Às vezes a gente se engana

Estava assistindo ao episódio de Star Trek: the Next Generation intitulado “Emergence”, onde o computador da Enterprise adquire uma forma rudimentar de autoconsciência. Nas palavras (traduzidas por mim) do dicionário Merriam-Webster, “emergence” é “o ato de se tornar conhecido ou visível”, ou “a condição de recém-formado ou recém-proeminente”. O título do episódio traz a ideia da inteligência do computador emergindo de um mar de dados até então desconexos e fazendo-se conhecer, que é justamente o que acontece na história. Essa palavra está ligada ao verbo “emergir”, então poderia se traduzir talvez como “emersão”, mas certamente não com o nome que ganhou no Brasil, “Emergência” — pois essa palavra seria a tradução de “emergency”, que é outra coisa.

… Mas, voltando, estava assistindo ao episódio, e há uma cena onde Data fica segurando um táxi pelo pára-choque.star_trek_the_next_generation_1987_2811_medium

Não se consegue ler o primeiro caracter da placa, mas os caracteres legíveis são “20638”.

Vejamos. 6-38 remete a junho de 1938. Sabe qual foi a famosa edição publicada com data de junho de 1938?
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Então, sendo fã de quadrinhos, é claro que, de imediato, eu pensei que essa fosse uma referência. O modelo de carro é certamente semelhante.

Só que, pesquisando melhor, fui ver que a data de publicação de Action Comics #1 não foi em 20 de junho, nem na semana de 20 de junho (o que também é relevante, pois o que se costuma usar como referência é a segunda-feira da mesma semana, e não o próprio dia). Também descobri aquela letra H na frente e para ela não encontrei explicação.

A conclusão imediata é que provàvelmente se tratava de mera coincidência. Outra conclusão, de âmbito mais amplo, é que não é pra ficar vendo referências que não estão lá, feito aqueles devotos que veem a face de Jesus Cristo em qualquer fatia de pão torrado.

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O Bom Doutor, esse espertinho

Já por algumas vezes tentei escrever meu texto definitivo sobre o universo comum onde se passam inúmeras das histórias do futuro de Isaac Asimov. Terminei alguns textos parciais, que você encontra neste mesmo belogue. Agora, acho que saiu o texto que eu tanto queria. Não é definitivo, porque ainda não acabei de ler todos os livros do dito universo, mas já transmite a visão global que eu vinha buscando há um tempo.

O prolífico escritor americano Isaac Asimov (Petrovichi, Rússia, 1920 – Nova Iorque, 1992) publicou algumas centenas de livros. A maioria são de divulgação científica, mas os livros que o tornaram mais famoso foram os de ficção científica, em particular os contos de robôs positrônicos, aos quais o Autor ficou para sempre associado.

Nem todas as obras de ficção científica de Asimov tratam de robôs. O Bom Doutor publicou vários contos e romances, muitos dos quais são independentes, completamente desconectados de qualquer outra obra. Entetanto, muitos outros (perfazendo cerca de três dezenas de livros) são ambientados em um mesmo universo, a que os textos especializados se referem como o universo dos Robôs, Império e Fundação. Trata-se de uma extensa obra já revirada e analisada por uma multidão de leitores fiéis, que descreve o futuro da humanidade ao longo de milênios e que trouxe a Asimov reconhecimento como um dos maiores Autores de ficção científica até hoje. Nestes livros, os longos diálogos entre os personagens são o veículo para aquilo que mais tarde se convencionou chamar de world-building: extensas descrições da História, Geografia e sociedade do futuro, em uma visão grandiosa onde mais importante é o cenário do que as histórias.

Estes livros foram publicados ao longo de cinco décadas, na ordem em que ao Autor veio a vontade de escrevê-los: uma ordem bem diferente daquela em que se passam seus eventos. Então, existem pelo menos duas formas de se ler esta criação: a ordem histórica de publicação (à qual sempre dou preferência, tal como faço com quadrinhos, J.R.R. Tolkien, Jornada nas Estrelas e Babylon 5) e a ordem cronológica em que os eventos transcorrem no universo criado pelo Autor. As duas ordens estão minuciosamente analisadas em numerosos saites na Web. Para seguir a ordem histórica de publicação, pode-se procurar o artigo na Wikipedia, assim como numerosas fontes online; para seguir a ordem cronológica dos eventos, pode-se procurar a Lista de Ficção Insanamente Completa de Johnny Pez. Para uma história que explica como surgiu e evoluiu esta grande obra espalhada em vários livros, clique na Parte 1 da História das Histórias de Robôs Positrônicos e da Fundação.

Daqui para baixo, SPOILERS. Você foi avisado.

De 1939 até 1982, Asimov criou três universos narrativos sem conexão entre si:

1) Os contos de robôs, ambientados no Sistema Solar no século 21. A colonização dos planetas é auxiliada pela mão de obra dos robôs positrônicos, que são proibidos na Terra mas largamente empregados no espaço. Um número significativo destas histórias é protagonizado pela Robopsicóloga Susan Calvin; algumas, de fundo mais cômico, pelos especialistas Powell e Donovan. A maioria das histórias explora as consequências das Três Leis da Robótica, uma criação de Asimov que caracteriza seus robôs como máquinas úteis à raça humana, evitando o Complexo de Frankenstein. A maior parte destes contos estão agrupados nas coletâneas I, Robot (o mais famoso de todos os livros de Asimov, de 1950), The Rest of the Robots (1964), The Bicentennial Man and Other Stories (1976), Robot Dreams (1986), Robot Visions (1990) e na que reúne os dois primeiros, The Complete Robot (1982), embora alguns contos desses livros não façam parte do universo dos contos de robôs, por não serem compatíveis com as Três Leis.

