Bastou trocar a grafia e a mensagem ficou clara

Em outras postagens (como esta, esta e esta), comentei os livros da Fundação, onde Isaac Asimov imaginou seu Império Galáctico. Situado 21 mil anos no futuro, o Império é constituído de 25 milhões de planetas habitados, ocupando toda a Via Láctea.

Asimov foi categórico em mais de um desses livros: em todo o Império, a única vida inteligente é a humana. Quando explorados pelos primeiros visitantes, alguns planetas tinham plantas nativas, pouquíssimos tinham pequenos animais; nenhum tinha outra espécie autoconsciente. E assim tomamos esse espaço sem disputa, e deixamos a Terra para trás, e ninguém mais lembra onde ficava nosso planeta natal, cuja própria existência é matéria de debate.

Para um Autor de ficção científica tão prolífico, Asimov escreveu muito poucas histórias envolvendo alienígenas, nenhuma passada no universo do Império. Após alguns livros, esse contraste chama a atenção do leitor. Como poderia um Autor de scifi, dono de uma imaginação tão fértil, NÃO conceber que outros planetas da Galáxia pudessem ser habitados?

A resposta quem deu foi o próprio Asimov. Ao longo de suas centenas de livros, ele sempre reconta como seu primeiro grande editor foi John Campbell. Foi nas conversas com Campbell que surgiram as oito histórias originais e geniais da Fundação.

Conforme narrado pelo Bom Doutor, todas as vezes em que ele propôs histórias com alienígenas, Campbell acolheu a ideia mas sempre fez questão de que a raça humana fosse representada como melhor e superior. Na percepção de Asimov, esse monotema estava firmado em um racismo subjacente: a superioridade da espécie humana sobre os alienígenas seria uma alegoria para uma superioridade entre raças da própria humanidade. Em razão de suas convicções, Asimov ficou bastante incomodado com o racismo de Campbell, ainda que disfarçado, e recusava-se a escrever histórias onde essas noções estivessem sequer implícitas.

Mas ele precisava da aprovação de Campbell para conseguir vender seu material. Então, sua solução foi um meio termo: na Galáxia não haveria seres inteligentes senão os humanos. Pronto; não há comparação com mais ninguém, porque não há mais ninguém.

Do ponto de vista das histórias, fica difícil justificar essa escolha. Afinal, se a vida inteligente nasceu na Terra como resultado natural da evolução após apenas 4,5 bilhões de anos, então seria igualmente provável seu surgimento em pelo menos alguns dos milhões de planetas da Galáxia. Felizmente, Asimov não se esforçou para criar alguma explicação, que sempre soaria implausível. Simplesmente manteve essa unicidade da espécie humana como um mistério, sobre o qual seus personagens especulavam.

(Na verdade existe uma história ambientada no Império, chamada Blind Alley, onde a humanidade é contraposta a uma espécie inteligente nativa de outro planeta. Por ser a única nesses termos, destaca-se bastante entre as demais histórias, sendo a exceção que confirma a regra. Por sinal, é um conto excelente, e seu verdadeiro assunto é a burocracia imperial, não os alienígenas.)

Então, chegamos ao ponto onde li 77% de Foundation’s Fear, de Gregory Benford, na continuação autorizada das histórias da Fundação por Autores pós-asimovianos. Em meu exemplar (de ISBN 978-0-06-105638-3), na página 484, encontramos o seguinte diálogo entre Hari Seldon e sua esposa Dors:

O buraco de minhoca cúbico levou-os ràpidamente a várias docas em órbita próxima em torno de planetas. Um deles Hari reconheceu como um tipo raro com uma biosfera antiga porém arruinada. Como Panucópia, ele sustentava formas de vida avançadas. Na maioria dos mundos habitáveis, os primeiros exploradores haviam encontrado tapetes de algas que nunca se desenvolveram adiante.

— Por que nenhum alienígena interessante, então? — Hari se perguntou enquanto Dors lidava com os Homens de Cinza das docas locais.

Ocasionalmente, Dors lembrava-o de que ela era, afinal de contas, uma historiadora. — A mudança de criaturas unicelulares para multicelulares levou bilhões de anos, diz a teoria. Nós simplesmente viemos de uma biosfera mais rápida, mais durona, só isso.

— Também viemos de um planeta com pelo menos uma grande lua.

— Por quê?

— Temos incorporados padrões repetitivos de 28 dias. A menstruação, por exemplo — incidentalmente diferente da dos chimpanzés. Somos projetados pela biologia. Nós tivemos sucesso, essas biosferas não tiveram. Existem muitos meios de matar um mundo. Geleiras avançando quando uma órbita se altera. Asteróides se chocando, bam-bam-bam! — Ele bateu barulhentamente na lateral da cabine. — A química da atmosfera dá errado. Ela sai do controle até o planeta se tornar uma estufa ou congelar.

— Entendi.

— Humanos são mais resistentes — e mais inteligentes — do que qualquer um. Nós estamos aqui, eles não.

— Quem disse?

— Conhecimento comum, desde que o socioteórico, Kampfbel —

— Tenho certeza de que você tem razão — ela disse ràpidamente.

Nesse diálogo, emerge aquele mesmo racismo que Asimov evitou. “Viemos de uma biosfera mais durona”, “humanos são mais resistentes e mais inteligentes”. Seria uma forma de explicar como nosso planeta evoluiu mais rápido, mas também há uma crítica aí, escondida mais fundo.

Como é o nome do teórico que explicou a prevalência da raça humana? Kampfbel?

Campbell?

Em alemão, muitas vezes, a grafia “pf” indica o som de /f/, e muitas vezes os sons de /p/ e /f/ são intercambiáveis de uma língua para outra. Em particular, várias palavras do alemão têm um /f/ onde, em inglês, têm um /p/. Assim ship (em inglês) x Schiff (em alemão); apple (no inglês) x Apfel (no alemão).

Vê-se que “Kampfbel” é apenas uma transposição do nome escocês “Campbell” para alemão, com o duplo efeito de aproximar o nome de “Kampf” (luta), como no título de Mein Kampf, o livro onde Hitler verteu o núcleo de sua ideologia nazista, fundada na racista noção de superioridade da etnia ariana, a qual teve apoio de teóricos alemães de sua época.

Essa engenhosa equiparação de Campbell a um nazista, embora possìvelmente exagerada, é um pequeno Easter egg inserido por Gregory Benford em Foundation’s Fear. Imagino que tenha sido uma forma de Benford sinalizar ao leitor a verdadeira explicação, fundada no mundo real, para uma Galáxia deserta de outras formas de vida inteligentes na ficção; ou, pelo menos, sua forma de vincular Campbell a esse estranho fenômeno na obra de Asimov.

Trata-se de uma limitação de cenário imposta por Asimov como resposta à limitação mental de seu antigo editor. Um desentendimento político entre escritor e editor tem o efeito de moldar várias obras, e as consequências acabam ressoando décadas depois, quando os personagens continuam discutindo como é possível tamanha ausência de vida inteligente, como se criticassem seu Autor pela extrema improbabilidade.

Gregory Benford e o Princípio de Lavoisier

Como já noticiei em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), prossigo no empreendimento de ler todas as histórias de Asimov ambientadas em seu universo dos robôs, do Império e da Fundação. Houve alguns desvios de rota, quando descobri que, sem querer, havia pulado algumas histórias que não conhecia e voltei para consertar essas omissões. Até agora, porém, acredito ter lido tudo em uma ordem relativamente próxima da ideal (i.e. ordem de publicação das histórias). Todos os livros que ainda restam à frente foram publicados depois dos que já ficaram para trás, que são:

  • I, Robot, de 1950 (contendo nove contos e uma história que os costura);
  • Foundation, de 1951 (contendo cinco noveletas e sendo o primeiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Foundation and Empire, de 1952 (contendo duas noveletas; segundo livro da Trilogia da Fundação);
  • Second Foundation, de 1953 (contendo duas noveletas; terceiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Pebble in the Sky, de 1950 (romance);
  • The Stars Like Dust, de 1951 (romance);
  • The Currents of Space, de 1952 (romance);
  • The Caves of Steel, de 1954 (romance);
  • The End of Eternity, de 1955 (romance);
  • The Naked Sun, de 1957 (romance);
  • The Early Asimov, de 1974 (contendo histórias que são verdadeiros rascunhos do universo dos robôs e da Fundação, mais os contos Blind Alley e Mother Earth);
  • The Rest of the Robots, de 1964 (com contos que não entraram em I, Robot);
  • Nightfall and Other Stories, de 1969 (com mais alguns contos que ficaram de fora);
  • The Bicentennial Man and Other Stories, de 1976 (com a noveleta de mesmo nome);
  • The Complete Robot, de 1984 (com os contos faltantes até aqui);
  • Foundation’s Edge, de 1982 (romance);
  • The Robots of Dawn, de 1983 (romance);
  • Robots and Empire, de 1986 (romance);
  • Foundation and Earth, de 1986 (romance);
  • Robot Dreams, de 1986 (com os contos faltantes até aqui);
  • Prelude to Foundation, de 1988 (romance);
  • Nemesis, de 1990 (romance);
  • Robot Visions, de 1990 (contos e ensaios);

e então Asimov morreu em 1992, deixando o romance Forward the Foundation, de 1993, completo porém póstumo.

Enquanto Asimov ainda vivia, em 1989, seu amigo Martin Greenberg editou uma compilação de diversos Autores intitulada Foundation’s Friends, ambientada no universo dos robôs e da Fundação. Naturalmente, tive que lê-la, já na segunda edição, de 1997, que contém obituários do Bom Doutor.

Estou agora relativamente perto do fim. Faltam três livros ambientados neste universo: Foundation’s Fear, de Gregory Benford; Foundation and Chaos, de Greg Bear; e Foundation’s Triumph, de David Brin. Essas três obras, todas posteriores ao falecimento do Grande Mestre, foram autorizadas por seu espólio e, portanto, constam das listas de obras oficiais, compondo a “Segunda Trilogia da Fundação”. Quando terminar esses três livros, abordarei alguns contos esparsos escritos por fãs, mais a história de toda essa bibliografia narrada por Johnny Pez, e darei o trabalho por encerrado.

Por ora, estou deixando de lado algumas séries de romances de outros Autores, também autorizadas por Asimov e ambientadas no mesmo universo porém, até onde pesquisei, suficientemente autônomas. São uma espécie de via acessória, um meandro para fora do rio, aproveitando elementos da história principal mas sem contribuir de volta para dentro dela nem lhe dar continuidade. Pretendo voltar a estes livros oportunamente, mas já não têm prioridade. São as séries Isaac Asimov’s Robot City, Robots and Aliens e Robot Mystery e a trilogia Caliban. Por fim, o romance não autorizado Psychohistorical Crisis, também deixado para depois.

Lembro ao Leitor que as noveletas e romances da Fundação têm como base os últimos dias de glória do Império Galáctico, que está em seu ápice no momento em que entra na história o teórico Hari Seldon. O talentoso Seldon cria um ramo da Matemática chamado Psico-História, no qual consegue descrever o comportamento de populações humanas por meio de equações. Manejando esse conhecimento, Seldon percebe que, contrariando o senso comum e as evidências imediatas, o Império já começou seu declínio e, em alguns séculos, estará fragmentado em barbárie. Os primeiros livros da Fundação narram como Seldon institui uma forma de restabelecer a civilização após o fim do Império, e os últimos dois livros da Fundação escritos pelo próprio Asimov (Prelude to Foundation e Forward the Foundation) são prequels, contando a vida de Seldon e as experiências que o levaram a formular a Psico-História.

O que me motivou a escrever hoje foram algumas descobertas que fiz ao ler Foundation’s Fear, de 1997. Este livro ambienta-se entre as partes I e II de Forward the Foundation e pretende revelar algumas experiências com que Seldon completou lacunas na modelagem da Psico-História.

Capa de Foundation's Fear

O medo é do que aconteceria com a Trilogia depois que Asimov morreu!

Até agora li 67% do livro e não estou bem impressionado. Para começar, já fiquei um pouco decepcionado quando descobri que a Segunda Trilogia não era a continuação das histórias da Fundação, pois se ambientava em momentos intermediários dentro de histórias já publicadas. Minha experiência com prequels e midquels* já não é boa, depois dos pequenos desastres de Star Trek: Enterprise e Discovery e de Star Wars Episódios I, II e III. Só que isso não seria um problema se o livro fosse bom.
* Midquel: um termo que acabei de inventar para me referir a histórias passadas no meio de outras. Você viu primeiro aqui!

Vejamos. Em determinada passagem, dois personagens coadjuvantes recuperam e incrementam arquivos de computador que são reconstruções de Voltaire e Joana d’Arc. Postas a rodar em um ambiente virtual, essas reconstruções deveriam comportar-se exatamente conforme os originais, permitindo que a plateia comparasse os pontos de vista respectivos, da Razão e da Fé. Entretanto, as duas simulações descobrem que são apenas imitações digitais, e o livro gasta dezenas de sofridas páginas descrevendo as percepções que as duas personalidades têm do ambiente do computador por dentro. Ora é como se estivessem dentro dos cenários de Tron, ora dentro de um holodeck de Jornada nas Estrelas, só que com inúmeras metáforas, subjetivismos, simbolismos, e, na maior parte do tempo, não dá para saber do que estão falando. Foi um suplício superar essas passagens, que não dizem nada e só enrolam o leitor em verborragia e cansaço. Há pouco ou nenhum propósito, e nenhum nexo, em relação ao restante do próprio livro e à obra original de Asimov. Uma perda de tempo rematada.

De repente, do nada, Benford leva Hari Seldon a tirar férias no planeta turístico Panucópia, cujos visitantes dividem seu tempo entre a beira da piscina, as festas e os safáris. Originalmente, o clima tropical de Panucópia serviu para que cientistas pesquisassem o comportamento de vários animais selvagens em seu estado natural, o que é muito raro no Império Galáctico. Com a limitação de fundos para pesquisa, os cientistas tiveram que ser criativos, construindo um hotel de luxo junto à base e cobrando por visitas guiadas à selva. O dinheiro assim arrecadado passou a financiar a continuidade dos trabalhos.

É importante entender que, na Galáxia das histórias da Fundação, há milhões de planetas habitáveis, muitos dos quais colonizados pela raça humana e compondo o Império Galáctico. Não existe vida inteligente além da humana (exceto em Blind Alley e em dois dos primeiros contos de robôs), e as poucas faunas e floras nativas foram facilmente dominadas. Na Era Galáctica (para além do século 180), a humanidade abandonou a Terra há tanto tempo que ninguém mais sabe onde ela ficava, a tal ponto que é considerada um mito, e todo o conhecimento sobre este planetinha é apenas o resultado de deduções com base em evidências praticamente inexistentes.

Então, em Fear, o chefe dos pesquisadores de Panucópia explica a Seldon que os animais do planeta não são nativos, tendo sido levados para lá por alguma expedição muitos milênios antes, tanto tempo que ninguém mais sabe como nem para quê. Supostamente seriam animais oriundos da Terra nos quais teriam sido feitos experimentos genéticos que transformaram as espécies originais. O livro refere-se a símios chamados “pans”, que, pela descrição, tenho certeza de que são chimpanzés. Refere-se, também, a “rabuínos”, o resultado de experimentos sobre outros símios (òbviamente babuínos) que os teriam transformado em uma nova espécie, carnívora, onde as mãos teriam evoluído para garras curtas e as patas traseiras teriam ganhado força para correrem. Refere-se, ainda, a “gigantílopes”, que, pela descrição, seriam paquidermes supostamente derivados dos antílopes.

Um dos serviços oferecidos por Panucópia é a imersão, criada originalmente para fins científicos mas depois estendida aos turistas. Alguns símios foram submetidos a cirurgias, com a implantação de circuitos elétricos e antenas diretamente no cérebro. Na estação de pesquisa, a cada animal fica associada uma câmara de imersão, onde um usuário se conecta e recebe sinais do sistema nervoso do animal. A imersão dá acesso imediato ao que o símio está vendo e ouvindo, a suas emoções e a toda a sua percepção subjetiva, essencialmente permitindo que o usuário viva o chimpanzé. Uma longa passagem de Foundation’s Fear narra como Seldon experimenta a imersão sucessivas vezes, estudando o comportamento dos “pans” como uma versão simplificada do comportamento humano, sem os vernizes civilizatórios que escondem as motivações animais subjacentes a nossos atos. (Aliás, neste ponto lembra muito aquele filme doido, Being John Malkovich, onde as pessoas conhecem o ator “por dentro”.)

Em toda essa passagem, os pans são ameaçados por bandos de rabuínos, e há um momento em que Benford se refere a estes predadores pelo nome científico Carnopapio grandis. Teòricamente rabuínos não existem, mas, mesmo assim, joguei esse nome no Google com a noção de obter alguma descrição precisa, alguma ilustração, quiçá até de descobrir que, na verdade, seriam babuínos, apenas com outro nome.

Foi aí que algumas revelações se descortinaram para mim.

Primeiro, descobri que os rabuínos e gigantílopes não foram inventados por Benford. Ambas as espécies constam do livro de ficção biológica After Man: a Zoology of the Future, do escocês Dougal Dixon, publicado em 1981. Dixon especula sobre espécies que poderiam surgir na Terra 50 milhões de anos após o fim da raça humana.

Até aí, tanto melhor. É sempre bacana ver a criação de um escritor sendo aproveitada por outro, que constrói uma história em cima.

Só que o Google também me mostrou que o nome Carnopapio grandis aparecia em outro livro. Immersion, de Gregory Benford, aparece na Internet Speculative Fiction Database como uma história publicada em março de 1996 e integrante da antologia Immersion and Other Short Novels, de 2002.

Capa de Foundation's Fear

Se você plagia a si mesmo, não é plágio.

Pela evidência que encontrei no Google Books, percebo que Immersion é exatamente o trecho de Foundation’s Fear ambientado em Panucópia, palavra por palavra. Houve mera troca dos nomes dos personagens, a substituição de Panucópia pela África, a dos “pans” por chimpanzés e a da Psico-História por Sócio-História, o que é muito fácil de se conseguir com a função “substituir tudo” do Word. Como o Google Books nunca mostra o conteúdo inteiro dos livros, não pude comparar as duas obras com precisão milimétrica, mas a amostra que tive foi suficiente.

Aliás, conforme lia Foundation’s Fear, percebi que as várias partes do livro são completamente desconexas umas das outras. É como se fossem obras distintas que foram reunidas dentro de um mesmo par de capas, sem uma verdadeira costura que as ligasse. Esse vício de origem fica particularmente claro quando se vê que Benford foi capaz de reaproveitar uma parte inteira do livro como uma noveleta autônoma de algum sucesso, trocando apenas os nomes dos personagens.

Na medida em que Immersion está datada de 1996 e Foundation’s Fear é de 1997, poderíamos pensar que, na verdade, a primeira obra seja a original e a segunda, seu reaproveitamento. Porém, do que li de Immersion, o personagem principal traz características de Hari Seldon. Além disso, claramente sua Sócio-História, baseada em Matemática, é a Psico-História imaginada por Asimov. Portanto, o conteúdo de Immersion já foi concebido com elementos do universo de Asimov, apenas com outros nomes. E a diferença de tempo entre os lançamentos das obras é de apenas um ano. Minha hipótese de trabalho é que esta parte de Fear tenha ficado pronta antes do resto do livro e Benford a tenha lançado antes, possìvelmente até para ter uma estimativa do sucesso que faria o romance mais longo.

Igualmente lamentável é o fato de que esta parte de Foundation’s Fear é a única que conseguiu atrair meu interesse em alguma medida. Até aqui, a maior parte do livro foi um lodaçal, onde avancei contra enorme resistência. Maçante, monótono, perdido em digressões sem ir a lugar nenhum.

As críticas que faço a Foundation’s Fear são várias e estão muito bem resumidas por esta resenha de alguém que se apresenta com o pseudônimo Stettin Palver**, que encontrei quando pesquisava para este artigo, em <http://www.scifi-review.net/foundations-fear-by-gregory-benford.html>. Traduzindo as partes mais relevantes:
** Stettin Palver é o nome de um dos personagens de Forward the Foundation.

