Microconto de Berlim

Tudo isto eu vi

O ônibus parou em frente à atração turística.

De dentro saíram milhares de japoneses, uma parada militar de saúvas, todos ostentando câmeras, todas alinhadas a laser na mesma direção, o mesmo objeto, o mesmo olhar. Alguns astrônomos cogitaram de usar o resultado para interferometria, até que alguém observou que os comprimentos de onda visíveis requeriam uma separação microscópica entre os CCDs.

Feitas as fotos do monumento, os japoneses iniciaram uma estranha coreografia, onde, com coordenação impecável, conseguiram fotografar uns aos outros em todas as combinações possíveis, sem repetição.

Então voltaram para dentro do veículo, com tanta ordem e celeridade quanto houvera em sua chegada.

Naquela noite, derrubaram o servidor do Flickr.

A Serra Gaúcha e o limite de número de garrafas

Em 2007, entrou em vigor uma norma internacional que limita o transporte de líquidos na bagagem de mão: somente embalagens de até 100 ml, dentro de um saco plástico de até um litro. Segundo a formulação original, essa norma só se aplica a voos internacionais, mas já a vi aplicada a voos domésticos no Brasil, o que não sei se é legal mas vou presumir que seja.

Pois bem. Atente a isto: para voos domésticos partindo do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, neste ano de 2012, você não pode incluir bebidas na bagagem despachada, e sua bagagem de mão só pode conter até cinco garrafas de até um litro cada uma. Essa segunda regra faz sentido em razão do limite de 5 kg da ANAC para a bagagem de mão, mas a primeira é uma completa novidade para mim, e não encontrei orientação sobre ela no saite da ANAC.

Não adianta espernear, e é melhor conhecer as regras de antemão. Não sei se a proibição quanto à bagagem despachada é sòmente para garrafas de vidro, mas sei o que vi: a moça do checkin perguntou se eu tinha bebidas nessa bagagem; e a moça do raio X viu que havia duas garrafas na bagagem de mão e pediu para vê-las em detalhe. Vendo-as, deteve-se no volume relatado pelos rótulos.

Aparentemente, a regra que limita a bagagem despachada é da Infraero. Não a vi sendo praticada em Curitiba nem no Rio, de modo que presumo que seja específica de Porto Alegre. Não vi divulgação em nenhum lugar; você só fica sabendo dela no ato do checkin. Vi pessoas com caixas de seis garrafas de vinho; não sei como fizeram para embarcarem, já que tampouco poderiam levá-las na mão.

As razões podem ser várias, mas só nos cabe especular. Uma possibilidade é que os carregadores de bagagem, com a gentileza que lhes é peculiar, tenham arremessado algu’a mala e inevitàvelmente quebrado as garrafas que estavam soltas ali dentro. Certamente o proprietário da mala não deve ter tomado nenhum cuidado de acolchoar e isolar o conteúdo, recebeu um monte de cacos e manchas de vinho na esteira ao fim da viagem e entrou com ação em face da Infraero, que deve ter sido condenada. A empresa deve ter imposto a regra a fim de evitar novos danos: “ah, é, eu sou responsável? Então, se sou responsável, ninguém mais pode levar garrafa nenhuma na bagagem, pronto” — no que não estaria de todo errada. Se alguém é responsável por alguma coisa, a esse alguém deve ser reconhecido o poder de impedir essa coisa.

Junte-se a isso o limite de 5 kg na bagagem de mão. Como o vinho tem densidade pràticamente igual à da água, quem levar cinco garrafas de um litro estará certamente violando o limite de peso (não se esqueça do peso do vidro). Daí a implicação mais refinada da regra da bagagem despachada: você tem pouca alternativa.

Não deve ser coincidência com o fato de que os brasileiros viajam cada vez mais de avião e cada vez mais vão à Serra Gaúcha, de lá trazendo bonsdrink. Ora, o vinho é o produto mais famoso daquela região e um dos que mais motivam o turismo por lá. Assim, a nova norma aeroportuária é uma boa forma de coibir o comércio de vinhos do Rio Grande do Sul para turistas, induzindo às vendas por atacado, que seguem por caminhão. Isso vai ser particularmente interessante por ocasião do Natal: em Gramado, essa temporada é tão importante quanto o inverno, e aumentam as vendas no comércio local.

A consequência prática é que ninguém pode trazer mais do que cinco garrafas de vinho da Serra Gaúcha se pretende voltar para casa de avião. Faz TODO o sentido, especialmente se só se avisarem os compradores sobre a bagagem despachada quando estiverem fazendo checkin.

Pelo menos, é o que eu faria, porque assim é muito mais divertido.

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A divisão de classes em tempos de crise

O conteúdo deste vídeo é uma constatação a que eu já havia chegado independentemente, por observação dos aviões, dos anúncios, dos websites e das notícias.

http://live.wsj.com/video/say-goodbye-to-first-class-on-us-airlines/3A3215ED-F2DC-42CD-840F-AB06C6D2B055.html?mod=wsj_blog_tboleft#!3A3215ED-F2DC-42CD-840F-AB06C6D2B055

Em síntese: as companhias aéreas estão deixando de operar a primeira classe. O motivo é a falta de procura. Os passageiros pagantes simplesmente não estão interessados em pagar o dobro da executiva, considerando que a primeira classe não oferece vantagem significativa sobre uma executiva que já é bem confortável, aparelhada e luxuosa. E os não pagantes, usando milhas, são três quartos dos que voam na primeira classe. Consequência: a primeira classe deixou de ser rentável.

As companhias aéreas criaram os programas de milhagem e, com isso, entraram em um caminho sem volta: graças à concorrência, nenhuma delas ousa deixar de manter seu programa. Tendo que cumpri-los, veem-se vítimas de seus próprios esquemas, porque a primeira classe acabou invadida pelos não pagantes e elas ficaram presas com isso. A solução? Extinguir a primeira classe: transformar esses assentos em executiva e, assim, passar a extrair dinheiro deles.

Além disso, o passageiro que tem um pouco mais de dinheiro e quer fugir da econômica, esse passageiro contenta-se com uma classe que surgiu há não mais do que cinco anos: a “econômica premium”, ou “econômica plus“. O tráfego aéreo está bem maior do que há vinte anos, e os aviões estão maiores também: veja o surgimento do mastodôntico A380, do recém-lançado 747-8I, do 777, do A340 (esses dois, inclusive, em versões mais longas, o 777-300 e o A340-600). Veja como as versões recentes do 737, que é um avião de curto alcance, têm pràticamente a capacidade dos 707 intercontinentais de há cinquenta anos; veja como os jatos regionais de cem lugares substituíram os turboélices de cinquenta. Há mais gente viajando e a passagem econômica ficou mais acessível. Com isso, as pessoas mais afluentes dentre essas da econômica acabam migrando para a econômica plus.

