Bastou trocar a grafia e a mensagem ficou clara

Em outras postagens (como esta, esta e esta), comentei os livros da Fundação, onde Isaac Asimov imaginou seu Império Galáctico. Situado 21 mil anos no futuro, o Império é constituído de 25 milhões de planetas habitados, ocupando toda a Via Láctea.

Asimov foi categórico em mais de um desses livros: em todo o Império, a única vida inteligente é a humana. Quando explorados pelos primeiros visitantes, alguns planetas tinham plantas nativas, pouquíssimos tinham pequenos animais; nenhum tinha outra espécie autoconsciente. E assim tomamos esse espaço sem disputa, e deixamos a Terra para trás, e ninguém mais lembra onde ficava nosso planeta natal, cuja própria existência é matéria de debate.

Para um Autor de ficção científica tão prolífico, Asimov escreveu muito poucas histórias envolvendo alienígenas, nenhuma passada no universo do Império. Após alguns livros, esse contraste chama a atenção do leitor. Como poderia um Autor de scifi, dono de uma imaginação tão fértil, NÃO conceber que outros planetas da Galáxia pudessem ser habitados?

A resposta quem deu foi o próprio Asimov. Ao longo de suas centenas de livros, ele sempre reconta como seu primeiro grande editor foi John Campbell. Foi nas conversas com Campbell que surgiram as oito histórias originais e geniais da Fundação.

Conforme narrado pelo Bom Doutor, todas as vezes em que ele propôs histórias com alienígenas, Campbell acolheu a ideia mas sempre fez questão de que a raça humana fosse representada como melhor e superior. Na percepção de Asimov, esse monotema estava firmado em um racismo subjacente: a superioridade da espécie humana sobre os alienígenas seria uma alegoria para uma superioridade entre raças da própria humanidade. Em razão de suas convicções, Asimov ficou bastante incomodado com o racismo de Campbell, ainda que disfarçado, e recusava-se a escrever histórias onde essas noções estivessem sequer implícitas.

Mas ele precisava da aprovação de Campbell para conseguir vender seu material. Então, sua solução foi um meio termo: na Galáxia não haveria seres inteligentes senão os humanos. Pronto; não há comparação com mais ninguém, porque não há mais ninguém.

Do ponto de vista das histórias, fica difícil justificar essa escolha. Afinal, se a vida inteligente nasceu na Terra como resultado natural da evolução após apenas 4,5 bilhões de anos, então seria igualmente provável seu surgimento em pelo menos alguns dos milhões de planetas da Galáxia. Felizmente, Asimov não se esforçou para criar alguma explicação, que sempre soaria implausível. Simplesmente manteve essa unicidade da espécie humana como um mistério, sobre o qual seus personagens especulavam.

(Na verdade existe uma história ambientada no Império, chamada Blind Alley, onde a humanidade é contraposta a uma espécie inteligente nativa de outro planeta. Por ser a única nesses termos, destaca-se bastante entre as demais histórias, sendo a exceção que confirma a regra. Por sinal, é um conto excelente, e seu verdadeiro assunto é a burocracia imperial, não os alienígenas.)

Então, chegamos ao ponto onde li 77% de Foundation’s Fear, de Gregory Benford, na continuação autorizada das histórias da Fundação por Autores pós-asimovianos. Em meu exemplar (de ISBN 978-0-06-105638-3), na página 484, encontramos o seguinte diálogo entre Hari Seldon e sua esposa Dors:

O buraco de minhoca cúbico levou-os ràpidamente a várias docas em órbita próxima em torno de planetas. Um deles Hari reconheceu como um tipo raro com uma biosfera antiga porém arruinada. Como Panucópia, ele sustentava formas de vida avançadas. Na maioria dos mundos habitáveis, os primeiros exploradores haviam encontrado tapetes de algas que nunca se desenvolveram adiante.

— Por que nenhum alienígena interessante, então? — Hari se perguntou enquanto Dors lidava com os Homens de Cinza das docas locais.

Ocasionalmente, Dors lembrava-o de que ela era, afinal de contas, uma historiadora. — A mudança de criaturas unicelulares para multicelulares levou bilhões de anos, diz a teoria. Nós simplesmente viemos de uma biosfera mais rápida, mais durona, só isso.

— Também viemos de um planeta com pelo menos uma grande lua.

— Por quê?

— Temos incorporados padrões repetitivos de 28 dias. A menstruação, por exemplo — incidentalmente diferente da dos chimpanzés. Somos projetados pela biologia. Nós tivemos sucesso, essas biosferas não tiveram. Existem muitos meios de matar um mundo. Geleiras avançando quando uma órbita se altera. Asteróides se chocando, bam-bam-bam! — Ele bateu barulhentamente na lateral da cabine. — A química da atmosfera dá errado. Ela sai do controle até o planeta se tornar uma estufa ou congelar.

— Entendi.

— Humanos são mais resistentes — e mais inteligentes — do que qualquer um. Nós estamos aqui, eles não.

— Quem disse?

— Conhecimento comum, desde que o socioteórico, Kampfbel —

— Tenho certeza de que você tem razão — ela disse ràpidamente.

Nesse diálogo, emerge aquele mesmo racismo que Asimov evitou. “Viemos de uma biosfera mais durona”, “humanos são mais resistentes e mais inteligentes”. Seria uma forma de explicar como nosso planeta evoluiu mais rápido, mas também há uma crítica aí, escondida mais fundo.

Como é o nome do teórico que explicou a prevalência da raça humana? Kampfbel?

Campbell?

Em alemão, muitas vezes, a grafia “pf” indica o som de /f/, e muitas vezes os sons de /p/ e /f/ são intercambiáveis de uma língua para outra. Em particular, várias palavras do alemão têm um /f/ onde, em inglês, têm um /p/. Assim ship (em inglês) x Schiff (em alemão); apple (no inglês) x Apfel (no alemão).

Vê-se que “Kampfbel” é apenas uma transposição do nome escocês “Campbell” para alemão, com o duplo efeito de aproximar o nome de “Kampf” (luta), como no título de Mein Kampf, o livro onde Hitler verteu o núcleo de sua ideologia nazista, fundada na racista noção de superioridade da etnia ariana, a qual teve apoio de teóricos alemães de sua época.

Essa engenhosa equiparação de Campbell a um nazista, embora possìvelmente exagerada, é um pequeno Easter egg inserido por Gregory Benford em Foundation’s Fear. Imagino que tenha sido uma forma de Benford sinalizar ao leitor a verdadeira explicação, fundada no mundo real, para uma Galáxia deserta de outras formas de vida inteligentes na ficção; ou, pelo menos, sua forma de vincular Campbell a esse estranho fenômeno na obra de Asimov.

Trata-se de uma limitação de cenário imposta por Asimov como resposta à limitação mental de seu antigo editor. Um desentendimento político entre escritor e editor tem o efeito de moldar várias obras, e as consequências acabam ressoando décadas depois, quando os personagens continuam discutindo como é possível tamanha ausência de vida inteligente, como se criticassem seu Autor pela extrema improbabilidade.

