos para cobrarmos? Aliás, como faremos para sequer descobrirmos que descumpriram?”.” “Ah, não, mas aí vão estar descumprindo, e aí não pode! Então, põe aí a cláusula, que vai dar tudo certo”, como se a outra parte morresse de medo de descumprir o contrato por, com isso, incorrer na ira do Olimpo. Como se, a partir daí, o cara, que não ia pagar, passasse a ter a iniciativa de pagar, só porque eu disse que é feio se omitir, mesmo sabendo que eu não tenho como fiscalizá-lo.

Fico revoltado com isso. Eu construo minha personalidade a duras penas, sendo elogiado e censurado, pagando em dinheiro ou em credibilidade, tomando decisões difíceis, observando os resultados, tentando fazer melhor na vez seguinte, incorporando a experiência – e Dona Vizinha simplifica tudo sob o abrangente rótulo de que é porque sou advogado. Eu não sou o que eu faço! Eu sou eu, eu sou muito mais do que minha carteira da Ordem!

Quinem a velha a quem ofereci lugar no ônibus. Na época, eu estava no Exército, mas, naquele dia, estava sem farda. “Você é militar, né?” “Sim, senhora, como percebeu?” “É que foi tão educado…” Ah, p#$%a, TNC a velha! Meus pais não me deram educação, não? Teve que ser o Exército? If anything, o Exército me ensinou que as praças deveriam ser tratadas como uma espécie de sub-estrato que não merece respeito, contrariando tudo que aprendi em casa sobre profissionalismo e urbanidade. Mais de um soldado me disse ter ficado espantado que eu os tratasse feito gente. Voticontar, não é fácil nem intuitivo ter que tratar por “você” um sargento com o dobro da minha idade.

Mas, enfim, tudo isso são apenas rabugices, não é verdade? Eu devo ser é um covarde, que vim resmungar aqui em vez de espinafrar Dona Vizinha.

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RAF a baixa altitude

Nos últimos dias, andei assistindo a diversos vídeos de aviões no YouTube. Creio pertinente dividir com quem também gosta.

Conforme alguns textos aqui embaixo já indicam, neste ano compareci ao Royal International Air Tattoo, um evento de dois dias onde, das 10 às 18 h, aviões militares voam na sua frente nonstop. Recentemente subi dois vídeos, um de um Harrier GR7, outro de um C-17A, ambos filmados no evento.

Agora, apresento alguns do F-22A, que encontrei no Tubo, feitos por outras pessoas. Estão pràticamente no mesmo ângulo com que vi ao vivo, com a diferença de uma qualidade de vídeo melhor do que a da minha câmera, sob todos os aspectos, inclusive de enquadramento e estabilidade.

Primeiro, tem a decolagem do F-22, que é impressionante. Chamo sua atenção para os vórtices de ponta de asa e na ponta da deriva, que ficam bastante visíveis com a condensação e o escapamento dos motores.

E agora o melhor destes três vídeos do F-22, mostrando mais, mais de perto e com melhor qualidade.

Depois, encontrei alguns vídeos feitos numa região de Gales chamada Mach Loop. Os aficionados sobem a montanha e ficam à espera, câmeras em punho, esperando os jatos rápidos da Real Força Aérea, que, em treinamento, passam a alta velocidade e mais baixo do que a altura dos vales. A explicação está aqui. E, aqui, você encontra algumas excelentes fotografias tiradas ali. Você tem mais explicações e excelentes amostras aqui.

E agora os vídeos. Abaixo você poderá ter boas vistas de Hawk 100, Hercules, Jaguar, Tornado GR4, Typhoon, e até um F-15E da USAF. Supostamente, os Hawks vêm de RAF Valley, uma base próxima dali. Os demais não sei, mas nunca vêm de longe. Para começar, dois Tornados.

Neste aqui, repare que, depois do Hercules, vem um Tornado. Quando ele faz uma curva à direita, forma-se condensação acima da asa, indicando o descolamento da camada limite.

Aqui são Typhoons.

Este é de um Tornado.

Esta é a vista traseira do cockpit de um Hawk que percorre esse terreno.

E, por último mas não menos importante, uma miscelânea.

Este aqui foi no Distrito dos Lagos, uma região montanhosa e agreste no Noroeste da Inglaterra, quase divisa com a Escócia. É uma região muito usada por montanhistas, gente que gosta de acampar, de passar frio na chuva fina, de fazer longas caminhadas no meio das pedras, mas também pelos pilotos em treinamento a baixa altitude. Então, numa dessas saídas ao frio ar livre, a vítima capturou um Jaguar.

Mais vídeos no nosso plantão.

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RIAT 2010 — Harrier e C-17

De ontem para hoje, subi mais dois vídeos do Royal International Air Tattoo 2010. Estão no YouTube, mas, para facilitar sua vida, seguem também abaixo, inclusive com os textos que os acompanham. Aproveite.

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Harrier hovering at RIAT 2010

A BAE Harrier GR7 from 4(R) Squadron displays its hovering abilities before the amazed crowd at Royal International Air Tattoo 2010 on Saturday, 17 July. The sound was the loudest we had at the event. As my wife filmed this, I stood at her side but, even if I shouted at her, she could barely hear me. That’s Pegasus engine noise for you! Our Sony CyberShot DSC-TX1’s sound filter preserves your ears now, though.

Please pay attention to the columns of smoke, shooting vertically from the four nozzles, which go to show the Harrier’s vectoring to good effect.

At the very end, the voice you hear is mine, asking Wife to stop shooting. Battery was low, I feared the camera would not have enough of it to record the movie to the flash card, and this is what I was telling her.

Um BAE Harrier GR7 do Esquadrão 4(R) (Reserva) demonstra sua capacidade de pairar perante a multidão impressionada no Royal International Air Tattoo (Real Desfile Aéreo Internacional) 2010, no sábado, 17 de julho. O ruído foi o mais alto que houve no evento. Enquanto minha esposa filmava isto, eu fiquei ao lado dela, mas, mesmo que eu gritasse, ela quase não conseguia me ouvir. Assim é o ruído do motor Pegasus pra você! Agora, porém, o filtro de som de nossa Sony CyberShot DSC-TX1 preserva seus ouvidos.

Preste atenção às colunas de fumaça, ejetadas verticalmente dos quatro bocais, que mostram a vetoração do Harrier de modo eficaz.

Bem no finalzinho, a voz que você ouve é a minha, pedindo a Esposa que pare de filmar. A bateria estava no fim, eu temia que a câmera não fosse ter o suficiente para gravar o filme no cartão de memória, e era isso que eu estava dizendo a ela.