Assim, gradual (mas ràpida) mente, deixa de existir o trio primeira-executiva-econômica e passa a haver o trio executiva-econômica(plus)-econômica. No geral, que vemos? Afora os nomes, uma redução na qualidade oferecida nas duas classes superiores. Mas também um aumento de receita para a empresa aérea: o passageiro deixa de viajar na primeira classe (onde não pagaria) e passa a viajar na executiva (onde paga e, além disso, o custo é um pouco menor). Outros passam a viajar na econômica plus, onde há pouco acréscimo de qualidade mas o preço é 50% maior — tal como na executiva de bem antigamente.

A matéria fala de empresas americanas, mas veja só: em 2010, viajei à Inglaterra. Em um voo intercontinental como era aquele, NÃO HAVIA primeira classe; nem na ida nem na volta. O mais luxuoso que havia eram cerca de trinta lugares de executiva.

Claramente isso é uma consequência da crise financeira mundial, porque começou a acontecer aproximadamente em 2008, justamente um ano após o início das quebras de grandes bancos e do encolhimento das economias.

Mas não nos queixemos: como diz o analista do vídeo, em TODAS as classes que permanecem o conforto e o serviço estão muito mais evoluídos do que há quinze anos (ele disse dez, mas divirjo). Realmente, na executiva os assentos passaram a descer até a horizontal e a ter mais privacidade do que tinha a primeira classe de então; e o cardápio também se tornou mais variado e em pratos de porcelana, tal como era na primeira classe. Enquanto isso, na econômica, já faz uns cinco anos que cada passageiro tem sua própria tela de TV — algo que, há quinze anos, só existia da executiva para cima. Na econômica também passou a haver muito mais canais de áudio e vídeo dos quais escolher, e outras vantagens vieram também. Por sinal que os canais de áudio e vídeo são benefícios da econômica atual que não existiam nem na primeira classe daqueles tempos.

Tudo graças à concorrência, que se torna mais acirrada em tempos de crise.

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Breogan, um restaurante galego em Bariloche

Antes de viajar à Escócia em 2008, pesquisei um bocado sobre os celtas. O povo celta ainda existe miscigenado como parte dos povos da Europa Ocidental, mas sua cultura foi bastante sufocada e diluída desde as invasões germânicas a partir do século V. Em consequência, não são muitos os lugares onde se falam línguas derivadas das antigas línguas celtas.

Não são muitos, mas são notáveis. Hoje em dia, os exemplos mais marcantes de culturas celtas são a Irlanda (onde ainda se fala Gaeilge, gaélico irlandês), as Terras Altas da Escócia (onde se fala Gàidhlig, gaélico escocês), a Ilha de Man (onde se fala Gaelg, gaélico de Man), Gales (onde se fala galês), Cornualha (onde se fala córnico), Bretanha (península da França, não confundir com a Grã-Bretanha), e Galícia, na Espanha, onde se fala galego. Observe que todas essas localidades são extremidades ocidentais de territórios tomados por tribos germânicas.

(Você notou a recorrência de certos fonemas? A Escócia era chamada de “Caledônia” pelos romanos. Caledônia, gaélico, Gales, Galícia, Gália (território celta onde hoje é a França). E tem a Galácia, a mesma da Epístola de Paulo aos Gálatas, também celtas. Isso não é coincidência. Os celtas adoravam divindades femininas da fertilidade que eram avatares da terra e das florestas; uma delas era a deusa-mãe Caillaech ou Calleach, cujo nome teria originado todos esses nomes de povos celtas começando com “cal-” ou “gal-“. Mais sobre isso aqui: http://usuarios.multimania.es/Celtic_Galiza/origin.html

Por outro lado, todas as fontes dizem que o nome de Gales vem do germânico “wehlas”, que não se relaciona a essa etimologia. Além disso, as páginas da Wikipedia apontam para uma complexidade muito maior na origem dos vários nomes de povos celtas, que teriam convergido para uma semelhança sem terem partido de uma origem comum. Então fica esse contraponto, mostrando que não necessariamente todas essas palavras eram uma só.)

As línguas celtas têm uma certa sonoridade que é perfeitamente reconhecível, mesmo que você não as entenda. Por exemplo, têm encontros consonantais com R como os nossos, em português: BRasil, CRime, PRoGResso, TRanquilo. Também tendem a ter ditongo, como EO, EA. Finalmente, há muitos casos de palavras terminadas com G ou com CH.

Então, no domingo, 22 de maio de 2011, caminhando pela avenida San Martín, em Bariloche, deparamo-nos com o cartaz do restaurante Breogan. Em razão da pesquisa que eu fizera em 2008 e que comentei acima, imediatamente percebemos que o nome “Breogan” era vigorosamente celta. Dito e feito: o estabelecimento anunciava comida galega e comida espanhola.

(Atenção: eu disse “comida galega”. Nunca chame de espanhol a um galego, a um catalão ou a um basco. Várias culturas regionais da Península Ibérica foram sufocadas pela formação do Estado nacional centralizador da Espanha a partir do século XV e até a época do Generalíssimo Franco, mas o sangue delas ainda é quente. Então, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Embora hoje a Galícia, a Catalunha e o país basco façam parte da Espanha, as culturas tradicionais galega, catalã e basca não são a cultura tradicional espanhola.)

Imediatamente determinamos que TÍNHAMOS que jantar no Breogan antes do fim da viagem. Então, na noite de terça, 24/05, fazia um frio desgraçado (como, aliás, por toda a semana) quando lá entramos e logo o ambiente nos aqueceu. Não apenas pela temperatura, mas porque estava cheio (destoando dos outros e vazios restaurantes de Bariloche) e as cores internas puxavam para amarelo e marrom.

Não foi difícil conseguir mesa. Enquanto escolhíamos os pratos, chamou-nos atenção a decoração, espanhola na sua pujança: as paredes estavam forradas de cartazes, fotografias, cartões postais, flâmulas, leques e outros adereços remontando à Espanha. No cardápio, vários pratos espanhóis além das especialidades locais. Os pratos galegos eram de frutos do mar, quase todos com mexilhões, que não posso comer (mas recomendo o polvo à galega, uma delícia grelhada com batatas, azeite e açafrão, que por duas vezes comemos na Espanha; não conheço o do Breogan). Como estávamos longe do mar, preferimos alguma coisa menos ambiciosa. Quando fomos atendidos por um garçom cheio de serviço mas prestativo, pedimos um cervo com cogumelos do Sul (56 pesos) e um salmão ao champanha (51 pesos). Uma cerveja local (17 pesos) completou o pedido.