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Gregory Benford e o Princípio de Lavoisier

Como já noticiei em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), prossigo no empreendimento de ler todas as histórias de Asimov ambientadas em seu universo dos robôs, do Império e da Fundação. Houve alguns desvios de rota, quando descobri que, sem querer, havia pulado algumas histórias que não conhecia e voltei para consertar essas omissões. Até agora, porém, acredito ter lido tudo em uma ordem relativamente próxima da ideal (i.e. ordem de publicação das histórias). Todos os livros que ainda restam à frente foram publicados depois dos que já ficaram para trás, que são:

  • I, Robot, de 1950 (contendo nove contos e uma história que os costura);
  • Foundation, de 1951 (contendo cinco noveletas e sendo o primeiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Foundation and Empire, de 1952 (contendo duas noveletas; segundo livro da Trilogia da Fundação);
  • Second Foundation, de 1953 (contendo duas noveletas; terceiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Pebble in the Sky, de 1950 (romance);
  • The Stars Like Dust, de 1951 (romance);
  • The Currents of Space, de 1952 (romance);
  • The Caves of Steel, de 1954 (romance);
  • The End of Eternity, de 1955 (romance);
  • The Naked Sun, de 1957 (romance);
  • The Early Asimov, de 1974 (contendo histórias que são verdadeiros rascunhos do universo dos robôs e da Fundação, mais os contos Blind Alley e Mother Earth);
  • The Rest of the Robots, de 1964 (com contos que não entraram em I, Robot);
  • Nightfall and Other Stories, de 1969 (com mais alguns contos que ficaram de fora);
  • The Bicentennial Man and Other Stories, de 1976 (com a noveleta de mesmo nome);
  • The Complete Robot, de 1984 (com os contos faltantes até aqui);
  • Foundation’s Edge, de 1982 (romance);
  • The Robots of Dawn, de 1983 (romance);
  • Robots and Empire, de 1986 (romance);
  • Foundation and Earth, de 1986 (romance);
  • Robot Dreams, de 1986 (com os contos faltantes até aqui);
  • Prelude to Foundation, de 1988 (romance);
  • Nemesis, de 1990 (romance);
  • Robot Visions, de 1990 (contos e ensaios);

e então Asimov morreu em 1992, deixando o romance Forward the Foundation, de 1993, completo porém póstumo.

Enquanto Asimov ainda vivia, em 1989, seu amigo Martin Greenberg editou uma compilação de diversos Autores intitulada Foundation’s Friends, ambientada no universo dos robôs e da Fundação. Naturalmente, tive que lê-la, já na segunda edição, de 1997, que contém obituários do Bom Doutor.

Estou agora relativamente perto do fim. Faltam três livros ambientados neste universo: Foundation’s Fear, de Gregory Benford; Foundation and Chaos, de Greg Bear; e Foundation’s Triumph, de David Brin. Essas três obras, todas posteriores ao falecimento do Grande Mestre, foram autorizadas por seu espólio e, portanto, constam das listas de obras oficiais, compondo a “Segunda Trilogia da Fundação”. Quando terminar esses três livros, abordarei alguns contos esparsos escritos por fãs, mais a história de toda essa bibliografia narrada por Johnny Pez, e darei o trabalho por encerrado.

Por ora, estou deixando de lado algumas séries de romances de outros Autores, também autorizadas por Asimov e ambientadas no mesmo universo porém, até onde pesquisei, suficientemente autônomas. São uma espécie de via acessória, um meandro para fora do rio, aproveitando elementos da história principal mas sem contribuir de volta para dentro dela nem lhe dar continuidade. Pretendo voltar a estes livros oportunamente, mas já não têm prioridade. São as séries Isaac Asimov’s Robot City, Robots and Aliens e Robot Mystery e a trilogia Caliban. Por fim, o romance não autorizado Psychohistorical Crisis, também deixado para depois.

Lembro ao Leitor que as noveletas e romances da Fundação têm como base os últimos dias de glória do Império Galáctico, que está em seu ápice no momento em que entra na história o teórico Hari Seldon. O talentoso Seldon cria um ramo da Matemática chamado Psico-História, no qual consegue descrever o comportamento de populações humanas por meio de equações. Manejando esse conhecimento, Seldon percebe que, contrariando o senso comum e as evidências imediatas, o Império já começou seu declínio e, em alguns séculos, estará fragmentado em barbárie. Os primeiros livros da Fundação narram como Seldon institui uma forma de restabelecer a civilização após o fim do Império, e os últimos dois livros da Fundação escritos pelo próprio Asimov (Prelude to Foundation e Forward the Foundation) são prequels, contando a vida de Seldon e as experiências que o levaram a formular a Psico-História.

O que me motivou a escrever hoje foram algumas descobertas que fiz ao ler Foundation’s Fear, de 1997. Este livro ambienta-se entre as partes I e II de Forward the Foundation e pretende revelar algumas experiências com que Seldon completou lacunas na modelagem da Psico-História.

Capa de Foundation's Fear

O medo é do que aconteceria com a Trilogia depois que Asimov morreu!

Até agora li 67% do livro e não estou bem impressionado. Para começar, já fiquei um pouco decepcionado quando descobri que a Segunda Trilogia não era a continuação das histórias da Fundação, pois se ambientava em momentos intermediários dentro de histórias já publicadas. Minha experiência com prequels e midquels* já não é boa, depois dos pequenos desastres de Star Trek: Enterprise e Discovery e de Star Wars Episódios I, II e III. Só que isso não seria um problema se o livro fosse bom.
* Midquel: um termo que acabei de inventar para me referir a histórias passadas no meio de outras. Você viu primeiro aqui!

Vejamos. Em determinada passagem, dois personagens coadjuvantes recuperam e incrementam arquivos de computador que são reconstruções de Voltaire e Joana d’Arc. Postas a rodar em um ambiente virtual, essas reconstruções deveriam comportar-se exatamente conforme os originais, permitindo que a plateia comparasse os pontos de vista respectivos, da Razão e da Fé. Entretanto, as duas simulações descobrem que são apenas imitações digitais, e o livro gasta dezenas de sofridas páginas descrevendo as percepções que as duas personalidades têm do ambiente do computador por dentro. Ora é como se estivessem dentro dos cenários de Tron, ora dentro de um holodeck de Jornada nas Estrelas, só que com inúmeras metáforas, subjetivismos, simbolismos, e, na maior parte do tempo, não dá para saber do que estão falando. Foi um suplício superar essas passagens, que não dizem nada e só enrolam o leitor em verborragia e cansaço. Há pouco ou nenhum propósito, e nenhum nexo, em relação ao restante do próprio livro e à obra original de Asimov. Uma perda de tempo rematada.

De repente, do nada, Benford leva Hari Seldon a tirar férias no planeta turístico Panucópia, cujos visitantes dividem seu tempo entre a beira da piscina, as festas e os safáris. Originalmente, o clima tropical de Panucópia serviu para que cientistas pesquisassem o comportamento de vários animais selvagens em seu estado natural, o que é muito raro no Império Galáctico. Com a limitação de fundos para pesquisa, os cientistas tiveram que ser criativos, construindo um hotel de luxo junto à base e cobrando por visitas guiadas à selva. O dinheiro assim arrecadado passou a financiar a continuidade dos trabalhos.

É importante entender que, na Galáxia das histórias da Fundação, há milhões de planetas habitáveis, muitos dos quais colonizados pela raça humana e compondo o Império Galáctico. Não existe vida inteligente além da humana (exceto em Blind Alley e em dois dos primeiros contos de robôs), e as poucas faunas e floras nativas foram facilmente dominadas. Na Era Galáctica (para além do século 180), a humanidade abandonou a Terra há tanto tempo que ninguém mais sabe onde ela ficava, a tal ponto que é considerada um mito, e todo o conhecimento sobre este planetinha é apenas o resultado de deduções com base em evidências praticamente inexistentes.

