Às vezes a gente se engana

Estava assistindo ao episódio de Star Trek: the Next Generation intitulado “Emergence”, onde o computador da Enterprise adquire uma forma rudimentar de autoconsciência. Nas palavras (traduzidas por mim) do dicionário Merriam-Webster, “emergence” é “o ato de se tornar conhecido ou visível”, ou “a condição de recém-formado ou recém-proeminente”. O título do episódio traz a ideia da inteligência do computador emergindo de um mar de dados até então desconexos e fazendo-se conhecer, que é justamente o que acontece na história. Essa palavra está ligada ao verbo “emergir”, então poderia se traduzir talvez como “emersão”, mas certamente não com o nome que ganhou no Brasil, “Emergência” — pois essa palavra seria a tradução de “emergency”, que é outra coisa.

… Mas, voltando, estava assistindo ao episódio, e há uma cena onde Data fica segurando um táxi pelo pára-choque.star_trek_the_next_generation_1987_2811_medium

Não se consegue ler o primeiro caracter da placa, mas os caracteres legíveis são “20638”.

Vejamos. 6-38 remete a junho de 1938. Sabe qual foi a famosa edição publicada com data de junho de 1938?
526
Então, sendo fã de quadrinhos, é claro que, de imediato, eu pensei que essa fosse uma referência. O modelo de carro é certamente semelhante.

Só que, pesquisando melhor, fui ver que a data de publicação de Action Comics #1 não foi em 20 de junho, nem na semana de 20 de junho (o que também é relevante, pois o que se costuma usar como referência é a segunda-feira da mesma semana, e não o próprio dia). Também descobri aquela letra H na frente e para ela não encontrei explicação.

A conclusão imediata é que provàvelmente se tratava de mera coincidência. Outra conclusão, de âmbito mais amplo, é que não é pra ficar vendo referências que não estão lá, feito aqueles devotos que veem a face de Jesus Cristo em qualquer fatia de pão torrado.

EOF

Anúncios

Resenha: Batman: Arkham Asylum: Tales of Madness #1

BAAToM_1_cover

Batman: Arkham Asylum: Tales of Madness #1 (May 98) é o capítulo Dezesseis do arco de histórias Cataclysm, onde um terremoto destrói Gotham City. Curiosamente, foi publicado depois do capítulo intitulado “Conclusão” (que saiu em Robin #53). Mas isso não faz diferença, porque a história é bastante autônoma e poderia entrar em qualquer ordem.

Tales of Madness é a única história de Cataclysm a mostrar o que aconteceu ao Asilo Arkham durante o terremoto. Ao detectar o sismo, um dispositivo automático de segurança fecha o acesso à área das celas, isolando os prisioneiros de seus captores. Entretanto, o Crocodilo consegue dominar os três guardas que estavam em sua cela na hora do terremoto e, na sequência, liberta o Coringa, o Espantalho, o Charada e duas internas introduzidas nesta história, Samantha e Vox.

Assim, invertem-se os papéis: os seis loucos matam dois guardas e prendem o terceiro, a quem passam a ameaçar. Isolados do resto do mundo pelo tempo que levar a chegada do resgate, decidem aterrorizar sua vítima. Inicia-se então um torneio onde ele será o árbitro e onde cada um deverá contar-lhe uma história. Será vencedor quem contar a história mais assustadora, ganhando o direito de matá-lo.  Com isso, introduz-se uma estrutura narrativa que vem dando certo desde o Decamerão, de Boccaccio, notòriamente nos Contos de Cantuária e, mais recentemente, em Sandman: Worlds’ End.

O que mais chamou minha atenção em Tales of Madness foi a arte: o desenhista Dave Taylor conseguiu o incrível feito de variar de estilo de uma para outra história a tal ponto que me fez duvidar de que fosse o Autor de todos os desenhos. Compare seus traços —

Na história principal (CLIQUE EM TODAS AS IMAGENS PARA AUMENTÁ-LAS):

Página 7

Na história de Vox (onde os desenhos parecem ter sido feitos por Mike Dringenberg, de The Sandman):

Página 15

Na história do Charada (onde os desenhos são como os de Uderzo e o Charada parece o Asterix):

Página 18

Na história do Crocodilo:

Página 21

Na história de Samantha (onde as linhas lembram muito as capas de Marvel 1602, de Scott McKowen):

BAAToM_1_p24

Na história do Espantalho (que nos remete ao simplório início dos anos 60):

BAAToM_1_p28Não sòmente isso, mas os desenhos da história principal são ricos em belíssimos e expressivos detalhes e contrastes. A necessidade de apreciá-los retardou minha leitura. Um exemplo é a impressionante escadaria de mármore na página 7, acima; outros são as páginas 25 e 26:

BAAToM_1_p25Página 26

Tales of Madness não é nenhuma especial contribuição ao Universo DC. É uma história bem independente e quase atemporal, que poderia encaixar-se em qualquer um de vários pontos da cronologia, na qual não me parece influir. De fato, não compromete nem é comprometida por outros eventos, e o terremoto aparece apenas como pretexto: sem nenhum prejuízo para a narrativa, poderia ser substituído por qualquer outro acontecimento. Seu principal valor é como banquete para os olhos, servindo como um mostruário da versatilidade de Dave Taylor.

EOF

Minha resenha bilíngue de JLA: Rock of Ages

I just finished reading JLA: Rock of Ages. Before I bought it, I read many reviews at Amazon and elsewhere saying that it was confusing and that a lot of it did not make sense. But they also said that the story dealt with timetravel. And I knew that it had been written by Grant Morrison, who I consider a genius. Being a scifi fan with a penchant for timetravel stories, I deduced that those readers had not been intelligent enough to follow Morrison’s wit. I thought that his work probably had a high level of ingenuity and that I would enjoy it no end, EXACTLY because so many were deriding it.

Was I wrong. The timetravel bit is not hard to follow, actually. The problems lie elsewhere. Morrison seems to have attempted to tell at least five stories in this so-called arc, so what was supposed to be one storyline becomes a disjointed sequence of mostly unrelated events. The supposed main tale revolves around (1) Lex Luthor attempting a takeover of the Justice League by weakening its members and exploiting those weaknesses. Besides that, however, there are (2) the need to match the story to DC’s contemporary crossover, Genesis; (3) the shoehorning of the heroes’ search for the Philosopher’s Stone, which might as well have been unrelated and was not necessary at all; (4) the unrelated, artificial insertion of a story with JLA members traveling to the end of the universe and to fantasy worlds; (5) the time-traveling, sidetracking story of the heroes confronting Darkseid in the future (as fascinating as it is to witness Batman engaging Darkseid without so much as a shiver). In the end the jigsaw is resolved, but at the expense of a long-winding succession of wasted blind alleys. Also, the epilogue is a lead-in to the then upcoming event DC One Million.

Characterization is weaker than in other Morrison works. Still, the thread that runs throughout the collection is a battle of minds between Luthor and Batman, and both of these get to shine in their chess-playing, foreplanning, cunning personas, which are marvelously written.

Overall a dumbfounding read, so I do not actually recommend it. However, you may be interested if you are keen on the Justice League, want to appreciate Morrison’s take on it and are willing to tolerate edits where scenes seem to succeed each other with no visible connection between them.

Acabei de ler JLA: Rock of Ages. Antes de comprar, eu havia lido várias resenhas na Amazon e alhures dizendo que era uma história confusa e que muito dela não fazia sentido. Mas as resenhas também diziam que a história lidava com viagem no tempo. E eu sabia que havia sido escrita por Grant Morrison, que considero um gênio. Sendo um fã de ficção científica com uma queda por viagens no tempo, eu deduzi que aqueles leitores não haviam sido inteligentes o bastante para seguir a inteligência de Morrison. Pensei que seu trabalho provàvelmente teria um alto nível de engenhosidade e que eu o aproveitaria de montão, EXATAMENTE porque tantos o depreciavam.