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Boeing C-17A Globemaster III landing at RIAT 2010

After a remarkable demonstration of agility for an airplane this size, a C-17A from the 58th Airlift Squadron, 97th Air Mobility Wing, US Air Force, lands at RAF Fairford, nearing the end of its participation on the Saturday, 17 July, portion of the Royal International Air Tattoo 2010. Please take note of the high sink rate approach, followed by a short landing run with thrust reversers. According to the host, this ability is in much-needed use today in Afghanistan, reducing the aircraft’s exposition to guns at the vulnerable moment when it approaches, lands and stays on ground at forward bases.

Após uma notável demonstração de agilidade para uma aeronave deste tamanho, um C-17A do 58o. Esquadrão de Transporte Aéreo, 97a. Ala de Mobilidade Aérea, Força Aérea dos Estados Unidos, pousa na base Fairford da Real Força Aérea, próximo do fim de sua participação na porção de sábado, 17 de julho, do Real Desfile Aéreo Internacional 2010. Observe a aproximação em alta razão de descida, seguida de uma corrida de pouso curta com reversores de empuxo. Segundo o apresentador, essa capacidade está em uso necessário hoje no Afeganistão, reduzindo a exposição da aeronave a armas de fogo no vulnerável momento em que se aproxima, pousa e permanece no solo nas bases avançadas.

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De especialistas marca barbante

Aqui tem uma entrevista com o Autor de quadrinhos Robert Crumb, um dos ícones vivos da contracultura dos anos 60. Em determinado trecho, diz o entrevistador:

Em Paraty, o cartunista, antes esperado como o grande nome da Flip, saiu de lá tachado com um chato, já que a mesa em participou ao lado de seu amigo e também cartunista, Gilbert Shelton, criador dos Faboulous Freak Brothers, decepcionou a muitos. Crumb é avesso a jornalistas e a fotógrafos, e realmente não tem muito a ver com algo como a Flip. Mas o grande equívoco foi escalar um mediador que não conhecia a obra de Crumb a fundo, tampouco de quadrinhos.  E aí na imprensa lemos bastante que “Crumb é um chato, ranzinza e mal educado, a Flip deveria chamar só escritores etc.” Ele pode ser ranzinza e mal educado por conta dos lugares comuns que sempre lhe perguntam, ou coisas como se havia muita competição nos quadrinhos underground nos anos 1960, na Califórnia. A essa pergunta, no debate, ele questionou duas vezes: “Você está bricando?” [“Are you kidding?”].

Extremamente educado, simpático e gentil, (…)

E aí eu digo: de fato, a escolha do mediador faz uma diferença enorme. Em 1996, fui convidado pelo Prof. Paulo Metri, então diretor cultural do Clube de Engenharia, para ser um dos debatedores após uma exibição do filme Jornada nas Estrelas VI, no auditório do clube. Aceitei muito honrado, porque o tema é caro a mim e eu era (ainda sou) muito preparado para discutir qualquer aspecto de Jornada, em especial esse filme.

A exibição foi um sucesso, o filme se presta a várias discussões sobre geopolítica, ecologia, ideologia, pacifismo e anacronismo, eu e minha amiga Patricia contribuímos bastante, e o público só saiu porque estava na hora de fechar o auditório. Acontece que, como mediador, o clube pusera um sujeito que nunca tinha assistido a Jornada nas Estrelas nem conhecia nada de nada do tema. Pois o camarada começou atacando o filme — sem se dar conta de que boa parte dos que ali estavam já gostavam bastante dele — e prosseguiu a falar mal dos trekkers como alienados, irresponsáveis — sem se dar conta de que quase toda a plateia era composta por trekkers. De início, foi constrangedor vê-lo antagonizar palestrantes e público sem saber do que estava falando (uma das eternas marcas da arrogância oriunda da ignorância) mas, de certo modo, foi até engraçado como todo o mundo se uniu para praticamente escorraçá-lo de modo paternalista, se é que isso não é uma contradição em termos.

De outra feita, no mesmo Clube de Engenharia, o filme era 2001. Conforme eu já disse várias vezes, sou adepto da tese do Underman de que 2001 seja uma obra aberta: cada um vê nele o que é levado a ver, e o significado do filme só se completa na mente de cada um. É verdade que isso vale para toda obra de arte, aliás para toda obra: afinal, você precisa do receptor para se completar a mensagem. Mas, em 2001, nada tem realmente seu próprio significado: é você que põe seu significado na obra que está vendo. É como se cada pessoa visse um filme diferente.

Só que certas pessoas levam esse tecido aberto a extremos. Lembro-me de um senhor idoso velho, componente da mesa de debatedores, que, quando o filme terminou, começou a malhá-lo dizendo que sua principal mensagem era denunciar o ridículo do capitalismo americano. Exemplificava com as cenas da comissária de bordo, servindo bandejas devagar em zero-g com seu capacete branco redondo, e dos astronautas jogando xadrez com Hal. WTF?! Posso até entender que ele considerasse ridícula a cena da comissária, mas claramente se via que o ancião velho não conhecia o contexto em que o filme fôra feito (bem na parte mais excitante da Era Espacial, 1964-68), não tinha lido o livro 2001 original nem o livro onde Arthur Clarke explica das motivações e procedimentos da criação do filme (anote aí: Lost Worlds of 2001, com tradução esgotada no Brasil, Mundos perdidos de 2001), nem òbviamente tinha estudado qualquer coisa sobre a obra que tinha acabado de ser exposta.

Portanto, cuidado com isto. Quando for convidar alguém para ser debatedor ou mediador em qualquer seminário, congresso, painel, mesa redonda, o que for, tenha atenção a quem você estiver chamando. Certifique-se de que a pessoa conheça o tema. Aliás, isso vale para qualquer convite que se faça para qualquer coisa, não é verdade?

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Completamente fora de contexto, uma citação de Alex Castro

Cuba é um país como qualquer outro. Você não tem opiniões fortes sobre a Nigéria sem saber nada sobre ela, então também não saia levantando o dedo, brandindo contra ou a favor do Fidel, sem nunca ter se informado a respeito. Se você tem interesse o suficiente por Cuba pra ter opiniões fortes, então também deveria ter interesse o suficiente para ler um livro sobre o assunto. Caso contrário, desculpe a franqueza, mas você é a definição do idiota ignorante.

O original está aqui.

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Uma tuitagem mais duradoura

Joguei isto no Twitter, mas quero deixar mais fixo e recuperável. Então, repito aqui.

You can take the boy out of the favela, but you can’t take the favela out of the boy: http://bit.ly/aCeQXA

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Em uma nota mais animada, acabo de subir um vídeo. Fui eu mesmo que fiz em Duxford em 10 de julho:

É um Balbo, ou seja, uma grande formação de aviões, desfilando comemorativamente. Nos comentários do vídeo, identifico-os. Taqui a tradução do que digo lá:

Museu Imperial da Guerra em Duxford, 10 de julho de 2010, 16:56. À medida em que a formação se aproxima aparentemente por sobre a B-17G Sally B, o som aumenta para uma fileira de motores Merlin e radiais. Da testa à cauda: P-51 Mustang + Sea Fury + Fury + F4U Corsair, três AD Skyraiders, quatro Mustangs, três Spitfires + HA.1112 Buchón (Bf 109 fabricado na Espanha com motor Merlin), três Spitfires, P-40 + dois Spitfires, três Yaks.