2) Os romances de robôs, ambientados alguns milênios em nosso futuro. Fazendo uso da tecnologia hiperespacial, a humanidade alcançou cinquenta planetas em sistemas estelares próximos e neles fundou colônias, cujos habitantes são denominados Spacers. As colônias têm baixíssima densidade populacional, enquanto a Terra, superpovoada, é vista por elas como um planeta atrasado, doente e decadente. Enquanto a Terra continua a rejeitar a presença de robôs, as colônias fazem extenso uso deles como sua principal mão de obra. Isso as torna tão economicamente eficientes que a vida dos Spacers é um paraíso hedonista, onde ninguém precisa trabalhar e todos são mais saudáveis e longevos do que seus contemporâneos terráqueos. Essa dicotomia provoca hostilidade entre os dois grupos de humanos, terráqueos de um lado e Spacers do outro, os últimos vendo-se como um novo passo da evolução e os primeiros percebendo-os como elitistas esnobes. Oriundo de Nova Iorque, o Detetive Elijah Baley investiga homicídios na Terra e nas colônias com seu parceiro improvável, o andróide R. Daneel Olivaw, e os dois tornam-se grandes amigos. As obras são os romances The Caves of Steel (1954), ambientado em Nova Iorque, e The Naked Sun (1957), ambientado na quinquagésima colônia, Solaria, mais o conto Mirror Image (1972). Ainda, o conto Mother Earth (1949) passa-se alguns séculos antes dos romances e não faz uso dos mesmos personagens, mas integra o mesmo conjunto.

3A) Os romances do Império, ambientados alguns milênios depois dos romances de robôs. A humanidade espalhou-se e colonizou toda a Galáxia. Dos inúmeros planetas ocupados, Trantor expandiu sua influência a ponto de se tornar a capital de um crescente império, cujo tamanho é diferente de um para outro livro. A Terra é um planeta radioativo, visto como a escória decadente da Galáxia (ou até esquecido, dependendo da época). Os romances são os fracos Pebble in the Sky (de 1950, sendo o mais conhecido e menos ruim deste conjunto), The Stars, Like Dust (1951) e The Currents of Space (1952). Não há robôs nestas histórias.

3B) A Trilogia da Fundação. Trata-se de oito noveletas publicadas isoladamente de 1942 a 1950 e posteriormente agrupadas em três livros, junto com uma nona e tardia história. Entre os admiradores do escritor, esta trilogia é considerada sua obra-prima, tendo sido fortemente inspirada pela leitura do clássico Declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon. As noveletas mostram os dias finais do Império, ainda sediado em Trantor e, a esta altura, existente já há 12.000 anos. O Império estende-se por todos os milhões de mundos habitados por humanos nesta Galáxia, cada um com sua variada cultura, totalizando quatrilhões de súditos. Sua eclética capital, toda coberta de edifícios, representa a epítome da burocracia, para ela afluindo representantes dos mais variados cantos da Galáxia. (Costumo dizer que Londres, capital de um império onde o Sol não se punha, é a mais próxima imagem que hoje temos de Trantor. Imagino que, em Star Wars Episódio I, George Lucas tenha criado Coruscant à imagem daquele planeta-cidade.) Nesse contexto, o cientista Hari Seldon cria um novo ramo da Matemática ao qual batiza de Psico-história. Nesta ciência, as equações formuladas por Seldon permitem deduzir as tendências comportamentais de grandes populações com base em leis sociológicas e probabilidades e, com isso, essencialmente prever o futuro com suficiente e assustadora precisão; quanto maior a amostra, mais acuradas são as previsões. Esse conhecimento avançado permite a Seldon descobrir que o Império já está decadente e cairá em poucos séculos. Da mesma forma, para se atingir determinado resultado a longo prazo, as previsões da Psico-história permitem identificar quais são as ações eficazes. Assim, para preservar o conhecimento de milênios e abreviar a iminente idade das trevas, Seldon calcula que o melhor a fazer é instituir a Fundação, uma nova organização que sucederá o Império em meio a guerras e outros conflitos planetários. A Trilogia narra os desdobramentos da criação da Fundação e do Plano de Seldon ao longo dos séculos subsequentes, sendo constituída pelos livros Foundation (de 1951, abrangendo quatro histórias mais uma que se passa antes das demais mas que foi escrita por último, especialmente para este livro), Foundation and Empire (de 1952, com as duas seguintes histórias originais) e Second Foundation (de 1953, com as últimas duas histórias originais). Não se veem robôs em qualquer um desses livros.

Em algumas destas histórias do Império e da Fundação, fica implícito e, noutras, explícito que a raça humana é a única espécie inteligente em toda a Galáxia. Com isso, Asimov pôde concentrar-se em descrever sòmente conflitos envolvendo a própria raça humana, sem preocupações com alienígenas. (Havia uma motivação editorial antirracista por trás disso, explicada por ele mesmo em The Early Asimov (1972), que não vem ao caso agora.) Como, porém, o Autor nunca se preocupou muito com coesão ou consistência, existem alguns contos de robôs, e outros tantos que mencionam planetas do Império Galáctico, onde se dá o confronto entre a humanidade e outras civilizações. Pode-se considerar que estas histórias estejam fora do conjunto das demais apesar de conterem elementos que lhes são comuns. São elas Victory Unintentional (de 1942, continuação de Not Final!, de 1941) e Black Friar of the Flame (de 1942, fazendo referência a Trantor e a outros planetas do Império). Uma outra, Blind Alley (1945), também envolve alienígenas, mas, mesmo assim, é compatível com os romances do Império.

As obras dos três conjuntos acima ambientavam-se em épocas tão distintas que seu tratamento era absolutamente independente. Essencialmente, Asimov exercitava-se em três universos desconectados, um no futuro próximo, outro no futuro distante e um terceiro no futuro bem remoto, sem nenhuma intenção, plano ou esforço de reuni-los. Esse comportamento mudou nos anos 80, quando o Autor começou uma grande unificação dos três universos ficcionais, fundindo-os em um só. Ao longo daquela década, os novos trabalhos passaram a incluir referências bastante ostensivas aos elementos de histórias já conhecidas, costurando os diferentes retalhos em um tecido único.

A tarefa começou em The Robots of Dawn (1983), que é mais um romance de robôs com Baley e Daneel. Ambientado em Aurora, a primeira das Cinquenta colônias, The Robots of Dawn faz referências a eventos dos contos de robôs como parte de um passado já distante, ao mesmo tempo em que um de seus personagens especula sobre um futuro onde seja possível prever o comportamento da civilização com alguma espécie de “Psico-história”.