Rapaz, como eu estava errado. A porção de viagem no tempo nem é difícil de acompanhar, na verdade. Os problemas estão em outras partes. Morrison parece ter tentado contar pelo menos cinco histórias neste assim chamado arco, de modo que o que deveria ser uma linha de capítulos torna-se uma sequência disjunta de eventos mormente não relacionados. A suposta história principal gira em volta de (1) Lex Luthor tentando tomar a Liga da Justiça através do enfraquecimento de seus membros e da exploração dessas fraquezas. Ao lado disso, porém, há (2) a necessidade de ajustar esta história ao evento contemporâneo da DC, chamado Genesis; (3) o encaixe de uma busca dos heróis pela Pedra Filosofal, que poderia muito bem ser não relacionada e absolutamente não era necessária; (4) a inserção artificial e não relacionada de uma história com membros da Liga da Justiça viajando ao fim do universo e a mundos fantásticos; (5) a tergiversação de viagem no tempo dos heróis confrontando Darkseid no futuro (por fascinante que seja testemunhar Batman encarando Darkseid sem um tremor). No fim, o quebra-cabeças é resolvido, mas às expensas de uma sucessão tortuosa de becos sem saída. Também, o epílogo é uma introdução ao evento então iminente DC One Million.

A caracterização é mais fraca do que em outras obras de Morrison. Ainda assim, o enredo que corre através do encadernado é uma batalha de inteligênicas entre Luthor e Batman, e ambos conseguem brilhar em suas personas vulpinas, planejadoras e jogadoras de xadrez, que estão escritas maravilhosamente.

De modo geral, uma leitura que causa perplexidade, de modo que não chego realmente a recomendá-la. Entretanto, você pode se interessar se tiver predileção pela Liga da Justiça, quiser apreciar a abordagem de Morrison e estiver disposto a tolerar uma edição onde as cenas parecem suceder umas às outras sem conexão visível.

É fácil de encontrar quando se sabe onde procurar

Muitas vezes, os iniciantes na apreciação da Arte têm a noção de que os artistas desenham imagens que já têm prontas na cabeça. De que os desenhos são feitos sem qualquer referência a objetos reais, obedecendo sòmente a abstrações. Dentro dessa ideia, a prova do talento do desenhista está no sucesso em representar um objeto real (ou que poderia ser real) sem nunca ter olhado para ele.

É por isso que, às vezes, o apreciador se decepciona quando vem a descobrir que o artista se valeu de um modelo, da observação de uma pessoa viva, ou de uma fotografia. É como se trapaceasse, como se o trabalho valesse menos, como se fosse uma “cópia”.

Porém, se o apreciador convive por tempo suficiente com o processo de criação — ou até se ele mesmo se dispõe a criar sua própria arte –, logo pode perceber que é assim mesmo que funciona. Difìcilmente o artista parte do zero, de uma imagem que não existe. Quando isso acontece, frequentemente o resultado é arte abstrata, que não tem qualquer compromisso com as impressões visuais da realidade. Mesmo Alex Ross, considerado um dos maiores desenhistas de quadrinhos desde os anos 90, usa modelos: o Padre McCay, personagem narrador da obra-prima Kingdom Come, tem sua aparência baseada na do pai de Ross. Boris Vallejo, conhecido por suas capas de livros e figuras de Conan, o Bárbaro, também se vale de modelos. A versão Ultimate de Nick Fury teve sua aparência baseada em Samuel L. Jackson — que veio a interpretar Nick Fury nos recentes filmes da Marvel –, assim como John Henry Irons, o Aço da DC, tem o rosto de Shaquille O’Neal, que interpretou o papel mais tarde, na bomba Steel, que nem apareceu nos cinemas daqui (mas que já foi exibido pela TNT).

Portanto, não é surpreendente o que encontrei. Estava eu lendo Astro City: inquisição, que é a versão brasileira da compilação de Kurt Busiek’s Astro City #4-9, quando cheguei ao capítulo que corresponde a KBAC #8, de abril de 1997, escrita por K. Busiek e desenhada por Brent Anderson.

Nas páginas 121 e 122, encontrei estas figuras.

ACI_p121_q4ACI_p122_q3

Não haveria nada de mais, e o Leitor que não se interessa por aviões passaria batido. Exceto que eu tenho uma memória terrível para as coisas de que gosto, porque de imediato reconheci as duas imagens. Acontece que tenho alguns livros da coleção Guias de Armas de Guerra, publicada pela Nova Cultural nos anos 80 a partir de originais da inglesa Salamander. Um desses livros é Aviões do futuro, que se divide em dois volumes.

A edição original e o volume I da traduzida

A edição original e o volume I da traduzida

No volume I, encontramos uma das várias representações de conceitos preparatórios para o ATF (que, anos mais tarde, viria a se tornar o F-22). Um deles é este aqui:

AvFut_p46_f2

Lamentàvelmente, não consigo ler a assinatura do artista original, bastante esmaecida e parcialmente cortada no livro.

Já no volume II, duas páginas são dedicadas ao helicóptero experimental S-69, do qual se vê a seguinte fotografia:

AvFut_vII_p73_f2

Vamos facilitar a vida do distinto Leitor:

Crops4

Eu não sei você, mas não tenho a menor dúvida de que Anderson teve acesso aos livros dessa excelente coleção.

EOF

Multiple contact points

Today I shall dabble in two different topics within the same overall subject, which is DC Comics’ super-hero comics. These two topics have a point of contact that deserves review, and this is why I have come here.

The first topic is the annuals. DC Comics issues its super-hero titles monthly. (Everything I say in this text is true as a rule in 2013, but the titles change over the years and my reading is still in 1996, so that the specific examples I give are from that year.) Thus, Superman’s continuing adventures are out in Action Comics, The Adventures of Superman and Superman; Batman’s in Detective Comics, Batman, Batman: Shadow of the Bat and The Batman Chronicles; other heroes are published in Wonder Woman, The Flash, Robin, Catwoman and many, many other titles that the lay public would not recognise, such as Nightwing, Azrael and Impulse.

Usually, each one of these series has twelve issues a year. The most popular of them are matched by other, yearly series, which are equivalent to special editions — as if they were thirteenth issues of the main title. These are the Annuals, as in Action Comics Annual, Batman Annual, Flash Annual. According to DC’s practice, the story that comes in an Annual is not a part of the storyline that is told over months in the main series; yet it is a part of the official chronology. Each Annual usually has more pages than the corresponding monthly title, and some have more than one story per issue.

In the 1990s, DC used to give the same theme to each year’s Annuals. For example, in 1991 all of them were interesting tie-ins to the Armageddon 2001 event. In 1994, all of them were Elseworlds stories. In 1996, all Annuals brought the subtitle “Legends of the Dead Earth”. Each one told a story that was not necessarily compatible with those of the other Annuals, but each writer was in charge of creating variations on the same theme: a distant future when planet Earth no longer exists. In this future, the hero from the regular title (not the one in the Annual) has been dead for centuries, but his or her memory lives on somehow, and another hero follows on his or her footsteps.

Batman Annual #20. Weak story.

Green Lantern Annual #5. Fun story.

Most of these Annuals turned out unimpressive. This is not exactly a surprise, seeing as that, according to Sturgeon’s Law, 90% of all cultural production is trash. It could not be otherwise: first, statistically it would not make sense that everything were good, and this is exactly why the word “mediocre” has ceased to mean just “average” and started to mean “bad”; second, by definition you will only notice that something is good because it stands out from the rest, and this is where the word “good” starts to have its meaning. If everything were good, you would not realise that it were good, nor would you, therefore, even be aware of the concept or have a name for it.

Precisely because of all this, when one of these Annuals turned out much better than the others, it drew my attention. I refer to Legionnaires Annual #3, which was one of the last Annuals of 1996, having been published along with December’s regulars. Differing from the other Annuals of 1996, this one had its story as an aftermath of another that took place in a main title.

This is where we hold the discussion of 1996’s Annuals and enter the second topic, which is the chronology of the many characters named “Flash”. As it is in the case of most any other DC super-hero, a full chronology would deserve lengthy explanations and due commentary. Unfortunately, because of the scope of this article, I will have to leave the treatment that the Flash deserves for a later date, because that would be too long an exposition, with too many details. Just you believe that everything I say hereunder has a fascinating, minutiae-ridden story behind it, and do yourself the favour of researching it, because there are lots of effort and creativity involved. For now, let us move on.

