O triunfo de David Brin

Várias postagens deste belogue dão conta de minha progressiva leitura dos livros onde Isaac Asimov construiu sua magistral História do futuro. Embora desordenadamente, o Bom Doutor escreveu contos de robôs, romances de robôs, romances do Império e sete livros da Fundação. Esse material está detalhado na Web inteira, inclusive (bastante) na Wikipedia e aqui. Até eu fiz meu próprio resumo.

Agora, após onze anos, sete dias e 31 livros, acabei. Anteontem terminei a leitura de Foundation’s Triumph, último livro da Segunda Trilogia da Fundação. Ainda existem algumas minisséries escritas por outros autores e ambientadas neste universo, parte delas iniciada enquanto Asimov ainda estava vivo, até agora totalizando 29 livros. Nessas não vou entrar por ora, e considero que a aventura esteja concluída. Mais abaixo explico por quê. Hoje quero tratar justamente de Foundation’s Triumph.

Foundation's Triumph

Foundation’s Triumph

Antes, uma recapitulação. Nos livros de robôs — sejam os contos, ambientados no século 21, sejam os romances, no século 35 –, o principal tema são as Três Leis da Robótica.

Primeira Lei: um robô não pode causar dano a um humano, nem, por omissão, permitir que seja causado dano a um humano. Com esta Lei, os robôs são seguros.

Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens de um humano, exceto se conflitarem com a Primeira Lei. Com esta Lei, os robôs são úteis.

Terceira Lei: um robô deve preservar sua existência, exceto se conflitar com a Primeira ou a Segunda Lei. Com esta Lei, os robôs são econômicos.

Os contos e romances de robôs desenvolvem consequências lógicas e não necessàriamente previsíveis dessas Leis em diversos cenários, quase sempre em alguma busca detetivesca pela explicação de comportamentos aparentemente ilógicos dos robôs. Em todas essas histórias, as Três Leis aparecem como características inalienáveis dos robôs, sem as quais não seria sequer possível construí-los no universo de Asimov.

Se dispusermos os livros dos robôs, do Império e da Fundação na ordem cronológica em que as histórias acontecem (e não na ordem de publicação), o resultado é a sequência abaixo, onde estou pulando as poucas histórias que não têm relevância para a Segunda Trilogia.

*** CUIDADO: DAQUI PARA BAIXO, SPOILERS EM MASSA. ***

1. Contos de robôs — no século 21, a robopsicóloga Susan Calvin decifra a mente dos robôs aplicando as Três Leis da Robótica com uma racionalidade fria e radical. Em um dos contos, é inventada a propulsão hiperespacial, que permite vencer distâncias interestelares instantaneamente.

2. The Caves of Steel e The Naked Sun — no século 35, os habitantes da Terra vivem em metrópoles subterrâneas e têm fobia e ódio dos robôs. Em cinquenta outros planetas vivem os Spacers, descendentes dos colonizadores que lá chegaram com tecnologia hiperespacial. Os terráqueos são desprezados pelos Spacers, cujas economias, por sua vez, dependem totalmente dos robôs. Na Terra e na colônia Spacer de Solaria, o detetive Elijah Baley investiga dois homicídios e nisso recebe ajuda de Daneel Olivaw, um dos recentes e raros robôs que conseguem se passar por humanos.

3. The Robots of Dawn — no planeta Aurora, a primeira colônia Spacer, o roboticista Han Fastolfe sugere a possibilidade de que o comportamento humano possa ser previsto por leis matemáticas que ainda estariam por ser descobertas, em uma espécie de psico-história. Baley resolve mais um crime com ajuda de Daneel e do robô Giskard e vence a resistência dos Spacers a uma nova onda de emigração da Terra. Baley descobre que, graças a um acidente de construção, Giskard é secretamente um telepata.

4. Robots and Empire — trezentos anos após Robots of Dawn, Solaria está deserta e ninguém sabe desde quando, como nem por quê. Em Aurora, Daneel e Giskard descobrem que as cinquenta colônias de Spacers estão estagnadas e fadadas à extinção devido a sua dependência dos robôs e consequente acomodação. Novas colônias foram fundadas por orgulhosos terráqueos que, em lugar de robôs e comodidade, levaram consigo apenas espírito empreendedor e disposição para o trabalho. São os Settlers, cuja cultura é bem diferente da cultura Spacer. Giskard deduz lògicamente a existência da Zeroésima Lei da Robótica: um robô não pode causar dano à humanidade, nem, por omissão, permitir que seja causado dano à humanidade. A partir da Zeroésima Lei, Daneel e Giskard adotam uma medida drástica para tornar inevitável a continuidade da recém-iniciada emigração da Terra pelos Settlers. Giskard confere seu poder telepático a Daneel, que se compromete a descobrir e usar as regras do comportamento humano para salvar a humanidade de si mesma.

5. The Stars Like Dust — após milênios de colonização, os vários planetas da Galáxia disputam poder cosmopolítico, tal como os antigos reinos feudais da Terra. Entre eles, os Reinos Nebulares incluem Nephelos e Widemos, liderados pela família de Biron Farrill, e Rhodia, liderado pelos Hinriads. A Terra está radioativa e, nos Reinos Nebulares, quase ninguém sabe onde ela fica. No início do livro, Biron estuda na universidade da Terra, quando recebe a notícia de que o reino de Tyrann está promovendo um golpe de Estado em Nephelos, na tentativa de anexá-lo. Biron junta-se à princesa de Rhodia e, com auxílio dos dirigentes do planeta Lingane, eles escapam à dominação de Tyrann. Biron e a princesa dos Hinriads casam-se em união real. Esse romance ruim é um dos três romances do Império.

6. The Currents of Space — um pesquisador descobre que no espaço sideral há correntes de matéria orgânica, as quais influem no ecossistema dos planetas e cujo estudo permite prever catástrofes. O pesquisador tenta advertir sobre a iminente destruição do planeta Florina, dominado pelo vizinho Sark. Para salvar Florina, ele busca ajuda do Império de Trantor, que domina metade da Galáxia. Fora do Império de Trantor, ninguém sabe onde fica a Terra. Esse é outro romance do Império, também ruim.

7. Pebble in the Sky — neste que foi o primeiro romance do Império a ser escrito, acontece um acidente no século 21: um raio de táquions experimental transporta o aposentado Joseph Schwartz, de Chicago para sua sucessora de 10.000 anos no futuro. A Terra está ainda mais radioativa do que em The Stars Like Dust. Os terráqueos são vistos como inferiores pelo Império Galáctico, sediado em Trantor e dominador de todos os planetas habitados. Na Terra, um movimento revoltoso, fruto do ressentimento, pretende espalhar uma arma biológica por todo o Império. Schwartz ganha poderes telepáticos, ajuda a derrotar o plano rebelde e obtém a promessa do Império de tentar eliminar a radioatividade da Terra.

8. “Blind Alley” — esta é a única história deste universo onde se vê alguma forma de vida inteligente mas não humana em toda a Galáxia. Uma civilização alienígena foi encurralada pelo crescimento do Império e está a caminho da extinção. O burocrata Antyok manipula a Administração pública imperial e oferece aos alienígenas uma oportunidade de fuga para outra galáxia.

9. Prelude to Foundation — neste romance, publicado em 1988, o Império Galáctico já tem 12 mil anos. O jovem matemático Hari Seldon chega a Trantor e apresenta seu teorema, que demonstra ser possível descobrir as leis matemáticas que regem o comportamento de grandes populações. Esse é o primeiro grande marco na incipiente ciência da Psico-História. O Primeiro-Ministro Eto Demerzel percebe na Psico-História a chave para salvar o Império de sua atual decadência e estimula Seldon a desenvolvê-la. Seldon descobre que, no passado, a humanidade criou seres artificiais, hoje desaparecidos, chamados “robôs”. Em um dos setores de Trantor, a população é composta de xenófobos tradicionalistas, que organizaram uma religião em torno do passado longínquo, quando seus ancestrais viviam rodeados de robôs em Aurora. Esses fanáticos são considerados bizarros pelos demais setores.

Ao fim do livro, Demerzel revela-se como uma identidade secreta do robô Daneel, que ainda luta para salvar a humanidade, mas agora nas sombras, manipulando eventos polìticamente.

10. Forward the Foundation — este livro, publicado em 1993, divide-se em cinco partes e conta cinquenta anos da vida de Hari Seldon enquanto ele desenvolve a Psico-História. Seldon modela o comportamento de populações com leis e equações matemáticas e, com elas, descobre que o Império está em crise, rumando para a extinção em trezentos anos. Na esteira do fim do Império, a Psico-História indica que sobrevirão trinta milênios de ignorância e desunião. Então, Seldon começa a conceber seu grande Plano, com o qual poderá salvar a humanidade das trevas. Na última parte do livro, ele descobre que sua neta faz parte de uma minoria de humanos a quem uma mutação deu poderes telepáticos, e pede a ela que procure outros telepatas.

11. Trilogia da Fundação — estas são nove histórias, dispostas ao longo dos três livros Foundation, Foundation and Empire e Second Foundation, respectivamente publicados em 1951, 1952 e 1953. A primeira história apresenta o leitor ao matemático Hari Seldon, à Psico-História e ao Plano Seldon para a Fundação. Aqui, Seldon tem que defender seu plano contra acusações de traição pela Comissão de Segurança Pública do Império. Ao explicá-lo aos julgadores, o matemático também o revela ao leitor, que passa a ter contexto para as histórias subsequentes.

Eis o plano: o fim do Império é inevitável e será seguido por 30 mil anos de conflitos. Para abreviar esse período tenebroso para “apenas” mil anos, Seldon cria a Fundação, reunindo especialistas em Ciências Exatas no planeta Terminus, isolado na borda mais externa da Galáxia. Ali compilarão a Enciclopédia Galáctica, com todo o conhecimento acumulado pelo Império, para posterior divulgação, qual farol na escuridão dos tempos (como foram os mosteiros medievais após o fim do Império Romano).

Mas esse plano é um engodo. Nas histórias subsequentes, o leitor descobre que o verdadeiro Plano Seldon é que a Fundação, valendo-se do conhecimento privilegiado, seja a semente do Segundo Império Galáctico. Percorrendo quinhentos anos, oito histórias mostram o crescente domínio da Fundação sobre seus vizinhos rumo a um destino glorioso. Sem que a Fundação saiba, seu desenvolvimento é gerido pela secreta Segunda Fundação, também estabelecida por Seldon e composta pelos descendentes dos psicólogos e telepatas reunidos por sua neta.

Nas últimas histórias, o Plano Seldon descarrila quando, de forma não prevista pelas equações da Psico-História, surge o Mulo, um mutante com extremos poderes telepáticos. Com a sutileza de um rolo compressor, o Mulo conquista a Fundação e muitos outros planetas, e sòmente a muito custo a Segunda Fundação consegue restabelecer o cumprimento do Plano.

12. Foundation’s Edge — o político Golan Trevize tem a fama de nunca ter tomado uma decisão errada. Banido da Fundação, ele parte em busca da Terra. Ao mesmo tempo, a Segunda Fundação descobre que uma terceira força está ajustando o Plano Seldon para um sentido não programado. Trevize e a Segunda Fundação descobrem que essa força é o planeta Gaia, onde humanos, robôs e toda a natureza compõem uma só mente unificada, vivendo em harmonia. Gaia pretende estender sua unidade aos demais planetas, fundindo a todos em uma mente única chamada “Galaxia”, mas somente o fará se tiver a concordância de Trevize.

13. Foundation and Earth — Ainda em busca da Terra, Trevize parte de Gaia e visita algumas das cinquenta colônias de Spacers, já desabitadas. Em Solaria, descobre que a população nunca abandonou o planeta, mas vive oculta no subterrâneo. Em Alpha Centauri, encontra os descendentes dos últimos terráqueos, evacuados pelo Império depois que fracassou o plano de eliminação da radioatividade. Afinal Trevize chega à Lua, onde conhece Daneel, que informa ter fundado Gaia e estar prosseguindo no plano de salvar a humanidade através de Galaxia.

Conforme observei aqui, o que Asimov fez nos anos 80, principalmente com The Robots of Dawn, Robots and Empire e Prelude to Foundation, foi conectar as diferentes épocas nas quais se situavam suas obras, unificando-as.

Ou seja: de início, havia apenas períodos históricos desconectados. Então, o Bom Doutor unificou-os em uma linha temporal única, que estivera inicialmente oculta dos leitores. Nesta continuidade retroativa, Asimov olhava para trás, para obras já escritas, e interpretava-as sob uma óptica de materialismo histórico, em que as circunstâncias de um período levavam ao período seguinte, em uma relação de causa e efeito.

Após a morte de Asimov (1992), e a pedido de seu espólio, o escritor Gregory Benford concebeu o tema de três novos livros, que viriam a ser conhecidos como a Segunda Trilogia da Fundação. O próprio Benford escreveu o primeiro livro, Foundation’s Fear, publicado em 1997, e delegou os demais a Greg Bear (Foundation and Chaos, 1998) e David Brin (Foundation’s Triumph, 1999).

A Segunda Trilogia não é uma continuação das histórias da Fundação. Os três livros ambientam-se entre as histórias de Prelude to Foundation, de Forward the Foundation e do próprio Foundation. Conforme já detalhei aqui, Foundation’s Fear é bem fraco, mas Foundation and Chaos já traz uma melhora, e Foundation’s Triumph fecha muito bem a série.

Eu sempre dou preferência a consumir obras em ordem de publicação. O grande motivo é que, quase sempre, o conteúdo de uma obra mais antiga é pressuposto das obras mais recentes, o que é intensamente verdadeiro também no caso desta Segunda Trilogia. Embora o terceiro livro avance mais rápido e tenha mais conteúdo, ele infelizmente depende de eventos dos dois primeiros livros.

Mas eu disse que Triumph fecha bem a série. Porque David Brin teve o talento de reunir todos os elementos de todos os livros anteriores e, com uma muito bem amarrada retrocontinuidade, dar-lhes um sentido panorâmico que o próprio Asimov certamente não imaginou. Brin desenvolveu explicações que, em retrospecto, fazem com que haja uma contínua linha de sentido e propósito ligando todos os livros de Asimov desde o primeiro conto de robô, escrito em 1939. O ponto em que se apoia essa engenhosa unificação é a Zeroésima Lei da Robótica.

Explico.

De todos os livros de robôs escritos pelo próprio Asimov, o último foi Robots and Empire. Ao introduzir a Zeroésima Lei da Robótica, esta história, dependendo da interpretação do Leitor, pode pôr a perder todo o sentido das Três Leis.

Tendo deduzido a Zeroésima Lei, Giskard convence Daneel, que a incorpora a sua própria programação. O vilão auroriano Amadiro, motivado por vingança, pretende iniciar um processo que transformará a Terra em uma vastidão radioativa inabitável. Os dois robôs impedem Amadiro, mas percebem que, se a radioatividade da Terra for aumentada gradualmente, a consequência será que, ao longo de séculos, a humanidade será forçada a evacuar seu planeta natal e conquistar as estrelas, vindo a formar o Império Galáctico. Assim, com base na Zeroésima Lei, os robôs ativam a máquina de Amadiro em um ajuste de baixa intensidade.

Com esse evento, Asimov retroativamente justificava por que a Terra era radioativa na época do Império em The Stars Like Dust e Pebble In the Sky. Também justificava por que, ao tempo da Fundação, ninguém mais sabia onde ficava a Terra, que já era considerada um planeta mítico.

Porém a Zeroésima Lei traz seus próprios problemas. O primeiro que se vê, e mais filosófico, é: se nem mesmo os humanos conseguem enxergar adiante as consequências de seus próprios atos, como esperar que a mente de um robô faça um exercício de futurologia e calcule quais ações causarão dano ou benefício ao conjunto da humanidade? Como se mede ou sequer percebe esse dano ou benefício? É necessário um poder de abstração que difìcilmente se veria na mente de u’a máquina. Em Robots and Empire, Giskard e Daneel deduzem que, a longo prazo, será mais benéfico que a humanidade emigre da Terra; mas eles não podem ter essa certeza, enquanto é certo que, em prazo mais curto, milhões morrerão por efeito da radiação, contrariando a Primeira Lei.

Além disso, para humanos esse já seria um sério dilema ético, enfrentado há muito tempo (lembro-me de “The Conscience of the King”, episódio de Star Trek), e nós mesmos tenderíamos a preservar as vidas imediatas de quem habita a Terra. Não faz muito sentido que os robôs, construídos para servir e limitados pelas Três Leis, decidam o que é melhor e passem a agir como pastores da humanidade.

Também existe uma questão operacional mas também de coerência. Em todos os livros anteriores, sempre esteve claro que as Três Leis são implementadas em um nível fundamental, provàvelmente no hardware dos robôs. Com a introdução da Zeroésima Lei, fica evidente que os robôs podem acrescentar leis fundamentais a sua programação de alto nível. Por extensão, retroativamente fica estabelecido que as Três Leis não são pressupostos da construção dos robôs, mas comandos programáveis e removíveis. Eis aí uma incômoda contradição diante de todas as maravilhosas histórias anteriores, que tão sadiamente afastavam o complexo de Frankenstein. Diante da Zeroésima Lei, em teoria um robô passava a poder até mesmo matar um humano se essa ação beneficiasse a humanidade.

Pois voltemos à Segunda Trilogia da Fundação. Em uma postagem anterior, critiquei bastante a execução de seu primeiro livro por Gregory Benford. O livro é ruim mesmo, mas, sendo justo, não sei quanto do brilhantismo unificador do segundo e do terceiro livro vem dos próprios Autores e quanto foi imaginado por Benford em seu plano para o conjunto.

No segundo livro desta Trilogia, Foundation and Chaos, o leitor vem a descobrir que, quando Daneel começou a seguir a Zeroésima Lei, ele passou a recrutar seus semelhantes para seu grande plano de salvação da humanidade. Os aliados de Daneel agem ocultos, protegendo a humanidade contra si mesma como uma criança irresponsável, que não sabe o que é melhor para si nem pode sequer saber que outros estão cuidando de seu destino.

Os robôs adeptos da Zeroésima Lei, liderados por Daneel, eram os giskardianos, pois Giskard foi o descobridor da lei. Em Foundation and Chaos, Daneel confessa a Hari Seldon que, no passado distante, para cumprir a Zeroésima Lei, os giskardianos cometeram um grande crime, que ele não revela qual foi.

Para minimizar o sofrimento humano, os giskardianos tiveram que amortecer todas as forças sociais que trazem renovação e criatividade, e formou-se um Império Galáctico pacífico e materialmente próspero porém baseado em conservadorismo, estagnação e, principalmente, amnésia sobre suas origens. Por isso é que, em todo o Império, raras são as pessoas que dão crédito ou importância à Terra como planeta de origem da raça humana. O passado pré-imperial é impenetrável e desimportante.

Portanto, esta Segunda Trilogia mostra que o Império e a Fundação, bem como todo o ambiente cultural em que se inserem, são o resultado da obediência de Daneel e seus colaboradores à Zeroésima Lei da Robótica.

Porém, nem todos os robôs concordam com a existência da Zeroésima Lei. Um grupo de radicais conservadores são chamados Calvinianos, por aderirem somente às Três Leis propugnadas por Susan Calvin. Os calvinianos veem no gentil cajado de Daneel uma interferência indevida no rumo natural da humanidade e uma subversão da finalidade dos robôs. Por isso, antes mesmo do estabelecimento do Império, instaurou-se uma guerra civil entre calvinianos e giskardianos. Graças à imitação quase perfeita, os robôs continuaram disfarçados entre os humanos, que nunca desconfiaram do conflito.

Agora, em razão das mesmas características que mantiveram o Império estável durante 12 mil anos, essa grande entidade política já não tem força para suprimir os crescentemente frequentes afloramentos de caos social. Cada vez mais planetas estão incidindo na mesma doença: súbitos renascimentos de criatividade, seguidos de severos conflitos internos e desagregação social.

Por isso é que, à medida que o Império dá mostras de implosão, Daneel vê no Plano Seldon a solução para conduzir a civilização a uma nova estrutura com mínimos efeitos colaterais. Já os calvinianos percebem que, apesar do fim iminente do Império, Daneel continua querendo manipular o destino da humanidade através do Plano Seldon, e tentam impedir o exílio da Fundação em Terminus. Ao mesmo tempo, agentes do Império descobrem uma telepata extremamente poderosa, aberrante e renegada, e tentam usá-la para, de uma só vez, eliminar Seldon, os demais telepatas e os robôs, todos os quais são percebidos como ameaças. Após o clímax onde calvinianos e telepata são derrotados, o livro repete ipsis litteris a cena do julgamento de Seldon.

Então chegamos a Foundation’s Triumph. Neste romance, Hari Seldon já exauriu seu papel na História da humanidade. Os membros da Fundação estão emigrando de Trantor para Terminus e a Psico-História está nas mãos da Segunda Fundação. O velho matemático prepara-se para morrer em breve, quando é convidado a uma nova aventura por Horis Antic, um pesquisador de solos. Antic ficou intrigado quando descobriu que, de modo geral, os planetas habitados têm solos de mesma composição, indicando alguma espécie de preparação. Também descobriu que o surgimento do caos está correlacionado a planetas onde o solo é diferente do padrão e que se situam no caminho de correntes do espaço. Eis aqui a única ocorrência das correntes do espaço fora do livro a que dão nome, reconhecendo importância a um conteúdo que nunca tinha sido abordado novamente.

A partir deste ponto, Foundation’s Triumph segue uma estrutura semelhante à dos romances de Asimov, seguindo o herói em uma fuga por vários planetas da Galáxia, durante a qual vai reunindo pistas para entender o panorama político. O piloto da nave é um nobre da família Biron, senhor dos planetas Nephelos, Rhodia e Widemos —novamente, em referência aos romances do Império. Ele sabe que um de seus antepassados estudou na universidade da Terra e busca registros da História desaparecida.

A parada mais importante desta jornada é dentro de uma nuvem de poeira cósmica, onde há milênios estão guardados segredos aos quais a humanidade jamais poderá ter acesso: são naves robóticas terraformadoras (explico-as adiante) e milhões de bilhões de arquivos, reunindo todo o conhecimento que a humanidade conseguiu preservar antes da grande amnésia que acometeu o Império. Tanto Seldon como os robôs reconhecem que, se alguém encontrar esses arquivos, haverá imediatas manifestações do caos em toda a Galáxia. Para que o Plano Seldon funcione, é imperioso que a humanidade continue progredindo às cegas, sem saber que tudo já foi previsto nem conhecer suas origens. Por isso, Seldon autoriza os robôs a destruírem os arquivos milenares.

Imediatamente após a destruição dos arquivos, um grupo de calvinianos sequestra Seldon, levando-o à Terra para submetê-lo ao mesmo raio taquiônico que deslocou Joseph Schwartz a seu respectivo futuro (e que ainda está ativo desde o século 21, pois ninguém soube desligá-lo). Os calvinianos pretendem avançar Seldon quinhentos anos, para que ele julgue se seu Plano se revelou benéfico, e estão dispostos a se curvarem a esse julgamento.

Depois de várias peripécias, David Brin faz como Asimov: ao fim do livro, monta o quebra-cabeças das peças que foi dispondo pelo caminho. Neste ponto, Foundation’s Triumph estabelece uma gigantesca continuidade retroativa e revela inúmeros fatos que sempre foram verdade ao longo de todos os livros anteriores mas que estiveram escondidos do leitor (e, na verdade, também do próprio Asimov):

– Na Terra, após o século 21, um agente biológico tornou-se o causador de uma doença mental que leva as sociedades a rejeitar novidades e da qual a maioria dos humanos são portadores. Após surtos criativos, essa doença causa o caos das civilizações, que acabam se retraindo. Na Terra, a invenção dos robôs e da propulsão hiperespecial, em tão pouco tempo, resultou numa fobia que levou os terráqueos a se enfurnarem em cidades subterrâneas (“cavernas de aço”). Inevitàvelmente, antigas cepas da doença chegaram às colônias de Spacers, que entraram em obsessão xenofóbica, isolamento e definhamento. Sòmente após várias gerações é que alguns terráqueos se recuperaram do surto criativo, iniciando a emigração dos Settlers, que, porém, também levaram a doença consigo.

– Após Robots and Empire, os giskardianos procuraram estimular e facilitar a expansão de Settlers a novas colônias, sem que os Settlers pudessem saber. Com essa intenção, em poucos séculos, milhares de naves robóticas ajustaram os solos dos planetas de clima adequado a uma futura ocupação, terraformando-os em segredo adiante da onda de colonizadores. Isso explicava a improvável semelhança entre os solos de milhões de planetas. Toda forma de vida pré-existente era eliminada pela terraformação, como quase aconteceu aos alienígenas de “Blind Alley”.

– Nos planetas terraformados, os giskardianos estabeleceram dispositivos biológicos, tecnológicos e sociais de amortecimento, que suprimiam a criatividade e induziam a comportamentos pacíficos de conformidade. Tais dispositivos evitavam o surgimento de novas ideias e dos conflitos de onde brota a evolução, mas também evitavam o caos e estabeleciam as bases de estabilidade do Império.

– Nos planetas onde a terraformação não foi completada por algum motivo, os solos permaneceram na forma original, fugindo ao padrão estatístico descoberto por Horis Antic. Ausentes os mecanismos de amortecimento social, esses planetas vieram a ser os mais suscetíveis ao surgimento do caos. É o caso de Lingane e Sark, o primeiro por se localizar numa zona que foi colonizada antes que os robôs a alcançassem e o segundo por se situar sobre uma corrente do espaço, onde a terraformação é inutilizada em pouco tempo.

– O grande e inconfessável crime dos giskardianos não é completamente definido em Foundation’s Triumph, mas fica claro que é um dentre dois: ou foi o envenenamento radioativo da Terra em Robots and Empire, com o qual os robôs tomaram as rédeas do destino da humanidade sem o conhecimento dela; ou foi a eliminação de outras formas de vida na terraformação, que Horis Antic sabia ter sido impedida no caso de uma espécie inteligente por seu antepassado Antyok, em “Blind Alley”.

– O Império é uma criação de Daneel, que o vem promovendo há 12 mil anos, sob várias identidades secretas. Em uma dessas identidades, Daneel foi a figura histórica que criou as bases da administração confucionista do Império.

– O nobre piloto Biron também descende da família dos Hinriads, que històricamente se opõe aos giskardianos. Seu motivo para pilotar a nave com Seldon e Antic é a perspectiva de, seguindo as correntes do espaço, encontrar os arquivos com o conhecimento oculto da História, do qual os giskardianos privaram o Império.

– A arma biológica de Pebble in the Sky era derivada da doença do caos e levaria à desagregação do Império. Quem identificou o plano terráqueo de contaminação e concedeu telepatia a Joseph Schwartz foi um agente secreto de Daneel.

– Ao detectar a crise que levaria à implosão do Império, Daneel percebeu que sòmente com a Psico-História seria possível prever o comportamento da civilização e descobrir o caminho para uma nova solução. Mas uma criatura jamais conhece os desígnios de seu criador, de modo que Daneel sabia ser incapaz de compreender os humanos. Além disso, a descoberta das leis da Psico-História requeria intuição e criatividade, que estavam além da capacidade dos robôs. Então, através de genética, formação escolar e pedagogia, Daneel e seus agentes selecionaram e aprimoraram o próprio Hari Seldon, seu talento matemático e sua obstinação por ser capaz de prever o rumo da História. A aparente descoberta de Seldon por Demerzel foi apenas o completamento de uma etapa deste projeto.

– O surgimento de mutantes telepatas também é obra de Daneel, que espera promover o surgimento de Galaxia após séculos de contínua propagação desses genes. Infelizmente, a mistura genética de várias cepas de telepatia é propensa a alguns exageros dramáticos e imprevisíveis, o primeiro dos quais é a renegada que se dispõe a ajudar o Império a pôr fim aos demais telepatas. Outro exemplo inesperado será o Mulo.

– Se a Enciclopédia Galáctica é um engodo de Seldon para ocultar seu Plano de mil anos, por outro lado o próprio Plano Seldon é um engodo de Daneel para seu verdadeiro plano de longo prazo, que é Galaxia. Nesta futura comunidade, a união de mentes evitará todo tipo de conflito, promovendo eterna harmonia. Este projeto precisa de, no mínimo, quinhentos anos de preparação. Nesse ínterim, a Fundação é uma forma de passar o tempo distraindo a raça humana rumo a outro propósito (ilusório) de união e prosperidade.

– No momento apropriado, Daneel secretamente preparará outro humano da mesma forma como preparou Seldon. Desta vez, Daneel preordenará circunstâncias que farão parecer que o sujeito sempre tome a decisão correta. Esse humano será levado a escolher Galaxia em detrimento da Fundação, convencendo os robôs de que essa tenha sido uma escolha espontânea de alguém que sempre acerta. Isso evitará uma nova guerra civil entre giskardianos e calvinianos, que também serão absorvidos por Galaxia.

Em Foundation’s Triumph, David Brin levou a continuidade retroativa um passo além do ponto aonde a levara o próprio Asimov. Como se pode ver dessas revelações finais, Brin introduziu a noção de que todos os eventos deste universo tenham uma causa subjacente desde os contos de robôs. Essa causa seria o caos que ressurge a cada vez que uma civilização atravessa um período de grande criatividade, interrompendo o progresso tecnológico e social em surtos espasmódicos.

Na nova e adicional continuidade retroativa de Brin, vê-se que o robô Daneel sempre lutou contra o caos desde o momento em que descobriu a Zeroésima Lei da Robótica. No permanente esforço de defender a humanidade do caos, Daneel dirigiu os humanos a formarem o Império Galáctico, sem que eles mesmos soubessem que estavam sendo guiados. Também foi Daneel que estimulou a criação da Psico-História e do Plano Seldon, para preservar a civilização após o fim do Império. Por fim, é Daneel que pretende dar início à solução definitiva para todos os problemas humanos, na forma de Galaxia.

Em Triumph, Brin acrescenta mais uma camada de complexidade ao universo asimoviano: a sucessão de eventos passa a ser vista como o reflexo visível de um conflito oculto, de uma dialética da qual a raça humana participa como executora mas não como conhecedora. A evolução da civilização humana é retratada como uma consequência deliberada de uma só mente planejadora, que enxerga todo o panorama e testemunha 20 mil anos de História.

Em síntese, Brin mostrou que havia um sentido finalístico deliberado por trás de todas as histórias escritas por Asimov e ambientadas neste universo. A raça humana, personagem dessas histórias, desconhecia essa intenção com a qual era guiada; e o próprio Autor original das histórias também a desconhecia!

Infelizmente, a Segunda Trilogia também atenta contra um dos fundamentos da obra de Asimov. Um dos personagens de Foundation and Chaos e Foundation’s Triumph é um robô que, embora seja um dos agentes secretos de Daneel, sofre um acidente que o liberta das quatro Leis da Robótica. Esse evento implica que, desde Robots and Empire, a concepção tenha sido de que as Três Leis tenham sido programadas, em lugar de fìsicamente gravadas nos robôs. É um rompimento sério em relação à concepção original de Asimov, pois as Três Leis haviam sido imaginadas de modo que fosse fìsicamente impossível um robô que não as seguisse. Já na Segunda Trilogia, os robôs obedecem às Três Leis (e à Zeroésima) da mesma forma como humanos obedecem às leis que criam: meramente por atos de vontade, decorrentes da noção de sua obrigatoriedade. As Leis da Robótica deixaram de ser tratadas como implementações orgânicas para serem meras leis jurídicas, a que os robôs obedecem por convicção racional.

O conflito entre giskardianos e calvinianos é uma das consequências dessa mudança de paradigma. Se as Três Leis estivessem implantadas fìsicamente, não haveria possibilidade de diferentes convencimentos racionais entre diferentes robôs, nem, portanto, qualquer divergência ideológica ou filosófica.