“1. Buracos de minhoca: existe uma vasta rede de buracos de minhoca que parece ser parcialmente natural e parcialmente artificial, criada e mantida para ligar o Império. Este é um conceito completamente novo e que é acrescentado, aparentemente do nada [em contraste com o fato de que, nos livros da Fundação de Asimov, a navegação espacial é feita pelo hiperespaço, sem menção a nenhum buraco de minhoca]. Onde estavam esses buracos de minhoca no resto da série de Asimov? Benford não faz qualquer tentativa de reconciliar essa inconsistência [o que poderia fazer facilmente com a famosa técnica da continuidade retroativa]. O próprio Asimov sempre se desculpava em retrospecto após se descobrir que eram impossíveis as tecnologias ou teorias que ele integrava nas histórias, mas não vejo por que haja a necessidade de ACRESCENTAR tecnologia a uma série que já está tão bem estabelecida.

“2. Tiktoks: robôs com mentes simples são usados como mão de obra. Estes não são mencionados por Asimov neste ponto da linha de tempo [da Fundação], onde seres mecânicos são tabu. Benford salta e associa o tabu apenas à função mental e à aparência [humanoide]. Não creio que Asimov aprovasse.

“3. Sims: eu fiquei incomodado pelo arco de história das simulações de Joana d’Arc e Voltaire na primeira vez em que li este livro, e isso não mudou. Sims também são tabu na mesma categoria dos Robôs. Essencialmente 150-200 páginas são dedicadas a exposição de personagens para estas duas simulações e à questão se a vida digital está ‘viva’ ou possui uma alma. Já li resenhas que sugeriram que o romance fica muito melhor simplesmente pulando esta parte, e tenho que concordar [eu também — não contribui em nada]. Se você gosta de diálogo teológico que não tem qualquer impacto no conjunto da história, siga em frente e leia.

“4. Panucópia: esta parte tem aproximadamente cem páginas, mas creio que as ideias poderiam ter sido apresentadas muito mais concisamente. Entretanto, essas foram provàvelmente as cem páginas de texto mais rápidas de todo o romance [para mim também]. Definitivamente, Benford me manteve interessado, pois eu li essa parte inteira de uma assentada só, o que é incomum para mim, especialmente em relação a este romance.

“5. Erros: ‘Dors Vanabili’ deveria escrever-se ‘Venabili’. Se você está dando continuidade à obra de um grande mestre como Isaac Asimov, pelo menos verifique os nomes dos personagens! (…)

“6. Tudo mais: há uma nova tecnologia constantemente sendo introduzida e excessivamente explicada ao longo de todo o livro. Foi só por volta da página 30 que eu percebi isso pela primeira vez. Isso faz com que o Império pareça muito mais avançado e nem tanto em declínio assim.”

Você poderia perguntar, “então por que não pára de ler Foundation’s Fear?” A resposta está no início do texto: após 23 livros, faltando apenas três (e sei lá se os próximos dois são melhores), não vou pular esta parte da saga só porque é chata. Houve outras quase tão chatas quanto (lembro-me de Black Friar of the Flame e de dois dos três romances do Império) e, mesmo assim, prossegui. Não vai ser agora, faltando tão pouco, que vou deixar um vácuo e ficar sem saber o que aconteceu.

EOF

Às vezes a gente se engana

Estava assistindo ao episódio de Star Trek: the Next Generation intitulado “Emergence”, onde o computador da Enterprise adquire uma forma rudimentar de autoconsciência. Nas palavras (traduzidas por mim) do dicionário Merriam-Webster, “emergence” é “o ato de se tornar conhecido ou visível”, ou “a condição de recém-formado ou recém-proeminente”. O título do episódio traz a ideia da inteligência do computador emergindo de um mar de dados até então desconexos e fazendo-se conhecer, que é justamente o que acontece na história. Essa palavra está ligada ao verbo “emergir”, então poderia se traduzir talvez como “emersão”, mas certamente não com o nome que ganhou no Brasil, “Emergência” — pois essa palavra seria a tradução de “emergency”, que é outra coisa.

… Mas, voltando, estava assistindo ao episódio, e há uma cena onde Data fica segurando um táxi pelo pára-choque.star_trek_the_next_generation_1987_2811_medium

Não se consegue ler o primeiro caracter da placa, mas os caracteres legíveis são “20638”.

Vejamos. 6-38 remete a junho de 1938. Sabe qual foi a famosa edição publicada com data de junho de 1938?
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Então, sendo fã de quadrinhos, é claro que, de imediato, eu pensei que essa fosse uma referência. O modelo de carro é certamente semelhante.

Só que, pesquisando melhor, fui ver que a data de publicação de Action Comics #1 não foi em 20 de junho, nem na semana de 20 de junho (o que também é relevante, pois o que se costuma usar como referência é a segunda-feira da mesma semana, e não o próprio dia). Também descobri aquela letra H na frente e para ela não encontrei explicação.

A conclusão imediata é que provàvelmente se tratava de mera coincidência. Outra conclusão, de âmbito mais amplo, é que não é pra ficar vendo referências que não estão lá, feito aqueles devotos que veem a face de Jesus Cristo em qualquer fatia de pão torrado.

EOF

Não ser uma âncora

Acontece muito: você tem um sonho, que pode ser simples ou complicado. Você conta do seu sonho para alguém. Daí a pessoa logo diz que você não vai conseguir, melhor desistir etc.

Aí você vê a Internet, e vários livros, e várias crônicas, todos dizendo que você tem que acreditar em si mesmo, não dar ouvidos à multidão, que as pessoas vão tentar te derrubar, mas seja forte, acredite no sonho… Você sabe como é.

Aconteceu até comigo. Quando eu estava na segunda metade do primeiro grau (hoje seria sexta a nona série do ensino fundamental), minha escola premiava com medalha o aluno que concluísse todas as disciplinas com média 7. Na sétima série, a escola tinha a disciplina de Datilografia, que era terceirizada e onde as notas não eram números, mas os subjetivos S (Sofrível), R (Regular), B (Bom), MB (Muito Bom) e E (Excelente). Sendo a disciplina terceirizada, e sendo a nota expressa desse modo tão diferente, já estávamos no segundo semestre quando perguntei à instrutora se ela contaria para a concessão da medalha.

Não integrando a equipe do colégio, a instrutora não sabia dessa premiação, de modo que pensou que eu estivesse viajando na maionese, imaginando uma medalha fantasiosa. Sabe o que ela me respondeu?

“Hm! Sonha, passarinho…” e sorriu com escárnio enquanto já se afastava.

Se ela apenas dissesse que a nota de Datilografia contava (embora não contasse, como depois vim a saber), eu não teria me incomodado, pois era o que eu tinha perguntado. Mas a resposta continha uma vigorosa dose de desprezo. Ela me magoou tão profundamente que me lembro até hoje. Afinal consegui a tal medalha, e você pensaria que isso tivesse o poder de apagar o sentimento ou de substituí-lo com uma satisfação de vingança, mas não, especialmente porque a agressora nunca soube. Talvez nem se ela viesse a saber.

Por causa disso, ali mesmo em 1987, decidi que nunca, na minha vida, eu menosprezaria o sonho de outra pessoa. Nunca seria eu a dizer “você não vai conseguir”. Posso estar convicto de que o sujeito não tenha a menor chance, posso perceber que ele não tenha o menor preparo, mas não serei eu a dizer-lhe que deva desistir. Às vezes eu posso dizer “você precisa estudar tal assunto”, mas então estarei ajudando-o a suprir uma deficiência e a tornar possível aquilo que hoje é impossível. Também posso considerá-lo tão sem esperança que eu não responda nada, mas não serei eu a lhe tirar a ilusão.

É claro que sempre existe a possibilidade de eu estar errado e o sujeito ter, sim, alguma chance de concluir seu insano projeto. Nesse caso, ao tirar-lhe a esperança, serei mais um daqueles milhares de medíocres de quem mais tarde, ao ter sucesso, ele dirá que “muitas pessoas tentaram me puxar para trás, mas não desisti” — é assim que desejo ser lembrado? Se, porém, eu estiver certo, ainda assim eu farei mal em desencorajá-lo, pois o sonho lhe dá forças, trazendo-lhe a nobreza dos visionários e a sublimidade dos loucos, cuja desconexão os poupa deste mundo cão. No mínimo, não gostaria de ser eu aquele que ouve que deveria desistir, tal como de fato fui um dia.

Em 2005, tive aula com o Juiz Marcelo Tavares, que, em determinado momento, explicou um pouco de seu ofício. Disse que é preciso ouvir as pessoas que formulam seus pedidos em juízo, e levar esses pedidos a sério, mesmo que seja para depois indeferi-los. Pois, segundo ele, “você não pode tirar o sonho de uma pessoa, porque às vezes é tudo que ela tem”. (É claro que, ao negar o pedido, o juiz pode estar fazendo exatamente isso, mas, ao ouvir o pleito e mostrar que o considerou antes de decidir, não estará desprezando seu autor. Às vezes, a pessoa só quer ser ouvida.)

Essas lembranças me vieram ontem, quando fui assistir à exposição The Art of the Brick, de obras do escultor Nathan Sawaya. Uma das figuras era esta.

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Conforme a legenda, sempre haverá mãos para segurar você.

Não serei eu!

Quem chia não consome

Hoje, ao anoitecer, entrei na sorveteria Itália. Enquanto eu estava lá dentro, entrou também uma velha, que passou a dialogar com a vendedora.

– Tem [sorvete de] iogurte com quê?

– Só com frutas vermelhas.

– Mas eu quero de iogurte com limão siciliano. Não tem?

– Não, Senhora, só de iogurte com frutas vermelhas.

– Mas não tinha na semana passada, hoje também não tem… Vocês não pedem?

– A gente até pediria, Senhora, mas o problema é que a loja é pequena. Não tem espaço.

– Olha o espaço ali!

– Mas, Senhora…

– Já entendi. Vocês é que não querem. Eu vim aqui só pra isso, então é bom já saber logo; assim eu não volto mais aqui.

E saiu resmungando e gritando, mas aí já não entendi mais.

Olha só. Na forma, a velha errou feio. No mérito, a velha até teria razão, mas na verdade não tinha, e perdeu a pouca que poderia ter. Vou explicar.

A frase “o cliente sempre tem razão” não é pra ser entendida literalmente. Na verdade, é até uma frase meio canalha. Ela significa, em essência, que o vendedor tem que descobrir o que o cliente quer e dispor-se a vender esse mesmo produto. Quem define o negócio é a demanda, então o vendedor tem que ouvir essa demanda e comportar-se de acordo, para que o cliente queira lhe dar dinheiro. “Ouvir a demanda” significa descobrir o que o mercado quer comprar. A pesquisa de mercado é um dos conhecimentos valiosos para um empreendimento, e é por não atentarem a isso que muitas empresas iniciantes falham apesar de terem produtos geniais: produtos que, porém, ninguém quer.

Então, “o cliente tem razão” por definição: quem define o produto é ele. Ele entra no restaurante, diz que quer o prato assim e assado, e o restaurante passa a ter esse prato no cardápio. Mas o “cliente” da frase é, de certo modo, o conjunto dos clientes, da média razoável dos clientes: aquilo que, acontecendo repetidas vezes, trará lucro ao estabelecimento. Se for um pedido louco, custoso ou impossível de atender, se o prato não tiver saída, o cliente pode não ter razão.

O sorvete de iogurte com limão siciliano (doravante ILS para encurtar) é azedo. Eu sei, porque eu gosto, mas eu sei muito bem que a maioria das pessoas não gosta. Aliás, o povo nem pede sorvete de iogurte nenhum; a Itália tem que ficar fazendo promoção e festival dos sorvetes de iogurte pra ver se sensibiliza o povo e empurra sua produção pra fora! Em matéria de sorvete, o povo é conservador: morango, chocolate e creme. Ninguém pede, como eu peço, tangerina, manga com gengibre, tapioca, menta, chocolate meio amargo com amendoim, ABÓBORA COM COCO (um de meus preferidos; doravante ACC para encurtar).

Ora, se o sorveteiro quer vender, ele tem que fabricar aquilo que o povo compra. É uma questão estatística: ele tem que olhar os trinta espaços da sorveteria e fabricar os trinta sorvetes que mais vendem. Não adianta fazer ILS se ficar mofando na geladeira sem ninguém tomar; não só tem o custo de fabricação, mas também estará deixando de vender daquilo que vende, abrindo mão de receita. Seria insensato fabricar ILS por causa de um cliente só. É por isso que o ACC fica ANOS sumido.

As pessoas têm que lembrar que todo empresário só exerce o comércio para ganhar dinheiro, e não para satisfazer o ego delas. Uma coisa é o objeto social: aquilo que a pessoa jurídica faz. Cada empresa tem o seu objeto social; o da Itália é fabricar e vender sorvete. Outra coisa é o objetIVO social, que, no caso de uma empresa, é SEMPRE ganhar dinheiro. Fico meio frustrado de não ter ACC, mas tenho que entender o lado do lojista: não é nada contra mim; é uma decisão prática dele. E mais: estatìsticamente, ele também está certo. Ao privilegiar morango, chocolate e creme, ele maximiza o número de egos satisfeitos, fazendo o sacrifício necessário de deixar de atender a uma minoria de egos. Certamente não seria justo nem democrático se ele atendesse a uma minoria e forçasse a maioria a, querendo sorvete, só ter ILS ou ACC para escolher.

Mas a velha está muito errada. Ela parece ter a pretensão de gerir a loja, de dizer o que é que a sorveteria tem que fazer. Quando diz “olha o espaço ali”, ela afirma que o espaço está disponível para atender à prioridade dela. Com isso, olvida os fatos de que (1) é a Itália quem define como aquele espaço será ocupado, não a velha; (2) sabe lá se o espaço está realmente livre? Dali a dez minutos seria ocupado! O que garante que vá ficar livre por dias e dias e dias? Então, (3) parece livre, mas, ao ser ocupado, será ocupado por algo diferente do que ela espera. NÃO É ELA A GESTORA DA LOJA.

Uma conclusão que se extrai daí é que seja uma velha mandona (como em geral são as velhas — não confunda com as senhoras nem com as velhinhas, que são espécies bem diferentes). Como toda gente mandona, ela sofre de um tipo bem especial de psicose, que é supor que seu ego seja mais importante que o de outras pessoas e, portanto, concluir que o mundo exista para servi-la.

Afinal a velha foi embora ameaçando não mais voltar. De um lado penso, “blefe”: quem fala não faz. Ela vai voltar, inclusive porque se diverte demais fazendo isso. Se ela não reclamar na sorveteria, que graça tem a vida para ela? É claro que vai voltar! É isso que é importante para ela; seu vício é esse. Se houvesse ILS, aí sim ela se frustraria, por não ter do que reclamar, e iria encontrar outra coisa, e ia querer outro sabor que ali não houvesse. Mas, de outro lado, penso, “não volte mesmo; a vendedora agradece”.

Mas não só a vendedora agradece. Pensa bem: esse tipo de cliente não interessa à sorveteria. Esse tipo de cliente não compra, não se contenta com os sabores que há (e são muitos), só cria tumulto e má impressão na loja. Se a velha SÓ aceitaria ILS, então ela não é a cliente que a sorveteria Itália quer, porque é uma cliente muito limitada, que é caro atender. É uma cliente que quer um sabor de sorvete só pra ela — o sabor DELA — e que, com isso, impede a sorveteria de ganhar mais dinheiro com um sabor mais popular; certamente a velha não se disporia a comprar toda a produção de ILS, né? Ia ficar lá uma caixa inteira, que ela queria para satisfazer ao ego dela — nada a ver com sua real preferência ao paladar; a questão toda se resume a mostrar quem manda –, mas pela qual não pagaria.

Então, uma cliente dessa não convém. Como costuma argumentar o @cardoso, quem chia não consome, é um cliente que na verdade não interessa e que NUNCA estará satisfeito. Pode parar de tentar agradar, porque você não vai conseguir.

E não é assim em tudo na vida?

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A pergunta inevitável

Estimulado pelo Aerolito no. 58, do grande Lito, venho aqui trazer alguns pontos que estou devendo a vocês há um bom tempo.

Quando eu era criança, certa vez visitei Dona Cosette, amiga de minha vó. Vendo que eu me interessava por aviões, Dona Cosette perguntou-me quem havia inventado o avião. Quando respondi que tinham sido os irmãos Wright, ela se indignou; “cooomo? Você não é patriota???”

Dona Cosette estava errada por tantos argumentos que nem sei por onde começar. Mas vejamos.

Primeiro, ela parecia ter a estranha noção de que, se uma pessoa é patriota, ela tem que afirmar a primazia de seu país mesmo quando sabe que está propagando uma mentira. Quer dizer: não importa quem inventou o avião ou se você realmente acredita que tenham sido os irmãos Wright; você está obrigado a contrariar sua crença sincera e afirmar aquilo que, na sua mente, crê que não seja verdade. Pois a verdade não interessa por mais que você a conheça; prevalecem os interesses.

Segundo, ela parecia acreditar que o patriotismo consistisse em, nas menores manifestações, afirmar sempre que seu país seja melhor do que os outros. Em vez de se esforçar por ter saneamento básico, ensino fundamental para todos e balança comercial favorável, você tem que afirmar que seu país é melhor. Isso parecia mais prioritário para Dona Cosette do que efetivamente se esforçar para melhorá-lo. Noções estranhas de patriotismo tinha Dona Cosette. Eu sempre achei que a segunda conduta seria mais patriótica do que a primeira, mas, sei lá, vai ver que eu não sou patriota.

Terceiro — eu sei que sua professora de Educação Moral e Cívica vai enfartar se ouvir isto, mas ninguém é obrigado a ser patriota. Está lá na Constituição, artigo 5o., inciso II (meu preferido em todo o ordenamento): se não há lei obrigando você ao que quer que seja (inclusive a ser patriota), você NÃO está obrigado! Você tem que cumprir todas as leis do País, isso tem. Dentro de seu território, o Estado é soberano; você tem que obedecer. Mas não tem que gostar.

Poderíamos perdoar Dona Cosette por ter sido criada em uma época de integralismo, por ter sido jovem durante as duas ditaduras de Getúlio Vargas (a primeira, 1930-1934, e a segunda, 1937-1945), por ter sido regida por governos desenvolvimentistas. No Brasil, o século XX foi bàsicamente um grande exercício nacionalista, de discurso ufanista e engrandecimento do Estado.

Poderíamos, mas eu certamente não vou. Para mim, a partir dessa cobrança, Dona Cosette foi e sempre será apenas uma velha antipática e autoritária. Que, ainda por cima, criava romãs no jardim, certamente para fazer chá. Detesto romã.

De todo modo, se você é fã de aviação (meu caso) ou trabalha com aviação (não é meu caso), é inevitável — inevitável, tal como a morte — que, mais cedo ou mais tarde, algum engraçadinho venha perguntar a você quem inventou o avião. Se você tiver sorte, a pergunta será feita por alguém que realmente quer saber e que reconhece em você alguém que já leu mais sobre o tema e que, portanto, está em melhor condição de responder. Será uma pergunta sincera, de curiosidade, feita com respeito. Infelizmente, esse não é um cenário provável. Eu sempre acabo me deparando mesmo é com gente metida a sabichona que fica querendo me testar, para ver se eu passo no seu pequeno e medíocre teste pessoal. Como se eu lhes devesse alguma coisa. Seguidores de Dona Cosette.

“Quem inventou o avião?” A pergunta não é lá muito inteligente. Se formos observar os inventos a partir do século XIX, ninguém inventou nada sòzinho. Todos os equipamentos que vemos a nossa volta resultam de um somatório de diversas contribuições individuais, que foram se somando gradualmente, por incrementos. O avião, que é o exemplo em discussão aqui, só foi possível depois da invenção do motor de combustão interna — que não foi criado por Santos-Dumont nem pelos Wrights –, e aproveitou o formato de aerofólio que já era usado nos planadores desde o século anterior. Além disso, a experiência de vários pioneiros ia agregando o conhecimento necessário para que outros construtores se informassem e, com base nessas descobertas, pudessem ter a inspiração de criar em cima. E, no entanto, o público em geral continua não sabendo quem foram Clément Ader, Henri Farman, Samuel Langley e Otto Lilienthal (vá pesquisar), sem cujas contribuições dificilmente os Wrights e Santos-Dumont teriam conseguido resultados. Quer dizer: ninguém faz nada sòzinho.