Algo não vai muito bem com minha memória. Distintamente me lembro de ter visto o Bf 109 autêntico (com motor DB 605) em formação com Spitfires e o I-16; entretanto, não os identifico no vídeo. Contribuições são bem-vindas.

Esses nem são todos os aviões que participaram do Flying Legends. Houve outros Spitfires; houve o Battle of Britain Memorial Flight (Esquadrilha Comemorativa da Batalha da Inglaterra) com seus Lancaster, Spitfire e Hurricane; houve Bücker monoposto e biposto; houve Gladiator; houve Bearcat; houve Sally B escoltada por Mustang; houve MS.406.

No FL 2008, o Balbo não tinha Skyraiders, Fury nem Sea Fury, mas tinha Wildcat, P-39, B-25 e A-26. Ainda não o subi, mas, de todo modo, o filme não ficou tão bom.

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Era dia 21 de julho, e eu estava a 1200 pés

Do jeito como é a vida, corrida, atropelada, é provável que eu nunca venha aqui escrever sobre a viagem da qual voltei no último sábado. Mas vou dizer quais foram os pontos altos: a decolagem de um B-52 (evento que havia anos eu esperava poder testemunhar e que, de certo modo, era o mais aguardado), a decolagem do Vulcan XH558 (jogue XH558 no Google para entender a importância) e um voo de apenas 28 minutos onde o piloto em comando… era eu. Tirei a foto abaixo para provar. Ou melhor, só provo para quem acredita, porque, para quem não acredita, a foto não prova nada.

Muito melhor do que Flight Simulator!

Ao comando de um Cessna 172S. Ao fundo, a ilha de Wight, objeto de comentário em http://www.baxt.net/blog/2009/04/13/voltei-para-casa/

Òbviamente, eu não estava sòzinho. O instrutor tinha mais de 13.500 horas, a maior parte das quais voando linhas domésticas na British; e a aeronave tinha um full glass cockpit todo modernão, onde os instrumentos apareciam no LCD.

E vou dizer uma coisa, viu. O avião voa sòzinho se você tirar a mão dos controles, nivelado e retinho. Mas, se você encostar de leve, ele over-obedece, é muito sensível. Um toquezinho de nada, e o nariz levanta ou mergulha. E acontecem coisas engraçadas também. Por exemplo: encontramos uma térmica e o avião começou a subir sòzinho, sem ser comandado. Com aquele tanto de asa que o 172 tem, é inevitável, então eu tinha que toda hora comandar mergulho. Conclusão: passei mais tempo me concentrando nos instrumentos e tentando não exagerar as manobras do que realmente olhando pra fora. Acontece; é bom que se aprende. Mas valeu cada minuto, cada segundo.

No mesmo dia, à tarde, caminhamos sobre o muro da cidade de Chichester, erguido no tempo dos romanos. Um passeio que indico.

Além disso, foi só tardiamente que descobri que London Pride é uma excelente e macia ale. Tardiamente porque já estava na sala de embarque, voltando para o Brasil, sem nunca ter pedido um pint no JD Wetherspoon. Fica para uma próxima.

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Pessoa jurídica comete estelionato?

Em 20 de outubro de 2009, fui à loja da Claro na avenida 13 de Maio, no Rio. Queria trocar meus pontos acumulados por um telefone celular. O vendedor Lucas James(*) foi muito solícito. Perguntei-lhe, inúmeras vezes, se havia alguma condição, se eu tinha que pagar alguma coisa, se eu tinha que adquirir algum plano diferente. A resposta foi sempre que não. Saí de lá não com um, mas com dois aparelhos, e ainda deixei um bom saldo na minha contagem de pontos. Senti-me premiado por minha fidelidade (freguês desde 2003, sem atrasar uma conta, porque pobre sempre respeita data de vencimento de conta, nem que seja tirando da comida dos filhos).

Passados três meses, em fevereiro de 2010, vem uma cobrança da Claro: Pacote Fixo 100 minutos + Pacote 50 torpedos, por R$ 54. Telefonei para a Claro e me informaram que, em 20/10/2009, eu  havia sido inscrito nesses pacotes (!!!) e que o Bônus 1200 minutos havia sido ativado. Mandei (e, supostamente, consegui — não sei; vamos ver a próxima fatura) mandei me desinscrever (ou seria “descrever”?) desses pacotes, mas, como o bônus havia sido ativado, não era possível estornar a cobrança. Detalhe: eu nunca fui informado de que haveria bônus. Nem, por óbvio, contratei pacote nenhum.

Mais: o atendente diz que não tem autonomia para estornar. Passa a ligação para quem também não tem, que passa a ligação para o “setor de contas” — e a ligação cai.

Você já reparou como é comum que as ligações caiam quando você liga para fazer reclamação?

Então, liguei de novo. O setor de contas diz que o sistema está indisponível

(já reparou como o sistema está sempre indisponível?)

e que só depois das 23:30 h.

Aliás, o telefone 133, da Anatel, só atende em dias úteis, e só até as 20 horas.

Vou tentar de novo com a Claro. Mas, na primeira oportunidade, vou também à loja da 13 de Maio, ter uma conversa com o gerente que ensinou Lucas James(*) a aplicar golpe nos clientes. Desnecessário dizer que, três meses depois, o gerente é outro. Não que isso faça alguma diferença.

Ainda não desisti, mas tampouco tenho muita esperança. O pior é que eles sabem que eu não vou à Justiça por causa de R$ 54; os gastos de dinheiro, tempo e energia não compensam.

E é assim que eles vão erodindo seu dinheiro: hoje, a Claro me toma R$ 54; outro dia, o cartão de crédito me morde R$ 20; depois, a Oi tunga uns R$ 15; e nessa, em um ano, quanto vai? Quanto já paguei a eles, acumulado até hoje, desde que comecei a trabalhar? Mil, dois mil reais? Quanto tempo até o pombo gastar o planeta inteiro com o roçar da asa?

É frustrante. O dinheiro que a gente economiza — não dá em árvore, sabia?, nem algum tio rico me deixou de herança — eles vêm e tomam; e sabem que você não vai fazer nada, porque, onde não há justiça, não há como recuperar sem perder mais no processo.