O cervo e o salmão estavam excelentes, mas foi depois disso que a noite ficou mais pitoresca. Bariloche está a menos de cem quilômetros do Chile, de modo que, como o cardápio mencionava pisco sour (19 pesos), não pude deixar de pedir um. Como é feito com pisco e a dose seria de uns 200 ml, pedi ao garçom que o fizesse fraquinho, e deu vontade de pedir outro e mais outro até não conseguir mais levantar. O cardápio tinha outro item que aguçou nossa curiosidade: a queimada. Quando perguntei por ela, o garçom explicou que era feita com grappa, açúcar, laranja e café. Tentador, não?

Antes de irmos embora, Esposa quis fotografar os fundos do restaurante, então aproveitei para elogiar a comida ao jovem proprietário Santiago, e ocorreu-me perguntar-lhe o porquê do nome “Breogan”. Animadíssimo, ele me explicou ser esse o nome do lendário herói fundador da nação galega. Comentei genèricamente de meu interesse em cultura celta, ao que Santiago me respondeu que, na verdade, o proprietário é seu pai, galego migrado para a Argentina, que abriu o restaurante tendo o propósito de divulgar essa cultura. Nisso enfrentou alguns desafios, como, por exemplo, na receita da queimada (que, segundo a explicação do jovem, consiste em rum, raspa de laranja, raspa de limão, café e açúcar). Aprendi que, tradicionalmente, o processo de elaboração dessa bebida requer a pronúncia de um conjuro, que já estava esquecido. Então, naquele tempo em que não havia Internet, o fundador do restaurante escreveu a sua família na Galícia, pedindo-lhes o texto do conjuro, que hoje adorna uma das paredes do estabelecimento. Santiago deu-me algumas folhas xerocadas, com a história do nome “Breogan” e o conjuro.

O galego é uma língua muito parecida com português antigo. Você até consegue ler sem dificuldade, não é mesmo? Isso, naturalmente, é porque as duas eram uma só língua até o século XII. Mesmo após o início da divergência, é de se notar que Portugal e Galícia sempre foram vizinhos. O próprio nome “Portugal” vem do latim “Portus Cale”, ou seja, “porto de celtas”, que era a referência dos romanos à cidade portuguesa que hoje se chama “Porto” e que fica bem perto da Galícia.

A ideia da queimada não nos saiu da cabeça. Por isso, na noite de sexta-feira, 27/05, o frio continuado foi apenas a desculpa necessária para voltarmos ao Breogan embora não tivéssemos fome suficiente para jantar. O lugar estava ainda mais cheio, e percebemos, pela atitude de algumas pessoas, que muitas eram prováveis habitués (espanhóis saudosos?). Mas também havia turistas anglófonos.

Qual não foi nossa decepção ao descobrirmos que a porção mínima de queimada seria de meio litro. Imagine você tomar meio litro de destilado alcoólico quase puro! Tivemos que desistir, mas, como prêmio de consolação, o garçom nos trouxe um licor de autoria da casa, à base de ervas. Absolutamente perfeito.

Para comer, pedimos só uma sopa de vegetais (20 pesos) e uma empanada de queijo e presunto (7 pesos). A sopa foi a única fibra que comemos a semana toda e estava bem feita, parecida com um minestrone só que sem o macarrão. Já a empanada, que é simplesmente um pastel, tem sobre os pastéis brasileiros a imensa vantagem de vir com muito recheio em vez de vento. Alimenta de verdade.

Na sequência, pedimos uma crema catalana (19 pesos). Essa sobremesa lembra uma cremogema com cobertura de caramelo e já a havíamos provado em Valencia em 2008. Só que, no Breogan, a receita inclui uma porção generosa de caramelo, canela e biscoito Champagne e, o melhor de tudo, estava temperada com uma raspa de limão que dá vontade de comer esse negócio até estourar.

Antes de irmos embora, o garçom veio nos avisar que uma queimada seria feita para uma das mesas e que ficássemos para observar o uso do conjuro. Depois de uma certa espera, notamos que a música ambiente havia parado. Então, entrou o tema de “parabéns pra você” em espanhol e o próprio Santiago veio com um carrinho e um pequeno tacho de cerâmica. Parou diante da mesa da aniversariante e começou a explicação sobre o contexto da queimada, contando como as pessoas se reuniam para beberem juntas e queimarem maus espíritos. É por isso que o conjuro é importante e foi nesse ponto que começamos a filmar.

Primeiro, põe-se fogo à grappa (ou ao rum que a substituir). A garotinha que estava à mesa ficou assustada com as chamas desse ponto em diante. Não sei por quê, mas a mim o fogo azul do álcool também sempre pareceu mais assustador do que o amarelo dos incêndios. De todo modo, à medida em que o preparador remexia com a concha e levantava o rum, era belíssimo como um halo azul circundava a cascata incendiada que se formava.

Na sequência, foram adicionados café, aquele licor de ervas da casa, e pedaços de casca de laranja. O fogo reclamava de cada ingrediente, levantando-se e mudando de cor, até que foi sumindo à medida em que o álcool era consumido e diminuía sua participação na solução aquosa para além da capacidade de sustentar a queima.

Ao fim da cerimônia, ainda ganhamos um copim de queimada cada um e fizemos um brinde com o empolgado proprietário do Breogan.

V11-2084 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, restaurante Breogan, 27 de maio de 2011 - brinde com queimada

Em Bariloche, o restaurante Breogan é especializado em culinária espanhola e galega e divulga a cultura céltica da Galícia. O jovem Santiago, filho do proprietário, preparou uma queimada para uma mesa onde havia um aniversário. Explicou o significado cultural da bebida e demonstrou o modo de preparo: incendeia-se uma tigela de grappa e, enquanto se remexem as chamas para queimar bruxas e maus espíritos, recita-se o conjuro tradicional e acrescenta-se laranja e café. O resultado é excelente.

Bariloche em maio de 2011 — antes das cinzas do vulcão!

O propósito deste texto é apresentar dicas para quem cogita viajar a Bariloche depois que o vulcão liberar o espaço aéreo. Não vou simplesmente contar o que fiz nem onde estive, mas descrever o que se encontra e a que preço. É minha forma de retribuir e complementar os textos muito úteis onde pesquisei antes de viajar, com especial destaque para os do Ricardo Freire, do Viaje na Viagem, e para este tópico aqui, do Mochileiros.com.

Este ano estava cheio de compromissos na época das férias, de modo que, se eu reservasse (ou, pior, pagasse) qualquer viagem com antecedência, seria grande o risco de ter que desmarcar. Por isso não programei nada. No fim de abril, já não havia vagas nos resorts do Nordeste, e passagens para a Europa estariam muito caras em razão das apenas três semanas de antecedência. Então me ocorreu: todos dizem que a Argentina está barata para brasileiros, e Bariloche já devia estar mais fria na segunda metade do outono.