Com esse tratamento, também desmorona o único pressuposto relevante das histórias de robôs de Asimov, pois o cumprimento da Primeira Lei depende da cognição pessoal dos robôs, que assim deixam de ser inerentemente seguros. Quando os robôs ganham a capacidade de filosofar, eles deduzem novas leis que se impõem às Leis da Robótica. Com isso, “comem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal” e atentam contra o criador que impôs essas leis (a raça humana). Eis uma curiosa inversão em relação ao livro do Gênesis: é pelo pecado original cometido por dois robôs que a raça humana, sua criadora, é expulsa do paraíso na Terra.

Foundation’s Triumph chega a comparar os humanos a deuses aos olhos dos robôs, mas lembra a lição de que servos que pensam deixam de ser seguros e se tornam indignos de confiança.

***

Minha motivação para a leitura sequencial do universo de Asimov era o fascínio pela habilidade desse Autor em montar uma História unificada do futuro. Agora, já li todas as obras que o Bom Doutor situou neste universo (exceto, talvez, sete contos do computador Multivac, que fogem ao escopo deste texto). Movido pela curiosidade, até mesmo fui além, terminando quatro livros com que outros Autores davam continuidade à obra original: Foundation’s Friends e a Segunda Trilogia da Fundação.

Quanto a Foundation’s Friends, supus que fossem pequenas histórias bem humoradas para homenagear o criador deste universo, e algumas eram mesmo. Quanto à Segunda Trilogia, imaginei que fosse uma continuação ambientada em momento posterior a Foundation and Earth. Não era, mas, uma vez iniciada a leitura, eu não ia interrompê-la, e fui até o fim.

Ainda restam por ler as minisséries Robot City, Robots and Aliens, Robots in Time, e a Segunda e Terceira Séries dos Robôs. Entretanto, esses livros também foram escritos por outros Autores e, do que pude apurar, são histórias laterais, fora da linha principal contínua que vai dos contos de robôs até Foundation and Earth. Robot City e Robots and Aliens foram publicadas enquanto Asimov estava vivo, mas as demais minisséries são posteriores a 1992 e, portanto, à morte do Autor original.

(Foundation’s Triumph chega a fazer referência a um dos livros da Segunda Série dos Robôs. Quando Daneel resume as tentativas fracasssadas de fundar novas sociedades imunes ao caos, ele menciona os robôs fabricados com Leis da Robótica mais flexíveis no planeta de Isaac Asimov’s Inferno, que é parte dessa Segunda Série.)

Da mesma forma, falta ler a trilogia I, Robot, que narra o início da carreira de Susan Calvin (portanto antes de todos os outros livros), e Psychohistorical Crisis, que se passa mais de quinhentos anos após Foundation and Earth (portanto após todos os outros livros). Esses quatro livros foram publicados na década de 2010.

Ora, vê-se que não pára de crescer a quantidade de livros ambientados no universo dos robôs, Império e Fundação. Se eu me dispuser a acompanhar estas histórias enquanto forem publicadas, não conseguirei ler outra coisa. Como não é mais Asimov escrevendo, mas quinze outros Autores, não seria possível correr mais que eles, o que me põe em uma clara desvantagem. Então, chega um momento em que é preciso traçar uma linha.

Por isso, chega por ora. Os 29 livros de outros Autores entram na fila infinita dos livros que pretendo ler, e um dia hei de alcançá-los (estimo que daqui a, digamos, 13.098 livros). Se não conseguir, paciência.

EOF

Bastou trocar a grafia e a mensagem ficou clara

Em outras postagens (como esta, esta e esta), comentei os livros da Fundação, onde Isaac Asimov imaginou seu Império Galáctico. Situado 21 mil anos no futuro, o Império é constituído de 25 milhões de planetas habitados, ocupando toda a Via Láctea.

Asimov foi categórico em mais de um desses livros: em todo o Império, a única vida inteligente é a humana. Quando explorados pelos primeiros visitantes, alguns planetas tinham plantas nativas, pouquíssimos tinham pequenos animais; nenhum tinha outra espécie autoconsciente. E assim tomamos esse espaço sem disputa, e deixamos a Terra para trás, e ninguém mais lembra onde ficava nosso planeta natal, cuja própria existência é matéria de debate.

Para um Autor de ficção científica tão prolífico, Asimov escreveu muito poucas histórias envolvendo alienígenas, nenhuma passada no universo do Império. Após alguns livros, esse contraste chama a atenção do leitor. Como poderia um Autor de scifi, dono de uma imaginação tão fértil, NÃO conceber que outros planetas da Galáxia pudessem ser habitados?

A resposta quem deu foi o próprio Asimov. Ao longo de suas centenas de livros, ele sempre reconta como seu primeiro grande editor foi John Campbell. Foi nas conversas com Campbell que surgiram as oito histórias originais e geniais da Fundação.

Conforme narrado pelo Bom Doutor, todas as vezes em que ele propôs histórias com alienígenas, Campbell acolheu a ideia mas sempre fez questão de que a raça humana fosse representada como melhor e superior. Na percepção de Asimov, esse monotema estava firmado em um racismo subjacente: a superioridade da espécie humana sobre os alienígenas seria uma alegoria para uma superioridade entre raças da própria humanidade. Em razão de suas convicções, Asimov ficou bastante incomodado com o racismo de Campbell, ainda que disfarçado, e recusava-se a escrever histórias onde essas noções estivessem sequer implícitas.

Mas ele precisava da aprovação de Campbell para conseguir vender seu material. Então, sua solução foi um meio termo: na Galáxia não haveria seres inteligentes senão os humanos. Pronto; não há comparação com mais ninguém, porque não há mais ninguém.

Do ponto de vista das histórias, fica difícil justificar essa escolha. Afinal, se a vida inteligente nasceu na Terra como resultado natural da evolução após apenas 4,5 bilhões de anos, então seria igualmente provável seu surgimento em pelo menos alguns dos milhões de planetas da Galáxia. Felizmente, Asimov não se esforçou para criar alguma explicação, que sempre soaria implausível. Simplesmente manteve essa unicidade da espécie humana como um mistério, sobre o qual seus personagens especulavam.

(Na verdade existe uma história ambientada no Império, chamada Blind Alley, onde a humanidade é contraposta a uma espécie inteligente nativa de outro planeta. Por ser a única nesses termos, destaca-se bastante entre as demais histórias, sendo a exceção que confirma a regra. Por sinal, é um conto excelente, e seu verdadeiro assunto é a burocracia imperial, não os alienígenas.)

Então, chegamos ao ponto onde li 77% de Foundation’s Fear, de Gregory Benford, na continuação autorizada das histórias da Fundação por Autores pós-asimovianos. Em meu exemplar (de ISBN 978-0-06-105638-3), na página 484, encontramos o seguinte diálogo entre Hari Seldon e sua esposa Dors:

O buraco de minhoca cúbico levou-os ràpidamente a várias docas em órbita próxima em torno de planetas. Um deles Hari reconheceu como um tipo raro com uma biosfera antiga porém arruinada. Como Panucópia, ele sustentava formas de vida avançadas. Na maioria dos mundos habitáveis, os primeiros exploradores haviam encontrado tapetes de algas que nunca se desenvolveram adiante.

— Por que nenhum alienígena interessante, então? — Hari se perguntou enquanto Dors lidava com os Homens de Cinza das docas locais.

Ocasionalmente, Dors lembrava-o de que ela era, afinal de contas, uma historiadora. — A mudança de criaturas unicelulares para multicelulares levou bilhões de anos, diz a teoria. Nós simplesmente viemos de uma biosfera mais rápida, mais durona, só isso.

— Também viemos de um planeta com pelo menos uma grande lua.

— Por quê?

— Temos incorporados padrões repetitivos de 28 dias. A menstruação, por exemplo — incidentalmente diferente da dos chimpanzés. Somos projetados pela biologia. Nós tivemos sucesso, essas biosferas não tiveram. Existem muitos meios de matar um mundo. Geleiras avançando quando uma órbita se altera. Asteróides se chocando, bam-bam-bam! — Ele bateu barulhentamente na lateral da cabine. — A química da atmosfera dá errado. Ela sai do controle até o planeta se tornar uma estufa ou congelar.

— Entendi.

— Humanos são mais resistentes — e mais inteligentes — do que qualquer um. Nós estamos aqui, eles não.

— Quem disse?

— Conhecimento comum, desde que o socioteórico, Kampfbel —

— Tenho certeza de que você tem razão — ela disse ràpidamente.

Nesse diálogo, emerge aquele mesmo racismo que Asimov evitou. “Viemos de uma biosfera mais durona”, “humanos são mais resistentes e mais inteligentes”. Seria uma forma de explicar como nosso planeta evoluiu mais rápido, mas também há uma crítica aí, escondida mais fundo.

Como é o nome do teórico que explicou a prevalência da raça humana? Kampfbel?

Campbell?

Em alemão, muitas vezes, a grafia “pf” indica o som de /f/, e muitas vezes os sons de /p/ e /f/ são intercambiáveis de uma língua para outra. Em particular, várias palavras do alemão têm um /f/ onde, em inglês, têm um /p/. Assim ship (em inglês) x Schiff (em alemão); apple (no inglês) x Apfel (no alemão).

Vê-se que “Kampfbel” é apenas uma transposição do nome escocês “Campbell” para alemão, com o duplo efeito de aproximar o nome de “Kampf” (luta), como no título de Mein Kampf, o livro onde Hitler verteu o núcleo de sua ideologia nazista, fundada na racista noção de superioridade da etnia ariana, a qual teve apoio de teóricos alemães de sua época.

Essa engenhosa equiparação de Campbell a um nazista, embora possìvelmente exagerada, é um pequeno Easter egg inserido por Gregory Benford em Foundation’s Fear. Imagino que tenha sido uma forma de Benford sinalizar ao leitor a verdadeira explicação, fundada no mundo real, para uma Galáxia deserta de outras formas de vida inteligentes na ficção; ou, pelo menos, sua forma de vincular Campbell a esse estranho fenômeno na obra de Asimov.

Trata-se de uma limitação de cenário imposta por Asimov como resposta à limitação mental de seu antigo editor. Um desentendimento político entre escritor e editor tem o efeito de moldar várias obras, e as consequências acabam ressoando décadas depois, quando os personagens continuam discutindo como é possível tamanha ausência de vida inteligente, como se criticassem seu Autor pela extrema improbabilidade.

Gregory Benford e o Princípio de Lavoisier

Como já noticiei em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), prossigo no empreendimento de ler todas as histórias de Asimov ambientadas em seu universo dos robôs, do Império e da Fundação. Houve alguns desvios de rota, quando descobri que, sem querer, havia pulado algumas histórias que não conhecia e voltei para consertar essas omissões. Até agora, porém, acredito ter lido tudo em uma ordem relativamente próxima da ideal (i.e. ordem de publicação das histórias). Todos os livros que ainda restam à frente foram publicados depois dos que já ficaram para trás, que são:

  • I, Robot, de 1950 (contendo nove contos e uma história que os costura);
  • Foundation, de 1951 (contendo cinco noveletas e sendo o primeiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Foundation and Empire, de 1952 (contendo duas noveletas; segundo livro da Trilogia da Fundação);
  • Second Foundation, de 1953 (contendo duas noveletas; terceiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Pebble in the Sky, de 1950 (romance);
  • The Stars Like Dust, de 1951 (romance);
  • The Currents of Space, de 1952 (romance);
  • The Caves of Steel, de 1954 (romance);
  • The End of Eternity, de 1955 (romance);
  • The Naked Sun, de 1957 (romance);
  • The Early Asimov, de 1974 (contendo histórias que são verdadeiros rascunhos do universo dos robôs e da Fundação, mais os contos Blind Alley e Mother Earth);
  • The Rest of the Robots, de 1964 (com contos que não entraram em I, Robot);
  • Nightfall and Other Stories, de 1969 (com mais alguns contos que ficaram de fora);
  • The Bicentennial Man and Other Stories, de 1976 (com a noveleta de mesmo nome);
  • The Complete Robot, de 1984 (com os contos faltantes até aqui);
  • Foundation’s Edge, de 1982 (romance);
  • The Robots of Dawn, de 1983 (romance);
  • Robots and Empire, de 1986 (romance);
  • Foundation and Earth, de 1986 (romance);
  • Robot Dreams, de 1986 (com os contos faltantes até aqui);
  • Prelude to Foundation, de 1988 (romance);
  • Nemesis, de 1990 (romance);
  • Robot Visions, de 1990 (contos e ensaios);

e então Asimov morreu em 1992, deixando o romance Forward the Foundation, de 1993, completo porém póstumo.

Enquanto Asimov ainda vivia, em 1989, seu amigo Martin Greenberg editou uma compilação de diversos Autores intitulada Foundation’s Friends, ambientada no universo dos robôs e da Fundação. Naturalmente, tive que lê-la, já na segunda edição, de 1997, que contém obituários do Bom Doutor.

Estou agora relativamente perto do fim. Faltam três livros ambientados neste universo: Foundation’s Fear, de Gregory Benford; Foundation and Chaos, de Greg Bear; e Foundation’s Triumph, de David Brin. Essas três obras, todas posteriores ao falecimento do Grande Mestre, foram autorizadas por seu espólio e, portanto, constam das listas de obras oficiais, compondo a “Segunda Trilogia da Fundação”. Quando terminar esses três livros, abordarei alguns contos esparsos escritos por fãs, mais a história de toda essa bibliografia narrada por Johnny Pez, e darei o trabalho por encerrado.

Por ora, estou deixando de lado algumas séries de romances de outros Autores, também autorizadas por Asimov e ambientadas no mesmo universo porém, até onde pesquisei, suficientemente autônomas. São uma espécie de via acessória, um meandro para fora do rio, aproveitando elementos da história principal mas sem contribuir de volta para dentro dela nem lhe dar continuidade. Pretendo voltar a estes livros oportunamente, mas já não têm prioridade. São as séries Isaac Asimov’s Robot City, Robots and Aliens e Robot Mystery e a trilogia Caliban. Por fim, o romance não autorizado Psychohistorical Crisis, também deixado para depois.

Lembro ao Leitor que as noveletas e romances da Fundação têm como base os últimos dias de glória do Império Galáctico, que está em seu ápice no momento em que entra na história o teórico Hari Seldon. O talentoso Seldon cria um ramo da Matemática chamado Psico-História, no qual consegue descrever o comportamento de populações humanas por meio de equações. Manejando esse conhecimento, Seldon percebe que, contrariando o senso comum e as evidências imediatas, o Império já começou seu declínio e, em alguns séculos, estará fragmentado em barbárie. Os primeiros livros da Fundação narram como Seldon institui uma forma de restabelecer a civilização após o fim do Império, e os últimos dois livros da Fundação escritos pelo próprio Asimov (Prelude to Foundation e Forward the Foundation) são prequels, contando a vida de Seldon e as experiências que o levaram a formular a Psico-História.

O que me motivou a escrever hoje foram algumas descobertas que fiz ao ler Foundation’s Fear, de 1997. Este livro ambienta-se entre as partes I e II de Forward the Foundation e pretende revelar algumas experiências com que Seldon completou lacunas na modelagem da Psico-História.

Capa de Foundation's Fear

O medo é do que aconteceria com a Trilogia depois que Asimov morreu!

Até agora li 67% do livro e não estou bem impressionado. Para começar, já fiquei um pouco decepcionado quando descobri que a Segunda Trilogia não era a continuação das histórias da Fundação, pois se ambientava em momentos intermediários dentro de histórias já publicadas. Minha experiência com prequels e midquels* já não é boa, depois dos pequenos desastres de Star Trek: Enterprise e Discovery e de Star Wars Episódios I, II e III. Só que isso não seria um problema se o livro fosse bom.
* Midquel: um termo que acabei de inventar para me referir a histórias passadas no meio de outras. Você viu primeiro aqui!

Vejamos. Em determinada passagem, dois personagens coadjuvantes recuperam e incrementam arquivos de computador que são reconstruções de Voltaire e Joana d’Arc. Postas a rodar em um ambiente virtual, essas reconstruções deveriam comportar-se exatamente conforme os originais, permitindo que a plateia comparasse os pontos de vista respectivos, da Razão e da Fé. Entretanto, as duas simulações descobrem que são apenas imitações digitais, e o livro gasta dezenas de sofridas páginas descrevendo as percepções que as duas personalidades têm do ambiente do computador por dentro. Ora é como se estivessem dentro dos cenários de Tron, ora dentro de um holodeck de Jornada nas Estrelas, só que com inúmeras metáforas, subjetivismos, simbolismos, e, na maior parte do tempo, não dá para saber do que estão falando. Foi um suplício superar essas passagens, que não dizem nada e só enrolam o leitor em verborragia e cansaço. Há pouco ou nenhum propósito, e nenhum nexo, em relação ao restante do próprio livro e à obra original de Asimov. Uma perda de tempo rematada.

De repente, do nada, Benford leva Hari Seldon a tirar férias no planeta turístico Panucópia, cujos visitantes dividem seu tempo entre a beira da piscina, as festas e os safáris. Originalmente, o clima tropical de Panucópia serviu para que cientistas pesquisassem o comportamento de vários animais selvagens em seu estado natural, o que é muito raro no Império Galáctico. Com a limitação de fundos para pesquisa, os cientistas tiveram que ser criativos, construindo um hotel de luxo junto à base e cobrando por visitas guiadas à selva. O dinheiro assim arrecadado passou a financiar a continuidade dos trabalhos.

É importante entender que, na Galáxia das histórias da Fundação, há milhões de planetas habitáveis, muitos dos quais colonizados pela raça humana e compondo o Império Galáctico. Não existe vida inteligente além da humana (exceto em Blind Alley e em dois dos primeiros contos de robôs), e as poucas faunas e floras nativas foram facilmente dominadas. Na Era Galáctica (para além do século 180), a humanidade abandonou a Terra há tanto tempo que ninguém mais sabe onde ela ficava, a tal ponto que é considerada um mito, e todo o conhecimento sobre este planetinha é apenas o resultado de deduções com base em evidências praticamente inexistentes.

Então, em Fear, o chefe dos pesquisadores de Panucópia explica a Seldon que os animais do planeta não são nativos, tendo sido levados para lá por alguma expedição muitos milênios antes, tanto tempo que ninguém mais sabe como nem para quê. Supostamente seriam animais oriundos da Terra nos quais teriam sido feitos experimentos genéticos que transformaram as espécies originais. O livro refere-se a símios chamados “pans”, que, pela descrição, tenho certeza de que são chimpanzés. Refere-se, também, a “rabuínos”, o resultado de experimentos sobre outros símios (òbviamente babuínos) que os teriam transformado em uma nova espécie, carnívora, onde as mãos teriam evoluído para garras curtas e as patas traseiras teriam ganhado força para correrem. Refere-se, ainda, a “gigantílopes”, que, pela descrição, seriam paquidermes supostamente derivados dos antílopes.

Um dos serviços oferecidos por Panucópia é a imersão, criada originalmente para fins científicos mas depois estendida aos turistas. Alguns símios foram submetidos a cirurgias, com a implantação de circuitos elétricos e antenas diretamente no cérebro. Na estação de pesquisa, a cada animal fica associada uma câmara de imersão, onde um usuário se conecta e recebe sinais do sistema nervoso do animal. A imersão dá acesso imediato ao que o símio está vendo e ouvindo, a suas emoções e a toda a sua percepção subjetiva, essencialmente permitindo que o usuário viva o chimpanzé. Uma longa passagem de Foundation’s Fear narra como Seldon experimenta a imersão sucessivas vezes, estudando o comportamento dos “pans” como uma versão simplificada do comportamento humano, sem os vernizes civilizatórios que escondem as motivações animais subjacentes a nossos atos. (Aliás, neste ponto lembra muito aquele filme doido, Being John Malkovich, onde as pessoas conhecem o ator “por dentro”.)

Em toda essa passagem, os pans são ameaçados por bandos de rabuínos, e há um momento em que Benford se refere a estes predadores pelo nome científico Carnopapio grandis. Teòricamente rabuínos não existem, mas, mesmo assim, joguei esse nome no Google com a noção de obter alguma descrição precisa, alguma ilustração, quiçá até de descobrir que, na verdade, seriam babuínos, apenas com outro nome.

Foi aí que algumas revelações se descortinaram para mim.

Primeiro, descobri que os rabuínos e gigantílopes não foram inventados por Benford. Ambas as espécies constam do livro de ficção biológica After Man: a Zoology of the Future, do escocês Dougal Dixon, publicado em 1981. Dixon especula sobre espécies que poderiam surgir na Terra 50 milhões de anos após o fim da raça humana.

Até aí, tanto melhor. É sempre bacana ver a criação de um escritor sendo aproveitada por outro, que constrói uma história em cima.

Só que o Google também me mostrou que o nome Carnopapio grandis aparecia em outro livro. Immersion, de Gregory Benford, aparece na Internet Speculative Fiction Database como uma história publicada em março de 1996 e integrante da antologia Immersion and Other Short Novels, de 2002.

Capa de Foundation's Fear

Se você plagia a si mesmo, não é plágio.

Pela evidência que encontrei no Google Books, percebo que Immersion é exatamente o trecho de Foundation’s Fear ambientado em Panucópia, palavra por palavra. Houve mera troca dos nomes dos personagens, a substituição de Panucópia pela África, a dos “pans” por chimpanzés e a da Psico-História por Sócio-História, o que é muito fácil de se conseguir com a função “substituir tudo” do Word. Como o Google Books nunca mostra o conteúdo inteiro dos livros, não pude comparar as duas obras com precisão milimétrica, mas a amostra que tive foi suficiente.

Aliás, conforme lia Foundation’s Fear, percebi que as várias partes do livro são completamente desconexas umas das outras. É como se fossem obras distintas que foram reunidas dentro de um mesmo par de capas, sem uma verdadeira costura que as ligasse. Esse vício de origem fica particularmente claro quando se vê que Benford foi capaz de reaproveitar uma parte inteira do livro como uma noveleta autônoma de algum sucesso, trocando apenas os nomes dos personagens.

Na medida em que Immersion está datada de 1996 e Foundation’s Fear é de 1997, poderíamos pensar que, na verdade, a primeira obra seja a original e a segunda, seu reaproveitamento. Porém, do que li de Immersion, o personagem principal traz características de Hari Seldon. Além disso, claramente sua Sócio-História, baseada em Matemática, é a Psico-História imaginada por Asimov. Portanto, o conteúdo de Immersion já foi concebido com elementos do universo de Asimov, apenas com outros nomes. E a diferença de tempo entre os lançamentos das obras é de apenas um ano. Minha hipótese de trabalho é que esta parte de Fear tenha ficado pronta antes do resto do livro e Benford a tenha lançado antes, possìvelmente até para ter uma estimativa do sucesso que faria o romance mais longo.

Igualmente lamentável é o fato de que esta parte de Foundation’s Fear é a única que conseguiu atrair meu interesse em alguma medida. Até aqui, a maior parte do livro foi um lodaçal, onde avancei contra enorme resistência. Maçante, monótono, perdido em digressões sem ir a lugar nenhum.

As críticas que faço a Foundation’s Fear são várias e estão muito bem resumidas por esta resenha de alguém que se apresenta com o pseudônimo Stettin Palver**, que encontrei quando pesquisava para este artigo, em <http://www.scifi-review.net/foundations-fear-by-gregory-benford.html>. Traduzindo as partes mais relevantes:
** Stettin Palver é o nome de um dos personagens de Forward the Foundation.

“1. Buracos de minhoca: existe uma vasta rede de buracos de minhoca que parece ser parcialmente natural e parcialmente artificial, criada e mantida para ligar o Império. Este é um conceito completamente novo e que é acrescentado, aparentemente do nada [em contraste com o fato de que, nos livros da Fundação de Asimov, a navegação espacial é feita pelo hiperespaço, sem menção a nenhum buraco de minhoca]. Onde estavam esses buracos de minhoca no resto da série de Asimov? Benford não faz qualquer tentativa de reconciliar essa inconsistência [o que poderia fazer facilmente com a famosa técnica da continuidade retroativa]. O próprio Asimov sempre se desculpava em retrospecto após se descobrir que eram impossíveis as tecnologias ou teorias que ele integrava nas histórias, mas não vejo por que haja a necessidade de ACRESCENTAR tecnologia a uma série que já está tão bem estabelecida.

“2. Tiktoks: robôs com mentes simples são usados como mão de obra. Estes não são mencionados por Asimov neste ponto da linha de tempo [da Fundação], onde seres mecânicos são tabu. Benford salta e associa o tabu apenas à função mental e à aparência [humanoide]. Não creio que Asimov aprovasse.

“3. Sims: eu fiquei incomodado pelo arco de história das simulações de Joana d’Arc e Voltaire na primeira vez em que li este livro, e isso não mudou. Sims também são tabu na mesma categoria dos Robôs. Essencialmente 150-200 páginas são dedicadas a exposição de personagens para estas duas simulações e à questão se a vida digital está ‘viva’ ou possui uma alma. Já li resenhas que sugeriram que o romance fica muito melhor simplesmente pulando esta parte, e tenho que concordar [eu também — não contribui em nada]. Se você gosta de diálogo teológico que não tem qualquer impacto no conjunto da história, siga em frente e leia.

“4. Panucópia: esta parte tem aproximadamente cem páginas, mas creio que as ideias poderiam ter sido apresentadas muito mais concisamente. Entretanto, essas foram provàvelmente as cem páginas de texto mais rápidas de todo o romance [para mim também]. Definitivamente, Benford me manteve interessado, pois eu li essa parte inteira de uma assentada só, o que é incomum para mim, especialmente em relação a este romance.

“5. Erros: ‘Dors Vanabili’ deveria escrever-se ‘Venabili’. Se você está dando continuidade à obra de um grande mestre como Isaac Asimov, pelo menos verifique os nomes dos personagens! (…)

“6. Tudo mais: há uma nova tecnologia constantemente sendo introduzida e excessivamente explicada ao longo de todo o livro. Foi só por volta da página 30 que eu percebi isso pela primeira vez. Isso faz com que o Império pareça muito mais avançado e nem tanto em declínio assim.”

Você poderia perguntar, “então por que não pára de ler Foundation’s Fear?” A resposta está no início do texto: após 23 livros, faltando apenas três (e sei lá se os próximos dois são melhores), não vou pular esta parte da saga só porque é chata. Houve outras quase tão chatas quanto (lembro-me de Black Friar of the Flame e de dois dos três romances do Império) e, mesmo assim, prossegui. Não vai ser agora, faltando tão pouco, que vou deixar um vácuo e ficar sem saber o que aconteceu.

EOF

Resenha: Forward the Foundation. Capítulo final (mas nem tanto)

Nesta postagem, tracei um panorama dos livros pelos quais Isaac Asimov é mais conhecido e que se passam no universo dos robôs e da Fundação.

Desde então, já li The End of Eternity e Nightfall e estou lendo Forward the Foundation. A saber:

– Em regra, The End of Eternity é tratado como um livro que não se relaciona ao universo da Fundação e do Império. No entanto, alguns textos de melhores conhecedores indicaram que havia uma ligação. Agora posso confirmar que ele faz, sim, referência a esse universo, mas podemos entender por que é costumeiramente tratado fora do conjunto. É uma história que em NADA influi na história da Fundação. Por outro lado, (1) faz referência a uma tecnologia primeiramente mencionada nos livros da Fundação (não direi qual tecnologia, mas tampouco faz diferença), e (2) a história (e as justificativas) por trás do próprio End of Eternity, que só ficam claras ao fim do livro, só fazem sentido para quem tiver lido os livros da Fundação.

– Até agora, Nightfall não parece guardar qualquer ligação com o universo da Fundação. Trata-se de uma novela desenvolvida a partir do supercelebrado e premiado conto de mesmo nome, publicado em 1941. O terço central da novela é essencialmente uma transcrição ipsis litteris do conto, apenas mudando parcialmente os nomes dos personagens. Os outros dois terços são acréscimos de Robert Silverberg. Especulo, porém, se até o fim de Forward the Foundation encontrarei ligação, ou quiçá em algum dos livros com que outros Autores deram continuidade à obra do Bom Doutor.

Forward the Foundation é uma prequel. Na cronologia dos eventos da série, encaixa-se exatamente entre a prequel anterior, Prelude to Foundation, e o próprio Foundation. Ambos são leituras necessárias para que Forward faça sentido. Aliás, mesmo antes de terminar Forward, já percebi que engatará precisamente ao início de Foundation da mesma forma como Rogue One engata ao início do Episódio IV de Star Wars.

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O que me traz aqui hoje é o reforço de uma constatação. Na abertura de Nemesis, Asimov diz que este livro não tem qualquer ligação com os livros dos Robôs ou da Fundação, embora admita que, mais tarde, se tivesse tempo, pudesse tentar vinculá-los de algum modo (como já tinha feito ao unir os contos de robôs, os romances de robôs e as histórias do Império e da Fundação). Conforme já detalhei na postagem anterior, ele termina Nemesis com uma referência bastante óbvia e um tanto indireta, onde os conhecedores poderão ver que, na verdade, a ligação já está feita; apenas não está detalhada.

Pois muito bem. Nemesis foi publicado em 1990. Não se passaram mais do que dois anos para que seu Autor reforçasse a inserção desse livro no universo da Fundação. Em Forward the Foundation, na parte 4, capítulo 5, página 327 (no meu exemplar, com ISBN 978-0-553-56507-2), o protagonista comenta:

Existe uma história curiosa, de cerca de vinte mil anos atrás e portanto datando das origens enevoadas das viagens hiperespaciais. É sobre uma jovem, com não muito mais idade do que Wanda, que conseguia se comunicar com todo um planeta, que circundava um sol chamado Nêmesis.

Na verdade, o “planeta” era uma lua, Erythro, que orbitava um planeta, e este, sim, orbitava Nêmesis. Mas não importa. Nota-se, nesse parágrafo, que Forward vem integrar Nemesis ao universo da Fundação, justamente ao tempo em que é o último livro deste universo escrito por Asimov.

A primeira interpretação que nos vem é que, tal como no caso de outras “lendas” do universo da Fundação, a história de Nemesis faz parte da continuidade e só ganhou o rótulo de lendária por causa do decurso de vários milênios. Mas considere o Leitor que vários dos elementos de Nemesis tornam este livro incompatível com o universo da Fundação, especialmente a ausência de menção a robôs e a invenção relativamente tardia da propulsão hiperespacial. Com essa perspectiva, posso admitir a ideia de que, dentro do universo da Fundação, Nemesis tenha sido realmente uma história de ficção, não uma história real transformada em lenda.

Mas admitamos que Nemesis faça parte do universo da Fundação, já que essa parece ter sido a sutil intenção do Autor, que certamente se divertiu com a perspectiva de que seus Leitores a perceberiam. Há inconsistências, mas são até esperadas, pois o próprio Asimov sempre se confessou preguiçoso em ficar perseguindo continuidades absolutas entre seus livros. Nem se poderia esperar outro resultado, considerando que os escritores mudam com o tempo e que é muito difícil respeitar continuidades em universos construídos ao longo de anos (vejam os casos da Terra Média de Tolkien, dos quadrinhos da DC e da Marvel, de Star Trek, e até mesmo de Babylon 5, que foi desenvolvida ao longo de um intervalo bem mais curto do que os desses exemplos).

Infelizmente, e justamente por causa dessa virtude de se conectar a livros anteriores, Forward the Foundation padece de uma síndrome: o Autor estava jogando para a galera. Nisso ele foi até explícito, pois a dedicatória do livro diz que é para todos os seus leitores leais. Em inglês, o nome disso é fan service. Trata-se do mesmo mal que acomete produções criadas depois que já existem legiões de fãs de uma original, como é o lamentável caso de Star Trek: Discovery. #faleiesaícorrendo

Explico-me. Nos anos 1940, Asimov foi inovador, genial e vigoroso ao imaginar um pujante Império Galáctico. No primeiro livro da Fundação, o visionário Hari Seldon fazia uso de indecifráveis abstrações matemáticas para prever que, contrariando todas as aparências e o bom senso do cidadão comum, o Império estava em decadência, rumando para uma inevitável extinção em cerca de trezentos anos. À volta dos personagens, tudo parecia indicar a continuidade do progresso dos milênios antecedentes, sem qualquer evidência de que o Império pudesse um dia rumar para o fim. Os sinais da queda sòmente podiam ser detectados nos fenômenos socioeconômicos de larga escala e com ferramentas avançadas de análise. Essa era a genialidade inovadora que Asimov somou à inspiração que lhe viera do Declínio e queda do Império Romano.