Então, em Fear, o chefe dos pesquisadores de Panucópia explica a Seldon que os animais do planeta não são nativos, tendo sido levados para lá por alguma expedição muitos milênios antes, tanto tempo que ninguém mais sabe como nem para quê. Supostamente seriam animais oriundos da Terra nos quais teriam sido feitos experimentos genéticos que transformaram as espécies originais. O livro refere-se a símios chamados “pans”, que, pela descrição, tenho certeza de que são chimpanzés. Refere-se, também, a “rabuínos”, o resultado de experimentos sobre outros símios (òbviamente babuínos) que os teriam transformado em uma nova espécie, carnívora, onde as mãos teriam evoluído para garras curtas e as patas traseiras teriam ganhado força para correrem. Refere-se, ainda, a “gigantílopes”, que, pela descrição, seriam paquidermes supostamente derivados dos antílopes.

Um dos serviços oferecidos por Panucópia é a imersão, criada originalmente para fins científicos mas depois estendida aos turistas. Alguns símios foram submetidos a cirurgias, com a implantação de circuitos elétricos e antenas diretamente no cérebro. Na estação de pesquisa, a cada animal fica associada uma câmara de imersão, onde um usuário se conecta e recebe sinais do sistema nervoso do animal. A imersão dá acesso imediato ao que o símio está vendo e ouvindo, a suas emoções e a toda a sua percepção subjetiva, essencialmente permitindo que o usuário viva o chimpanzé. Uma longa passagem de Foundation’s Fear narra como Seldon experimenta a imersão sucessivas vezes, estudando o comportamento dos “pans” como uma versão simplificada do comportamento humano, sem os vernizes civilizatórios que escondem as motivações animais subjacentes a nossos atos. (Aliás, neste ponto lembra muito aquele filme doido, Being John Malkovich, onde as pessoas conhecem o ator “por dentro”.)

Em toda essa passagem, os pans são ameaçados por bandos de rabuínos, e há um momento em que Benford se refere a estes predadores pelo nome científico Carnopapio grandis. Teòricamente rabuínos não existem, mas, mesmo assim, joguei esse nome no Google com a noção de obter alguma descrição precisa, alguma ilustração, quiçá até de descobrir que, na verdade, seriam babuínos, apenas com outro nome.

Foi aí que algumas revelações se descortinaram para mim.

Primeiro, descobri que os rabuínos e gigantílopes não foram inventados por Benford. Ambas as espécies constam do livro de ficção biológica After Man: a Zoology of the Future, do escocês Dougal Dixon, publicado em 1981. Dixon especula sobre espécies que poderiam surgir na Terra 50 milhões de anos após o fim da raça humana.

Até aí, tanto melhor. É sempre bacana ver a criação de um escritor sendo aproveitada por outro, que constrói uma história em cima.

Só que o Google também me mostrou que o nome Carnopapio grandis aparecia em outro livro. Immersion, de Gregory Benford, aparece na Internet Speculative Fiction Database como uma história publicada em março de 1996 e integrante da antologia Immersion and Other Short Novels, de 2002.

Capa de Foundation's Fear

Se você plagia a si mesmo, não é plágio.

Pela evidência que encontrei no Google Books, percebo que Immersion é exatamente o trecho de Foundation’s Fear ambientado em Panucópia, palavra por palavra. Houve mera troca dos nomes dos personagens, a substituição de Panucópia pela África, a dos “pans” por chimpanzés e a da Psico-História por Sócio-História, o que é muito fácil de se conseguir com a função “substituir tudo” do Word. Como o Google Books nunca mostra o conteúdo inteiro dos livros, não pude comparar as duas obras com precisão milimétrica, mas a amostra que tive foi suficiente.

Aliás, conforme lia Foundation’s Fear, percebi que as várias partes do livro são completamente desconexas umas das outras. É como se fossem obras distintas que foram reunidas dentro de um mesmo par de capas, sem uma verdadeira costura que as ligasse. Esse vício de origem fica particularmente claro quando se vê que Benford foi capaz de reaproveitar uma parte inteira do livro como uma noveleta autônoma de algum sucesso, trocando apenas os nomes dos personagens.

Na medida em que Immersion está datada de 1996 e Foundation’s Fear é de 1997, poderíamos pensar que, na verdade, a primeira obra seja a original e a segunda, seu reaproveitamento. Porém, do que li de Immersion, o personagem principal traz características de Hari Seldon. Além disso, claramente sua Sócio-História, baseada em Matemática, é a Psico-História imaginada por Asimov. Portanto, o conteúdo de Immersion já foi concebido com elementos do universo de Asimov, apenas com outros nomes. E a diferença de tempo entre os lançamentos das obras é de apenas um ano. Minha hipótese de trabalho é que esta parte de Fear tenha ficado pronta antes do resto do livro e Benford a tenha lançado antes, possìvelmente até para ter uma estimativa do sucesso que faria o romance mais longo.

Igualmente lamentável é o fato de que esta parte de Foundation’s Fear é a única que conseguiu atrair meu interesse em alguma medida. Até aqui, a maior parte do livro foi um lodaçal, onde avancei contra enorme resistência. Maçante, monótono, perdido em digressões sem ir a lugar nenhum.

As críticas que faço a Foundation’s Fear são várias e estão muito bem resumidas por esta resenha de alguém que se apresenta com o pseudônimo Stettin Palver**, que encontrei quando pesquisava para este artigo, em <http://www.scifi-review.net/foundations-fear-by-gregory-benford.html>. Traduzindo as partes mais relevantes:
** Stettin Palver é o nome de um dos personagens de Forward the Foundation.

“1. Buracos de minhoca: existe uma vasta rede de buracos de minhoca que parece ser parcialmente natural e parcialmente artificial, criada e mantida para ligar o Império. Este é um conceito completamente novo e que é acrescentado, aparentemente do nada [em contraste com o fato de que, nos livros da Fundação de Asimov, a navegação espacial é feita pelo hiperespaço, sem menção a nenhum buraco de minhoca]. Onde estavam esses buracos de minhoca no resto da série de Asimov? Benford não faz qualquer tentativa de reconciliar essa inconsistência [o que poderia fazer facilmente com a famosa técnica da continuidade retroativa]. O próprio Asimov sempre se desculpava em retrospecto após se descobrir que eram impossíveis as tecnologias ou teorias que ele integrava nas histórias, mas não vejo por que haja a necessidade de ACRESCENTAR tecnologia a uma série que já está tão bem estabelecida.

“2. Tiktoks: robôs com mentes simples são usados como mão de obra. Estes não são mencionados por Asimov neste ponto da linha de tempo [da Fundação], onde seres mecânicos são tabu. Benford salta e associa o tabu apenas à função mental e à aparência [humanoide]. Não creio que Asimov aprovasse.

“3. Sims: eu fiquei incomodado pelo arco de história das simulações de Joana d’Arc e Voltaire na primeira vez em que li este livro, e isso não mudou. Sims também são tabu na mesma categoria dos Robôs. Essencialmente 150-200 páginas são dedicadas a exposição de personagens para estas duas simulações e à questão se a vida digital está ‘viva’ ou possui uma alma. Já li resenhas que sugeriram que o romance fica muito melhor simplesmente pulando esta parte, e tenho que concordar [eu também — não contribui em nada]. Se você gosta de diálogo teológico que não tem qualquer impacto no conjunto da história, siga em frente e leia.