Follow me. Historically, the nickname “The Flash” was first attributed to a character called Jay Garrick who had acquired super-speed. This Flash’s stories were published from 1940 to 1949, during the Golden Age of comics, and then his monthly book Flash Comics ceased to be published. Maybe you still remember him: red shirt, blue trousers, helmet, maskless.

Jay Garrick, the first Flash. I tried to use Wikipedia’s image, but WordPress will not allow it. So go there and type “Jay Garrick”.

In 1956, DC Comics revamped the concept and launched a new character named Flash. This time, the runner was an often-late police chemist called Barry Allen, who was gifted with his superpower when struck by a lightning in the Chemistry lab. This second Flash gave continuity to Flash Comics and today is considered to be the character who gave DC’s Silver Age of comics its start.

The second Flash, Barry Allen

This is the Flash who became famous, whom readers came to love and whom the lay public is aware of. He is the epitome of the good-hearted hero willing to sacrifice his own life to save the others’ — in some cases even more so than Superman himself, who is considered the archetypal super-hero for all his physical and psychological traits.

In 1961, with the publication of The Flash #123 and its story “Flash of Two Worlds!”, writer Julius Schwartz brought forth the concept that, in my view, is the most ingenious and mind-stimulating idea in the whole DC Universe: the notion of parallel universes where the heroes have counterparts who are like different versions of the same person. With this issue, it was retroactively established that the old Flash (Jay Garrick) kept on existing despite no longer being published. It is just that his adventures took place in another universe, in so-called Earth-2. By jumping dimensions, Barry Allen meets Jay Garrick, declaring himself his admirer and follower.

The Flash #123, a classic issue. This story changed the whole DC universe. An original copy is worth more than a thousand dollars, but, fortunately, it is easy to find reprints.

In the following years of the Silver Age, we learned that all the heroes who had been published during the Golden Age (from 1938 to 1951), including Superman, Batman and Wonder Woman, were a part of Earth-2, while the heroes that were being published from 1955 were set in Earth-1 (in Brazil, “Active Earth”). Thus there were two Supermen, two Batmen, two Wonder Women, two Green Lanterns (one of them being Alan Scott, the other Hal Jordan), two Flashes etc., one of each on each Earth. The vast majority of DC’s regular titles told the adventures on Earth-1, but, in the 80s, some titles started to tell of adventures that continued on Earth-2, outside of DC’s main chronology. The meetings of heroes from the two universes were much celebrated, especially those in the anxiously anticipated stories that were out once a year in the regular issues of Justice League of America.

(Incidentally, the variety of Earths in many universes only became one of DC’s relevant topics in the miniseries [or so-called “maxiseries”] Crisis on Infinite Earths, in 1985-1986. This lengthy story, written by Marv Wolfman and wonderfully pencilled by George Pérez, redefined the whole DC Universe, with a fundamental impact on the chronology of every character and permanent effects that are discussed to this day. At the time, its purpose was to extinguish the multiverse, kill off many characters and gather the survivors in a sole, streamlined universe. Over the years, the idea of a multiverse has come back, since it was too good to be wasted, but it would only become a main theme of discussion again in the period 2006-2008, with Infinite Crisis and Final Crisis.)

In 1984-1985, the monthly The Flash threw Barry Allen to the 30th century, in a long and complex storyline where he never went back to his original time. When the Crisis on Infinite Earths came about, Barry made the final sacrifice to save the many Earths, but no one witnessed his death. According to George Pérez, Barry was chosen to be a martyr because the idea of a DC multiverse had begun with him, therefore also with him this multiverse would end.

Barry Allen’s final sacrifice, saving DC’s universes in his last race.

Then, in a turn of events which was very controversial at the time and which attracted the fury of many a fan, not only did Barry stay dead definitively(*) (which never happens to any comic book character, but finally happened to him) but also he was succeeded by Wally West, the nephew of his wife. Wally was an old acquaintance of the readers’, because he had undergone the same kind of freak accident as Barry had before him (yeah, writers could be less creative during the Silver Age) and, for a good time, followed in the footsteps of his beloved and admired uncle-by-marriage as Kid Flash, having, by the way, been a part of the Teen Titans and of the New Teen Titans. With Barry’s passing, Wally became the third Flash.

Kid Flash (Wally West during the Silver Age)

At the end of the Crisis, Wally takes on the legacy of his uncle-by-marriage.

Wally West as the third Flash, after the Crisis.

[Parenthetical: the 1990 short-lived TV series The Flash told the adventures of Barry Allen, whose origins and profession matched those of the Barry Allen from the Silver Age comics. However, the Flash from this TV series had the personal traits and metabolic characteristics of Wally West, who already was the Flash in the comics of the time. I assume that these choices were made to join Wally’s popularity to the knowledge by an older public of laymen in relation to the only Flash that they probably knew, who had been the longer-standing Barry Allen (who had been active for thirty years up to 1986), in comparison to then-upstart Wally West (active for only four years up to that point).]

In 1994-1996, the monthly The Flash was written by brilliant Mark Waid, Author of the masterpiece Kingdom Come and one of the writers who best understand and respect their characters. Waid wrote many stories where he rounded up the many super-speedsters of the DC universe, and I love stories that join up variations on the same character. In particular, Waid’s stories on this motif are excellent and inspired. Besides, at the time when he was writing the Flash, Waid raised this character’s superpower to something greater than him, inserting Wally into a continuity where a single force in the universe was the moving source of all the super-speedsters. Suddenly, the Flash’s superpower was no longer unique, and it was revealed that it was derived from an energy field which common mortals were incapable of reaching: the Speed Force. In Waid’s hands, the Flash became sort of a Jedi knight of speed, a privileged man who, just like Neo in The Matrix and Luke Skywalker in Star Wars, had access to understanding hidden meanings in reality and to perceiving universe, time and space with a zen sense of unity. The Speed Force has the effect of a power that is neither magical nor, however, understood or even noticed by humans, an energy that permeates the universe and which only the super-speedsters are able to explore. Therefrom spring some very interesting stories where we can see the world in slow-motion through the eyes of the scarlet racer as Wally gradually finds out that his speed power brings many side benefits, such as time travel and the possibility of giving other people a “ride” on his speed. Also, writer Waid treated Barry Allen’s memory with religious reverence, endowing Wally with the desire to better know the destiny of his uncle in the 30th century and to contact the expanded reality which had fed Barry and which only now became visible to himself.

At the beginning of 1996, The Flash told the many-part Dead Heat story arch, where Wally strove to stop the villain Savitar from disabling all heroes whose superpower is their speed: Wally himself, Jay Garrick, young Impulse (Bart Allen, a grandson of Barry’s, born in the 30th century), Johnny Quick, his daughter Jesse Quick, wise Max Mercury (a time-traveling speedster revamped by Waid, born in the Old West and, already at a certain age, a mentor for the other speedsters) and some others. In order to beat Savitar, Wally had to accelerate in a way that had never been demanded of him, entering the timestream and, out of control, traveling to the 64th century.

In the Race Against Time! story arch, after defeating Savitar and already in the second half of 1996, Wally tries to return to his time in successive jumps back the centuries. One character who helps him is John Fox, the Flash of the 27th century, heir to the mantle out of inspiration by the memory of both Barry and Wally.

Following the continuity of stories, I am now in (or at) December 1996, at the point where Wally manages to return to the 20th century. It just so happens that, when he was still fighting Savitar earlier in the year, Wally was helped by a racer codenamed XS, who, by the way, is also Barry Allen’s granddaughter born in the 30th century (and Bart’s cousin). In Dead Heat, XS had gone back in time, from her 30th to the 20th century, along with her colleagues from the Legion of Super-Heroes, and had become stuck here. Just like Wally resorts to using the Speed Force to come back from the future to the present (and ultimately succeeds), XS attempts to jump in the opposite direction, from the present to the future (which is “her present”). In the 1996 issues of the monthly The Flash, the young heroine XS is just a supporting character, and there comes a moment (in the first chapter of Race Against Time!, The Flash #112, April 1996) when John Fox and Jay Garrick give her a hand in time-jumping. XS disappears, the Reader is led to assume that she has managed to get home, and the story turns its focus back onto the Flash, his misfortunes and his own happy return.