Assim é que Fundação começa sob a óptica de um cidadão das províncias visitando Trantor, o planeta-capital, e deslumbrando-se, olhos arregalados a maravilhas oriundas de todos os cantos da Galáxia, a uma atividade frenética e incessante de ruas lotadas, cores, luzes e a uma azáfama onde é fácil se perder. Ao longo desse livro, dos dois seguintes da trilogia (Foundation and Empire, Second Foundation) e dos dois romances ambientados subsequentemente (Foundation’s Edge, Foundation and Earth), o Leitor tem o privilégio de acompanhar panoramicamente a contração, a perda de controle e a Queda do Império, seguidas pelo ingresso de seus planetas na mesma escuridão milenar em que caiu a Europa ao fim do Império Romano. Perde-se o antigo conhecimento e todas as maravilhas retraem ao status de lendas. Mas eu reforço: na pioneira e histórica inauguração do primeiro livro da Fundação, os contemporâneos de Hari Seldon, especialmente os habitantes de Trantor, não tinham como perceber qualquer evidência da já iniciada decadência.

Já em Forward the Foundation, de 1993, presume-se que o Leitor já conheça todas as histórias publicadas anteriormente e portanto já saiba o destino do Império. Nesta prequel, o Leitor acompanha a vida de Hari Seldon a desenvolver a Psico-História enquanto é cercado de graves eventos políticos em Trantor. As cinco partes do livro retratam diferentes momentos da vida do matemático, separados um do outro por dez anos cada, e ao Leitor são reveladas a melancolia e a impotência de Seldon à medida que sinais óbvios se acumulam de que o Império já não consegue se sustentar. A dissipação e a insuficiência de recursos, o decaimento das instalações, o esvaziamento das ruas e das instituições, a rebeldia das províncias, tudo são evidências cumulativas, e os outros personagens gradualmente são forçados a concordar com a inevitabilidade do fim.

Mas justamente esse é ponto! Certamente, para o Bom Doutor, a lembrança que ele tinha, e a percepção que ele sabia que seus leitores teriam, era de que o Império estivesse em colapso ao tempo de Hari Seldon. Ao escrever Forward the Foundation, Asimov sabe que o Leitor tem seu próprio conhecimento privilegiado de que o Império está em crise, e então apresenta ao Leitor um cenário que confirma esse conhecimento, construído pelos livros anteriores. Só que é através dos olhos dos personagens que ele descreve um tal cenário. O Autor parece esquecer-se de que, na concepção original, os personagens não teriam sido capazes de perceber a decadência, nem muito menos deveriam ser capazes agora, em uma prequel. Por isso digo que, trazendo alegria e conforto ao Leitor ao confirmar seu antigo conhecimento, Asimov está jogando para a galera e, com isso, desrespeitando as ideias que ele mesmo havia construído.

Infelizmente, e decerto por causa dessa revisita a antigos conceitos, Forward the Foundation deixa de ter o vigor inovador dos primeiros livros. Em vez disso, parece atender ao desejo de quem espera ler mais do mesmo na longa fileira de títulos iniciada meio século antes.

Forward também enfatiza o envelhecimento de Hari Seldon. Em um período de cinquenta anos, o matemático vai gradualmente perdendo seus entes queridos, sua saúde e suas esperanças. Consequentemente, seu humor torna-se mais resmungão e mais impaciente, suas alegrias escasseiam, e vão crescendo seus sensos de urgência e de desamparo diante da crescente noção de que não conseguirá completar sua obra magistral, perdendo-se o esforço de décadas. Tenho certeza de que essa descrição é um intencional espelho dos sentimentos do próprio Asimov, que já contava 72 anos quando escreveu este último romance.

Até agora, só li 84% de Forward, mas desde o início já me vinha o sentimento de estar me aproximando do fim de uma jornada, pois foi a última visita que Asimov fez a seu tão longamente elaborado universo da Fundação — e todavia ainda com tanto, virtualmente infinito espaço para crescimento. Prova disso é que, após esta obra póstuma, ainda viriam outros quatro títulos autorizados para lhe dar continuidade sob a pena de outros escritores notáveis: Foundation’s Friends, Foundation’s Fear, Foundation and Chaos e Foundation’s Triumph. Serão os próximos na minha fila.

Além desses, há ainda mais numerosos romances não autorizados, ambientados no mesmo universo, como os da série Robot Mystery (quatro até agora), a Segunda Série dos Robôs, de Roger MacBride Allen, e romances isolados como Psychohistorical Crisis, de Donald Kingsbury.

… Aos quais chegarei no devido tempo. Por hoje, é o que eu tinha a comentar. :-)

Às vezes a gente se engana

Estava assistindo ao episódio de Star Trek: the Next Generation intitulado “Emergence”, onde o computador da Enterprise adquire uma forma rudimentar de autoconsciência. Nas palavras (traduzidas por mim) do dicionário Merriam-Webster, “emergence” é “o ato de se tornar conhecido ou visível”, ou “a condição de recém-formado ou recém-proeminente”. O título do episódio traz a ideia da inteligência do computador emergindo de um mar de dados até então desconexos e fazendo-se conhecer, que é justamente o que acontece na história. Essa palavra está ligada ao verbo “emergir”, então poderia se traduzir talvez como “emersão”, mas certamente não com o nome que ganhou no Brasil, “Emergência” — pois essa palavra seria a tradução de “emergency”, que é outra coisa.

… Mas, voltando, estava assistindo ao episódio, e há uma cena onde Data fica segurando um táxi pelo pára-choque.star_trek_the_next_generation_1987_2811_medium

Não se consegue ler o primeiro caracter da placa, mas os caracteres legíveis são “20638”.

Vejamos. 6-38 remete a junho de 1938. Sabe qual foi a famosa edição publicada com data de junho de 1938?
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Então, sendo fã de quadrinhos, é claro que, de imediato, eu pensei que essa fosse uma referência. O modelo de carro é certamente semelhante.

Só que, pesquisando melhor, fui ver que a data de publicação de Action Comics #1 não foi em 20 de junho, nem na semana de 20 de junho (o que também é relevante, pois o que se costuma usar como referência é a segunda-feira da mesma semana, e não o próprio dia). Também descobri aquela letra H na frente e para ela não encontrei explicação.

A conclusão imediata é que provàvelmente se tratava de mera coincidência. Outra conclusão, de âmbito mais amplo, é que não é pra ficar vendo referências que não estão lá, feito aqueles devotos que veem a face de Jesus Cristo em qualquer fatia de pão torrado.

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O Bom Doutor, esse espertinho

Já por algumas vezes tentei escrever meu texto definitivo sobre o universo comum onde se passam inúmeras das histórias do futuro de Isaac Asimov. Terminei alguns textos parciais, que você encontra neste mesmo belogue. Agora, acho que saiu o texto que eu tanto queria. Não é definitivo, porque ainda não acabei de ler todos os livros do dito universo, mas já transmite a visão global que eu vinha buscando há um tempo.

O prolífico escritor americano Isaac Asimov (Petrovichi, Rússia, 1920 – Nova Iorque, 1992) publicou algumas centenas de livros. A maioria são de divulgação científica, mas os livros que o tornaram mais famoso foram os de ficção científica, em particular os contos de robôs positrônicos, aos quais o Autor ficou para sempre associado.

Nem todas as obras de ficção científica de Asimov tratam de robôs. O Bom Doutor publicou vários contos e romances, muitos dos quais são independentes, completamente desconectados de qualquer outra obra. Entetanto, muitos outros (perfazendo cerca de três dezenas de livros) são ambientados em um mesmo universo, a que os textos especializados se referem como o universo dos Robôs, Império e Fundação. Trata-se de uma extensa obra já revirada e analisada por uma multidão de leitores fiéis, que descreve o futuro da humanidade ao longo de milênios e que trouxe a Asimov reconhecimento como um dos maiores Autores de ficção científica até hoje. Nestes livros, os longos diálogos entre os personagens são o veículo para aquilo que mais tarde se convencionou chamar de world-building: extensas descrições da História, Geografia e sociedade do futuro, em uma visão grandiosa onde mais importante é o cenário do que as histórias.

Estes livros foram publicados ao longo de cinco décadas, na ordem em que ao Autor veio a vontade de escrevê-los: uma ordem bem diferente daquela em que se passam seus eventos. Então, existem pelo menos duas formas de se ler esta criação: a ordem histórica de publicação (à qual sempre dou preferência, tal como faço com quadrinhos, J.R.R. Tolkien, Jornada nas Estrelas e Babylon 5) e a ordem cronológica em que os eventos transcorrem no universo criado pelo Autor. As duas ordens estão minuciosamente analisadas em numerosos saites na Web. Para seguir a ordem histórica de publicação, pode-se procurar o artigo na Wikipedia, assim como numerosas fontes online; para seguir a ordem cronológica dos eventos, pode-se procurar a Lista de Ficção Insanamente Completa de Johnny Pez. Para uma história que explica como surgiu e evoluiu esta grande obra espalhada em vários livros, clique na Parte 1 da História das Histórias de Robôs Positrônicos e da Fundação.

Daqui para baixo, SPOILERS. Você foi avisado.

De 1939 até 1982, Asimov criou três universos narrativos sem conexão entre si:

1) Os contos de robôs, ambientados no Sistema Solar no século 21. A colonização dos planetas é auxiliada pela mão de obra dos robôs positrônicos, que são proibidos na Terra mas largamente empregados no espaço. Um número significativo destas histórias é protagonizado pela Robopsicóloga Susan Calvin; algumas, de fundo mais cômico, pelos especialistas Powell e Donovan. A maioria das histórias explora as consequências das Três Leis da Robótica, uma criação de Asimov que caracteriza seus robôs como máquinas úteis à raça humana, evitando o Complexo de Frankenstein. A maior parte destes contos estão agrupados nas coletâneas I, Robot (o mais famoso de todos os livros de Asimov, de 1950), The Rest of the Robots (1964), The Bicentennial Man and Other Stories (1976), Robot Dreams (1986), Robot Visions (1990) e na que reúne os dois primeiros, The Complete Robot (1982), embora alguns contos desses livros não façam parte do universo dos contos de robôs, por não serem compatíveis com as Três Leis.

2) Os romances de robôs, ambientados alguns milênios em nosso futuro. Fazendo uso da tecnologia hiperespacial, a humanidade alcançou cinquenta planetas em sistemas estelares próximos e neles fundou colônias, cujos habitantes são denominados Spacers. As colônias têm baixíssima densidade populacional, enquanto a Terra, superpovoada, é vista por elas como um planeta atrasado, doente e decadente. Enquanto a Terra continua a rejeitar a presença de robôs, as colônias fazem extenso uso deles como sua principal mão de obra. Isso as torna tão economicamente eficientes que a vida dos Spacers é um paraíso hedonista, onde ninguém precisa trabalhar e todos são mais saudáveis e longevos do que seus contemporâneos terráqueos. Essa dicotomia provoca hostilidade entre os dois grupos de humanos, terráqueos de um lado e Spacers do outro, os últimos vendo-se como um novo passo da evolução e os primeiros percebendo-os como elitistas esnobes. Oriundo de Nova Iorque, o Detetive Elijah Baley investiga homicídios na Terra e nas colônias com seu parceiro improvável, o andróide R. Daneel Olivaw, e os dois tornam-se grandes amigos. As obras são os romances The Caves of Steel (1954), ambientado em Nova Iorque, e The Naked Sun (1957), ambientado na quinquagésima colônia, Solaria, mais o conto Mirror Image (1972). Ainda, o conto Mother Earth (1949) passa-se alguns séculos antes dos romances e não faz uso dos mesmos personagens, mas integra o mesmo conjunto.

3A) Os romances do Império, ambientados alguns milênios depois dos romances de robôs. A humanidade espalhou-se e colonizou toda a Galáxia. Dos inúmeros planetas ocupados, Trantor expandiu sua influência a ponto de se tornar a capital de um crescente império, cujo tamanho é diferente de um para outro livro. A Terra é um planeta radioativo, visto como a escória decadente da Galáxia (ou até esquecido, dependendo da época). Os romances são os fracos Pebble in the Sky (de 1950, sendo o mais conhecido e menos ruim deste conjunto), The Stars, Like Dust (1951) e The Currents of Space (1952). Não há robôs nestas histórias.

3B) A Trilogia da Fundação. Trata-se de oito noveletas publicadas isoladamente de 1942 a 1950 e posteriormente agrupadas em três livros, junto com uma nona e tardia história. Entre os admiradores do escritor, esta trilogia é considerada sua obra-prima, tendo sido fortemente inspirada pela leitura do clássico Declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon. As noveletas mostram os dias finais do Império, ainda sediado em Trantor e, a esta altura, existente já há 12.000 anos. O Império estende-se por todos os milhões de mundos habitados por humanos nesta Galáxia, cada um com sua variada cultura, totalizando quatrilhões de súditos. Sua eclética capital, toda coberta de edifícios, representa a epítome da burocracia, para ela afluindo representantes dos mais variados cantos da Galáxia. (Costumo dizer que Londres, capital de um império onde o Sol não se punha, é a mais próxima imagem que hoje temos de Trantor. Imagino que, em Star Wars Episódio I, George Lucas tenha criado Coruscant à imagem daquele planeta-cidade.) Nesse contexto, o cientista Hari Seldon cria um novo ramo da Matemática ao qual batiza de Psico-história. Nesta ciência, as equações formuladas por Seldon permitem deduzir as tendências comportamentais de grandes populações com base em leis sociológicas e probabilidades e, com isso, essencialmente prever o futuro com suficiente e assustadora precisão; quanto maior a amostra, mais acuradas são as previsões. Esse conhecimento avançado permite a Seldon descobrir que o Império já está decadente e cairá em poucos séculos. Da mesma forma, para se atingir determinado resultado a longo prazo, as previsões da Psico-história permitem identificar quais são as ações eficazes. Assim, para preservar o conhecimento de milênios e abreviar a iminente idade das trevas, Seldon calcula que o melhor a fazer é instituir a Fundação, uma nova organização que sucederá o Império em meio a guerras e outros conflitos planetários. A Trilogia narra os desdobramentos da criação da Fundação e do Plano de Seldon ao longo dos séculos subsequentes, sendo constituída pelos livros Foundation (de 1951, abrangendo quatro histórias mais uma que se passa antes das demais mas que foi escrita por último, especialmente para este livro), Foundation and Empire (de 1952, com as duas seguintes histórias originais) e Second Foundation (de 1953, com as últimas duas histórias originais). Não se veem robôs em qualquer um desses livros.

Em algumas destas histórias do Império e da Fundação, fica implícito e, noutras, explícito que a raça humana é a única espécie inteligente em toda a Galáxia. Com isso, Asimov pôde concentrar-se em descrever sòmente conflitos envolvendo a própria raça humana, sem preocupações com alienígenas. (Havia uma motivação editorial antirracista por trás disso, explicada por ele mesmo em The Early Asimov (1972), que não vem ao caso agora.) Como, porém, o Autor nunca se preocupou muito com coesão ou consistência, existem alguns contos de robôs, e outros tantos que mencionam planetas do Império Galáctico, onde se dá o confronto entre a humanidade e outras civilizações. Pode-se considerar que estas histórias estejam fora do conjunto das demais apesar de conterem elementos que lhes são comuns. São elas Victory Unintentional (de 1942, continuação de Not Final!, de 1941) e Black Friar of the Flame (de 1942, fazendo referência a Trantor e a outros planetas do Império). Uma outra, Blind Alley (1945), também envolve alienígenas, mas, mesmo assim, é compatível com os romances do Império.

As obras dos três conjuntos acima ambientavam-se em épocas tão distintas que seu tratamento era absolutamente independente. Essencialmente, Asimov exercitava-se em três universos desconectados, um no futuro próximo, outro no futuro distante e um terceiro no futuro bem remoto, sem nenhuma intenção, plano ou esforço de reuni-los. Esse comportamento mudou nos anos 80, quando o Autor começou uma grande unificação dos três universos ficcionais, fundindo-os em um só. Ao longo daquela década, os novos trabalhos passaram a incluir referências bastante ostensivas aos elementos de histórias já conhecidas, costurando os diferentes retalhos em um tecido único.

A tarefa começou em The Robots of Dawn (1983), que é mais um romance de robôs com Baley e Daneel. Ambientado em Aurora, a primeira das Cinquenta colônias, The Robots of Dawn faz referências a eventos dos contos de robôs como parte de um passado já distante, ao mesmo tempo em que um de seus personagens especula sobre um futuro onde seja possível prever o comportamento da civilização com alguma espécie de “Psico-história”.

Nesse ponto, havia uma incompatibilidade entre os períodos históricos dos universos dos robôs e da Fundação. Se a humanidade já entregara à tecnologia robótica todo o trabalho braçal nos romances de robôs, como se explicaria que, milênios depois, não houvesse um só robô nas histórias de Império e Fundação?

A resposta veio do romance de robôs seguinte, ambientado alguns séculos após The Robots of Dawn, com o título de Robots and Empire (1985). Aqui, aprende-se que, conforme fôra previsto em The Robots of Dawn, os Cinquenta Mundos estagnaram e suas culturas começaram a definhar em razão do uso indiscriminado de robôs, que tirou todo o desafio da vida colonial. Ainda no intervalo entre um e outro livro, iniciou-se uma segunda onda de colonização do espaço a partir da Terra, sem o auxílio de robôs. Os mundos da segunda colonização começaram a disputar espaço político com os primeiros, mas seu vigor tende a prevalecer. Ao fim, inicia-se um processo onde a Terra se torna gradualmente radioativa, motivando a emigração e o paulatino abandono pela humanidade, e as colônias da segunda onda estabelecem as bases de um futuro Império Galáctico sem robôs, com o concomitante desvanecimento das Cinquenta colônias originais. Fica explicada a origem da radioatividade da Terra e do esquecimento do planeta original da humanidade nos livros do Império e da Fundação.

Nesse meio tempo, Asimov publicou um romance continuando a Trilogia da Fundação, com o nome de Foundation’s Edge (1982). Após esse livro, assim como havia começado a estender para o futuro os romances de robôs de modo a conectá-los às histórias do Império e da Fundação, da mesma forma ele passou a estender-se também a partir da extremidade oposta, contando, em retrospectiva, como os Cinquenta Mundos haviam dado lugar ao Império. Assim, em Foundation and Earth (1986), continuação de Foundation’s Edge, os protagonistas partem em busca da Terra, agora já um planeta mítico, de cuja existência muitos duvidam. No processo, encontram restos de algumas das já abandonadas Cinquenta primeiras colônias, deparam-se com Daneel (ainda operacional após tanto tempo) e descobrem que ele foi o grande mentor, tanto da formação do Império como da posterior Fundação. Com Foundation’s Edge e Foundation and Earth, passa a haver uma Série da Fundação, para além da Trilogia original.

Pouco depois (1988), Asimov publicou a prequel Prelude to Foundation, que relata um momento da juventude de Hari Seldon, pouco após o matemático inventar o conceito de Psico-história. Em uma das passagens, descobre-se que o setor mais tradicionalista de Trantor é ocupado por descendentes dos habitantes de Aurora, em uma cultura que reverencia o passado perdido, em que eram mestres de robôs. Ao fim do livro, Seldon descobre que ainda existem alguns robôs, disfarçados entre os humanos, um dos quais é Daneel, que continua a influenciar vigorosamente a evolução da humanidade.

É inevitável que, ao longo de cinquenta anos de publicações e sendo tão numerosas as histórias, existam inúmeras inconsistências dentro desta majestosa obra. Apesar de ser um só Autor por trás de todos os livros, Asimov sempre se confessou indisposto ao esforço de compatibilizar novas histórias com as velhas, preferindo concentrar-se na diversão criativa e, por vezes, estabelecendo o que se costuma chamar de continuidade retroativa (quando novas obras essencialmente reescrevem o passado, substituindo o conhecimento dos eventos que o leitor tinha a partir de histórias mais antigas).

Eu só escrevi todo este resumo porque queria comentar o romance que terminei na semana passada, Nemesis, de 1989. Este foi o primeiro romance de Asimov que se pretendeu autônomo em sua obra desde 1972, com uma história original não relacionada às de robôs ou da Fundação. Ambientado no século 23, ele conta como a primeira colônia orbital sai do Sistema Solar e, em uma longa viagem, vai acercar-se de uma estrela anã vermelha descoberta a apenas dois anos-luz do Sol. Ao longo do livro, os personagens inventam a tecnologia hiperespacial, que permite viagens instantâneas entre localidades situadas a anos-luz uma da outra.

Na Nota do Autor ao início de Nemesis, Asimov diz (e traduzo livremente do original, pois não tenho à mão um exemplar da edição da Nova Fronteira) que “este livro não é parte da Série da Fundação, da Série dos Robôs, nem da Série do Império. Ele se sustenta independentemente. Apenas pensei em alertar o Leitor para evitar uma apreensão mal dirigida. É claro, posso um dia escrever outro romance ligando este aos demais, mas, por outro lado, pode ser que não. Afinal, por quanto tempo conseguirei chicotear minha mente para fazer funcionarem estas complexidades da História do futuro?”

Essa passagem é intencionalmente ambivalente. De um lado, Asimov liberava-se para escrever uma obra original, sem compromisso com o universo estabelecido entre robôs e Fundação. Por outro lado, nota-se a intenção, ainda embrionária, de inserir o livro no conjunto da obra maior.

No entanto, olha só o discurso de uma personagem que se encontra a duas páginas do fim do livro: “no fim, talvez a Galáxia venha a ter dois tipos de mundos, mundos de terráqueos e mundos de mais eficientes pioneiros, os verdadeiros Spacers. Eu me pergunto como isso se resolveria. Certamente significaria que o futuro estaria com eles. Em certa medida, eu lamento isso”. Nas duas últimas páginas, outro personagem “sabia que a humanidade correria de estrela para estrela tão facilmente como tinha corrido de continente para continente (…). A mesma anarquia, a mesma degeneração, a mesma mentalidade inconsequente de curto prazo, todas as mesmas disparidades culturais e sociais continuariam a prevalecer — por toda a Galáxia. O que haveria agora? Impérios galácticos? Todos os pecados e tolices graduados de um mundo para milhões? (…) Quem conseguiria enxergar sentido em uma Galáxia, quando ninguém conseguira enxergar sentido em um único mundo? Quem aprenderia a ler as tendências e prever o futuro em uma Galáxia inteira fervilhando de humanidade?”

Quando cheguei a esse trecho, imediatamente percebi o propósito do Bom Doutor. Era quase uma pilantragem: embora ele não assumisse qualquer compromisso de tornar Nemesis compatível com os livros anteriores, desobrigando-se de eliminar inconsistências e de conectar uma história às outras, estava claro que se referia ao período histórico dos romances de robôs, ao Império Galáctico e à Psico-história. Certamente é por causa dessas duas passagens que os pesquisadores situam Nemesis como “tangencialmente” situado no universo da Fundação.

Mais recentemente, descobri que o clássico The End of Eternity, de 1955, também “tangencia” a Série da Fundação. Considerando o ano de publicação, decerto o Autor terá feito isso de forma menos deliberada. Ainda assim, creio que terei que lê-lo prioritàriamente, antes de passar aos últimos livros: Forward the Foundation (1993) e, da pena de outros Autores, Foundation’s Friends (1989), Foundation’s Fear (1997), Foundation and Chaos (1998) e Foundation’s Triumph (1999).

Antes de fechar, quero apenas observar que todos esses livros (até onde sei) foram publicados no Brasil, vários em traduções castiças pela editora Hemus (nos áureos tempos), outros tantos pela Record. Nos últimos três ou quatro anos, os romances de robôs e do Império e os sete livros da Fundação têm saído em novas traduções pela editora Aleph, que parece ressurgida das cinzas com várias traduções de clássicos, não sòmente de Isaac Asimov mas também de Arthur Clarke, Philip Dick e outros veneráveis mestres. A meus estimados Leitores que porventura tenham tido a paciência de chegar até aqui, recomendo embarcar nessa viagem, que, até agora, já me tomou belos oito anos de leituras e há de tomar ainda mais alguns.

ATUALIZAÇÃO EM 4 DE MARÇO DE 2018:
Já li The End of Eternity e estou lendo Forward the Foundation. Veja como é que o primeiro se integra ao universo da Fundação e como foi que afinal Asimov conectou Nemesis a esse universo, clicando aqui.

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Resenha: Batman: Arkham Asylum: Tales of Madness #1

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Batman: Arkham Asylum: Tales of Madness #1 (May 98) é o capítulo Dezesseis do arco de histórias Cataclysm, onde um terremoto destrói Gotham City. Curiosamente, foi publicado depois do capítulo intitulado “Conclusão” (que saiu em Robin #53). Mas isso não faz diferença, porque a história é bastante autônoma e poderia entrar em qualquer ordem.

Tales of Madness é a única história de Cataclysm a mostrar o que aconteceu ao Asilo Arkham durante o terremoto. Ao detectar o sismo, um dispositivo automático de segurança fecha o acesso à área das celas, isolando os prisioneiros de seus captores. Entretanto, o Crocodilo consegue dominar os três guardas que estavam em sua cela na hora do terremoto e, na sequência, liberta o Coringa, o Espantalho, o Charada e duas internas introduzidas nesta história, Samantha e Vox.

Assim, invertem-se os papéis: os seis loucos matam dois guardas e prendem o terceiro, a quem passam a ameaçar. Isolados do resto do mundo pelo tempo que levar a chegada do resgate, decidem aterrorizar sua vítima. Inicia-se então um torneio onde ele será o árbitro e onde cada um deverá contar-lhe uma história. Será vencedor quem contar a história mais assustadora, ganhando o direito de matá-lo.  Com isso, introduz-se uma estrutura narrativa que vem dando certo desde o Decamerão, de Boccaccio, notòriamente nos Contos de Cantuária e, mais recentemente, em Sandman: Worlds’ End.

O que mais chamou minha atenção em Tales of Madness foi a arte: o desenhista Dave Taylor conseguiu o incrível feito de variar de estilo de uma para outra história a tal ponto que me fez duvidar de que fosse o Autor de todos os desenhos. Compare seus traços —

Na história principal (CLIQUE EM TODAS AS IMAGENS PARA AUMENTÁ-LAS):

Página 7

Na história de Vox (onde os desenhos parecem ter sido feitos por Mike Dringenberg, de The Sandman):

Página 15

Na história do Charada (onde os desenhos são como os de Uderzo e o Charada parece o Asterix):

Página 18

Na história do Crocodilo:

Página 21

Na história de Samantha (onde as linhas lembram muito as capas de Marvel 1602, de Scott McKowen):

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Na história do Espantalho (que nos remete ao simplório início dos anos 60):

BAAToM_1_p28Não sòmente isso, mas os desenhos da história principal são ricos em belíssimos e expressivos detalhes e contrastes. A necessidade de apreciá-los retardou minha leitura. Um exemplo é a impressionante escadaria de mármore na página 7, acima; outros são as páginas 25 e 26:

BAAToM_1_p25Página 26

Tales of Madness não é nenhuma especial contribuição ao Universo DC. É uma história bem independente e quase atemporal, que poderia encaixar-se em qualquer um de vários pontos da cronologia, na qual não me parece influir. De fato, não compromete nem é comprometida por outros eventos, e o terremoto aparece apenas como pretexto: sem nenhum prejuízo para a narrativa, poderia ser substituído por qualquer outro acontecimento. Seu principal valor é como banquete para os olhos, servindo como um mostruário da versatilidade de Dave Taylor.

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Três primeiros U-2R remotorizados foram entregues

“Os três primeiros U-2Rs remotorizados foram entregues em Palmdale, Califórnia, durante outubro. Após a substituição do motor P&W J75-P-13B por um novo GE F118-GE-101, derivado do motor instalado no bombardeiro B-2, as aeronaves aperfeiçoadas foram redesignadas U-2Ss. A potência extra e a razão empuxo-peso aumentada, junto com uma melhoria de 16% no consumo de combustível, significam que a autonomia foi aumentada em até três horas, o alcance máximo aumentado em 1,200 nm (2.200 km) e o teto aumentado em 3,500 ft (1.100 m). Completo financiamento foi agora concedido para remotorização e algumas melhorias de sensores ao restante da frota de U-2R, que compreendem 33 U-2Rs e três treinadores U-2RT bipostos, todos em serviço com a 9a. RW na Beale AFB, Califórnia. Outro U-2R danificado há alguns anos também está agora em reconstrução para configuração biposta como um U-2RT. A remotorização será executada à medida que as aeronaves chegarem para manutenção programada em escalão de depósito, a última aeronave estando agendada para completamento no Ano Fiscal de 1998. Apesar de algumas melhorias de sensores terem sido aprovadas, incluindo uma melhoria de imageamento multiespectral para cinco câmeras do Sistema de Reconhecimento Eletro-óptico Senior Year, a USAF está buscando financiamento adicional para uma quantidade de outras melhorias de sensores para o tipo — consideradas críticas se ele for permanecer em serviço.”

AIR International, Dec. 1994, p. 325.

Minha resenha bilíngue de JLA: Rock of Ages

I just finished reading JLA: Rock of Ages. Before I bought it, I read many reviews at Amazon and elsewhere saying that it was confusing and that a lot of it did not make sense. But they also said that the story dealt with timetravel. And I knew that it had been written by Grant Morrison, who I consider a genius. Being a scifi fan with a penchant for timetravel stories, I deduced that those readers had not been intelligent enough to follow Morrison’s wit. I thought that his work probably had a high level of ingenuity and that I would enjoy it no end, EXACTLY because so many were deriding it.

Was I wrong. The timetravel bit is not hard to follow, actually. The problems lie elsewhere. Morrison seems to have attempted to tell at least five stories in this so-called arc, so what was supposed to be one storyline becomes a disjointed sequence of mostly unrelated events. The supposed main tale revolves around (1) Lex Luthor attempting a takeover of the Justice League by weakening its members and exploiting those weaknesses. Besides that, however, there are (2) the need to match the story to DC’s contemporary crossover, Genesis; (3) the shoehorning of the heroes’ search for the Philosopher’s Stone, which might as well have been unrelated and was not necessary at all; (4) the unrelated, artificial insertion of a story with JLA members traveling to the end of the universe and to fantasy worlds; (5) the time-traveling, sidetracking story of the heroes confronting Darkseid in the future (as fascinating as it is to witness Batman engaging Darkseid without so much as a shiver). In the end the jigsaw is resolved, but at the expense of a long-winding succession of wasted blind alleys. Also, the epilogue is a lead-in to the then upcoming event DC One Million.

Characterization is weaker than in other Morrison works. Still, the thread that runs throughout the collection is a battle of minds between Luthor and Batman, and both of these get to shine in their chess-playing, foreplanning, cunning personas, which are marvelously written.

Overall a dumbfounding read, so I do not actually recommend it. However, you may be interested if you are keen on the Justice League, want to appreciate Morrison’s take on it and are willing to tolerate edits where scenes seem to succeed each other with no visible connection between them.

Acabei de ler JLA: Rock of Ages. Antes de comprar, eu havia lido várias resenhas na Amazon e alhures dizendo que era uma história confusa e que muito dela não fazia sentido. Mas as resenhas também diziam que a história lidava com viagem no tempo. E eu sabia que havia sido escrita por Grant Morrison, que considero um gênio. Sendo um fã de ficção científica com uma queda por viagens no tempo, eu deduzi que aqueles leitores não haviam sido inteligentes o bastante para seguir a inteligência de Morrison. Pensei que seu trabalho provàvelmente teria um alto nível de engenhosidade e que eu o aproveitaria de montão, EXATAMENTE porque tantos o depreciavam.