“4. Panucópia: esta parte tem aproximadamente cem páginas, mas creio que as ideias poderiam ter sido apresentadas muito mais concisamente. Entretanto, essas foram provàvelmente as cem páginas de texto mais rápidas de todo o romance [para mim também]. Definitivamente, Benford me manteve interessado, pois eu li essa parte inteira de uma assentada só, o que é incomum para mim, especialmente em relação a este romance.

“5. Erros: ‘Dors Vanabili’ deveria escrever-se ‘Venabili’. Se você está dando continuidade à obra de um grande mestre como Isaac Asimov, pelo menos verifique os nomes dos personagens! (…)

“6. Tudo mais: há uma nova tecnologia constantemente sendo introduzida e excessivamente explicada ao longo de todo o livro. Foi só por volta da página 30 que eu percebi isso pela primeira vez. Isso faz com que o Império pareça muito mais avançado e nem tanto em declínio assim.”

Você poderia perguntar, “então por que não pára de ler Foundation’s Fear?” A resposta está no início do texto: após 23 livros, faltando apenas três (e sei lá se os próximos dois são melhores), não vou pular esta parte da saga só porque é chata. Houve outras quase tão chatas quanto (lembro-me de Black Friar of the Flame e de dois dos três romances do Império) e, mesmo assim, prossegui. Não vai ser agora, faltando tão pouco, que vou deixar um vácuo e ficar sem saber o que aconteceu.

EOF

Resenha: Forward the Foundation. Capítulo final (mas nem tanto)

Nesta postagem, tracei um panorama dos livros pelos quais Isaac Asimov é mais conhecido e que se passam no universo dos robôs e da Fundação.

Desde então, já li The End of Eternity e Nightfall e estou lendo Forward the Foundation. A saber:

– Em regra, The End of Eternity é tratado como um livro que não se relaciona ao universo da Fundação e do Império. No entanto, alguns textos de melhores conhecedores indicaram que havia uma ligação. Agora posso confirmar que ele faz, sim, referência a esse universo, mas podemos entender por que é costumeiramente tratado fora do conjunto. É uma história que em NADA influi na história da Fundação. Por outro lado, (1) faz referência a uma tecnologia primeiramente mencionada nos livros da Fundação (não direi qual tecnologia, mas tampouco faz diferença), e (2) a história (e as justificativas) por trás do próprio End of Eternity, que só ficam claras ao fim do livro, só fazem sentido para quem tiver lido os livros da Fundação.

– Até agora, Nightfall não parece guardar qualquer ligação com o universo da Fundação. Trata-se de uma novela desenvolvida a partir do supercelebrado e premiado conto de mesmo nome, publicado em 1941. O terço central da novela é essencialmente uma transcrição ipsis litteris do conto, apenas mudando parcialmente os nomes dos personagens. Os outros dois terços são acréscimos de Robert Silverberg. Especulo, porém, se até o fim de Forward the Foundation encontrarei ligação, ou quiçá em algum dos livros com que outros Autores deram continuidade à obra do Bom Doutor.

Forward the Foundation é uma prequel. Na cronologia dos eventos da série, encaixa-se exatamente entre a prequel anterior, Prelude to Foundation, e o próprio Foundation. Ambos são leituras necessárias para que Forward faça sentido. Aliás, mesmo antes de terminar Forward, já percebi que engatará precisamente ao início de Foundation da mesma forma como Rogue One engata ao início do Episódio IV de Star Wars.

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O que me traz aqui hoje é o reforço de uma constatação. Na abertura de Nemesis, Asimov diz que este livro não tem qualquer ligação com os livros dos Robôs ou da Fundação, embora admita que, mais tarde, se tivesse tempo, pudesse tentar vinculá-los de algum modo (como já tinha feito ao unir os contos de robôs, os romances de robôs e as histórias do Império e da Fundação). Conforme já detalhei na postagem anterior, ele termina Nemesis com uma referência bastante óbvia e um tanto indireta, onde os conhecedores poderão ver que, na verdade, a ligação já está feita; apenas não está detalhada.

Pois muito bem. Nemesis foi publicado em 1990. Não se passaram mais do que dois anos para que seu Autor reforçasse a inserção desse livro no universo da Fundação. Em Forward the Foundation, na parte 4, capítulo 5, página 327 (no meu exemplar, com ISBN 978-0-553-56507-2), o protagonista comenta:

Existe uma história curiosa, de cerca de vinte mil anos atrás e portanto datando das origens enevoadas das viagens hiperespaciais. É sobre uma jovem, com não muito mais idade do que Wanda, que conseguia se comunicar com todo um planeta, que circundava um sol chamado Nêmesis.

Na verdade, o “planeta” era uma lua, Erythro, que orbitava um planeta, e este, sim, orbitava Nêmesis. Mas não importa. Nota-se, nesse parágrafo, que Forward vem integrar Nemesis ao universo da Fundação, justamente ao tempo em que é o último livro deste universo escrito por Asimov.

A primeira interpretação que nos vem é que, tal como no caso de outras “lendas” do universo da Fundação, a história de Nemesis faz parte da continuidade e só ganhou o rótulo de lendária por causa do decurso de vários milênios. Mas considere o Leitor que vários dos elementos de Nemesis tornam este livro incompatível com o universo da Fundação, especialmente a ausência de menção a robôs e a invenção relativamente tardia da propulsão hiperespacial. Com essa perspectiva, posso admitir a ideia de que, dentro do universo da Fundação, Nemesis tenha sido realmente uma história de ficção, não uma história real transformada em lenda.

Mas admitamos que Nemesis faça parte do universo da Fundação, já que essa parece ter sido a sutil intenção do Autor, que certamente se divertiu com a perspectiva de que seus Leitores a perceberiam. Há inconsistências, mas são até esperadas, pois o próprio Asimov sempre se confessou preguiçoso em ficar perseguindo continuidades absolutas entre seus livros. Nem se poderia esperar outro resultado, considerando que os escritores mudam com o tempo e que é muito difícil respeitar continuidades em universos construídos ao longo de anos (vejam os casos da Terra Média de Tolkien, dos quadrinhos da DC e da Marvel, de Star Trek, e até mesmo de Babylon 5, que foi desenvolvida ao longo de um intervalo bem mais curto do que os desses exemplos).

Infelizmente, e justamente por causa dessa virtude de se conectar a livros anteriores, Forward the Foundation padece de uma síndrome: o Autor estava jogando para a galera. Nisso ele foi até explícito, pois a dedicatória do livro diz que é para todos os seus leitores leais. Em inglês, o nome disso é fan service. Trata-se do mesmo mal que acomete produções criadas depois que já existem legiões de fãs de uma original, como é o lamentável caso de Star Trek: Discovery. #faleiesaícorrendo

Explico-me. Nos anos 1940, Asimov foi inovador, genial e vigoroso ao imaginar um pujante Império Galáctico. No primeiro livro da Fundação, o visionário Hari Seldon fazia uso de indecifráveis abstrações matemáticas para prever que, contrariando todas as aparências e o bom senso do cidadão comum, o Império estava em decadência, rumando para uma inevitável extinção em cerca de trezentos anos. À volta dos personagens, tudo parecia indicar a continuidade do progresso dos milênios antecedentes, sem qualquer evidência de que o Império pudesse um dia rumar para o fim. Os sinais da queda sòmente podiam ser detectados nos fenômenos socioeconômicos de larga escala e com ferramentas avançadas de análise. Essa era a genialidade inovadora que Asimov somou à inspiração que lhe viera do Declínio e queda do Império Romano.