Nesse ponto, havia uma incompatibilidade entre os períodos históricos dos universos dos robôs e da Fundação. Se a humanidade já entregara à tecnologia robótica todo o trabalho braçal nos romances de robôs, como se explicaria que, milênios depois, não houvesse um só robô nas histórias de Império e Fundação?

A resposta veio do romance de robôs seguinte, ambientado alguns séculos após The Robots of Dawn, com o título de Robots and Empire (1985). Aqui, aprende-se que, conforme fôra previsto em The Robots of Dawn, os Cinquenta Mundos estagnaram e suas culturas começaram a definhar em razão do uso indiscriminado de robôs, que tirou todo o desafio da vida colonial. Ainda no intervalo entre um e outro livro, iniciou-se uma segunda onda de colonização do espaço a partir da Terra, sem o auxílio de robôs. Os mundos da segunda colonização começaram a disputar espaço político com os primeiros, mas seu vigor tende a prevalecer. Ao fim, inicia-se um processo onde a Terra se torna gradualmente radioativa, motivando a emigração e o paulatino abandono pela humanidade, e as colônias da segunda onda estabelecem as bases de um futuro Império Galáctico sem robôs, com o concomitante desvanecimento das Cinquenta colônias originais. Fica explicada a origem da radioatividade da Terra e do esquecimento do planeta original da humanidade nos livros do Império e da Fundação.

Nesse meio tempo, Asimov publicou um romance continuando a Trilogia da Fundação, com o nome de Foundation’s Edge (1982). Após esse livro, assim como havia começado a estender para o futuro os romances de robôs de modo a conectá-los às histórias do Império e da Fundação, da mesma forma ele passou a estender-se também a partir da extremidade oposta, contando, em retrospectiva, como os Cinquenta Mundos haviam dado lugar ao Império. Assim, em Foundation and Earth (1986), continuação de Foundation’s Edge, os protagonistas partem em busca da Terra, agora já um planeta mítico, de cuja existência muitos duvidam. No processo, encontram restos de algumas das já abandonadas Cinquenta primeiras colônias, deparam-se com Daneel (ainda operacional após tanto tempo) e descobrem que ele foi o grande mentor, tanto da formação do Império como da posterior Fundação. Com Foundation’s Edge e Foundation and Earth, passa a haver uma Série da Fundação, para além da Trilogia original.

Pouco depois (1988), Asimov publicou a prequel Prelude to Foundation, que relata um momento da juventude de Hari Seldon, pouco após o matemático inventar o conceito de Psico-história. Em uma das passagens, descobre-se que o setor mais tradicionalista de Trantor é ocupado por descendentes dos habitantes de Aurora, em uma cultura que reverencia o passado perdido, em que eram mestres de robôs. Ao fim do livro, Seldon descobre que ainda existem alguns robôs, disfarçados entre os humanos, um dos quais é Daneel, que continua a influenciar vigorosamente a evolução da humanidade.

É inevitável que, ao longo de cinquenta anos de publicações e sendo tão numerosas as histórias, existam inúmeras inconsistências dentro desta majestosa obra. Apesar de ser um só Autor por trás de todos os livros, Asimov sempre se confessou indisposto ao esforço de compatibilizar novas histórias com as velhas, preferindo concentrar-se na diversão criativa e, por vezes, estabelecendo o que se costuma chamar de continuidade retroativa (quando novas obras essencialmente reescrevem o passado, substituindo o conhecimento dos eventos que o leitor tinha a partir de histórias mais antigas).

Eu só escrevi todo este resumo porque queria comentar o romance que terminei na semana passada, Nemesis, de 1989. Este foi o primeiro romance de Asimov que se pretendeu autônomo em sua obra desde 1972, com uma história original não relacionada às de robôs ou da Fundação. Ambientado no século 23, ele conta como a primeira colônia orbital sai do Sistema Solar e, em uma longa viagem, vai acercar-se de uma estrela anã vermelha descoberta a apenas dois anos-luz do Sol. Ao longo do livro, os personagens inventam a tecnologia hiperespacial, que permite viagens instantâneas entre localidades situadas a anos-luz uma da outra.

Na Nota do Autor ao início de Nemesis, Asimov diz (e traduzo livremente do original, pois não tenho à mão um exemplar da edição da Nova Fronteira) que “este livro não é parte da Série da Fundação, da Série dos Robôs, nem da Série do Império. Ele se sustenta independentemente. Apenas pensei em alertar o Leitor para evitar uma apreensão mal dirigida. É claro, posso um dia escrever outro romance ligando este aos demais, mas, por outro lado, pode ser que não. Afinal, por quanto tempo conseguirei chicotear minha mente para fazer funcionarem estas complexidades da História do futuro?”

Essa passagem é intencionalmente ambivalente. De um lado, Asimov liberava-se para escrever uma obra original, sem compromisso com o universo estabelecido entre robôs e Fundação. Por outro lado, nota-se a intenção, ainda embrionária, de inserir o livro no conjunto da obra maior.

No entanto, olha só o discurso de uma personagem que se encontra a duas páginas do fim do livro: “no fim, talvez a Galáxia venha a ter dois tipos de mundos, mundos de terráqueos e mundos de mais eficientes pioneiros, os verdadeiros Spacers. Eu me pergunto como isso se resolveria. Certamente significaria que o futuro estaria com eles. Em certa medida, eu lamento isso”. Nas duas últimas páginas, outro personagem “sabia que a humanidade correria de estrela para estrela tão facilmente como tinha corrido de continente para continente (…). A mesma anarquia, a mesma degeneração, a mesma mentalidade inconsequente de curto prazo, todas as mesmas disparidades culturais e sociais continuariam a prevalecer — por toda a Galáxia. O que haveria agora? Impérios galácticos? Todos os pecados e tolices graduados de um mundo para milhões? (…) Quem conseguiria enxergar sentido em uma Galáxia, quando ninguém conseguira enxergar sentido em um único mundo? Quem aprenderia a ler as tendências e prever o futuro em uma Galáxia inteira fervilhando de humanidade?”