Rapaz, como eu estava errado. A porção de viagem no tempo nem é difícil de acompanhar, na verdade. Os problemas estão em outras partes. Morrison parece ter tentado contar pelo menos cinco histórias neste assim chamado arco, de modo que o que deveria ser uma linha de capítulos torna-se uma sequência disjunta de eventos mormente não relacionados. A suposta história principal gira em volta de (1) Lex Luthor tentando tomar a Liga da Justiça através do enfraquecimento de seus membros e da exploração dessas fraquezas. Ao lado disso, porém, há (2) a necessidade de ajustar esta história ao evento contemporâneo da DC, chamado Genesis; (3) o encaixe de uma busca dos heróis pela Pedra Filosofal, que poderia muito bem ser não relacionada e absolutamente não era necessária; (4) a inserção artificial e não relacionada de uma história com membros da Liga da Justiça viajando ao fim do universo e a mundos fantásticos; (5) a tergiversação de viagem no tempo dos heróis confrontando Darkseid no futuro (por fascinante que seja testemunhar Batman encarando Darkseid sem um tremor). No fim, o quebra-cabeças é resolvido, mas às expensas de uma sucessão tortuosa de becos sem saída. Também, o epílogo é uma introdução ao evento então iminente DC One Million.

A caracterização é mais fraca do que em outras obras de Morrison. Ainda assim, o enredo que corre através do encadernado é uma batalha de inteligênicas entre Luthor e Batman, e ambos conseguem brilhar em suas personas vulpinas, planejadoras e jogadoras de xadrez, que estão escritas maravilhosamente.

De modo geral, uma leitura que causa perplexidade, de modo que não chego realmente a recomendá-la. Entretanto, você pode se interessar se tiver predileção pela Liga da Justiça, quiser apreciar a abordagem de Morrison e estiver disposto a tolerar uma edição onde as cenas parecem suceder umas às outras sem conexão visível.

É fácil de encontrar quando se sabe onde procurar

Muitas vezes, os iniciantes na apreciação da Arte têm a noção de que os artistas desenham imagens que já têm prontas na cabeça. De que os desenhos são feitos sem qualquer referência a objetos reais, obedecendo sòmente a abstrações. Dentro dessa ideia, a prova do talento do desenhista está no sucesso em representar um objeto real (ou que poderia ser real) sem nunca ter olhado para ele.

É por isso que, às vezes, o apreciador se decepciona quando vem a descobrir que o artista se valeu de um modelo, da observação de uma pessoa viva, ou de uma fotografia. É como se trapaceasse, como se o trabalho valesse menos, como se fosse uma “cópia”.

Porém, se o apreciador convive por tempo suficiente com o processo de criação — ou até se ele mesmo se dispõe a criar sua própria arte –, logo pode perceber que é assim mesmo que funciona. Difìcilmente o artista parte do zero, de uma imagem que não existe. Quando isso acontece, frequentemente o resultado é arte abstrata, que não tem qualquer compromisso com as impressões visuais da realidade. Mesmo Alex Ross, considerado um dos maiores desenhistas de quadrinhos desde os anos 90, usa modelos: o Padre McCay, personagem narrador da obra-prima Kingdom Come, tem sua aparência baseada na do pai de Ross. Boris Vallejo, conhecido por suas capas de livros e figuras de Conan, o Bárbaro, também se vale de modelos. A versão Ultimate de Nick Fury teve sua aparência baseada em Samuel L. Jackson — que veio a interpretar Nick Fury nos recentes filmes da Marvel –, assim como John Henry Irons, o Aço da DC, tem o rosto de Shaquille O’Neal, que interpretou o papel mais tarde, na bomba Steel, que nem apareceu nos cinemas daqui (mas que já foi exibido pela TNT).

Portanto, não é surpreendente o que encontrei. Estava eu lendo Astro City: inquisição, que é a versão brasileira da compilação de Kurt Busiek’s Astro City #4-9, quando cheguei ao capítulo que corresponde a KBAC #8, de abril de 1997, escrita por K. Busiek e desenhada por Brent Anderson.

Nas páginas 121 e 122, encontrei estas figuras.

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Não haveria nada de mais, e o Leitor que não se interessa por aviões passaria batido. Exceto que eu tenho uma memória terrível para as coisas de que gosto, porque de imediato reconheci as duas imagens. Acontece que tenho alguns livros da coleção Guias de Armas de Guerra, publicada pela Nova Cultural nos anos 80 a partir de originais da inglesa Salamander. Um desses livros é Aviões do futuro, que se divide em dois volumes.

A edição original e o volume I da traduzida

A edição original e o volume I da traduzida

No volume I, encontramos uma das várias representações de conceitos preparatórios para o ATF (que, anos mais tarde, viria a se tornar o F-22). Um deles é este aqui:

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Lamentàvelmente, não consigo ler a assinatura do artista original, bastante esmaecida e parcialmente cortada no livro.

Já no volume II, duas páginas são dedicadas ao helicóptero experimental S-69, do qual se vê a seguinte fotografia:

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Vamos facilitar a vida do distinto Leitor:

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Eu não sei você, mas não tenho a menor dúvida de que Anderson teve acesso aos livros dessa excelente coleção.

EOF

Multiple contact points

Today I shall dabble in two different topics within the same overall subject, which is DC Comics’ super-hero comics. These two topics have a point of contact that deserves review, and this is why I have come here.

The first topic is the annuals. DC Comics issues its super-hero titles monthly. (Everything I say in this text is true as a rule in 2013, but the titles change over the years and my reading is still in 1996, so that the specific examples I give are from that year.) Thus, Superman’s continuing adventures are out in Action Comics, The Adventures of Superman and Superman; Batman’s in Detective Comics, Batman, Batman: Shadow of the Bat and The Batman Chronicles; other heroes are published in Wonder Woman, The Flash, Robin, Catwoman and many, many other titles that the lay public would not recognise, such as Nightwing, Azrael and Impulse.

Usually, each one of these series has twelve issues a year. The most popular of them are matched by other, yearly series, which are equivalent to special editions — as if they were thirteenth issues of the main title. These are the Annuals, as in Action Comics Annual, Batman Annual, Flash Annual. According to DC’s practice, the story that comes in an Annual is not a part of the storyline that is told over months in the main series; yet it is a part of the official chronology. Each Annual usually has more pages than the corresponding monthly title, and some have more than one story per issue.

In the 1990s, DC used to give the same theme to each year’s Annuals. For example, in 1991 all of them were interesting tie-ins to the Armageddon 2001 event. In 1994, all of them were Elseworlds stories. In 1996, all Annuals brought the subtitle “Legends of the Dead Earth”. Each one told a story that was not necessarily compatible with those of the other Annuals, but each writer was in charge of creating variations on the same theme: a distant future when planet Earth no longer exists. In this future, the hero from the regular title (not the one in the Annual) has been dead for centuries, but his or her memory lives on somehow, and another hero follows on his or her footsteps.

Batman Annual #20. Weak story.

Green Lantern Annual #5. Fun story.

Most of these Annuals turned out unimpressive. This is not exactly a surprise, seeing as that, according to Sturgeon’s Law, 90% of all cultural production is trash. It could not be otherwise: first, statistically it would not make sense that everything were good, and this is exactly why the word “mediocre” has ceased to mean just “average” and started to mean “bad”; second, by definition you will only notice that something is good because it stands out from the rest, and this is where the word “good” starts to have its meaning. If everything were good, you would not realise that it were good, nor would you, therefore, even be aware of the concept or have a name for it.

Precisely because of all this, when one of these Annuals turned out much better than the others, it drew my attention. I refer to Legionnaires Annual #3, which was one of the last Annuals of 1996, having been published along with December’s regulars. Differing from the other Annuals of 1996, this one had its story as an aftermath of another that took place in a main title.

This is where we hold the discussion of 1996’s Annuals and enter the second topic, which is the chronology of the many characters named “Flash”. As it is in the case of most any other DC super-hero, a full chronology would deserve lengthy explanations and due commentary. Unfortunately, because of the scope of this article, I will have to leave the treatment that the Flash deserves for a later date, because that would be too long an exposition, with too many details. Just you believe that everything I say hereunder has a fascinating, minutiae-ridden story behind it, and do yourself the favour of researching it, because there are lots of effort and creativity involved. For now, let us move on.

Follow me. Historically, the nickname “The Flash” was first attributed to a character called Jay Garrick who had acquired super-speed. This Flash’s stories were published from 1940 to 1949, during the Golden Age of comics, and then his monthly book Flash Comics ceased to be published. Maybe you still remember him: red shirt, blue trousers, helmet, maskless.

Jay Garrick, the first Flash. I tried to use Wikipedia’s image, but WordPress will not allow it. So go there and type “Jay Garrick”.

In 1956, DC Comics revamped the concept and launched a new character named Flash. This time, the runner was an often-late police chemist called Barry Allen, who was gifted with his superpower when struck by a lightning in the Chemistry lab. This second Flash gave continuity to Flash Comics and today is considered to be the character who gave DC’s Silver Age of comics its start.

The second Flash, Barry Allen

This is the Flash who became famous, whom readers came to love and whom the lay public is aware of. He is the epitome of the good-hearted hero willing to sacrifice his own life to save the others’ — in some cases even more so than Superman himself, who is considered the archetypal super-hero for all his physical and psychological traits.

In 1961, with the publication of The Flash #123 and its story “Flash of Two Worlds!”, writer Julius Schwartz brought forth the concept that, in my view, is the most ingenious and mind-stimulating idea in the whole DC Universe: the notion of parallel universes where the heroes have counterparts who are like different versions of the same person. With this issue, it was retroactively established that the old Flash (Jay Garrick) kept on existing despite no longer being published. It is just that his adventures took place in another universe, in so-called Earth-2. By jumping dimensions, Barry Allen meets Jay Garrick, declaring himself his admirer and follower.

The Flash #123, a classic issue. This story changed the whole DC universe. An original copy is worth more than a thousand dollars, but, fortunately, it is easy to find reprints.

In the following years of the Silver Age, we learned that all the heroes who had been published during the Golden Age (from 1938 to 1951), including Superman, Batman and Wonder Woman, were a part of Earth-2, while the heroes that were being published from 1955 were set in Earth-1 (in Brazil, “Active Earth”). Thus there were two Supermen, two Batmen, two Wonder Women, two Green Lanterns (one of them being Alan Scott, the other Hal Jordan), two Flashes etc., one of each on each Earth. The vast majority of DC’s regular titles told the adventures on Earth-1, but, in the 80s, some titles started to tell of adventures that continued on Earth-2, outside of DC’s main chronology. The meetings of heroes from the two universes were much celebrated, especially those in the anxiously anticipated stories that were out once a year in the regular issues of Justice League of America.

(Incidentally, the variety of Earths in many universes only became one of DC’s relevant topics in the miniseries [or so-called “maxiseries”] Crisis on Infinite Earths, in 1985-1986. This lengthy story, written by Marv Wolfman and wonderfully pencilled by George Pérez, redefined the whole DC Universe, with a fundamental impact on the chronology of every character and permanent effects that are discussed to this day. At the time, its purpose was to extinguish the multiverse, kill off many characters and gather the survivors in a sole, streamlined universe. Over the years, the idea of a multiverse has come back, since it was too good to be wasted, but it would only become a main theme of discussion again in the period 2006-2008, with Infinite Crisis and Final Crisis.)

In 1984-1985, the monthly The Flash threw Barry Allen to the 30th century, in a long and complex storyline where he never went back to his original time. When the Crisis on Infinite Earths came about, Barry made the final sacrifice to save the many Earths, but no one witnessed his death. According to George Pérez, Barry was chosen to be a martyr because the idea of a DC multiverse had begun with him, therefore also with him this multiverse would end.

Barry Allen’s final sacrifice, saving DC’s universes in his last race.

Then, in a turn of events which was very controversial at the time and which attracted the fury of many a fan, not only did Barry stay dead definitively(*) (which never happens to any comic book character, but finally happened to him) but also he was succeeded by Wally West, the nephew of his wife. Wally was an old acquaintance of the readers’, because he had undergone the same kind of freak accident as Barry had before him (yeah, writers could be less creative during the Silver Age) and, for a good time, followed in the footsteps of his beloved and admired uncle-by-marriage as Kid Flash, having, by the way, been a part of the Teen Titans and of the New Teen Titans. With Barry’s passing, Wally became the third Flash.

Kid Flash (Wally West during the Silver Age)

At the end of the Crisis, Wally takes on the legacy of his uncle-by-marriage.

Wally West as the third Flash, after the Crisis.

[Parenthetical: the 1990 short-lived TV series The Flash told the adventures of Barry Allen, whose origins and profession matched those of the Barry Allen from the Silver Age comics. However, the Flash from this TV series had the personal traits and metabolic characteristics of Wally West, who already was the Flash in the comics of the time. I assume that these choices were made to join Wally’s popularity to the knowledge by an older public of laymen in relation to the only Flash that they probably knew, who had been the longer-standing Barry Allen (who had been active for thirty years up to 1986), in comparison to then-upstart Wally West (active for only four years up to that point).]

In 1994-1996, the monthly The Flash was written by brilliant Mark Waid, Author of the masterpiece Kingdom Come and one of the writers who best understand and respect their characters. Waid wrote many stories where he rounded up the many super-speedsters of the DC universe, and I love stories that join up variations on the same character. In particular, Waid’s stories on this motif are excellent and inspired. Besides, at the time when he was writing the Flash, Waid raised this character’s superpower to something greater than him, inserting Wally into a continuity where a single force in the universe was the moving source of all the super-speedsters. Suddenly, the Flash’s superpower was no longer unique, and it was revealed that it was derived from an energy field which common mortals were incapable of reaching: the Speed Force. In Waid’s hands, the Flash became sort of a Jedi knight of speed, a privileged man who, just like Neo in The Matrix and Luke Skywalker in Star Wars, had access to understanding hidden meanings in reality and to perceiving universe, time and space with a zen sense of unity. The Speed Force has the effect of a power that is neither magical nor, however, understood or even noticed by humans, an energy that permeates the universe and which only the super-speedsters are able to explore. Therefrom spring some very interesting stories where we can see the world in slow-motion through the eyes of the scarlet racer as Wally gradually finds out that his speed power brings many side benefits, such as time travel and the possibility of giving other people a “ride” on his speed. Also, writer Waid treated Barry Allen’s memory with religious reverence, endowing Wally with the desire to better know the destiny of his uncle in the 30th century and to contact the expanded reality which had fed Barry and which only now became visible to himself.

At the beginning of 1996, The Flash told the many-part Dead Heat story arch, where Wally strove to stop the villain Savitar from disabling all heroes whose superpower is their speed: Wally himself, Jay Garrick, young Impulse (Bart Allen, a grandson of Barry’s, born in the 30th century), Johnny Quick, his daughter Jesse Quick, wise Max Mercury (a time-traveling speedster revamped by Waid, born in the Old West and, already at a certain age, a mentor for the other speedsters) and some others. In order to beat Savitar, Wally had to accelerate in a way that had never been demanded of him, entering the timestream and, out of control, traveling to the 64th century.

In the Race Against Time! story arch, after defeating Savitar and already in the second half of 1996, Wally tries to return to his time in successive jumps back the centuries. One character who helps him is John Fox, the Flash of the 27th century, heir to the mantle out of inspiration by the memory of both Barry and Wally.

Following the continuity of stories, I am now in (or at) December 1996, at the point where Wally manages to return to the 20th century. It just so happens that, when he was still fighting Savitar earlier in the year, Wally was helped by a racer codenamed XS, who, by the way, is also Barry Allen’s granddaughter born in the 30th century (and Bart’s cousin). In Dead Heat, XS had gone back in time, from her 30th to the 20th century, along with her colleagues from the Legion of Super-Heroes, and had become stuck here. Just like Wally resorts to using the Speed Force to come back from the future to the present (and ultimately succeeds), XS attempts to jump in the opposite direction, from the present to the future (which is “her present”). In the 1996 issues of the monthly The Flash, the young heroine XS is just a supporting character, and there comes a moment (in the first chapter of Race Against Time!, The Flash #112, April 1996) when John Fox and Jay Garrick give her a hand in time-jumping. XS disappears, the Reader is led to assume that she has managed to get home, and the story turns its focus back onto the Flash, his misfortunes and his own happy return.

And this is where, always in the effort to read everything in the original publication order, I arrived at Legionnaires Annual #3. This is where the two topics touch. Having read the other annuals of 1996, I had assumed this issue to be in the Sturgeon’s Law’s 90% portion. To my very grateful surprise, I then discovered that I had been wrong! The story starts out by showing what happened to XS when, with the help of Fox and Garrick, she launches into the timestream. Thereafter she feels attracted by a focal point, leaves the timestream and finds herself already in the 30th century, but still a long way from the point she was trying to reach. She realises that the point which attracted her was the assembly of a time-travel device by the hands of… Barry Allen! Ever since the stories published in 1986, I do not recall having seen any new story with Barry Allen that was not some retrospective or otherwise a story set in the Silver Age, when he was the titular Flash. As far as I know, this is the FIRST story where Barry appears while, for the reader, “today’s Flash” already is Wally West. Unfortunately for XS, Barry is still too young, does not even have any children and, therefore, does not recognise her. Still, this is a moving moment, because XS sees the opportunity to meet her grandfather, who was already deceased when she was born. The scene could even have been a tear-bringer, I would not mind. But the two of them do not know each other, so what remains is that deep admiration and XS’s feeling that she is beholding a historic icon, one of the greatest heroes of them all, in a lonely, introspective moment — and he is her grandfather!…

Barry gives XS the privilege and the honour of running along with him and then works as a catapult for her, sending her again into the timestream. This time, XS ends up in the 100th century, where she learns that Earth is no longer (this being the common point with the other annuals of 1996, Legends of the Dead Earth), as the Legion of Super-Heroes is no longer either. On the planet Almeer-5, humanity is oppressed by the villain Nevlor, who has imprisoned the few remaining metahumans. One of the heroes in jail is Avatar, who wields the ancient Spear of Destiny, which can only be raised by those worthy of it. Her outfit resembles those of Jack Kirby’s gods, particularly that of Marvel’s Thor, whose hammer Mjölnir only those worthy are able to raise. Another heroine is Melissa Trask (an anagram of “Stark”, get it?), who is a brilliant electronics engineer and has crafted a flying armour that fires bolts from its hands (just like Iron Man’s armour…). The third hero is Robert “Bob” Brunner (just as Robert Bruce Banner, right?), who, thanks to an energy transfer (gamma rays?), has transformed into a megamuscular blue giant (not green, OK?). His clothes are torn and he is left in his shorts as he throws puny humans about. The last hero, said to be the greatest of all in the 100th century, does not have any superpower, but has arrived there in suspended animation to lead them with his winged helmet and his star-chested uniform (just like, let us see, a certain Captain America…). With XS’s help, the heroes escape and regroup in a new secret base built by Stark Trask, the Avengers Mansion. You may note that the words “Almeer” and “Nevlor” contain the letters of “Marvel” and (Stan) “Lee”.

Receiving new assistance from this “Avenger” Legion of the 100th century, XS again enters the timestream, but, instead of getting home, she ends up at the Vanishing Point, the Linear Men‘s space base, located statically in a parallel dimension during the last time instant before the end of the universe. Sometimes the Vanishing Point appeared in DC’s stories from the 90s, including the miniseries Zero Hour. There XS meets the Time Trapper, a villain from the Legion of Super-Heroes’s stories — whom she did not know of, since there were no confrontations with him after she joined the Legion. The Time Trapper commands the timelines, which he often manipulates in order to change events in his own favour, but, in this brief encounter, he introduces himself to XS as someone who behaves as such to the benefit of the human race, as opposed to the Linear Men, who patrol timelines against interference and, among other things, stop planet Earth from being saved from destruction. Under this point of view, the Time Trapper is the hero! Before he sends her back to the 30th century, XS gets to witness the events of Zero Hour from the Linear Men’s perspective. Though she does not understand what is going on (as she is a character created by Mark Waid after the publication of Zero Hour), the Reader can recognise several speeches by the Linear Men, by Waverider and by the Atom, as well as the Atom’s death, which was one of the outcomes of that miniseries. The writer never makes it explicit that what we are looking at is Zero Hour, but leaves the conclusion very much available whilst we can observe the same happenings from a different viewpoint.

Curiously, the story in Legionnaires Annual #3 was scripted not by consistent, careful Mark Waid, but by Roger Stern. It is so coherent, so well fitting in the DC universe, so in line with the Flash’s tales to which it connects, so perfectly elegant before the chronologies of Zero Hour and of the Legion of Super-Heroes, that one would think that Waid were its true Author. The adherence to continuity and the respectful (as opposed to mocking) treatment of Marvel’s heroes indicate a connection of affection to the comics that we typically see in Waid’s work. Here I leave my compliments to the excellent job accomplished, not only by him who wrote but also by those who drew (Tony Castrillo, Chuck Wojtkiewicz and Dan Jurgens, the last of whom pencilled the “Zero Hour” sequence and had also been the penciller for the original Zero Hour miniseries) and especially those who edited (Ruben Díaz and KC Carlson, who had been one of Zero Hour‘s editors).

(*) Yes, I am partially aware of the effective return of Barry Allen after the Final Crisis. As I said, my reading is in 1996 and, at this point, DC stands by its intent to keep Barry definitively dead.

EOF

Múltiplos pontos de contato

Hoje tratarei de dois tópicos diferentes dentro de um mesmo assunto, que são os quadrinhos de super-heróis da DC Comics. Os dois tópicos têm um ponto de contato que merece resenha, e foi por isso que vim aqui.

O primeiro tópico são edições anuais. A editora DC Comics publica mensalmente os títulos que trazem as histórias com seus super-heróis. (Tudo que digo neste texto é verdade como regra em 2013, mas os títulos mudam com o correr dos anos e minha leitura ainda está em 1996, de modo que os exemplos específicos que dou são daquele ano.) Então, as contínuas aventuras do Super-Homem saem em Action Comics, The Adventures of Superman e Superman; as do Batman, em Detective Comics, Batman, Batman: Shadow of the Bat e The Batman Chronicles; outros heróis saem em Wonder Woman, The Flash, Robin, Catwoman e muitos, muitos outros títulos que o público leigo não reconheceria, como Nightwing, Azrael e Impulse.

Normalmente, cada uma dessas séries tem doze edições por ano. As mais populares são acompanhadas de outras séries com periodicidade anual, que, na prática, equivalem a edições especiais — como se fosse uma décima-terceira edição do título principal. São os Annuals, como Action Comics Annual, Batman Annual, Flash Annual. Pela prática mais comum da editora, a história que vem em um Anual não integra a sequência da história que está sendo contada ao longo dos meses na série principal; mas, mesmo assim, faz parte da cronologia oficial. Cada Anual costuma ter mais páginas do que o título regular correspondente, e alguns têm mais de uma história por edição.

Nos anos 90, a DC costumava dar um mesmo tema aos Anuais de cada ano. Por exemplo, em 1991, todos foram interessantes histórias vinculadas ao evento Armageddon 2001. Em 1994, todos foram histórias do tipo Elseworlds. Já em 1996, todos os Anuais traziam o subtítulo “Legends of the Dead Earth”. Cada um contava uma história que não era necessàriamente compatível com as dos outros Anuais, mas a cada roteirista a editora incumbiu de criar uma variação sobre o mesmo tema: um futuro distante onde o planeta Terra não existe mais. Nesse futuro, o herói publicado pelo título regular (não o do Anual) já morreu há séculos, mas sua memória sobrevive de algum modo, e outro herói segue sua tradição.

Batman Annual #20. História fraca.

Green Lantern Annual #5. História divertida.

Na sua maioria, esses Anuais ficaram ruins. Isso não é exatamente uma surpresa, já que, de acordo com a Lei de Sturgeon, 90% de toda a produção cultural é lixo. Não poderia ser de outro modo: primeiro que, estatìsticamente, não faria sentido que tudo fosse bom, e é justamente daí que a palavra “medíocre” deixou de significar apenas “médio” e passou a significar “ruim”; segundo que, por definição, você só repara que alguma coisa é boa porque ela se destaca do resto, e é daí que a palavra “bom” passa a ter significado. Se tudo fosse bom, você não perceberia que fosse bom, nem, portanto, teria sequer o conceito ou um nome para ele.

Justamente por tudo isso, quando um desses Anuais ficou bem melhor do que os outros, ele chamou minha atenção. Refiro-me a Legionnaires Annual #3, que foi um dos últimos Anuais de 1996, tendo sido publicado junto com os regulares de dezembro. Diferente dos outros Anuais de 1996, este fez sua história como continuação de outra que acontecia em um título principal.

É nesse momento que suspendemos a discussão dos Anuais de 1996 e entramos no segundo tópico, que é a cronologia dos vários personagens chamados “Flash”. Tal como no caso de qualquer outro super-herói da DC, uma cronologia completa mereceria extensas explicações e os devidos comentários. Infelizmente, diante do escopo desta discussão, vou ter que ficar devendo o tratamento que o Flash merece, porque seria uma exposição muito longa, com muitos detalhes. Apenas acredite que tudo que eu digo a seguir tem uma história fascinante e minuciosa por trás, e faça a si mesmo o favor de pesquisá-la, porque há muito esforço e muita criatividade envolvidos. Por ora, prossigamos.

Acompanhe. Històricamente, o epíteto “The Flash” foi atribuído a um personagem chamado Jay Garrick que havia adquirido supervelocidade. As histórias desse Flash foram publicadas de 1940 até 1949, durante a Era de Ouro dos quadrinhos, e então sua revista Flash Comics deixou de ser publicada. Talvez você ainda se lembre dele: camisa vermelha, calça azul, capacete, sem máscara.

Jay Garrick, o primeiro Flash. Tentei usar a imagem da Wikipedia, mas o WordPress não aceita. Então vá na Wikipedia (em inglês, por favor) e jogue “Jay Garrick”.

Em 1956, a DC Comics reformulou o conceito e lançou um novo personagem com o nome de Flash. Desta vez, o corredor era um químico forense e atrasildo contumaz chamado Barry Allen, que adquiriu seu superpoder ao ser atingido por um raio no laboratório. Este segundo Flash deu continuidade a Flash Comics, sendo hoje considerado o personagem que inaugurou a Era de Prata dos quadrinhos na DC.

O segundo Flash, Barry Allen

Esse é o Flash que ganhou fama, que os leitores passaram a amar e que o público leigo conhece. Ele é a epítome do herói de bom coração disposto a sacrificar a própria vida para salvar a dos outros — em alguns casos mais do que o próprio Super-Homem, que é considerado o arquétipo do super-herói por todos os seus aspectos físicos e psicológicos.

Em 1961, com a edição The Flash #123 e sua história “Flash de dois mundos”, o roteirista Julius Schwartz trouxe o conceito que, a meu juízo, é o mais genial e estimulante de mentes em todo o Universo DC: a noção de universos paralelos onde os heróis têm contrapartes que são como diferentes versões da mesma pessoa. Com essa edição, ficou retroativamente declarado que o antigo Flash (Jay Garrick) continuava existindo apesar de ter deixado de ser publicado. É que suas aventuras aconteciam em outro universo, na assim chamada Terra-2 (no Brasil, “Terra Paralela”). Exercendo um salto dimensional, Barry Allen encontra Jay Garrick, declarando-se seu admirador e imitador.

The Flash #123, uma edição clássica. Esta história mudou todo o universo DC. Um exemplar original custa mais de mil dólares, mas, felizmente, é fácil encontrar reimpressões.

Nos anos subsequentes da Era de Prata, aprendemos que todos os heróis que haviam sido publicados durante a Era de Ouro (de 1938 a 1951), inclusive Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha, faziam parte da Terra-2, enquanto os heróis que estavam sendo publicados desde 1955 estavam ambientados na Terra-1 (no Brasil, “Terra Ativa”). Logo, havia dois Super-Homens, dois Batmen, duas Mulheres-Maravilhas, dois Lanternas Verdes (sendo um deles Alan Scott e o outro Hal Jordan), dois Flashes etc., um de cada em cada Terra. A grande maioria dos títulos regulares da DC contavam as aventuras da Terra-1, mas, nos anos 80, alguns títulos passaram a contar as aventuras que continuavam na Terra-2, fora da cronologia principal da DC. Eram muito comemorados os encontros de heróis dos dois universos, especialmente nas ansiosamente esperadas histórias que saíam uma vez por ano nas edições regulares de Justice League of America.

(Incidentalmente, a variedade de Terras em vários universos só veio a se tornar um dos pontos relevantes da DC na minissérie Crise nas infinitas Terras, em 1985-1986. Essa extensa história, escrita por Marv Wolfman e maravilhosamente desenhada por George Pérez, redefiniu todo o Universo DC, com um impacto fundamental na cronologia de todos os personagens e efeitos permanentes que são discutidos até hoje. Na época, seu propósito era extinguir o multiverso, matar vários personagens e reunir os sobreviventes em um universo único e simplificado. Com o correr dos anos, a ideia de multiverso voltou, já que era boa demais para ser desperdiçada, mas ela só voltaria a ser tema principal de discussão no período 2006-2008, com Crise infinita e Crise final.)

Em 1984-1985, a revista The Flash lançou Barry Allen ao século 30, em uma longa e complexa história onde ele nunca mais voltou a sua época original. Quando houve a Crise nas Infinitas Terras, Barry fez o sacrifício final para salvar as várias Terras, mas ninguém testemunhou sua morte. De acordo com George Pérez, Barry foi escolhido para mártir porque com ele havia começado a ideia do multiverso na DC, portanto também com ele se extinguia esse multiverso.

O sacrifício final de Barry Allen, salvando os universos da DC em sua última corrida.

Então, em uma reviravolta que foi bastante controversa na época e atraiu a fúria de vários fãs, não apenas Barry ficou morto definitivamente(*) (o que nunca acontece com personagem nenhum de quadrinhos, mas finalmente aconteceu com ele) como foi sucedido por Wally West, sobrinho de sua esposa. Wally já era conhecido dos leitores, porque havia sofrido o mesmo tipo de acidente de Barry (pois é, os roteiristas eram menos criativos na Era de Prata) e, durante um bom tempo, seguiu os passos de seu amado e admirado tio-afim como Kid Flash, tendo, aliás, feito parte dos Titãs e dos Novos Titãs. Com a morte de Barry, Wally passou a ser o terceiro Flash.

Kid Flash (Wally West durante a Era de Prata)

Ao fim da Crise, Wally assume o legado do tio-afim.

Wally West como o terceiro Flash, após a Crise.

[Parêntese: a série de TV The Flash, que teve vida curta em 1990, contava as aventuras de Barry Allen, cujas origem e profissão coincidiam com as de Barry Allen nos quadrinhos da Era de Prata. Entretanto, o Flash dessa série de TV tinha as características pessoais e o metabolismo de Wally West, que já era o Flash nos quadrinhos da época. Suponho que essas escolhas tenham sido feitas para aliar a popularidade de Wally ao conhecimento do público mais velho e mais leigo em relação ao único Flash que provàvelmente conheciam, que era o mais duradouro Barry Allen (ativo por trinta anos até 1986), em comparação com o então novato Wally West (ativo por apenas quatro anos até ali).]