Assim é que Fundação começa sob a óptica de um cidadão das províncias visitando Trantor, o planeta-capital, e deslumbrando-se, olhos arregalados a maravilhas oriundas de todos os cantos da Galáxia, a uma atividade frenética e incessante de ruas lotadas, cores, luzes e a uma azáfama onde é fácil se perder. Ao longo desse livro, dos dois seguintes da trilogia (Foundation and Empire, Second Foundation) e dos dois romances ambientados subsequentemente (Foundation’s Edge, Foundation and Earth), o Leitor tem o privilégio de acompanhar panoramicamente a contração, a perda de controle e a Queda do Império, seguidas pelo ingresso de seus planetas na mesma escuridão milenar em que caiu a Europa ao fim do Império Romano. Perde-se o antigo conhecimento e todas as maravilhas retraem ao status de lendas. Mas eu reforço: na pioneira e histórica inauguração do primeiro livro da Fundação, os contemporâneos de Hari Seldon, especialmente os habitantes de Trantor, não tinham como perceber qualquer evidência da já iniciada decadência.

Já em Forward the Foundation, de 1993, presume-se que o Leitor já conheça todas as histórias publicadas anteriormente e portanto já saiba o destino do Império. Nesta prequel, o Leitor acompanha a vida de Hari Seldon a desenvolver a Psico-História enquanto é cercado de graves eventos políticos em Trantor. As cinco partes do livro retratam diferentes momentos da vida do matemático, separados um do outro por dez anos cada, e ao Leitor são reveladas a melancolia e a impotência de Seldon à medida que sinais óbvios se acumulam de que o Império já não consegue se sustentar. A dissipação e a insuficiência de recursos, o decaimento das instalações, o esvaziamento das ruas e das instituições, a rebeldia das províncias, tudo são evidências cumulativas, e os outros personagens gradualmente são forçados a concordar com a inevitabilidade do fim.

Mas justamente esse é ponto! Certamente, para o Bom Doutor, a lembrança que ele tinha, e a percepção que ele sabia que seus leitores teriam, era de que o Império estivesse em colapso ao tempo de Hari Seldon. Ao escrever Forward the Foundation, Asimov sabe que o Leitor tem seu próprio conhecimento privilegiado de que o Império está em crise, e então apresenta ao Leitor um cenário que confirma esse conhecimento, construído pelos livros anteriores. Só que é através dos olhos dos personagens que ele descreve um tal cenário. O Autor parece esquecer-se de que, na concepção original, os personagens não teriam sido capazes de perceber a decadência, nem muito menos deveriam ser capazes agora, em uma prequel. Por isso digo que, trazendo alegria e conforto ao Leitor ao confirmar seu antigo conhecimento, Asimov está jogando para a galera e, com isso, desrespeitando as ideias que ele mesmo havia construído.

Infelizmente, e decerto por causa dessa revisita a antigos conceitos, Forward the Foundation deixa de ter o vigor inovador dos primeiros livros. Em vez disso, parece atender ao desejo de quem espera ler mais do mesmo na longa fileira de títulos iniciada meio século antes.

Forward também enfatiza o envelhecimento de Hari Seldon. Em um período de cinquenta anos, o matemático vai gradualmente perdendo seus entes queridos, sua saúde e suas esperanças. Consequentemente, seu humor torna-se mais resmungão e mais impaciente, suas alegrias escasseiam, e vão crescendo seus sensos de urgência e de desamparo diante da crescente noção de que não conseguirá completar sua obra magistral, perdendo-se o esforço de décadas. Tenho certeza de que essa descrição é um intencional espelho dos sentimentos do próprio Asimov, que já contava 72 anos quando escreveu este último romance.

Até agora, só li 84% de Forward, mas desde o início já me vinha o sentimento de estar me aproximando do fim de uma jornada, pois foi a última visita que Asimov fez a seu tão longamente elaborado universo da Fundação — e todavia ainda com tanto, virtualmente infinito espaço para crescimento. Prova disso é que, após esta obra póstuma, ainda viriam outros quatro títulos autorizados para lhe dar continuidade sob a pena de outros escritores notáveis: Foundation’s Friends, Foundation’s Fear, Foundation and Chaos e Foundation’s Triumph. Serão os próximos na minha fila.

Além desses, há ainda mais numerosos romances não autorizados, ambientados no mesmo universo, como os da série Robot Mystery (quatro até agora), a Segunda Série dos Robôs, de Roger MacBride Allen, e romances isolados como Psychohistorical Crisis, de Donald Kingsbury.

… Aos quais chegarei no devido tempo. Por hoje, é o que eu tinha a comentar. :-)

Às vezes a gente se engana

Estava assistindo ao episódio de Star Trek: the Next Generation intitulado “Emergence”, onde o computador da Enterprise adquire uma forma rudimentar de autoconsciência. Nas palavras (traduzidas por mim) do dicionário Merriam-Webster, “emergence” é “o ato de se tornar conhecido ou visível”, ou “a condição de recém-formado ou recém-proeminente”. O título do episódio traz a ideia da inteligência do computador emergindo de um mar de dados até então desconexos e fazendo-se conhecer, que é justamente o que acontece na história. Essa palavra está ligada ao verbo “emergir”, então poderia se traduzir talvez como “emersão”, mas certamente não com o nome que ganhou no Brasil, “Emergência” — pois essa palavra seria a tradução de “emergency”, que é outra coisa.

… Mas, voltando, estava assistindo ao episódio, e há uma cena onde Data fica segurando um táxi pelo pára-choque.star_trek_the_next_generation_1987_2811_medium

Não se consegue ler o primeiro caracter da placa, mas os caracteres legíveis são “20638”.

Vejamos. 6-38 remete a junho de 1938. Sabe qual foi a famosa edição publicada com data de junho de 1938?
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Então, sendo fã de quadrinhos, é claro que, de imediato, eu pensei que essa fosse uma referência. O modelo de carro é certamente semelhante.

Só que, pesquisando melhor, fui ver que a data de publicação de Action Comics #1 não foi em 20 de junho, nem na semana de 20 de junho (o que também é relevante, pois o que se costuma usar como referência é a segunda-feira da mesma semana, e não o próprio dia). Também descobri aquela letra H na frente e para ela não encontrei explicação.

A conclusão imediata é que provàvelmente se tratava de mera coincidência. Outra conclusão, de âmbito mais amplo, é que não é pra ficar vendo referências que não estão lá, feito aqueles devotos que veem a face de Jesus Cristo em qualquer fatia de pão torrado.

EOF

O Bom Doutor, esse espertinho

Já por algumas vezes tentei escrever meu texto definitivo sobre o universo comum onde se passam inúmeras das histórias do futuro de Isaac Asimov. Terminei alguns textos parciais, que você encontra neste mesmo belogue. Agora, acho que saiu o texto que eu tanto queria. Não é definitivo, porque ainda não acabei de ler todos os livros do dito universo, mas já transmite a visão global que eu vinha buscando há um tempo.

O prolífico escritor americano Isaac Asimov (Petrovichi, Rússia, 1920 – Nova Iorque, 1992) publicou algumas centenas de livros. A maioria são de divulgação científica, mas os livros que o tornaram mais famoso foram os de ficção científica, em particular os contos de robôs positrônicos, aos quais o Autor ficou para sempre associado.