And this is where, always in the effort to read everything in the original publication order, I arrived at Legionnaires Annual #3. This is where the two topics touch. Having read the other annuals of 1996, I had assumed this issue to be in the Sturgeon’s Law’s 90% portion. To my very grateful surprise, I then discovered that I had been wrong! The story starts out by showing what happened to XS when, with the help of Fox and Garrick, she launches into the timestream. Thereafter she feels attracted by a focal point, leaves the timestream and finds herself already in the 30th century, but still a long way from the point she was trying to reach. She realises that the point which attracted her was the assembly of a time-travel device by the hands of… Barry Allen! Ever since the stories published in 1986, I do not recall having seen any new story with Barry Allen that was not some retrospective or otherwise a story set in the Silver Age, when he was the titular Flash. As far as I know, this is the FIRST story where Barry appears while, for the reader, “today’s Flash” already is Wally West. Unfortunately for XS, Barry is still too young, does not even have any children and, therefore, does not recognise her. Still, this is a moving moment, because XS sees the opportunity to meet her grandfather, who was already deceased when she was born. The scene could even have been a tear-bringer, I would not mind. But the two of them do not know each other, so what remains is that deep admiration and XS’s feeling that she is beholding a historic icon, one of the greatest heroes of them all, in a lonely, introspective moment — and he is her grandfather!…

Barry gives XS the privilege and the honour of running along with him and then works as a catapult for her, sending her again into the timestream. This time, XS ends up in the 100th century, where she learns that Earth is no longer (this being the common point with the other annuals of 1996, Legends of the Dead Earth), as the Legion of Super-Heroes is no longer either. On the planet Almeer-5, humanity is oppressed by the villain Nevlor, who has imprisoned the few remaining metahumans. One of the heroes in jail is Avatar, who wields the ancient Spear of Destiny, which can only be raised by those worthy of it. Her outfit resembles those of Jack Kirby’s gods, particularly that of Marvel’s Thor, whose hammer Mjölnir only those worthy are able to raise. Another heroine is Melissa Trask (an anagram of “Stark”, get it?), who is a brilliant electronics engineer and has crafted a flying armour that fires bolts from its hands (just like Iron Man’s armour…). The third hero is Robert “Bob” Brunner (just as Robert Bruce Banner, right?), who, thanks to an energy transfer (gamma rays?), has transformed into a megamuscular blue giant (not green, OK?). His clothes are torn and he is left in his shorts as he throws puny humans about. The last hero, said to be the greatest of all in the 100th century, does not have any superpower, but has arrived there in suspended animation to lead them with his winged helmet and his star-chested uniform (just like, let us see, a certain Captain America…). With XS’s help, the heroes escape and regroup in a new secret base built by Stark Trask, the Avengers Mansion. You may note that the words “Almeer” and “Nevlor” contain the letters of “Marvel” and (Stan) “Lee”.

Receiving new assistance from this “Avenger” Legion of the 100th century, XS again enters the timestream, but, instead of getting home, she ends up at the Vanishing Point, the Linear Men‘s space base, located statically in a parallel dimension during the last time instant before the end of the universe. Sometimes the Vanishing Point appeared in DC’s stories from the 90s, including the miniseries Zero Hour. There XS meets the Time Trapper, a villain from the Legion of Super-Heroes’s stories — whom she did not know of, since there were no confrontations with him after she joined the Legion. The Time Trapper commands the timelines, which he often manipulates in order to change events in his own favour, but, in this brief encounter, he introduces himself to XS as someone who behaves as such to the benefit of the human race, as opposed to the Linear Men, who patrol timelines against interference and, among other things, stop planet Earth from being saved from destruction. Under this point of view, the Time Trapper is the hero! Before he sends her back to the 30th century, XS gets to witness the events of Zero Hour from the Linear Men’s perspective. Though she does not understand what is going on (as she is a character created by Mark Waid after the publication of Zero Hour), the Reader can recognise several speeches by the Linear Men, by Waverider and by the Atom, as well as the Atom’s death, which was one of the outcomes of that miniseries. The writer never makes it explicit that what we are looking at is Zero Hour, but leaves the conclusion very much available whilst we can observe the same happenings from a different viewpoint.

Curiously, the story in Legionnaires Annual #3 was scripted not by consistent, careful Mark Waid, but by Roger Stern. It is so coherent, so well fitting in the DC universe, so in line with the Flash’s tales to which it connects, so perfectly elegant before the chronologies of Zero Hour and of the Legion of Super-Heroes, that one would think that Waid were its true Author. The adherence to continuity and the respectful (as opposed to mocking) treatment of Marvel’s heroes indicate a connection of affection to the comics that we typically see in Waid’s work. Here I leave my compliments to the excellent job accomplished, not only by him who wrote but also by those who drew (Tony Castrillo, Chuck Wojtkiewicz and Dan Jurgens, the last of whom pencilled the “Zero Hour” sequence and had also been the penciller for the original Zero Hour miniseries) and especially those who edited (Ruben Díaz and KC Carlson, who had been one of Zero Hour‘s editors).

(*) Yes, I am partially aware of the effective return of Barry Allen after the Final Crisis. As I said, my reading is in 1996 and, at this point, DC stands by its intent to keep Barry definitively dead.

EOF

Múltiplos pontos de contato

Hoje tratarei de dois tópicos diferentes dentro de um mesmo assunto, que são os quadrinhos de super-heróis da DC Comics. Os dois tópicos têm um ponto de contato que merece resenha, e foi por isso que vim aqui.

O primeiro tópico são edições anuais. A editora DC Comics publica mensalmente os títulos que trazem as histórias com seus super-heróis. (Tudo que digo neste texto é verdade como regra em 2013, mas os títulos mudam com o correr dos anos e minha leitura ainda está em 1996, de modo que os exemplos específicos que dou são daquele ano.) Então, as contínuas aventuras do Super-Homem saem em Action Comics, The Adventures of Superman e Superman; as do Batman, em Detective Comics, Batman, Batman: Shadow of the Bat e The Batman Chronicles; outros heróis saem em Wonder Woman, The Flash, Robin, Catwoman e muitos, muitos outros títulos que o público leigo não reconheceria, como Nightwing, Azrael e Impulse.

Normalmente, cada uma dessas séries tem doze edições por ano. As mais populares são acompanhadas de outras séries com periodicidade anual, que, na prática, equivalem a edições especiais — como se fosse uma décima-terceira edição do título principal. São os Annuals, como Action Comics Annual, Batman Annual, Flash Annual. Pela prática mais comum da editora, a história que vem em um Anual não integra a sequência da história que está sendo contada ao longo dos meses na série principal; mas, mesmo assim, faz parte da cronologia oficial. Cada Anual costuma ter mais páginas do que o título regular correspondente, e alguns têm mais de uma história por edição.

Nos anos 90, a DC costumava dar um mesmo tema aos Anuais de cada ano. Por exemplo, em 1991, todos foram interessantes histórias vinculadas ao evento Armageddon 2001. Em 1994, todos foram histórias do tipo Elseworlds. Já em 1996, todos os Anuais traziam o subtítulo “Legends of the Dead Earth”. Cada um contava uma história que não era necessàriamente compatível com as dos outros Anuais, mas a cada roteirista a editora incumbiu de criar uma variação sobre o mesmo tema: um futuro distante onde o planeta Terra não existe mais. Nesse futuro, o herói publicado pelo título regular (não o do Anual) já morreu há séculos, mas sua memória sobrevive de algum modo, e outro herói segue sua tradição.

Batman Annual #20. História fraca.

Green Lantern Annual #5. História divertida.

Na sua maioria, esses Anuais ficaram ruins. Isso não é exatamente uma surpresa, já que, de acordo com a Lei de Sturgeon, 90% de toda a produção cultural é lixo. Não poderia ser de outro modo: primeiro que, estatìsticamente, não faria sentido que tudo fosse bom, e é justamente daí que a palavra “medíocre” deixou de significar apenas “médio” e passou a significar “ruim”; segundo que, por definição, você só repara que alguma coisa é boa porque ela se destaca do resto, e é daí que a palavra “bom” passa a ter significado. Se tudo fosse bom, você não perceberia que fosse bom, nem, portanto, teria sequer o conceito ou um nome para ele.