O suposto baixo custo também nos atraiu. De fato, nos dias em que lá estivemos, vendemos reais por 2,40 pesos, com as favoráveis consequências que aponto adiante.

Não gosto de montar viagem com trechos diferentes voados por empresas diferentes. Por isso procurei passagem para Bariloche pela Gol e pela TAM, mas só Aerolineas e LAN Chile tinham voos inteiramente próprios saindo do Rio, a primeira delas com conexão em Buenos Aires, até Bariloche. (A vantagem de fazer os dois trechos numa companhia só é que, em caso de atraso na conexão, a companhia responsável pelo segundo voo não pode alegar que seu atraso no primeiro não é culpa dela. Não pode a do primeiro voo alegar dificuldade de te alocar no segundo, nem a do segundo se isentar de responsabilidade. Uma teoria que me parece muito prática, mas confesso que nunca tive que testá-la. Quem tiver algum exemplo ou contra-exemplo, agradeço que comente a seguir.)

Buenos Aires tem dois aeroportos: Ezeiza — grande, usado por 747 e A340, como se vê no Google Earth — e o Aeroparque Jorge Newbery, que é bem parecido com Santos-Dumont, Congonhas e Pampulha. O Aeroparque é usado para voos regionais por bimotores a jato e turboélice, predominando a Aerolineas e sua subsidiária Austral. Ali se veem muitos A320 da TAM e da LAN (estes últimos, curiosamente, com registro LV, da Argentina, e não com registro chileno. Alguém me explica?, conforme gentilmente explicado nos comentários). Também se veem muitos MD-88 DC-9 e Embraer 190 da Austral e 737 da Aerolineas. É um aeroporto arrumado, aparentando ter recentemente passado por reforma.

V11-2363 (nome provisório) - Argentina, Buenos Aires, Aeroparque Jorge Newbery, 28 de maio de 2011 - pista - aviões

Aeroparque Jorge Newbery, Buenos Aires, 28/05/2011, 16:47 h, visto do assento 8F de um 737-700. O avião mais próximo é um Embraer 190; o do fundo, um DC-9. Desculpe o sol na cara, mas é a foto mais abrangente que tenho.

Chegando ao Aeroparque, o primeiro desaforo que ouvi em solo argentino veio de um brasileiro que, despreparado, não tinha uma reles caneta para preencher o formulário da imigração e cismou que tinha direito à minha. Um idiota.

Um hambúrguer, um peito de frango no pão francês, fritas e dois refris no Aeroparque custam 75 pesos. Um expresso duplo, 15 pesos. Pelo menos os argentinos sabem fazer café direito.

O avião da Austral que nos levou no trecho AEP-BRC era um MD-88 DC-9 mal conservado por dentro, sujo em alguns pontos e indicando a idade na medida em que meu assento tinha cinzeiro.

Nota aeronáutica: não se deixe iludir pelo nome “MD-88”. Os aviões de passageiros da McDonnell Douglas seguiam a nomenclatura DC, da antiga Douglas. No DC-9, as sucessivas versões eram DC-9-10, DC-9-20 etc., até que os últimos modelos foram batizados de DC-9-81 em diante. Comercialmente, a fabricante divulgava essas versões tardias não como DC-9-81, DC-9-82 etc., mas como MD-81, MD-82 etc. São aviões fabricados do fim dos anos 80 aos meados dos anos 90, mas, apesar da aparente mudança de nome perante o público, continuam sendo DC-9 perante as autoridades certificadoras. Para mais detalhes, http://en.wikipedia.org/wiki/McDonnell_Douglas_MD-88#Model_designation

O aeroporto de Bariloche tem apenas três portões, e, com duas fotos, cobri todo o pavimento do embarque. Pronto, o parágrafo já ficou maior do que ele. Mas, pelo menos, é muito mais arrumadinho e moderno do que aquele muquifo que é o aeroporto de Beauvais, ao norte de Paris, onde estive em 1998 e onde, com a ajuda do Monstro de Espaguete Voador, jamais hei de novamente pôr os pés.

V11-0154 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, aeroporto, 22 de maio de 2011 - desembarque

Esta é a vista de dentro de uma das pontes ao desembarcar de um DC-9 da Austral. Um frio de rachar lá fora, com a vista para oeste mostrando os Andes e a torre antiga do aeroporto. A fotografia foi feita às 15:14 h. Pronto, você já viu metade do pátio de aeronaves. A torre de controle não é a atual.

Ao reservar o hotel Panamericano, eu havia solicitado o traslado desde o aeroporto, e o hotel confirmou. Entretanto, chegando ao aeroporto, descobri que ninguém esperava por nós. Telefonando ao hotel, descobri que ninguém sabia de traslado nenhum, nem tinha como verificar. Azar o deles: pegamos uma van que cobrou 20 pesos por pessoa — resultando em 38% menos gasto do que no transporte do hotel.

O Panamericano aparece em todas as referências como um luxuoso cinco estrelas e, em todas as listagens, está acima de todos os mais de quinhentos hotéis de Bariloche, ressalvados apenas outros dois. Novamente, não se engane: certamente é limpo e confortável, com quartos espaçosos, um café da manhã bem farto e variado e um atendimento prestativo 24/7, mas, de cinco estrelas, só tem a entrada suntuosa. Enfim, a 620 pesos de diária, minha única queixa é uma lâmpada queimada no quarto.

Bariloche está diante do magnífico lago Nahuel Huapi, então naturalmente você quer um quarto com vista. Isso certamente o Panamericano oferece, assim como um sem-número de outros hotéis. Porém a cidade está construída em um declive, com avenidas paralelas ao lago e ruas transversais em ladeira. Os hotéis estão nas avenidas. Das de cima (Elflein, Mitre, Moreno e San Martín), quem chega à janela tem os quarteirões abaixo em primeiro plano antes do lago, como vimos do Panamericano, que fica na San Martín.

V11-0173 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, 22 de maio de 2011 - lago Nahuel Huapi

Este é o lado esquerdo da vista do sétimo andar do hotel Panamericano, na avenida San Martín, às 17:01 h.

V11-0174 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, 22 de maio de 2011 - lago Nahuel Huapi

Este é o lado direito da vista do sétimo andar do hotel Panamericano, na avenida San Martín, às 17:01 h. À direita, a passarela sobre a rua e o cassino são parte do hotel. Ao fundo, acabam os Andes e as nuvens e começa a Patagônia. Perdoe-me o arranjo esquisito da página, mas é que esta M*RDA de WordPress não obedece quando se tenta pôr as fotos uma ao lado da outra nem, às 01:55 da manhã, tenho saco de fazer a colagem eu mesmo. Vai assim.