Nem todas as obras de ficção científica de Asimov tratam de robôs. O Bom Doutor publicou vários contos e romances, muitos dos quais são independentes, completamente desconectados de qualquer outra obra. Entetanto, muitos outros (perfazendo cerca de três dezenas de livros) são ambientados em um mesmo universo, a que os textos especializados se referem como o universo dos Robôs, Império e Fundação. Trata-se de uma extensa obra já revirada e analisada por uma multidão de leitores fiéis, que descreve o futuro da humanidade ao longo de milênios e que trouxe a Asimov reconhecimento como um dos maiores Autores de ficção científica até hoje. Nestes livros, os longos diálogos entre os personagens são o veículo para aquilo que mais tarde se convencionou chamar de world-building: extensas descrições da História, Geografia e sociedade do futuro, em uma visão grandiosa onde mais importante é o cenário do que as histórias.

Estes livros foram publicados ao longo de cinco décadas, na ordem em que ao Autor veio a vontade de escrevê-los: uma ordem bem diferente daquela em que se passam seus eventos. Então, existem pelo menos duas formas de se ler esta criação: a ordem histórica de publicação (à qual sempre dou preferência, tal como faço com quadrinhos, J.R.R. Tolkien, Jornada nas Estrelas e Babylon 5) e a ordem cronológica em que os eventos transcorrem no universo criado pelo Autor. As duas ordens estão minuciosamente analisadas em numerosos saites na Web. Para seguir a ordem histórica de publicação, pode-se procurar o artigo na Wikipedia, assim como numerosas fontes online; para seguir a ordem cronológica dos eventos, pode-se procurar a Lista de Ficção Insanamente Completa de Johnny Pez. Para uma história que explica como surgiu e evoluiu esta grande obra espalhada em vários livros, clique na Parte 1 da História das Histórias de Robôs Positrônicos e da Fundação.

Daqui para baixo, SPOILERS. Você foi avisado.

De 1939 até 1982, Asimov criou três universos narrativos sem conexão entre si:

1) Os contos de robôs, ambientados no Sistema Solar no século 21. A colonização dos planetas é auxiliada pela mão de obra dos robôs positrônicos, que são proibidos na Terra mas largamente empregados no espaço. Um número significativo destas histórias é protagonizado pela Robopsicóloga Susan Calvin; algumas, de fundo mais cômico, pelos especialistas Powell e Donovan. A maioria das histórias explora as consequências das Três Leis da Robótica, uma criação de Asimov que caracteriza seus robôs como máquinas úteis à raça humana, evitando o Complexo de Frankenstein. A maior parte destes contos estão agrupados nas coletâneas I, Robot (o mais famoso de todos os livros de Asimov, de 1950), The Rest of the Robots (1964), The Bicentennial Man and Other Stories (1976), Robot Dreams (1986), Robot Visions (1990) e na que reúne os dois primeiros, The Complete Robot (1982), embora alguns contos desses livros não façam parte do universo dos contos de robôs, por não serem compatíveis com as Três Leis.

2) Os romances de robôs, ambientados alguns milênios em nosso futuro. Fazendo uso da tecnologia hiperespacial, a humanidade alcançou cinquenta planetas em sistemas estelares próximos e neles fundou colônias, cujos habitantes são denominados Spacers. As colônias têm baixíssima densidade populacional, enquanto a Terra, superpovoada, é vista por elas como um planeta atrasado, doente e decadente. Enquanto a Terra continua a rejeitar a presença de robôs, as colônias fazem extenso uso deles como sua principal mão de obra. Isso as torna tão economicamente eficientes que a vida dos Spacers é um paraíso hedonista, onde ninguém precisa trabalhar e todos são mais saudáveis e longevos do que seus contemporâneos terráqueos. Essa dicotomia provoca hostilidade entre os dois grupos de humanos, terráqueos de um lado e Spacers do outro, os últimos vendo-se como um novo passo da evolução e os primeiros percebendo-os como elitistas esnobes. Oriundo de Nova Iorque, o Detetive Elijah Baley investiga homicídios na Terra e nas colônias com seu parceiro improvável, o andróide R. Daneel Olivaw, e os dois tornam-se grandes amigos. As obras são os romances The Caves of Steel (1954), ambientado em Nova Iorque, e The Naked Sun (1957), ambientado na quinquagésima colônia, Solaria, mais o conto Mirror Image (1972). Ainda, o conto Mother Earth (1949) passa-se alguns séculos antes dos romances e não faz uso dos mesmos personagens, mas integra o mesmo conjunto.

3A) Os romances do Império, ambientados alguns milênios depois dos romances de robôs. A humanidade espalhou-se e colonizou toda a Galáxia. Dos inúmeros planetas ocupados, Trantor expandiu sua influência a ponto de se tornar a capital de um crescente império, cujo tamanho é diferente de um para outro livro. A Terra é um planeta radioativo, visto como a escória decadente da Galáxia (ou até esquecido, dependendo da época). Os romances são os fracos Pebble in the Sky (de 1950, sendo o mais conhecido e menos ruim deste conjunto), The Stars, Like Dust (1951) e The Currents of Space (1952). Não há robôs nestas histórias.

3B) A Trilogia da Fundação. Trata-se de oito noveletas publicadas isoladamente de 1942 a 1950 e posteriormente agrupadas em três livros, junto com uma nona e tardia história. Entre os admiradores do escritor, esta trilogia é considerada sua obra-prima, tendo sido fortemente inspirada pela leitura do clássico Declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon. As noveletas mostram os dias finais do Império, ainda sediado em Trantor e, a esta altura, existente já há 12.000 anos. O Império estende-se por todos os milhões de mundos habitados por humanos nesta Galáxia, cada um com sua variada cultura, totalizando quatrilhões de súditos. Sua eclética capital, toda coberta de edifícios, representa a epítome da burocracia, para ela afluindo representantes dos mais variados cantos da Galáxia. (Costumo dizer que Londres, capital de um império onde o Sol não se punha, é a mais próxima imagem que hoje temos de Trantor. Imagino que, em Star Wars Episódio I, George Lucas tenha criado Coruscant à imagem daquele planeta-cidade.) Nesse contexto, o cientista Hari Seldon cria um novo ramo da Matemática ao qual batiza de Psico-história. Nesta ciência, as equações formuladas por Seldon permitem deduzir as tendências comportamentais de grandes populações com base em leis sociológicas e probabilidades e, com isso, essencialmente prever o futuro com suficiente e assustadora precisão; quanto maior a amostra, mais acuradas são as previsões. Esse conhecimento avançado permite a Seldon descobrir que o Império já está decadente e cairá em poucos séculos. Da mesma forma, para se atingir determinado resultado a longo prazo, as previsões da Psico-história permitem identificar quais são as ações eficazes. Assim, para preservar o conhecimento de milênios e abreviar a iminente idade das trevas, Seldon calcula que o melhor a fazer é instituir a Fundação, uma nova organização que sucederá o Império em meio a guerras e outros conflitos planetários. A Trilogia narra os desdobramentos da criação da Fundação e do Plano de Seldon ao longo dos séculos subsequentes, sendo constituída pelos livros Foundation (de 1951, abrangendo quatro histórias mais uma que se passa antes das demais mas que foi escrita por último, especialmente para este livro), Foundation and Empire (de 1952, com as duas seguintes histórias originais) e Second Foundation (de 1953, com as últimas duas histórias originais). Não se veem robôs em qualquer um desses livros.