Na verdade, é só no Brasil que vejo a pergunta de “quem inventou o avião” ganhar importância; fora daqui, esse não é um ponto de discussão. O que parece motivá-la é uma espécie de ufanismo tolo, de querer afirmar ao mundo que existe alguma espécie de corrida e que o Brasil a ganhou. Como se o indivíduo ufanista tivesse feito alguma contribuição; como se tivesse de que se orgulhar. Não fez nada! Está só indo na aba de alguém (no caso, Santos-Dumont, mas poderia ser Ayrton Senna, Daiane Santos, Gustavo Borges ou Sérgio Vieira de Mello) que teve pouco ou nenhum apoio de seu País e que, portanto, conquistou vitórias independentemente dele, ou até apesar dele. É um complexo de vira-lata, resultante de uma baixa auto-estima nacional, onde o sujeito vê seu País desprezado em negociações internacionais, vê-se excluído ao precisar de visto para entrar nos Estados Unidos, vê sua baixa posição nas classificações de IDH ou de corrupção, mas quer ter alguma compensação onde possa afirmar que, apesar de tudo, é o melhor; como se tudo mais que sofre fosse resultado do recalque dos outros em razão de uma suposta derrota (quando, na verdade, o recalcado é ele). Ademais, é um espírito doentio de competição, onde não vale o ditado do Barão de Coubertin (“o importante não é vencer, mas competir”) e se exige vitória em todas as disputas: se não vier a medalha de ouro, o competidor é um fracassado. O prazer está todo em vencer, vencer, vencer, sempre, com exclusão de tudo e de todos. Então, o foco é no mais veloz, no mais forte, em ter sido o primeiro, ter inventado o avião e dizer que existe algum grande complô “dos americanos” para “esconder a verdade”. Sim, certamente os 323 milhões de americanos estão se importando muito com uma primazia do Brasil em inventar o avião (embora pareçam não ligar que o automóvel seja francês, o motor de combustão interna, alemão; e a máquina a vapor, escocesa, assim como o trem). Estão decerto muito empenhados em sufocar uma grande vitória do Brasil!

Enfim. De fato, as melhores evidências que tenho mostram que Alberto Santos-Dumont foi o primeiro a decolar com um avião diante de um grande público, em 12 de novembro de 1906. Mas como? O Dia do Aviador não é 23 de outubro? Bem, sim, porque 23/10 foi quando ele decolou com o 14-Bis, mas sem testemunhas do Aeroclube da França para documentarem o fato. Se você vai argumentar que o primeiro voo foi em 23/10, então, pelo mesmo argumento, tem que aceitar que os irmãos Wright decolaram antes, com poucas testemunhas, em 17 de dezembro de 1903 ou, que seja, em diversas ocasiões ao longo de 1904 e 1905 (tiveram tempo e oportunidades de sobra).

Argumenta-se que o 14-Bis foi o primeiro mais-pesado-que-o-ar a decolar por seus próprios meios: saiu do repouso para o voo controlado sem nenhum auxílio externo, somente com a força de seu motor. Isso contrasta com as decolagens dos irmãos Wright, cujo Wright Flyer I requeria um plano inclinado e uma catapulta para dar um empurrãozinho. A verdade é que os irmãos Wright já não precisavam de plano inclinado em 1904, quando seus voos também eram testemunhados. Então, usar o voo de Santos-Dumont de 23/10/1906 como marco não é tão legítimo quanto usar o voo de Wilbur Wright de 13/08/1904 — o que, também sob esse critério, dá precedência aos irmãos Wright.

Ademais, se argumentarmos que a decolagem sem assistência seja essencial para considerarmos a máquina como um avião legítimo, então será preciso desconsiderar alguns aviões (igualmente americanos) como detentores de feitos históricos: o Bell X-1, primeiro avião supersônico, não decolava sòzinho, como não decolava sòzinho o North American X-15, o avião mais veloz do mundo,  propelido por motores de foguete (Mach 6.72). Ambos eram alçados aos ares sob as asas de bombardeiros e, no entanto, nunca vi ninguém alegar que não fossem aviões de verdade. (Antes que alguém se insurja: o Lockheed SR-71 atingia Mach 3.5, o que o fez o JATO mais rápido, mas não o AVIÃO mais rápido. Há uma diferença.)

As maiores virtudes de Santos-Dumont em relação à aviação acabam ignoradas pelos próprios brasileiros, provàvelmente por não serem nenhuma vitória em alguma corrida que tenham em suas cabeças. Despreza-se a verdadeira contribuição do pequeno mineiro da fazenda Cabangu porque não é nada que dê troféu de primeiro colocado. Porém, há que observar: (1) com o Demoiselle, de 1907, foi Santos-Dumont quem criou a configuração atual dos aviões, com leme e profundores na cauda em lugar de na frente, bem como centro de sustentação atrás do centro de massa. Essa configuração tornou os aviões fundamentalmente estáveis e seguros, liberando o piloto de ficar lutando contra os controles para evitar um desastre. (2) Santos-Dumont adotou ailerons no lugar da impraticável opção dos Wrights, que requeria torção da asa para controle de rolamento. Então, foi ele quem primeiro pôs em prática as técnicas básicas de dirigibilidade que têm estado em uso nos últimos 109 anos da aviação. (3) Finalmente: os irmãos Wright queriam inventar u’a máquina que lhes trouxesse sustento pelo licenciamento das patentes, enquanto Santos-Dumont liberou os planos do Demoiselle para quem quisesse contruir seu próprio exemplar, de graça. Não há nenhum mal em querer ganhar dinheiro com sua invenção (ao contrário: esse é um dos motores do avanço tecnológico), mas o brasileiro, que nascera em família rica de cafeicultores, tinha os sonhos mais nobres de que todo homem, ainda que destituído de posses, pudesse usufruir das maravilhas do voo sem restrições; que cada cidadão do mundo pudesse conhecer a sensação incomparável de se levantar nos ares. Pretendia que o avião fosse uma ferramenta de integração dos povos (em contraste com os Wrights, que viam nas forças armadas seu grande cliente). Dessa virtude de altruísmo do pioneiro os brasileiros difìcilmente vêm a aprender na escola, apesar de ser mais importante para a História da aviação do que a tola disputa de saber quem chegou na frente para cortar a fita.

A Exposição de Motivos, as fontes primárias e o Carnaval

Veja só como são as coisas. Vou agora ensinar a você como se pesquisa.

Estava eu aqui, numa segunda-feira de Carnaval, estudando Direito penal (sim, sim). Prosseguindo naquele meu projeto de ler toda a legislação relevante, um artigo por dia, eu estava lendo a Exposição de Motivos da lei 7209 de 1984 (que trouxe a vigente Parte Geral do Código Penal).

Eu estava lendo a Exposição de Motivos conforme consta em um exemplar impresso em janeiro de 2000 e publicado pela editora Revista dos Tribunais com ISBN-13 978-85-203-1834-8. Na EM, dizia o item 12: “[s]e o crime consiste em uma ação humana, positiva ou negativa (…), o destinatário da norma penal é todo aquele que realiza a ação proibida ou omite a ação determinada, desde que, em face das circunstâncias, lhe incumba o dever de participar o ato ou abster-se de fazê-lo”.

Vamos abstrair desse pronome oblíquo “lhe” depois de vírgula, que a norma culta proíbe. O item 12 está aludindo à dicotomia entre crimes comissivos e crimes omissivos. No primeiro conjunto estão aqueles que a parte (o autor do crime) comete ao praticar um ato proibido. A ação é chamada de “positiva” não por ser boa (não é), mas por ser algo posto, afirmado no mundo por quem comete o crime. No segundo conjunto estão os crimes onde o autor deixa de praticar um ato que tem o dever de praticar; o crime está na omissão, que é indevida: é o que o texto chama de “ação negativa”.

Mas aí estranhei a redação desse item 12. Veja: perto do fim, ele diz “dever de participar o ato”. Ora, “participar o ato”, onde “participar” é transitivo direto, significa “relatar o ato”; significa, talvez, noticiar o ato a uma autoridade policial. Se o Autor do texto quisesse dar ao verbo o significado de “exercer o ato”, ele diria “participar Do ato”, onde “participar” é transitivo INdireto.

Portanto, a redação é um tanto inesperada. Por que alguém teria o dever de participar o ato, de relatar o ato à polícia? Apesar de a Exposição de Motivos (e o anteprojeto da lei 7209) datar de 1983, quando o Brasil estava sob uma ditadura militar, não faria sentido exigir do cidadão o dever de participar um crime à polícia, pois o próprio Código de Processo Penal, então em vigor (e nascido ao tempo de uma ditadura até pior sob esse aspecto, a de Getúlio Vargas, em 1941), explicitamente dizia e diz que o cidadão NÃO tem o dever de coibir crimes.

Desconfiei de um erro de transcrição. Imaginei que, no documento original submetido pelo então Ministro Abi-Ackel, subscritor da Exposição de Motivos, a redação tivesse um D, omitido pela editora em 2000: “participar Do ato”. Esse seria um erro compreensível, a mera supressão de uma letra na transcrição, embora com o efeito danoso de inverter o sentido do texto.

Fui investigar. Embora o trâmite legislativo tenha ocorrido em 1983 e 1984, supus que o website da Câmara dos Deputados contivesse a informação que eu buscava. Saiba meu Leitor: o saite da Câmara é muito bom para se ver, não somente a sucessão de eventos do trâmite legislativo, mas também os documentos produzidos ao longo dele, a respeito de todas as leis após 2001. Para leis anteriores, isto é espantoso, mas também se encontra muito material. Então comecei a buscar o que havia em relação à lei 7209.

Para minha alegria, encontrei um PDF de 669 páginas que é a digitalização de todo o dossier do trâmite legislativo, montado na época. Lá se veem as capas, em papel, com manuscritos diversos; lá se veem inúmeros documentos datilografados, com rabiscos manuscritos e carimbos. Eu procurava, e encontrei, a Exposição de Motivos original, datilografada, assinada pelo ministro, com carimbos de numeração de página, datas postas a mão e furos para encadernação.

Veja só o que descobri. No documento original, o documento que valeu mesmo, diz o item 12: “[s]e o crime consiste em uma ação humana, positiva ou negativa (…), o destinatário da norma penal é todo aquele que realiza a ação proibida ou omite a ação determinada, desde que, em face das circunstâncias, lhe incumba o dever de praticar o ato ou abster-se de fazê-lo”.

Você reparou? PRATICAR o ato. Aí o texto faz muito mais sentido, já que estamos falando de crimes comissivos (“ação positiva”). E é ESSE o texto da Exposição de Motivos — não o texto, supostamente transcrito, que traz meu exemplar da RT. A lição que fica é que sempre devemos nos referir às fontes primárias, porque erros de transcrição podem acontecer. É por isso que o saite do Planalto sempre diz, ao fim de toda transcrição de ato normativo, que “este texto não substitui aquele publicado no Diário Oficial no dia tal”. Claro! Pois a redação oficial é a que está no Diário; em caso de conflito, é ela que vale, e não venha alguém depois alegar que foi induzido em erro pelo Planalto, cujos servidores fizeram inserir essa advertência.

Essa lição os historiadores conhecem bem e por isso tantos procuram a Torre do Tombo, em Portugal, para ver o que é exatamente que dizia o documento original lá do tempo do Pero Vaz de Caminha. O que a gente às vezes não lembra é que, estranhando o texto supostamente transcrito, a gente tem que fazer a mesma coisa com a legislação, com todos os instrumentos que a tecnologia hoje nos dá. Quem diria! Sem ter que ir a Brasília, aqui estou eu, quase 33 anos depois, tendo acesso ao documento original produzido, para entender o conteúdo e o propósito da lei ainda em vigor. A gente às vezes não dá valor a isso, mas é certo que, hoje em dia, os Poderes da República praticam muito mais transparência, e você tem acesso a muito mais informação de seus atos, do que no tempo mesmo em que foram praticados. Em particular, recomendo os websites da Câmara e do Senado para quem quiser pesquisar o conteúdo correto ou o propósito teleológico da maior parte da legislação emitida pela União.

Este caso também ilustra que, antes de qualquer discussão, sempre fazemos bem em irmos à fonte original. Imagine todo o debate que poderia haver — e que se evita — sobre o significado de “participar” quando se vê que não era esse o verbo realmente usado! Ainda mais quando penalistas adoram discutir o tema da participação (co-autoria, partícipes do crime etc.).

E era isso que eu tinha para contar sobre como foi meu Carnaval este ano.

O terror que deduzimos

Neste Mês das Crianças (sez who?), entrei duas vezes em uma famosa loja de varejo desta cidade. Em ambas as vezes, lá estava aquele tenebroso disco de música alegadamente infantil a tocar em todas as caixas de som da loja. Um coro de crianças entoava famosas canções de roda, acompanhado por repetitivos baixos sintéticos, teclados eletrônicos e samplers. A “música” era tão assustadora como um palhaço de filme de terror ou a pobre vítima infantil de Cemitério Maldito.

Estou convicto de que todas as faixas do disco foram gravadas enquanto um guarda mantinha seu revólver apontado para as cabeças das crianças. É a única forma de explicar o que eu ouvia.

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Pequenos pontos prateados

Nos últimos meses, sempre que estou ao computador em casa, ligo no FlightRadar24. Centralizo na minha posição geográfica e fico acompanhando os voos que passam pela área, decolando ou pousando no Galeão, no Santos-Dumont, em Guarulhos. Na tela, cada avião é indicado por um símbolo, que vem acompanhado de estatísticas: que modelo de avião é esse (com a exata variante conforme a companhia aérea: não basta que seja um 737 nem basta que seja um 737-800; vemos que é um 737-8EH), que companhia aérea, indo de onde para onde, quais os horários programado e real de decolagem, programado e estimado de pouso, com quanto de viagem já percorrido, a que altitude atual, rumo atual, velocidade e razão de subida. Vemos o percurso feito até aqui, a rota programada, o número do voo, o registro da aeronave, e até qual é o radar que a está rastreando.

Domingo à tarde no céu do Estado do Rio

Domingo à tarde no céu do Estado do Rio

É muito comum, especialmente no fim de semana, ver algum voo que esteja vindo sem escalas de Istambul, ou de Joanesburgo, ou de algum lugar igualmente distante, sempre entre 35 e 40 mil pés, rumo a Guarulhos. Aí vou à janela e vejo a aeronave, parecendo estar tão mais baixo, ou vejo seu rastro discreto de condensação. Também é muito comum ver um Airbus vindo da Europa a caminho de Ezeiza ou de Guarulhos, sobrevoando o mar a várias milhas da costa, e parece tão pertinho, parece que sobrevoa o Leblon. Quando o dia está muito claro, vejo que há um voo da TAM no rumo Vitória a 40.000 pés, passando pertinho de mim; procuro-o no céu mas nada vejo: tão alto, é ofuscado pelo sol do fim de tarde.

Várias são as decolagens que vejo da TAM, da Gol, da Avianca, partindo do Santos-Dumont, quebrando a bombordo e então bruscamente se voltando para o Sudoeste enquanto ràpidamente ganham altura: curtos saltos até Congonhas, fàcilmente visíveis de minha janela nas tardes claras. Várias são as decolagens do Galeão, virando logo após para sobrevoarem a Mantiqueira, e então o Sudeste de Minas, e Bahia, e Europa.

Certa vez vi um Hawker 800 fazendo órbitas loucas a várias altitudes, desenhando sucessivos oitos no céu afastado do Galeão, sem ir a lugar nenhum: era um EU-93 do Grupo Especial de Inspeção em Voo, calibrando o radar do aeroporto. De outras vezes, vi modelos da Embraer, seus transponders emitindo o número de série da aeronave, decolando de São José dos Campos, dando várias voltas sobre Campos do Jordão à mais alta altitude e voltando para São José: voos de teste da fábrica, os aviões prontos para entrega, seus pilotos fazendo o último check para satisfação do cliente.

Nas noites de fim de semana, quase de madrugada, o 747 do voo Lufthansa 501 decola do Galeão no sentido Caxias, faz a volta para bombordo, passa sobre São Cristóvão e Centro do Rio, e então escuto seus inconfundíveis quatro motores, estridentes na saída de gases mas também rugindo como um trovão, acelerando, acelerando suas centenas de toneladas enquanto sobe, rápido e certo. Olho pela janela e consigo ver suas luzes a 11.000 pés, parecendo tão baixo e tão lento, já desaparecendo por trás do prédio vizinho. Em minutos a tela o mostra sobre Macaé, ganhando o rumo de Frankfurt.

Nessas mesmas noites, quando tudo está silencioso e o céu está claro de nuvens, escuto um trovejar distante, contínuo, e olho no FlightRadar: um Airbus da TAM decola agora para Nova Iorque, a saída de gases de seus motores voltada para cá. Embora eu esteja a 12 km da pista e haja tantos prédios no caminho, consigo nìtidamente escutar esses motores, que alçam trezentos passageiros, sua bagagem e todo o querosene necessário para um destino a 10.000 quilômetros daqui, a potência máxima sendo exigida para levantar tanto peso do chão, a decolagem lenta, a subida esforçada, o som vindo em linha reta até mim quando a aceleração joga a todos contra suas poltronas.

Vejo voos partindo da Europa continental, rumando para o Norte para chegarem a Los Angeles ou Vancouver. Vejo voos vindo da China ou do Japão, atravessando a Sibéria para chegarem a Londres. Vejo um corredor congestionado da Europa Oriental, passando pelo Mar Negro, Turquia e Golfo Pérsico, até Dubai. Vejo doze Airbus A380 no ar simultaneamente, o maior avião do mundo, agora já quase banalizado pelas rápidas entregas a Air France, British, Singapore, Emirates e Lufthansa. Vejo 25 aviões decolando na mesma noite do Brasil aos Estados Unidos, 7500 brasileiros e americanos indo passar férias, fazer cursos, voltar para casa, assumir novos empregos. Vejo dezenas de aviões entre Argentina e Centro-Oeste do Brasil, indo ou voltando da Europa e dos Estados Unidos, trazendo presentes e compras pela UPS ou pela FedEx ao grande terminal de carga de Campinas. Vejo voos panorâmicos no Sul da Flórida, pilotos treinando sua proficiência enquanto apreciam a paisagem.

Todos os pontos prateados que vejo em meu céu e todos os pequenos símbolos que vejo em minha tela, nenhum deles é para mim uma abstração. Quando vejo uma decolagem, ainda que para a curta viagem SDU-CGH, vejo ali centenas de pessoas com seus sonhos, centenas de pessoas acomodando-se para dormir pela longa e cansativa viagem até a Europa, centenas de homens e mulheres de negócios planejando o que farão ao chegarem a Buenos Aires. Vejo as comissárias começando a servir o jantar, vejo os pilotos recebendo e cumprindo instruções da torre. Vejo casais a caminho da lua-de-mel, jovens a caminho do intercâmbio, executivos preocupados com planilhas, turistas de grana apertada ansiosos pelas férias sonhadas por anos. Cada ponto, alto no céu, quase invisível, para mim são duzentos, trezentos viajantes cansados já em procedimento de descida, viajantes dispostos indo não sei para onde, seus futuros sendo escritos neste momento, novos destinos surgindo em suas vidas, circunstancialmente sobrevoando a minha enquanto simpatizo e compreendo suas experiências, e só me resta lhes desejar:

Boa Viagem.

É fácil de encontrar quando se sabe onde procurar

Muitas vezes, os iniciantes na apreciação da Arte têm a noção de que os artistas desenham imagens que já têm prontas na cabeça. De que os desenhos são feitos sem qualquer referência a objetos reais, obedecendo sòmente a abstrações. Dentro dessa ideia, a prova do talento do desenhista está no sucesso em representar um objeto real (ou que poderia ser real) sem nunca ter olhado para ele.

É por isso que, às vezes, o apreciador se decepciona quando vem a descobrir que o artista se valeu de um modelo, da observação de uma pessoa viva, ou de uma fotografia. É como se trapaceasse, como se o trabalho valesse menos, como se fosse uma “cópia”.

Porém, se o apreciador convive por tempo suficiente com o processo de criação — ou até se ele mesmo se dispõe a criar sua própria arte –, logo pode perceber que é assim mesmo que funciona. Difìcilmente o artista parte do zero, de uma imagem que não existe. Quando isso acontece, frequentemente o resultado é arte abstrata, que não tem qualquer compromisso com as impressões visuais da realidade. Mesmo Alex Ross, considerado um dos maiores desenhistas de quadrinhos desde os anos 90, usa modelos: o Padre McCay, personagem narrador da obra-prima Kingdom Come, tem sua aparência baseada na do pai de Ross. Boris Vallejo, conhecido por suas capas de livros e figuras de Conan, o Bárbaro, também se vale de modelos. A versão Ultimate de Nick Fury teve sua aparência baseada em Samuel L. Jackson — que veio a interpretar Nick Fury nos recentes filmes da Marvel –, assim como John Henry Irons, o Aço da DC, tem o rosto de Shaquille O’Neal, que interpretou o papel mais tarde, na bomba Steel, que nem apareceu nos cinemas daqui (mas que já foi exibido pela TNT).

