Não ser uma âncora

Acontece muito: você tem um sonho, que pode ser simples ou complicado. Você conta do seu sonho para alguém. Daí a pessoa logo diz que você não vai conseguir, melhor desistir etc.

Aí você vê a Internet, e vários livros, e várias crônicas, todos dizendo que você tem que acreditar em si mesmo, não dar ouvidos à multidão, que as pessoas vão tentar te derrubar, mas seja forte, acredite no sonho… Você sabe como é.

Aconteceu até comigo. Quando eu estava na segunda metade do primeiro grau (hoje seria sexta a nona série do ensino fundamental), minha escola premiava com medalha o aluno que concluísse todas as disciplinas com média 7. Na sétima série, a escola tinha a disciplina de Datilografia, que era terceirizada e onde as notas não eram números, mas os subjetivos S (Sofrível), R (Regular), B (Bom), MB (Muito Bom) e E (Excelente). Sendo a disciplina terceirizada, e sendo a nota expressa desse modo tão diferente, já estávamos no segundo semestre quando perguntei à instrutora se ela contaria para a concessão da medalha.

Não integrando a equipe do colégio, a instrutora não sabia dessa premiação, de modo que pensou que eu estivesse viajando na maionese, imaginando uma medalha fantasiosa. Sabe o que ela me respondeu?

“Hm! Sonha, passarinho…” e sorriu com escárnio enquanto já se afastava.

Se ela apenas dissesse que a nota de Datilografia contava (embora não contasse, como depois vim a saber), eu não teria me incomodado, pois era o que eu tinha perguntado. Mas a resposta continha uma vigorosa dose de desprezo. Ela me magoou tão profundamente que me lembro até hoje. Afinal consegui a tal medalha, e você pensaria que isso tivesse o poder de apagar o sentimento ou de substituí-lo com uma satisfação de vingança, mas não, especialmente porque a agressora nunca soube. Talvez nem se ela viesse a saber.

Por causa disso, ali mesmo em 1987, decidi que nunca, na minha vida, eu menosprezaria o sonho de outra pessoa. Nunca seria eu a dizer “você não vai conseguir”. Posso estar convicto de que o sujeito não tenha a menor chance, posso perceber que ele não tenha o menor preparo, mas não serei eu a dizer-lhe que deva desistir. Às vezes eu posso dizer “você precisa estudar tal assunto”, mas então estarei ajudando-o a suprir uma deficiência e a tornar possível aquilo que hoje é impossível. Também posso considerá-lo tão sem esperança que eu não responda nada, mas não serei eu a lhe tirar a ilusão.

É claro que sempre existe a possibilidade de eu estar errado e o sujeito ter, sim, alguma chance de concluir seu insano projeto. Nesse caso, ao tirar-lhe a esperança, serei mais um daqueles milhares de medíocres de quem mais tarde, ao ter sucesso, ele dirá que “muitas pessoas tentaram me puxar para trás, mas não desisti” — é assim que desejo ser lembrado? Se, porém, eu estiver certo, ainda assim eu farei mal em desencorajá-lo, pois o sonho lhe dá forças, trazendo-lhe a nobreza dos visionários e a sublimidade dos loucos, cuja desconexão os poupa deste mundo cão. No mínimo, não gostaria de ser eu aquele que ouve que deveria desistir, tal como de fato fui um dia.

Em 2005, tive aula com o Juiz Marcelo Tavares, que, em determinado momento, explicou um pouco de seu ofício. Disse que é preciso ouvir as pessoas que formulam seus pedidos em juízo, e levar esses pedidos a sério, mesmo que seja para depois indeferi-los. Pois, segundo ele, “você não pode tirar o sonho de uma pessoa, porque às vezes é tudo que ela tem”. (É claro que, ao negar o pedido, o juiz pode estar fazendo exatamente isso, mas, ao ouvir o pleito e mostrar que o considerou antes de decidir, não estará desprezando seu autor. Às vezes, a pessoa só quer ser ouvida.)

Essas lembranças me vieram ontem, quando fui assistir à exposição The Art of the Brick, de obras do escultor Nathan Sawaya. Uma das figuras era esta.

dsc08721

8722a

Conforme a legenda, sempre haverá mãos para segurar você.

Não serei eu!

Anúncios

O terror que deduzimos

Neste Mês das Crianças (sez who?), entrei duas vezes em uma famosa loja de varejo desta cidade. Em ambas as vezes, lá estava aquele tenebroso disco de música alegadamente infantil a tocar em todas as caixas de som da loja. Um coro de crianças entoava famosas canções de roda, acompanhado por repetitivos baixos sintéticos, teclados eletrônicos e samplers. A “música” era tão assustadora como um palhaço de filme de terror ou a pobre vítima infantil de Cemitério Maldito.