Em algumas destas histórias do Império e da Fundação, fica implícito e, noutras, explícito que a raça humana é a única espécie inteligente em toda a Galáxia. Com isso, Asimov pôde concentrar-se em descrever sòmente conflitos envolvendo a própria raça humana, sem preocupações com alienígenas. (Havia uma motivação editorial antirracista por trás disso, explicada por ele mesmo em The Early Asimov (1972), que não vem ao caso agora.) Como, porém, o Autor nunca se preocupou muito com coesão ou consistência, existem alguns contos de robôs, e outros tantos que mencionam planetas do Império Galáctico, onde se dá o confronto entre a humanidade e outras civilizações. Pode-se considerar que estas histórias estejam fora do conjunto das demais apesar de conterem elementos que lhes são comuns. São elas Victory Unintentional (de 1942, continuação de Not Final!, de 1941) e Black Friar of the Flame (de 1942, fazendo referência a Trantor e a outros planetas do Império). Uma outra, Blind Alley (1945), também envolve alienígenas, mas, mesmo assim, é compatível com os romances do Império.

As obras dos três conjuntos acima ambientavam-se em épocas tão distintas que seu tratamento era absolutamente independente. Essencialmente, Asimov exercitava-se em três universos desconectados, um no futuro próximo, outro no futuro distante e um terceiro no futuro bem remoto, sem nenhuma intenção, plano ou esforço de reuni-los. Esse comportamento mudou nos anos 80, quando o Autor começou uma grande unificação dos três universos ficcionais, fundindo-os em um só. Ao longo daquela década, os novos trabalhos passaram a incluir referências bastante ostensivas aos elementos de histórias já conhecidas, costurando os diferentes retalhos em um tecido único.

A tarefa começou em The Robots of Dawn (1983), que é mais um romance de robôs com Baley e Daneel. Ambientado em Aurora, a primeira das Cinquenta colônias, The Robots of Dawn faz referências a eventos dos contos de robôs como parte de um passado já distante, ao mesmo tempo em que um de seus personagens especula sobre um futuro onde seja possível prever o comportamento da civilização com alguma espécie de “Psico-história”.

Nesse ponto, havia uma incompatibilidade entre os períodos históricos dos universos dos robôs e da Fundação. Se a humanidade já entregara à tecnologia robótica todo o trabalho braçal nos romances de robôs, como se explicaria que, milênios depois, não houvesse um só robô nas histórias de Império e Fundação?

A resposta veio do romance de robôs seguinte, ambientado alguns séculos após The Robots of Dawn, com o título de Robots and Empire (1985). Aqui, aprende-se que, conforme fôra previsto em The Robots of Dawn, os Cinquenta Mundos estagnaram e suas culturas começaram a definhar em razão do uso indiscriminado de robôs, que tirou todo o desafio da vida colonial. Ainda no intervalo entre um e outro livro, iniciou-se uma segunda onda de colonização do espaço a partir da Terra, sem o auxílio de robôs. Os mundos da segunda colonização começaram a disputar espaço político com os primeiros, mas seu vigor tende a prevalecer. Ao fim, inicia-se um processo onde a Terra se torna gradualmente radioativa, motivando a emigração e o paulatino abandono pela humanidade, e as colônias da segunda onda estabelecem as bases de um futuro Império Galáctico sem robôs, com o concomitante desvanecimento das Cinquenta colônias originais. Fica explicada a origem da radioatividade da Terra e do esquecimento do planeta original da humanidade nos livros do Império e da Fundação.

Nesse meio tempo, Asimov publicou um romance continuando a Trilogia da Fundação, com o nome de Foundation’s Edge (1982). Após esse livro, assim como havia começado a estender para o futuro os romances de robôs de modo a conectá-los às histórias do Império e da Fundação, da mesma forma ele passou a estender-se também a partir da extremidade oposta, contando, em retrospectiva, como os Cinquenta Mundos haviam dado lugar ao Império. Assim, em Foundation and Earth (1986), continuação de Foundation’s Edge, os protagonistas partem em busca da Terra, agora já um planeta mítico, de cuja existência muitos duvidam. No processo, encontram restos de algumas das já abandonadas Cinquenta primeiras colônias, deparam-se com Daneel (ainda operacional após tanto tempo) e descobrem que ele foi o grande mentor, tanto da formação do Império como da posterior Fundação. Com Foundation’s Edge e Foundation and Earth, passa a haver uma Série da Fundação, para além da Trilogia original.

Pouco depois (1988), Asimov publicou a prequel Prelude to Foundation, que relata um momento da juventude de Hari Seldon, pouco após o matemático inventar o conceito de Psico-história. Em uma das passagens, descobre-se que o setor mais tradicionalista de Trantor é ocupado por descendentes dos habitantes de Aurora, em uma cultura que reverencia o passado perdido, em que eram mestres de robôs. Ao fim do livro, Seldon descobre que ainda existem alguns robôs, disfarçados entre os humanos, um dos quais é Daneel, que continua a influenciar vigorosamente a evolução da humanidade.

É inevitável que, ao longo de cinquenta anos de publicações e sendo tão numerosas as histórias, existam inúmeras inconsistências dentro desta majestosa obra. Apesar de ser um só Autor por trás de todos os livros, Asimov sempre se confessou indisposto ao esforço de compatibilizar novas histórias com as velhas, preferindo concentrar-se na diversão criativa e, por vezes, estabelecendo o que se costuma chamar de continuidade retroativa (quando novas obras essencialmente reescrevem o passado, substituindo o conhecimento dos eventos que o leitor tinha a partir de histórias mais antigas).

Eu só escrevi todo este resumo porque queria comentar o romance que terminei na semana passada, Nemesis, de 1989. Este foi o primeiro romance de Asimov que se pretendeu autônomo em sua obra desde 1972, com uma história original não relacionada às de robôs ou da Fundação. Ambientado no século 23, ele conta como a primeira colônia orbital sai do Sistema Solar e, em uma longa viagem, vai acercar-se de uma estrela anã vermelha descoberta a apenas dois anos-luz do Sol. Ao longo do livro, os personagens inventam a tecnologia hiperespacial, que permite viagens instantâneas entre localidades situadas a anos-luz uma da outra.

Na Nota do Autor ao início de Nemesis, Asimov diz (e traduzo livremente do original, pois não tenho à mão um exemplar da edição da Nova Fronteira) que “este livro não é parte da Série da Fundação, da Série dos Robôs, nem da Série do Império. Ele se sustenta independentemente. Apenas pensei em alertar o Leitor para evitar uma apreensão mal dirigida. É claro, posso um dia escrever outro romance ligando este aos demais, mas, por outro lado, pode ser que não. Afinal, por quanto tempo conseguirei chicotear minha mente para fazer funcionarem estas complexidades da História do futuro?”

Essa passagem é intencionalmente ambivalente. De um lado, Asimov liberava-se para escrever uma obra original, sem compromisso com o universo estabelecido entre robôs e Fundação. Por outro lado, nota-se a intenção, ainda embrionária, de inserir o livro no conjunto da obra maior.