Em 1994-1996, o título The Flash era escrito pelo brilhante Mark Waid, Autor do clássico Kingdom Come (Reino do amanhã) e um dos roteiristas que mais compreendem e respeitam seus personagens. Waid escreveu várias histórias onde reuniu os diversos supervelocistas do universo DC, e eu adoro histórias que reúnem as variações do mesmo personagem. Em particular, são excelentes e inspiradas as histórias que Waid escreveu com esse mote. Além disso, no tempo em que escreveu o Flash, Waid elevou o superpoder do personagem a algo maior do que ele, inserindo Wally em uma continuidade onde uma só força do universo era a fonte motora de todos os supervelocistas. Sùbitamente, o superpoder do Flash deixava de ser único, e revelou-se que era derivado de um campo de energia que os mortais comuns não seriam capazes de atingir: a Speed Force. Nas mãos de Waid, o Flash tornou-se uma espécie de cavaleiro Jedi da velocidade, um privilegiado que, tal como Neo em Matrix e Luke Skywalker em Star Wars, tinha acesso a compreender significados ocultos na realidade e a perceber universo, tempo e espaço com um senso zen de unicidade. A Speed Force tem o efeito de uma força que não é mágica mas tampouco é compreendida ou sequer percebida pelos humanos, sendo uma energia que permeia o universo e que sòmente os supervelocistas conseguem explorar. Saem daí algumas histórias interessantíssimas onde conseguimos enxergar o mundo em câmera lenta através dos olhos do corredor escarlate à medida em que, aos poucos, Wally descobre que seu poder de velocista traz várias utilidades colaterais, como a viagem no tempo e a possibilidade de dar “carona” em sua velocidade para outras pessoas. Além disso, o roteirista Waid tratou a memória de Barry Allen com uma reverência religiosa, criando em Wally o desejo de conhecer melhor o destino de seu tio-afim no século 30 e de ter contato com a realidade ampliada que havia alimentado Barry e que sòmente agora se fazia visível para ele.

No início de 1996, The Flash contava o arco Dead Heat, em várias partes, onde Wally se esforçava por impedir que o vilão Savitar desabilitasse todos os heróis cujo superpoder é a corrida: o próprio Wally, Jay Garrick, o jovem Impulso (Bart Allen, neto de Barry, nascido no século 30), Johnny Quick, sua filha Jesse Quick, o sábio Max Mercúrio (um velocista revitalizado por Waid, nascido no Velho Oeste, viajante do tempo e, já com uma certa idade, mentor dos outros velocistas) e alguns outros. Para vencer Savitar, Wally teve que acelerar de um modo que nunca lhe fôra exigido, entrando na correnteza do tempo e, sem controle, viajando para o século 64.

Na sequência Race Against Time!, após a vitória sobre Savitar e já no segundo semestre de 1996, Wally tenta voltar para sua época em sucessivos saltos que vão retrocedendo ao longo dos séculos. Um dos personagens que o auxiliam é John Fox, o Flash do século 27, herdeiro do manto inspirado na memória de Barry e de Wally.

Na continuidade das histórias, estou em dezembro de 1996, no ponto em que Wally consegue voltar ao século 20. Acontece que, ainda na luta contra Savitar no início do ano, Wally havia sido auxiliado por uma corredora de codinome XS (lê-se “excess”), que aliás também é uma neta de Barry Allen nascida no século 30 (e prima de Bart). Em Deat Heat, XS havia voltado no tempo, de seu século 30 para o século 20, juntamente com seus colegas da Legião dos Super-Heróis, e havia ficado presa aqui. Assim como Wally passa a usar a Speed Force para voltar do futuro para o presente (e afinal consegue), XS tenta saltar em sentido contrário, do presente para o futuro (que é o “presente dela”). No título The Flash, nas edições de 1996, a jovem heroína XS é apenas um personagem coadjuvante, e chega um momento (no primeiro capítulo de Race Against Time!, The Flash #112, abril de 1996) em que John Fox e Jay Garrick a auxiliam a dar um salto no tempo. XS desaparece, o Leitor é levado a presumir que ela tenha conseguido voltar para casa, e a história volta seu foco para o Flash, suas desventuras e seu retorno feliz.

E foi aí que, sempre tentando ler tudo na ordem de publicação original, cheguei a Legionnaires Annual #3. É aqui que os dois tópicos se tocam. Tendo lido os outros anuais de 1996, eu havia presumido que esta edição estivesse na porção de 90% da Lei de Sturgeon. Para minha gratíssima surpresa, descobri que estava enganado! A história começa mostrando o que aconteceu a XS quando, auxiliada por Fox e Garrick, consegue projetar-se à correnteza do tempo. Na sequência, ela se sente atraída por um ponto focal, sai da correnteza e descobre-se já no século 30, mas ainda muito antes do ponto aonde queria chegar. Ocorre que o ponto que a atraiu foi a construção de um dispositivo de viagem no tempo pelas mãos de… Barry Allen! Desde as histórias publicadas em 1986, não me lembro de ter visto nenhuma história nova com Barry Allen que não fosse alguma retrospectiva ou, de outro modo, alguma história ambientada na Era de Prata, quando ele era o Flash titular. Até onde sei, esta é a PRIMEIRA história onde Barry aparece ao mesmo tempo em que, para o leitor, o “Flash atual” já é Wally West. Infelizmente para XS, Barry ainda é muito jovem, não tem sequer filhos e, portanto, não a reconhece. Mesmo assim, o momento é emocionante, porque XS se vê na oportunidade de conhecer seu avô, que já era falecido quando ela nasceu. A cena poderia ter sido até pungente, eu não me importaria. Mas os dois não se conhecem, então o que fica é aquela profunda admiração e o sentimento de XS de que está diante de um ícone histórico, um dos maiores heróis de todos, em um momento solitário de introspecção — e ele é seu avô!…

Barry dá a XS o privilégio e a honra de correr com ele e então consegue servir como catapulta para ela, novamente a lançando na correnteza do tempo. Desta vez, XS vai parar no século 100, onde descobre que a Terra já não existe (é aqui o ponto em comum com os outros anuais de 1996, Legends of the Dead Earth), assim como já não existe a Legião dos Super-Heróis. No planeta Almeer-5, a humanidade é oprimida pelo vilão Nevlor, que aprisionou os poucos meta-humanos restantes. Um dos heróis presos é Avatar, que empunha a milenar Lança do Destino, a qual só pode ser levantada pelos dignos. Seu traje assemelha-se aos dos deuses de Jack Kirby, em particular ao de Thor, da Marvel, cujo martelo Mjölnir sòmente os dignos podem levantar. Outra heroína é Melissa Trask (anagrama de “Stark”, pegou?), que é uma brilhante engenheira eletrônica e criou uma armadura que voa e dispara raios das mãos (tal como a do Homem de Ferro…). O terceiro herói é Robert “Bob” Brunner (como Robert Bruce Banner, certo?), que, graças a uma transferência de energia (raios gama?), transformou-se em um megamusculoso gigante azul (e não verde, OK?). As roupas se rasgam e ele fica só de calção e arremessa homenzinhos. O último herói, dito o maior de todos do século 100, não tem superpoderes, mas chegou ali em animação suspensa para liderá-los, com seu capacete com asinhas e seu traje com uma estrela no peito (tal como, vejamos, um certo Capitão América…). Com a ajuda de XS, os heróis escapam e se reúnem em uma nova base secreta construída por Stark Trask, a Mansão dos Vingadores. Observe que as palavras “Almeer” e “Nevlor” contêm as letras de “Marvel” e (Stan) “Lee”.

Recebendo nova ajuda dessa Legião “Vingadora” do século 100, XS consegue entrar novamente na correnteza do tempo, mas, em vez de voltar para casa, vai parar no Ponto de Fuga, a base espacial dos Homens Lineares, situada estàticamente em uma dimensão paralela durante o último instante de tempo antes do fim do universo. Às vezes o Ponto de Fuga aparecia nas histórias da DC dos anos 90, inclusive na minissérie Zero hora. Ali, XS encontra o Senhor do Tempo (Time Trapper), um vilão das histórias da Legião dos Super-Heróis — que, porém, ela não conhecia, porque não houve confrontos com ele depois que ela passou a integrar a Legião. O Senhor do Tempo tem domínio das linhas de tempo, que muitas vezes manipula para alterar eventos a seu favor, mas, neste breve encontro, ele se apresenta a XS como alguém que age assim a benefício da raça humana, em contraposição aos Homens Lineares, que patrulham as linhas de tempo contra interferências e, entre outras coisas, impedem que o planeta Terra seja salvo da destruição. Sob essa óptica, o Senhor do Tempo é que é o herói! Antes que ele a envie de volta ao século 30, XS consegue testemunhar os eventos de Zero Hora sob a perspectiva dos Homens Lineares. Embora ela não entenda o que está acontecendo (pois é uma personagem criada por Mark Waid após a publicação de Zero hora), o Leitor consegue reconhecer diversas falas dos Homens Lineares, de Waverider e do Átomo, assim como a morte do Átomo, que foi um dos desdobramentos da minissérie. O roteirista nunca explicita que é o Zero Hora que estamos vendo, mas deixa a conclusão bem disponível enquanto conseguimos observar os mesmos acontecimentos sob uma perspectiva diferente.

Curiosamente, a história de Legionnaires Annual #3 não foi escrita pelo consistente e cuidadoso Mark Waid, mas por Roger Stern. É uma história tão coerente, tão bem encaixada no universo DC, tão alinhada com as histórias do Flash às quais está ligada, tão perfeitamente elegante diante das cronologias de Zero Hora e da Legião dos Super-Heróis, que você pensaria que Waid fosse o verdadeiro Autor. A obediência à continuidade e o tratamento respeitoso (e não debochado) dos heróis da Marvel mostram um vínculo afetivo aos quadrinhos que tìpicamente vemos na obra de Waid. Fica o elogio ao excelente trabalho, não só de quem escreveu como de quem desenhou (Tony Castrillo, Chuck Wojtkiewicz e Dan Jurgens, o último dos quais foi quem desenhou o trecho “Zero Hora” e fôra também o desenhista da minissérie Zero Hora original) e, especialmente, de quem editou (Ruben Díaz e K.C. Carlson, que fôra editor de Zero Hora).

(*) Sim, estou parcialmente ciente do efetivo retorno de Barry Allen após a Crise Final. Como eu disse, minha leitura está em 1996 e, neste ponto, permanece a intenção da DC de manter Barry morto definitivamente.

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Minha pseudorresenha de Man of Steel

Tal como no caso de Into Darkness (q.v. abaixo), não vou resenhar o filme do Homem Que Avoa (Agora Com a Cueca Para Dentro da Calça), porque muita gente já está fazendo isso e com mais habilidade do que eu. Vim apenas relatar alguns detalhes que me chamaram a atenção. Há spoilers, de modo que, novamente, a fonte do texto é branca. Você tem que selecionar para lê-lo.

Logo ao começo do filme, os kryptonianos golpistas são condenados à Zona Fantasma. Já tínhamos visto essa cena, embora de outro modo, em Superman II, de 1980. Naquela ocasião como nesta, a Zona Fantasma acaba servindo mais como salvação do que como punição. Pense bem: o planeta é destruído, todos os kryptonianos morrem — exceto Kal-El e os ocupantes da Zona Fantasma. Neste filme de 2013, o prêmio é ainda mais evidente, porque, assim que o planeta se acaba, cessa também o efeito da Zona Fantasma, e os criminosos estão livres! Você poderia argumentar que, com o fim de Krypton, vão-se também suas leis e toda a importância que poderia ter seu sistema penal. Seria como libertar todos os prisioneiros em um país que se revoluciona e arruína, já que não faria sentido continuar a punir alguém segundo regras que já não têm relevância ou vigência. Só que eu tenho certeza de que não foi essa a intenção dos roteiristas, assim como tenho certeza de que não faz o menor sentido privilegiar os criminosos e deixar que morra o restante da população.

Vários personagens do filme são velhos conhecidos de quem conhece os quadrinhos. Falar em Jor-El, Lara, Lois Lane e Perry White é um tanto óbvio, mas também estão presentes o robô flutuante Kelex — com bàsicamente a mesma aparência que lhe deu John Byrne –, Pete Ross, Lana Lang e até mesmo Ken Braverman, o valentão que descobriu a identidade secreta de Kal-El/Clark Kent na história A morte de Clark Kent, de 1995. Braverman é aquele moleque ruivo que desafia Clark, jogando-o ao chão em frente a uma oficina mecânica, e afinal se afasta quando vê que os adultos estão olhando.

Aliás, estudando os créditos do filme no IMDB, descubro que há alguns extras (nem sequer são personagens secundários) chamados Byrne e Sekowski. John Byrne foi o roteirista e desenhista do reboot do Super-Homem na minissérie The Man of Steel, de 1986, sucedida por um período em que foi ele o principal Autor por trás do personagem. Mike Sekowski foi o principal desenhista da Liga da Justiça nos anos 60.

No filme, o ruivo Pete Ross é um gordinho que começa provocando Clark Kent no ônibus escolar, é salvo de afogamento e, quando adulto, é gerente de uma IHOP. As IHOPs são lanchonetes sub-McDonald’s, bem fuleirinhas, onde só trabalham pessoas de pouca qualificação. Creio que a ideia fosse mostrar um emprego bem medíocre para o ex-colega de Clark. Em contraste, nos quadrinhos, Pete Ross é um bom e velho amigo de Clark Kent, não tem nada de gordinho, casa-se com Lana Lang e, bem mais tarde, chega a senador e vice-presidente dos Estados Unidos na década de 90, ao ponto de exercer a presidência.

Ainda em Smallville, Jonathan Kent foi um idiota de escolher a morte. Pense bem: independente de superpoderes, o que você tem na estrada é um jovem de dezessete anos, na flor da idade e no máximo de sua capacidade física, e um cansado agricultor que já está entrando na senectude. QUEM você envia para resgatar um cachorro preso na camioneta? QUEM teria mais possibilidades diante de um tornado? E quem teria que ficar abrigado embaixo do viaduto? Aliás, pensando bem, seria uma EXCELENTE oportunidade para se usarem os superpoderes, já que, no meio da ventania, não daria para ver que estivessem sendo usados. Mesmo que Clark não voasse nem usasse superforça, ele não seria ferido, nem ninguém perceberia que o normal seria não sobreviver. Portanto, Jonathan Kent foi um idiota que buscou a própria morte e por isso mereceu morrer.

Na minissérie Man of Steel, de Byrne, assim como na divertida série Lois & Clark, o uniforme de Super-Homem foi criado e costurado por Martha Kent, com acréscimo do S por Jonathan Kent. Neste filme, o uniforme tem origem kryptoniana, aproximando-se do retorno às origens proposto em The Adventures of Superman #455, de junho de 1989 (publicada em Super-Homem no. 85 em julho de 1991). Além disso, tal como no filme de 1978 e nos quadrinhos pós-Byrne, agora o símbolo de S já era usado pela Casa de El em Krypton. Absolutamente não há erro nem criatividade nisso; é uma questão de escolha do roteirista, que dará preferência à versão que mais combina com a história que quer contar. Pessoalmente, prefiro esta versão usada no filme, por mais que haja a incrível coincidência de que o símbolo de esperança em Krypton coincida com a letra S.

Aliás, você reparou como a insígnia de Zod lembra um pouco a foice-e-martelo usada por Kal-El na minissérie Superman: Red Son?

Neste filme de 2013, ficamos sabendo que Krypton explorou o espaço no passado, tomando conhecimento da Terra entre muitos outros planetas, e que depois optou pela reclusão. Fica evidente que os kryptonianos erraram ao abandonarem seu programa espacial e se concentrarem no próprio umbigo, já que, no fim, causaram a condenação de Krypton sem terem para onde fugir. A meu juízo, essa solução aproveita a parte dramática, melancólica e inteligente das histórias de John Byrne dos anos 80, sem seu lado ligeiramente estúpido. De acordo com Byrne na minissérie World of Krypton, de 1987-1988 (Super-Homem especial no. 1, de agosto de 1988), e com Jerry Ordway e George Pérez em Action Comics Annual #2, de 1989 (Super-Homem no. 84, de junho de 1991), foram os próprios kryptonianos quem usaram uma arma de guerra para iniciar uma reação em cadeia no núcleo de seu planeta, milênios antes do nascimento de Jor-El. A reação desenvolveu-se lenta mas contìnuamente, enquanto, na superfície, a sociedade evoluía para repudiar as guerras mas, ao mesmo tempo, hipervalorizar tradições, abrir mão de todo contato entre pessoas e estagnar, mais ou menos como a civilização de Solaria e Aurora nos livros The Naked Sun, The Robots of Dawn e Robots and Empire, de Isaac Asimov, e o planeta Vulcano, de nosso querido Sr. Spock. Com o tempo, o gradual envenenamento radioativo causou esterilidade não apenas das ideias mas também dos corpos dos kryptonianos, que já não se reproduziam quando o planeta finalmente explodiu, deixando uma amarga lição sobre o efeito de longo prazo das armas nucleares — muito pertinente naquele fim dos anos 80, quando a Guerra Fria, atingindo o clímax, entrava em sua corrida armamentista final antes de terminar para alívio de todos os terráqueos. A parte estúpida da História de Krypton veio em ACA #2, quando ficou revelado que os kryptonianos tinham um defeito genético que os impedia de deixar o planeta. Ora, em razão de tudo que já foi exposto, é muito mais coerente, trágico e didático supor que eles tenham optado por abandonar suas excursões espaciais, em lugar de dizer que haviam sido impedidos por alguma causa inerente a sua constituição. Além disso, novamente fica a mensagem do preço que se paga por se agredir irresponsàvelmente o planeta onde se vive: os kryptonianos deste filme de 2013 estão usando o núcleo de Krypton como fonte de energia e, com isso, causando a destruição de seu mundo, tal como os terráqueos humanos de 2013 fazem ao queimarem combustíveis fósseis como fonte de energia e, com isso, causarem o aquecimento global e o fim de várias espécies — inclusive sua própria. A solução correta, para eles como para nós, seria abandonar as práticas destrutivas; a paliativa, para eles como para nós, será procurar um novo e acolhedor planeta — exceto que nossa exploração espacial nem de longe está adiantada como a deles.

… Pelo menos a representação de Krypton está coerente com o cenário demonstrado nas histórias de Byrne: desolado, desértico e pontiagudo, contribuindo para isolar as pessoas umas das outras, mas sem aquele aspecto polar de espigões cristalinos contra um céu negro como se vê nos filmes de 1978 e 1980.

Um detalhe que faz TODA a diferença na mitologia do Homem de Aço: neste filme, Lois Lane descobre sòzinha que Clark Kent é o Super-Homem — e cedo! O fim do filme mostra que haverá uma convivência entre eles dali em diante, mas, diferentemente do que aconteceu nos quadrinhos durante décadas, Lois SABE o segredo de Clark, e nem foi ele quem contou.

Repare que, quando Zod discursa para o mundo exigindo a entrega de Kal-El, uma das versões do texto “you are not alone” está em português. Aqui houve um erro de tradução lá em Roliúdi: em português, no contexto em que a frase foi usada, o certo não seria “vocÊ não estÁ sòzinhO”, mas “vocÊS não estÃO sòzinhOS”. Em tempos de salas de projeção digitais, não sei se isso foi só no Brasil ou se também está assim nas exibições de Man of Steel pelo resto do mundo. Na segunda hipótese, suponho que o Brasil tenha passado a chamar a atenção do mundo com todo o petróleo, o ressurgimento da economia e os recentes e futuros eventos de esporte e visita do Papa.

Por falar em Papa, há diversas semelhanças entre Kal-El e Jesus Cristo, certamente intencionais. Este paralelo já foi enfatizado em múltiplos momentos ao longo da História da DC, com o maior e mais notável exemplo na minissérie Kingdom Come (O reino do amanhã na tradução). A noção geral é, naturalmente, a de um deus que caminha entre humanos com aparência de pessoa comum enquanto desempenha diversos milagres sem querer chamar atenção para si. No caso particular, o foco do filme e de Kingdom Come está no papel de Kal-El como salvador da humanidade. No caso do filme, Kal-El está disposto a se sacrificar para conseguir essa salvação, na mesma rendição que é o clímax do Evangelho. Para deixar isso ainda mais evidente, há uma cena onde Kal-El procura um padre numa igreja, aflito e em dúvida: se deve ou não deve assumir o sacrifício. Atrás dele, vê-se um vitral que representa Jesus Cristo no Getsêmane, na mesma passagem do Evangelho onde está em dúvida e pede para, se possível, ser dispensado da função de Cordeiro de Deus, logo antes de ser capturado pelos soldados romanos. O padre fala em esperança e, atrás dele, vê-se outro vitral, onde Jesus Cristo ressuscita. Aliás essa é a mesma justaposição que foi praticada por Kingdom Come perto do fim do capítulo 4, quando o Padre McCay prega em sua igreja com os mesmos vitrais ao fundo.

Outra semelhança entre Kal-El e Jesus Cristo é que, no filme, no momento em que é chamado a salvar a humanidade, Kal-El tem 33 anos de idade. Nos quadrinhos, o Azulão apresenta-se ao mundo antes dos trinta.

Uma terceira semelhança entre Kal-El e Jesus Cristo é o momento em que os militares estão reunidos no deserto e Kal-El desce em pé, braços abertos na posição de crucifixão, a capa esvoaçando e o Sol por trás. É uma visão bem religiosa e dramática de um ser òbviamente superior. Por sinal, Kingdom Come tem essa mesma cena, apenas um pouco diferente.

Durante a luta em Metrópolis, tenho certeza de que todos viram, enormes, as letras “LEX CORP” no caminhão trailer de combustível que é jogado em cima de Kal-El. Ele passa por cima do engate e o caminhão explode no térreo de um prédio, atrás dele. Só que, além disso, há um determinado momento anterior no filme em que Clark chega para visitar a mãe. Fica claro que ele pegou carona em um veículo que vemos acelerar ao fundo. O que algumas pessoas podem não ter visto é que esse veículo não é um ônibus, mas outro caminhão da Lexcorp. Esses dois detalhes minúsculos evidenciam que, embora Lex Luthor não esteja em pessoa neste filme, a Lexcorp é uma entidade onipresente.

A respeito do Coronel Hardy (Christopher Meloni, de Law and Order: Special Victims Unit), o filme cometeu o mesmo erro da série Space: Above and Beyond. Na série (que de outro modo é excelente e recomendo), jovens pilotos de caças espaciais têm a dupla função de atuar como infantaria móvel ao estilo de Starship Troopers. Minha maior crítica a S:AAB é justamente essa impossível dupla especialização. Ou bem se é um piloto (uma profissão que exige dedicação 24/7, inclusive quando se está em terra), ou bem se é um socador de barro (como os chamou Garibaldi em Babylon 5). As duas coisas não dá! Em Man of Steel, Hardy é responsável pelas escavações no Ártico, mas também é o encarregado da infantaria que vai receber Faora-Ul no deserto e, finalmente, é visto aos controles de um C-17… Não dá pra fazer tudo!

Na estação de trem, vemos Zod tentando matar um grupo de terráqueos assustados, que se encolhiam a um canto, enquanto Kal-El tenta impedi-lo. Ao fim, Kal-El mata Zod, para seu grande lamento. O filme não foi específico em expressar o principal valor moral de Clark Kent, que é a preservação da vida — toda e qualquer vida, inclusive a de um criminoso kryptoniano. Mesmo assim, chegou a mostrar (sem explicar) que Kal-El só matou Zod por uma razão, que era a total impossibilidade de detê-lo de outro modo. Ficou muito claro que, enquanto Kal não o matasse, Zod estaria o tempo inteiro tentando acabar com os humanos; a única forma de interromper a matança seria pôr fim ao próprio Zod: uma vida sendo interrompida para salvar bilhões. Essa é a mesma escolha difícil com que Clark se depara, e que Kal-El pratica, em Superman #22, de outubro de 1988 (Super Powers no. 17, de maio de 1990). Nos quadrinhos, foi uma experiência traumática cujos efeitos se estenderam e ramificaram por todo o universo DC por um longo tempo. No filme — veremos. Mas ele me pareceu curado depois de um mero grito de desespero e lamúria.

É claro que, morto Zod, você não ouviu vozes, suspiros aliviados nem agradecimentos dos terráqueos que estavam acuados no canto, nem os viu rodeando o Homem de Aço diante do general inerte. Ao contrário: só o que se vê é uma pequena e densa nuvem de fumaça preta, vindo justamente de onde Zod os encurralara. Alguma dúvida de que foram efetivamente torrados a despeito dos esforços do Azulão? Imagino que uma das intenções dos roteiristas, ostensiva ou mesmo subconsciente, fosse ter Kal-El punindo Zod com a pena capital em razão desse específico homicídio.

E isso era o que eu tinha para comentar. Sua vez.

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Isto não é uma resenha dOs Vingadores

Cada vez parece que tenho menos tempo, então não vou fazer uma resenha do filme dos Vingadores. Vou só fazer o que já fiz para Homem de Ferro 2 e As Aventuras de Tintim: comentar de algumas coisas em que reparei.

O filme é muito bom. Muito divertido. Vale a grana do ingresso.

Filme em 3D fica escuro.

Explosões! Efeitos! Essa parte está MUITO boa.

Aeronaves utilizadas no filme:
– helicóptero Agusta A109, provàvelmente o modelo civil mais usado em filmes de ação desde os anos 90. Não sei por quê, já que é pequeno e não muito agressivo. Pode ser (1) por causa da aerodinâmica que lhe dá uma aparência de veloz ou (2) porque é sempre a mesma locadora que os cede para filmagens;
– Quinjets da S.H.I.E.L.D.: fictícios e me lembrando os APC da excelente e saudosa Space: Above and Beyond;
– jatos de treinamento Alpha Jet, do modelo francês (não do modelo alemão), fornecidos pela Air USA (como dizem os créditos do filme) e usados em cima do Helicarrier;
– jatos de ataque Harrier, em forma de maquetes sobre e dentro do Helicarrier;
– jato de caça F-35, usado como escolta do Helicarrier;
– jato executivo da Stark Industries, fictício, o mesmo de Homem de Ferro 2, lembrando o projeto conjunto de jato executivo supersônico que a Gulfstream e a Sukhoi iniciaram e abandonaram nos anos 90.

A parte de baixo do Helicarrier lembra muito a Enterprise-E.

Como sempre, Tony Stark, maior do que o mundo, domina a cena, mesmo em presença de deuses e monstros verdes. Inclusive por causa da atuação de Downey Jr., mais uma vez perfeita, maior do que o mundo e dominando a cena. Pergunto-me se ele não faz como Shatner, que não atua, simplesmente é ele mesmo diante das câmeras.

Mark Ruffalo, o ator que faz Bruce Banner, é muito bom em representar o estado emocional de permanente controle de uma raiva que está sempre querendo emergir.

Tudo a ver com Tony Stark: o momento em que ele espeta Banner pra ver se vira monstro.

As falas de Downey/Stark são engraçadas.

Os diálogos do filme são todos previsíveis, óbvios, ralos. Mas que se dane; se eu quisesse ouvir diálogos, teria procurado algum “filme de arte” europeu. Fui ver o filme por causa dos efeitos e esses, sim, corresponderam ao ingresso que paguei.

Excelente a representação do Hulk, bem conforme os quadrinhos: uma força incontível e indiscriminante.

Engraçada a referência: “Hulk — smash.”

Participação de Stan Lee: não vou estragar para quem prefere procurá-lo. Já se você prefere que eu conte, basta selecionar o texto na linha abaixo, que escrevi com fonte branca:
Stan Lee aparece após o clímax, quando as televisões estão mostrando o povo nas ruas a comemorar a atuação dos Vingadores. É o velho que vira pra trás e diz que não acredita em super-heróis em Nova Iorque (o que é uma tremenda ironia, já que o que ele mais fez em sua carreira foi criar super-heróis em Nova Iorque).

Desta vez você não precisa ficar até o final dos créditos. Eu fiquei, não tem nada. Mas tem que ficar até acabar a parte inicial dos créditos, que tem animação.

EOF

“Eu tô aí com um projeto…”

Aí, né, tem este seriado novo da Mulher-Maravilha. Amigo meu, fã da personagem, resumiu sua crítica:

PROXIMO SERIADO A SER CANCELADO RAPIDAMENTE
A NOVA MULHER MARAVILHA É HORROROSA
O UNIFORME ( NINGUEM MAIS RESPEITA PORRA NENHUMA) É RIDICULO…LEMBRA UM DESTAQUE
DA UNIDOS DA TIJUCA…
TOMARA QUE AFUNDE…PARA ESSES BABACAS APRENDEREM…
http://www.youtube.com/watch?v=r9swHb3v0XU&feature=relmfu

Eu não podia ser mais ponderado, simplesmente porque concordava com ele. Mas acrescentei o seguinte:

Eu concordo…

A atriz não tem presença, não tem porte, não tem garbo, não tem tamanho, NÃO PARECE UMA AMAZONA, o uniforme está errado (CALÇAS? AHSIFUDÊ), …

A Lucy Lawless teria sido uma Mulher-Maravilha muito melhor.

Pelo visto, eles acham que qualquer baixinha de peito grande servia. Então que se afundem.

Mas demos também o benefício da dúvida. Smallville consta que era uma m*rda no início, mas que depois ficou boa… Não sei, não vi. Vai que a moça é boa atriz?…

De todo modo, ouvi no YouTube: “… at least it’s not Beyoncé… Enough of that Halle Berry Catwoman fiasco…”

Realmente, né. Eu não sei o que há que a DC, pra cada um que acerta, tem errado outros tantos. O filme do Superômi ficou parecendo um emo com a cueca pra fora da calça, que até Kevin-Coisa fez um Lex Luthor mais interessante do que o herói. Depois é esse tal filme do Lanterna Verde onde o intrépido piloto se comporta feito um geração-Y deslumbrado, com uma roupa brilhante que mais parece anúncio de sabão em pó para sapos. Por enquanto, só se salvou o Why-So-Serious das Trevas, e mesmo assim não foi incólume.

Enfim. Não quero ser um hater reclamão, não. Se o filme do Lanterna passar no Brasil, eu vou (parece que não vai mais passar, que a DC entendeu que não tem público Update: Esse “parece que” foi relato trazido por um colega meu que não tem Jesus no coração. Resulta que ele confessou ter mentido para mim. Ora, gato escaldado não dá crédito a versão ouvida na feira: eu só escrevi “parece que”, disclaimers apply, o Leitor tem que pesquisar sempre).

Mas é que o próprio estúdio não ajuda no discurso de fanboylagem. Por exemplo: outro dia, saiu matéria no Los Angeles Times sobre a suposta intenção da Warner de fazer um filme da Liga da Justiça.

O Globo On traduziu a matéria e a ela acrescentou alguns comentários bem típicos de fanboy:

DC Comics desafia Marvel

a Marvel corre na frente

E outra que vi por aí na Web, “DC bate de frente com a Marvel…”

Mas que infantilidade. Não há desafio nenhum, nem corrida, nem disputa. Imagina só: o bilheteiro põe o dedo na sua cara, “Escutaqui! Você só pode gostar de um! Ou Marvel ou DC! Se for pego entrando no filme da outra, vai ficar de castigo!”

Ou, então, você imagina dois trens, um da Marvel, outro da DC, numa colisão em alta velocidade, BUM, e só sai uma da poeira, e a outra fica proibida PARA SEMPRE de fazer seus filmes… Porque perdeu a disputa…

Não faz sentido! É uma disputa que não existe! Fã de um não deixa de ser fã do outro, é igual àquelas disputas idiotas de “quem é o melhor capitão de Star Trek, Kirk ou Picard” (Kirk é melhor, óbvio), ou “qual é melhor, Star Trek ou Star Wars“… É a velha visão com antolhos daqueles haters que o @Cardoso tanto comenta, que só conhecem o mundo em preto-e-branco e não admitem que se possa gostar de duas coisas diferentes; você só pode gostar de uma, uma só, e tem que ODIAR tudo mais. Fãs da Marvel e fãs da DC não poderiam encontrar-se na porta do cinema, que seria igual àquelas brigas de gangue de rua de filme americano — com as óbvias diferenças de que só poderiam brigar até a hora em que a mamãe os quisesse em casa, e que as armas seriam anéis de Lanterna Verde da caixa de sucrilhos.

Mas olha só. A reportagem é só hype mesmo, é só para agitar as águas turvas, para que gente como eu fique dando visibilidade. Porque ela mesma deixa pistas de que não há nenhum projeto de filme da Liga da Justiça. Parece ser só uma tentativa do entrevistado de roubar atenção da Marvel, que está com filme do Capetão América, do Thor e dos Vingadores saindo do forno, enquanto a DC tem só esse Lanterna verde-novato e o terceiro Voz Rouca da Escuridão bem mais para a frente.