Portanto, não é surpreendente o que encontrei. Estava eu lendo Astro City: inquisição, que é a versão brasileira da compilação de Kurt Busiek’s Astro City #4-9, quando cheguei ao capítulo que corresponde a KBAC #8, de abril de 1997, escrita por K. Busiek e desenhada por Brent Anderson.

Nas páginas 121 e 122, encontrei estas figuras.

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Não haveria nada de mais, e o Leitor que não se interessa por aviões passaria batido. Exceto que eu tenho uma memória terrível para as coisas de que gosto, porque de imediato reconheci as duas imagens. Acontece que tenho alguns livros da coleção Guias de Armas de Guerra, publicada pela Nova Cultural nos anos 80 a partir de originais da inglesa Salamander. Um desses livros é Aviões do futuro, que se divide em dois volumes.

A edição original e o volume I da traduzida

A edição original e o volume I da traduzida

No volume I, encontramos uma das várias representações de conceitos preparatórios para o ATF (que, anos mais tarde, viria a se tornar o F-22). Um deles é este aqui:

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Lamentàvelmente, não consigo ler a assinatura do artista original, bastante esmaecida e parcialmente cortada no livro.

Já no volume II, duas páginas são dedicadas ao helicóptero experimental S-69, do qual se vê a seguinte fotografia:

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Vamos facilitar a vida do distinto Leitor:

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Eu não sei você, mas não tenho a menor dúvida de que Anderson teve acesso aos livros dessa excelente coleção.

EOF

Então furaram seu lugar na fila? Grandesm*rda

Aconteceu comigo em 10/01/2014.

Eu estava na fila do restaurante Delírio Tropical da Rua da Assembleia, uma fila que, notória e frequentemente, estende-se por vários metros ao longo da calçada, do lado de fora do restaurante. À minha frente, duas jovens profissionais conversavam animadas. Atrás de mim, um bocado de gente, e eu já estava razoàvelmente perto da porta.

Sùbitamente, às duas moças se reuniram outras duas, furando a fila na maior cara de pau, sem olhar para trás mas tornando a conversa ainda mais animada. Pensei que tivesse sido algum engano da parte das recém-chegadas: certamente não repararam que suas companheiras de fofoca não eram as últimas da fila; certamente não haviam olhado para trás nem, portanto, notado que a fila se estendia ainda por mais de uma dúzia de pessoas.

Além disso, considerando que sempre posso ser eu o errado, preferi abordar as recém-chegadas com uma pergunta simples.

— Com licença. Vocês estavam na fila?

— Não, a gente acabou de chegar, mas elas aqui estavam esperando a gente.

— Ah, tá, entendi. Só para eu saber: são só vocês ou tem mais gente vindo? Quantos ainda vão se juntar aí a vocês na fila?

A mocinha ainda foi debochada:

— Na verdade são vinte pessoas, mas —

— É. Ó, vocês lembraram de perguntar a essa gente toda aqui atrás (indiquei o povo) se eles concordavam com isso?

— Não, mas você fique à vontade para perguntar, tá?

Evidentemente, esse final eu mereci em razão de minha pergunta. E assim não falei mais nada, e a fila seguiu, e ainda houve um terceiro canalhinha juntando-se ao grupo das patricinhas furadoras de fila.

A primeira constatação é que eu fui um frouxo e um covarde, que deixei isso acontecer. A segunda é que eu fui um otário. Ambas estão corretíssimas — afinal é isso mesmo — e predominam sobre qualquer outra percepção que se tenha. O que é que eu esperava: que, com minha mera reclamação, baseada apenas na voz e desacompanhada de uma arma de fogo como estava, elas caíssem em si e fossem lá para trás? Ora, faça-me o favor. Então, passados dois dias, vamos a outras observações menos evidentes.

Atentemos à apresentação sócio-econômico-etária das cinco moças. Existe um estereótipo no qual se enquadram à perfeição, que é o de patricinhas entitled: moças crescidas em um ambiente onde ninguém nunca lhes negou nada (tripla negativa equivale a negativa única, certo?). O mundo sempre teve o dever de servir-lhes, dobrando-se diante de seus caprichos. Se a professora lhes dava nota baixa, lá estava Mamãe no dia seguinte, a exigir da diretora que corrigisse o abuso. Consequentemente, sempre tiveram direitos e nenhum dever. Nunca alguém lhes apresentou o conceito de fila, ou de direitos alheios: em face delas, ninguém tem direitos, pois todos devem render-se aos delas. O mundo é um passeio no parque onde têm automático direito a tempo bom e estão livres para defecarem no prato de comida dos outros.

Consequentemente, as patricinhas entitled não percebem que estão erradas ao furar a fila do Delírio Tropical na Rua da Assembleia. Na óptica delas — genuína! –, eu é que estou errado em interpelá-las, como se tivesse algo a reclamar por ocuparem o espaço que é delas por direito.

Outras observações podem ser feitas. Já não é a primeira vez que vejo isso. Nos últimos anos, tenho notado que, nos Delírios da Rua da Assembleia e da Rua do Rosário, é muito comum que mulheres estejam na fila e, sùbitamente, suas amigas venham juntar-se a elas, dobrando ou triplicando o grupo enquanto outras pessoas, atrás na fila, aceitam passìvamente a penetração de seus direitos.

Notem que eu digo isso mas não agi diferente: apesar da intervenção rabugenta, nada fiz de efetivo que defendesse minha posição. Tentei resistir na boa fé e me deparei com o reforço da ousadia: furamos a fila sim, e daí? O confronto e meu fracasso me fazem pensar se, na verdade, quem estava ali violando direitos não era eu: aparentemente, em matéria de fila do Delírio Tropical, o costume, jurìdicamente já assentado, é que mulheres esperem outras mulheres na fila e as recém-chegadas se incorporem à fila, sem qualquer consideração ao número de pessoas para trás. Pelo que estou entendendo, isso não se considera “furar fila”: é assim que funciona. (Até essa sexta, eu só havia visto mulheres fazendo isso. Foi a primeira vez que vi um homem aderindo à prática, que eu já estava considerando exclusivamente feminina. So much for sexismo.) Eu é que era um misantrópico perturbador da paz, querendo mudar a regra.

Também estive pensando em minhas alternativas. O que mais eu poderia ter feito: obrigado as recém-chegadas a irem lá para trás, na marra, em desforço necessário passível de enquadramento no Código Penal, artigo 345? E como fazer isso sem perder o lugar na fila? Deveria armar um barraco, iniciar uma gritaria que só poderia terminar com a minha remoção do lugar? Deveria chamar o vigilante do restaurante, o gerente? Nenhum dos dois tem qualquer responsabilidade sobre a fila. Deveria ligar 190, chamar o guarda? Boa sorte diante do silêncio (na melhor hipótese), da risada (na hipótese piorzinha) ou da acusação (justa) de tomar o tempo da autoridade com besteira, seguida de prisão em flagrante. Deveria alardear a quem estivesse atrás de mim, “estão furando a fila de vocês”? Isso seria a injusta terceirização do meu problema e um reforço da minha fraqueza, ou da do meu direito, que precisa do socorro dos outros para se afirmar.

Sejamos realistas: não havia NADA que eu pudesse ter feito, em termos práticos, que pudesse fazer valer meu lugar na fila. Tão cedo quanto eu perceba isso, tanto menor será o prejuízo. No momento em que as invasoras chegaram, deveria estar nítido para mim — desde cedo, desde antes — que o lugar era mesmo delas e que, portanto, delas era o direito de fazerem o que quisessem.

Aliás é cabível discutir que “problema” é esse de que falei aí em cima. Eu venho repetindo, já faz um tempo, que todos — TODOS — os males da humanidade decorrem do ego. Todas as guerras, todas as brigas e pecados, todas as frustrações, crimes e punições. Esse caso não foi exceção. Notem que fui o único integrante da fila a se importar com o furo das patricinhas, como se tivesse um grande direito, ó que importante, eu o centro do mundo, tendo meu espaço invadido. Acusei as patricinhas de atropelarem direitos alheios como se delas fossem, em total desconsideração, e ora veja, quem está se atribuindo demasiada importância sou eu, não elas. Eu é que estou aqui, tomando seu tempo de leitura com minhas insatisfações, enquanto elas estão por aí, usufruindo o serviço que o mundo lhes traz, todas pimponas.

Os praticantes do zen dirão que é uma questão de apego, ou de perdê-lo. Que estou me prendendo à agressão que sofri no meu passado, em um momento que, quanto mais se afasta de mim no tempo, mais cresce em minha memória em vez de diminuir, como devia. Que só me vejo agredido porque ainda insisto em me dar importância, com um ego ainda mais exagerado do que o delas. Que esses são os fantasmas que vão me corroendo e que um dia ainda vão me matar. Que eu devia deixar correr frouxo, que a longo prazo nada sofri, ainda consegui almoçar e voltar para o trabalho e agora estou aqui, e que eu é que estou errado em ficar remoendo essa história. E aliás não é a primeira que me acontece; já houve outra há uns meses, em outro estabelecimento, e não foi envolvendo fila, nem vou contar aqui qual foi.

Tudo isso pode ser. A sensação de ter sido lesado não vai embora, e é fácil falar tudo isso sobre ego versus zen quando não foi no calo do Mestre Yoda que pisaram mas no meu. Só que é verdade que há problemas muito mais graves no mundo; há fome na África, há presos políticos na China, há esgoto a céu aberto na maior parte do Brasil e da Índia, e aquecimento global e desmatamento e AIDS e corrupção. Diante de tudo isso, desaparece meu pseudoproblema, que é no mínimo ridículo.

Ao mesmo tempo, não posso deixar de reparar neste detalhe que acabei de mencionar: corrupção. As distintas senhorinhas certamente se julgavam em seu lugar natural, fila não vale para elas, e é exatamente aí que mora um dos vícios estruturais da sociedade brasileira. A invasão que sofri, tòpicamente, empalidece diante de sua causa, muito maior, que é a falta de uma visão cívica. Elas tomam o lugar dos outros na fila porque isso é o natural na sociedade brasileira, onde ninguém realmente tem direitos. Nem os ricos: eles de fato têm mais poder, e exercem esse poder e fazem valer seus desejos, mas nem eles nem os pobres têm direitos; as relações são meramente de força. Então, as jovenzinhas são exatamente as mesmas — as mesmas! — que fizeram passeata em junho do ano passado, exigindo o fim da corrupção, exigindo vergonha na cara, cansadas de serem pisoteadas pelos políticos e pleiteando educação e hospital público e enxovalhando os condenados do Mensalão… E agora não veem nada de errado em se enfiarem na fila alheia, em absoluta cegueira ao fato de que estão jogando para trás quem já tinha chegado antes.

… Não, não, eu me engano. É claro que elas repararam que havia mais gente. É justamente aí que está o exercício da função de patricinha entitled: só faz sentido, e só tem graça, quando já havia alguéns na fila. Senão não adianta. Não é que não percebam que prejudicam outras quinze ou vinte pessoas. É que isso não faz a menor diferença para elas. Elas são patricinhas entitled e entram onde quiserem.

Nada disso impede o fato de que este texto é a ruminação de um ego ferido, trabalhando o luto de sua dignidade. Eu poderia ser uma alma iluminada, transcendendo a ofensa, perdoando as ignorantes e percebendo que, a longo prazo, são pessoas infelizes, que vivem agressivamente e portanto se desgastam. Poderia construir uma ilusão de que, naquilo que importa na vida, eu já estivesse em melhor condição e tivesse mais curtição do que elas, “para que se importar com a fila se você tem mais qualidade de vida do que elas, coitadas?” Mas não é nada disso. Na verdade, não querendo mentir para mim mesmo e sabendo que wishful thinking não beneficia ninguém, sei muito bem que são, sim, pessoas mais tranquilas, mais resolvidas, com melhor conforto, mais e melhor entretenimento, melhor administração do tempo, com futuro financeiro já assegurado, sem nenhuma razão para qualquer dos temores ou incertezas que me afligem. É precisamente em razão de terem tudo isso, de estarem alguns degraus acima na escada social, que elas podem escolher o lugar que quiserem na fila que quiserem.

Então, se algum proveito essa experiência pode me dar, é que eu posso continuar na ilusão de um mundinho ordenadinho onde meu ego é preservado, ou posso largar a infância e vir ao mundo real das pessoas adultas, onde claramente ainda não sei agir mas onde claramente uma das medidas necessárias é passar por cima do cidadão ao lado. E onde, por enquanto e até onde enxergo adiante, o meu lugar é deixando que as patricinhas entitled tomem a frente. Eu tenho que saber o meu lugar. Se eu quiser começar a melhorar de vida, deveria já começar, isto sim, a seguir o exemplo delas. O primeiro passo para ser aceito como aprendiz e sonhar em ser aceito como um igual é reconhecer a própria ignorância e se render à regra verdadeira.

E não ficar alimentando um ódio que intensamente deseja que, onde quer que estejam, aquelas cinco patricinhas morram cruel, lenta e sangrentamente, em dor e desespero, como estou desejando agora.*

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* É sério. Nem Premonição atenderia, porque morte súbita não dói. Tá mais pra Jogos Mortais.

Tiro pela culatra — ou isso é o que eles querem que você pense

Acabo de descobrir as tais propagandas “subliminares” (não são) no SBT. Você tá lá assistindo a algum filme PERFUMES NÃOSEIQUÊ e de repente o anúncio pisca durante, sei lá, meio segundo, em silêncio, interrompendo o filme apenas pelo tempo que você leva para perceber o que acabou de acontecer.

FILHOS DA P*TA.

EU MAL TIVE TEMPO DE LER METADE DO ANÚNCIO. Mas sei que devo ter lido a outra metade. Acho que era “perfumes Jequiti”. Pode não ser. Sei que estou propagando a mensagem, possìvelmente porque essa era a ordem deles. (Ó-bê-ésse: editei o texto para dizer que era da Jequiti. Achei que fosse outra marca, mas Google me ajudou. Tá vendo, Jequiti? Não funcionou — pensei que fosse o seu concorrente. OK, funcionou pela metade, porque me fez pesquisar. Mas, se eu não quisesse escrever a respeito, teria entendido outra marca! (E teria ódio da outra marca — ponto para você, Jequiti.))

Isso acontece porque é tevê gratuita: você não paga para assistir. SE VOCÊ NÃO ESTÁ PAGANDO, ENTÃO VOCÊ É A MERCADORIA. Se é de graça, pode ter certeza de que vão dar um jeito de obrigar você a engolir. Porque, veja bem, se fosse pago era fácil: você parava de assistir ao canal, parava de pagar ao fornecedor. Mas é de graça. Você não tem com quem reclamar, nem do quê. Então aguenta.

Então agora tenho MAIS UM motivo para não assistir à m*rda da tevê aberta.

Update. Aliás acabo de ver que o WordPress está pondo anúncios embaixo do meu texto. Claro: eu não pago para publicá-los, nem você para lê-los. QUE QUE EU ACABEI DE DIZER, Ó MERCADORIA?

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Mais boçais e ladinos

Algum tempo atrás, neste belogue, reproduzi uma nota da Revista de História da Biblioteca Nacional sobre a diferença entre escravos boçais e escravos ladinos. Estava ali, não a origem dessas palavras, mas ao menos do uso que temos feito delas nos últimos duzentos anos, ou por aí.

Para meu total e sincero espanto, a cada vez em que vou analisar as estatísticas deste belogue, descubro que tem sempre uma cabeçada de gente que chegou a ele através do Google, justamente digitando “boçais e ladinos”, “escravos boçais e ladinos”, “diferença entre boçais e ladinos” e expressões similares. É incrível, é inexplicável, é sensacional a quantidade de pessoas que vêm parar aqui com essas expressões de busca, todo dia. De todas as minhas postagens, essa é, de longe, a que angaria mais hits, descontada a tela de entrada da vez. Nunca vi tamanho sumidouro de atração gravitacional webiana feito meu minúsculo comentário sobre os dois tipos de escravos, verdadeira lâmpada onde vêm orbitar todos os insetos que vagueiam na escuridão digital.

Não estou isolado em escrever sobre o tema. Eu mesmo fiz a busca e descobri várias páginas da Web brasileira diferenciando os dois grupos de escravos. Só que fico intrigado com a motivação por trás das buscas. Até há três anos, eu nem sabia de onde vinha esse uso de “boçais” e “ladinos”, nem jamais havia tido razão para me preocupar com isso. Então, de repente, dezenas, centenas de pessoas começam a procurar a distinção, certamente porque nunca haviam visto essas palavras na vida. Fico me perguntando: estão ensinando isso na escola agora? faz parte do programa do MEC? Tem algum discurso político “de base” usando isso? Está caindo em algum concurso, no ENEM ou no supletivo? De onde o interesse, por que a específica curiosidade? Ainda existe supletivo?

Então esse foi o mistério de hoje. Boa noite.

A Serra Gaúcha e o limite de número de garrafas

Em 2007, entrou em vigor uma norma internacional que limita o transporte de líquidos na bagagem de mão: somente embalagens de até 100 ml, dentro de um saco plástico de até um litro. Segundo a formulação original, essa norma só se aplica a voos internacionais, mas já a vi aplicada a voos domésticos no Brasil, o que não sei se é legal mas vou presumir que seja.

Pois bem. Atente a isto: para voos domésticos partindo do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, neste ano de 2012, você não pode incluir bebidas na bagagem despachada, e sua bagagem de mão só pode conter até cinco garrafas de até um litro cada uma. Essa segunda regra faz sentido em razão do limite de 5 kg da ANAC para a bagagem de mão, mas a primeira é uma completa novidade para mim, e não encontrei orientação sobre ela no saite da ANAC.

Não adianta espernear, e é melhor conhecer as regras de antemão. Não sei se a proibição quanto à bagagem despachada é sòmente para garrafas de vidro, mas sei o que vi: a moça do checkin perguntou se eu tinha bebidas nessa bagagem; e a moça do raio X viu que havia duas garrafas na bagagem de mão e pediu para vê-las em detalhe. Vendo-as, deteve-se no volume relatado pelos rótulos.

Aparentemente, a regra que limita a bagagem despachada é da Infraero. Não a vi sendo praticada em Curitiba nem no Rio, de modo que presumo que seja específica de Porto Alegre. Não vi divulgação em nenhum lugar; você só fica sabendo dela no ato do checkin. Vi pessoas com caixas de seis garrafas de vinho; não sei como fizeram para embarcarem, já que tampouco poderiam levá-las na mão.

As razões podem ser várias, mas só nos cabe especular. Uma possibilidade é que os carregadores de bagagem, com a gentileza que lhes é peculiar, tenham arremessado algu’a mala e inevitàvelmente quebrado as garrafas que estavam soltas ali dentro. Certamente o proprietário da mala não deve ter tomado nenhum cuidado de acolchoar e isolar o conteúdo, recebeu um monte de cacos e manchas de vinho na esteira ao fim da viagem e entrou com ação em face da Infraero, que deve ter sido condenada. A empresa deve ter imposto a regra a fim de evitar novos danos: “ah, é, eu sou responsável? Então, se sou responsável, ninguém mais pode levar garrafa nenhuma na bagagem, pronto” — no que não estaria de todo errada. Se alguém é responsável por alguma coisa, a esse alguém deve ser reconhecido o poder de impedir essa coisa.

Junte-se a isso o limite de 5 kg na bagagem de mão. Como o vinho tem densidade pràticamente igual à da água, quem levar cinco garrafas de um litro estará certamente violando o limite de peso (não se esqueça do peso do vidro). Daí a implicação mais refinada da regra da bagagem despachada: você tem pouca alternativa.

Não deve ser coincidência com o fato de que os brasileiros viajam cada vez mais de avião e cada vez mais vão à Serra Gaúcha, de lá trazendo bonsdrink. Ora, o vinho é o produto mais famoso daquela região e um dos que mais motivam o turismo por lá. Assim, a nova norma aeroportuária é uma boa forma de coibir o comércio de vinhos do Rio Grande do Sul para turistas, induzindo às vendas por atacado, que seguem por caminhão. Isso vai ser particularmente interessante por ocasião do Natal: em Gramado, essa temporada é tão importante quanto o inverno, e aumentam as vendas no comércio local.

A consequência prática é que ninguém pode trazer mais do que cinco garrafas de vinho da Serra Gaúcha se pretende voltar para casa de avião. Faz TODO o sentido, especialmente se só se avisarem os compradores sobre a bagagem despachada quando estiverem fazendo checkin.

Pelo menos, é o que eu faria, porque assim é muito mais divertido.