Estou convicto de que todas as faixas do disco foram gravadas enquanto um guarda mantinha seu revólver apontado para as cabeças das crianças. É a única forma de explicar o que eu ouvia.

EOF

Recriando o passado

Nos últimos tempos andei postando narrativas e reflexões deprimentes. Então vamos variar um pouco hoje e falar de uma eterna fonte de alegria: SORVETE!

Lá nos sempre mui pranteados anos 80, havia no Rio de Janeiro uma rede de sorveterias chamada Sem Nome. Aliás o nome da sorveteria tinha sua própria história, que não consigo confirmar por absoluta falta de rastreabilidade de todas as coisas que antecedem a Web; mas a história era a seguinte: a marca havia sido criada como “Ébom”. Supostamente a Kibon teria percebido, aí, uma espécie de golpe de marketing, que a imitava. Então teria entrado com uma ação judicial e conseguido que o fabricante do Ébom abandonasse a marca. Nas sorveterias, os alvarás de funcionamento ainda mostravam a razão social como “Italiano Ébom” (disso me lembro bem), mas a marca já não era essa. Em um segundo e mais esperto golpe de marketing, tendo ficado sem um nome com que se apresentar ao público, o fabricante passou a se chamar Sem Nome. Quem se dispuser a investigar a versão, por favor, venha aqui depois me confirmar se é verdade.

As sorveterias Sem Nome estavam espalhadas pela cidade. Ainda que sob o risco de me lembrar de tudo errado, recordo-me de uma na Gávea, em uma bifurcação da qual se subia para o Parque da Cidade, presumìvelmente onde acaba a rua Marquês de São Vicente, começa a rua Mary Pessoa e hoje há um posto BR. Mas, principalmente, recordo-me de uma na rua Conde de Bonfim, 816, onde hoje funciona uma dessas padarias de luxo.

Até a arquitetura interna da sorveteria era atraente. A entrada ocupava toda a largura da loja. O piso eram lajotas da cor do sorvete de creme. O ambiente era todo muito limpo, a sorveteria estava sempre vazia (mau sinal?), o balcão era enorme, esticando-se ao longo da parede esquerda (para quem entra), e havia um sem-número de mesas com bancos de madeira e um poço de iluminação natural lá no fundo, com pedras redondas formando um fundo e, dispostas em volta, algumas plantas em grandes vasos de cerâmica.

Um dos principais argumentos publicitários da Sem Nome era que tinha mais de quarenta sabores. Só que, toda vez que eu ia lá, constatava duas coisas: (1) não chegava a haver quarenta sabores listados na parede e (2) NUNCA havia todos os sabores que estavam listados na parede. Na verdade, com o tempo, havia cada vez menos; e, à medida que a sorveteria foi declinando, os nomes deixaram de ser impressos e passaram a vir escritos a mão, em papeis, em menor quantidade. Minha teoria, formada na época mas que ainda sustento, é que jamais o fabricante teve a intenção de sequer criar receitas para alguns daqueles sabores, que só estavam listados para fazer número. Lamentei o dia em que a Sem Nome, de sorveteria, transformou-se em lanchonete, servindo até hambúrguer. Não estava longe o fim, que, àquela distorcida altura, nem cheguei mais a lamentar, como se fosse mera eutanásia comercial a poupar os olhos de sofrerem pela decadência da outrora digna e inovadora sorveteria carioca (aliás nem sei se era mesmo carioca).

Mesmo assim, os sabores eram realmente muitos e excelentes e, no auge da Sem Nome, eu a frequentava com entusiasmo. Em uma época em que a Kibon só fabricava a ubíqua rotina creme-chocolate-morango-flocos-napolitano, a saudosa concorrente oferecia o diferencial de certas novidades como laranja, manga, melão, ameixa, passas ao rum, doce de leite, coco queimado, doce de leite com coco, abóbora com coco, e um de meus favoritos: milho verde.

Também havia receitas próprias de sundaes. Além dos convencionais Colegial* e Banana Split**, praticados em outras sorveterias e restaurantes, a Sem Nome oferecia combinações batizadas com os nomes de cidades italianas. Assim, lembro-me de um sundae (infelizmente não lembro qual era a cidade) que tinha seis bolas de sorvete empilhadas! Seria um desafio que nunca encarei.