Uma lição fica confirmada e é por isso que há tanto tempo a pratico: não aceito nada. Não aceito nenhuma promoção. Toda vez que me ligam oferecendo algum plano, algum benefício, alguma vantagem, minha resposta é sempre não. Se fosse bom para mim, eles não ofereciam; eu é que teria que descobrir. Se eles estão oferecendo, é que é bom pra eles. Outro dia, a Oi me ligou oferecendo um maravilhoso plano para ligações internacionais; eu só teria que aderir, pagar um nada irrisório, e teria ligações internacionais gratuitas. Minha resposta foi não. É óbvio que, na letrinha miúda, a promoção só seria válida entre 02:30 e 03:30 da manhã e que as tarifas da Oi e da Embratel, somadas, viriam acima do dobro do normal.

Nem tenho escrúpulos em maltratar telemarqueteiros enviados pelo Diabo. Antigamente, eu me divertia à custa deles, até que fui censurado por pessoas próximas, que diziam, “coitados, eles não têm escolha”, “só conseguiram esse emprego, e a vida é dura”. Por causa disso, parei de escarnecer deles por um tempo, limitando-me a dizer que não estava interessado.

Só que é o seguinte: respeito é uma via de mão dupla. Eles telefonam quando estou dormindo, eles ocupam a linha quando estou esperando ligação, eles insistem, eles teimam, eles me afrontam (“mas por que o senhor não quer o plano?”) como se eu lhes devesse alguma coisa. E eles se recusam a ir embora. Então, pombas, vou devolver na mesma moeda. Já tive que me sujeitar a muito capricho de gente mais burra do que eu, ainda vivo me frustrando com gente inepta que se esconde atrás de “procedimentos administrativos” para não responder pela própria ignorância, e não estou sendo pago para ter paciência. Então, não vou mais me incomodar em ser grosseiro com essa gente. Estudassem mais e escolhessem outro emprego, porque, nesse, eles ganham a vida infernizando os outros e sabendo disso. Natural, portanto, que um dos riscos ocupacionais seja ouvir desaforo. Não tenho que ser gentilzinho, “meu tempo é precioso”.

Assim foi que, em ocasião mais recente, novamente a Oi me ligou oferecendo um plano para eu pagar menos. E perguntou quanto eu pagava atualmente. Tive que pular na oportunidade:

— Peraí, peraí, peraí. Você trabalha na Oi.

— Trabalho.

— E você não sabe quanto eu pago à Oi.

— Se o senhor quiser, eu posso puxar sua fatura.

— Não, não, não precisa: eu sei quanto pago. Só que — como é que você pode saber que eu vou pagar menos com sua oferta se não sabe quanto eu pago? [Teòricamente é possível, só que ela não sabe disso.] Aliás, como é que você liga pra mim, pra me oferecer qualquer coisa, sem saber quem sou eu ou qual é meu perfil de cliente? Pra mim, isso é negligência, isso é falta de cuidado, isso mostra que você não está nem aí, que pra você eu sou só um número, não um cliente de carne e osso. Você tem muita sorte de eu não ser seu supervisor, porque, se fosse, você já tinha sido demitida.

Foi por aí a conversa. Isso que coloquei acima é só um resumo. Amigo meu me conta que já foi responsável por call center e que esse tipo de ligação costuma ser usado em treinamento. Se for verdade, eu infelizmente estou mais ajudando essas empresas do que outra coisa. Mas vou te contar, do alto do meu recalque e mesquinharia, ajuda a descarregar a tensão. Eu pràticamente me senti um ator, desempenhando um personagem, com a vantagem adicional de ser mais barato do que pagar médico para me curar da neurastenia.

… Ou, como diz esse mesmo amigo: TNC todo mundo. Se o mundo está assim, quero mais é que se acabe mesmo, e o mar suba e engula todos os call centers e suas maldosas criaturas das trevas. Pra assistir a isso, pago até ingresso.

(*) Lucas James não é seu nome real. Não criei este belogue para ser processado por difamação, embora seja tudo verdade e ele se tenha, sim, configurado como um estelionatário capaz de qualquer pilantragem para ganhar comissão. Entretanto, se você tiver bom conhecimento de latim, descobrirá o verdadeiro nome desse leprechaun traiçoeiro. Mais não direi.

Passei! Passei no teste!

Por décadas, os nerds fomos rejeitados. Quando eu estava no Exército, havia um coronel que me chamava de nerd. Acho que, em certa medida, ele estava me ofendendo, ou era sua própria noção distorcida do que seria um tipo de humor não ofensivo, mas, em igual medida, eu na verdade me orgulhava. Porque nós, nerds, sempre nos achamos superiores, certo?

O problema é que, hoje, ser nerd é maneiro. Então, todos os não-nerds ficam dizendo que são também. Não adianta negar nem explicar, porque eles nem sequer SABEM o que é ser um nerd, e de boa fé estão achando que são. Deixe-me dar-lhes a dica: se você deixou de entender uma porção significativa das piadas de Big Bang Theory e só riu dos nerds da série “porque eles são engraçados”, ou porque são diferentes de você, então você não é um nerd. Muitas vezes, Sheldon não está só fazendo piada com os nerds, mas com você, que não é.

Nerds acham graça na maior parte das piadas de http://xkcd.com/. Nerds acham graça em todas as piadas (que tenham graça) de http://www.phdcomics.com/.

No ano passado, vi-me jantando com uma amiga atriz logo depois de sairmos do teatro onde ela fazia a madre superiora nA Noviça Rebelde. Junto vieram três de seus amigos do teatro, atores ou sei lá, e uma das sem-noção desse grupo começou a me perguntar o que é um nerd. A sério. Tinha ouvido a palavra mas não sabia o que era. Depois que expliquei, a desconectada criatura teve a desfaçatez, a ousadia, o desplante de me dizer que então era uma nerd.

Não, jovem, não é. Para entender a mente nerd, leia o Cardoso. Especialmente aqui. Não posso escrever melhor do que ele. Não se chega a nerd por vontade ou esforço pessoal. Se você precisa se esforçar, então automàticamente é impossível que se torne um nerd.

É frustrante. A vida inteira, ser um nerd era estar na de fora. Agora que os nerds conquistaram o mundo, agora que estamos por cima e ganhamos mais dinheiro (bom… menos eu), agora que é legal ser nerd, todo o mundo quer dizer que é nerd também! Porra, assim não dá! Os caras querem ter o bolo *e* comê-lo?!?! Só querem ganhar sempre sem trabalharem nunca?!

Ser nerd não é uma espécie de clubinho onde você entra só porque se diz sócio. Você nem sequer entra; você tem que já nascer dentro, ou melhor, um dia se descobrir dentro. E essa gente toda está querendo entrar, usurpar indevidamente.

Alguns de vocês podem estar acompanhando minha lenta e longa atualização das 500 respostas ao teste de nerdidade. Só que o teste é muito específico e datado. A época é claramente o início dos anos 90, e o viés das respostas fica muito alterado.