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A divisão de classes em tempos de crise

O conteúdo deste vídeo é uma constatação a que eu já havia chegado independentemente, por observação dos aviões, dos anúncios, dos websites e das notícias.

http://live.wsj.com/video/say-goodbye-to-first-class-on-us-airlines/3A3215ED-F2DC-42CD-840F-AB06C6D2B055.html?mod=wsj_blog_tboleft#!3A3215ED-F2DC-42CD-840F-AB06C6D2B055

Em síntese: as companhias aéreas estão deixando de operar a primeira classe. O motivo é a falta de procura. Os passageiros pagantes simplesmente não estão interessados em pagar o dobro da executiva, considerando que a primeira classe não oferece vantagem significativa sobre uma executiva que já é bem confortável, aparelhada e luxuosa. E os não pagantes, usando milhas, são três quartos dos que voam na primeira classe. Consequência: a primeira classe deixou de ser rentável.

As companhias aéreas criaram os programas de milhagem e, com isso, entraram em um caminho sem volta: graças à concorrência, nenhuma delas ousa deixar de manter seu programa. Tendo que cumpri-los, veem-se vítimas de seus próprios esquemas, porque a primeira classe acabou invadida pelos não pagantes e elas ficaram presas com isso. A solução? Extinguir a primeira classe: transformar esses assentos em executiva e, assim, passar a extrair dinheiro deles.

Além disso, o passageiro que tem um pouco mais de dinheiro e quer fugir da econômica, esse passageiro contenta-se com uma classe que surgiu há não mais do que cinco anos: a “econômica premium”, ou “econômica plus“. O tráfego aéreo está bem maior do que há vinte anos, e os aviões estão maiores também: veja o surgimento do mastodôntico A380, do recém-lançado 747-8I, do 777, do A340 (esses dois, inclusive, em versões mais longas, o 777-300 e o A340-600). Veja como as versões recentes do 737, que é um avião de curto alcance, têm pràticamente a capacidade dos 707 intercontinentais de há cinquenta anos; veja como os jatos regionais de cem lugares substituíram os turboélices de cinquenta. Há mais gente viajando e a passagem econômica ficou mais acessível. Com isso, as pessoas mais afluentes dentre essas da econômica acabam migrando para a econômica plus.

Assim, gradual (mas ràpida) mente, deixa de existir o trio primeira-executiva-econômica e passa a haver o trio executiva-econômica(plus)-econômica. No geral, que vemos? Afora os nomes, uma redução na qualidade oferecida nas duas classes superiores. Mas também um aumento de receita para a empresa aérea: o passageiro deixa de viajar na primeira classe (onde não pagaria) e passa a viajar na executiva (onde paga e, além disso, o custo é um pouco menor). Outros passam a viajar na econômica plus, onde há pouco acréscimo de qualidade mas o preço é 50% maior — tal como na executiva de bem antigamente.

A matéria fala de empresas americanas, mas veja só: em 2010, viajei à Inglaterra. Em um voo intercontinental como era aquele, NÃO HAVIA primeira classe; nem na ida nem na volta. O mais luxuoso que havia eram cerca de trinta lugares de executiva.

Claramente isso é uma consequência da crise financeira mundial, porque começou a acontecer aproximadamente em 2008, justamente um ano após o início das quebras de grandes bancos e do encolhimento das economias.

Mas não nos queixemos: como diz o analista do vídeo, em TODAS as classes que permanecem o conforto e o serviço estão muito mais evoluídos do que há quinze anos (ele disse dez, mas divirjo). Realmente, na executiva os assentos passaram a descer até a horizontal e a ter mais privacidade do que tinha a primeira classe de então; e o cardápio também se tornou mais variado e em pratos de porcelana, tal como era na primeira classe. Enquanto isso, na econômica, já faz uns cinco anos que cada passageiro tem sua própria tela de TV — algo que, há quinze anos, só existia da executiva para cima. Na econômica também passou a haver muito mais canais de áudio e vídeo dos quais escolher, e outras vantagens vieram também. Por sinal que os canais de áudio e vídeo são benefícios da econômica atual que não existiam nem na primeira classe daqueles tempos.

Tudo graças à concorrência, que se torna mais acirrada em tempos de crise.

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Vendo a velocidade da luz

Não é “vendo”, presente do indicativo de “vender”, mas “vendo”, gerúndio de “ver”.

Este vídeo está correndo a Web feito fogo na palha, e merecidamente.

Mas todos os rápidos (e ingênuos) textos que já vi têm um defeito em comum: passam a ideia errada de que você “vê a luz se deslocando”, igual àqueles raios laser de filmes de scifi. Não é isso que você vê. A explicação do cientista-engenheiro está correta (ÓBVIO), mas está em inglês. Então, abaixo ofereço meu próprio texto sobre o que acontece.

Ninguém filmou “a luz se propagando”. É assim: primeiro, um raio de luz avança e bate num grão de poeira, ou numa molécula de plástico, ou no que for. Aí, esse raio reflete, vai noutra direção, e acerta (por exemplo) a câmera, que está ali do lado. Nesse momento, a câmera vê a luz pela primeira e única vez; a luz marca o filme; a câmera registra uma centelha. Para a câmera, tudo se passa como se o raio tivesse vindo originalmente daquele grão de poeira que havia no meio do caminho, porque veio mesmo. Para a câmera, o que aconteceu foi uma centelha, ali onde está o grão de poeira, vindo na direção da câmera. Mas sabemos que essa centelha é um raio que veio ali do grão de poeira, que estava se intrometendo no começo do percurso original do raio. Fim.

Agora, junto àquele primeiro raio, havia outro, paralelo, emitido ao mesmo tempo. Esse outro fez um percurso mais longo do que o primeiro sem ser perturbado. Até que, cerca de 0,00000000003 segundo depois, também encontrou um grão de poeira. Como seu percurso durou 0,00000000003 segundo a mais, esse encontro aconteceu 1 cm adiante do encontro anterior. Mas também esse raio foi forçado a refletir noutra direção. E encontrou a câmera, e fez a câmera “acreditar” que estava vindo do segundo grão de poeira, tendo saído dali 0,00000000003 segundo depois e 1 cm adiante do primeiro raio. Então, a câmera registra uma centelha em um ponto que fica 1 cm adiante da primeira centelha.

E assim sucessivamente. São milhares, milhões de raios. À medida que avançam, vão trombando na poeira, refletindo, e alguns atingem a câmera. O que a câmera vai registrando são sucessivas colisões entre luz e poeira; somente aquelas cujas consequências são raios apontados para a câmera. Naturalmente, essa sucessão de colisões vai acontecendo ao longo do caminho que os raios tentam percorrer desde o começo. Então, vemos os impactos acontecendo, um depois do outro, ao longo do caminho que a luz está percorrendo.

Claro que, enquanto um raio de luz está avançando pela garrafa sem colidir com nada, ele é invisível: você só o veria se ele batesse na câmera, mas ele está lá, percorrendo a garrafa, sem bater em nada. Até que ele colide com a poeira. Nesse momento, pronto: aquele raio de luz não está mais fazendo o percurso; ele está colidindo com a poeira e refletindo, e sofrendo o fenômeno que acabei de descrever. Então, de certo modo, o que você vê não é o “percurso” da luz. Ao contrário: é uma sucessão de colisões onde a luz foi impedida de fazer seu percurso. São sucessivas interrupções ao percurso. Cada raio que colide (e assim se torna visível) é menos um raio que está fazendo o percurso, e com isso há cada vez menos raios fazendo a corrida. Os raios que chegam à tampa da garrafa estão em menor quantidade do que os que partiram do emissor.

São diferentes grãos de poeira, espalhados ao longo do caminho, e cada um gera sua centelhinha. Por isso, cada ponto de impacto é diferente do outro. Mas a sucessão de impactos dá a impressão de ser um ponto só que avança. Essa impressão-de-avanço vai andando à medida em que novos impactos surgem. E com que velocidade a impressão-de-avanço vai avançar? Com a mesma velocidade com que os raios vão avançando, sem serem detidos, até afinal serem detidos pela poeira: a velocidade da luz.

E é isso que vemos no vídeo.

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O Whole Foods Market e o mapeamento do conservadorismo por contraste

Quando minha amiga Carolina Matoso esteve em Nova Iorque, ela serendìpicamente descobriu um mercado, de tamanho descomunal segundo ela, especializado em comida orgânica. Diz que tinha uma enorme praça de alimentação, só desse tipo de comida. Que ficava aberto, com comida quente, 24 horas. Chama-se Whole Foods Market. A loja que Carolina Matoso conheceu fica em TriBeCa, na esquina de Greenwich com Warren.

Mesmo sem nunca ter estado lá, já indiquei o estabelecimento a duas pessoas. Para a segunda, indiquei-o alguns minutos atrás. Mas esta última pessoa me disse que ficaria hospedada na rua 42, ou seja, ao Norte do Central Park, o que é bem longe de TriBeCa. E o saite do WFM tem um store locator, de modo que me pus a ver se não havia lojas mais próximas. E há.

Como fazem inúmeras outras empresas, na verdade qualquer empresa mìnimamente sensata, o saite do WF tem uma API do Google Maps para localização das lojas. À medida em que tirei o zoom, fui descobrindo algumas coisas muito interessantes.

Primeiro, que a concentração de WFM é bem grande junto ao litoral Nordeste dos EUA, particularmente nas cidades mais próximas a Nova Iorque. Faz todo o sentido: não só a densidade populacional é a maior do país como também é ali que se concentram as pessoas mais endinheiradas e mais instruídas. É ali que você encontra mais hipsters, mais frequentadores de Starbucks, mais pessoas preocupadas com alimentação saudável, que leem sobre e preferem alimentos orgânicos, e que (1) têm o dinheiro e (2) estão dispostas a pagar por isso.

Afastando-se daquela área, você vê outras grandes concentrações na Flórida, em São Francisco e em Los Angeles. Novamente, são centros de riqueza, de gente instruída, de hipsters e de Starbucks, de gente que vota em Obama, de artistas e outros progressistas descolados.

Que têm essas regiões em comum além da riqueza e da instrução? Também são regiões de intenso movimento marítimo; são as cidades mais cosmopolitas dos Estados Unidos. Estão em contato intenso com outras civilizações, com imigrantes, com gente de variadas formações e opiniões políticas e religiosas; há uma enorme diversidade cultural. Você vai lá e vê isso. É onde estão fatores de renovação de percepções, é onde as pessoas têm mais tolerância ao diferente.

Em contraste, o Sul dos Estados Unidos é sabidamente uma área onde impera um certo radicalismo de valores: é onde se encontram tantos daqueles protestantes extremados, daqueles racistas mais ostensivos, daqueles defensores da guerra. Pois bem, nesses estados é bem pequena a concentração de lojas do Whole Foods Market.

Há o Texas. A densidade populacional e a riqueza tendem a ser maiores em Houston e Dallas, mas, tanto ali como no resto do estado, o que se vê muito são comedores de churrasco que se orgulham de sua independência, que se veem como vitoriosos supremacistas contra o pobre vizinho México, que desfilam em carrões com fálicos chifres de touro sobre os radiadores. Para muitos texanos, “esse negócio de ‘comida orgânica’ é para v*adinhos”. Voilà: comparativamente poucas lojas do WFM em Dallas e Houston e quase nenhuma no resto do estado.

Também há o Meio-Oeste: a região que disputa em conservadorismo com o Sul, onde você encontra extensas plantações de cereais, rednecks comedores de milho, religiosos fervorosos, defensores da manutenção de tropas no Iraque. Ali a concentração das lojas de WFM é mínima — exceto em Chicago, que é um centro industrial, financeiro e comercial, também cosmopolita, mantendo contato com várias partes do mundo. Ali a concentração de WFM é como nas cidades ricas do Texas.

Finalmente, nos estados do Noroeste, Seattle e Portland são centros industriais e comerciais, com várias lojas do WFM. No resto da região, você encontra enormes extensões florestais e montanhosas, onde a densidade populacional é a menor do país. Só o que se vê são cidades pequeninas a enormes distâncias uma da outra; esparsas cabanas de milicianos paranoicos com camisas de xadrez vermelho, gorro, espingardas de dois canos e delírios de serem perseguidos pelo governo federal; alimentação à base de carne; isolamento completo de toda modernidade; e uma genérica disposição de achar que comida orgânica é coisa de gente fresca. Quantas lojas do WFM nessas grandes extensões vazias? Nenhuma no interior de Washington e nenhuma por toda a extensão de Montana, Wyoming e Dakotas do Norte e do Sul.

Quem gostaria de fazer esse levantamento seria Rodger Doyle. Esse colunista da Scientific American costuma comparar mapeamentos de diversas grandezas nos Estados Unidos (consumos de água e energia, ocorrências policiais e de saúde etc.) com os fatores socioeconômicos subjacentes, em sua seção mensal intitulada By the Numbers. Enquanto ele não faz isso para o Whole Foods Market, fica você, Leitor, com esse pequeno factoide analítico.

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Metodologia e comprometimento

Vamos fazer o seguinte: ficam proibidas as palavras “metodologia” e “comprometimento”. Até hoje, em TODAS as instâncias em que vi essas palavras, seriam igualmente cabíveis “método” e “compromisso”.

Vou além: “metodologia” seria o estudo do método, nunca o próprio método. Mas não vemos ninguém elaborar uma verdadeira metodologia; só o que vemos são métodos ou suas descrições. Toda vez que alguém vem me falar de uma “nova metodologia” ou perguntar “qual é a metodologia”, pode ver: é sempre de um método que estão falando.

A mesma coisa no caso de “comprometimento”. Analisemos: “meter” é um verbo que não se limita ao significado a que estamos habituados. Também significa “enviar”, mas por vias um tanto ocultas. A saber: “remeter” (“enviar novamente”, ou “enviar na direção de algo já visto anteriormente”), “prometer” (“enviar para adiante”, ou “não fazer agora mas deixar para um momento futuro”), “arremeter” (“enviar novamente para cima”, como fazem os pilotos ao desistirem de pousar), “submeter” (“enviar para debaixo”, ou “propor a alguém que estará por cima”). Etc.

Existem outras manifestações desse verbo, já não tão fàcilmente reconhecíveis, em outras classes gramaticais: “missão”, que significa “ato de enviar alguém para cumprir determinada tarefa”, “míssil”, que significa “objeto que se pode lançar/enviar”.

Na mesma linha, “comprometer” significa “prometer conjuntamente”. É quando duas pessoas prometem uma à outra, cada uma prometendo uma coisa. Diz-se que as duas partes se comprometem a alguma coisa. Então, o que fizeram é um compromisso. Quando você diz que já se comprometeu, isso implica que tanto você prometeu a alguém como esse alguém prometeu a você. Entende-se que o compromisso diminua um pouco a liberdade de quem prometeu.

Às vezes me deparo com a palavra “comprometimento”, significando dedicação: a pessoa mostra comprometimento com um emprego, com uma causa, com uma comunidade. Dela se espera isso porque haverá alguma espécie de recompensa: salário, honras, reconhecimento. Agora me diga: existe alguma ocasião em que se use essa palavra que NÃO admita “compromisso”?

Não. Portanto, rogo a você, Leitor, que pare já o uso desses neologismos odiosos. Um porque usado erradamente (“metodologia”), o outro porque supérfluo (“comprometimento”) diante de outra palavra que significa a mesma coisa mas que é muito mais elegante, pura, curta e antiga.

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O calendário maia e o fim do mundo

Então dizem que o mundo vai acabar em dezembro de 2012. Supostamente porque o calendário maia acaba em dezembro de 2012.

Imagine a cena: dois calendaristas maias seminus, andrajosos, barbão imundo, trabalhando numa parede de pedra. Cipós no lugar de cintos, botas de pele de urso. Entalhando o calendário com cinzel contra o granito, fazendo a maior força, as mãos calejadas e cansadas. Estão há dias ocupados, sem comer, incumbidos pelo imperador de registrar o calendário completo. Só podem sair quando terminarem.

De repente…

— Ô Fulano, acho que já tá bom, não tá não?

— Cê acha? A gente ainda não acabou!

— Rapaz, a gente não vai acabar nunca! O calendário não tem fim!

— Ué, mas por que é então que o imperador botou a gente aqui, fazendo calendário?

— Eu sei lá. Acho que ele queria dar alguma coisa pra gente fazer. Sabe como é, tem a crise, o desemprego, e coisa e tal. Vai ver que ele não queria deixar a gente por aí, de bobeira.

— Mas será que ele sabe que o calendário não acaba?

— Acho que ele nem pensou nisso! Deixou a gente aqui, fazendo, e esqueceu. Olha lá o pessoal brincando. Tá todomundo lá, na beira do rio, e só nós aqui, feito dois otários, entalhando calendário nessa pedra dura que nem a cabeça do imperador.

— E se a gente largar como tá agora e disser pra ele que já acabou?

— Mas ele vai acreditar na gente? Vai nada. Ele vai perguntar, “que que cês tão fazendo aqui? Volta lá e acaba, senão eu solto os cachorro em cima de vocês!”

— Ah, a gente diz pra ele que o mundo vai acabar em 2012. Até lá vai tá todomundo morto mêmo, cê acha que ele vai conferir? Ele nem vai se importar. Qualquer coisa, a gente diz que foi profecia.

Mas eu tenho outra teoria. Aliás, tenho duas.

Conforme é bem sabido, o México é um lugar propenso a terremotos. Não faz nem cem anos, surgiu um vulcão lá, no meio duma plantação de milho! Então, foi assim:

Em 1848, o famoso arqueólogo Arne Saknussem encontrou a caverna maia em cuja parede estavam registrados os números de todos os dias até o fim dos tempos. O último número era 12/12/2012. Então ele saiu da caverna e anunciou aos jornais que o fim do mundo seria em 2012. Seu assistente, Otto Lidenbrock, expressou preocupação:

— Professor Saknussem, não é meio imprudente anunciar que o mundo acaba em 2012 só porque os números acabam em 2012? Isso pode causar pânico!

— Meu caro Lidenbrock, eu quero mais é que se dane. Em 2012 já estaremos todos mortos. Se eu estiver errado, o problema não será mais meu.

Mal sabia o distinto arqueólogo que, no ano anterior, um terremoto havia afundado a entrada de uma caverna ao lado. A continuação do calendário estava lá. É por isso que os estranhos caracteres no final do calendário diziam “continua na caverna ao lado”, embora o professor tivesse entendido “aqui é o fim do mundo”.

De acordo com outra teoria, o final do calendário estava gravado em uma pedra cujos caracteres tinham mais ou menos a forma que reproduzi abaixo:

…20052006200720082009201020112012ACABOU

Todos sabemos que, tal como os romanos, os maias acreditavam que a correta pontuação das frases tivesse poderes sobrenaturais maléficos e por isso a evitavam de todas as formas. (Ainda hoje essa crença é compartilhada pelas tribos de lusófonos que habitam as maiores aldeias sul-americanas.)

Depois de um grande esforço para decifrar essa inscrição, o famoso explorador Henry Jones Jr. percebeu que ela trazia a seguinte mensagem:

2005 — 2006 — 2007 — 2008 — 2009 — 2010 — 2011 — 2012 — ACABOU

E assim ele divulgou sua teoria de que o fim do mundo seria em 2012. Entretanto, o Professor Jones nunca conseguiu explicar por que havia uma lasca na pedra, logo após essa famosa e assustadora inscrição.

A verdade é que, no chão da caverna, havia um pedaço de pedra que se encaixava perfeitamente na parte onde estava faltando um pedaço. Virada para o chão, a face lisa da pedra trazia a continuação da mensagem, que ficou inédita até hoje. Agora, o famoso pesquisador Dr. Satipo Molina revelou-me com exclusividade a continuação da misteriosa inscrição. Após decifrá-la, ele descobriu que o texto diz o seguinte:

2005 — 2006 — 2007 — 2008 — 2009 — 2010 — 2011 — 2012 — ACABOU O ESPAÇO NESTA PEDRA MAS O MUNDO CONTINUA PARA SEMPRE

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Boa fé objetiva

Quando comecei a ter aula de Direito Civil, vigorava o velho Código de 1916. Aquele Código havia sido escrito no tempo do Estado liberal, quando legalmente se presumia que as partes de um contrato sempre estivessem em situações de igualdade. Naquele tempo, também imperava a máxima caveat emptor (“que o comprador se acautele”). Bàsicamente, as relações contratuais eram vistas como um território onde o Estado não entrava e onde o homem era lobo do homem: se você não tomasse cuidado, se não lesse as entrelinhas e não examinasse muito bem o produto, você entrava numa roubada e não tinha defesa. Essencialmente, todomundo é adulto, todomundo tem e exerce autonomia da vontade, só entra num negócio porque quer e, se não sabe brincar, não desça pro play. Presume-se todomundo igual, em pleno exercício das faculdades. O mundo era visto como um grande mercado Ferengi.