Em especial, até hoje continuo me lembrando muito bem do Copa Veneza: duas metades de um pêssego em calda, duas metades de uma banana, duas bolas de sorvete de sabores diferentes à escolha do freguês, duas coberturas diferentes (posso estar enganado quanto à quantidade de coberturas, mas é isso que lembro), castanha de caju, marshmallow (ou será que era chantilly?), uma cereja, e um tubete (que, na época, não se chamava “tubete”; e talvez não houvesse e eu o esteja trazendo da lembrança de outro sundae), tudo isso em uma taça alta e larga de vidro grosso. Invariàvelmente, meus dois sabores de sorvete eram coco e amendoim, inclusive porque a Kibon não os tinha; e as coberturas eram de caramelo e morango. Muitas foram as vezes em que tomei Copas Venezas e às vezes fico pensando como eu conseguia! Meu metabolismo atual jamais permitiria que eu deglutisse impune todas essas calorias, e mesmo essa deliciosa deglutição só será possível se eu estiver com a barriga totalmente vazia…

Nos tempos atuais, os sabores da sorveteria Itália ocupam dignamente o vácuo deixado pelos da Sem Nome. Infelizmente, as Itálias são minúsculas, mal tendo alguns banquinhos (nas ruas Santo Afonso, Visconde de Pirajá e Figueiredo de Magalhães e no Downtown), reduzindo-se a quiosques (no Shopping Tijuca) ou até mesmo consistindo apenas em geladeiras (nas franquias do Rei do Mate). Por isso, apesar de todos os deliciosos sabores, não creio que a Itália vá um dia ocupar o nicho deixado pela Sem Nome em matéria de espaço e experiência.

(Considerando que um dia a Itália possa tomar o mesmo caminho da Sem Nome — embora eu torça para que não –, fica aqui registrado que ela oferece ou já ofereceu, entre diversos outros, os sabores de limão, limão siciliano, manga, manga com gengibre, tangerina, abóbora com coco, amarena (creme de cereja), banana caramelada, biscoito (chocolate com pedaços de biscoito), brownie (chocolate com pedaços de bolo de chocolate), café puro, “café chips” (café com bolinhas de chocolate duro), canela com mel, “chocolate africano” (com amendoins), chocolate branco com maracujá, chocolate com amêndoas, chocolate com avelã, chocolate “de origem”, chocolate meio amargo, coco, cookie (creme com pedaços de biscoito de chocolate), doce de leite, doce de leite com chocolate, doce de leite com doce de leite, flocos, iogurte, iogurte com calda de goiaba, iogurte com limão siciliano, iogurte com pêssego, menta com flocos de chocolate, milho verde, morango com pedaços, nata, nozes, paçoca, passas ao rum, pistache com pedaços, queijo, romeu e julieta, “sonho de valsa”, tapioca, “torrone”, torta alemã (camadas de creme, chocolate e biscoito), torta de limão (com camadas de biscoito)… A Itália também tem diversos picolés, que têm bastante saída, com sabores que incluem alguns desses e também açaí e groselha.)

Pois bem. Esta postagem nasceu porque, por muitos anos, eu quis reconstruir o Copa Veneza, até que, em dezembro de 2013, comprei duas taças de vidro as que encontrei mais parecidas com as da Sem Nome (um requisito essencial), mais todos os ingrediente, e pus mãos à obra.

Infelizmente, a Itália não faz sorvete de amendoim, de modo que tive que recorrer à coisa mais próxima, que é o sorvete Sonho de Valsa, fabricado pela Kibon sobre a marca da Lacta. Não é idêntico ao de minha lembrança porque tem pedaços de chocolate na massa, mas haveria de servir. Também não se encontra mais sorvete de coco, que a Kibon fabricava até há pouco tempo e que eliminou na recente reformulação de sua complexa linha. Mas, nessa mesma reformulação, existem três potes que são compostos por trios de sabores, e um deles é dito de “frutas tropicais”: manga, abacaxi e coco. Então, tal como Homer Simpson, que só compra napolitano por causa do chocolate, comprei o trio por causa do coco (não que tenha jogado o resto fora depois, se é que me entende).

Além disso, percebi que, se eu usasse dois sabores de cobertura como no Copa Veneza original, eles formariam uma barafunda indistinta de gostos e eu não sentiria nenhum. Então, para maior curtição dos sentidos, um sabor estaria de bom tamanho. Escolhi caramelo, que é mais neutro do que morango e, assim, não interferiria no pêssego e na banana. Quanto à dúvida entre chantili e marshmallow, o primeiro foi escolhido sem discussão pelo simples fato de que não se encontra marshmallow nestas paragens subequatoriais. Pelo menos o resultado também fica mais leve.

A montagem de um sundae não é caótica. Tal como se constrói um edifício, existe uma ordem, um propósito na sucessão dos ingredientes. Então, de baixo para cima, fui adicionando as metades do pêssego e da banana, as bolas de sorvete, a cobertura de caramelo, as castanhas de caju picadas (não moídas, marque bem), o chantili e as cerejas. Sim, aS cerejaS, que já são idos os tempos em que garçons e sorveterias ficavam regulando cereja prà gente. Ora, se agora faço o sundae na minha casa e compro cereja a granel, com muito mais razão vou compensar o recalque e lançar logo uma porção delas, não é mesmo? Então são três cerejas para cada taça, e perdoe-me a falecida Sem Nome por adulterar a clássica receita.