Para ver só o lago, as montanhas e o céu, é preciso dar alguns passos para trás. Para se ter sòmente a vista desobstruída do lago, o melhor é um hotel na avenida mais próxima dele (a 12 de Octubre, Bustillo ou Rosas, conforme o trecho), como, por exemplo, o Cacique Inacayal ou El Candil. Nessas horas, como sempre e especialmente ao pesquisar para viagens, Google Earth é seu amigo.

Chegamos no domingo, 22/05, e saímos no sábado, 28/05. Eu esperava que a temperatura não tivesse caído a ponto de nevar, e de fato não nevou. Mas a previsão do www.foreca.com, extraída em 20/05, era de mínimas de zero a 1 grau e máximas de 7 a 10 graus. Realmente, fazia muito frio para um carioca. À noite, òbviamente fazia mais frio, tolerável se não ventasse.

Apesar da proximidade da muito seca Patagônia, Bariloche situa-se em uma faixa bem estreita de terra cujo clima é influenciando pelos ventos úmidos que sopram do Pacífico, ultrapassam os Andes e fazem chover deste outro lado. Portanto, é um dos lugares onde mais chove na Argentina, e sempre com vento gelado descendo das montanhas a oeste. Nas duas vezes em que ventou e nas duas vezes em que choveu, o frio entrou até os ossos, os olhos ficaram secos e os pés e dedos começaram a doer.

Até que não usamos muita roupa, mas anote aí a referência: eu, que nunca me considerei friorento, vesti sobre o peito uma camisa quente, um pullover de lã irlandês (quente!) e um casaco impermeável de lã (quente). Por baixo dos jeans, uma calça térmica de tecido sintético. Dois pares de meias grossas, um gorro de lã, e luvas de couro forradas de feltro. Já a pequena Esposa precisou de cinco camadas: camiseta, blusa térmica, pullover e dois casacos, além da calça térmica por baixo dos jeans. Meias quentes, cachecol, gorro, luvas e sapato impermeável são indispensáveis. Tudo isso pode ser comprado na cidade, com preço menor do que no Brasil (graças ao câmbio favorável), variedade e qualidade adequada ao uso (aqui no Rio é raro encontrar roupa de frio digna desse nome). Como se entra e sai de ambientes aquecidos, é bom usar várias camadas de roupa em vez de só uma camisa e um casaco pesado.

Por uma questão de simplicidade, a Argentina escolheu seguir um só fuso horário, que aliás é o mesmo de Brasília. Isso é muito conveniente, mas, em Bariloche, é extremo o deslocamento da longitude local em relação à longitude referencial do fuso. Com isso, no inverno a alvorada é às nove da manhã.

O comércio frequentado por turistas está concentrado na avenida Mitre, com inúmeras lojas de roupas de frio e de chocolates, restaurantes, sorveterias e lanchonetes. Em quase todos os estabelecimentos, o atendimento foi excelente. A grande quantidade de brasileiros há de ser a causa de tantos profissionais se desdobrarem para usar palavras do português mescladas ao espanhol. Em toda parte, brasileiros só falavam português e eram prontamente atendidos. Ademais, mui peculiarmente, os argentinos pronunciam todos os LL e Y como nosso J. Difícil entender, mais difícil ainda se acostumar.

A presença brasileira também se nota pela seleção musical nas rádios, que tocam Ritchie, Djavan, Tribalistas, Adriana Calcanhoto e música baiana. Também se ouve muito pop e rock dos anos 80: Alphaville, Blondie, Chris Isaac, New Order, The Police, muito Guns N’ Roses e a predominância de Bon Jovi.

Outra peculiaridade linguística: há uma fruta de polpa rosada e suco cor-de-rosa que, em inglês, chama-se “grapefruit” e, em português, “toranja”. Seu nome científico é Citrus paradisi. Em espanhol, essa fruta chama-se “pomelo”, mas não deve ser confundida com a fruta que chamamos de “pomelo” em português, que é a Citrus grandis. Fácil lembrar, já que, no Brasil, ninguém parece saber que grapefruit tem nome em português. De todo modo, é do grapefruit/toranja/pomelo que os argentinos fazem um dos sabores do refrigerante Paso de los Toros. Azedo e pouco doce, recomendo.

As únicas exceções ao excelente e cordial atendimento que recebi em Bariloche foram as lojas de chocolates Rapa Nui e del Turista, onde o tratamento era mais industrial, impessoal e rápido em despachar. Também, com o comércio vazio (já que a temporada ainda não havia começado), os seguranças armados de ambas as lojas ficaram ostensivamente nos seguindo enquanto examinávamos os produtos. E as moças do caixa da Rapa Nui foram as únicas pessoas argentinas a me tratarem com grosseria.

Essas duas lojas são as maiores e vendem não apenas uma enorme variedade de chocolates em barra e bombons, senão também sorvetes de vários sabores leitosos (chocolate ao leite, meio amargo, com nozes, biscoito, amendoim, doce de leite, framboesa etc.) e produtos regionais, como alfajores, licores, geleias de frutas típicas da Patagônia, carnes de caça defumadas e seus patês, cogumelos locais, cervejas fortes locais e até cosméticos.

A sorveteria Jauja (esquina de Mitre com Quaglia) revelou o melhor atendimento e o sorvete mais variado e mais barato: diferentemente das outras sorveterias, apresenta sabores como banana com doce de leite, boysenberry, laranja com gengibre, calafate com leite de ovelha, sauco com maracujá, arándano (variedade de arando, mirtilo, cranberry), mascarpone com framboesa e mate queimado.

O chocolate da Jauja era mais barato do que os de cinco lojas (Jauja, del Turista, Rapa Nui, Fenoglio e Abuela Goye), saindo por 120 pesos/kg em quantidades pequenas ou 96 pesos/kg na compra acima de 250 g. Em contraste, a Rapa Nui cobra 142 pesos/kg, ou 115 pesos/kg na promoção com o cupom que nos deu a Turisur (agência de turismo sobre a qual comento mais adiante) e pagando em dinheiro. Na del Turista, chocolate a 113 pesos/kg.

Todos os saites onde pesquisei mencionavam os baratos táxis de Bariloche e também os remises (“aluguel de carro com motorista”), mas não explicavam a diferença. Pois é a seguinte: o remise é um táxi, mas, em vez do taxímetro, usa preço pré-fixado para o percurso. Esse preço não é padronizado, de modo que é bom perguntar antes. Táxis e remises são fàcilmente identificados como tais. Outra diferença é que o táxi você pega na rua, mas para o remise você telefona, ou passa na loja para acertar, para que ele pegue você em tal lugar e hora. Além disso, diz a moça do hotel que, de modo geral, os remises têm melhor apresentação e profissionalismo, mais ou menos como um táxi chamado por telefone em comparação com os que você chama na rua no Rio de Janeiro (òbviamente, se você, Leitor, dirigir um dos que a gente chama na rua, ou tiver parente que faça isso, seu táxi é uma exceção). Os remises são indicados para percursos longos, para fora do centro da cidade.