MAAAS acabo de descobrir uma versão atualizada do teste:

http://nerdtests.com/ft_nt2.php?score

É óbvio que o fiz imediatamente. E passei!

Taqui meu resultado. Foi alcançado, entre outras perguntas, sendo capaz de fornecer uma tabela periódica, um mapa-múndi, um mapa do mundo antigo e um exemplar da Ilíada, cada um em menos de quinze segundos. Quem se acha um nerd, saiba: pois eu sou um Cool High Nerd.

(Não consigo fazer upload da figura, mas foda-se. Sou um Cool High Nerd, não preciso provar nada.)

Meu resultado (1)
Meu resultado (1)
Meu resultado (2)
Meu resultado (2)

Consolidado (com base na versão feita minutos antes dessa que está acima):

Meu resultado (consolidado)
Meu resultado (consolidado)

 

EOF

Tijuca, Rio de Janeiro, 24 de dezembro

Esta postagem nasceu como uma tentativa de comentário em resposta à postagem de Feliz-Natal da BAxt. Só que comecei a me estender demais lá, de modo que desisti e resolvi ocupar meu próprio espaço, não o dela. Mas a ela dedico este texto.

Ontem, véspera de Natal, entre 18:30 e 19 horas, eu ia andando pela rua junto com Esposa quando passamos por um cara que parecia não estar se sentindo bem.

Em pé, parado e de olhos fechados, apoiava-se na ventilação do metrô, a cabeça um pouco oscilante. Parecia muito aflito, como se tivesse uma baixa de pressão (conheço a sensação, é apavorante). Eu ia passando por ele, mas chamou tanto minha atenção que parei e voltei dois passos. Perguntei a ela: ajudamos?

Nesta cidade, é foda, você tem medo até de oferecer ajuda; mas pensei, é mais provável ele estar precisando do que não e, se fosse eu, bem que eu ia gostar de receber uma ajuda necessária. Então, hesitante e guardando um meio metro (vai que é maluco), pedi licença e perguntei se estava se sentindo bem.

Sem abrir os olhos, disse que não. Perguntei o que sentia. Sede, disse ele, entreabrindo os olhos mas sem se mexer. Pressão alta e uma falta de ar.

O cara não era nenhum mendigo. Magro e barbeado, estava vestido com camisa de botão, calça comprida e boné, tudo humilde mas arrumado. Na mão, só uma carteira. Vendo-se diante de mim, arregalou os olhos e começou a explicar a história atabalhoadamente. Repetiu que era pressão e que sentia sede.

Pedi à Esposa que fosse ao mercado próximo (nem dez metros), comprar uma água de 500 ml. Enquanto isso, antes que também eu ficasse tonto, e mantendo o distanciamento (afinal, vai que ele é, sim, ladrão), resolvi assumir o controle e comecei a fazer perguntas para eu mesmo montar o quebra-cabeças.

Pelo que contou, o sujeito é caseiro e mora sozinho no pé da serra de Teresópolis. Todo ano, no Natal, desce para visitar uma família que mora por ali. Só que, este ano, chegou e não encontrou ninguém; tinham vendido a casa. Estava desde o meio-dia no Rio de Janeiro, sem lugar para ir nem dinheiro para voltar. Como já escurecia e ele não queria passar a noite na rua no Rio, estava ficando nervoso. Com isso, a pressão foi subindo (palavras dele), a bronquite/asma começou a tirar-lhe o ar e ele sentia muita sede. As mãos tremiam.

Olhei em volta. Nenhuma farmácia, nenhum carro de polícia passando, pensei em ligar 192 mas ponderei, preciso mesmo acionar o SAMU? A vítima está lúcida, ambulância é pouca, deixa os feridos terem sua prioridade.

Ofereci-me a levá-lo a um posto de saúde que tem do outro lado do quarteirão. Ele ficou aflito: que a PM já tinha se oferecido a levá-lo a uma tal de UPA (confere: Unidade de Pronto Atendimento, perto dali também), mas ele tinha medo de médico, e não estava doente, nem queria ficar numa maca num lugar estranho, só queria ir pra casa, que em casa ele tinha a bombinha e sabia que melhorava. Disse que tinha vergonha de pedir qualquer coisa, por isso não queria pedir nada a ninguém, já tinha tomado seis ônibus (possível exagero), era a primeira vez que isso acontecia, não tinha ninguém no mundo, só queria voltar pra casa.

Tudo isso ele me dizia olhando no olho, humilde mas sem pedir nada, sem evasivas, sem olhar para o chão ou para os lados como fazem as pessoas que mentem para mendigar. Em um momento, o ar realmente pareceu faltar-lhe; nervoso ele estava mesmo. Parecia prisioneiro de sua situação: evidentemente, seria inútil e complicadora qualquer solução que não o ônibus para Teresópolis, mas a barreira até chegar a ele parecia intransponível.

E a história fazia sentido: se você tivesse 61 anos (mostrou-me a identidade: nascido em maio de 1948) e morasse em Magé, tudo que você ia querer era ficar na sua casa, ambiente conhecido. Deduzi que o nervosismo não era tanto de fome ou desabrigo (suportáveis), mas mais de ele subitamente se ver removido de seu pequeno mundo, sem uma estrutura de amparo, em ambiente desconhecido e potencialmente hostil.

Aí, disse que só precisava de R$ 22,20, sendo R$ 20 do ônibus de volta para Teresópolis e R$ 2,20 até a Rodoviária, um ônibus verdinho que ele sempre pega; e que uma moça lhe tinha dado R$ 8 de ticket-refeição, mas que a passagem ainda era um problema.

O ônibus conferia: linha 606, verde, passa ali mesmo onde estávamos, embora não parasse no ponto imediato, só no seguinte. A conta também conferia: passagem para Teresópolis custa por aí mesmo, e o 606 custa R$ 2,20. Mas continuei a perguntar: o senhor não tem dinheiro para voltar pra casa?

Não: a família que ele visita sempre lhe dá R$ 300 ou 400 e, com esse dinheiro, ele compra a passagem de volta.

E pensei: é muito temerário descer a serra sem ter o dinheiro da volta! Aí veio a autocrítica: isso sou eu, que tenho toda uma estrutura a minha volta, que sempre saio de casa com o dinheiro da despesa prevista, mais o mínimo para resolver imprevistos, e depois reponho o que porventura gasto. Mas vai ser caseiro em Magé! A gente tem que descer a serra mesmo, sem dinheiro para a volta.