Quando cheguei a esse trecho, imediatamente percebi o propósito do Bom Doutor. Era quase uma pilantragem: embora ele não assumisse qualquer compromisso de tornar Nemesis compatível com os livros anteriores, desobrigando-se de eliminar inconsistências e de conectar uma história às outras, estava claro que se referia ao período histórico dos romances de robôs, ao Império Galáctico e à Psico-história. Certamente é por causa dessas duas passagens que os pesquisadores situam Nemesis como “tangencialmente” situado no universo da Fundação.

Mais recentemente, descobri que o clássico The End of Eternity, de 1955, também “tangencia” a Série da Fundação. Considerando o ano de publicação, decerto o Autor terá feito isso de forma menos deliberada. Ainda assim, creio que terei que lê-lo prioritàriamente, antes de passar aos últimos livros: Forward the Foundation (1993) e, da pena de outros Autores, Foundation’s Friends (1989), Foundation’s Fear (1997), Foundation and Chaos (1998) e Foundation’s Triumph (1999).

Antes de fechar, quero apenas observar que todos esses livros (até onde sei) foram publicados no Brasil, vários em traduções castiças pela editora Hemus (nos áureos tempos), outros tantos pela Record. Nos últimos três ou quatro anos, os romances de robôs e do Império e os sete livros da Fundação têm saído em novas traduções pela editora Aleph, que parece ressurgida das cinzas com várias traduções de clássicos, não sòmente de Isaac Asimov mas também de Arthur Clarke, Philip Dick e outros veneráveis mestres. A meus estimados Leitores que porventura tenham tido a paciência de chegar até aqui, recomendo embarcar nessa viagem, que, até agora, já me tomou belos oito anos de leituras e há de tomar ainda mais alguns.

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Resenha: Batman: Arkham Asylum: Tales of Madness #1

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Batman: Arkham Asylum: Tales of Madness #1 (May 98) é o capítulo Dezesseis do arco de histórias Cataclysm, onde um terremoto destrói Gotham City. Curiosamente, foi publicado depois do capítulo intitulado “Conclusão” (que saiu em Robin #53). Mas isso não faz diferença, porque a história é bastante autônoma e poderia entrar em qualquer ordem.

Tales of Madness é a única história de Cataclysm a mostrar o que aconteceu ao Asilo Arkham durante o terremoto. Ao detectar o sismo, um dispositivo automático de segurança fecha o acesso à área das celas, isolando os prisioneiros de seus captores. Entretanto, o Crocodilo consegue dominar os três guardas que estavam em sua cela na hora do terremoto e, na sequência, liberta o Coringa, o Espantalho, o Charada e duas internas introduzidas nesta história, Samantha e Vox.

Assim, invertem-se os papéis: os seis loucos matam dois guardas e prendem o terceiro, a quem passam a ameaçar. Isolados do resto do mundo pelo tempo que levar a chegada do resgate, decidem aterrorizar sua vítima. Inicia-se então um torneio onde ele será o árbitro e onde cada um deverá contar-lhe uma história. Será vencedor quem contar a história mais assustadora, ganhando o direito de matá-lo.  Com isso, introduz-se uma estrutura narrativa que vem dando certo desde o Decamerão, de Boccaccio, notòriamente nos Contos de Cantuária e, mais recentemente, em Sandman: Worlds’ End.

O que mais chamou minha atenção em Tales of Madness foi a arte: o desenhista Dave Taylor conseguiu o incrível feito de variar de estilo de uma para outra história a tal ponto que me fez duvidar de que fosse o Autor de todos os desenhos. Compare seus traços —

Na história principal (CLIQUE EM TODAS AS IMAGENS PARA AUMENTÁ-LAS):

Página 7

Na história de Vox (onde os desenhos parecem ter sido feitos por Mike Dringenberg, de The Sandman):

Página 15

Na história do Charada (onde os desenhos são como os de Uderzo e o Charada parece o Asterix):

Página 18

Na história do Crocodilo:

Página 21

Na história de Samantha (onde as linhas lembram muito as capas de Marvel 1602, de Scott McKowen):

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Na história do Espantalho (que nos remete ao simplório início dos anos 60):

BAAToM_1_p28Não sòmente isso, mas os desenhos da história principal são ricos em belíssimos e expressivos detalhes e contrastes. A necessidade de apreciá-los retardou minha leitura. Um exemplo é a impressionante escadaria de mármore na página 7, acima; outros são as páginas 25 e 26:

BAAToM_1_p25Página 26

Tales of Madness não é nenhuma especial contribuição ao Universo DC. É uma história bem independente e quase atemporal, que poderia encaixar-se em qualquer um de vários pontos da cronologia, na qual não me parece influir. De fato, não compromete nem é comprometida por outros eventos, e o terremoto aparece apenas como pretexto: sem nenhum prejuízo para a narrativa, poderia ser substituído por qualquer outro acontecimento. Seu principal valor é como banquete para os olhos, servindo como um mostruário da versatilidade de Dave Taylor.

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Três primeiros U-2R remotorizados foram entregues

“Os três primeiros U-2Rs remotorizados foram entregues em Palmdale, Califórnia, durante outubro. Após a substituição do motor P&W J75-P-13B por um novo GE F118-GE-101, derivado do motor instalado no bombardeiro B-2, as aeronaves aperfeiçoadas foram redesignadas U-2Ss. A potência extra e a razão empuxo-peso aumentada, junto com uma melhoria de 16% no consumo de combustível, significam que a autonomia foi aumentada em até três horas, o alcance máximo aumentado em 1,200 nm (2.200 km) e o teto aumentado em 3,500 ft (1.100 m). Completo financiamento foi agora concedido para remotorização e algumas melhorias de sensores ao restante da frota de U-2R, que compreendem 33 U-2Rs e três treinadores U-2RT bipostos, todos em serviço com a 9a. RW na Beale AFB, Califórnia. Outro U-2R danificado há alguns anos também está agora em reconstrução para configuração biposta como um U-2RT. A remotorização será executada à medida que as aeronaves chegarem para manutenção programada em escalão de depósito, a última aeronave estando agendada para completamento no Ano Fiscal de 1998. Apesar de algumas melhorias de sensores terem sido aprovadas, incluindo uma melhoria de imageamento multiespectral para cinco câmeras do Sistema de Reconhecimento Eletro-óptico Senior Year, a USAF está buscando financiamento adicional para uma quantidade de outras melhorias de sensores para o tipo — consideradas críticas se ele for permanecer em serviço.”