Finalmente, lembrar que nunca fui entusiasmado por tubetes (será que não era biscoito Champagne? Tomara que não, porque esses são mais caros; e acho que não, porque são grandes também). Então, minha variação do Copa Veneza vai sem biscoito.

O resultado está aqui. Posso lhe assegurar que estava tão gostoso quanto aparentava!

Dois sundaes Copa Veneza recém-montados

Dois sundaes Copa Veneza recém-montados

* Colegial: uma bola de sorvete (geralmente de creme), cobertura de chocolate, castanha de caju e uma cereja, servido em uma taça baixa, de vidro. Sim, é simples mesmo.

** Banana split: uma banana grande, partida ao meio, com três bolas de sorvete dispostas horizontalmente entre as metades (geralmente de creme, morango e chocolate), cobertura, às vezes marshmallow ou chantilly, castanha de caju e uma cereja, servido em uma pequena travessa.

EOF

Desta vez, acho que o papo é sério

Durante os anos 80, vivíamos em um período de recrudescimento da Guerra Fria. Reagan de um lado, Brejnev e depois Andropov do outro, e nunca se acumularam tantas armas nucleares e convencionais como naquele tempo (pode pesquisar). Exercícios eram conduzidos por uns na porteira do quintal dos outros, as Alemanhas eram um palco permanente de vigilância e intriga (pois eram a fronteira entre os dois blocos), os mares estavam coalhados de navios de superfície, submarinos, sonares e aviões de patrulha, e todos vivíamos em tensão. Filmes de espionagem eram mais abundantes que os de ação, e os soviéticos eram vilões temíveis, sempre tramando, sempre sorrindo sobre facas afiadas. Foi a época de grandes suspenses de sucesso no cinema como Jogos de Guerra e A Raposa de Fogo.

Naquele tempo, abundava a literatura sobre veículos de combate. Os interessados hão de se lembrar com saudade das inúmeras publicações que saíram traduzidas no Brasil, como Aviões de guerra, Guerra nos céus, Guerra moderna, Corpos de elite, Máquinas de guerra, os Guias de Armas de Guerra, as séries Aviões de Combate e Aero Militar, e assim por diante. Era um material ótimo, como nunca mais se viu. Endereçado mormente a um público curioso mas não realmente especializado no assunto, tinha uma certa redundância de texto e imagens, e foi ali que os atuais quarentões tiveram contato com um conhecimento de (por exemplo) aviões militares que já está bastante desatualizado, embora frequentemente achem que aquilo tudo ainda é verdade (dica: não é. A RAF planeja a aposentadoria do Tornado GR4 já faz um tempo, você que só conheceu Tornado GR1; e os Tornados F3, Harriers, F-4, seu querido F-14 de Top Gun e versões iniciais do F-16 já sumiram do mapa faz tempo).

Mas havia também uma literatura mais séria. Os dois lados da Cortina de Ferro passavam o tempo a traçar cenários, prever ações e planejar reações. Do lado de cá, vimos parte do resultado em livros de ficção como os de Tom Clancy (sendo o mais famoso o primeiro, A caçada ao Outubro Vermelho), mas havia também uns trabalhos de não-ficção, um dos quais saiu pelo Círculo do Livro: Terceira Guerra Mundial: agosto de 1985, organizado pelo General Sir John Hackett e lançado em inglês em 1979. O livro refletia a visão da OTAN sobre como se iniciaria a dita guerra, com uma invasão em massa de blindados soviéticos através dos campos alemães, seguida de todo o desdobramento do que as melhores previsões diziam que aconteceria. Não se tratava de mero romance; era realmente uma peça de doutrina militar, explicitando o pensamento mais atual e planejado da OTAN para sua política de defesa. O assustador O Dia Seguinte, de 1983, partia de uma premissa semelhante e bastante repetida na época: após muita tensão e diplomacia, forças soviéticas invadiam um país do Oriente Médio (agora não lembro se era o Irã; podia ser; não esqueça que o Afeganistão esteve ocupado pela URSS de 1979 a 1989, com resultados desastrosos para o país do Urso) invadiam a Alemanha (será que eu lembrei errado mesmo? Mas ainda me lembro nìtidamente de ser Oriente Médio). O resultado da invasão era uma escalada muito rápida de reações mútuas até o ponto em que os soviéticos, derrotados, retiravam sua tropa da área e, em um gesto de despeito supremo, soltavam ali um artefato nuclear tático. A consequência disso era o imediato disparo de mísseis intercontinentais de um lado a outro do Pólo Norte, uns caindo no Meio-Oeste dos Estados Unidos, outros em alvos siberianos ou similares.