Mentalmente, contei quanto dinheiro sabia ter na carteira (uma nota de 50, duas de 10 e uma de 5), enquanto explicava que o ônibus verde não parava ali. O homem arregalou o olho: pára sim, eu sempre venho nele! Esclareci que sim, mas não naquele exato ponto, mas que ali também tem ônibus com destino à Rodoviária. Nisso, passou um 234, mostrei-lhe: olhe, o da Rodoviária é como esse. Parou de falar, fixou bem, disse alto: azul e branco com verde.

Perguntei se ele conseguia ler no ônibus, “Rodoviária”, ele disse que era suficientemente letrado, só não era para aquelas letrinhas no celular, e gesticulou como quem aperta os botões. Esclareci: não é isso, é que podia não estar enxergando bem, se estava passando mal… Mas disse que enxergava, que seu único problema era não conseguir voltar pra casa, e que já não tinha a quem apelar — e aqui arfava, asmático –, então pedia a Jesus que lhe mandasse qualquer ajuda.

Ora, pombas, Jesus! Muito egoísta e muito conveniente pedir para si!

Mas, nesse ponto, avaliei: não queria ir a médico, então eu não haveria de forçá-lo; nem da asma poderia tratá-lo. Não me pediu dinheiro, mas, mesmo assim, podia ser tudo um golpe encenado, claro que podia! Afinal, ele havia dito, claramente, de quanto precisava; e isso já não é pedir? Mas o discurso estava todo coerente, não era aquele papo apressado de pidão profissional com história fajuta.

Refleti: que ajuda eu podia dar? Nesta sociedade onde só o que as pessoas pedem é dinheiro, eu me sinto PÉSSIMO quando isso é tudo que dou. O de que o caseiro parecia precisar era transporte, mas transporte eu não podia dar; podia dar aquilo que se transforma em transporte: desta vez, só dinheiro mesmo! Do mesmo modo, essa necessidade só podia ser expressa na forma de alguma quantia.

Então, fiz o que nunca faço por mendigo nenhum: olhei em volta, nenhum molambo à vista que pudesse vir me assaltar, saquei da carteira, puxei e dei R$ 20, ele agradeceu. Na hora, pensei, isso não completa o necessário, de modo que ele ainda vai ter que se virar na Rodoviária. Não adianta alegar que, lá, muito mais gente poderá ajudá-lo, porque sabemos que não se pode contar com isso.

A outra ajuda era a garrafa de água. Esposa chegou trazendo, abri-a, ele bebeu metade em um gole demorado.

Deixamo-lhe a garrafa d’água, que ele agradeceu penhoradamente, desejando-me também um feliz Natal e qualquer coisa a ver com Jesus (que, mind you, nem passou pela minha cabeça — OK, minto, passou sim, mas para me deixar puto. A verdade é que fui aluno em um colégio católico supertradicional, de modo que, apesar de todo o meu ateísmo, certas doutrinações afloram nessas horas. Como é que você faz quando quer que seu ato não tenha nenhum vínculo com valores cristãos e, no entanto, ele coincide exatamente com o que o catecismo te manda fazer?).

Fico pensando que talvez devesse ter esperado o próximo 234 junto com o caseiro, mas talvez isso já fosse mesmo além do necessário; eu já me havia certificado de que ele poderia se virar sozinho, e ele não me pediu para ficar. De todo modo, ainda me pergunto se fiz bem. Porque dar dinheiro é sempre uma forma de você dizer que ajudou sem ter realmente tido trabalho nenhum, assim se mantendo egoísta mas procurando sair bem na fita. E porque sempre há o risco de, na verdade, eu ter dado esmola a um vigarista. Quanto a essa hipótese, consolo-me pensando que vinte reais a menos no meu bolso vão me causar um dano pequeno comparado com a culpa que se acumulará no carma dele; fica sendo mais um pecado do qual ele terá que se arrepender mais tarde (olhaí o fundamento cristão sneaking back in).

Pelo menos não foi só o dinheiro. Resolvemos o problema da sede (que, recapitulando, foi o que causou minha parada), dei informação sobre ônibus e, em retrospecto, o melhor de tudo parece ter sido ainda uma outra coisa. Veja: o tempo todo respeitei a dignidade do caseiro, ouvindo-o, discutindo soluções, não insistindo em que aceitasse alguma dádiva minha, mas procurando descobrir o que ELE queria. Se pensarmos bem, acho que sua maior necessidade, ali, não era de água, nem de dinheiro, mas de que alguém ouvisse sua história e aplacasse sua ansiedade. Parecia precisar ser tranquilizado de que conseguiria voltar pra casa e de que não ficaria abandonado nesta cidade hostil.

Bem, se lhe dei isso, então dei o que não tinha. Porque, nesta cidade, ansiosos estamos todos, todos procurando nosso lugar de tranquilidade, e eu nem sequer tenho a fé que ele manifestava. Mas, se um caseiro de Magé se livrou de passar o Natal na rua no Rio de Janeiro, então — e que isto fique entre nós –, com isso, ele me deu um presente de Natal melhor do que eu costumo esperar.

EOF

Testando a nerdidade

Alguns minutos atrás, deixei um comentário no belogue da BAxt (linque à direita), dizendo que eu havia obtido 44% no teste de nerdidade. Minha pontuação pode ter caído nos dez anos passados desde então, de modo que resolvi fazer o teste de novo, aqui, na sua frente. Aos poucos. Cinco perguntas de cada vez. Se quiser, vá fazendo comigo. São quinhentas perguntas, que interromperei quando perder a paciência (o que já demonstra uma queda no potencial de nerdidade). Tirei o teste daqui: The Nerdity Test, Version 5.x.cubed.minus.3.x.all.divided.by.2, 5 December, 1993.

1. Você já fez um curso de Matemática “superior”? (Trigonometria, Cálculo) — Já.
2. … na faculdade? — Já.
3. … e recebeu um A ? (Vou traduzir como 7,5 ou mais.) — Já.
4. Você ainda é capaz de fazer o que aprendeu durante #1? — Sim.
5. Você já fez um curso de Ciências? (Biologia, Física, Química) — Já.

Até agora, 5/5. Mas a tendência é que o número caia, até porque  as perguntas seguintes têm um forte viés para a Eletrônica, que  nunca foi minha praia. Mas veremos.

***
Hitler dislikes the Phantom Menace

EOF

USS Nassau em Palma de Mallorca

Em 25 de junho de 2008, entre 12:37 e 13:07 GMT+1, eu estava a bordo do Fokker 100 de prefixo D-AGPE, no vôo Air Berlin 2039, ocupando o assento 14A. Na aproximação final ao aeroporto internacional de Palma de Mallorca, deparei-me com esta embarcação.

USS Nassau em Palma de Mallorca, 25 de junho de 2008USS Nassau em Palma de Mallorca, 25 de junho de 2008

Nos últimos dias, estive processando as fotos tiradas naquela semana. Imaginei dividir esta aqui com quem gosta de navios anfíbios e porta-helicópteros.