No entanto, olha só o discurso de uma personagem que se encontra a duas páginas do fim do livro: “no fim, talvez a Galáxia venha a ter dois tipos de mundos, mundos de terráqueos e mundos de mais eficientes pioneiros, os verdadeiros Spacers. Eu me pergunto como isso se resolveria. Certamente significaria que o futuro estaria com eles. Em certa medida, eu lamento isso”. Nas duas últimas páginas, outro personagem “sabia que a humanidade correria de estrela para estrela tão facilmente como tinha corrido de continente para continente (…). A mesma anarquia, a mesma degeneração, a mesma mentalidade inconsequente de curto prazo, todas as mesmas disparidades culturais e sociais continuariam a prevalecer — por toda a Galáxia. O que haveria agora? Impérios galácticos? Todos os pecados e tolices graduados de um mundo para milhões? (…) Quem conseguiria enxergar sentido em uma Galáxia, quando ninguém conseguira enxergar sentido em um único mundo? Quem aprenderia a ler as tendências e prever o futuro em uma Galáxia inteira fervilhando de humanidade?”

Quando cheguei a esse trecho, imediatamente percebi o propósito do Bom Doutor. Era quase uma pilantragem: embora ele não assumisse qualquer compromisso de tornar Nemesis compatível com os livros anteriores, desobrigando-se de eliminar inconsistências e de conectar uma história às outras, estava claro que se referia ao período histórico dos romances de robôs, ao Império Galáctico e à Psico-história. Certamente é por causa dessas duas passagens que os pesquisadores situam Nemesis como “tangencialmente” situado no universo da Fundação.

Mais recentemente, descobri que o clássico The End of Eternity, de 1955, também “tangencia” a Série da Fundação. Considerando o ano de publicação, decerto o Autor terá feito isso de forma menos deliberada. Ainda assim, creio que terei que lê-lo prioritàriamente, antes de passar aos últimos livros: Forward the Foundation (1993) e, da pena de outros Autores, Foundation’s Friends (1989), Foundation’s Fear (1997), Foundation and Chaos (1998) e Foundation’s Triumph (1999).

Antes de fechar, quero apenas observar que todos esses livros (até onde sei) foram publicados no Brasil, vários em traduções castiças pela editora Hemus (nos áureos tempos), outros tantos pela Record. Nos últimos três ou quatro anos, os romances de robôs e do Império e os sete livros da Fundação têm saído em novas traduções pela editora Aleph, que parece ressurgida das cinzas com várias traduções de clássicos, não sòmente de Isaac Asimov mas também de Arthur Clarke, Philip Dick e outros veneráveis mestres. A meus estimados Leitores que porventura tenham tido a paciência de chegar até aqui, recomendo embarcar nessa viagem, que, até agora, já me tomou belos oito anos de leituras e há de tomar ainda mais alguns.

ATUALIZAÇÃO EM 4 DE MARÇO DE 2018:
Já li The End of Eternity e estou lendo Forward the Foundation. Veja como é que o primeiro se integra ao universo da Fundação e como foi que afinal Asimov conectou Nemesis a esse universo, clicando aqui.

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Resenha: Batman: Arkham Asylum: Tales of Madness #1

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Batman: Arkham Asylum: Tales of Madness #1 (May 98) é o capítulo Dezesseis do arco de histórias Cataclysm, onde um terremoto destrói Gotham City. Curiosamente, foi publicado depois do capítulo intitulado “Conclusão” (que saiu em Robin #53). Mas isso não faz diferença, porque a história é bastante autônoma e poderia entrar em qualquer ordem.

Tales of Madness é a única história de Cataclysm a mostrar o que aconteceu ao Asilo Arkham durante o terremoto. Ao detectar o sismo, um dispositivo automático de segurança fecha o acesso à área das celas, isolando os prisioneiros de seus captores. Entretanto, o Crocodilo consegue dominar os três guardas que estavam em sua cela na hora do terremoto e, na sequência, liberta o Coringa, o Espantalho, o Charada e duas internas introduzidas nesta história, Samantha e Vox.

Assim, invertem-se os papéis: os seis loucos matam dois guardas e prendem o terceiro, a quem passam a ameaçar. Isolados do resto do mundo pelo tempo que levar a chegada do resgate, decidem aterrorizar sua vítima. Inicia-se então um torneio onde ele será o árbitro e onde cada um deverá contar-lhe uma história. Será vencedor quem contar a história mais assustadora, ganhando o direito de matá-lo.  Com isso, introduz-se uma estrutura narrativa que vem dando certo desde o Decamerão, de Boccaccio, notòriamente nos Contos de Cantuária e, mais recentemente, em Sandman: Worlds’ End.

O que mais chamou minha atenção em Tales of Madness foi a arte: o desenhista Dave Taylor conseguiu o incrível feito de variar de estilo de uma para outra história a tal ponto que me fez duvidar de que fosse o Autor de todos os desenhos. Compare seus traços —

Na história principal (CLIQUE EM TODAS AS IMAGENS PARA AUMENTÁ-LAS):

Página 7

Na história de Vox (onde os desenhos parecem ter sido feitos por Mike Dringenberg, de The Sandman):

Página 15

Na história do Charada (onde os desenhos são como os de Uderzo e o Charada parece o Asterix):

Página 18

Na história do Crocodilo:

Página 21

Na história de Samantha (onde as linhas lembram muito as capas de Marvel 1602, de Scott McKowen):

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Na história do Espantalho (que nos remete ao simplório início dos anos 60):

BAAToM_1_p28Não sòmente isso, mas os desenhos da história principal são ricos em belíssimos e expressivos detalhes e contrastes. A necessidade de apreciá-los retardou minha leitura. Um exemplo é a impressionante escadaria de mármore na página 7, acima; outros são as páginas 25 e 26:

BAAToM_1_p25Página 26

Tales of Madness não é nenhuma especial contribuição ao Universo DC. É uma história bem independente e quase atemporal, que poderia encaixar-se em qualquer um de vários pontos da cronologia, na qual não me parece influir. De fato, não compromete nem é comprometida por outros eventos, e o terremoto aparece apenas como pretexto: sem nenhum prejuízo para a narrativa, poderia ser substituído por qualquer outro acontecimento. Seu principal valor é como banquete para os olhos, servindo como um mostruário da versatilidade de Dave Taylor.

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Três primeiros U-2R remotorizados foram entregues

“Os três primeiros U-2Rs remotorizados foram entregues em Palmdale, Califórnia, durante outubro. Após a substituição do motor P&W J75-P-13B por um novo GE F118-GE-101, derivado do motor instalado no bombardeiro B-2, as aeronaves aperfeiçoadas foram redesignadas U-2Ss. A potência extra e a razão empuxo-peso aumentada, junto com uma melhoria de 16% no consumo de combustível, significam que a autonomia foi aumentada em até três horas, o alcance máximo aumentado em 1,200 nm (2.200 km) e o teto aumentado em 3,500 ft (1.100 m). Completo financiamento foi agora concedido para remotorização e algumas melhorias de sensores ao restante da frota de U-2R, que compreendem 33 U-2Rs e três treinadores U-2RT bipostos, todos em serviço com a 9a. RW na Beale AFB, Califórnia. Outro U-2R danificado há alguns anos também está agora em reconstrução para configuração biposta como um U-2RT. A remotorização será executada à medida que as aeronaves chegarem para manutenção programada em escalão de depósito, a última aeronave estando agendada para completamento no Ano Fiscal de 1998. Apesar de algumas melhorias de sensores terem sido aprovadas, incluindo uma melhoria de imageamento multiespectral para cinco câmeras do Sistema de Reconhecimento Eletro-óptico Senior Year, a USAF está buscando financiamento adicional para uma quantidade de outras melhorias de sensores para o tipo — consideradas críticas se ele for permanecer em serviço.”

AIR International, Dec. 1994, p. 325.