Na avenida San Martín, existem pelo menos duas agências de remises que são 24 horas, assim como a da Autojet, que fica numa esquina bem perto da prefeitura e que é mais barata para ir do centro ao aeroporto (55 pesos) do que se o hotel a chamar para você (65 pesos).

Já que falo do comércio, observo que entramos em quatro livrarias no centro de Bariloche, uma cidade de 100.000 habitantes. Entende agora por que se diz que argentino lê muito mais que brasileiro?

Chegamos antes do inverno e, portanto, da temporada turística. A pequena desvantagem foi encontrar alguns estabelecimentos fechados, especialmente restaurantes. Mas muitos estavam abertos e tivemos a grande vantagem de estarem todos vazios, o que proporcionou atendimento rápido, garçons tranquilos e várias ofertas de tirarem fotos de nós. No Familia Weiss (o restaurante mais famoso e referido, grande e tìpicamente turístico) e no La Alpina, os respectivos garçons estavam sòzinhos, mas nos atenderam muito bem. Em Bariloche o que mais se come é carne, e a carne de Barilocha é realmente deliciosa. Um detalhe interessante é que a maioria dos restaurantes e chocolaterias que visitamos têm fotos históricas da cidade, indicando os nomes das ruas e um “você está aqui”.

Recomendo todos os lugares onde comemos. Em todos a comida estava ótima e o atendimento foi personalizado e simpático. A saber:

– Rapa Nui — esta cafeteria funciona nos fundos da loja de chocolate, mas as duas atuam como se não fossem ligadas. Estivemos várias vezes, e foi o único lugar que vimos sempre cheio. O motivo provável é que parece ser o local de reunião dos barilochenses (é assim que se diz?). As pessoas ficam horas digitando em seus notebooks enquanto saboreiam chocolate quente, café e milkshake. Por causa disso, o atendimento é lento.

– El Boliche de Alberto — São quatro filiais, sendo três concentradas em dois quarteirões vizinhos. Dessas três, só uma faz parrilla (churrasco na grelha, o tipo de comida que mais se vê por ali, pronunciado “parrija”). Onde comemos, o cardápio não poderia ser mais simples: você escolhe a carne e vem só ela, grelhada com sal grosso. A variedade de acompanhamentos e bebidas é espartana. O churrasqueiro também é o cumim. Cordeiro assado para duas pessoas, garrafa de vinho e porção (generosa) de excelentes e fininhas fritas saem por 120 pesos.

Breogan — restaurante galego tão interessante que ganhou um texto só para ele.

– Aire Sur — fica na Colônia Suíça, muito longe do centro da cidade. Uma casinha supersimpática, de madeira, com aquecedor a lenha espalhando calor pelo ambiente. Havia sòmente duas moças trabalhando, com ares de serem as proprietárias. Uma truta ao molho de amêndoas, um chucrute à moda da casa (com bacon, duas salsichas defumadas, batatas ao molho de azeite e purée de maçã), uma cerveja e um café suíço (com creme, espuma de leite, canela e licor de guindas) custam 130 pesos.

– La Alpina — Ao centro do restaurante há uma lareira a lenha, e as mesas têm bastante privacidade, mas também têm contato visual com o garçom. Aqui se destacam os fondues. Comemos um de queijo com cerveja preta, que aliás o garçom nos conta ser bem comum na região. (De todo modo, fondues são comuns sim, especialmente a título de sobremesa.) Acompanhado de um suco e um refri, deu 164 pesos.

– Friends — Este é uma lanchonete melhorada, de sanduíches e pizzas retangulares. Uma pizza de javali e outra de cogumelos, que vieram cada uma sobre uma tábua, mais uma cerveja, por 126 pesos.

– Familia Weiss — Aqui o Ricardo Freire, Autor do Viaje na Viagem, relatou ter comido “bem médio”. Atribuo isso ao estado do restaurante quando ele foi; mais de um saite relata que o lugar enche muito na alta temporada. Entretanto, pudemos aproveitar um almoço supertranquilo num restaurante silencioso, com arquitetura aconchegante e excelente iluminação natural (porque sentamos à janela, senão não). Um bife de chorizo e um Spätzle (mininhoque) com picadinho de cervo, mais a garrafa de vinho, saíram por 163 pesos. O bife estava sensacional; já o picadinho… bem médio. OK, o Ricardo tinha razão, e quem comentou a matéria dele também.

V11-1869 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, 27 de maio de 2011 - restaurante Familia Weiss

Chegamos para almoçar cerca das 16:20 h. Havia uma mesa ocupada e um garçom. O atendimento foi excelente, a comida também. Dizem que na alta temporada fica muito cheio...

Vários estabelecimentos fecham na hora da siesta, de umas 13:30 às 16 horas. Pelo menos a maioria tem o salutar costume de pôr seus horários de funcionamento na porta, como se faz na Europa.

Outro inconveniente grave: em Bariloche, o cartão de débito internacional Visa Travel Money não foi aceito. Cuidado, quem contava com ele!

Sempre se associa Bariloche a neve e esqui. Mas, quando não neva, ainda há diversos passeios que se podem fazer pelos arredores da cidade. No Centro Cívico, onde fica a prefeitura, há a Oficina de Informes Turisticos (“oficina” = espanhol para “escritório”), que fica aberta de 8 às 21 horas, inclusive aos domingos. O atendimento é excelente, os servidores municipais são atenciosos e vão te dar vários panfletos ricos em informação, que vão complementar com o tanto que sabem de útil.

Para explorar esse mercado, existem várias agências de turismo em Bariloche. Aliás, a cidade vive bàsicamente de turismo. Como chegamos em um domingo à tarde, só encontramos uma agência aberta, a Turisur, bem localizada no começo da avenida Mitre. Seu atendimento foi muito bom e os preços eram compatíveis com a faixa que nos havia sido estimada na Oficina de Informes. Por esses motivos, fizemos três passeios com eles, a saber:

– Cruzeiro de barco pelo lago Nahuel Huapi e visita ao bosque de arrayanes (que eles pronunciam “arrajanes”), por 230 pesos por pessoa (mais ingresso no Parque Nacional Nahuel Huapi, 61 pesos por pessoa). Você entra em um catamarã com dezenas de outros turistas e ràpidamente percorre o belíssimo lago, observando paisagens sensacionais abrigado do vento congelante lá de fora. Infelizmente, para melhor apreciá-las, é preciso tirar a bunda enorme da cabine bunda da enorme cabine e ir pro tombadilho lá fora, onde é preciso se lembrar de tirar o pingente de gelo do nariz antes de posar para foto.