AIR International, Dec. 1994, p. 325.

Minha resenha bilíngue de JLA: Rock of Ages

I just finished reading JLA: Rock of Ages. Before I bought it, I read many reviews at Amazon and elsewhere saying that it was confusing and that a lot of it did not make sense. But they also said that the story dealt with timetravel. And I knew that it had been written by Grant Morrison, who I consider a genius. Being a scifi fan with a penchant for timetravel stories, I deduced that those readers had not been intelligent enough to follow Morrison’s wit. I thought that his work probably had a high level of ingenuity and that I would enjoy it no end, EXACTLY because so many were deriding it.

Was I wrong. The timetravel bit is not hard to follow, actually. The problems lie elsewhere. Morrison seems to have attempted to tell at least five stories in this so-called arc, so what was supposed to be one storyline becomes a disjointed sequence of mostly unrelated events. The supposed main tale revolves around (1) Lex Luthor attempting a takeover of the Justice League by weakening its members and exploiting those weaknesses. Besides that, however, there are (2) the need to match the story to DC’s contemporary crossover, Genesis; (3) the shoehorning of the heroes’ search for the Philosopher’s Stone, which might as well have been unrelated and was not necessary at all; (4) the unrelated, artificial insertion of a story with JLA members traveling to the end of the universe and to fantasy worlds; (5) the time-traveling, sidetracking story of the heroes confronting Darkseid in the future (as fascinating as it is to witness Batman engaging Darkseid without so much as a shiver). In the end the jigsaw is resolved, but at the expense of a long-winding succession of wasted blind alleys. Also, the epilogue is a lead-in to the then upcoming event DC One Million.

Characterization is weaker than in other Morrison works. Still, the thread that runs throughout the collection is a battle of minds between Luthor and Batman, and both of these get to shine in their chess-playing, foreplanning, cunning personas, which are marvelously written.

Overall a dumbfounding read, so I do not actually recommend it. However, you may be interested if you are keen on the Justice League, want to appreciate Morrison’s take on it and are willing to tolerate edits where scenes seem to succeed each other with no visible connection between them.

Acabei de ler JLA: Rock of Ages. Antes de comprar, eu havia lido várias resenhas na Amazon e alhures dizendo que era uma história confusa e que muito dela não fazia sentido. Mas as resenhas também diziam que a história lidava com viagem no tempo. E eu sabia que havia sido escrita por Grant Morrison, que considero um gênio. Sendo um fã de ficção científica com uma queda por viagens no tempo, eu deduzi que aqueles leitores não haviam sido inteligentes o bastante para seguir a inteligência de Morrison. Pensei que seu trabalho provàvelmente teria um alto nível de engenhosidade e que eu o aproveitaria de montão, EXATAMENTE porque tantos o depreciavam.

Rapaz, como eu estava errado. A porção de viagem no tempo nem é difícil de acompanhar, na verdade. Os problemas estão em outras partes. Morrison parece ter tentado contar pelo menos cinco histórias neste assim chamado arco, de modo que o que deveria ser uma linha de capítulos torna-se uma sequência disjunta de eventos mormente não relacionados. A suposta história principal gira em volta de (1) Lex Luthor tentando tomar a Liga da Justiça através do enfraquecimento de seus membros e da exploração dessas fraquezas. Ao lado disso, porém, há (2) a necessidade de ajustar esta história ao evento contemporâneo da DC, chamado Genesis; (3) o encaixe de uma busca dos heróis pela Pedra Filosofal, que poderia muito bem ser não relacionada e absolutamente não era necessária; (4) a inserção artificial e não relacionada de uma história com membros da Liga da Justiça viajando ao fim do universo e a mundos fantásticos; (5) a tergiversação de viagem no tempo dos heróis confrontando Darkseid no futuro (por fascinante que seja testemunhar Batman encarando Darkseid sem um tremor). No fim, o quebra-cabeças é resolvido, mas às expensas de uma sucessão tortuosa de becos sem saída. Também, o epílogo é uma introdução ao evento então iminente DC One Million.

A caracterização é mais fraca do que em outras obras de Morrison. Ainda assim, o enredo que corre através do encadernado é uma batalha de inteligênicas entre Luthor e Batman, e ambos conseguem brilhar em suas personas vulpinas, planejadoras e jogadoras de xadrez, que estão escritas maravilhosamente.

De modo geral, uma leitura que causa perplexidade, de modo que não chego realmente a recomendá-la. Entretanto, você pode se interessar se tiver predileção pela Liga da Justiça, quiser apreciar a abordagem de Morrison e estiver disposto a tolerar uma edição onde as cenas parecem suceder umas às outras sem conexão visível.

É fácil de encontrar quando se sabe onde procurar

Muitas vezes, os iniciantes na apreciação da Arte têm a noção de que os artistas desenham imagens que já têm prontas na cabeça. De que os desenhos são feitos sem qualquer referência a objetos reais, obedecendo sòmente a abstrações. Dentro dessa ideia, a prova do talento do desenhista está no sucesso em representar um objeto real (ou que poderia ser real) sem nunca ter olhado para ele.

É por isso que, às vezes, o apreciador se decepciona quando vem a descobrir que o artista se valeu de um modelo, da observação de uma pessoa viva, ou de uma fotografia. É como se trapaceasse, como se o trabalho valesse menos, como se fosse uma “cópia”.

Porém, se o apreciador convive por tempo suficiente com o processo de criação — ou até se ele mesmo se dispõe a criar sua própria arte –, logo pode perceber que é assim mesmo que funciona. Difìcilmente o artista parte do zero, de uma imagem que não existe. Quando isso acontece, frequentemente o resultado é arte abstrata, que não tem qualquer compromisso com as impressões visuais da realidade. Mesmo Alex Ross, considerado um dos maiores desenhistas de quadrinhos desde os anos 90, usa modelos: o Padre McCay, personagem narrador da obra-prima Kingdom Come, tem sua aparência baseada na do pai de Ross. Boris Vallejo, conhecido por suas capas de livros e figuras de Conan, o Bárbaro, também se vale de modelos. A versão Ultimate de Nick Fury teve sua aparência baseada em Samuel L. Jackson — que veio a interpretar Nick Fury nos recentes filmes da Marvel –, assim como John Henry Irons, o Aço da DC, tem o rosto de Shaquille O’Neal, que interpretou o papel mais tarde, na bomba Steel, que nem apareceu nos cinemas daqui (mas que já foi exibido pela TNT).