(Em um aparte, isso me lembra muito uma sequência que o Pânico na TV! fazia: chegava para um ex-BBB numa festa, “e aí? O que você está fazendo depois que saiu do BBB?” “Ah, eu tô aí com um projeto…” “Ah, mais um que tá com um projeto… Quer dizer, não tá fazendo p*rra nenhuma, nem tem projeto nenhum… Tá legal.”)

Se duvida, preste atenção em algumas frases:

“But Robinov said a new Justice League script is in the works.” (Desnecessário enfatizar para assegurar de uma verdade se ela fosse mesmo verdade: transpareceria por si só e inevitàvelmente com o correr do tempo.)

“Also being written for Warner are scripts featuring the Flash and Wonder Woman, who could be spun off into their own movies after Justice League.” “Roteiros sendo escritos” é o mesmo que dizer “não existe nem o cheiro de um projeto ainda”. Além do mais, “could” é expressão muito vaga, e a frase mostra bem que não sabem mesmo se querem fazer algo com os personagens… Como se fizesse sentido haver um Flash ou uma Mulher-Maravilha quase como elenco de apoio em um filme cheio de astros, sem investimento próprio — logo eles, que nunca foram meros figurantes.

“Though Wonder Woman is also in the works as a television pilot for NBC produced by Warner, Robinov dismissed that as a sticking point.” Certo. Como se o estúdio estivesse mesmo disposto a ver fãs comparando, medindo e, afinal de contas, não entendendo nada se o filme não bater com a série.

“We have the third Batman, but then we’ll have to reinvent Batman…” Quer dizer: ele nem lançou o filme de 2012 (que faz parte da atual reinvenção do Batman) e já está dizendo que vai ter que reinventar o personagem de novo. Sei. Excelente maneira de dizer que o investimento atual não vai ter continuidade. Realmente é isso que gostam de ler as pessoas que vinham gostando do resultado (que, aliás, hoje são maioria).

Afinal de tudo isso, fã de DC que sou, não me preocupo não. Essa palhaçada está sendo cogitada para 2014. Até lá, muitos fracassos de bilheteria ainda podem acontecer.

EOF

Cronologia do Lanterna Verde até maio de 1994

A história do Lanterna Verde dos Lanternas Verdes é extensa e complexa. Recentemente, um colega fez-me diversas perguntas, que resolvi responder pesquisando e enviando-lhe um email. Mas por que ele tem que ser o único beneficiário? O trabalho já está pronto, então posso dividir com você, com quem googlar e comigo mesmo — já que é referência à qual eu mesmo posso querer voltar.

A cronologia abaixo é intencionalmente supersimplificada. Há farto material na Web, em saites como glcorps.dcuguide.com e todos os de quadrinhos indicados aí ao lado. A Wikipedia é suficientemente boa, e o Google vai te trazer ainda um montão de informação sobre inúmeros personagens, planetas, histórias, poderes, características… Não pretendo suplantar nada disso. Esta cronologia é só para ajudar o nobre Leitor a contextualizar as histórias que ler e que sejam ambientadas no período coberto.

De 2006 até agora, aconteceu MUITA coisa em torno do Lanterna Verde. O título ganhou enorme destaque nos EUA sob a batuta de grandes artistas (inclusive Ivan Reis, premiado por isso) e atualmente, no Brasil, com retardo de um ano, está passando de um abrangente arco (Blackest Night, A noite mais densa) para outro (Brightest Day, O dia mais claro). Não estou cobrindo nada disso, porque não li nada disso. Nem o período 1994-2005, onde também aconteceu muita coisa na vida de Hal Jordan. Neste momento estou em junho de 1994 e é só até aí que vou. Intencionalmente, estou omitindo referências a Alan Scott, zamorianas, e vilões além de Sinestro. Para manter simples.

CRONOLOGIA DO LANTERNA VERDE DA TERRA-1 (DEPOIS TERRA ÚNICA) ATÉ JUNHO DE 1994

Showcase #22 (Oct 1959) – Primeira aparição do Lanterna Verde Hal Jordan.

Green Lantern #1 (Aug 1960) – Primeira aparição dos Guardiões.

GL #6 (Jun 1961) – Primeira aparição de outro LV (Tomar-Re, do planeta Xudar).

GL #7 (Aug 1961) – Primeira aparição e origem de Sinestro: LV que usava o anel para dominar, humilhar e explorar os habitantes de seu planeta, Korugar. Julgado, perdeu o anel, foi banido para Qward e tornou-se renegado.

GL #9 (Dec 1961) – Primeira aparição do anel amarelo de Sinestro, que extrai energia dos anéis verdes.

GL #40 (Oct 1965) – A história de Krona, que investigou a origem de tudo, espalhou o Mal no universo e foi banido. Os oanos, tentando compensar o dano causado ao universo, tornaram-se os Guardiões e criaram a Tropa dos Lanternas Verdes.

GL #59 (Mar 1968) – Primeira aparição de Guy Gardner, destinado a ser substituto eventual de Hal Jordan.

GL #76 (Apr 1970) – Primeira história de Dennis O’Neil: Hal Jordan questiona a ordem sem justiça dos Guardiões.

Nas histórias de Dennis O’Neil, a parceria de LV e Arqueiro Verde inicia a Era de Bronze dos quadrinhos, questionando a ética dos super-heróis.

GL #81 (Dec 1970) – Dennis O’Neil conta como os Guardiões saíram de Maltus para Oa.

GL #87 (Jan 1972) – Guy Gardner incapacitado por acidente com ônibus. Primeira aparição de John Stewart como LV substituto eventual.

1972-1976 – Com baixas vendas, a revista GL é suspensa em 1972 mas retomada em 1976, seguindo normalmente a numeração.

GL #123 (Dec 1979) – Culminando uma linha de histórias, Guy Gardner entra em coma.

GL #151 (Apr 1982) – Hal Jordan exilado no espaço por dar atenção demais à Terra. Continua LV, cumprindo missões por um ano. John Stewart fica como LV da Terra?

GL #181 (Oct 1984) – “Take This Job — and Shove It”: Hal Jordan pede as contas. Guardiões nomeiam John Stewart o LV permanente da Terra.

John Stewart casa-se com Katma Tui (sucessora de Sinestro em Korugar e sua treinadora). Durante a Crise nas Infinitas Terras, John Stewart é o LV da Terra.

Crisis on Infinite Earths revela que, quando investigou a origem de Tudo, Krona criou o multiverso. Que os oanos ficaram divididos sobre a forma de mitigar o mal. Os mais passivos tornaram-se os Guardiões; os mais intervencionistas foram embora de Oa e tornaram-se os Controladores.

Crisis on Infinite Earths #9 (Sep 1985) + GL #195 (Dec 1985) – Guy Gardner curado e convocado pela facção brigona dos Guardiões.

GL #198 (Mar 1986) – Tomar-Re morre em combate; Hal Jordan fica com seu anel e volta a ser LV.

Millennium (Jan-Fev 1988) – Guardiões vão embora do Universo, e a Tropa fica abandonada à própria sorte. Só fica para trás um Guardião, Appa Ali Apsa, que havia perdido a imortalidade como punição por seu comportamento nas histórias de Dennis O’Neil. Em Maltus, A.A. Apsa começa a treinar Guy Gardner, que se rebela. Apsa tenta retomar o anel de Gardner, mas Jordan livra a cara dele.

Secret Origins #22 (1988) – Revelado que, antes do GLC, os Guardiões haviam criado os robôs Manhunters. Quando os MH se rebelaram, os Guardiões fundaram o GLC.

O título GL torna-se Green Lantern Corps. Arisia, Ch’p, Kilowog, Katma Tui e Salakk vêm morar na Terra.

GLC #222-223 (Mar-Apr 1988) – A Tropa decide matar Sinestro. Em reação à morte de Sinestro, a Bateria Central é destruída. A maioria dos anéis perde o poder. (Na verdade, Sinestro não morreu; sua essência foi parar dentro da Bateria.)

GLC #224 (May 1988) – Último número da série. Lanternas Verdes passam a aparecer em Action Comics Weekly.

Action Comics Weekly #601 (Jul 1988) – Safira Estrela mata Katma Tui.

ACW #635 (Jan 1989) – Última aparição do GLC em ACW.

GL: Emerald Dawn #1-6 (Dec 1989 – May 1990). Reconta a origem do LV. Reboot do personagem.

GL: Emerald Dawn II #1-6 (Apr-Sep 1991) é continuação imediata de Emerald Dawn conforme a cronologia dos personagens, contando do treinamento do novato Hal Jordan pelo experiente Sinestro. Também reconta o banimento de Sinestro, que, nesta versão, é um tirano em Korugar, mas por ser obcecado com ordem e achar que está fazendo a coisa certa.

GL #1 (Jun 1990) – Imediatamente após o reboot de GL:ED, a DC inicia novo título do LV. A história continua do ponto onde havia parado ACW.

Os oito primeiros números de GL compõem a história GL: the Road Back, onde Hal Jordan, não mais LV, está em busca de uma finalidade na vida. Enquanto isso, A.A. Apsa enlouquece e começa a sequestrar para Oa as cidades que visitou em vários planetas. Jordan, Gardner, Stewart e outros vão combatê-lo. Entre os voluntários que auxiliam os LV está Tomar-Tu de Xudar. Quando os LV estão a ponto de ser derrotados por A.A. Apsa, os Guardiões retornam (GL #8, Jan 1991).

Em GL #8, a Bateria Central é restaurada e os Guardiões distribuem tarefas:
– Guy Gardner passa a ser o LV da Terra;
– Hal Jordan vai recrutar novos membros para recompor a Tropa;
– John Stewart fica incumbido de cuidar das cidades trazidas a Oa.

Após GL #15, inicia-se a série GL: Mosaic, onde Stewart é o protagonista e que dura 18 edições. Ao fim da série, Stewart torna-se o primeiro Guardião mortal.

GL #25 (Jun 1992) – Hal Jordan retorna à Terra para reassumir a antiga função. Guy Gardner desafia-o e perde o anel na porrada.

Guy Gardner Reborn #1-3 (1992) – Gardner recruta o auxílio de Lobo e recupera o anel amarelo de Sinestro em Oa.

Guy Gardner #1 (Oct 1992) – Início da série, que foi até o #44 (Jul 1996).

Superman #80 (Aug 1993) – Coast City destruída.

GL #48-50 compõem o arco Emerald Twilight.

GL #48 (Jan 1994) – Hal tenta recriar Coast City para trabalhar seu luto, mas é convocado a Oa para ser julgado por abuso do anel.

GL #49 (Feb 1994) – Jordan matando LV diversos, tomando seus anéis.

GL #50 (Mar 1994) – Hal mata Kilowog e Sinestro, destrói Bateria Central, mata os Guardiões. O último Guardião deixa anel para Kyle Rayner.

GL #51 (May 1994) – Primeira história onde Rayner é o novo LV.

Darkstars #21 (Jun 1994) – Com o fim do GLC, Stewart torna-se um Darkstar. Os Darkstars foram criados pelos Controladores.

A SEGUIR: ZERO HORA!

Minha resenha sobre os primeiros números de GL desde 1959 estava publicada no falecido Geocities e não fiz nenhum esforço para preservá-la. Algumas almas caridosas, porém, fizeram. Várias páginas estão recuperadas nos domínios http://www.reocities.com e http://www.geocities.ws, inclusive esta, que é minha: http://www.geocities.ws/jpcursino/ScPGLv1.htm

EOF

“Quando uma mente se expande, nunca mais volta ao tamanho original.”

Estava eu ontem conversando com uma amiga no almoço, contando-lhe de como assisti a Cosmos na infância. Para você que nasceu atrasado, Cosmos foi uma série em treze capítulos, escrita e apresentada pelo brilhante Astrônomo Carl Sagan, baseada no livro de mesmos nome e Autor. Foi exibida no Brasil na mesma época em que passou nos EUA: início dos anos 80. O assunto eram as maravilhas do mundo da Ciência, e Sagan procurava divulgar a beleza e o senso de descoberta e de admiração que a gente sente quando começa a estudar as ciências naturais e a Matemática. Havia capítulos sobre a biblioteca de Alexandria, sobre como Eratóstenes raciocinou que a Terra devia ser redonda e até calculou seu raio com precisão melhor do que 1%, sobre o disco da Voyager, sobre o googol (não o saite, o número)… Tudo de forma muito didática.

Graças a Cosmos, muitas crianças brasileiras e americanas passaram a se interessar por Ciência, foram tornar-se pesquisadores, biólogos, matemáticos, físicos, nerds. Os depoimentos abundam na Web. Ainda hoje muitos têm saudade, pouca coisa semelhante foi feita desde então, nada que superasse a original. Há quem suspire por uma versão atualizada, mas acho que não precisa (embora o próprio Sagan, pouco antes de morrer em 1996, tenha feito uma versão com adendos onde ràpidamente comenta os desenvolvimentos dos quinze anos anteriores, confirmando ou negando previsões).

Cosmos retratava muito bem a visão do ateu Sagan, na qual não é necessário um deus criador para que o universo exista, tenha seu próprio valor em si mesmo e seja muito mais mind-bogglingly overwhelming do que a mente humana possa alcançar. Sagan, o humanista, também dispensava um deus justiceiro como paradigma ético necessário para você se preocupar com o planeta e com seu semelhante e para ser gentil durante sua curta passagem pela Terra; haja vista o texto que acompanha esta foto: http://www.skyimagelab.com/pale-blue-dot.html. Sagan, o especialista em climas de outros planetas, mostrava que, mesmo sem “vida após a morte”, já estamos em sintonia com o universo na medida em que nossos corpos são feitos de poeira de estrelas (porque os átomos de nossos corpos se originaram na fornalha de um núcleo estelar) e se perpetuarão na eterna e cíclica conservação da matéria. Sagan, o filósofo, mostrava como a vida é preciosa, como é um bem tão improvável no universo que deve ser valorizada e preservada acima de tudo. Foi um dos grandes ativistas contra a corrida armamentista da Guerra Fria, alertando-nos sobre o risco de um inverno nuclear.

Em 1983, Cosmos foi exibida pela primeira vez no Brasil, nas manhãs de domingo da Rede Globo. Eu não queria perder um episódio, com sua inspirada trilha sonora de Vangelis imperturbada pelo silêncio matinal enquanto o sol entrava pela janela. Mas, em 1983, toda a minha turma faria primeira comunhão no colégio religioso. Como parte da preparação, teríamos que ir a tantas (sei lá quantas, umas vinte) missas dominicais ao longo do ano. Até que fui a várias. Mas o problema é que a missa era no mesmo horário de Cosmos. Aí eu tive um problema. As duas prioridades se chocavam em minha mente e o melhor compromisso a que pude chegar foi alternar domingos: num eu via Cosmos, no outro ouvia as histórias do deus misericordioso que podia enviar a todos para o Inferno se pensassem por conta própria ou vissem a vizinha tirar a roupa na janela.

Na época eu não percebi, nem por muito tempo depois, mas você observa agora o quanto esse embate era simbólico? Eu não sabia, mas, nas convoluções de meu cérebro pueril, havia uma decisiva batalha campal pelo domínio de minhas crenças. Duas trilhas, dois caminhos a seguir na vida, disputavam minha atenção: uma, mediante o senso de dever imposto por Dom Plácido (que até que era gente fina, mas, em retrospecto, tão fundamentalista quanto se poderia esperar de um monge dando catecismo à terceira série primária). A outra, através da paixão que me despertava pelo mundo do deslumbramento, do método científico, da exploração cética exercida pelas mentes curiosas. Absolutamente incompatíveis! Era uma briga de pólos radicalmente opostos! (Acho que essa última frase teve não um, mas dois pleonasmos; conte aí.)

Naquele ano, não fiz primeira comunhão com minha turma.

Mas naquele ano fui encaminhado, firme e inevitàvelmente, a percorrer o mundo com o olhar não do místico apavorado, mas do cético maravilhado, do cientista apaixonado.

O obscurantismo lutou bravamente, ainda fiz primeira comunhão no ano seguinte e fui crismado alguns anos depois. Mas, no final das contas, o relógio do relojoeiro cego já estava em movimento e não podia mais parar. Hoje minha dúvida é só quanto ao rótulo adequado.

EOF

DC annotations, January 1994

Superman: the Man of Steel #29 (Jan 1994), page 15 (as translated in Brazil in Super-Homem no. 128), panel 1, shows a lighted panel with the name “Mignola” on it. This is certainly a reference to penciller Mike Mignola, who had worked on Superman before.

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Another collection of boring annotations

Again, these are my annotations on some comics I have read in the not too distant past, aiming mostly at myself and googlers. But you are welcome to enjoy them.

In items 1 through 6, the page numbers refer to the Superman: Krisis of the Krimson Kryptonite trade paperback.

1. Superman #49 (Nov 1990)
Page 9, panel 4: of course, “J.L. Byrne” is penciller and writer John Lindley Byrne, the artist who has had the most influence on Superman since 1986.
Page 10, panel 1: “alter-ego booster” is certainly a reference to Superman being Clark Kent in disguise.

2. Starman #28 (Nov 1990)
Page 60, panel 5: “Hanna” refers to inker Scott Hanna.
Page 61, panel 2: Time magazine has Batman on the cover. Of course, DC belongs to the Time-Warner group.
Page 61, panel 3, shows a cover from National Periodicals — DC’s old name.

3. Action Comics #659 (Nov 1990)
Page 78, panel 1: the kid on the left is wearing a Hulk T-shirt. This is a possible reference to both writer Roger Stern and penciller Bob McLeod’s previous work on The Incredible Hulk.

4. Superman #50 (Dec 1990)
Page 102, panel 2: “don’t let your current situation color the decision” probably refers to the red kryptonite.
Page 102, panel 5: “Dennis” is artist Dennis Janke.
Page 103, panel 2: “not so windy these past few days” because Superman is powerless, so he has not made the newspapers fly around as usual.
Page 106, panel 4, and page 107, panel 6: Kevin Dooley, editor.
Page 108, panels 2-5: nice, realistic dialogues. My favourite in this edition.
Page 112, panel 1: note an elongated Mr Fantastic, the Thing conveniently hiding his appearance under the pink fluid, and the Human Torch’s flames in the air. The Invisible Woman is nowhere to be seen…
Page 112, panel 2, refers to “fantastic new friends”.
Page 121, panel 1. Emphasis is put on the number of friends: four.
Page 121, panels 2-3 refer to the Impossible Man, an annoying but harmless foe (sort of) of the Fantastic Four.
Page 121, panel 4. The Fantastic Couple wears blue (clearly the right-hand one is a woman), and we can also see the Human Torch’s wake and the Thing, still under the pink slush.
Page 123, panels 1-3. After the 70s, villains are not in black & white. You come to understand that Luthor is a human being also, with virtues, and you come to understand some of his side, the life history that leads him to act as he does, his motivations. You see his reasons, which make all sense in his point of view — he is not necessarily “wrong”, and there is no wrong. Furthermore, Luthor’s dignity and reputation are unmarred by these revelations, since they are made by another person while he is unconscious, and, at that, by a maternal woman who cares for him, who understands him, and who has compassion for him.
Page 127, panel 2. Clark Kent’s novel has been published by Warner Books.

5. The Adventures of Superman #473 (Dec 1990)
Page 131. You can see an Elvis impersonator in the background.
Page 133, panels 4-6. This, added to Superman #49, page 10, panel 1 (see above), leads me to wonder. Has Lois already found out about Superman’s secret identity? After Action Comics #662 (where he reveals it to her), I have not read the followup Superman #53, so I would not know whether there Lois admits to having deducted it a while before. If she has by now, then Superman #49, page 10, panel 1, amounts to her teasing him, whilst this here instance in Adventures #473 is her way of allowing him the dignity of keeping the secret while unprepared to reveal it and saving face at the same time. Will have to check.
Page 140, panels 2 and 4; page 141, panels 1-2; page 142, panels 2-3; and page 143, panel 1: the USAF has never operated F-14s, none has ever been operated in Wyoming, F-14s have never been painted in camouflage, and the camouflage does not match any USAF standard, though these are accurate depictions of F-14s.
Page 143, panel 6, is a refreshing attempt at humour where the comics do not take themselves too seriously.

6. Action Comics #660 (Dec 1990)
Page 158, panel 2, provides for an interesting comparison between the customs of 1990 and those of 2010. Twenty years ago, no one who had their wits about them would think of bringing a mobile phone to a date. It was impolite to others and a bulky nuisance to self. Twenty years later, no one thinks of not bringing the mobile wherever. Reading this page in 2010, it is a stark contrast that, though I had thought that so little had changed, some things can already be traced as markedly different. Readers’ assumptions are clearly supposed to be significantly different in this respect between the two decades.
In another note, panel 2 goes to show how much of a workaholic Lois is, going to the extreme of bringing her mobile along on a date.
Page 158, panel 3. Look at the size of this gadget! Those are batteries for you!

7. Doom Patrol #47 (Sep 1991)
As published in Doom Patrol volume 4, page 159, panel 2, reads “DP inker – new dad!”, which should lead me to assume that inker Mark McKenna (who probably filled those headlines) had just become a father. Likewise panel 4 reads “Congrats”.

8. Detective Comics #659 (May 1993)
As published in Brazil in Liga da Justiça e Batman no. 8, page 8, panel 1: “Simpson Flanders” seems to be an obvious joke on the Simpsons’ neighbour Ned Flanders. Dr Flanders appears again in Robin #1 (Nov 1993).

9. Flash #76 (May 1993)
As published in Flash: the Return of Barry Allen, page 60, panel 4, refers to a certain Broome Building. John Broome was the Flash’s main penciller during the Silver Age.

10. Justice League America #80-83 (Sep-Dec 1993)
Evidently, the two alien fugitives’ names, Blake and Corbett, are references to those old scifi TV series, Blakes 7 and Tom Corbett, Space Cadet.

11. Action Comics #692 (Oct 1993)
As published in Brazil in Super-Homem no. 126, page 47, panel 3, the oldest reference on Doctor Occult is a passage from the Daily Planet dated 1935. I take this as an homage to DC’s oldest character, Doctor Occult, who first appeared in New Fun Comics #6, October 1935, thus predating even Superman (whose Action Comics #1 is from June 1938).

12. Superman: the Man of Steel #28 (Dec 1993)
Conforme publicada em Super-Homem no. 127, página 3, quadro 1, e página 25, quadro 1: “Jotapê” é Jotapê Martins, da equipe de tradutores do Estúdio Art & Comics, que fazia a tradução dos títulos da DC em 1995.
As published in Brazil in Super-Homem no. 127, page 8, panel 2, the pizza carton from “Titano’s” is a reference to Titano, the giant monkey from Superman Annual # 1 (1987).

13. Batman #502 (Dec 1993)
As published in Brazil in Batman no. 5, page 44, panel 4, Mad magazine appears on a rack, presumably with Alfred E. Neuman on the cover (obviously). Mad is published in the US by DC Comics.

14. The Adventures of Superman #507 (Dec 1993)
Conforme publicada em Super-Homem no. 128, página 3, quadro 2: novamente, “Jotapê” é Jotapê Martins.
Página 7, quadro 1, contém uma referência a Superboy no. 2 dando a entender que conta a história da morte de Adam Grant. Entretanto, a última edição antes de Adventures #507 é Superman #84 (Dec 1993), que saiu em Super-Homem no. 127 e que é a que mostra essa morte. A história que saiu em Superboy no. 2 (junto com outras que não vêm ao caso) é a de Superman #85 (Jan 1994), que, na verdade, é posterior a Adventures #507 e lida com as consequências imediatas do evento, mas não é onde ocorre o próprio.

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Swamp Thing annotations to Greg Plantamura

Agora há pouco, enviei este texto ao Greg Plantamura. Estou dividindo com potenciais googladores. Não é necessariamente com você.

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Hello. I keep on perusing your Swamp Thing pages. Quite a job, may I insist.

Earlier today I was reading New Titans from 1993. There is a sequel to Swamp Thing #60 there!!!

Cyborg went catatonic some ten or twelve issues before New Titans #103 (Nov 1993), losing his memory and, in fact, all ability at communicating. In this issue, he is at the S.T.A.R. Labs, where Team Titans’ Prester Jon is attempting to interface with his inner circuits. Late in this issue, the cause of tampering is found to be a group of aliens who are the avatars of beings from a machine planet.

In New Titans #104 (Early Dec ’93), the Titans are brought to the aliens’ planet — lo and behold, that’s the machine planet from “Loving the Alien” (Swamp Thing #60). It transpires that Swampy’s visit, years before, brought the planet out of a stagnation state. Some of its “life” forms learned then of new ways and became curious about this “life”. As a consequence, they left their cradle and went out into the stars, seeking understanding, which ultimately led to Cyborg being hacked. I am still at this point in my reading, so I do not know where this leads, but there you have it.

In NT #104, Marv Wolfman attempts to describe the machines’ world in much the same way as Alan Moore had, but fails. Just as in ST #60, panels are disjointed from one another, and the text floats in off-narration with sentences that are not to be much understood. Anyway it lacks Moore’s spark (which, it is my feeling, was also missing from the original #60, which was very poor in my own POV — still, that was Moore, for better or for worse).

In fact, NT #104 has a two-page spread panel where the Titans arrive at a gate to the machine planet’s core. It pretty much imitates Spock’s venture into V’Ger in Star Trek: the Motion Picture — and, instead of a fixed, aloof Ilia figure, what do we have? Four Swamp Thing figures, which I believe correspond precisely enough with the Green’s four avatars selected by the Parliament of Trees for the Regenesis/Spontaneous Generation storyline — you know, Ghost Hiding In the Rushes, Kettle-hole Devil and their likes.

In my opinion, NT #104 sucks. Still, I think it a worthy reference and one you might like to purchase from online second-hand retailers such as Mile High Comics, My Comic Shop etc. etc. so you can check it for yourself. And you will have the benefit of checking the original, for I have so far only had access to Brazilian translations, which leave out some of the text.


On another note, I made a mistake years ago when I wrote to you on Swamp Thing #70. You wrote up an annotation and credited it to me (thank you), but in fact I should have referred to issue #71, and so should you. Please check! The annotation is part of the issue #70 annotations and goes like this:
“PAGES 22-23:3 João Paulo Cursino pointed out to me that the sound effects “SHLOEL BSSTTE TTLBN” sound like the artists names Bissette and Totleben. But who is Shloel?”
… except I should have referred to issue #71, where those pages were printed.


On a third note, please check Swamp Thing #34, included in the beautiful storyline of volume 2. Page 20 (to be sure: I refer to the page with text “With me.”, “With him.”, “…”) — does page 20 not depict a woman’s vulva, very clearly in front of you? You can clearly distinguish the labia, the clitoris, there’s even a lot of hair around it. I think this was the intent there. It is a beautiful piece of art by Bissette and Totleben, who managed to disguise it from moralists by making it look like a piece of plant. The things those guys managed to get away with, the madness of Moore, the best hiding of things in plain sight…

Another vulva, I think, can be found in issue #70 (“The Secret Life of Plants”), in page 17 (the one where Abby lies down on some orchids), albeit in a more symbolic sense. Please take note of the orchid’s shape.


And issue #65, page 14, panel 5 — Take note of a tire at the bottom right corner. Is the brand not “Alcalá”? :-)


Issue #66, page 2 — “Len and Berni were here 1972”. Indeed. Len Wein and Berni Wrightson created S.T. in 1972. Apparently they did so as they sat in Arkham Asylum. That explains it. :-)

Would you please check these and add them to your notes?

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Cliff’s Notes para Os Sertões

Euclides da Cunha foi aquele escritor celebrizado pelo episódio global em que foi corneado pelo cineasta Guilherme Fontes. Seu grandiloquente relato Os sertões é considerado uma das grandes e clássicas obras da literatura brasileira. Infelizmente, também é considerado um livro intragável, porque, além de longuíssimo, usa de um vocabulário mais rebuscado que igreja barroca.

Mas, agora, seus problemas acabaram! O Sr Atoz, em um serviço de utilidade pública, oferece abaixo um resumo de Os sertões em apenas um parágrafo! A saber:

Multidão de fudidos vai morar numa enorme favela no sertão da Bahia para seguir as profecias de um lunático que diz que o fim do mundo está próximo. O Exército cerca a área e sobra pipoco pra todo o mundo. Fim.

Não sei por que ainda ficam botando dificuldade naquilo que é simples.

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Os superpoderes de Sniper Serra

Sei que não fica bem kibar o belogue dos outros. Mas é que esta aqui do Sniper Serra é tão boa, mas tão boa, que tenho que passar adiante assim.

Kibado do Sniperserra

Porque é muito nerd! O primeiro que vier aqui na caixa de comentários e acertar a ligação entre as figuras e a frase no final ganha um prêmio!

E tem esta aqui também, que já me convenceu da Jovemnerdice de Sniper Serra. Vou ter que adicioná-lo a meus feeds!

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Sobre a experiência de ir assistir a Homem de Ferro 2

Não vou falar sobre o filme. Não precisa. É muito bom, etc. Armaduras que voam, muitas metralhadoras, projéteis perfurantes e explosivos. Pode ler tranquilo, não vou revelar detalhes que estraguem surpresas pra ninguém.

Vou falar sobre como foi ir ao cinema desta vez.

Quando você compra ingresso para o Kinoplex, você escolhe o lugar com antecedência. Fui à Internet na última sexta-feira à noite e me pus a escolher no Shopping Tijuca, sala 6. Como tenho feito desde 2006 (ou antes, não estou certo), preocupei-me em ficar o mais colimado possível com o centro da tela. Infelizmente, a representação da sala no computador é apenas esquemática, de modo que não se pode ter certeza de nada. Medindo com régua, o meião da sala ao longo da horizontal eram os assentos 14 e 15, mas e na vertical? A única certeza que eu tinha era que a fileira bem no meio não correspondia ao meio da altura da tela. Meio no chute, imaginei que a fileira ideal fosse um pouco acima da metade, entre M e Q. Alguns assentos na periferia da sala estavam ocupados, mas a maioria não. Aí, observei que O14 e 15 também estavam ocupados. Mas que incrível coincidência: dois dias antes da sessão, alguém comprara ingressos bem no meio da horizontal e na zona que parecia ser o meio da vertical. Deduzi que os ocupantes deviam ser cinéfilos profissionais que sabiam o que estavam fazendo.

Como dizia o Chapolim Colorado, “sigam-me os bons”, então fui na aba dos connoîsseurs, escolhendo a segunda-melhor fileira, que seria a P. E fiz uma nota mental de manifestar minha apreciação pela nerdice ao encontrar a figura sentada à minha frente.

Aaah, tá, vou falar do filme. Mas só um pouquinho, tá?

Bem no comecinho, você descobre que o vilão é um klingon. Se souber por quê, por favor, diga aqui nos comentários que, se acertar, eu prometo que ganha um prêmio. (Não vou pensar em qual. Um problema de cada vez.)

O laboratório de Tony Stark continua tendo um telão com o noticiário. Tal como no primeiro filme, onde fizeram product placement esperto da Dell, desta vez as beneficiadas foram a LG, a Kodak, a Oracle (mencionada explicitamente pelo menos duas outras vezes), a Sega (que, suponho, deve ter lançado o VG do filme) e a Audi — que também ganha um painelzão de vários metros de altura e, claro, é a marca que Stark dirige. Kodak aparece novamente em velhos rolos de filme. Quando fores assistir, faz favor, vê se deixei algum nome de fora.

Na primeira cena com Scarlett Johansson, Tony Stark está treinando com Happy Hogan e a chama para subir aonde ele está. Segue-se uma tomada em close do rosto da moça. Tão em close que dá para ver as espinhas por baixo da maquiagem. Photoshop FAIL.

Vamos às aeronaves. As deste filme não fugiram ao padrão do anterior, mas são menos numerosas. Aparecem um C-17 no começo e B-1, B-2, C-17, F-16 e F-22 na base aérea de Edwards. Os F-16 têm o esperado código de cauda ED, assim como o traje do Máquina de Guerra, que, pelo que eu tenha reparado, não é mencionado pelo nome. O esquadrão VX-25 identifica uma das armaduras, mas, pelo que pesquisei, não existe. Novamente, o jato executivo de Stark não é nenhum que exista, mas me parece um projeto que a Sukhoi desenvolveu por um tempo nos anos 90, parecido com uma versão espichada do turboélice Piaggio Avanti.