É claro que, em boa parte, é assim. Aliás, não seria exagero dizer: é exatamente assim, em tudo. Mas os anos passaram, o Estado passou a interferir na economia, surgiram os direitos sociais, houve a II Guerra Mundial e a criação da ONU, passou-se a falar em dignidade da pessoa humana, e passou a haver um reconhecimento de que, na prática, as pessoas não conseguem ter todas o mesmo âmbito de liberdades. Surgiram teorias para justificar a nulidade de contratos flagrantemente nascidos injustos e o restabelecimento do equilíbrio em contratos tornados injustos com o tempo. Surgiram o Direito do trabalho e o Direito do consumidor, com regras que tentam compensar desequilíbrios de forças. Não se engane: ainda temos que ter todos os cuidados antes de entrarmos num negócio. Mesmo quando estamos certos, ainda é melhor prevenir do que remediar: você nem entra se perceber que vai precisar recorrer à Justiça mais tarde (eu, pelo menos, não; embora tenha gente por aí que já entra de maldade, feito caçador de indenizações). Mas, pelo menos, quando você é realmente enganado e acaba tendo que procurar o Poder Judiciário, já passa a contar com o amparo estatal para compensar o prejuízo.

E aí veio nosso Código Civil de 2002. Em linhas gerais, você olha e vê muitos artigos iguais ao antigo em redação. De fato, as mudanças não estão tanto no texto, mas na maneira de interpretar e, principalmente, na importância que se dá às pequenas novidades. Hoje em dia, acabou aquele tempo em que o juiz devia ficar cego para a desigualdade entre as partes de um contrato. Nos últimos cinco anos, já fui a inúmeras aulas de Direito civil onde o principal assunto era a exigência de boa fé objetiva nos contratos.

Antigamente, era assim: para estar de boa fé, bastava que você não estivesse mentindo ou forçando a outra parte no contrato contra a vontade dela. Hoje em dia, já não é mais só isso. A boa fé objetiva passou a ser sempre uma exigência, como um dever de atuação justa em tudo. Quando se fala em boa fé objetiva, evoca-se aquele dever de revelar à outra parte todos os fatos relevantes, até quando prejudicam quem revela. Por exemplo: você está vendendo um carro? Tem que dizer que ele sofreu aquela batida, que nunca mais o alinhamento foi o mesmo. Está vendendo um apartamento? Revele que tem feira em frente ao prédio, toda quarta, de manhã cedo. Não se pode mais convenientemente omitir o que não interessa. Estava negociando um contrato mas mudou de ideia? Avise o mais cedo possível, antes de a outra parte enviar a minuta para sua assinatura. Tudo tem que ser falado assim que acontece, para nunca a outra parte ser mantida no escuro.

Tudo isso parece óbvio, mas não é. No senso comum das pessoas, essas pequenas desonestidades são consideradas toleráveis. As pessoas acham mesmo que têm o direito de cometer pequenas omissões de informação, ou de mudar de ideia a qualquer tempo sem avisar ao outro, ou etc., e que “é problema dele”. Acham que, se não mentiram mesmo, não há problema em perceber que o outro está enganado e omitir o esclarecimento. Falam mal do atendente que erra no troco para menos, mas não veem problema nenhum em verem que ele deu troco a mais e ficarem caladas. Sim, é problema dele, não seu, mas ele não sabe do problema; você, que está criando ou transferindo o problema a ele, tem que avisar.

Confesse que, se pudesse, você também cometeria essas pequenas vilanias. E, no entanto, não pode mais. Antigamente, bastava não descumprir o que estivesse no Código, e você estava bem; podia armar e se dar bem contanto que não violasse a lei. Hoje em dia, isso não basta. Justamente a fim de matar na origem essas tentativas de se dar volta sem ferir a literalidade, o próprio Código incorporou alguns artigos obrigando as partes à boa fé objetiva:

Art. 421. A liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato.

Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé.

Por causa deles, o negociador tem que cooperar para o bem comum, não só o seu próprio; tem que fazer de cada contrato a realização dos objetivos para os quais o Direito e os conceitos sociais o conceberam. Se você quer um contrato que saia do óbvio, do que normalmente se esperaria dele, tem que declarar ao outro, não pode mais ficar calado, porque não se espera só o cumprimento das formalidades, mas também do conteúdo normalmente esperado — e que cada parte *sabe* (ou deveria presumir) que a outra espera.

Não se pode mais fazer o que vi outro dia: a espertona anuncia a fotografia de um telefone celular pelo preço do próprio telefone. A vítima compra, e a vendedora envia a fotografia, dizendo que era isso que estava anunciado. Não é à toa que a Juíza Judy (ali na verdade atuando como árbitra, embora não pareça) ficou uma fera com a vendedora.

De certo modo, isso é a incorporação do polìticamente correto às relações comerciais, mas não vejo nada de errado. Porque é o seguinte: não havia quem tivesse autoridade para impedir os óbvios abusos que ainda vemos por aí. Então o Estado finalmente está assumindo o papel que é seu, para o qual se destina, de fazer cessar o estado de guerra sobre o qual escreveu Hobbes. Se as pessoas não se comportam, mas claramente existe uma noção socialmente aceita do que é justo, então o Estado, através de suas decisões legislativas e judiciais e de seu braço forte, vai moldando o comportamento social, vai direcionando-o para aquilo que se considera que deva ser.

Quero crer que seja isso o que temos testemunhado pelo mundo ao longo dos anos. Havia escravidão; a escravidão passou a ser ilícita nos países, e a pressão de uns contra os outros levou a seu banimento. Havia guerras, e a ONU repudiou-as, e hoje se condena o país que provoca outro à guerra. Há racismo, e exclusão social, e os Estados já são forçados a medidas políticas que os contrariem e sofrem sanções internacionais. Em todos esses exemplos, é claro que a motivação não é o coração de ouro dos políticos. Evidentemente o dinheiro é um grande motivador, e as pessoas continuam sendo todas hipócritas. Mas, felizmente, cada vez mais se vê o repúdio ostensivo a certas condutas, de modo que quem as pratica já não se sinta socialmente encorajado. Hoje, no Brasil, existe Lei Maria da Penha, e já não é socialmente tolerado bater em mulher. Ainda que, individualmente, muitas pessoas considerem isso aceitável, já não admitem tanto abertamente.

E assim com tudo. A exigência de boa fé no Direito civil é um resultado, disseminado com sucesso, da opção política de certas pessoas, que tiveram a franqueza de demandar o cumprimento daquilo que deveria parecer óbvio. É uma forma de se aperfeiçoar a sociedade e, na pequena escala, um negócio após o outro, ir moldando e aproximando o Brasil de um ideal, ainda utópico mas verbalizado na Constituição de 1988:

Art. 3o. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;

II – garantir o desenvolvimento nacional;

E mais: sem enfiar a cabeça na areia feito avestruz, você só consegue o segundo objetivo se atender ao primeiro. Não é com o egoísmo cego de uma Lei de Gérson que você promove a pujança e a soberania nacionais. Enquanto cada um continuar só olhando o próprio umbigo, vai continuar este horror de sujeira e ladroagem. Se não houver o senso de cooperação entre os cidadãos, se houver sempre aquelas pequenas e mesquinhas tentativas de “se dar bem”, o desenvolvimento será impossível.

Infelizmente, não se conscientizam as pessoas com campanhas; é necessário que eventualmente o Estado reprima excessos com seu tacape. Mas isso tem o condão de criar um ambiente propício às atividades de quem prefere levar os negócios a sério, porque dá segurança: a parte negocia sem medo de estar sendo enganada (porque, se for, o Estado está aí para ampará-la) e, com isso, efetivamente celebra o negócio de maneira aberta e produtiva. Portanto, a segurança jurídica propiciada pela nova óptica do Direito tem o poder de criar um ambiente onde se promovam mais trocas, onde se realizem mais potenciais, onde haja mais envolvimento das pessoas em lidarem umas com as outras. Cada negociante passa a ter a tranquilidade de poder se comportar como adulto, por ter a certeza de estar lidando com outro adulto.

Problemas há, e muitos. Os outros e melhores belogues poderão fàcilmente lhe mostrar. Problemas de saúde, educação, segurança; excessos de corrupção, de crime, de doenças e analfabetismo. Mas, se cuidarmos deste pedacinho de valores sociais que é a mera honestidade nas relações privadas, será mais um que poderemos tirar da frente para tratarmos dos outros.

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Rumores exagerados

Montando planilha das contas do condomínio, tenho uma aba relativa aos empregados. Um deles tem problema de saúde sério, acaba de ser licenciado, INSS etc., pode ser que nunca volte a trabalhar. Na linha relativa a ele, formatei a fonte em cinza claro — mais ou menos como o Windows faz com os botões quando não estão disponíveis — para lembrar que não é para mexer nessa linha. Isso foi ontem. Mas, hoje, editando novamente o arquivo, pensei: está afastado pelo INSS e todo ferrado, mas ainda é gente, não se anula, não é para ser esquecido, deixado de lado. Eu já não encontro com ele; não vou me dar mais um argumento para transformá-lo em fantasma, para empurrá-lo um pouco mais ao esquecimento. Então formatei a fonte de volta para preto.

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De ilusões de óptica

Na minha adolescência, muito ouvi meu pai se queixar de um colega de trabalho, que supostamente era arrogante e inflexível. Após meses e anos ouvindo os resmungos, houve uma curta transição após a qual meu pai reconheceu que, afinal de contas, o colega não era tão arrogante ou inflexível assim; que tinha havido uma falha de comunicação todo esse tempo e que o colega até tinha virtudes e dificuldades com as quais ele se solidarizava.

Disso retive a lição de que não temos que fazer para sempre a mesma imagem das pessoas próximas. Que, mesmo que elas não mudem, ainda podemos mudar nossa percepção sobre elas. Que, às vezes, a distorção (se for distorção) está em nossos olhos, não no objeto observado.

Na vila onde eu morava, sempre tive certa impressão do proprietário de uma das casas: parecia-me agressivo, prepotente e precipitado. Um dia, foi necessário reunir-me com ele em razão de questões exclusivas da vila. Eu, que nunca conversara com ele, fui tratado com educação. Comigo não foi agressivo nem prepotente, nem me pareceu precipitado.

Em outra história, não relacionada, era uma vez o General Guilherme, comandante da 1a. Divisão de Exército em meados dos anos 90. Jogue o nome “General Guilherme” no Google e o autocompletamento já segue com “… toquinho da maldade” — que era o apelido como era conhecido, e tão comum que foi parar no autocompletamento do Google. Na Vila Militar, todos o temiam e dali se espalhou sua fama de implacável, de que punia a todos por tudo, de que mandava prender e punha ordem etc. Vários anos depois, ouvi de um colega, que serviu sob seu comando, que o Gen Guilherme era apenas um militar que cumpria o regulamento, não mais rigoroso do que as previsões normativas. Mas que as pessoas sempre estão erradas e sabem que estão, então o temiam. E que quem andasse na linha não tinha o que temer.

Não sei qual versão é verdadeira, se é que alguma. Mas a lição aqui foi outra: a de que, toda vez que escuto que alguém em alto cargo é intolerante, rigoroso ou trovejante, tenho que interpretar que, na verdade, a pessoa age certo e quer que seus subordinados ajam certo. Atentar para os fatos de que, na maioria das vezes, as pessoas são preguiçosas, negligentes, acomodadas, indispostas a aprender, fazem corpo mole e carecem de iniciativa; e de que reagem à chefia que não tolera esses vícios. Então, sempre que ouço acusarem a diretora de que é exageradamente durona, eu, que nunca a encontrei, desconfio fortemente do que escuto, porque a impressão está sempre vindo de terceiros, e as pessoas são falhas; só terei uma impressão fidedigna quando EU mesmo a tiver. E, em princípio, cresce minha admiração por ela, e mais a respeito — quer dizer, a mensagem acaba funcionando ao contrário.

Tudo isso me confirma a lição que meu pai me transmitiu e vai além: em princípio, não é para pressupormos nada a respeito das pessoas com quem lidamos. Você sofre por antecipação (ou se decepciona, dependendo do caso) desnecessàriamente.

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“Quando uma mente se expande, nunca mais volta ao tamanho original.”

Estava eu ontem conversando com uma amiga no almoço, contando-lhe de como assisti a Cosmos na infância. Para você que nasceu atrasado, Cosmos foi uma série em treze capítulos, escrita e apresentada pelo brilhante Astrônomo Carl Sagan, baseada no livro de mesmos nome e Autor. Foi exibida no Brasil na mesma época em que passou nos EUA: início dos anos 80. O assunto eram as maravilhas do mundo da Ciência, e Sagan procurava divulgar a beleza e o senso de descoberta e de admiração que a gente sente quando começa a estudar as ciências naturais e a Matemática. Havia capítulos sobre a biblioteca de Alexandria, sobre como Eratóstenes raciocinou que a Terra devia ser redonda e até calculou seu raio com precisão melhor do que 1%, sobre o disco da Voyager, sobre o googol (não o saite, o número)… Tudo de forma muito didática.

Graças a Cosmos, muitas crianças brasileiras e americanas passaram a se interessar por Ciência, foram tornar-se pesquisadores, biólogos, matemáticos, físicos, nerds. Os depoimentos abundam na Web. Ainda hoje muitos têm saudade, pouca coisa semelhante foi feita desde então, nada que superasse a original. Há quem suspire por uma versão atualizada, mas acho que não precisa (embora o próprio Sagan, pouco antes de morrer em 1996, tenha feito uma versão com adendos onde ràpidamente comenta os desenvolvimentos dos quinze anos anteriores, confirmando ou negando previsões).

Cosmos retratava muito bem a visão do ateu Sagan, na qual não é necessário um deus criador para que o universo exista, tenha seu próprio valor em si mesmo e seja muito mais mind-bogglingly overwhelming do que a mente humana possa alcançar. Sagan, o humanista, também dispensava um deus justiceiro como paradigma ético necessário para você se preocupar com o planeta e com seu semelhante e para ser gentil durante sua curta passagem pela Terra; haja vista o texto que acompanha esta foto: http://www.skyimagelab.com/pale-blue-dot.html. Sagan, o especialista em climas de outros planetas, mostrava que, mesmo sem “vida após a morte”, já estamos em sintonia com o universo na medida em que nossos corpos são feitos de poeira de estrelas (porque os átomos de nossos corpos se originaram na fornalha de um núcleo estelar) e se perpetuarão na eterna e cíclica conservação da matéria. Sagan, o filósofo, mostrava como a vida é preciosa, como é um bem tão improvável no universo que deve ser valorizada e preservada acima de tudo. Foi um dos grandes ativistas contra a corrida armamentista da Guerra Fria, alertando-nos sobre o risco de um inverno nuclear.

Em 1983, Cosmos foi exibida pela primeira vez no Brasil, nas manhãs de domingo da Rede Globo. Eu não queria perder um episódio, com sua inspirada trilha sonora de Vangelis imperturbada pelo silêncio matinal enquanto o sol entrava pela janela. Mas, em 1983, toda a minha turma faria primeira comunhão no colégio religioso. Como parte da preparação, teríamos que ir a tantas (sei lá quantas, umas vinte) missas dominicais ao longo do ano. Até que fui a várias. Mas o problema é que a missa era no mesmo horário de Cosmos. Aí eu tive um problema. As duas prioridades se chocavam em minha mente e o melhor compromisso a que pude chegar foi alternar domingos: num eu via Cosmos, no outro ouvia as histórias do deus misericordioso que podia enviar a todos para o Inferno se pensassem por conta própria ou vissem a vizinha tirar a roupa na janela.

Na época eu não percebi, nem por muito tempo depois, mas você observa agora o quanto esse embate era simbólico? Eu não sabia, mas, nas convoluções de meu cérebro pueril, havia uma decisiva batalha campal pelo domínio de minhas crenças. Duas trilhas, dois caminhos a seguir na vida, disputavam minha atenção: uma, mediante o senso de dever imposto por Dom Plácido (que até que era gente fina, mas, em retrospecto, tão fundamentalista quanto se poderia esperar de um monge dando catecismo à terceira série primária). A outra, através da paixão que me despertava pelo mundo do deslumbramento, do método científico, da exploração cética exercida pelas mentes curiosas. Absolutamente incompatíveis! Era uma briga de pólos radicalmente opostos! (Acho que essa última frase teve não um, mas dois pleonasmos; conte aí.)

Naquele ano, não fiz primeira comunhão com minha turma.

Mas naquele ano fui encaminhado, firme e inevitàvelmente, a percorrer o mundo com o olhar não do místico apavorado, mas do cético maravilhado, do cientista apaixonado.

O obscurantismo lutou bravamente, ainda fiz primeira comunhão no ano seguinte e fui crismado alguns anos depois. Mas, no final das contas, o relógio do relojoeiro cego já estava em movimento e não podia mais parar. Hoje minha dúvida é só quanto ao rótulo adequado.

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A quem tem pouco conteúdo só resta comentar no saite alheio

Agora há pouco, visitei o saite de Jana Lauxen (pseudônimo?) e me interessei pelo livro anunciado ali. Então, escrevi-lhe este email. Como tem um poquito de conteúdo original, resolvi dividi-lo com você.

(…) Li parte do seu belogue. Há anos eu defendo seus argumentos contra o voto nulo, inclusive seu raciocínio é o mesmo meu. Sobre ser a única escolha que ainda há, sobre escolher o menos ruim, sobre escolha ruim ser melhor do que nenhuma. Em síntese eu digo aos outros: é minha vida, não vou deixar que os eleitores de cabresto, os analfabetos, os iludidos, os deslumbrados e os de má fé a decidam por mim. Cada voto contrário ao meu é um voto contrário a minha vontade, a minha vida. Então tenho que lutar contra e votar sim.

Idem seu texto sobre você colher o que plantou [embora eu discorde fundamentalmente do mau uso da Terceira Lei de Newton para exemplo, porque ela não tem nada a ver com isso]. Bàsicamente é algo em que não paro de pensar desde 1989, quando li Ilusões, de Richard Bach, que me mostrou que TUDO que acontece na minha vida é decorrência de minhas decisões, e minhas apenas. Inúmeros desdobramentos dessa ideia, inclusive o seu — afinal, são 21 anos pensando nisso, não é tudo repetição do mesmo não. Adendo: Ilusões também me trouxe as ideias de que é fìsicamente impossível forçar uma pessoa a fazer alguma coisa e de que é impossível eu fazer algo que não queira.

Idem seu texto sobre censura. Penso muito em censura. Penso muito em como a imprensa manipula a ideia de censura em interesse próprio, em como diz que tem quando não tem e em como diz que não tem quando tem.

Juízo e bom trabalho!

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Os rótulos supersimplificadores

Hoje cedo, tou eu lá no elevador, aquele papo de vizinho só esperando a hora de chegar no térreo para não ter que ouvir mais besteira, e a vizinha me conta que, de acordo com o médico de seu genro, torcer o pé é pior do que quebrar. “É mesmo?”, pergunto, “por quê?” Ela me responde que não sabe, porque não perguntou. Aí eu digo, “por que não? Eu pergunto sempre, sabe por quê? Porque, em geral, depois vou acabar tendo que responder pela coisa, então é bom conhecer bem a ideia, antes de comprá-la”.

Aí ela me pergunta se eu sou advogado.

Ora, pombas, eu não sou minha profissão! Por incrível que pareça e a despeito do que falam de mim, eu sou (infelizmente) um ser humano, com toda uma formação, experiências, gostos diversos, já li sobre todo tipo de assunto, já viajei a alguns lugares, já vi vários filmes, li vários livros, e só trabalho durante dez das 24 horas do dia. O resto do tempo eu passo fazendo outras coisas. Sei fazer ovo frito, sei instalar um drive de CD com conector SATA, sei comandar rolamento num Cessna 172, e fico um tanto ofendido com essa abordagem minimalista e, principalmente, rotuladora: “você pensa assim, logo você é advogado”. “Você sabe que máquina de calcular também erra, logo você é engenheiro”. Essa última veio do professor de Contabilidade, que, aliás, não é contador e, portanto, devia saber como dói o rótulo.