Portanto, não é surpreendente o que encontrei. Estava eu lendo Astro City: inquisição, que é a versão brasileira da compilação de Kurt Busiek’s Astro City #4-9, quando cheguei ao capítulo que corresponde a KBAC #8, de abril de 1997, escrita por K. Busiek e desenhada por Brent Anderson.

Nas páginas 121 e 122, encontrei estas figuras.

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Não haveria nada de mais, e o Leitor que não se interessa por aviões passaria batido. Exceto que eu tenho uma memória terrível para as coisas de que gosto, porque de imediato reconheci as duas imagens. Acontece que tenho alguns livros da coleção Guias de Armas de Guerra, publicada pela Nova Cultural nos anos 80 a partir de originais da inglesa Salamander. Um desses livros é Aviões do futuro, que se divide em dois volumes.

A edição original e o volume I da traduzida

A edição original e o volume I da traduzida

No volume I, encontramos uma das várias representações de conceitos preparatórios para o ATF (que, anos mais tarde, viria a se tornar o F-22). Um deles é este aqui:

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Lamentàvelmente, não consigo ler a assinatura do artista original, bastante esmaecida e parcialmente cortada no livro.

Já no volume II, duas páginas são dedicadas ao helicóptero experimental S-69, do qual se vê a seguinte fotografia:

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Vamos facilitar a vida do distinto Leitor:

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Eu não sei você, mas não tenho a menor dúvida de que Anderson teve acesso aos livros dessa excelente coleção.

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Multiple contact points

Today I shall dabble in two different topics within the same overall subject, which is DC Comics’ super-hero comics. These two topics have a point of contact that deserves review, and this is why I have come here.

The first topic is the annuals. DC Comics issues its super-hero titles monthly. (Everything I say in this text is true as a rule in 2013, but the titles change over the years and my reading is still in 1996, so that the specific examples I give are from that year.) Thus, Superman’s continuing adventures are out in Action Comics, The Adventures of Superman and Superman; Batman’s in Detective Comics, Batman, Batman: Shadow of the Bat and The Batman Chronicles; other heroes are published in Wonder Woman, The Flash, Robin, Catwoman and many, many other titles that the lay public would not recognise, such as Nightwing, Azrael and Impulse.

Usually, each one of these series has twelve issues a year. The most popular of them are matched by other, yearly series, which are equivalent to special editions — as if they were thirteenth issues of the main title. These are the Annuals, as in Action Comics Annual, Batman Annual, Flash Annual. According to DC’s practice, the story that comes in an Annual is not a part of the storyline that is told over months in the main series; yet it is a part of the official chronology. Each Annual usually has more pages than the corresponding monthly title, and some have more than one story per issue.

In the 1990s, DC used to give the same theme to each year’s Annuals. For example, in 1991 all of them were interesting tie-ins to the Armageddon 2001 event. In 1994, all of them were Elseworlds stories. In 1996, all Annuals brought the subtitle “Legends of the Dead Earth”. Each one told a story that was not necessarily compatible with those of the other Annuals, but each writer was in charge of creating variations on the same theme: a distant future when planet Earth no longer exists. In this future, the hero from the regular title (not the one in the Annual) has been dead for centuries, but his or her memory lives on somehow, and another hero follows on his or her footsteps.

Batman Annual #20. Weak story.

Green Lantern Annual #5. Fun story.

Most of these Annuals turned out unimpressive. This is not exactly a surprise, seeing as that, according to Sturgeon’s Law, 90% of all cultural production is trash. It could not be otherwise: first, statistically it would not make sense that everything were good, and this is exactly why the word “mediocre” has ceased to mean just “average” and started to mean “bad”; second, by definition you will only notice that something is good because it stands out from the rest, and this is where the word “good” starts to have its meaning. If everything were good, you would not realise that it were good, nor would you, therefore, even be aware of the concept or have a name for it.

Precisely because of all this, when one of these Annuals turned out much better than the others, it drew my attention. I refer to Legionnaires Annual #3, which was one of the last Annuals of 1996, having been published along with December’s regulars. Differing from the other Annuals of 1996, this one had its story as an aftermath of another that took place in a main title.

This is where we hold the discussion of 1996’s Annuals and enter the second topic, which is the chronology of the many characters named “Flash”. As it is in the case of most any other DC super-hero, a full chronology would deserve lengthy explanations and due commentary. Unfortunately, because of the scope of this article, I will have to leave the treatment that the Flash deserves for a later date, because that would be too long an exposition, with too many details. Just you believe that everything I say hereunder has a fascinating, minutiae-ridden story behind it, and do yourself the favour of researching it, because there are lots of effort and creativity involved. For now, let us move on.

Follow me. Historically, the nickname “The Flash” was first attributed to a character called Jay Garrick who had acquired super-speed. This Flash’s stories were published from 1940 to 1949, during the Golden Age of comics, and then his monthly book Flash Comics ceased to be published. Maybe you still remember him: red shirt, blue trousers, helmet, maskless.

Jay Garrick, the first Flash. I tried to use Wikipedia’s image, but WordPress will not allow it. So go there and type “Jay Garrick”.

In 1956, DC Comics revamped the concept and launched a new character named Flash. This time, the runner was an often-late police chemist called Barry Allen, who was gifted with his superpower when struck by a lightning in the Chemistry lab. This second Flash gave continuity to Flash Comics and today is considered to be the character who gave DC’s Silver Age of comics its start.

The second Flash, Barry Allen

This is the Flash who became famous, whom readers came to love and whom the lay public is aware of. He is the epitome of the good-hearted hero willing to sacrifice his own life to save the others’ — in some cases even more so than Superman himself, who is considered the archetypal super-hero for all his physical and psychological traits.