Aqui cabe um comentário sobre a tradução que legendou o filme. Quando Rhodes pergunta a Stark se o equipamento é “supposed to smoke”, a tradução correta é perguntar se era para estar saindo fumaça — e não se era “para fumar”, como se o paládio do peito de Stark fosse uma caixa de charutos. No finalzinho do filme, “stable-ish” não é “estável”, mas “quase estável”. Isso foi o em que reparei. Estava muito concentrado no filme para observar legendas, mas essas me chamaram a atenção.

Naturalmente, em um filme desses ninguém espera que se vá respeitar completamente o fundamento científico. Nem teria graça, òbviamente. Por isso, vou observar só um detalhe impussívi, que é o seguinte. É verdade que a raça humana tem a capacidade prometeica de sintetizar novos elementos químicos: todos os que vêm depois de 92 na tabela periódica são prova disso. Também é verdade que o jeito de fazê-lo é usar um acelerador de partículas para jogar núcleos atômicos um contra o outro. Só que o que não é verdade é que um tal acelerador caiba em um laboratório doméstico — na vida real, estaria mais para o LHD (se bem que esse também é um monstro de exagero). Menos ainda o método seria jogar um raio pra cima de uma pecinha triangular presa em um torno e menos ainda se esperaria que, miraculosamente, a pecinha deixasse de ser feita de seu material (whatever seja) para passar a estar constituída do tal novo elemento químico. Aliás, quanto mais novo o tal elemento, mais fuderoso tem que ser o acelerador, e o do filme é uma piada. Por fim, na vida real a primeira coisa seria jogar a pecinha num espectrômetro de massa para se ver do que é feita e se realmente se trata do tal novo elemento, sem achismos. Afinal, método científico é isso. A tentativa poderia ter dado errado; tem que submeter a testes pra saber. E não “congratulations, sir, acabou de criar um novo elemento”, como se Ciência se construísse no improviso, por mais prodigioso que seja o intelecto starkiano. Mas relevemos. Adiante.

Agora, existe uma inconsistência em que tenho reparado em todos os filmes que envolvem computadores-que-controlam-coisas e personagens-que-sabem-driblar-criptografia-e-invadir-sistemas-alheios. Já faz 25 anos que estamos usando Windows, em uma ou outra encarnação. Mesmo assim, você já notou que, nesses filmes, os especialistas em segurança de informação NUNCA usam o mouse? Aliás, as máquinas nem têm o ratinho! É tudo feito via linha de comando, desde o tempo de Tron e Jogos de Guerra. A impressão que dá é que todo o mundo, do Pentágono às Indústrias Stark, passando pela Batcaverna e pelos alienígenas de ID4, todo o mundo ainda está rodando alguma interface de UNIX ou MS/DOS, a mais primitiva que conseguir!

(Suponho que seja mais dramático assim. Afinal, você sempre escuta o bater frenético dos dedos sobre as teclas, bastante aumentado em relação à vida real, enquanto o foco normalmente está no rosto do ator. Já com o mouse, você teria que acompanhar o ponteiro na tela, e os cliques seriam poucos e silenciosos, quebrando o ritmo e alienando os alienados que não usam computador — e que talvez ainda sejam maioria, apesar dos esforços de Bill e Steve.)

Mais uma vez, a trilha sonora encaixou direitinho. São oportunas Another One Bites the Dust, do Queen, e todas as inserções de metal pesado, tal como as do primeiro filme. Uma faixa que me surpreendeu — por não ser exatamente um exemplo de popularidade — foi Pick Up the Pieces, pràticamente igual à versão do disco A Hot Night in Paris, da Phil Collins Big Band, de 1999. É a musiquinha instrumental que aparece na cena em que o personagem Justin Hammer faz uma dancinha em cima de um palco.

Antes de eu passar à cena final, chamo sua atenção para a indefectível participação de Stan Lee. Bem que eu estava achando que o Larry King não fosse tão magro.

Mas vamos à tão esperada cena final. Esperada, certo? Claro! Porque, depois que as letrinhas subiram no primeiro filme do Homem de Ferro, todos vimos a verdadeira última cena, com Nick Fury na mansão de um perplexo Tony Stark, sem dizer como conseguiu entrar e começando um discurso sobre a Avenger Initiative.*

O quê??? Você é um daqueles trouxas que se levantam quando as letrinhas começam? Você perdeu a cena mais maneira do primeiro filme? Ah, mas não vai dar esse mole de novo, né. Afinal, você teve dois anos para saber o que havia perdido, e até alugou o DVD para conferir. Ou também é daqueles que dão stop assim que começam as letrinhas no DVD?

Pois é. Desta vez aconteceu de novo. As luzes nem se haviam acendido e já tinha mogalera fugindo do cinema, parece até que tem formiga na cadeira. É fobia, só pode ser! Não sei o que é tão repulsivo, mas a impressão que dá é que o cinema vai irromper em chamas se não estiverem todos do lado de fora quando acabar o rol dos atores.

Mas tenho a impressão de que havia muitos gatos escaldados também, porque um número incomum de nerds ficou sentadinho esperando subir todas as letrinhas. E olha que tem letrinha pra caramba! Passaram os nomes de todos os pintores, gesseiros, jardineiros (não estou brincando, pode conferir) e, básico, aquele mundão de gente que trabalhou nos CGI do filme, que é o que mais toma os créditos hoje em dia.

Antes do fim dos créditos, rolaram agradecimentos a John Byrne, Romita Jr., Romita Sr. e — desculpe, esqueci quem era o outro quadrinhista. Provàvelmente pelas diversas ideias que foram sendo usadas ao longo do filme.

E afinal não nos decepcionaram. Veio a última cena e foi bem legal. É óbvio que não vou contar nada dela, mas os conhecedores de Marvel (ainda que beeeeem superficiais) vão reconhecer. É fugaz, somente um segundo de filme ou dois, os últimos antes do escurecimento definitivo. E me faz pensar… Não vi o segundo filme recente do Hulk (não se preocupe, a cena não tem nada a ver com ele; eu disse que não ia contar o que era e mantenho a palavra); mas algo me diz que tenho que alugar o DVD, nem que seja só pela eventual cena pós-créditos, que nem sei se tem. Só pelo gosto, porque nem há um quebra-cabeças a ser montado. Sabemos no que vão dar essas ceninhas, temos lido.

Ah, sim, o cinéfilo do assento O15 mostrou que tinha escolhido O de otário. Foi embora assim que os créditos começaram a subir. Como disse minha companhia, não era especialista coisa nenhuma: deve ter escolhido o assento porque a mulher dele se chama Olga e 15 foi o dia em que ele se casou.

* Não sei traduzir isso. Iniciativa dos Vingadores? Iniciativa Vingadora? Iniciativa Vingadores? Leitores de Marvel, sugiram.

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Some more comics annotations

All information here is garnered from the Brazilian translations of these issues, which were published in Superalmanaque DC no. 2 (June 1991). They are listed here in the order in which they appear there, which is the order in which they are supposed to be read as part of the Janus Directive storyline.

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Checkmate! #16 (May 1989) — pencils by Rick Hoberg

In page 3, panel 6, a helicopter attack is represented on Project Atom which is the exact selfsame attack depicted in Suicide Squad #27 — an issue immediately preceding this one here. In Checkmate! #16, the helicopter can be identified as a twin-engine Bell AH-1 Cobra. Curiously, in SS #27, the helicopter was no current type, instead being some generic design contrived by the penciller. I would suggest they coordinate somewhat better if they wanted to appear so ingenious in showing continuity.

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Checkmate! #17 (Jun 1989) — pencils by Steve Erwin

In pages 4 and 5, the helicopters are respectively a long-cabin Bell 206 and a Bell 212. If I could venture a guess, I would say that the penciller was resorting to some Bell calendar to draw his pictures from.

Page 9, panel 3; page 14, panels 4 and 7 — The spaceship is Starblade, directly from the pages of Spacecraft 2000-2100 AD, by Stewart Cowley.

Page 16, panels 3 and 4 — The helicopter is a Hughes 269 (TH-55 Osage).

Page 19, panel 5; page 20, panel 3; page 23, panel 3; page 24, panel 1 — The helicopter appears to be an Aérospatiale AS 365, even though its first appearance gives it the front of an SA 360.

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Suicide Squad #29 (1989) — pencils by John K. Snyder III

Page 16, panel 1 — The Starblade features prominently at a picture that is a near-replica of the original from Spacecraft 2000-2100 AD.

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Checkmate! #18 (Jun 1989) — pencils by Steve Erwin

Throughout this issue, the USAF fighters are clearly those seen in An Illustrated Guide to Future Fighters and Combat Aircraft, by Bill Gunston, as the British Aerospace P.1214-3. The Brazilian edition of Gunston’s work (Aviões do futuro) has them on volume II, page 43. In Checkmate! #18, the same picture can be seen on page 17, with the major difference that the single, fuselage-mounted engine has been replaced by four engines under the wings. Other depictions are seen on pages 1, 12, 18 and 19.

Likewise, the Starblade is featured throughout, notably on pages 14, 15, 18, 19 and 20.

Page 21 — The landing on the Starblade’s cargo bay was unlikely enough, to say the least. Now they compound it with a charge very much resembling one of those from the silly G.I. Joe cartoon, which, to be sure, was contemporary to this issue.

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Suicide Squad #30 (1989) — pencils by John K. Snyder

Page 19, panel 2 — Starblade again.

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Mais anotações a quadrinhos

Toda a informação aqui foi apanhada das traduções brasileiras destas edições, que foram publicadas em Superalmanaque DC no. 2 (junho de 1991). Elas estão listadas aqui na ordem em que aparecem lá, que é a mesma ordem em que devem ser lidas como parte do arco Conspiração Janus.

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Xeque-mate #16 (maio de 1989)– desenhos de Rick Hoberg

A página 3, quadro 6, representa um ataque de helicóptero ao Projeto Átomo que é o mesmo e exato ataque mostrado em Esquadrão Suicida #27 — uma edição imediatamente precedendo esta aqui. Em Xeque-mate #16, pode-se identificar o helicóptero como um Bell AH-1 Cobra bimotor. Curiosamente, em ES #27, o helicóptero não era qualquer tipo atual, sendo, em vez disso, de algum formato genérico imaginado pelo desenhista. Eu sugeriria que eles se coordenassem um pouco melhor se quisessem parecer tão engenhosos em mostrar continuidade.

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Xeque-mate #17 (junho de 1989) — desenhos de Steve Erwin

Nas páginas 4 e 5, os helicópteros são, respectivamente, um Bell 206 de cabine longa e um Bell 212. Se eu pudesse arriscar um palpite, diria que o desenhista estivesse recorrendo a algum calendário da Bell de onde tirar suas figuras.

Página 9, quadro 3; página 14, quadros 4 e 7 — A nave espacial é a Starblade, diretamente das páginas do clássico Naves espaciais 2000 a 2100, por Stewart Cowley, livro tão fácil de se encontrar nos sebos do Rio de Janeiro e, até há uns anos, na promoção dos encalhes da Sodiler.

Página 16, quadros 3 e 4 — O helicóptero é um Hughes 269 (TH-55 Osage).

Página 19, quadro 5; página 20, quadro 3; página 23, quadro 3; página 24, quadro 1 — O helicóptero parece ser um Aérospatiale AS 365, apesar de sua primeira aparição lhe dar a frente de um SA 360.

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Esquadrão Suicida #29 (1989) — desenhos de John K. Snyder III

Página 16, quadro 1 — A Starblade aparece com destaque em uma figura que é quase uma réplica da original de Naves espaciais 2000 a 2100.

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Xeque-mate #18 (Jun 1989) — desenhos de Steve Erwin

Por toda esta edição, os caças são claramente aqueles vistos em Aviões do futuro, de Bill Gunston, no volume II, página 43, como o British Aerospace P.1214-3. Em Xeque-mate #18, pode-se ver a mesma figura na página 17, com a grande diferença de que o motor único, montado na fuselagem, foi substituído por quatro motores sob as asas. Outras representações são vistas nas páginas 1, 12, 18 e 19.

De forma semelhante, a Starblade aparece ao longo da edição, notavelmente nas páginas 14, 15, 18, 19 e 20.

Página 21 — O pouso no compartimento de carga da Starblade era improvável o bastante, para se dizer o mínimo. Agora, eles o compõem com uma carga que em muito se assemelha a uma daquelas dos infantis desenhos animados dos Comandos em Ação, que, note-se, eram contemporâneos desta edição.

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Esquadrão Suicida #30 (1989) — desenhos de John K. Snyder

Página 19, quadro 2 — Novamente a Starblade.

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More dull annotations on comics

These are my annotations on some comics issues I have read not too long ago. They are not meant to be interesting to the general public, but only to myself and to those who google for them.

Batman #500 (Oct 1993)
Page 7, panel 2; page 8, panel 5; page 23, panel 6; and page 24, panel 1 — Jordan B. Gorfinkel, Assistant Editor.
Page 23, panel 6 — Does the sign not remind you of Geoforce?
Page 52 — The car’s impact was reused in 2005’s Batman Begins.

Superman: the Man of Steel #26 (Oct 1993)
Page 19 (Brazilian edition), panel 3 — The Cyborg’s eye and teeth are reminiscent of Swamp Thing‘s Anton Arcane as seen after death in Alan Moore’s run.

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Estas são minhas anotações a algumas edições de quadrinhos que li há não muito tempo. Elas não pretendem interessar ao público em geral, mas apenas a mim mesmo e àqueles que googlarem por elas. A numeração das páginas e dos quadros segue a das edições originais.

Batman #500 (Oct 1993) — publicada em Batman no. 4 (junho de 1995)
P. 7, quadrinho 2; p. 8, quadrinho 5; p. 23, quadrinho 6; e p. 24, quadrinho 1 — Jordan B. Gorfinkel, Editor Assistente.
P. 23, quadrinho 6 — O símbolo não lembra o do Geoforça?
P. 52 — O impacto do vagão foi reutilizado em Batman Begins, de 2005.

Superman: the Man of Steel #26 (Oct 1993) — publicada em O retorno do Super-Homem no. 3 (novembro de 1994)
P. 19 (edição brasileira), quadrinho 3 — O olho e os dentes do Superciborgue remetem aos de Anton Arcane após a morte, conforme representado no período em que Alan Moore escrevia o Monstro do Pântano.

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Capanema, doutores de Coimbra, educação e ideologias

Neste País tropical, abençoado por Deus, onde em fevereiro tem Carnaval e o J. Ben tem uma nêga chamada Teresa (palavras dele, não minhas), temos algumas concepções paternalistas e clientelistas que extraímos desde Roma, passando por Portugal medieval e chegando aos dias de hoje.

Como resultado dessas concepções, nossas elites sempre enviavam seus filhos a se instruírem em Coimbra e a se tornarem “doutores”, mesmo que nunca fossem usar o conhecimento. No período republicano, insuflados pela ilusão de que mobilidade social existe, somos levados a crer que você não é ninguém se não tiver estudo. Bem, não exatamente. Você não é ninguém se não tiver um título. Não faz diferença se domina o assunto ou não.

Então, antes de vir administrar os negócios da família e a compra e venda de escravos, o jovem de tradicional estirpe tinha que ser médico, engenheiro ou advogado. De preferência, advogado, que assim você conhece as fórmulas que obtêm o favor dos deuses. O advogado torna-se uma espécie de pontífice, de sacerdote, com todos os privilégios associados à função. Vêem-se (porque a sociedade os vê) acima dos demais mortais, sabedores dos sortilégios sagrados das artes ocultas, revelados somente a iniciados. Mais ou menos feito os alquimistas.

Com o tempo, a saturação dos mercados e fartas doses de mediocridade, preguiça e hipocrisia, disseminou-se uma noção mais vaga, de que, de qualquer forma, você tem que ter um diploma universitário, qualquer diploma universitário, para conseguir qualquer coisa, para ser alguém, para ter dignidade. Não importa diploma de quê, nem onde. Você acaba forçado a fazer faculdade, mesmo que ìntimamente não queira, porque ninguém te aceita de outro modo. Agora, então, que a Lei de Diretrizes e Bases facilitou a obtenção de diploma para cursos de nível superior em menos de três anos, é como se ninguém mais tivesse desculpa.

Uma noção completamente falaciosa. As pessoas ficam achando que o papel da universidade é servir de curso profissionalizante, como se só houvesse profissões se de nível superior. Algumas viram cursinho para passar em concurso. Chega-se ao absurdo de se supor que todo o mundo tem que ter feito faculdade. Um País de doutores. Sabemos com que qualidade. Sei de doutores que não conseguem soletrar o próprio nome.

Ficam desprezados todos os técnicos, e essa gente esquece que, sem técnicos, não se constrói um país. Não dá pra ter só engenheiro; alguém tem que saber operar no chão de fábrica. Não dá pra ter só cirurgião dentista; alguém tem que saber cuidar do instrumental. O técnico é fundamental.

Mas conhecemos a visão que impera. As pedagogas de voz áspera, aquelas que nunca entraram numa sala de aula mas não deixam de comparecer a um debate na TVE, realmente acreditam que, se você não faz uma faculdade, você automàticamente é um fracassado.

Não há de ser outra a mentalidade que motivou certo artigo que encontrei na Revista de História da Biblioteca Nacional, edição no. 2, de agosto de 2005.

A matéria é uma biografia de Gustavo Capanema em quatro páginas. Já começa por uma ambivalência: na chamada, afirma que Capanema “foi um ministro renovador e idealista”, citando carta de Lúcio Costa que elogia o arrojo do prédio do MEC no Centro do Rio e o atribui à visão do mecenas; mas, poucos parágrafos adiante, esclarece como esse intelectual mineiro chegou a ministro:

Capanema acompanhou os mineiros, quer na fase da campanha eleitoral, quer na da conspiração, tornando-se oficial de gabinete de Maciel, por sinal, seu primo. Vitoriosa a revolução [de 1930], o presidente de Minas foi o único a não ser afastado do cargo pelo chefe do Governo Provisório. Seu oficial de gabinete tornou-se o secretário do Interior e Justiça (…) Campos e Capanema articularam um plano para ‘liquidar’ a liderança do mais poderoso político mineiro, Artur Bernardes (…). Uma briga de cachorro grande (…) que aproximou Vargas de Capanema, pois foi ele que intermediou as sigilosas conversações entre poderes estadual e federal. (…) Maciel morre e Capanema assume, interinamente, o cargo de interventor federal, postulando uma efetivação.

Os grifos são meus. Mas quer dizer: a Autora abre o texto enaltecendo o ministro visionário, mas mostra como ele armou para subir a escada do poder à medida em que se instalava uma ditadura no País.

Já ministro da Educação e Saúde, Capanema estava encarregado de sistematizar o ensino em todo o Brasil. Havia um debate entre correntes leigas e religiosas, entre estatizantes e liberalistas.

Essa discussão se prolongou, sendo interrompida pelo golpe de 1937, que deu ao ministro a liberdade de encaminhar suas propostas conforme as diretrizes autoritárias, nacionalistas e centralizadoras do Estado Novo.

Não é que eu seja fundamentalmente contra o modelo educacional. Provàvelmente ele estava correto, considerando que a geração que foi à escola nos anos 40 não é tão ignorante quanto as posteriores — ressalvado, aí, seu viés por vezes doentio, exageradamente positivista, nacionalista, integralista até; por culpa mais do Estado conformador do que dos próprios alunos. O lance é que, seja que modelo for, não é assim que se implementa. O cara é incensado como gênio da educação, mas parece não ter se pejado em simplesmente mandar cumprir o que achava que estivesse certo. Grande exemplo estava dando.

Bom, mas eu me estendo em digressões. Esse nem era para ter sido o foco principal. O que mais chamou minha atenção foi a seguinte passagem:

a reforma também criou cursos profissionalizantes, voltados para os que não seguiriam carreiras universitárias. Como é fácil perceber, eles se destinavam aos jovens menos abastados, o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública única e de boa qualidade.

Esse trecho está tão errado que nem sei por onde começar. Deixe-me seguir na ordem da leitura.

Primeiro: por que a Autora considera que os cursos profissionalizantes sejam voltados a quem não iria para a faculdade? Veja só que ela escreve por exclusão: “os que não seguiriam carreiras universitárias”. Presume-se que o padrão seja você fazer faculdade e que os demais se definam por não seguirem a regra. O pressuposto é que a universidade seja o certo, o óbvio, e que os refugos vão fazer escola técnica. Como se não houvesse a opção de não fazer universidade; como se não pudesse parar no primeiro ou segundo grau. A escola técnica surge como opção de quem perdeu, de quem é excluído, ráuli.

Segundo: “como é fácil perceber” — fácil para quem, cara-pálida? Há uma certa arrogância no texto: para ela, tudo que for dito depois são verdadeiras obviedades e, em princípio, o Leitor que não concordar tem dificuldade de perceber algo que está na cara.

Terceiro: “eles se destinavam aos jovens menos abastados” — ah, quer dizer então que escola técnica é pra pobre, é isso? Se escolho ser técnico, é porque sou um proletário limitado, emburrecido talvez pelo simples fato de ser pobre e, portanto, incapaz de alcançar um ambiente intelectual mais elevado — é essa a mensagem? Depois do primeiro grau, não convivi mais com gente rica, mas, desde então, já conheci várias pessoas que fizeram escola técnica e que não tinham dificuldade nenhuma de se sustentarem com isso.

Quarto: “o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública única” — hein? Quer dizer que as escolas técnicas não têm como se inserir num sistema de ensino? O Senhor Ministro não sabe onde encaixá-las, elas não se destinam a formar doutores — então, estão fora do sistema unificado, é isso? Estão entregues ao descontrole, estão à margem, é essa a ideia? E o que que eu digo pra quem acabou de entrar no CEFET?

Quinto e talvez pior de todos: “o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública (…) de boa qualidade”. Então, quer dizer que as escolas técnicas são todas ruins, é isso? Só está certo quem seguiu o caminho virtuoso da universidade; todos os demais são desqualificados e, se o curso é técnico, então automàticamente o curso é ruim — é isso? Por que a Autora não diz logo que tinha que acabar com o SENAI e rasgar o diploma de todos os soldadores, mecânicos e técnicos em Radiologia? Será que ela realmente acha que conseguiria sequer ter luz e água encanada em casa sem esse pessoal? O que o texto está dizendo é: “você nunca vai ter educação pública de boa qualidade se continuar formando técnicos”. Vá perguntar o que um russo, o que um alemão acha disso. Vá ver o que estão fazendo na China.

E era aqui que eu queria chegar. Nota-se aí mais uma das manifestações desta nossa ideologia do diploma. A Autora absolutamente despreza quem não tem é doutor em Ciência Política pelo IUPERJ ou pós-doutor pela Sorbonne. Essa é a exata visão da nossa cultura dos bachareis de Coimbra, do grau universitário como único reconhecimento de valor social. Uma cultura de opressão, onde alguns arrotam erudição e “falam difícil” para outros ficarem impressionados e temerosos, ignorando que os primeiros, muitas vezes, são tremendos enroladores que sequer aprenderam o básico das primeiras disciplinas da graduação, quiçá do próprio segundo grau. Uma cultura que não conhece o conceito de accountability (e por isso não tem nome para ele), onde professores titulares não aparecem para dar aula “porque estão acima disso”, onde a ocupação de qualquer sinecura autoriza o alto bradar da pergunta, “você sabe com quem está falando?”

Eu sei. Sei muito bem.

E estou de mau humor. MAU HUMOR COM “U”, PELO AMOR DE NEWTON!

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Boçais e ladinos

Hoje havia uma notícia no jornal: um homem foi executado pelo tráfico porque havia dito “é nóis”.

Pensei, que maravilha! Finalmente os erros de português estão sendo punidos como merecem!

Lendo o restante da matéria, descobri o verdadeiro motivo: “é nóis” era o lema da facção criminosa inimiga da dos homicidas. Aí não tem graça.

Mas bem que ajudaria se minha primeira impressão tivesse sido real. A Companhia de Comédia Melhores do Mundo fez uma peça de teatro (vídeo aqui) onde o sequestrador avisava à polícia que ia matar um refém para cada erro de português. Pleonasmo eliminava dois reféns. A peça tinha o seguinte diálogo:

— Vou ligar para uma autoridade aqui pra resolver o problema!

— Liga para um delegado, para um deputado, sei lá. Liga pro Presidente Lula!

— P***a, “Presidente Lula”?! Cê quer uma chacina aqui??!!

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Pode ser que você tenha lido um de meus textos sobre os intreináveis. Se não leu, faz favor: vai lá e depois voltaqui para ler o que segue abaixo. Eu espero.

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Já leu? Então tá bom. Só mais uns espacinhos, e aí entra meu texto novo.

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É o seguinte. A Revista de História da Biblioteca Nacional, edição no. 2, de agosto de 2005, traz um interessante comentário em matéria não assinada, intitulada Vende-se gente e constante da página 89:

Os comerciantes de escravos classificavam suas mercadorias como usadas ou novas, sendo ‘boçais’ os [escravos] sem habilidades ou treinamento, (…) e ‘ladinos’ os escravos africanos assimilados.

Você aprende duas coisas daí. Primeiro, que essa é a origem do uso que fazemos da expressão “ladino”, que significa, basicamente, “safo”, “esperto”, “atilado”, “malandro”.

Segundo, que os intreináveis se enquadram na exata definição de “boçal”. Com a diferença de que jamais podem vir a se tornar ladinos.

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Trailer do Lanterna Verde!

Quando vi a chamada, Green Lantern trailer, pensei mesmo que fosse de verdade. De todos os super-heróis (ainda tem acento?), pelo menos de todos os super-heróis principais, o Lanterna é talvez o único que nunca ganhou filme. E é justamente aquele que mais me interessa ver em filme. E não estou sòzinho nisso; faça uma enquête e você vai ver que muita gente também gostaria. Até já imaginei conceitos para não um, mas vários filmes do LV, com base nas histórias dos quadrinhos.

Antes de clicar, reparei no aviso: “this is a fan-made trailer”. Não tem nada de real. Na verdade, nem a ideia é original, porque a gente já conhecia aquele excelente fake trailer dos Thundercats (se você não conhece, saiba que está perdendo. É uma obra de arte). Imitando o caso dos Thundercats, o trailer do Lanterna é uma óbvia colagem de cenas de ID4, da série Enterprise (o andoriano tornado Guardião), do trailer do Star Trek de 2009, de falas do Senhor dos Anéis (tem acento?)… Mas não importa. É maneiro:

É verdade que o filminho segue as mesmas obviedades de todos os trailers de filmes de ação: feitos para quem sofre de DDA, potencialmente induzindo espasmos epiléticos na audiência, com dez cenas por segundo, sem dar tempo de você sequer saber o que está vendo, com o mesmo tipo de música, todos aqueles portentos visuais… Aliás, ele prova que qualquer garoto, usando ferramentas que estão em domínio público (ou não deveriam… “fotoshop-jogos-coréu”, alguém?), qualquer garoto consegue fazer a mesma coisa que custa milhões aos estúdios. Quer dizer, a tecnologia e a indústria do entretenimento nivelaram a todos.

Não me queixo não. Se você observar quanto dinheiro vai para esse ramo da economia, mais tudo que é lançado ao consumidor de tecnologia, entre telefonia celular, banda larga, smartphones, netbooks… Ainda é melhor do que gastarem em guerras, que é outro ramo que movimenta muito dinheiro.

Há um toque do trailer que será melhor apreciado por quem é fã dos quadrinhos: entre os membros da Tropa dos Lanternas Verdes, dá pra identificar Kilowog, Tomar-Re e até mesmo Ch’p. Naturalmente, ficaram faltando Katma Tui e Arisia, que, aliás, em tempos polìticamente corretos, necessàriamente teriam que ser inventadas se não existissem. Nada que não se possa corrigir.

O juramento dos Lanternas também caiu bem. Não dá pra escutar direito, e parece até uma tropa de borgs falando, mas ficou bem como encerramento.

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Resenhas: os livros de Tony Buttler

Recentemente, terminei análises detalhadas de dois livros que havia comprado em 2005. São eles British Secret Projects: Jet Bombers Since 1949Soviet Secret Projects: Bombers Since 1945. Não ganho um centavo por esses linques à Amazon, mas tampouco me importo. Os Autores merecem vender tanto quanto puderem, porque os livros são MUITO bons.

Conforme a abertura do texto que segue abaixo, sempre tive especial interesse nas obras não realizadas: o episódio não filmado, o livro não publicado, a versão alternativa do quadro, a forma que as naves da Frota Estelar poderiam ter tido. Também gosto de História alternativa, das histórias Elseworlds da DC Comics, e das variações não adotadas das coisas que conheço.

Felizmente não sou o único. Tony Buttler é um metalurgista inglês que trabalhava na High Duty Alloys, especializada em peças para aviação. Seu especial interesse em aviões fez com que completasse um mestrado em Biblioteca e Ciência da Informação e, em seguida, saísse desenterrando arquivos do governo, dos museus e de empresas sobre a evolução dos aviões militares. Desde o final dos anos 90, ele tem publicado diversos livros sobre a variedade de projetos para as forças aéreas do Reino Unido, da União Soviética e dos Estados Unidos, gastando especial quantidade de tinta nos aviões que não foram construídos.

O co-Autor do segundo livro é Yefim Gordon, que tem uma quantidade absurda de livros sobre a História da indústria aeronáutica soviética e russa, sempre fartos em informação obtida de seus numerosos e preciosos contatos no meio.

Eu já havia comprado outros livros de Buttler. Não sei se foi só desta vez que prestei especial atenção, mas esses dois a que me referi acima são tão bons que me motivaram a resenhá-los na Amazon.co.uk, que mos vendera.

Para meu próprio rastreamento, segue cópia do texto com que descrevi o primeiro livro aí em cima. Os parágrafos sobre o segundo são pràticamente iguais; só mudei uma frase e omiti outra.

“I have always been fascinated by ‘what if’ scenarios. In aviation, this translates as aircraft that never got off the drawing board. So, when I bought Tony Buttler’s British Secret Projects: Bombers Since 1949 and Soviet Secret Projects: Bombers Since 1945, I was aiming at numerous descriptions of unbuilt projects.

“Was I in for a treat. Yes, these books bring lots of text and drawings about endless scores of aircraft that never got built. However, their greatest strength is where they describe the development of airplanes that did in fact get a first flight. In both books, Buttler outlines the evolution in defence thinking of the relevant country at Ministry level, its impact in the doctrine for strategic defence and the consequent requirements and specifications of combat aircraft that should fit said doctrine. Each book then goes to show the industry’s approach to the specifications, explaining each manufacturer’s technical solutions to the problems posed: wing shapes, engines to be adopted, undercarriages, weapon loads, crew, why and how they would or would not be adequate, etc. The reader gets to see how aircraft designers think and how diverse aircraft features affect in-flight behaviour, cost and effectiveness. Then the Author retells of the military’s view on each project and the reasons for their adoption or rejection, the changes in requirements and therefore in specifications, contemporary views about in-service limitations, engine concerns, development cost, time to service entry, upgrades and the like. The political implications are also described (cases in point: the tortuous road that led to TSR.2 and its sad demise, and the AFVG discussions between the UK and France before commitment to Tornado). As a result, each chapter follows the backstory of development of well-known types, from the point of inception to detail design, with a comparison to the competitors up to the point when each fell by the wayside. The reader gets to see the whole gamut of projects that were mused before final adoption (or cancellation, as applicable) of Canberra, the three V-bombers, Buccaneer, Shackleton, Gannet, Seamew, TSR.2, Harrier, Jaguar and Tornado.

“All of this in a text that is fluent and light to read while, at the same time, the books are generous in technical specs, line drawings, and pictures of wood models, mockups, wind-tunnel models and actual prototypes.