Uma breve busca no saite Hazegray mostrará que se trata do USS Nassau (LHA-4). No final de 2008, uma visitinha à página do navio me mostrou que ele estava retornando do Golfo Pérsico (ou seria mar Vermelho?) aos Estados Unidos, o que me faz deduzir que Mallorca fosse uma escala. Provàvelmente a parada terá servido para combinar duas acepções da palavra cruzeiro.

Se você prestar atenção, conseguirá ver que há dois Seahawks sobre o convés de voo. Não sei fazer o WordPress exibir um formato menor do que o original, de modo que tive que reduzir a imagem para 60%. Vou ver se dou um jeito de disponibilizar o tamanho original, mas não garanto.

Para mais detalhes:
http://navysite.de/ships/lha4.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/USS_Nassau_(LHA-4)

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Em uma nota não relacionada: parece até que eu atraio. Anteontem, escrevi um parágrafo sobre o Império Britânico. Hoje a Wikipedia o escolheu como today’s featured article.

***
Visitas recentes:
http://www.interney.net/blogs/lll/2009/06/09/a_pergunta_e_propriedade_intelectual_do_/ (com o qual concordo sem ressalvas)
http://www.interney.net/blogs/lll/2009/06/08/a_petrobras_entendeu_a_internet/ (idem idem)
http://www.fubiz.net/2008/07/13/candidate-as/
http://super.abril.com.br/blogs/videorama/172105_post.shtml
http://caminhantediurno.blogspot.com/
http://verbeat.org/blogs/sergioleo/2009/06/por-que-jornalistas-experientes-fingem-nao-ver-que-a-petrobras-age-errado.html
http://pedrodoria.com.br/2009/06/08/a-petrobras-e-a-imprensa-golpista/
http://www.idelberavelar.com/archives/2009/06/o_blog_da_petrobras_e_o_desespero_da_midia.php#comments
http://anomia.blogueisso.com/
http://isaacasimov.wordpress.com/
http://www.diariodeumpm.net/2009/06/06/sindrome-do-rambo-a-fadiga-do-combate/
http://www.interney.net/blogs/oescriba/
http://trekmovie.com/2009/06/11/location-of-r2-d2-easter-egg-revealed-more-star-trek-easter-eggs/
http://www.worldcommunitygrid.org/
http://www.youtube.com/watch?v=lj-x9ygQEGATotal Eclipse of the Heart literal — PERFEITO, dica do Cardoso
http://www.youtube.com/watch?v=lnjYrP5J6rETake On Me literal, não tão bom mas ainda OK
http://www.youtube.com/watch?v=w0TYun-Nq1QHead Over Hills literal, EXCELENTE
http://www.youtube.com/watch?v=4oMokuYOXCMVader Thriller —  Um personagem tão dramático,  um dos vilões mais temidos do cinema ever (talvez O mais temido) — e difìcilmente voltaremos a levá-lo a sério depois disso.

Na cabeça e na caixa de som: Dukes Intro, In the Cage, Afterglow, Home by the Sea, Firth of Fifth, Domino e Los Endos, em Live Over Europe 2007, do Genesis.

EOF

Fatalismos

Com esse desastre do voo da Air France, naturalmente os alarmes de fatalismo tendem a ser ajustados para sensibilidade máxima, apitando vários falsos positivos até serem desligados.

Mas os meus sensores de fatalismo já estavam ligados desde a véspera. Minha irmã me telefona para dizer que soube, pelo Orkut, que uma determinada colega minha de faculdade, a quem muito estimo, havia casado e enviuvado após quarenta dias.

Depois veio a historinha que vai abaixo.

Alguns anos atrás, eu fiscalizava obras e seus projetos no serviço público. Depois saí de lá, mas mantenho contato esporádico com dois colegas da seção onde trabalhava, inclusive minha ex-supervisora. Sucede que o último projeto que fiscalizei era para umas instalações de ar condicionado em um edifício que estava para ser construído em São Pedro da Aldeia, cidade a uns 120 km do Rio (medi com régua no Google Maps, portanto your mileage may vary).

Depois que saí do serviço público, a obra seguiu. Ora, minha ex-supervisora me mandou um email anteontem, contando que a equipe de fiscalização estava no carro, indo para SPA, quando, na estrada, um acidente interrompeu sua viagem. Morreu o engenheiro eletrônico e ficaram sèriamente feridas a engenheira civil e a arquiteta.

Fico pensando que eu estaria entre eles. Mas fico pensando, também, que, com a minha presença, o carro teria ficado superlotado, obrigando ao uso de uma van em vez de um Gol. Talvez nos salvássemos todos num veículo maior, justamente por minha causa. Talvez não. Talvez acabássemos indo em outro dia e sofrêssemos um acidente pior, que matasse também o engenheiro eletricista e o motorista (que sofreram bem menos na vida real).

São os imponderáveis. Certa vez, eu voltava de Congonhas ao Rio quando a moça do checkin me disse que havia um voo logo antes do meu e perguntou se eu queria antecipar. Para a Varig era bom negócio, porque, semigo, o avião ia decolar mais vazio e o assento não geraria mais receita, estando perdido para eles. Já comigo, o problema do assento vazio ficava adiado de meia hora, para meu voo original, e aumentava a chance de a companhia conseguir vendê-lo no último instante, por uma boa margem de lucro.

Naquele momento pensei: vai que, ao trocar, passo do voo sadio para o condenado e acabo morrendo, clássico caso daquele passageiro que morreu por causa de um acaso bobo. “Era hora dele mesmo, não tinha jeito”, diriam as mães dinás. Por outro lado, vai que meu voo original é que é o condenado e, antecipando, eu me salvo. Ia ser o cúmulo da ironia: o avião despencando e eu pensando, podia ter ido no outro… (Aliás isso tá na música da Alanis Morrissette, não tá? Tá sim, Ironic se não me engano).

Como (1) a probabilidade de queda de avião é bem pequena, (2) não dá pra adivinhar se ou qual vai cair, (3) no caso da eventual certeza de que um deles cairia, a distribuição era cinquenta-cinquenta, preferi raciocinar com a ÚNICA certeza que tinha: se nenhum dos dois caísse mas eu pegasse o voo que saía mais cedo, certamente chegaria mais cedo. Melhor do que passar outra meia hora de estresse num aeroporto apertado. Então, aceitei e, dois anos depois, estou aqui.

Outro fatalismo foi o do casal de brasileiros que morreu no voo da Spanair acidentado em Barajas no ano passado. Não vou detalhar o caso porque acabaria violando a privacidade alheia, mas basta dizer que encontrei pelo menos três semelhanças comigo, sem contar que era o mesmo aeroporto na mesma época. Faz você pensar. Bom, a mim fez pensar que meu Doppelgänger morreu e que, portanto, é bom eu andar pianinho porque perdi meu pára-raios (como é que se escreve agora? É “pararraios”?).