As lições, bastante óbvias, alertavam para os riscos da permanente tensão entre as superpotências, com as sobrevivências dos dois lados tornadas dependentes de gatilhos muito sensíveis. Além dessa quase-platitude, há uma noção que o grande público às vezes não pega (mas tampouco os analistas esquecem): a Guerra Mundial tende a começar em um ponto próximo, mas não dentro de uma das superpotências. É sempre um Estado menor, um satélite de um lado, que é sùbitamente ameaçado ou invadido pelo outro lado. O primeiro, perdendo o território de amortecimento em seu entorno e naturalmente se percebendo acuado, ataca preventivamente com uma ogiva nuclear tática, localizada; e o precedente leva a uma imediata multiplicação de ataques nucleares de gravidade crescente, até a aniquilação. O mundo torna-se mais radioativo e a guerra é realmente bem curta, mesmo que ainda haja remanescentes dos países que a iniciam.

Então, quem passou a vida lendo sobre esses cenários chega a 2014 e se depara com quê? Com a Rússia atrás de qualquer pretexto para incorporar a Crimeia a seu território enquanto soldados russos ocupam postos estratégicos (militares ou não) na península e, do outro lado, os Estados Unidos enviam 6 F-15C de Lakenheath para defender o céu lituano (no que, aliás, não há qualquer novidade, pois faz anos que os países da OTAN se revezam para compor a força de caças no patrulhamento daquele pequeno espaço aéreo) e 12 F-16C de Aviano para desembainhar suas espadas na Polônia (onde, aí sim, há novidade). Cabe lembrar que, vinte anos após o fim da Guerra Fria, a OTAN cresceu e alguns países que compunham o Pacto de Varsóvia — notàvelmente a Polônia — agora fazem parte da OTAN. A Alemanha Oriental, fronteira do Pacto, foi absorvida para dentro da OTAN; a Lituânia também, ela que era parte da URSS. Então, vejam que o território sob domínio soviético encolheu, e a Crimeia pode ser interpretada como uma área em disputa… como era a Alemanha em 1983.

Esses caras estão brincando com fogo. A Rússia não é a Coreia do Norte, onde cão que ladra não morde. Não é a Venezuela, onde a venda de petróleo aos EUA prossegue tranquila longe dos olhos do público iletrado. A Rússia é comandada por um ex-agente da KGB que não tem medo de apertar o botão.

O que eu sei é que hoje meu sono não será tranquilo.

EOF

Então furaram seu lugar na fila? Grandesm*rda

Aconteceu comigo em 10/01/2014.

Eu estava na fila do restaurante Delírio Tropical da Rua da Assembleia, uma fila que, notória e frequentemente, estende-se por vários metros ao longo da calçada, do lado de fora do restaurante. À minha frente, duas jovens profissionais conversavam animadas. Atrás de mim, um bocado de gente, e eu já estava razoàvelmente perto da porta.

Sùbitamente, às duas moças se reuniram outras duas, furando a fila na maior cara de pau, sem olhar para trás mas tornando a conversa ainda mais animada. Pensei que tivesse sido algum engano da parte das recém-chegadas: certamente não repararam que suas companheiras de fofoca não eram as últimas da fila; certamente não haviam olhado para trás nem, portanto, notado que a fila se estendia ainda por mais de uma dúzia de pessoas.

Além disso, considerando que sempre posso ser eu o errado, preferi abordar as recém-chegadas com uma pergunta simples.

— Com licença. Vocês estavam na fila?

— Não, a gente acabou de chegar, mas elas aqui estavam esperando a gente.

— Ah, tá, entendi. Só para eu saber: são só vocês ou tem mais gente vindo? Quantos ainda vão se juntar aí a vocês na fila?

A mocinha ainda foi debochada:

— Na verdade são vinte pessoas, mas —

— É. Ó, vocês lembraram de perguntar a essa gente toda aqui atrás (indiquei o povo) se eles concordavam com isso?

— Não, mas você fique à vontade para perguntar, tá?

Evidentemente, esse final eu mereci em razão de minha pergunta. E assim não falei mais nada, e a fila seguiu, e ainda houve um terceiro canalhinha juntando-se ao grupo das patricinhas furadoras de fila.

A primeira constatação é que eu fui um frouxo e um covarde, que deixei isso acontecer. A segunda é que eu fui um otário. Ambas estão corretíssimas — afinal é isso mesmo — e predominam sobre qualquer outra percepção que se tenha. O que é que eu esperava: que, com minha mera reclamação, baseada apenas na voz e desacompanhada de uma arma de fogo como estava, elas caíssem em si e fossem lá para trás? Ora, faça-me o favor. Então, passados dois dias, vamos a outras observações menos evidentes.