Pois saiba a Dona Vizinha que eu comecei a pensar assim mais ou menos no tempo do pré-vestibular e que o que sedimentou esse pensamento foi o serviço militar, onde regularmente te chamam à responsabilidade, de modo que você logo aprende que devia ter feito várias perguntas antes de abraçar a missão porque, depois, quem vai ter que respondê-las é você. Não é à toa que, ao fim de uma instrução, o instrutor sempre pergunta, bem alto e demarcado, “Dúvi-DÁS?” e não há vergonha nenhuma em responder “Sim, SeNHOR!” Não é burrice, é prevenção e, acredite, isso não é mal visto. Porque, depois, já não é dúvida, é dívida. E pode ter certeza de que alguns superiores têm um desejo secreto de que nenhum subordinado queira ser aquela única voz a dizer “sim, senhor”, porque aí vão poder cair em cima depois, sabendo, de antemão, que a missão é muito mais difícil do que parece. Alguns, não todos.

Aliás, esta tem sido uma política de grande sucesso na minha vida e contribui, em muito, para reduzir minha responsabilidade sob a aparência de aumentá-la: sempre pergunto tudo que não entendi. Prefiro, sim, passar por burrão uma vez, ser aquele único cara que não entendeu. Porque a verdade é que tem muito mais gente que também não entendeu e que está morrendo de vergonha de perguntar; aliás, não sabe nem que pergunta fazer, porque entendeu ainda menos do que eu. Como diz meu pai: o sinal de inteligência não está tanto em responder certo quanto em perguntar certo. Só tem dúvida quem entendeu alguma coisa; quem não entendeu nada não tem nada a perguntar. Então, não vou ficar inerte feito os demais idiotas; como dizia Titio Roquete, “cobra que não se mexe não engole sapo”. Se eu pergunto, pelo menos eu saio dali sabendo alguma coisa; dos outros não sei.

Então, vou eventualmente passar por burrão uma vez (ou nem isso), mas vai ser a última vez, porque, daquele ponto em diante, serei aquele cara que sabe e nunca mais perguntarei aquilo. Essencialmente, mudarei de lado. Desse jeito é que pergunto tudo: pergunto ao médico, porque preciso saber o que fiz que me causou o problema; pergunto à chefe, porque depois vou ter que trazer resultados, então preciso entender bem o que ela espera de mim; pergunto ao professor, porque vou fazer prova e preciso saber como ele pensa; pergunto ao vendedor, porque quem vai ficar com um produto que afinal não me atende sou eu.

É claro que, às vezes, minha pergunta, feita com toda a boa fé (juro!), pode acabar, sem querer, desmascarando a ignorância de quem estava lá bostejando na esperança de ninguém perceber. Aí eu pergunto e o cara se irrita. Felizmente, com o correr dos anos fui aprendendo a detectar, bem cedo, quando é que o falsário não sabe do que está falando, e aí nem perguntar nada, ou só perguntar uma vez para já entender o que está acontecendo.

E isso mostra que sou advogado? Se mostra, então quem não entendeu nada fui eu. Há quem me diga que advogado é assim mesmo, questionador, sempre se insurgindo contra as regras, sempre combativo. Ora, mas eu só pergunto! Raramente começo ou sequer termino dizendo que “está errado”, raramente digo que não vou cumprir a regra. Ao contrário: no meu tempo de vida já encontrei vários advogados idiotas, muitos dos quais se limitam ao positivismo míope de que “está escrito, então tem que cumprir”, como se a regra fosse uma espécie de inevitabilidade sagrada, escrita na pedra, a ser fiscalizada por um ser onisciente que vai derramar enxofre e cinzas sobre quem for pego mijando fora do penico. Aliás, mais comuns são aqueles que pensam que as leis se cumprem sòzinhas, como se não fosse necessária uma vontade e uma atuação humanas para as regras se materializarem. O cara acha que, só porque alguém, sei lá, cometeu alguma improbidade funcional, automàticamente vai estar demitido do serviço público no dia seguinte, por milagre, ignorando o fato de que ainda é necessário (1) ser pego, (2) haver provas, (3) seguir-se um processo administrativo etc. etc. Ou, então, assim: “põe aí uma cláusula de que eles prometem que, se houver desconto, vão ter que devolver o dinheiro”. “Tá. Mas, e se não devolverem? As pessoas fazem o que querem mesmo, você sabe. E aí como faremos para cobrarmos? Aliás, como faremos para sequer descobrirmos que descumpriram?”.” “Ah, não, mas aí vão estar descumprindo, e aí não pode! Então, põe aí a cláusula, que vai dar tudo certo”, como se a outra parte morresse de medo de descumprir o contrato por, com isso, incorrer na ira do Olimpo. Como se, a partir daí, o cara, que não ia pagar, passasse a ter a iniciativa de pagar, só porque eu disse que é feio se omitir, mesmo sabendo que eu não tenho como fiscalizá-lo.

Fico revoltado com isso. Eu construo minha personalidade a duras penas, sendo elogiado e censurado, pagando em dinheiro ou em credibilidade, tomando decisões difíceis, observando os resultados, tentando fazer melhor na vez seguinte, incorporando a experiência – e Dona Vizinha simplifica tudo sob o abrangente rótulo de que é porque sou advogado. Eu não sou o que eu faço! Eu sou eu, eu sou muito mais do que minha carteira da Ordem!

Quinem a velha a quem ofereci lugar no ônibus. Na época, eu estava no Exército, mas, naquele dia, estava sem farda. “Você é militar, né?” “Sim, senhora, como percebeu?” “É que foi tão educado…” Ah, p#$%a, TNC a velha! Meus pais não me deram educação, não? Teve que ser o Exército? If anything, o Exército me ensinou que as praças deveriam ser tratadas como uma espécie de sub-estrato que não merece respeito, contrariando tudo que aprendi em casa sobre profissionalismo e urbanidade. Mais de um soldado me disse ter ficado espantado que eu os tratasse feito gente. Voticontar, não é fácil nem intuitivo ter que tratar por “você” um sargento com o dobro da minha idade.

Mas, enfim, tudo isso são apenas rabugices, não é verdade? Eu devo ser é um covarde, que vim resmungar aqui em vez de espinafrar Dona Vizinha.

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De especialistas marca barbante

Aqui tem uma entrevista com o Autor de quadrinhos Robert Crumb, um dos ícones vivos da contracultura dos anos 60. Em determinado trecho, diz o entrevistador:

Em Paraty, o cartunista, antes esperado como o grande nome da Flip, saiu de lá tachado com um chato, já que a mesa em participou ao lado de seu amigo e também cartunista, Gilbert Shelton, criador dos Faboulous Freak Brothers, decepcionou a muitos. Crumb é avesso a jornalistas e a fotógrafos, e realmente não tem muito a ver com algo como a Flip. Mas o grande equívoco foi escalar um mediador que não conhecia a obra de Crumb a fundo, tampouco de quadrinhos.  E aí na imprensa lemos bastante que “Crumb é um chato, ranzinza e mal educado, a Flip deveria chamar só escritores etc.” Ele pode ser ranzinza e mal educado por conta dos lugares comuns que sempre lhe perguntam, ou coisas como se havia muita competição nos quadrinhos underground nos anos 1960, na Califórnia. A essa pergunta, no debate, ele questionou duas vezes: “Você está bricando?” [“Are you kidding?”].

Extremamente educado, simpático e gentil, (…)

E aí eu digo: de fato, a escolha do mediador faz uma diferença enorme. Em 1996, fui convidado pelo Prof. Paulo Metri, então diretor cultural do Clube de Engenharia, para ser um dos debatedores após uma exibição do filme Jornada nas Estrelas VI, no auditório do clube. Aceitei muito honrado, porque o tema é caro a mim e eu era (ainda sou) muito preparado para discutir qualquer aspecto de Jornada, em especial esse filme.

A exibição foi um sucesso, o filme se presta a várias discussões sobre geopolítica, ecologia, ideologia, pacifismo e anacronismo, eu e minha amiga Patricia contribuímos bastante, e o público só saiu porque estava na hora de fechar o auditório. Acontece que, como mediador, o clube pusera um sujeito que nunca tinha assistido a Jornada nas Estrelas nem conhecia nada de nada do tema. Pois o camarada começou atacando o filme — sem se dar conta de que boa parte dos que ali estavam já gostavam bastante dele — e prosseguiu a falar mal dos trekkers como alienados, irresponsáveis — sem se dar conta de que quase toda a plateia era composta por trekkers. De início, foi constrangedor vê-lo antagonizar palestrantes e público sem saber do que estava falando (uma das eternas marcas da arrogância oriunda da ignorância) mas, de certo modo, foi até engraçado como todo o mundo se uniu para praticamente escorraçá-lo de modo paternalista, se é que isso não é uma contradição em termos.

De outra feita, no mesmo Clube de Engenharia, o filme era 2001. Conforme eu já disse várias vezes, sou adepto da tese do Underman de que 2001 seja uma obra aberta: cada um vê nele o que é levado a ver, e o significado do filme só se completa na mente de cada um. É verdade que isso vale para toda obra de arte, aliás para toda obra: afinal, você precisa do receptor para se completar a mensagem. Mas, em 2001, nada tem realmente seu próprio significado: é você que põe seu significado na obra que está vendo. É como se cada pessoa visse um filme diferente.

Só que certas pessoas levam esse tecido aberto a extremos. Lembro-me de um senhor idoso velho, componente da mesa de debatedores, que, quando o filme terminou, começou a malhá-lo dizendo que sua principal mensagem era denunciar o ridículo do capitalismo americano. Exemplificava com as cenas da comissária de bordo, servindo bandejas devagar em zero-g com seu capacete branco redondo, e dos astronautas jogando xadrez com Hal. WTF?! Posso até entender que ele considerasse ridícula a cena da comissária, mas claramente se via que o ancião velho não conhecia o contexto em que o filme fôra feito (bem na parte mais excitante da Era Espacial, 1964-68), não tinha lido o livro 2001 original nem o livro onde Arthur Clarke explica das motivações e procedimentos da criação do filme (anote aí: Lost Worlds of 2001, com tradução esgotada no Brasil, Mundos perdidos de 2001), nem òbviamente tinha estudado qualquer coisa sobre a obra que tinha acabado de ser exposta.

Portanto, cuidado com isto. Quando for convidar alguém para ser debatedor ou mediador em qualquer seminário, congresso, painel, mesa redonda, o que for, tenha atenção a quem você estiver chamando. Certifique-se de que a pessoa conheça o tema. Aliás, isso vale para qualquer convite que se faça para qualquer coisa, não é verdade?

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Completamente fora de contexto, uma citação de Alex Castro

Cuba é um país como qualquer outro. Você não tem opiniões fortes sobre a Nigéria sem saber nada sobre ela, então também não saia levantando o dedo, brandindo contra ou a favor do Fidel, sem nunca ter se informado a respeito. Se você tem interesse o suficiente por Cuba pra ter opiniões fortes, então também deveria ter interesse o suficiente para ler um livro sobre o assunto. Caso contrário, desculpe a franqueza, mas você é a definição do idiota ignorante.

O original está aqui.

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Eu adoro a Web 2.0 (quando bem feita)

Estou há um tempão para escrever sobre a parte boa da Wikipedia. A ruim a gente já sabe: não confiável, subjetiva, sujeita a flamewars etc. Mas tem o lado bom também, que eu queria enfatizar. Ainda não é desta vez, estou sempre sem tempo, e coisa e tal. Mas acabei de ver um exemplo muito legal da boa Web 2.0 que queria compartilhar com você.

Estou lendo um artigo sobre Penda, que foi rei de Mércia no século VII. Mércia era um dos reinos que, quando se juntaram no século IX, formaram a Inglaterra. Na página de discussão sobre o artigo, várias pessoas se preocuparam que não havia um retrato de Penda. Aí vem um e retruca, óbvio que não; o cara se perdeu na aurora dos tempos, é quase mítico feito o Rei Artur, não tem quadro, iluminura, nada. Mas, aí, outro lembra que não importa, o artigo está longo, tinha que ter uma figura: um mapa da Inglaterra naquela época, uma foto de armadura do século VII, uma moeda, qualquer coisa. Um terceiro vem e sugere: mapa não costuma ficar bom; será que não podemos usar o retrato de algum evento? Uma batalha, talvez?

Aí é que fica interessante. Primeiro, um usuário tem a ideia de usar a foto de um vitral da catedral de Worcester, que representa a morte de Penda. A foto estava em um texto online sobre a Idade Média, cujo Autor se ofereceu para VENDER os direitos de reprodução. Que que o usuário sugeriu? “Alguém que more perto de Worcester pode ir lá com a câmera e trazer uma foto para nós aqui.” Assim dito, assim feito.

Várias vitórias aconteceram aí. A primeira é óbvia: alguém foi criativo em usar a foto da catedral e está de parabéns. A segunda também é óbvia para quem está atento aos benefícios da Web colaborativa: várias cabeças pensando juntas, sugerindo, todas orientadas de boa fé ao melhor resultado possível, mostram as enormes vantagens que tendem a melhorar o conteúdo. O resultado fica sempre melhor do que o de uma só pessoa, limitada, batendo cabeça e não conseguindo uma solução. É quase um brainstorm documentado de mútuo socorro.

A terceira vitória não é tão fácil de ver. Perceba que um sujeito, que pode estar a bilhares de quilômetros, que podia ser eu aqui na América do Sul, vai lá e posta a sugestão de que outrem, morando perto da catedral, possa fazer o que o sul-americano não pode: simplesmente ir à catedral e pôr a foto para todos verem. No mundo online, a distância não faz a menor diferença, estão todos convivendo um ao lado do outro no mesmo ciberespaço. Quando é necessário voltar ao mundo físico, não tem problema; quem estiver mais perto vai lá e faz. Se eu quiser saber como está o tempo na Nova Zelândia agora, procuro o twitter de alguém de Auckland e simplesmente pergunto.

A quarta vitória mostra como a economia da Web 2.0 quebra os paradigmas. O sujeito offline pretendeu cobrar pelo uso de sua foto. Ele tem esse direito; a foto é dele, ninguém pode usar sem sua permissão. Entretanto, embora a foto esteja protegida por direito autoral, ele não enxergou que o objeto da foto não estava e que era muito fácil alguém simplesmente ir lá e fazer outra. Quis vender, ficou sem o crédito; puseram a foto sem ter que pagar um penny a ele ou reconhecerem sua ideia prévia. Tá todo mundo maluquinho tentando descobrir um jeito de monetizar a Web 2.0, e não consegue por causa dessas coisas.

Eu achei a história ótima.

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Capanema, doutores de Coimbra, educação e ideologias

Neste País tropical, abençoado por Deus, onde em fevereiro tem Carnaval e o J. Ben tem uma nêga chamada Teresa (palavras dele, não minhas), temos algumas concepções paternalistas e clientelistas que extraímos desde Roma, passando por Portugal medieval e chegando aos dias de hoje.

Como resultado dessas concepções, nossas elites sempre enviavam seus filhos a se instruírem em Coimbra e a se tornarem “doutores”, mesmo que nunca fossem usar o conhecimento. No período republicano, insuflados pela ilusão de que mobilidade social existe, somos levados a crer que você não é ninguém se não tiver estudo. Bem, não exatamente. Você não é ninguém se não tiver um título. Não faz diferença se domina o assunto ou não.

Então, antes de vir administrar os negócios da família e a compra e venda de escravos, o jovem de tradicional estirpe tinha que ser médico, engenheiro ou advogado. De preferência, advogado, que assim você conhece as fórmulas que obtêm o favor dos deuses. O advogado torna-se uma espécie de pontífice, de sacerdote, com todos os privilégios associados à função. Vêem-se (porque a sociedade os vê) acima dos demais mortais, sabedores dos sortilégios sagrados das artes ocultas, revelados somente a iniciados. Mais ou menos feito os alquimistas.

Com o tempo, a saturação dos mercados e fartas doses de mediocridade, preguiça e hipocrisia, disseminou-se uma noção mais vaga, de que, de qualquer forma, você tem que ter um diploma universitário, qualquer diploma universitário, para conseguir qualquer coisa, para ser alguém, para ter dignidade. Não importa diploma de quê, nem onde. Você acaba forçado a fazer faculdade, mesmo que ìntimamente não queira, porque ninguém te aceita de outro modo. Agora, então, que a Lei de Diretrizes e Bases facilitou a obtenção de diploma para cursos de nível superior em menos de três anos, é como se ninguém mais tivesse desculpa.

Uma noção completamente falaciosa. As pessoas ficam achando que o papel da universidade é servir de curso profissionalizante, como se só houvesse profissões se de nível superior. Algumas viram cursinho para passar em concurso. Chega-se ao absurdo de se supor que todo o mundo tem que ter feito faculdade. Um País de doutores. Sabemos com que qualidade. Sei de doutores que não conseguem soletrar o próprio nome.

Ficam desprezados todos os técnicos, e essa gente esquece que, sem técnicos, não se constrói um país. Não dá pra ter só engenheiro; alguém tem que saber operar no chão de fábrica. Não dá pra ter só cirurgião dentista; alguém tem que saber cuidar do instrumental. O técnico é fundamental.

Mas conhecemos a visão que impera. As pedagogas de voz áspera, aquelas que nunca entraram numa sala de aula mas não deixam de comparecer a um debate na TVE, realmente acreditam que, se você não faz uma faculdade, você automàticamente é um fracassado.

Não há de ser outra a mentalidade que motivou certo artigo que encontrei na Revista de História da Biblioteca Nacional, edição no. 2, de agosto de 2005.

A matéria é uma biografia de Gustavo Capanema em quatro páginas. Já começa por uma ambivalência: na chamada, afirma que Capanema “foi um ministro renovador e idealista”, citando carta de Lúcio Costa que elogia o arrojo do prédio do MEC no Centro do Rio e o atribui à visão do mecenas; mas, poucos parágrafos adiante, esclarece como esse intelectual mineiro chegou a ministro:

Capanema acompanhou os mineiros, quer na fase da campanha eleitoral, quer na da conspiração, tornando-se oficial de gabinete de Maciel, por sinal, seu primo. Vitoriosa a revolução [de 1930], o presidente de Minas foi o único a não ser afastado do cargo pelo chefe do Governo Provisório. Seu oficial de gabinete tornou-se o secretário do Interior e Justiça (…) Campos e Capanema articularam um plano para ‘liquidar’ a liderança do mais poderoso político mineiro, Artur Bernardes (…). Uma briga de cachorro grande (…) que aproximou Vargas de Capanema, pois foi ele que intermediou as sigilosas conversações entre poderes estadual e federal. (…) Maciel morre e Capanema assume, interinamente, o cargo de interventor federal, postulando uma efetivação.

Os grifos são meus. Mas quer dizer: a Autora abre o texto enaltecendo o ministro visionário, mas mostra como ele armou para subir a escada do poder à medida em que se instalava uma ditadura no País.

Já ministro da Educação e Saúde, Capanema estava encarregado de sistematizar o ensino em todo o Brasil. Havia um debate entre correntes leigas e religiosas, entre estatizantes e liberalistas.

Essa discussão se prolongou, sendo interrompida pelo golpe de 1937, que deu ao ministro a liberdade de encaminhar suas propostas conforme as diretrizes autoritárias, nacionalistas e centralizadoras do Estado Novo.

Não é que eu seja fundamentalmente contra o modelo educacional. Provàvelmente ele estava correto, considerando que a geração que foi à escola nos anos 40 não é tão ignorante quanto as posteriores — ressalvado, aí, seu viés por vezes doentio, exageradamente positivista, nacionalista, integralista até; por culpa mais do Estado conformador do que dos próprios alunos. O lance é que, seja que modelo for, não é assim que se implementa. O cara é incensado como gênio da educação, mas parece não ter se pejado em simplesmente mandar cumprir o que achava que estivesse certo. Grande exemplo estava dando.

Bom, mas eu me estendo em digressões. Esse nem era para ter sido o foco principal. O que mais chamou minha atenção foi a seguinte passagem:

a reforma também criou cursos profissionalizantes, voltados para os que não seguiriam carreiras universitárias. Como é fácil perceber, eles se destinavam aos jovens menos abastados, o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública única e de boa qualidade.

Esse trecho está tão errado que nem sei por onde começar. Deixe-me seguir na ordem da leitura.

Primeiro: por que a Autora considera que os cursos profissionalizantes sejam voltados a quem não iria para a faculdade? Veja só que ela escreve por exclusão: “os que não seguiriam carreiras universitárias”. Presume-se que o padrão seja você fazer faculdade e que os demais se definam por não seguirem a regra. O pressuposto é que a universidade seja o certo, o óbvio, e que os refugos vão fazer escola técnica. Como se não houvesse a opção de não fazer universidade; como se não pudesse parar no primeiro ou segundo grau. A escola técnica surge como opção de quem perdeu, de quem é excluído, ráuli.