V11-0269 (nome provisório) - Argentina, lago Nahuel Huapi, 23 de maio de 2011

Olhando para o Norte do lado de fora de um catamarã da Turisur às 14:39 h. No lado esquerdo da foto, ao fundo, os Andes.

(Em tempo: quem estuda Direito tributário brasileiro logo perceberá que, se o Direito tributário argentino for igual ao nosso, o que paguei não foi “ingresso” ao parque, mas uma taxa pelo exercício do poder de polícia de fiscalização contra predação do parque — regulado, no Brasil, pelo Código Tributário Nacional, arts 77 e 78.)

A visita ao bosque é interessantezinha, mas os guias fazem um escarcéu como se fosse o parque mais incrível do mundo. Meu, é só um pouco de reserva florestal, que você percorre num caminho todo delimitadinho em cima do calçamento de madeira. Aí a Turisur tem um fotógrafo que explica como a agência fez uma lanchonete numa cabana de madeira, pôs-lhe o nome de “casa do Bambi” e tira sua foto na frente, cobrando extorsivamente. Ridículo. Foi o primeiro dos casos que vi de turismo um-sete-um da Turisur. Se bem que me deram um cupom para desconto na chocolateria Rapa Nui, de 20% à vista ou 10% no cartão.

O passeio se completa com a visita à ilha Victoria, onde um magnata com preocupações ecológicas iniciou um jardim botânico em 1924 (dez anos antes da criação do Parque Nacional, que inclui a ilha). O jardim tem árvores de vários lugares do mundo, inclusive um bosque de sequoias.

Olha só. A guia explicou que as mudas de sequoias vieram da Califórnia. Necessàriamente isso aconteceu após o início do plantio do jardim em 1924, certo? Ao lado de uma dessas altíssimas árvores, há uma fotografia, feita em 1868, de uma sequoia do parque Yosemite. Pois saiba que esta brasileira do grupo, nova-rica deslumbrada sem cultura, logo me perguntou se era a mesma árvore. Expliquei-lhe que não, que as sequoias da ilha Victoria tinham sido plantadas sessenta anos depois da sequoia da foto. Ela contestou que as sequoias da ilha Victoria eram altíssimas, mas aí a informei de que as sequoias crescem um metro por ano, tornando perfeitamente possível que, de 1924 a 2011, as da ilha Victoria tivessem chegado à altura enorme que estávamos vendo. Expliquei-lhe que o Yosemite ficava na Califórnia, que não era ali por perto e que, portanto, as duas não eram a mesma árvore, mas a mulher não acreditou em mim. Estava convencida de que as sequoias tinham sido trazidas inteiras da Califórnia e replantadas ali na Argentina e que aquele ali era o parque Yosemite.

Gente ignorante exerce um paradoxo interessante. Em geral, não têm imaginação nenhuma; porém, quando se metem a duvidar da realidade, acreditam em absurdos que desafiam Tolkien, Asimov e Clarke. Não sei como a mulher concebeu que as árvores tivessem sido transportadas. Certamente algum lenhador as teria posto nos ombros e trazido de navio, lá da costa Oeste dos EUA até o interior mais austral da Argentina, subindo até Bariloche de caminhão numa época em que não havia nem luz elétrica na área. Porque a moça ficou atrás da guia, querendo se certificar de que não fossem rigorosamente as mesmas árvores que se viam na fotografia antiga.

– Cerro Tronador. Esta foi a melhor excursão, custando 143 pesos por pessoa. Partimos às oito da manhã, quando ainda estava escuro, numa van que tomou o rumo sul, contornando o lago Mascardi até uma das entradas do Parque Nacional (ingresso: 50 pesos por pessoa). A estrada só é asfaltada até certo ponto; como disse o guia Raúl, “… después: Patagónia!”. O passeio dura o dia inteiro e você vê paisagens magníficas de lagos, montanhas e floresta temperada.

V11-0493 (nome provisório) - Argentina, lago Mascardi, 24 de maio de 2011

Esta é a bifurcação central do lago Mascardi, vista de uma praia de cascalho às 09:19 h. Chegamos ali levados na van da Turisur. As montanhas são parte dos Andes, algumas dezenas de quilômetros a oeste de Bariloche.

V11-0504 (nome provisório) - Argentina, lago Mascardi, 24 de maio de 2011

Esta é outra vista da mesma praia. Por incrível que pareça, esta imagem não recebeu nenhum tratamento; a cor é natural (ou: tão natural quanto u'a máquina fotográfica digital consegue interpretar). Às 09:23 h, a manhã estava muito fria.

V11-0598 (nome provisório) - Argentina, lago Mascardi, 24 de maio de 2011

Este é o braço ocidental do lago, visto de um mirante às 12:11 h. As montanhas são parte dos Andes, algumas dezenas de quilômetros a oeste de Bariloche.

Para o almoço, a van pára no único restaurante que você vai ver dentro do parque. O lugar é simplesinho e não tem concorrência, mas o que importa é combater o frio de rachar lá de fora, e nisso a comida e o chocolate quente são eficazes. E saborosos também. Uma sopa, um guisado de lentilhas, uma empanada (pastel) de queijo e presunto e uma cerveja saem por 113 pesos.

Depois do almoço, vem a cereja do bolo que é o cerro Tronador: um vulcão de 3.500 metros que separa Chile e Argentina e do qual desce uma impressionante geleira. Não se impressione com a altitude, porque Bariloche está a 800 metros acima do nível do mar e você sobe de carro só até uns mil metros. Descendo do carro, caminha quinze minutos, com cuidado para não escorregar no gelo, e logo chega a uma esplanada (que, trinta anos atrás, estava embaixo de vários metros de gelo, cortesia do aquecimento global). Enquanto a montanha está escondida pelas nuvens, dali se descortina esta vista do limite inferior da geleira:

V11-0741 (nome provisório) - Argentina, cerro Tronador, 24 de maio de 2011

Esta é a base da geleira no lado argentino do cerro Tronador, que faz a fronteira com o Chile. O vulcão eleva-se acima de 3500 metros, mas a fotografia foi feita de cerca de 1000 metros, às 15:10 h.

O nome “Tronador” deve-se aos blocos de gelo que se soltam e despencam centenas de metros até se esborracharem cá embaixo. O ruído é idêntico ao de detonação de explosivos trovão.