Justamente por tudo isso, quando um desses Anuais ficou bem melhor do que os outros, ele chamou minha atenção. Refiro-me a Legionnaires Annual #3, que foi um dos últimos Anuais de 1996, tendo sido publicado junto com os regulares de dezembro. Diferente dos outros Anuais de 1996, este fez sua história como continuação de outra que acontecia em um título principal.

É nesse momento que suspendemos a discussão dos Anuais de 1996 e entramos no segundo tópico, que é a cronologia dos vários personagens chamados “Flash”. Tal como no caso de qualquer outro super-herói da DC, uma cronologia completa mereceria extensas explicações e os devidos comentários. Infelizmente, diante do escopo desta discussão, vou ter que ficar devendo o tratamento que o Flash merece, porque seria uma exposição muito longa, com muitos detalhes. Apenas acredite que tudo que eu digo a seguir tem uma história fascinante e minuciosa por trás, e faça a si mesmo o favor de pesquisá-la, porque há muito esforço e muita criatividade envolvidos. Por ora, prossigamos.

Acompanhe. Històricamente, o epíteto “The Flash” foi atribuído a um personagem chamado Jay Garrick que havia adquirido supervelocidade. As histórias desse Flash foram publicadas de 1940 até 1949, durante a Era de Ouro dos quadrinhos, e então sua revista Flash Comics deixou de ser publicada. Talvez você ainda se lembre dele: camisa vermelha, calça azul, capacete, sem máscara.

Jay Garrick, o primeiro Flash. Tentei usar a imagem da Wikipedia, mas o WordPress não aceita. Então vá na Wikipedia (em inglês, por favor) e jogue “Jay Garrick”.

Em 1956, a DC Comics reformulou o conceito e lançou um novo personagem com o nome de Flash. Desta vez, o corredor era um químico forense e atrasildo contumaz chamado Barry Allen, que adquiriu seu superpoder ao ser atingido por um raio no laboratório. Este segundo Flash deu continuidade a Flash Comics, sendo hoje considerado o personagem que inaugurou a Era de Prata dos quadrinhos na DC.

O segundo Flash, Barry Allen

Esse é o Flash que ganhou fama, que os leitores passaram a amar e que o público leigo conhece. Ele é a epítome do herói de bom coração disposto a sacrificar a própria vida para salvar a dos outros — em alguns casos mais do que o próprio Super-Homem, que é considerado o arquétipo do super-herói por todos os seus aspectos físicos e psicológicos.

Em 1961, com a edição The Flash #123 e sua história “Flash de dois mundos”, o roteirista Julius Schwartz trouxe o conceito que, a meu juízo, é o mais genial e estimulante de mentes em todo o Universo DC: a noção de universos paralelos onde os heróis têm contrapartes que são como diferentes versões da mesma pessoa. Com essa edição, ficou retroativamente declarado que o antigo Flash (Jay Garrick) continuava existindo apesar de ter deixado de ser publicado. É que suas aventuras aconteciam em outro universo, na assim chamada Terra-2 (no Brasil, “Terra Paralela”). Exercendo um salto dimensional, Barry Allen encontra Jay Garrick, declarando-se seu admirador e imitador.

The Flash #123, uma edição clássica. Esta história mudou todo o universo DC. Um exemplar original custa mais de mil dólares, mas, felizmente, é fácil encontrar reimpressões.

Nos anos subsequentes da Era de Prata, aprendemos que todos os heróis que haviam sido publicados durante a Era de Ouro (de 1938 a 1951), inclusive Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha, faziam parte da Terra-2, enquanto os heróis que estavam sendo publicados desde 1955 estavam ambientados na Terra-1 (no Brasil, “Terra Ativa”). Logo, havia dois Super-Homens, dois Batmen, duas Mulheres-Maravilhas, dois Lanternas Verdes (sendo um deles Alan Scott e o outro Hal Jordan), dois Flashes etc., um de cada em cada Terra. A grande maioria dos títulos regulares da DC contavam as aventuras da Terra-1, mas, nos anos 80, alguns títulos passaram a contar as aventuras que continuavam na Terra-2, fora da cronologia principal da DC. Eram muito comemorados os encontros de heróis dos dois universos, especialmente nas ansiosamente esperadas histórias que saíam uma vez por ano nas edições regulares de Justice League of America.

(Incidentalmente, a variedade de Terras em vários universos só veio a se tornar um dos pontos relevantes da DC na minissérie Crise nas infinitas Terras, em 1985-1986. Essa extensa história, escrita por Marv Wolfman e maravilhosamente desenhada por George Pérez, redefiniu todo o Universo DC, com um impacto fundamental na cronologia de todos os personagens e efeitos permanentes que são discutidos até hoje. Na época, seu propósito era extinguir o multiverso, matar vários personagens e reunir os sobreviventes em um universo único e simplificado. Com o correr dos anos, a ideia de multiverso voltou, já que era boa demais para ser desperdiçada, mas ela só voltaria a ser tema principal de discussão no período 2006-2008, com Crise infinita e Crise final.)

Em 1984-1985, a revista The Flash lançou Barry Allen ao século 30, em uma longa e complexa história onde ele nunca mais voltou a sua época original. Quando houve a Crise nas Infinitas Terras, Barry fez o sacrifício final para salvar as várias Terras, mas ninguém testemunhou sua morte. De acordo com George Pérez, Barry foi escolhido para mártir porque com ele havia começado a ideia do multiverso na DC, portanto também com ele se extinguia esse multiverso.

O sacrifício final de Barry Allen, salvando os universos da DC em sua última corrida.

Então, em uma reviravolta que foi bastante controversa na época e atraiu a fúria de vários fãs, não apenas Barry ficou morto definitivamente(*) (o que nunca acontece com personagem nenhum de quadrinhos, mas finalmente aconteceu com ele) como foi sucedido por Wally West, sobrinho de sua esposa. Wally já era conhecido dos leitores, porque havia sofrido o mesmo tipo de acidente de Barry (pois é, os roteiristas eram menos criativos na Era de Prata) e, durante um bom tempo, seguiu os passos de seu amado e admirado tio-afim como Kid Flash, tendo, aliás, feito parte dos Titãs e dos Novos Titãs. Com a morte de Barry, Wally passou a ser o terceiro Flash.

Kid Flash (Wally West durante a Era de Prata)

Ao fim da Crise, Wally assume o legado do tio-afim.

Wally West como o terceiro Flash, após a Crise.

[Parêntese: a série de TV The Flash, que teve vida curta em 1990, contava as aventuras de Barry Allen, cujas origem e profissão coincidiam com as de Barry Allen nos quadrinhos da Era de Prata. Entretanto, o Flash dessa série de TV tinha as características pessoais e o metabolismo de Wally West, que já era o Flash nos quadrinhos da época. Suponho que essas escolhas tenham sido feitas para aliar a popularidade de Wally ao conhecimento do público mais velho e mais leigo em relação ao único Flash que provàvelmente conheciam, que era o mais duradouro Barry Allen (ativo por trinta anos até 1986), em comparação com o então novato Wally West (ativo por apenas quatro anos até ali).]