In 1961, with the publication of The Flash #123 and its story “Flash of Two Worlds!”, writer Julius Schwartz brought forth the concept that, in my view, is the most ingenious and mind-stimulating idea in the whole DC Universe: the notion of parallel universes where the heroes have counterparts who are like different versions of the same person. With this issue, it was retroactively established that the old Flash (Jay Garrick) kept on existing despite no longer being published. It is just that his adventures took place in another universe, in so-called Earth-2. By jumping dimensions, Barry Allen meets Jay Garrick, declaring himself his admirer and follower.

The Flash #123, a classic issue. This story changed the whole DC universe. An original copy is worth more than a thousand dollars, but, fortunately, it is easy to find reprints.

In the following years of the Silver Age, we learned that all the heroes who had been published during the Golden Age (from 1938 to 1951), including Superman, Batman and Wonder Woman, were a part of Earth-2, while the heroes that were being published from 1955 were set in Earth-1 (in Brazil, “Active Earth”). Thus there were two Supermen, two Batmen, two Wonder Women, two Green Lanterns (one of them being Alan Scott, the other Hal Jordan), two Flashes etc., one of each on each Earth. The vast majority of DC’s regular titles told the adventures on Earth-1, but, in the 80s, some titles started to tell of adventures that continued on Earth-2, outside of DC’s main chronology. The meetings of heroes from the two universes were much celebrated, especially those in the anxiously anticipated stories that were out once a year in the regular issues of Justice League of America.

(Incidentally, the variety of Earths in many universes only became one of DC’s relevant topics in the miniseries [or so-called “maxiseries”] Crisis on Infinite Earths, in 1985-1986. This lengthy story, written by Marv Wolfman and wonderfully pencilled by George Pérez, redefined the whole DC Universe, with a fundamental impact on the chronology of every character and permanent effects that are discussed to this day. At the time, its purpose was to extinguish the multiverse, kill off many characters and gather the survivors in a sole, streamlined universe. Over the years, the idea of a multiverse has come back, since it was too good to be wasted, but it would only become a main theme of discussion again in the period 2006-2008, with Infinite Crisis and Final Crisis.)

In 1984-1985, the monthly The Flash threw Barry Allen to the 30th century, in a long and complex storyline where he never went back to his original time. When the Crisis on Infinite Earths came about, Barry made the final sacrifice to save the many Earths, but no one witnessed his death. According to George Pérez, Barry was chosen to be a martyr because the idea of a DC multiverse had begun with him, therefore also with him this multiverse would end.

Barry Allen’s final sacrifice, saving DC’s universes in his last race.

Then, in a turn of events which was very controversial at the time and which attracted the fury of many a fan, not only did Barry stay dead definitively(*) (which never happens to any comic book character, but finally happened to him) but also he was succeeded by Wally West, the nephew of his wife. Wally was an old acquaintance of the readers’, because he had undergone the same kind of freak accident as Barry had before him (yeah, writers could be less creative during the Silver Age) and, for a good time, followed in the footsteps of his beloved and admired uncle-by-marriage as Kid Flash, having, by the way, been a part of the Teen Titans and of the New Teen Titans. With Barry’s passing, Wally became the third Flash.

Kid Flash (Wally West during the Silver Age)

At the end of the Crisis, Wally takes on the legacy of his uncle-by-marriage.

Wally West as the third Flash, after the Crisis.

[Parenthetical: the 1990 short-lived TV series The Flash told the adventures of Barry Allen, whose origins and profession matched those of the Barry Allen from the Silver Age comics. However, the Flash from this TV series had the personal traits and metabolic characteristics of Wally West, who already was the Flash in the comics of the time. I assume that these choices were made to join Wally’s popularity to the knowledge by an older public of laymen in relation to the only Flash that they probably knew, who had been the longer-standing Barry Allen (who had been active for thirty years up to 1986), in comparison to then-upstart Wally West (active for only four years up to that point).]

In 1994-1996, the monthly The Flash was written by brilliant Mark Waid, Author of the masterpiece Kingdom Come and one of the writers who best understand and respect their characters. Waid wrote many stories where he rounded up the many super-speedsters of the DC universe, and I love stories that join up variations on the same character. In particular, Waid’s stories on this motif are excellent and inspired. Besides, at the time when he was writing the Flash, Waid raised this character’s superpower to something greater than him, inserting Wally into a continuity where a single force in the universe was the moving source of all the super-speedsters. Suddenly, the Flash’s superpower was no longer unique, and it was revealed that it was derived from an energy field which common mortals were incapable of reaching: the Speed Force. In Waid’s hands, the Flash became sort of a Jedi knight of speed, a privileged man who, just like Neo in The Matrix and Luke Skywalker in Star Wars, had access to understanding hidden meanings in reality and to perceiving universe, time and space with a zen sense of unity. The Speed Force has the effect of a power that is neither magical nor, however, understood or even noticed by humans, an energy that permeates the universe and which only the super-speedsters are able to explore. Therefrom spring some very interesting stories where we can see the world in slow-motion through the eyes of the scarlet racer as Wally gradually finds out that his speed power brings many side benefits, such as time travel and the possibility of giving other people a “ride” on his speed. Also, writer Waid treated Barry Allen’s memory with religious reverence, endowing Wally with the desire to better know the destiny of his uncle in the 30th century and to contact the expanded reality which had fed Barry and which only now became visible to himself.

At the beginning of 1996, The Flash told the many-part Dead Heat story arch, where Wally strove to stop the villain Savitar from disabling all heroes whose superpower is their speed: Wally himself, Jay Garrick, young Impulse (Bart Allen, a grandson of Barry’s, born in the 30th century), Johnny Quick, his daughter Jesse Quick, wise Max Mercury (a time-traveling speedster revamped by Waid, born in the Old West and, already at a certain age, a mentor for the other speedsters) and some others. In order to beat Savitar, Wally had to accelerate in a way that had never been demanded of him, entering the timestream and, out of control, traveling to the 64th century.

In the Race Against Time! story arch, after defeating Savitar and already in the second half of 1996, Wally tries to return to his time in successive jumps back the centuries. One character who helps him is John Fox, the Flash of the 27th century, heir to the mantle out of inspiration by the memory of both Barry and Wally.