… O que me leva à conclusão de que não adianta a gente se preocupar. Se você vai pegar avião ou estrada, vai pegar mesmo. Não adianta deixar de viver porque o avião pode cair. Você pode ficar em casa e morrer de um acidente bobo: engasgado, eletrocutado na tomada etc. Melhor tomar o cuidado básico de evitar procedimentos òbviamente perigosos e deixar que o Monstro de Espaguete Voador cuide do resto.

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Leituras recentes:

Wonder Woman #20 (setembro de 1988), “Who Killed Myndi Mayer?”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 3 (julho de 2008) — uma história de mistério contra as drogas, passável;
Green Lantern #3 (agosto de 1990), “Sound and Fury”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 2 (junho de 2008) — mal desenhada e um pouco longa demais para a premissa, que é até interessante (Guy Gardner e Hal Jordan saindo na porrada e terminando amigos);
Lobo #1-4 (novembro de 1990 a fevereiro de 1991), histórias publicadas em O Evangelho segundo Lobo (2008) — grotescas, bizarras, malucas e bem divertidas;
John Constantine: Hellblazer: hábitos perigosos, de Garth Ennis e William Simpson, tradução de Enzo Fiuza, outubro de 2008, ISBN 978-85-7316-525-8, incluindo as histórias de Hellblazer #41-46 (maio de 1991 a outubro de 1991) — a cruel e bem divertida estréia de Garth Ennis com o personagem. Eu soube que o filme saiu daí. Bem escrito, bem cínico, trazendo uma apreciação das coisas que valem a pena da vida enquanto se passa a perna no Coisa-Ruim;
Lobo’s Back #1-2 (maio-junho de 1992), histórias publicadas em O Evangelho segundo Lobo (2008) — idem às de cima;
Os Novos Titãs no. 96 (março de 1994), incluindo as histórias de Deathstroke #13-14 (agosto-setembro de 1992) — bem ruim, confirmando que Marv Wolfman estava perdido com os personagens que lhe haviam trazido tanto sucesso oito anos antes;
The Sandman #40 (agosto de 1992), “The Parliament of Rooks”, publicada em Sandman: fábulas e reflexões (2006) — bobinha e fora de sequência (se bem que nada é fora de sequência nessa série);
Justice League Europe #41 (agosto de 1992), “Welcome to the Dark”, publicada em Liga da Justiça e Batman no. 6 (janeiro de 1995) — inútil;
New Titans #90 (setembro de 1992), “That Which Lurks Within a Star”, publicada em Os Novos Titãs no. 97 (abril de 1994);
Batman #484 (setembro de 1992), “Warpaint”, publicada em Liga da Justiça e Batman no. 1 (agosto de 1994), iniciando a Queda do Morcego;
Justice League America #66 (setembro de 1992), “Together Again”, publicada em Liga da Justiça e Batman no. 8 (março de 1995) — história endógena trazendo o Átomo à equipe;
The Sandman #41 (setembro de 1992), história publicada em Sandman: vidas breves. Misteriosa e bem escrita, mostra Delírio à procura de seu irmão Destruição, pedindo ajuda (e não conseguindo) de Desejo e Desespero e decidindo ir pedir a de Sonho, que a assusta;
Hellblazer #57 (setembro de 1992), “Mortal Clay”, publicada em John Constantine: Hellblazer: sangue real — outra bem escrita por Garth Ennis, com John e Chas indo tomar satisfações com quem roubou o cadáver do Tio Tom.

EOF

Balok era apenas um baixinho

(O título acima é para quem viu o episódio “The Corbomite Maneuver”. Não vou explicar.)

Quando eu estudava inglês no colégio e no curso, uma das coisas que vi, mais de uma vez até, foi como escrever cartas comerciais. Era uma redação toda formal, com o endereço do destinatário no canto superior direito, local e data, e abria com “Dear Sir or Madam,” Tinha que ser uma gramática toda castiça, com os tempos verbais bem cuidados e um fecho impecável: “I look forward to your reply. Yours truly, Fulano”.

Hoje negocio contratos internacionais, a maioria dos quais em inglês. Muitas vezes sou eu que abro as negociações, então sigo direitinho as instruções da Dona Nara, da Carmen Lúcia, da Dona Míria, do Quaresma e do Mr. Perry. “Dear Sir”, “Dear Mr. Sobrenome”, e vários had nots e would haves.

No início, as respostas me surpreendiam: ingleses e americanos mostravam uma total ausência de formalismo, preferindo ser chamados pelo primeiro nome (ou até abreviações: Ted, Chris). O vocabulário era totalmente coloquial. Os tempos verbais eram contraídos sem apóstrofo! I hadnt seen it, por exemplo. Ainda é assim, mas ainda não me habituei, mesmo após dois anos fazendo isso.

Então me lembrei de um detalhe: todos aqueles livros e professores estavam me contando sua versão acadêmica, sem exemplos extraídos do mundo real. Eu treinava e fazia provas, sempre com base no que tinha sido dado em sala de aula, sem verificação da realidade: será que realmente se escrevia carta assim? Ou isso era só o que *a escola* queria me fazer crer?

Duas hipóteses se candidatam a explicar o fenômeno. Uma é que primitivamente fosse assim mesmo e os livros tenham ficado desatualizados. Afinal, a vida se acelerou e já não escrevemos com o cuidado de nossos avós, que trabalhavam em estruturas fortemente hierarquizadas e cujos contratos tinham que vir em papel, a mão ou a máquina. Você tinha mais tempo elaborando uma carta e podia se dar ao luxo das firulas.

A outra hipótese é que nós, alunos latrino-americanos, tenhamos sido enganados por nosso paternalismo clientelista e pela falta de autoestima que lhe vem atrelada. O sinhô é sempre uma ameaça imprevisível, uma espécie de senhor de terras no feudo onde somos servos, a quem devemos homenagens pela simples diferença de status social, independentemente do interesse ou da posição das partes na negociação. Presume-se que o gringo seja mais respeitável, mais refinado, e que não dependa de nós para nada, de modo que tememos ofendê-lo, nós que desejamos os espelhos e miçangas que ele nos traz de outro mundo. Então nos desdobramos em rapapés e salamaleques.

A convivência me mostrou que eles erram, sim, que se confundem, que não são mais inteligentes e que deixam de usar s depois de apóstrofo só porque a palavra anterior também termina com s. De nosso lado, ainda temos uma força de trabalho analfabeta e desqualificada, de modo que o Gringo continua em vantagem. Mas não é um poder intrínseco nem sobrenatural que ele tenha. Talvez as veias da América Latina não estejam tanto para Galeano quanto para Galeno, que descobriu que somos todos feitos da mesma carne.