Em 1994-1996, o título The Flash era escrito pelo brilhante Mark Waid, Autor do clássico Kingdom Come (Reino do amanhã) e um dos roteiristas que mais compreendem e respeitam seus personagens. Waid escreveu várias histórias onde reuniu os diversos supervelocistas do universo DC, e eu adoro histórias que reúnem as variações do mesmo personagem. Em particular, são excelentes e inspiradas as histórias que Waid escreveu com esse mote. Além disso, no tempo em que escreveu o Flash, Waid elevou o superpoder do personagem a algo maior do que ele, inserindo Wally em uma continuidade onde uma só força do universo era a fonte motora de todos os supervelocistas. Sùbitamente, o superpoder do Flash deixava de ser único, e revelou-se que era derivado de um campo de energia que os mortais comuns não seriam capazes de atingir: a Speed Force. Nas mãos de Waid, o Flash tornou-se uma espécie de cavaleiro Jedi da velocidade, um privilegiado que, tal como Neo em Matrix e Luke Skywalker em Star Wars, tinha acesso a compreender significados ocultos na realidade e a perceber universo, tempo e espaço com um senso zen de unicidade. A Speed Force tem o efeito de uma força que não é mágica mas tampouco é compreendida ou sequer percebida pelos humanos, sendo uma energia que permeia o universo e que sòmente os supervelocistas conseguem explorar. Saem daí algumas histórias interessantíssimas onde conseguimos enxergar o mundo em câmera lenta através dos olhos do corredor escarlate à medida em que, aos poucos, Wally descobre que seu poder de velocista traz várias utilidades colaterais, como a viagem no tempo e a possibilidade de dar “carona” em sua velocidade para outras pessoas. Além disso, o roteirista Waid tratou a memória de Barry Allen com uma reverência religiosa, criando em Wally o desejo de conhecer melhor o destino de seu tio-afim no século 30 e de ter contato com a realidade ampliada que havia alimentado Barry e que sòmente agora se fazia visível para ele.

No início de 1996, The Flash contava o arco Dead Heat, em várias partes, onde Wally se esforçava por impedir que o vilão Savitar desabilitasse todos os heróis cujo superpoder é a corrida: o próprio Wally, Jay Garrick, o jovem Impulso (Bart Allen, neto de Barry, nascido no século 30), Johnny Quick, sua filha Jesse Quick, o sábio Max Mercúrio (um velocista revitalizado por Waid, nascido no Velho Oeste, viajante do tempo e, já com uma certa idade, mentor dos outros velocistas) e alguns outros. Para vencer Savitar, Wally teve que acelerar de um modo que nunca lhe fôra exigido, entrando na correnteza do tempo e, sem controle, viajando para o século 64.

Na sequência Race Against Time!, após a vitória sobre Savitar e já no segundo semestre de 1996, Wally tenta voltar para sua época em sucessivos saltos que vão retrocedendo ao longo dos séculos. Um dos personagens que o auxiliam é John Fox, o Flash do século 27, herdeiro do manto inspirado na memória de Barry e de Wally.

Na continuidade das histórias, estou em dezembro de 1996, no ponto em que Wally consegue voltar ao século 20. Acontece que, ainda na luta contra Savitar no início do ano, Wally havia sido auxiliado por uma corredora de codinome XS (lê-se “excess”), que aliás também é uma neta de Barry Allen nascida no século 30 (e prima de Bart). Em Deat Heat, XS havia voltado no tempo, de seu século 30 para o século 20, juntamente com seus colegas da Legião dos Super-Heróis, e havia ficado presa aqui. Assim como Wally passa a usar a Speed Force para voltar do futuro para o presente (e afinal consegue), XS tenta saltar em sentido contrário, do presente para o futuro (que é o “presente dela”). No título The Flash, nas edições de 1996, a jovem heroína XS é apenas um personagem coadjuvante, e chega um momento (no primeiro capítulo de Race Against Time!, The Flash #112, abril de 1996) em que John Fox e Jay Garrick a auxiliam a dar um salto no tempo. XS desaparece, o Leitor é levado a presumir que ela tenha conseguido voltar para casa, e a história volta seu foco para o Flash, suas desventuras e seu retorno feliz.

E foi aí que, sempre tentando ler tudo na ordem de publicação original, cheguei a Legionnaires Annual #3. É aqui que os dois tópicos se tocam. Tendo lido os outros anuais de 1996, eu havia presumido que esta edição estivesse na porção de 90% da Lei de Sturgeon. Para minha gratíssima surpresa, descobri que estava enganado! A história começa mostrando o que aconteceu a XS quando, auxiliada por Fox e Garrick, consegue projetar-se à correnteza do tempo. Na sequência, ela se sente atraída por um ponto focal, sai da correnteza e descobre-se já no século 30, mas ainda muito antes do ponto aonde queria chegar. Ocorre que o ponto que a atraiu foi a construção de um dispositivo de viagem no tempo pelas mãos de… Barry Allen! Desde as histórias publicadas em 1986, não me lembro de ter visto nenhuma história nova com Barry Allen que não fosse alguma retrospectiva ou, de outro modo, alguma história ambientada na Era de Prata, quando ele era o Flash titular. Até onde sei, esta é a PRIMEIRA história onde Barry aparece ao mesmo tempo em que, para o leitor, o “Flash atual” já é Wally West. Infelizmente para XS, Barry ainda é muito jovem, não tem sequer filhos e, portanto, não a reconhece. Mesmo assim, o momento é emocionante, porque XS se vê na oportunidade de conhecer seu avô, que já era falecido quando ela nasceu. A cena poderia ter sido até pungente, eu não me importaria. Mas os dois não se conhecem, então o que fica é aquela profunda admiração e o sentimento de XS de que está diante de um ícone histórico, um dos maiores heróis de todos, em um momento solitário de introspecção — e ele é seu avô!…

Barry dá a XS o privilégio e a honra de correr com ele e então consegue servir como catapulta para ela, novamente a lançando na correnteza do tempo. Desta vez, XS vai parar no século 100, onde descobre que a Terra já não existe (é aqui o ponto em comum com os outros anuais de 1996, Legends of the Dead Earth), assim como já não existe a Legião dos Super-Heróis. No planeta Almeer-5, a humanidade é oprimida pelo vilão Nevlor, que aprisionou os poucos meta-humanos restantes. Um dos heróis presos é Avatar, que empunha a milenar Lança do Destino, a qual só pode ser levantada pelos dignos. Seu traje assemelha-se aos dos deuses de Jack Kirby, em particular ao de Thor, da Marvel, cujo martelo Mjölnir sòmente os dignos podem levantar. Outra heroína é Melissa Trask (anagrama de “Stark”, pegou?), que é uma brilhante engenheira eletrônica e criou uma armadura que voa e dispara raios das mãos (tal como a do Homem de Ferro…). O terceiro herói é Robert “Bob” Brunner (como Robert Bruce Banner, certo?), que, graças a uma transferência de energia (raios gama?), transformou-se em um megamusculoso gigante azul (e não verde, OK?). As roupas se rasgam e ele fica só de calção e arremessa homenzinhos. O último herói, dito o maior de todos do século 100, não tem superpoderes, mas chegou ali em animação suspensa para liderá-los, com seu capacete com asinhas e seu traje com uma estrela no peito (tal como, vejamos, um certo Capitão América…). Com a ajuda de XS, os heróis escapam e se reúnem em uma nova base secreta construída por Stark Trask, a Mansão dos Vingadores. Observe que as palavras “Almeer” e “Nevlor” contêm as letras de “Marvel” e (Stan) “Lee”.

Recebendo nova ajuda dessa Legião “Vingadora” do século 100, XS consegue entrar novamente na correnteza do tempo, mas, em vez de voltar para casa, vai parar no Ponto de Fuga, a base espacial dos Homens Lineares, situada estàticamente em uma dimensão paralela durante o último instante de tempo antes do fim do universo. Às vezes o Ponto de Fuga aparecia nas histórias da DC dos anos 90, inclusive na minissérie Zero hora. Ali, XS encontra o Senhor do Tempo (Time Trapper), um vilão das histórias da Legião dos Super-Heróis — que, porém, ela não conhecia, porque não houve confrontos com ele depois que ela passou a integrar a Legião. O Senhor do Tempo tem domínio das linhas de tempo, que muitas vezes manipula para alterar eventos a seu favor, mas, neste breve encontro, ele se apresenta a XS como alguém que age assim a benefício da raça humana, em contraposição aos Homens Lineares, que patrulham as linhas de tempo contra interferências e, entre outras coisas, impedem que o planeta Terra seja salvo da destruição. Sob essa óptica, o Senhor do Tempo é que é o herói! Antes que ele a envie de volta ao século 30, XS consegue testemunhar os eventos de Zero Hora sob a perspectiva dos Homens Lineares. Embora ela não entenda o que está acontecendo (pois é uma personagem criada por Mark Waid após a publicação de Zero hora), o Leitor consegue reconhecer diversas falas dos Homens Lineares, de Waverider e do Átomo, assim como a morte do Átomo, que foi um dos desdobramentos da minissérie. O roteirista nunca explicita que é o Zero Hora que estamos vendo, mas deixa a conclusão bem disponível enquanto conseguimos observar os mesmos acontecimentos sob uma perspectiva diferente.