Atentemos à apresentação sócio-econômico-etária das cinco moças. Existe um estereótipo no qual se enquadram à perfeição, que é o de patricinhas entitled: moças crescidas em um ambiente onde ninguém nunca lhes negou nada (tripla negativa equivale a negativa única, certo?). O mundo sempre teve o dever de servir-lhes, dobrando-se diante de seus caprichos. Se a professora lhes dava nota baixa, lá estava Mamãe no dia seguinte, a exigir da diretora que corrigisse o abuso. Consequentemente, sempre tiveram direitos e nenhum dever. Nunca alguém lhes apresentou o conceito de fila, ou de direitos alheios: em face delas, ninguém tem direitos, pois todos devem render-se aos delas. O mundo é um passeio no parque onde têm automático direito a tempo bom e estão livres para defecarem no prato de comida dos outros.

Consequentemente, as patricinhas entitled não percebem que estão erradas ao furar a fila do Delírio Tropical na Rua da Assembleia. Na óptica delas — genuína! –, eu é que estou errado em interpelá-las, como se tivesse algo a reclamar por ocuparem o espaço que é delas por direito.

Outras observações podem ser feitas. Já não é a primeira vez que vejo isso. Nos últimos anos, tenho notado que, nos Delírios da Rua da Assembleia e da Rua do Rosário, é muito comum que mulheres estejam na fila e, sùbitamente, suas amigas venham juntar-se a elas, dobrando ou triplicando o grupo enquanto outras pessoas, atrás na fila, aceitam passìvamente a penetração de seus direitos.

Notem que eu digo isso mas não agi diferente: apesar da intervenção rabugenta, nada fiz de efetivo que defendesse minha posição. Tentei resistir na boa fé e me deparei com o reforço da ousadia: furamos a fila sim, e daí? O confronto e meu fracasso me fazem pensar se, na verdade, quem estava ali violando direitos não era eu: aparentemente, em matéria de fila do Delírio Tropical, o costume, jurìdicamente já assentado, é que mulheres esperem outras mulheres na fila e as recém-chegadas se incorporem à fila, sem qualquer consideração ao número de pessoas para trás. Pelo que estou entendendo, isso não se considera “furar fila”: é assim que funciona. (Até essa sexta, eu só havia visto mulheres fazendo isso. Foi a primeira vez que vi um homem aderindo à prática, que eu já estava considerando exclusivamente feminina. So much for sexismo.) Eu é que era um misantrópico perturbador da paz, querendo mudar a regra.

Também estive pensando em minhas alternativas. O que mais eu poderia ter feito: obrigado as recém-chegadas a irem lá para trás, na marra, em desforço necessário passível de enquadramento no Código Penal, artigo 345? E como fazer isso sem perder o lugar na fila? Deveria armar um barraco, iniciar uma gritaria que só poderia terminar com a minha remoção do lugar? Deveria chamar o vigilante do restaurante, o gerente? Nenhum dos dois tem qualquer responsabilidade sobre a fila. Deveria ligar 190, chamar o guarda? Boa sorte diante do silêncio (na melhor hipótese), da risada (na hipótese piorzinha) ou da acusação (justa) de tomar o tempo da autoridade com besteira, seguida de prisão em flagrante. Deveria alardear a quem estivesse atrás de mim, “estão furando a fila de vocês”? Isso seria a injusta terceirização do meu problema e um reforço da minha fraqueza, ou da do meu direito, que precisa do socorro dos outros para se afirmar.

Sejamos realistas: não havia NADA que eu pudesse ter feito, em termos práticos, que pudesse fazer valer meu lugar na fila. Tão cedo quanto eu perceba isso, tanto menor será o prejuízo. No momento em que as invasoras chegaram, deveria estar nítido para mim — desde cedo, desde antes — que o lugar era mesmo delas e que, portanto, delas era o direito de fazerem o que quisessem.

Aliás é cabível discutir que “problema” é esse de que falei aí em cima. Eu venho repetindo, já faz um tempo, que todos — TODOS — os males da humanidade decorrem do ego. Todas as guerras, todas as brigas e pecados, todas as frustrações, crimes e punições. Esse caso não foi exceção. Notem que fui o único integrante da fila a se importar com o furo das patricinhas, como se tivesse um grande direito, ó que importante, eu o centro do mundo, tendo meu espaço invadido. Acusei as patricinhas de atropelarem direitos alheios como se delas fossem, em total desconsideração, e ora veja, quem está se atribuindo demasiada importância sou eu, não elas. Eu é que estou aqui, tomando seu tempo de leitura com minhas insatisfações, enquanto elas estão por aí, usufruindo o serviço que o mundo lhes traz, todas pimponas.