Circuito Chico (“circuitinho”). Por 57 pesos por pessoa, a Turisur leva você aos mirantes ao longo do lago Nahuel Huapi. Uma subida de teleférico ao cerro Campanario (40 pesos por pessoa) mostra 360 graus desta paisagem.

V11-1265 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, Cerro Campanario, 26 de maio de 2011

Em dez minutos de teleférico, chegamos ao alto do Cerro Campanario, de onde se tem uma vista de 360 graus dos arredores de Bariloche. Às 10:28 h, fazia frio. Esta é a vista para Noroeste. À esquerda, o Cerro López e, atrás dele (não visível), o Cerro Tronador e os Andes. Ainda na esquerda, os dois braços do lago Perito Moreno. À direita, em primeiro plano, o lago Nahuel Huapi; em direção ao fundo, uma península, novamente o Nahuel Huapi e a ilha Victoria.

O resto do passeio é interessante, mas tem mais turismo um-sete-um. Primeiro, porque, por alguma razão que ainda hei de entender, alguém cismou que é atração turística levar você a percorrer o jardim diante do hotel Llao Llao, o mais antigo e sofisticado de Bariloche. Patèticamente, ninguém pode descer da van, que circula em baixa velocidade à frente da imponente construção. Parece até aquele episódio dos Simpsons onde as crianças vão visitar uma fábrica de caixas. Segundo, porque, depois de você ter tido APENAS QUINZE MINUTOS para apreciar o momento mais bonito da semana no cerro Campanario, a Turisur te põe durante MEIA HORA DENTRO DE UMA LOJA de cosméticos que só existem à venda ali, como se isso fosse atração turística. Cabe lembrar que todos os cosméticos são feitos de rosa mosqueta, uma plantinha que, no discurso da vendedora, resolve todo problema de pele, de remoção de manchas a queimaduras de terceiro grau. Ela só se esquece de dizer que a rosa mosqueta não é típica dali, mas veio da Europa meridional e se adaptou tão bem que hoje é uma praga na Patagônia.

Com o pouco trânsito de Bariloche e apesar de os argentinos serem latinos como nós, impressionou-nos que os ônibus cumprissem os horários da tabela que o servidor da Oficina de Informes nos deu. Pegamos a linha 10, que, ao preço de 6 pesos por passageiro e após cinquenta minutos na estrada que segue o lago, deixou-nos na Colônia Suíça.

A Colônia Suíça é mais um caso de turismo um-sete-um. Fontes escritas e faladas nos indicaram a localidade como um povoado histórico onde, todas as quartas-feiras, um festival traz artesanato e comidas típicas, inclusive curanto (carne assada em fogo enterrado durante várias horas — barreado, alguém?). Só que tudo que encontramos foi uma rua de terra que se percorre em cinco minutos, as barraquinhas e restaurantes quase todos fechados à espera da alta temporada, e uma meia dúzia de malucos-beleza vendendo um artesanato mequetrefe que qualquer maluco-beleza te vende em qualquer praça de cidade grande. Tem uma capela e uma casa antiga preservadas, mas a “colônia” acaba aí. A observação mais notável foi o posto da polícia, com um carro velho e batido que só dá mesmo é pena do policial.

As partes boas da visita à Colônia Suíça foram o restaurante Aire Sur, a vista de um lago próximo porém escondido atrás de algumas árvores e a própria viagem no ônibus, que não só é sempre um divertimento em terra estrangeira como nos ofereceu farta vista de paisagens do lago Nahuel Huapi. Na volta, o ônibus foi enchendo, inclusive de um grupo de mochileiros jovens e anglófonos. Desceram no mesmo ponto nosso e perguntei de onde eram. Um deles era de North Yorkshire. Embora muito novinho, tinha, à guisa de cachecol natural, uma barba de fazer inveja ao Alan Moore.

Por último, duas visitas a museus que recomendo sem reservas. Um é o Museu do Chocolate, integrado à fábrica da Fenoglio, que, entretanto, não está aberta a visitação (embora visível através de janelões). Sua exposição está muito bem montada, explicando vários fatos sobre o cacaueiro, o cacau e seu aproveitamento econômico, sobre a história da indústria do chocolate desde os astecas, passando pelos conquistadores e pela nobreza europeia, sobre a evolução do significado social do chocolate, sobre o contexto em que era bebido… Tudo com ilustrações pertinentes e objetos de época. A explicação do guia era dispensável, porque há bastante texto junto às imagens, contendo tudo que ele disse; mas a visita valeu os 16 pesos do ingresso.

V11-1733 (nome provisório) - Argentina, San Carlos de Bariloche, Museu do Chocolate, 27 de maio de 2011

Em Bariloche, a fábrica de chocolate Fenoglio mantém este museu, cuja exposição está muito bem montada e é rica em informação e ilustrações sobre a evolução do uso social do chocolate desde os astecas, passando pela nobreza europeia, até o final do século XX. A fotografia mostra aproximadamente 2/3 da mostra. Atrás da parede à direita, o primeiro terço é sobre o cacaueiro, a composição orgânica do chocolate e os primeiros usos entre os astecas. À direita, o uso pelos astecas conforme testemunhado pelos Conquistadores e a adoção inicial pelos espanhóis. À esquerda, a propagação do chocolate na Europa durante os séculos XVII a XIX e o início da fabricação em massa durante a Revolução Industrial.

O outro museu é o paleontológico, aonde chegamos quando faltava meia hora para fechar. O museu não recebe dinheiro estatal, mas apenas dos ingressos (8 pesos) e da venda de produtos como camisetas. Funciona em um galpão que não deve ter mais de 100 metros quadrados e agrupa um excelente sortimento de fósseis. Apesar do espaço apertado, os fósseis estão dispostos de modo bem visível e didático. Nas paredes, paineis ilustrativos mostram a deriva continental, a formação dos fósseis, a genealogia evolutiva dos tipos de animais, a evolução das glaciações na Patagônia e os locais de onde vieram os fósseis. Estão presentes a mandíbula de um Charcharodon megalodon (versão gigante do tubarão-branco), a réplica dos ossos de um ictiossauro e centenas de fósseis de palmeiras, moluscos, insetos, aracnídeos, peixes, anfíbios, répteis e mamíferos, dispostos em ordem cronológica. O museu está quase escondido entre o lago Nahuel Huapi e a avenida 12 de Octubre, em frente a uma escola e a uma das sedes do órgão que fiscaliza parques nacionais.

E foi isso. Não há muito mais a contar, e espero ter sido útil. Nos vemos na próxima postagem, quando detalharei o excelente restaurante Breogan.

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Em tempo: sabe a postagem anterior a esta? Pois fiquei sabendo que o seriado da Mulher-Maravilha foi cancelado. Ótimo. Assim ninguém passa vergonha.

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