Curiosamente, a história de Legionnaires Annual #3 não foi escrita pelo consistente e cuidadoso Mark Waid, mas por Roger Stern. É uma história tão coerente, tão bem encaixada no universo DC, tão alinhada com as histórias do Flash às quais está ligada, tão perfeitamente elegante diante das cronologias de Zero Hora e da Legião dos Super-Heróis, que você pensaria que Waid fosse o verdadeiro Autor. A obediência à continuidade e o tratamento respeitoso (e não debochado) dos heróis da Marvel mostram um vínculo afetivo aos quadrinhos que tìpicamente vemos na obra de Waid. Fica o elogio ao excelente trabalho, não só de quem escreveu como de quem desenhou (Tony Castrillo, Chuck Wojtkiewicz e Dan Jurgens, o último dos quais foi quem desenhou o trecho “Zero Hora” e fôra também o desenhista da minissérie Zero Hora original) e, especialmente, de quem editou (Ruben Díaz e K.C. Carlson, que fôra editor de Zero Hora).

(*) Sim, estou parcialmente ciente do efetivo retorno de Barry Allen após a Crise Final. Como eu disse, minha leitura está em 1996 e, neste ponto, permanece a intenção da DC de manter Barry morto definitivamente.

EOF

Minha pseudorresenha de Man of Steel

Tal como no caso de Into Darkness (q.v. abaixo), não vou resenhar o filme do Homem Que Avoa (Agora Com a Cueca Para Dentro da Calça), porque muita gente já está fazendo isso e com mais habilidade do que eu. Vim apenas relatar alguns detalhes que me chamaram a atenção. Há spoilers, de modo que, novamente, a fonte do texto é branca. Você tem que selecionar para lê-lo.

Logo ao começo do filme, os kryptonianos golpistas são condenados à Zona Fantasma. Já tínhamos visto essa cena, embora de outro modo, em Superman II, de 1980. Naquela ocasião como nesta, a Zona Fantasma acaba servindo mais como salvação do que como punição. Pense bem: o planeta é destruído, todos os kryptonianos morrem — exceto Kal-El e os ocupantes da Zona Fantasma. Neste filme de 2013, o prêmio é ainda mais evidente, porque, assim que o planeta se acaba, cessa também o efeito da Zona Fantasma, e os criminosos estão livres! Você poderia argumentar que, com o fim de Krypton, vão-se também suas leis e toda a importância que poderia ter seu sistema penal. Seria como libertar todos os prisioneiros em um país que se revoluciona e arruína, já que não faria sentido continuar a punir alguém segundo regras que já não têm relevância ou vigência. Só que eu tenho certeza de que não foi essa a intenção dos roteiristas, assim como tenho certeza de que não faz o menor sentido privilegiar os criminosos e deixar que morra o restante da população.

Vários personagens do filme são velhos conhecidos de quem conhece os quadrinhos. Falar em Jor-El, Lara, Lois Lane e Perry White é um tanto óbvio, mas também estão presentes o robô flutuante Kelex — com bàsicamente a mesma aparência que lhe deu John Byrne –, Pete Ross, Lana Lang e até mesmo Ken Braverman, o valentão que descobriu a identidade secreta de Kal-El/Clark Kent na história A morte de Clark Kent, de 1995. Braverman é aquele moleque ruivo que desafia Clark, jogando-o ao chão em frente a uma oficina mecânica, e afinal se afasta quando vê que os adultos estão olhando.

Aliás, estudando os créditos do filme no IMDB, descubro que há alguns extras (nem sequer são personagens secundários) chamados Byrne e Sekowski. John Byrne foi o roteirista e desenhista do reboot do Super-Homem na minissérie The Man of Steel, de 1986, sucedida por um período em que foi ele o principal Autor por trás do personagem. Mike Sekowski foi o principal desenhista da Liga da Justiça nos anos 60.

No filme, o ruivo Pete Ross é um gordinho que começa provocando Clark Kent no ônibus escolar, é salvo de afogamento e, quando adulto, é gerente de uma IHOP. As IHOPs são lanchonetes sub-McDonald’s, bem fuleirinhas, onde só trabalham pessoas de pouca qualificação. Creio que a ideia fosse mostrar um emprego bem medíocre para o ex-colega de Clark. Em contraste, nos quadrinhos, Pete Ross é um bom e velho amigo de Clark Kent, não tem nada de gordinho, casa-se com Lana Lang e, bem mais tarde, chega a senador e vice-presidente dos Estados Unidos na década de 90, ao ponto de exercer a presidência.

Ainda em Smallville, Jonathan Kent foi um idiota de escolher a morte. Pense bem: independente de superpoderes, o que você tem na estrada é um jovem de dezessete anos, na flor da idade e no máximo de sua capacidade física, e um cansado agricultor que já está entrando na senectude. QUEM você envia para resgatar um cachorro preso na camioneta? QUEM teria mais possibilidades diante de um tornado? E quem teria que ficar abrigado embaixo do viaduto? Aliás, pensando bem, seria uma EXCELENTE oportunidade para se usarem os superpoderes, já que, no meio da ventania, não daria para ver que estivessem sendo usados. Mesmo que Clark não voasse nem usasse superforça, ele não seria ferido, nem ninguém perceberia que o normal seria não sobreviver. Portanto, Jonathan Kent foi um idiota que buscou a própria morte e por isso mereceu morrer.

Na minissérie Man of Steel, de Byrne, assim como na divertida série Lois & Clark, o uniforme de Super-Homem foi criado e costurado por Martha Kent, com acréscimo do S por Jonathan Kent. Neste filme, o uniforme tem origem kryptoniana, aproximando-se do retorno às origens proposto em The Adventures of Superman #455, de junho de 1989 (publicada em Super-Homem no. 85 em julho de 1991). Além disso, tal como no filme de 1978 e nos quadrinhos pós-Byrne, agora o símbolo de S já era usado pela Casa de El em Krypton. Absolutamente não há erro nem criatividade nisso; é uma questão de escolha do roteirista, que dará preferência à versão que mais combina com a história que quer contar. Pessoalmente, prefiro esta versão usada no filme, por mais que haja a incrível coincidência de que o símbolo de esperança em Krypton coincida com a letra S.

Aliás, você reparou como a insígnia de Zod lembra um pouco a foice-e-martelo usada por Kal-El na minissérie Superman: Red Son?

Neste filme de 2013, ficamos sabendo que Krypton explorou o espaço no passado, tomando conhecimento da Terra entre muitos outros planetas, e que depois optou pela reclusão. Fica evidente que os kryptonianos erraram ao abandonarem seu programa espacial e se concentrarem no próprio umbigo, já que, no fim, causaram a condenação de Krypton sem terem para onde fugir. A meu juízo, essa solução aproveita a parte dramática, melancólica e inteligente das histórias de John Byrne dos anos 80, sem seu lado ligeiramente estúpido. De acordo com Byrne na minissérie World of Krypton, de 1987-1988 (Super-Homem especial no. 1, de agosto de 1988), e com Jerry Ordway e George Pérez em Action Comics Annual #2, de 1989 (Super-Homem no. 84, de junho de 1991), foram os próprios kryptonianos quem usaram uma arma de guerra para iniciar uma reação em cadeia no núcleo de seu planeta, milênios antes do nascimento de Jor-El. A reação desenvolveu-se lenta mas contìnuamente, enquanto, na superfície, a sociedade evoluía para repudiar as guerras mas, ao mesmo tempo, hipervalorizar tradições, abrir mão de todo contato entre pessoas e estagnar, mais ou menos como a civilização de Solaria e Aurora nos livros The Naked Sun, The Robots of Dawn e Robots and Empire, de Isaac Asimov, e o planeta Vulcano, de nosso querido Sr. Spock. Com o tempo, o gradual envenenamento radioativo causou esterilidade não apenas das ideias mas também dos corpos dos kryptonianos, que já não se reproduziam quando o planeta finalmente explodiu, deixando uma amarga lição sobre o efeito de longo prazo das armas nucleares — muito pertinente naquele fim dos anos 80, quando a Guerra Fria, atingindo o clímax, entrava em sua corrida armamentista final antes de terminar para alívio de todos os terráqueos. A parte estúpida da História de Krypton veio em ACA #2, quando ficou revelado que os kryptonianos tinham um defeito genético que os impedia de deixar o planeta. Ora, em razão de tudo que já foi exposto, é muito mais coerente, trágico e didático supor que eles tenham optado por abandonar suas excursões espaciais, em lugar de dizer que haviam sido impedidos por alguma causa inerente a sua constituição. Além disso, novamente fica a mensagem do preço que se paga por se agredir irresponsàvelmente o planeta onde se vive: os kryptonianos deste filme de 2013 estão usando o núcleo de Krypton como fonte de energia e, com isso, causando a destruição de seu mundo, tal como os terráqueos humanos de 2013 fazem ao queimarem combustíveis fósseis como fonte de energia e, com isso, causarem o aquecimento global e o fim de várias espécies — inclusive sua própria. A solução correta, para eles como para nós, seria abandonar as práticas destrutivas; a paliativa, para eles como para nós, será procurar um novo e acolhedor planeta — exceto que nossa exploração espacial nem de longe está adiantada como a deles.