Os praticantes do zen dirão que é uma questão de apego, ou de perdê-lo. Que estou me prendendo à agressão que sofri no meu passado, em um momento que, quanto mais se afasta de mim no tempo, mais cresce em minha memória em vez de diminuir, como devia. Que só me vejo agredido porque ainda insisto em me dar importância, com um ego ainda mais exagerado do que o delas. Que esses são os fantasmas que vão me corroendo e que um dia ainda vão me matar. Que eu devia deixar correr frouxo, que a longo prazo nada sofri, ainda consegui almoçar e voltar para o trabalho e agora estou aqui, e que eu é que estou errado em ficar remoendo essa história. E aliás não é a primeira que me acontece; já houve outra há uns meses, em outro estabelecimento, e não foi envolvendo fila, nem vou contar aqui qual foi.

Tudo isso pode ser. A sensação de ter sido lesado não vai embora, e é fácil falar tudo isso sobre ego versus zen quando não foi no calo do Mestre Yoda que pisaram mas no meu. Só que é verdade que há problemas muito mais graves no mundo; há fome na África, há presos políticos na China, há esgoto a céu aberto na maior parte do Brasil e da Índia, e aquecimento global e desmatamento e AIDS e corrupção. Diante de tudo isso, desaparece meu pseudoproblema, que é no mínimo ridículo.

Ao mesmo tempo, não posso deixar de reparar neste detalhe que acabei de mencionar: corrupção. As distintas senhorinhas certamente se julgavam em seu lugar natural, fila não vale para elas, e é exatamente aí que mora um dos vícios estruturais da sociedade brasileira. A invasão que sofri, tòpicamente, empalidece diante de sua causa, muito maior, que é a falta de uma visão cívica. Elas tomam o lugar dos outros na fila porque isso é o natural na sociedade brasileira, onde ninguém realmente tem direitos. Nem os ricos: eles de fato têm mais poder, e exercem esse poder e fazem valer seus desejos, mas nem eles nem os pobres têm direitos; as relações são meramente de força. Então, as jovenzinhas são exatamente as mesmas — as mesmas! — que fizeram passeata em junho do ano passado, exigindo o fim da corrupção, exigindo vergonha na cara, cansadas de serem pisoteadas pelos políticos e pleiteando educação e hospital público e enxovalhando os condenados do Mensalão… E agora não veem nada de errado em se enfiarem na fila alheia, em absoluta cegueira ao fato de que estão jogando para trás quem já tinha chegado antes.

… Não, não, eu me engano. É claro que elas repararam que havia mais gente. É justamente aí que está o exercício da função de patricinha entitled: só faz sentido, e só tem graça, quando já havia alguéns na fila. Senão não adianta. Não é que não percebam que prejudicam outras quinze ou vinte pessoas. É que isso não faz a menor diferença para elas. Elas são patricinhas entitled e entram onde quiserem.

Nada disso impede o fato de que este texto é a ruminação de um ego ferido, trabalhando o luto de sua dignidade. Eu poderia ser uma alma iluminada, transcendendo a ofensa, perdoando as ignorantes e percebendo que, a longo prazo, são pessoas infelizes, que vivem agressivamente e portanto se desgastam. Poderia construir uma ilusão de que, naquilo que importa na vida, eu já estivesse em melhor condição e tivesse mais curtição do que elas, “para que se importar com a fila se você tem mais qualidade de vida do que elas, coitadas?” Mas não é nada disso. Na verdade, não querendo mentir para mim mesmo e sabendo que wishful thinking não beneficia ninguém, sei muito bem que são, sim, pessoas mais tranquilas, mais resolvidas, com melhor conforto, mais e melhor entretenimento, melhor administração do tempo, com futuro financeiro já assegurado, sem nenhuma razão para qualquer dos temores ou incertezas que me afligem. É precisamente em razão de terem tudo isso, de estarem alguns degraus acima na escada social, que elas podem escolher o lugar que quiserem na fila que quiserem.

Então, se algum proveito essa experiência pode me dar, é que eu posso continuar na ilusão de um mundinho ordenadinho onde meu ego é preservado, ou posso largar a infância e vir ao mundo real das pessoas adultas, onde claramente ainda não sei agir mas onde claramente uma das medidas necessárias é passar por cima do cidadão ao lado. E onde, por enquanto e até onde enxergo adiante, o meu lugar é deixando que as patricinhas entitled tomem a frente. Eu tenho que saber o meu lugar. Se eu quiser começar a melhorar de vida, deveria já começar, isto sim, a seguir o exemplo delas. O primeiro passo para ser aceito como aprendiz e sonhar em ser aceito como um igual é reconhecer a própria ignorância e se render à regra verdadeira.