“I recommend Buttler’s books to a variety of readers: those keen on the evolution of strategic thinking behind the military aircraft industry, those that want background on the requirements, development and reasons behind features of aircraft effectively built, and those that want to know more about the aircraft that remained stuck on the drawing board. At any rate, a good, solid, information-laden read — page turners with plenty of eye candy to boot.”

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Hitler finds out Michael Jackson has died

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Compre o CD e leve 100 kg de papel

Esta história aconteceu a uma bibliotecária que conheço. Ela tem uma coleção completa da enciclopédia Barsa, que é maravilhosa mas ocupa vinte volumes daquele tamanho. Como o espaço em casa é pouco, ela procurou a Barsa em CD, para substituir mesmo. Foi a uma feira sobre bibliotecas, onde encontrou a vendedora.

Pois acontece que existe. De acordo com a vendedora, o CD vem de brinde na compra de uma Barsa completa em vinte volumes.

Mas, vem cá — pergunta a Bibliotecária Sem Espaço em Casa –, não dá pra eu levar só o CD? Diz a vendedora que não: você só leva o CD se comprar tudo mesmo, o que, aliás, custa um número de quatro algarismos.

E aí vem a pérola: a vendedora explicou que a editora tem o propósito de estimular as crianças à leitura e é por isso que não vende o CD separadamente.

Arrã. Estimular as crianças à leitura. As crianças vão ler uma ENCICLOPÉDIA, ainda mais uma sisuda feito a Barsa, que tem letra miúda e pouca figura, e vão passar a gostar de ler.

Aliás, pára. Antes de a criança ser afastada da leitura pela Barsa, primeiro ela teria que PEGAR a Barsa pra ler, o que já não vai acontecer. Aliás, antes de pegar a Barsa pra ler, os pais teriam que comprar pra ela, o que não aconteceria NEM se só custasse um reau. Vinte volumes? Sem figura?

Aí: temos uma novidade no linguajar da editora. “Encalhe de exemplares que ninguém mais compra” virou “estímulo à leitura”.

TNC todo o mundo.

As mensagens que você passa

Refletindo sobre o episódio da menininha no metrô, fui lembrado de perguntar por que ela me pediu para ler a revista. Até agora, pensei em meus próprios termos, julgando que a revista tivesse algo em si mesma que despertasse o interesse da menina. Como a revista estava comigo, ela teria que pedir acesso.

Mas contei a história ao Raposo, que é pai de um menino mais ou menos da mesma idade e que me fez observar alguns meta-aspectos que eu estava deixando de lado. Segundo ele, provàvelmente a menina não estava tão interessada em algum conteúdo que tivesse percebido na revista. Acontece que ela viu um sujeito de terno, gravata e pastinha de couro, provàvelmente voltando do trabalho, com toda a aparência de seriedade mas lendo revistinha. Ora, certamente ela associa quadrinhos a infância (é o que faz a ignorante maioria das pessoas), mas viu um sujeito adulto lendo quadrinhos. Então, terá ficado curiosa, primeiro com o aparente contrassenso; segundo, com essa revista que devia ter algo de muito especial. É nesse ponto que ela quereria saber o quê.

Até ali, eu, sem saber, já havia deixado algumas mensagens para ela: que é lícito ler quadrinhos em idade adulta; que a leitura é algo tão bom que a gente a pratica sempre que tem um tempinho, até no metrô; e que, por mais atarefado e profissional que se seja, sempre se consegue um tempo para essa gratificação, mesmo que seja no metrô.

É claro que também se pode entender que eu seja um pobre-diabo tão atarefado que só mesmo no metrô vá ter tempo para a leitura.

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Sintomas de um mercado editorial incipiente

De vez em quando eu resmungo que este é um povo de pouca instrução, pouco dado à leitura. Pelo que leio por aí, parece que estou sendo injusto quanto a essa segunda parte, porque BAxt e pacamanca já me convenceram de que a aversão à leitura dever ter algo de universal.

De todo modo, é um povo pouco instruído, sim. O tratamento que os livros recebem no Brasil é quase o de algo proibido. De fato, alguns anos atrás, um amigo de meu irmão ficou espantadíssimo quando, visitando-nos em nossa casa, surpreendeu-me lendo durante as férias, como se eu fosse maluco de estar desperdiçando meu tempo com uma tarefa que só deveria cumprir se fosse obrigado.

Então, eu passava agora há pouco em frente à livraria Eldorado da Tijuca, quando uma capa chamou minha atenção. Vários homens jovens, com traje de vôo, sentados na asa de um avião inglês da II Guerra Mundial, em uma fotografia em preto e branco típica da época (incidentalmente, dá pra dizer que o avião é inglês pela forma do motor que aparece no canto). O livro era Há muito o que contar… aqui, de A.L. Kennedy. Fiquei imaginando que fossem histórias de aviação durante a guerra, tema que sempre me atrai. Como não gosto de comprar um livro só pela capa, fui pesquisar por aí.

Primeiro, procurei A.L. Kennedy na Amazon. Encontrei Day, que tem a seguinte descrição:

Kennedy’s contemplative, stylized sixth novel (after Paradise) follows former Royal Air Force tail gunner Alfred Day as he relives his experiences in a WWII German prison camp. It’s 1949, and (…) He volunteers as an extra on the set of a war documentary, (…) The film set experience grows darker as Alfred begins reliving his time in the prison camp (…)

A capa era diferente da que eu tinha visto. Para confirmar que o livro fosse o mesmo, fui ao saite da Saraiva, a conferir a descrição. Olhe só o que encontrei:

A historia de um homem que foi piloto de um bombardeiro da Força Aérea Britânica durante a segunda Guerra Mundial.
Após a guerra, em 1949, ele participa como figurante num filme em que revive sua experiência de prisioneiro de guerra.

Está notando algo diferente? No original, ele era tail gunner: atirador de cauda, aquele cara que vai dentro de uma jaulinha no rabo do avião, dando tiro nos alemães que vêm atacar por trás. No comentário brasileiro, ele se tornou piloto.

Relevando o ataque à ortografia (“historia” sem acento) e a impropriedade dos nomes (“Força Aérea Britânica”, em vez de “Real Força Aérea” ou de “Força Aérea britânica”, como se o “Britânica” fizesse parte do nome, o que não faz; e “segunda Guerra Mundial”, com o “segunda” iniciado por minúscula), resta o fato de que a resenha brasileira está, muito provàvelmente, errada quanto aos fatos. Quer dizer, não sei qual das duas, mas, se eu tivesse que apostar dinheiro, diria que a errada é a brasileira.

(No mínimo, porque é menor: meu Word contou 126 palavras, contra as 315 das duas resenhas da Amazon combinadas. Não vou contar o fato de que a Amazon deixa os leitores comentarem a obra, que seria covardia. Oito pessoas deixaram lá suas observações, muito mais úteis (e algumas mais extensas) do que as resenhas editoriais e, aliás, confirmando que Day era tail gunner. Aliás de novo, é por essa e inúmeras outras razões que eu adoro a Amazon: ela sempre dá vasta informação sobre o produto, permitindo que você saiba exatamente o que esperar dele, qual é a edição, o que chamou a atenção dos leitores etc. Você não toma nenhuma decisão no escuro. Já deixei de comprar inúmeros livros que compraria de outro modo, só com base nas resenhas deixadas lá.)

Você poderá argumentar que isso não faça diferença e que o livro terá valor, ou não, independentemente da posição que Day ocupava a bordo. Só que, se a idéia é expor o produto para que eu escolha se o quero, então tudo conta para meu julgamento. Sinceramente, eu, Atoz, dou mais valor à história do tail gunner do que à de um piloto, por duas simples razões. Uma, que as perspectivas são completamente diferentes: o piloto é um oficial, comandante da tripulação, responsável por erros e acertos e com poder de decisão sobre para onde leva o avião, enquanto o atirador de cauda não é um oficial, fica impotente para comandar qualquer coisa além de sua metralhadora, opera em um espaço bem mais confinado, e submete-se aos mesmos riscos do piloto mais o de levar um tiro na cara, que o piloto, em regra, não. São pontos de vista bem diferentes. Outra, que o ponto de vista do piloto está narrado em dezenas de livros e revistas sobre a guerra, mas o do atirador é bem mais difícil de se encontrar, e valorizo-o mais por isso.

Então, como você pode ver, o consumidor incauto, que não pesquisa em outros saites ou não fala inglês, é levado pela Saraiva a uma impressão errada sobre o livro. Além do mais, existe uma norma básica, né: o que não se pode é errar; se não sabe, então não escreva nada. Não vai cair a mão se, na dúvida, o livreiro escrever “tripulante” em vez de “piloto”.

Naturalmente, tudo isso decorre da displicência de quem não teve cuidado suficiente antes de resenhar Há muito o que contar… aqui. Imputo essa negligência ao espírito geral, reinante no Brasil, de se equiparar livro a mercadoria de camelô. É aquela noção de fazer tudo sem cuidado, porque tanto faz. Duvido que isso acontecesse em um país que desse valor à leitura.

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Cumprindo minha missão

NT100

A capa é a mesma de Team Titans #1-A.

Hoje, eu voltava do trabalho em pé no metrô, lendo Os Novos Titãs no. 100. À minha frente, estava sentada uma menina, seus 8 a 10 anos, ao lado da mãe. De repente, a menina deu um toque na revista, chamando minha atenção.

— Posso ler com você? — perguntou da maneira mais despojada e aparentemente sincera.

— Cuma?

— Posso ler com você?

A primeira voz que ouvi foi a do egoísmo mesquinho: não, não pode, é minha e eu quero continuar a ler. Essa voz foi prontamente espancada e silenciada.

A segunda voz foi a da razão: impossível deferir ao pedido. Se estou em pé na frente dela, não tem como ela ler junto comigo. Um de nós teria que girar 180 graus. Além do mais, a história é complexa e violenta demais para uma menina da idade dela, cheia de palavras e conceitos que requerem uma cultura geral que ela não tem. Também é continuação da edição 99, de modo que ela não a entenderia. Não bastasse tudo isso, a história é simplesmente ruim. Não a recomendo nem a uma criança de oito anos, que deveria estar lendo alguma coisa mais divertida e mais instrutiva.

A terceira voz foi a da sabedoria. Se tem uma coisa que eu NÃO vou fazer é me tornar em obstáculo entre uma criança e a leitura. Taqui, na minha frente, uma oportunidade de ouro, que talvez nunca se repita, de facilitar o caminho entre ela e o mundo dos livros; os quadrinhos são uma excelente via para isso. É um momento em que nenhum adulto metido está impondo um livro chato a ela: ao contrário, ela está, espontaneamente, deixando-se levar pela curiosidade de ler alguma coisa. A revista está sendo puxada por ela, não empurrada a ela. E eu tenho o DEVER auto-imposto de facilitar o acesso, ou não me chamo Atoz (vá ao Google: veja por que me chamo Atoz. Dica: jogue, também, as palavras-chaves Sarpeidon e “Beta Niobe”).

Enquanto a mãe morria de vergonha e tentava censurar a menina, respondi à última ignorando a primeira.

— Isso vai ser um pouco difícil, porque nós estamos um de frente para o outro. — Fiquei pensando, aqui estou eu, de terno e gravata, discutindo geometria espacial com uma menina desconhecida de oito anos. Os buracos em que se metem as mentes cartesianas iludidas.

A menina não entendeu nada, “hã?”, porém continuei, “mas a gente pode fazer o seguinte: você vai lendo até a gente chegar na Tijuca”, e estendi-lhe a revista.

Ávida, ela foi abrindo as páginas, toda estabanada, e vi que a segunda metade da revista se separava da primeira ao longo da lombada.

— Cuidado, vai abrir as páginas.

Ela passou a folhear com mais cuidado e pensei, raios, ela vai entender que não é pra ler, e não é nada disso. Então, voltei à página que se abria e mostrei, “tá vendo, se abrir muito vai rasgar”.

— Ih! Por que que fica assim?

— Porque é velha. (Verdade. NT 100 é de julho de 1994 e o papel está seco.)

Foi lendo. Abriu numa página.

— Era aqui que você tava?

— Não, eu já tinha passado daí.

Voltou para o começo e foi lendo a revista em voz alta, com uma sensível dificuldade que, na idade dela, eu não tinha mais: para mim, aos oito anos,  ia tudo fluindo. Também pensei, na minha época, depois do CA não tinha mais isso de ler em voz alta, a gente aprendia leitura silenciosa. Não tem alfabetização não? Não importa.

De repente, me peguei sem estar lendo nada e sentindo uma terrível crise de abstinência: eu quero alguma coisa pra ler e estou sem nada! A menina ficou com minha revista! Negativo. Abri a pasta e puxei meu exemplar de O príncipe, de Maquiavel, impresso em 1933. E segui lendo.

Chegando à Saenz Peña, confesso que senti um ligeiro medo de que a menina não fosse me devolver a revista. Infundado, primeiro porque a mãe não ia deixar, segundo porque eu já tinha lido todas as histórias e, terceiro, porque NT 100 é ruim mesmo, então não seria uma grande perda: melhor ficar com quem dá mais valor do que eu.

O trem parou, abriu as portas e somente então a mocinha fechou a revista e me devolveu.

— Agradece o moço. (É “ao moço”, dona.)

— ’Brigada.

— De nada.

APIDÊITE DO APEDEUTA (27/07/2009, 21:41 h): uma grande amiga, a quem vou dar o pseudônimo de Carolina Matoso, lembrou-me a seguinte possibilidade.

“já pensou se a menininha do metrô vê vc. lendo O Príncipe, larga a hq de lado e diz:

“- Ei, moço, prefiria ler Maquiavel!”

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Algumas visitas recentes:
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http://oindividuo.com/ (ainda me lembro de quando li seu jornalzinho homônimo e censurado pela PUC-RJ, em uma polêmica que extrapolou os muros da universidade. Acho que ainda tenho meu exemplar, obtido com o pai de um deles, o pesquisador, tradutor de Asimov e, pelo menos por um tempo, decano do IME, Prof Ronaldo Sérgio de Biasi. Salvo engano, era 1995. Já confirmei que são as mesmas pessoas)
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Voo AF 447 – relatório interino

Sugestão: ignore os jornais. Os jornais dizem muita bobagem. Chutam, inventam, manipulam.

Vá à fonte. Saiu o relatório do Escritório de Investigações e Análises (BEA: Bureau d’Enquêtes et d’Analyses) sobre o acidente do Airbus 330 da Air France ocorrido em primeiro de junho.

Não estou dizendo que o relatório seja perfeito. Vão dizer que ele é político, que é viciado, vão dizer um monte de coisas. Pode ser. Mas tem dois detalhezinhos para os quais eu gostaria de chamar sua atenção.

1) O relatório é técnico. O jornal não é técnico.

2) O relatório é a fonte primária. O jornal vai citar o relatório, vai dizer que o relatório disse tal e tal coisa, mas você só vai saber o que o relatório disse quando ler o próprio.

Taqui os linques para o relatório em francês e em inglês. Um com 128 páginas, o outro com 72.

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Em uma nota não relacionada, comecei a ler Green Lantern: Ganthet’s Tale, de Larry Niven e John Byrne. Eu conhecia a fama dessa graphic novel de 1992, que é muito elogiada como um ponto de vista original trazido por seu escritor aos quadrinhos da DC. Aliás, Niven já era bastante celebrado como o Autor de Ringworld e das histórias das guerras contra os Kzinti. (Vivo confundindo Ringworld com Discworld, do também elogiado Terry Pratchett. Se tivesse lido algum dos dois, isso não aconteceria.)

A grata surpresa foi, ao abrir o livro, reconhecer o traço de Byrne, que eu não sabia que o havia desenhado. Não só foi uma surpresa como me fez pensar em como evoluiu minha percepção do talento desse inglês. É que, quando vi os desenhos dele pela primeira vez há alguns anos, não gostei: eram muito simples e as expressões faciais, sempre dramáticas. Com o tempo, passei a apreciar justamente a simplicidade, junto com o vigor e o caráter dramático das expressões não faciais, mas corporais. De suas obras, talvez o exemplo mais famoso entre os quadrinhos da DC esteja no clássico Man of Steel, que foi o reboot do Super-homem em 1986.

Vou acabar de ler Ganthet’s Tale e, se for bom mesmo e eu estiver com saco, virei resenhar aqui.

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Star Trek: Countdown

Star Trek: Countdown é uma minissérie em quadrinhos, composta por quatro capítulos e publicada pela IDW nos meses anteriores a esse filme novo. Ela ajuda a entender o que aconteceu na linha de tempo “normal” antes dos acontecimentos do filme. Ou seja: que história foi aquela de supernova, de matéria vermelha, de Spock ajudando os romulanos etc. É uma espécie de prequel do filme, exceto que é ambientada no século 24. Atenção: seguem spoilers do filme e dos quadrinhos. Prossiga por sua própria conta e risco.

As 4 capas. A figura está centralizada porque a m*rda do WordPress não me deixa colocá-la no início do texto nem alinhada pela esquerda sem f*der toda a formatação. Filhos da p*ta.

As 4 capas. A figura está centralizada porque a m*rda do WordPress não me deixa colocá-la no início do texto nem alinhada pela esquerda sem f*der toda a formatação.

Peraí, pára para tudo. Deixeu descomplicar. O filme Star Trek lançado em 2009, apelidado “Star Trek XI” e que ainda está levando nos cinemas, é ambientado no século 23 e mostra o início da carreira do Capetão Kirk e do Orelha. Exceto que ele não está mostrando o passado dos personagens como você os conhece. Conforme o próprio filme explica, o que acontece é que, no século 24, Spock — òbviamente bem mais velho — envolveu-se com os romulanos e com um acidente cósmico de proporções, bem, cósmicas, e a consequência (agora sem trema) foi uma viagem de Spock e de alguns romulanos no tempo, ao século 23. O surgimento de Spock e de uma nave romulana no século 23 é a causa de uma nova linha de tempo, uma realidade alternativa, divergente daquela que os demais filmes e séries mostravam. Nesta linha de tempo alternativa, muita coisa passa a ser diferente por causa da chegada de Spock e da nave romulana. E é nessa realidade alternativa que se desenrola o filme.

Bem, mas que acontecimentos foram esses, no século 24, que causaram a viagem de Spock de volta no tempo? O filme explica, até mostra resumidamente, mas o foco dele não é essa passagem. Ela só entra como uma justificativa histórica, fazendo a ponte entre a linha de tempo tradicional e a nova. Para quem está interessado nos porquês e desdobramentos, fica uma lacuna.

Então, Countdown supriu essa lacuna, contando justamente esses detalhes, e mais: foi lançada antes do filme. Isso faz todo o sentido, primeiro porque você, ao assistir, já vai com a explicação na cabeça. Segundo porque, seguindo a lógica das viagens no tempo e apesar de tudo, a história passada no século 24 realmente vem antes da história do filme. Realmente é antecessora, realmente o filme é sequência (também sem trema) dela. É como se fossem duas metades de uma história só, embora bastante separadas uma da outra.

Outro dia, li Countdown inteira (bom, mais ou menos… aos saltos. Vendo as figuras, aliás bonitas, e lendo os diálogos na diagonal). É uma minissérie da Nova Geração, tendo o Embaixador Spock como protagonista, e se passa alguns anos após os acontecimentos de Nemesis — que, incidentalmente, é, IMHO, o pior, mais fraco e mais sem sentido dos filmes de Jornada. Mas, voltando à minissérie, nela vemos onde foram parar alguns personagens da NG. Data é o capitão da Enterprise-E, tendo sido ressuscitado a partir das memórias que deixara em B4 no filme anterior (óbvio óbvio óbvio. Alguém tinha dúvida de que era isso mesmo que ia acontecer?). Não reparei no que LaForge está fazendo, mas ele também aparece, assim como o Embaixador Picard — que, assim, acabou materializando aquilo que havia sido prenunciado no episódo “Future Imperfect”. Já Worf é general entre os Glunkons, o que não faz muito sentido em face do destino que teve no final de Deep Space Nine (não vou contar, que também é spoiler. Google: “What You Leave Behind”). E mataram Worf???!!!

Em síntese, gostei bastante. Juntando com o que se lê aqui, imagino que ainda seja possível fazer boas histórias no século 24 da linha de tempo tradicional.

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Foundation and Empire (Fundação e Império), de Isaac Asimov

Pesquisando Isaac Asimov na Web, descobri que sua obra mais aclamada é a trilogia da Fundação. Diz a lenda (ou melhor, a Lenda, porque é o próprio Asimov quem conta) que ele havia acabado de ler o Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon, e que estava agitado para escrever uma história semelhante, mas ambientada no futuro. Expôs a ideia a seu editor, que a encomendou.

No caso do Império Romano do Ocidente, aconteceu o seguinte. Após abranger metade da Europa e todo o entorno do Mediterrâneo, Roma estava demasiadamente estendida, e já não era possível manter as linhas de comunicação nem a coesão do império. Gradualmente, aumentou a dependência do governo central sobre as províncias, cujos senhores locais foram ganhando autonomia. Ao mesmo tempo, a abastança da capital gerou imperadores acomodados, que já não se ocupavam de estratégias de expansão nem de manutenção da infraestrutura. Das províncias, vinha tanta riqueza que os imperadores gastavam a maior parte do tempo em intrigas palacianas e terminavam assassinados por usurpadores. Ocupando-se do próprio umbigo, o poder central descuidou-se de manter a pax romana e, com isso, foi regredindo e permitindo a projeção dos poderes periféricos. Um dia, vieram invasões. Os poderes periféricos, conquistados pelos bárbaros ou não, tiveram que se virar sem o apoio do império, que acabou caindo também. Esse foi o início da Alta Idade Média, com a Europa dividida em inúmeros reinos e principados. Com a institucionalização das culturas germânicas sobre os escombros do Império, veio o feudalismo.

O que Asimov fez de 1942 a 1945 foi contar uma história semelhante, mas ambientada em um futuro indefinido em que a Galáxia começa sob o domínio do grande Império Galáctico. Sua capital, Trantor, é aquele pujante entroncamento de culturas e tecnologia que George Lucas representou como Coruscant. Pessoalmente, penso sempre numa Londres metálica e de dimensões planetárias. Afinal, Londres é a antiga capital do Império onde o Sol não se punha, recebendo tributos e visitantes das culturas mais variadas da Terra. Como a BAxt poderá confirmar, ali você encontra desde comida tailandesa até jóias do Azerbaijão.

A história começa com a inevitável queda do Império Galáctico e concentra-se na iniciativa de um brilhante matemático, Hari Seldon, cuja nova ciência da Psico-história permite, através de equações, prever o futuro mais provável de uma civilização com percentuais de probabilidade que equivalem à certeza. Seldon descobre que o Império deixará de existir em menos de trezentos anos, e que se seguirão trezentos séculos de barbárie. Para abreviar essa grande noite da ignorância, concebe a Fundação, situada em um planeta no limite mais externo da Galáxia. De acordo com o Plano de Seldon, a Fundação abrigará o conhecimento científico do Império e servirá como um farol na escuridão, permitindo o surgimento de um novo império em apenas mil anos. (Só uma coisa: mais alguém notou que essa é a mesma premissa da série Gene Roddenberry’s Andromeda?)

A narrativa da Fundação desenrola-se em oito grandes contos que a acompanham ao longo dos séculos e que foram publicados naquelas clássicas revistas de ficção científica dos anos 40. No início dos anos 50, uma editora iniciante se dispôs a compilar esse material. Então, o Autor escreveu mais um conto, que passou a ser o primeiro da sequência, e agrupou os nove contos em três livros: Foundation, Foundation and Empire e Second Foundation, que passaram a ser chamados, coletivamente, de “trilogia da Fundação”. Nos anos 80, Asimov publicou duas continuações (Foundation’s Edge e Foundation and Earth) e dois romances que se passam antes da trilogia (Forward the Foundation e Prelude to Foundation), mas eles não têm a mesma reputação do material original.

Hoje de madrugada, terminei o sétimo conto e, com ele, o segundo livro. Atenção: no trecho identado abaixo, vou contar detalhes da história até aqui e revelar o final do livro. Prossiga sob seu próprio risco.

No primeiro livro, aprendemos como a Fundação, inicialmente confiante no apoio do Império, acaba isolada entre planetas ignorantes e belicosos. Ora, clàssicamente, os detentores da tecnologia sempre foram temidos como magos encerrados em seus castelos, senhores de mistérios da vida e da morte: haja vista o arquétipo que alimenta as histórias do Golem, dos alquimistas, do Fausto de Goethe, de Frankenstein, de Gandalf e dos tecnomagos de Babylon 5. Então, a Fundação se vale disso e cria uma religião com que seus “sacerdotes” dominam os novos reinos que a rodeiam. Mais tarde, ela começa a vender as traquitanas de suas inovações tecnológicas cujo desenvolvimento o agonizante Império já não consegue acompanhar; e passa a dominar pelo dinheiro.

Na primeira metade de Foundation and Empire, um general tenta reconquistar a Fundação, em um último espasmo de glória a um imperador que só se preocupa com as frivolidades da corte. Nesses dias de ocaso do Império, o cinismo impede a sobrevivência de idealismos patrióticos, regulando a política de nobres que só querem expandir sua parcela de poder pessoal. Nos estertores, o Império decai para a autofagia, e o general é acusado de traidor por pretendentes do trono que preferem nivelar por baixo e veem nele uma ameaça a seus planos.

Na segunda metade de Foundation and Empire, surge a Mula, um mutante misterioso que ràpidamente subjuga alguns reinos relativamente poderosos. Um casal de cidadãos da Fundação é enviado a Kalgan, a mais recente e espetacular conquista da Mula, para descobrir quem é esse sujeito e qual é seu poder tão especial que dominou o planeta sem dar um tiro. Durante a visita, o casal resgata um homem esquisitíssimo e vestiço de palhaço, que estava sendo assediado por soldados. Na fuga, descobrem que se trata do bobo da corte da Mula e, na esperança de obter segredos úteis, dão-lhe asilo político na Fundação. O homem revela-se sempre inofensivo e inocente, mas pouco útil, porque se comporta feito uma criança autista e se apresenta sempre tão apavorado que não consegue articular um pensamento.

Fiquei um bocado desconfiado do palhaço. Afinal, ele é esquisito, a Mula é um mutante, sua aparição é tão conveniente aos dois espiões, e continuamos sem ver nem saber quem é a Mula.

Pouco depois, a Mula exige que a Fundação devolva seu palhaço, que alega ter sido sequestrado. Não sei por quê, mas foi nesse ponto que comecei a pensar que o palhaço era a própria Mula. Deve ter sido meu cinismo, que sempre parte do pressuposto de que, quanto mais perigosa a ameaça, mais inofensiva ela vai tentar parecer. De todo modo, o “sequestro” é a desculpa da Mula para mover guerra à Fundação, que também é conquistada sem violência. No último dia antes da invasão, o casal espião foge levando o palhaço para uma das colônias, que serve como refúgio à resistência.

O palhaço continua sendo desprezado por todos, que o deixam a sós com suas tolices. A Mula continua avançando, e continuamos a não vê-la. Minhas suspeitas aumentam.

Como garantia contra o fracasso do Plano, Seldon também havia estabelecido uma Segunda Fundação no lado oposto da Galáxia, a respeito da qual, até aqui, só sabemos que existe e mais nada. Na fuga, o casal espião é acompanhado por um matemático que procura reconstruir o conhecimento de Hari Seldon, perdido há séculos na desagregação do Império, para descobrir onde fica a Segunda Fundação e, com isso, avisá-la contra o avanço inexorável da Mula. O plano do matemático envolve uma viagem às ruínas de Trantor, onde é possível que ainda estejam os antigos arquivos.

A colônia resistente é conquistada sem luta, e a esposa observa que é muita coincidência: o casal está sempre um passo à frente, escapando no último minuto. Nesse ponto, eu ainda não tinha certeza de que o palhaço fosse a Mula: imaginei que ele pudesse apenas ter um daqueles localizadores que, nos filmes, o herói encontra embaixo do carro. Mas minha aposta continuava sendo que ele fosse a Mula sim.

A caminho de Trantor, a nave do casal é interceptada. Marido e palhaço são levados como reféns, separados um do outro mas devolvidos sem demora. Marido crê que a nave tenha sido enviada pela Mula, cujos homens conseguiram segui-los de algum modo. Palhaço tem outra teoria, que o convence e desconversa. Minha desconfiança transforma-se em certeza.

Em Trantor, a história se acelera e se enche de sinais de que algo está para acontecer, o que me fez perceber que o clímax estava perto apesar de faltarem dezenas de páginas. O matemático passa semanas revirando os antigos registros e calcula a localização da Segunda Fundação. Então, percebendo que vai morrer, elimina todos os rascunhos e diz ao casal que vai revelar o segredo só a eles — na frente do palhaço. Antes que ele diga, a esposa explode sua cabeça. O marido cobra uma explicação. E ela demonstra, item por item da história que acabei de lhe contar (revendo muito mais e menores detalhes, é óbvio), que o palhaço só pode ser a própria Mula.

Pela primeira vez, o palhaço fala como um ser humano normal. E confirma.

Fim. As páginas seguintes eram de anúncios de outros livros.

Aí, sem sacanagem: li as trinta últimas páginas de um pulo. Eu virava, já ia pro final — porque percebi que algo importante estava acontecendo e não aguentava o suspense — e tinha que voltar para ler de verdade, devagar.

Talvez eu tenha visto uma quantidade suficiente de episódios de seriados que lidam com mistério. Talvez seja o fato de estar assistindo a Babylon 5, que é cheia de sinais espalhados ao longo da história e onde ninguém é o que parece. Talvez eu tenha visto episódios demais de Scooby-Doo. Talvez Asimov tenha dado bandeira, semeando muita coisa que parecia não contar para a história e, com isso, despertando minha desconfiança (afinal, é sempre assim: quando o mistério é esclarecido, você descobre que sempre tivera os elementos, que eles nunca pareciam importantes e que bastava tê-los ligado com senso crítico, sem o envolvimento que os personagens têm). Talvez o excesso de atenção dada pelo Autor ao palhaço, aliado ao fato de que ele, na verdade, nunca fazia nada nem contribuía para os acontecimentos, tenha colocado um holofote em cima dele. Talvez o palhaço fosse a famosa arma de fogo de Chekhov.

De um lado, fiquei me sentindo vitorioso, por ter decifrado o mistério antes que o Autor o revelasse. Por outro, fiquei pensando se não era exatamente isso que ele queria, em uma espécie de parceria comigo. Em 1942, Asimov lançou uma ponte para alcançar mentes no presente e no futuro, inclusive a minha. É como um pequeno vislumbre e compartilhamento daquilo que o divertia, como um pequeno presente que ele me deu. Só tenho a agradecer.

A seguir, O príncipe, de Maquiavel, em tradução de 1933 pela editora Calvino Filho; e, depois, a Segunda Fundação.

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Recém-lidas:
Os Novos Titãs no. 97 (abril de 1994), inclusive “Childhood’s End”, originalmente publicada em Team Titans #1-A (setembro de 1992);
primeiras histórias de Team Titans #1-A a 1-E (setembro de 1992), publicadas em Os Novos Titãs no. 100 (julho de 1994). A primeira é imitação da origem do Dr. Manhattan, de Watchmen. Todas têm premissas genèricamente interessantes, mas todas são cheias de clichês e têm péssimos diálogos, desenvolvimentos sofríveis e desenhos feios e carregados de poluição visual;
Action Comics #682 (outubro de 1992), “Gauntlet”, publicada em Super-homem no. 125 (novembro de 1994);
Justice League Europe #42 (setembro de 1992), “Mother of Monsters”, publicada em Liga da Justiça e Batman no. 7 (fevereiro de 1995) — os desenhos são pavorosos e o colorido está todo errado, mas a história traz um interessante desenvolvimento a Power Girl. A jovem ruma para resolver suas inseguranças através do contato com a deusa-mãe que, do interior da terra, estimula sua feminilidade e, com isso, nutre a vida e desperta a criatividade.

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