… Pelo menos a representação de Krypton está coerente com o cenário demonstrado nas histórias de Byrne: desolado, desértico e pontiagudo, contribuindo para isolar as pessoas umas das outras, mas sem aquele aspecto polar de espigões cristalinos contra um céu negro como se vê nos filmes de 1978 e 1980.

Um detalhe que faz TODA a diferença na mitologia do Homem de Aço: neste filme, Lois Lane descobre sòzinha que Clark Kent é o Super-Homem — e cedo! O fim do filme mostra que haverá uma convivência entre eles dali em diante, mas, diferentemente do que aconteceu nos quadrinhos durante décadas, Lois SABE o segredo de Clark, e nem foi ele quem contou.

Repare que, quando Zod discursa para o mundo exigindo a entrega de Kal-El, uma das versões do texto “you are not alone” está em português. Aqui houve um erro de tradução lá em Roliúdi: em português, no contexto em que a frase foi usada, o certo não seria “vocÊ não estÁ sòzinhO”, mas “vocÊS não estÃO sòzinhOS”. Em tempos de salas de projeção digitais, não sei se isso foi só no Brasil ou se também está assim nas exibições de Man of Steel pelo resto do mundo. Na segunda hipótese, suponho que o Brasil tenha passado a chamar a atenção do mundo com todo o petróleo, o ressurgimento da economia e os recentes e futuros eventos de esporte e visita do Papa.

Por falar em Papa, há diversas semelhanças entre Kal-El e Jesus Cristo, certamente intencionais. Este paralelo já foi enfatizado em múltiplos momentos ao longo da História da DC, com o maior e mais notável exemplo na minissérie Kingdom Come (O reino do amanhã na tradução). A noção geral é, naturalmente, a de um deus que caminha entre humanos com aparência de pessoa comum enquanto desempenha diversos milagres sem querer chamar atenção para si. No caso particular, o foco do filme e de Kingdom Come está no papel de Kal-El como salvador da humanidade. No caso do filme, Kal-El está disposto a se sacrificar para conseguir essa salvação, na mesma rendição que é o clímax do Evangelho. Para deixar isso ainda mais evidente, há uma cena onde Kal-El procura um padre numa igreja, aflito e em dúvida: se deve ou não deve assumir o sacrifício. Atrás dele, vê-se um vitral que representa Jesus Cristo no Getsêmane, na mesma passagem do Evangelho onde está em dúvida e pede para, se possível, ser dispensado da função de Cordeiro de Deus, logo antes de ser capturado pelos soldados romanos. O padre fala em esperança e, atrás dele, vê-se outro vitral, onde Jesus Cristo ressuscita. Aliás essa é a mesma justaposição que foi praticada por Kingdom Come perto do fim do capítulo 4, quando o Padre McCay prega em sua igreja com os mesmos vitrais ao fundo.

Outra semelhança entre Kal-El e Jesus Cristo é que, no filme, no momento em que é chamado a salvar a humanidade, Kal-El tem 33 anos de idade. Nos quadrinhos, o Azulão apresenta-se ao mundo antes dos trinta.

Uma terceira semelhança entre Kal-El e Jesus Cristo é o momento em que os militares estão reunidos no deserto e Kal-El desce em pé, braços abertos na posição de crucifixão, a capa esvoaçando e o Sol por trás. É uma visão bem religiosa e dramática de um ser òbviamente superior. Por sinal, Kingdom Come tem essa mesma cena, apenas um pouco diferente.

Durante a luta em Metrópolis, tenho certeza de que todos viram, enormes, as letras “LEX CORP” no caminhão trailer de combustível que é jogado em cima de Kal-El. Ele passa por cima do engate e o caminhão explode no térreo de um prédio, atrás dele. Só que, além disso, há um determinado momento anterior no filme em que Clark chega para visitar a mãe. Fica claro que ele pegou carona em um veículo que vemos acelerar ao fundo. O que algumas pessoas podem não ter visto é que esse veículo não é um ônibus, mas outro caminhão da Lexcorp. Esses dois detalhes minúsculos evidenciam que, embora Lex Luthor não esteja em pessoa neste filme, a Lexcorp é uma entidade onipresente.

A respeito do Coronel Hardy (Christopher Meloni, de Law and Order: Special Victims Unit), o filme cometeu o mesmo erro da série Space: Above and Beyond. Na série (que de outro modo é excelente e recomendo), jovens pilotos de caças espaciais têm a dupla função de atuar como infantaria móvel ao estilo de Starship Troopers. Minha maior crítica a S:AAB é justamente essa impossível dupla especialização. Ou bem se é um piloto (uma profissão que exige dedicação 24/7, inclusive quando se está em terra), ou bem se é um socador de barro (como os chamou Garibaldi em Babylon 5). As duas coisas não dá! Em Man of Steel, Hardy é responsável pelas escavações no Ártico, mas também é o encarregado da infantaria que vai receber Faora-Ul no deserto e, finalmente, é visto aos controles de um C-17… Não dá pra fazer tudo!

Na estação de trem, vemos Zod tentando matar um grupo de terráqueos assustados, que se encolhiam a um canto, enquanto Kal-El tenta impedi-lo. Ao fim, Kal-El mata Zod, para seu grande lamento. O filme não foi específico em expressar o principal valor moral de Clark Kent, que é a preservação da vida — toda e qualquer vida, inclusive a de um criminoso kryptoniano. Mesmo assim, chegou a mostrar (sem explicar) que Kal-El só matou Zod por uma razão, que era a total impossibilidade de detê-lo de outro modo. Ficou muito claro que, enquanto Kal não o matasse, Zod estaria o tempo inteiro tentando acabar com os humanos; a única forma de interromper a matança seria pôr fim ao próprio Zod: uma vida sendo interrompida para salvar bilhões. Essa é a mesma escolha difícil com que Clark se depara, e que Kal-El pratica, em Superman #22, de outubro de 1988 (Super Powers no. 17, de maio de 1990). Nos quadrinhos, foi uma experiência traumática cujos efeitos se estenderam e ramificaram por todo o universo DC por um longo tempo. No filme — veremos. Mas ele me pareceu curado depois de um mero grito de desespero e lamúria.

É claro que, morto Zod, você não ouviu vozes, suspiros aliviados nem agradecimentos dos terráqueos que estavam acuados no canto, nem os viu rodeando o Homem de Aço diante do general inerte. Ao contrário: só o que se vê é uma pequena e densa nuvem de fumaça preta, vindo justamente de onde Zod os encurralara. Alguma dúvida de que foram efetivamente torrados a despeito dos esforços do Azulão? Imagino que uma das intenções dos roteiristas, ostensiva ou mesmo subconsciente, fosse ter Kal-El punindo Zod com a pena capital em razão desse específico homicídio.

E isso era o que eu tinha para comentar. Sua vez.

EOF