E não ficar alimentando um ódio que intensamente deseja que, onde quer que estejam, aquelas cinco patricinhas morram cruel, lenta e sangrentamente, em dor e desespero, como estou desejando agora.*

EOF

* É sério. Nem Premonição atenderia, porque morte súbita não dói. Tá mais pra Jogos Mortais.

Microconto de Berlim

Tudo isto eu vi

O ônibus parou em frente à atração turística.

De dentro saíram milhares de japoneses, uma parada militar de saúvas, todos ostentando câmeras, todas alinhadas a laser na mesma direção, o mesmo objeto, o mesmo olhar. Alguns astrônomos cogitaram de usar o resultado para interferometria, até que alguém observou que os comprimentos de onda visíveis requeriam uma separação microscópica entre os CCDs.

Feitas as fotos do monumento, os japoneses iniciaram uma estranha coreografia, onde, com coordenação impecável, conseguiram fotografar uns aos outros em todas as combinações possíveis, sem repetição.

Então voltaram para dentro do veículo, com tanta ordem e celeridade quanto houvera em sua chegada.

Naquela noite, derrubaram o servidor do Flickr.

Genesis, surpresas e memórias

Comecei a gostar de Genesis no início dos anos 90, ou por aí. Provàvelmente em 1989. Na época, as músicas da banda com que eu tinha contato eram as que tocavam no rádio: That’s All, publicada no álbum Genesis, de 1983; In Too Deep, Throwing It All Away e Invisible Touch, do álbum Invisible Touch, de 1986; Follow You Follow Me, de …And Then There Were Three…, de 1978; e No Reply At All, de Abacab, 1981. Em todas essas, o vocalista era Phil Collins, que também fazia muito sucesso em sua carreira solo.

Um dia, meu colega Luiz Otávio me contou que o cantor Peter Gabriel havia sido integrante do Genesis muito tempo antes. Claro que isso não fazia o menor sentido para mim. Como assim?!? Eu nunca havia ouvido nada com Peter Gabriel, que era conhecido pelo recente sucesso Sledgehammer.

Mais tarde, na casa do meu tio, encontrei uma coleção de LPs lá dos anos 70. Títulos como Nursery Cryme, Foxtrot e Selling England By the Pound. Todos do Genesis, mas era muito estranho! As capas não tinham nada a ver com a apresentação visual que eu conhecia, as músicas eram muito diferentes, não parecia haver qualquer relação entre o estilo quase orquestral dessas antigas gravações e o rock técnico a que estava habituado, e duas constatações eram inacreditáveis para mim: uma, que a voz não era de Phil Collins (quem era então?); outra, que os álbuns eram incrìvelmente velhos: como assim, anos 70??

Não era possível — havia toda uma carreira de mais de dez anos do Genesis que era pré-existente (é assim que se escreve agora?) …pré-existente a tudo que eu conhecia, como se fizesse parte de alguma história oculta, algum universo paralelo que emergia em minha realidade…

Naturalmente, eram tempos anteriores à Internet. Tudo que se viesse a saber era uma descoberta surpreendente, eram tesouros súbitos, eram revelações. História do rock não era o tipo do assunto sobre o qual você encontrasse livros em qualquer biblioteca, e mesmo aquilo que encontrávamos era muito fragmentário. Ainda estavam muito distantes no futuro os grandes trabalhos de pesquisa do início da Web e os agregados de factóides da Web 2.0.

Hoje tenho 23 anos de ouvinte de Genesis. Acostumado a ouvir e reouvir os álbuns mais antigos, conhecedor da história e da carreira do grupo, às vezes me esqueço de como era o tempo em que eu não sabia nada, em que tudo era uma grande novidade, em que cada novo disco comprado era uma exploração.

Na verdade, assim a gente vai progredindo na vida com tudo mais. Chega um ponto em que você já domina determinado assunto, o que é inevitável quando esse assunto apaixona. Com o tempo, perde-se a perspectiva que se tinha no início, quando tudo era território inexplorado. Porém ainda ficam as memórias daquele deslumbramento inicial, e são memórias que se guardam com especial afetividade, em um lugar reservado da história pessoal, sempre vivo, seguro e preservado.

E passamos a novas explorações, que não se pode ficar estático, nem se pode para sempre perder aquele senso de descortinamento de um universo à espera. Novos assuntos nos ocupam, novos aprendizados. E no entanto levamos conosco aquela velha amizade, que sempre nos pode confortar pelo caminho, daquilo que um dia viemos a dominar e que hoje faz parte de nós.

EOF