Following the continuity of stories, I am now in (or at) December 1996, at the point where Wally manages to return to the 20th century. It just so happens that, when he was still fighting Savitar earlier in the year, Wally was helped by a racer codenamed XS, who, by the way, is also Barry Allen’s granddaughter born in the 30th century (and Bart’s cousin). In Dead Heat, XS had gone back in time, from her 30th to the 20th century, along with her colleagues from the Legion of Super-Heroes, and had become stuck here. Just like Wally resorts to using the Speed Force to come back from the future to the present (and ultimately succeeds), XS attempts to jump in the opposite direction, from the present to the future (which is “her present”). In the 1996 issues of the monthly The Flash, the young heroine XS is just a supporting character, and there comes a moment (in the first chapter of Race Against Time!, The Flash #112, April 1996) when John Fox and Jay Garrick give her a hand in time-jumping. XS disappears, the Reader is led to assume that she has managed to get home, and the story turns its focus back onto the Flash, his misfortunes and his own happy return.

And this is where, always in the effort to read everything in the original publication order, I arrived at Legionnaires Annual #3. This is where the two topics touch. Having read the other annuals of 1996, I had assumed this issue to be in the Sturgeon’s Law’s 90% portion. To my very grateful surprise, I then discovered that I had been wrong! The story starts out by showing what happened to XS when, with the help of Fox and Garrick, she launches into the timestream. Thereafter she feels attracted by a focal point, leaves the timestream and finds herself already in the 30th century, but still a long way from the point she was trying to reach. She realises that the point which attracted her was the assembly of a time-travel device by the hands of… Barry Allen! Ever since the stories published in 1986, I do not recall having seen any new story with Barry Allen that was not some retrospective or otherwise a story set in the Silver Age, when he was the titular Flash. As far as I know, this is the FIRST story where Barry appears while, for the reader, “today’s Flash” already is Wally West. Unfortunately for XS, Barry is still too young, does not even have any children and, therefore, does not recognise her. Still, this is a moving moment, because XS sees the opportunity to meet her grandfather, who was already deceased when she was born. The scene could even have been a tear-bringer, I would not mind. But the two of them do not know each other, so what remains is that deep admiration and XS’s feeling that she is beholding a historic icon, one of the greatest heroes of them all, in a lonely, introspective moment — and he is her grandfather!…

Barry gives XS the privilege and the honour of running along with him and then works as a catapult for her, sending her again into the timestream. This time, XS ends up in the 100th century, where she learns that Earth is no longer (this being the common point with the other annuals of 1996, Legends of the Dead Earth), as the Legion of Super-Heroes is no longer either. On the planet Almeer-5, humanity is oppressed by the villain Nevlor, who has imprisoned the few remaining metahumans. One of the heroes in jail is Avatar, who wields the ancient Spear of Destiny, which can only be raised by those worthy of it. Her outfit resembles those of Jack Kirby’s gods, particularly that of Marvel’s Thor, whose hammer Mjölnir only those worthy are able to raise. Another heroine is Melissa Trask (an anagram of “Stark”, get it?), who is a brilliant electronics engineer and has crafted a flying armour that fires bolts from its hands (just like Iron Man’s armour…). The third hero is Robert “Bob” Brunner (just as Robert Bruce Banner, right?), who, thanks to an energy transfer (gamma rays?), has transformed into a megamuscular blue giant (not green, OK?). His clothes are torn and he is left in his shorts as he throws puny humans about. The last hero, said to be the greatest of all in the 100th century, does not have any superpower, but has arrived there in suspended animation to lead them with his winged helmet and his star-chested uniform (just like, let us see, a certain Captain America…). With XS’s help, the heroes escape and regroup in a new secret base built by Stark Trask, the Avengers Mansion. You may note that the words “Almeer” and “Nevlor” contain the letters of “Marvel” and (Stan) “Lee”.

Receiving new assistance from this “Avenger” Legion of the 100th century, XS again enters the timestream, but, instead of getting home, she ends up at the Vanishing Point, the Linear Men‘s space base, located statically in a parallel dimension during the last time instant before the end of the universe. Sometimes the Vanishing Point appeared in DC’s stories from the 90s, including the miniseries Zero Hour. There XS meets the Time Trapper, a villain from the Legion of Super-Heroes’s stories — whom she did not know of, since there were no confrontations with him after she joined the Legion. The Time Trapper commands the timelines, which he often manipulates in order to change events in his own favour, but, in this brief encounter, he introduces himself to XS as someone who behaves as such to the benefit of the human race, as opposed to the Linear Men, who patrol timelines against interference and, among other things, stop planet Earth from being saved from destruction. Under this point of view, the Time Trapper is the hero! Before he sends her back to the 30th century, XS gets to witness the events of Zero Hour from the Linear Men’s perspective. Though she does not understand what is going on (as she is a character created by Mark Waid after the publication of Zero Hour), the Reader can recognise several speeches by the Linear Men, by Waverider and by the Atom, as well as the Atom’s death, which was one of the outcomes of that miniseries. The writer never makes it explicit that what we are looking at is Zero Hour, but leaves the conclusion very much available whilst we can observe the same happenings from a different viewpoint.

Curiously, the story in Legionnaires Annual #3 was scripted not by consistent, careful Mark Waid, but by Roger Stern. It is so coherent, so well fitting in the DC universe, so in line with the Flash’s tales to which it connects, so perfectly elegant before the chronologies of Zero Hour and of the Legion of Super-Heroes, that one would think that Waid were its true Author. The adherence to continuity and the respectful (as opposed to mocking) treatment of Marvel’s heroes indicate a connection of affection to the comics that we typically see in Waid’s work. Here I leave my compliments to the excellent job accomplished, not only by him who wrote but also by those who drew (Tony Castrillo, Chuck Wojtkiewicz and Dan Jurgens, the last of whom pencilled the “Zero Hour” sequence and had also been the penciller for the original Zero Hour miniseries) and especially those who edited (Ruben Díaz and KC Carlson, who had been one of Zero Hour‘s editors).

(*) Yes, I am partially aware of the effective return of Barry Allen after the Final Crisis. As I said, my reading is in 1996 and, at this point, DC stands by its intent to keep Barry definitively dead.

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