Segundo: “como é fácil perceber” — fácil para quem, cara-pálida? Há uma certa arrogância no texto: para ela, tudo que for dito depois são verdadeiras obviedades e, em princípio, o Leitor que não concordar tem dificuldade de perceber algo que está na cara.

Terceiro: “eles se destinavam aos jovens menos abastados” — ah, quer dizer então que escola técnica é pra pobre, é isso? Se escolho ser técnico, é porque sou um proletário limitado, emburrecido talvez pelo simples fato de ser pobre e, portanto, incapaz de alcançar um ambiente intelectual mais elevado — é essa a mensagem? Depois do primeiro grau, não convivi mais com gente rica, mas, desde então, já conheci várias pessoas que fizeram escola técnica e que não tinham dificuldade nenhuma de se sustentarem com isso.

Quarto: “o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública única” — hein? Quer dizer que as escolas técnicas não têm como se inserir num sistema de ensino? O Senhor Ministro não sabe onde encaixá-las, elas não se destinam a formar doutores — então, estão fora do sistema unificado, é isso? Estão entregues ao descontrole, estão à margem, é essa a ideia? E o que que eu digo pra quem acabou de entrar no CEFET?

Quinto e talvez pior de todos: “o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública (…) de boa qualidade”. Então, quer dizer que as escolas técnicas são todas ruins, é isso? Só está certo quem seguiu o caminho virtuoso da universidade; todos os demais são desqualificados e, se o curso é técnico, então automàticamente o curso é ruim — é isso? Por que a Autora não diz logo que tinha que acabar com o SENAI e rasgar o diploma de todos os soldadores, mecânicos e técnicos em Radiologia? Será que ela realmente acha que conseguiria sequer ter luz e água encanada em casa sem esse pessoal? O que o texto está dizendo é: “você nunca vai ter educação pública de boa qualidade se continuar formando técnicos”. Vá perguntar o que um russo, o que um alemão acha disso. Vá ver o que estão fazendo na China.

E era aqui que eu queria chegar. Nota-se aí mais uma das manifestações desta nossa ideologia do diploma. A Autora absolutamente despreza quem não tem é doutor em Ciência Política pelo IUPERJ ou pós-doutor pela Sorbonne. Essa é a exata visão da nossa cultura dos bachareis de Coimbra, do grau universitário como único reconhecimento de valor social. Uma cultura de opressão, onde alguns arrotam erudição e “falam difícil” para outros ficarem impressionados e temerosos, ignorando que os primeiros, muitas vezes, são tremendos enroladores que sequer aprenderam o básico das primeiras disciplinas da graduação, quiçá do próprio segundo grau. Uma cultura que não conhece o conceito de accountability (e por isso não tem nome para ele), onde professores titulares não aparecem para dar aula “porque estão acima disso”, onde a ocupação de qualquer sinecura autoriza o alto bradar da pergunta, “você sabe com quem está falando?”

Eu sei. Sei muito bem.

E estou de mau humor. MAU HUMOR COM “U”, PELO AMOR DE NEWTON!

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Se certas profissões desaparecessem

Neste exato minuto, há uma festa infantil no pleigráudi do meu prédio. Não vejo muito sentido em tocarem a música da Dança do Siri numa festa infantil, mas está tudo bem, porque eu tenho mesmo muita dificuldade em encontrar sentido nas coisas. Também considero bastante pitoresco que esta classe média, que tanto abomina que suas filhas subam o morro em busca de transgressão e de um traficante para se esfregarem, insista em tocar fanque para diversão dessas mesmas filhas. Não sei, o hipócrita devo ser eu.

Agora, o mais divertido, mesmo, é ficar aqui matutando sobre a grande contradição que é terem contratado uma animadora profissional para motivar as crianças. Veja bem: ou a festa é animada ou não é. Se a festa é animada, então a animadora é desnecessária. Se a festa não é animada, existem duas hipóteses: ou é para ser animada ou não é. Se não é para ser animada, então não era para essa mulher estar ali, e ela está toda errada. Já se a festa não está animada e é para estar, então tem alguma outra coisa muito errada, e a presença da animadora não vai fazer muita diferença.

Quer dizer, as pessoas contratam uma animadora pelas mesmas razões que as levam ao álcool e às drogas: para induzir um estado de espírito que não seja natural. Estou deprimido, bebo para me alegrar. Sinto-me sòzinho, então injeto heroína para esquecer a solidão. As crianças não estão alegres, então contrato uma animadora para lhes induzir um sentimento artificial, fabricado, de alegria com hora e duração marcadas. Parecido com o Carnaval, só que mais barato e mais localizado.

***
Por falar em transgressão, estive refletindo sobre um dos temas mais caros ao Alex Castro, que é a opressão praticada pela classe média contra suas empregadas domésticas. Sobre como é uma relação de escravidão. Uma colega minha contratou uma diarista para dois dias por semana e me conta que a moça era empregada em casa de uma atriz global (ela disse o nome da atriz, mas não quero ser processado por difamação). Que eram frequentes as festas até quatro da manhã e que a pobre mulher tinha que estar permanentemente à disposição e, mesmo assim, acordar cedo para fazer a faxina, enxugar os restos de uísque e varrer as sobras de cocaína canapés. E que está muito feliz, não só por não se sujeitar mais àquele regime como por “ser tratada como se fosse uma igual”. Estou entendendo que seus novos contratantes a tratem de maneira educada, sem gritaria nem humilhações extremas.

Que me perdoe minha cara colega, mas ela não trata a diarista como se fosse uma igual, não. O só-fato de contratá-la já mostra o ponto de vista de quem não se vê igual. Mais sobre isso aqui.

Mas, voltando à transgressão, imaginei: e se, de repente, todas as empregadas domésticas se rebelassem em todo o Brasil? E se, de uma hora para outra, simplesmente dissessem “não trabalho mais aqui” e saíssem pela porta sem mais? Tenho certeza de que a situação não se sustentaria, por todas as razões sociais e principalmente econômicas, pelo problemão de mão-de-obra instantaneamente excedente e não qualificada, pela certeza de que oferta e procura voltariam a vigorar e de que alguém acabaria roendo a corda e se deixando recontratar, e tudo mais. Mas, pelos primeiros momentos e pelos primeiros dias, como seria? Já imaginou? De súbito, todas as patroas estariam privadas de suas empregadas, e as empregadas estariam livres, e os homens e mulheres escravocratas deste Brasil teriam que arear suas próprias panelas, varrer seus próprios chões e passar X-14 em seus próprios banheiros. E as empregadas estariam, unas, em greve por melhores condições de trabalho, por horários definidos de entrada e saída, por semana inglesa e pelo piso de dez salários mínimos.

Como seria?

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Rastros no céu

Acordei ontem de manhã e vi este cenário:

Chamem os bombeiros!

É preciso entender que eu ainda não havia completado o boot do cérebro. Quando vi a contrail da esquerda, pensei em aviões no céu. Quando olhei a coluna de vapor da direita, pensei que fosse uma coluna de fumaça e pensei, “c@#$%&o, caiu um avião na Tijuca”. Aí vi de novo a contrail da esquerda e percebi que a da direita era outra, que o vento já estava dissipando.

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Tijuca, Rio de Janeiro, 24 de dezembro

Esta postagem nasceu como uma tentativa de comentário em resposta à postagem de Feliz-Natal da BAxt. Só que comecei a me estender demais lá, de modo que desisti e resolvi ocupar meu próprio espaço, não o dela. Mas a ela dedico este texto.

Ontem, véspera de Natal, entre 18:30 e 19 horas, eu ia andando pela rua junto com Esposa quando passamos por um cara que parecia não estar se sentindo bem.

Em pé, parado e de olhos fechados, apoiava-se na ventilação do metrô, a cabeça um pouco oscilante. Parecia muito aflito, como se tivesse uma baixa de pressão (conheço a sensação, é apavorante). Eu ia passando por ele, mas chamou tanto minha atenção que parei e voltei dois passos. Perguntei a ela: ajudamos?

Nesta cidade, é foda, você tem medo até de oferecer ajuda; mas pensei, é mais provável ele estar precisando do que não e, se fosse eu, bem que eu ia gostar de receber uma ajuda necessária. Então, hesitante e guardando um meio metro (vai que é maluco), pedi licença e perguntei se estava se sentindo bem.

Sem abrir os olhos, disse que não. Perguntei o que sentia. Sede, disse ele, entreabrindo os olhos mas sem se mexer. Pressão alta e uma falta de ar.

O cara não era nenhum mendigo. Magro e barbeado, estava vestido com camisa de botão, calça comprida e boné, tudo humilde mas arrumado. Na mão, só uma carteira. Vendo-se diante de mim, arregalou os olhos e começou a explicar a história atabalhoadamente. Repetiu que era pressão e que sentia sede.

Pedi à Esposa que fosse ao mercado próximo (nem dez metros), comprar uma água de 500 ml. Enquanto isso, antes que também eu ficasse tonto, e mantendo o distanciamento (afinal, vai que ele é, sim, ladrão), resolvi assumir o controle e comecei a fazer perguntas para eu mesmo montar o quebra-cabeças.

Pelo que contou, o sujeito é caseiro e mora sozinho no pé da serra de Teresópolis. Todo ano, no Natal, desce para visitar uma família que mora por ali. Só que, este ano, chegou e não encontrou ninguém; tinham vendido a casa. Estava desde o meio-dia no Rio de Janeiro, sem lugar para ir nem dinheiro para voltar. Como já escurecia e ele não queria passar a noite na rua no Rio, estava ficando nervoso. Com isso, a pressão foi subindo (palavras dele), a bronquite/asma começou a tirar-lhe o ar e ele sentia muita sede. As mãos tremiam.

Olhei em volta. Nenhuma farmácia, nenhum carro de polícia passando, pensei em ligar 192 mas ponderei, preciso mesmo acionar o SAMU? A vítima está lúcida, ambulância é pouca, deixa os feridos terem sua prioridade.

Ofereci-me a levá-lo a um posto de saúde que tem do outro lado do quarteirão. Ele ficou aflito: que a PM já tinha se oferecido a levá-lo a uma tal de UPA (confere: Unidade de Pronto Atendimento, perto dali também), mas ele tinha medo de médico, e não estava doente, nem queria ficar numa maca num lugar estranho, só queria ir pra casa, que em casa ele tinha a bombinha e sabia que melhorava. Disse que tinha vergonha de pedir qualquer coisa, por isso não queria pedir nada a ninguém, já tinha tomado seis ônibus (possível exagero), era a primeira vez que isso acontecia, não tinha ninguém no mundo, só queria voltar pra casa.

Tudo isso ele me dizia olhando no olho, humilde mas sem pedir nada, sem evasivas, sem olhar para o chão ou para os lados como fazem as pessoas que mentem para mendigar. Em um momento, o ar realmente pareceu faltar-lhe; nervoso ele estava mesmo. Parecia prisioneiro de sua situação: evidentemente, seria inútil e complicadora qualquer solução que não o ônibus para Teresópolis, mas a barreira até chegar a ele parecia intransponível.

E a história fazia sentido: se você tivesse 61 anos (mostrou-me a identidade: nascido em maio de 1948) e morasse em Magé, tudo que você ia querer era ficar na sua casa, ambiente conhecido. Deduzi que o nervosismo não era tanto de fome ou desabrigo (suportáveis), mas mais de ele subitamente se ver removido de seu pequeno mundo, sem uma estrutura de amparo, em ambiente desconhecido e potencialmente hostil.

Aí, disse que só precisava de R$ 22,20, sendo R$ 20 do ônibus de volta para Teresópolis e R$ 2,20 até a Rodoviária, um ônibus verdinho que ele sempre pega; e que uma moça lhe tinha dado R$ 8 de ticket-refeição, mas que a passagem ainda era um problema.

O ônibus conferia: linha 606, verde, passa ali mesmo onde estávamos, embora não parasse no ponto imediato, só no seguinte. A conta também conferia: passagem para Teresópolis custa por aí mesmo, e o 606 custa R$ 2,20. Mas continuei a perguntar: o senhor não tem dinheiro para voltar pra casa?

Não: a família que ele visita sempre lhe dá R$ 300 ou 400 e, com esse dinheiro, ele compra a passagem de volta.

E pensei: é muito temerário descer a serra sem ter o dinheiro da volta! Aí veio a autocrítica: isso sou eu, que tenho toda uma estrutura a minha volta, que sempre saio de casa com o dinheiro da despesa prevista, mais o mínimo para resolver imprevistos, e depois reponho o que porventura gasto. Mas vai ser caseiro em Magé! A gente tem que descer a serra mesmo, sem dinheiro para a volta.

Mentalmente, contei quanto dinheiro sabia ter na carteira (uma nota de 50, duas de 10 e uma de 5), enquanto explicava que o ônibus verde não parava ali. O homem arregalou o olho: pára sim, eu sempre venho nele! Esclareci que sim, mas não naquele exato ponto, mas que ali também tem ônibus com destino à Rodoviária. Nisso, passou um 234, mostrei-lhe: olhe, o da Rodoviária é como esse. Parou de falar, fixou bem, disse alto: azul e branco com verde.

Perguntei se ele conseguia ler no ônibus, “Rodoviária”, ele disse que era suficientemente letrado, só não era para aquelas letrinhas no celular, e gesticulou como quem aperta os botões. Esclareci: não é isso, é que podia não estar enxergando bem, se estava passando mal… Mas disse que enxergava, que seu único problema era não conseguir voltar pra casa, e que já não tinha a quem apelar — e aqui arfava, asmático –, então pedia a Jesus que lhe mandasse qualquer ajuda.

Ora, pombas, Jesus! Muito egoísta e muito conveniente pedir para si!

Mas, nesse ponto, avaliei: não queria ir a médico, então eu não haveria de forçá-lo; nem da asma poderia tratá-lo. Não me pediu dinheiro, mas, mesmo assim, podia ser tudo um golpe encenado, claro que podia! Afinal, ele havia dito, claramente, de quanto precisava; e isso já não é pedir? Mas o discurso estava todo coerente, não era aquele papo apressado de pidão profissional com história fajuta.

Refleti: que ajuda eu podia dar? Nesta sociedade onde só o que as pessoas pedem é dinheiro, eu me sinto PÉSSIMO quando isso é tudo que dou. O de que o caseiro parecia precisar era transporte, mas transporte eu não podia dar; podia dar aquilo que se transforma em transporte: desta vez, só dinheiro mesmo! Do mesmo modo, essa necessidade só podia ser expressa na forma de alguma quantia.

Então, fiz o que nunca faço por mendigo nenhum: olhei em volta, nenhum molambo à vista que pudesse vir me assaltar, saquei da carteira, puxei e dei R$ 20, ele agradeceu. Na hora, pensei, isso não completa o necessário, de modo que ele ainda vai ter que se virar na Rodoviária. Não adianta alegar que, lá, muito mais gente poderá ajudá-lo, porque sabemos que não se pode contar com isso.

A outra ajuda era a garrafa de água. Esposa chegou trazendo, abri-a, ele bebeu metade em um gole demorado.

Deixamo-lhe a garrafa d’água, que ele agradeceu penhoradamente, desejando-me também um feliz Natal e qualquer coisa a ver com Jesus (que, mind you, nem passou pela minha cabeça — OK, minto, passou sim, mas para me deixar puto. A verdade é que fui aluno em um colégio católico supertradicional, de modo que, apesar de todo o meu ateísmo, certas doutrinações afloram nessas horas. Como é que você faz quando quer que seu ato não tenha nenhum vínculo com valores cristãos e, no entanto, ele coincide exatamente com o que o catecismo te manda fazer?).

Fico pensando que talvez devesse ter esperado o próximo 234 junto com o caseiro, mas talvez isso já fosse mesmo além do necessário; eu já me havia certificado de que ele poderia se virar sozinho, e ele não me pediu para ficar. De todo modo, ainda me pergunto se fiz bem. Porque dar dinheiro é sempre uma forma de você dizer que ajudou sem ter realmente tido trabalho nenhum, assim se mantendo egoísta mas procurando sair bem na fita. E porque sempre há o risco de, na verdade, eu ter dado esmola a um vigarista. Quanto a essa hipótese, consolo-me pensando que vinte reais a menos no meu bolso vão me causar um dano pequeno comparado com a culpa que se acumulará no carma dele; fica sendo mais um pecado do qual ele terá que se arrepender mais tarde (olhaí o fundamento cristão sneaking back in).

Pelo menos não foi só o dinheiro. Resolvemos o problema da sede (que, recapitulando, foi o que causou minha parada), dei informação sobre ônibus e, em retrospecto, o melhor de tudo parece ter sido ainda uma outra coisa. Veja: o tempo todo respeitei a dignidade do caseiro, ouvindo-o, discutindo soluções, não insistindo em que aceitasse alguma dádiva minha, mas procurando descobrir o que ELE queria. Se pensarmos bem, acho que sua maior necessidade, ali, não era de água, nem de dinheiro, mas de que alguém ouvisse sua história e aplacasse sua ansiedade. Parecia precisar ser tranquilizado de que conseguiria voltar pra casa e de que não ficaria abandonado nesta cidade hostil.

Bem, se lhe dei isso, então dei o que não tinha. Porque, nesta cidade, ansiosos estamos todos, todos procurando nosso lugar de tranquilidade, e eu nem sequer tenho a fé que ele manifestava. Mas, se um caseiro de Magé se livrou de passar o Natal na rua no Rio de Janeiro, então — e que isto fique entre nós –, com isso, ele me deu um presente de Natal melhor do que eu costumo esperar.

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As mensagens que você passa

Refletindo sobre o episódio da menininha no metrô, fui lembrado de perguntar por que ela me pediu para ler a revista. Até agora, pensei em meus próprios termos, julgando que a revista tivesse algo em si mesma que despertasse o interesse da menina. Como a revista estava comigo, ela teria que pedir acesso.

Mas contei a história ao Raposo, que é pai de um menino mais ou menos da mesma idade e que me fez observar alguns meta-aspectos que eu estava deixando de lado. Segundo ele, provàvelmente a menina não estava tão interessada em algum conteúdo que tivesse percebido na revista. Acontece que ela viu um sujeito de terno, gravata e pastinha de couro, provàvelmente voltando do trabalho, com toda a aparência de seriedade mas lendo revistinha. Ora, certamente ela associa quadrinhos a infância (é o que faz a ignorante maioria das pessoas), mas viu um sujeito adulto lendo quadrinhos. Então, terá ficado curiosa, primeiro com o aparente contrassenso; segundo, com essa revista que devia ter algo de muito especial. É nesse ponto que ela quereria saber o quê.

Até ali, eu, sem saber, já havia deixado algumas mensagens para ela: que é lícito ler quadrinhos em idade adulta; que a leitura é algo tão bom que a gente a pratica sempre que tem um tempinho, até no metrô; e que, por mais atarefado e profissional que se seja, sempre se consegue um tempo para essa gratificação, mesmo que seja no metrô.

É claro que também se pode entender que eu seja um pobre-diabo tão atarefado que só mesmo no metrô vá ter tempo para a leitura.

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Ninguém está errado

Colega minha acaba de me contar que, indo e voltando do bebedouro, entreouviu uma conversa dos faxineiros no corredor.

“… Jornalzinho mais sem graça, esse Globo, Jornal do Brasil!… Agora que inventaram esse Expresso, Meia hora, é só esse que eu leio!…”

Pra quem não está no Rio: esses dois jornais são tablóides baratíssimos, que só trazem notícias da violência urbana, do futebol e da novela. Têm a linguagem mais acessível e complexidade nenhuma. Não trazem análises nem recapitulações.

Ninguém está errado nesta história. Os jornais mais sisudos, ditos “formadores de opinião”, trazem um texto que é muito complexo para esse público. As palavras são difíceis, as frases são longas, existem relações de causalidade, explicações históricas e temas como atos secretos do Senado, crise política de Honduras e mísseis norte-coreanos, que saem do cotidiano dos Deltas e Epsilons. Em contraste, os tablóides usam o mesmo vocabulário de seu público-alvo.

Assim, a manchete do Globo poderia dizer algo como “Operação da PM no Morro do Vidigal deixa 2 mortos”, enquanto a mesma notícia, no Expresso, viria em outros termos: “PM dá dura e 2 vagabundos levam pipoco”.

Ora, o propósito de toda empresa é gerar lucro para seus sócios. Então, o objeto social varia: uns vendem sapato, outros vendem diplomas, e outros, ainda, vendem jornal; mas o propósito é sempre o lucro. O que a empresa de jornalismo quer, ao fim e ao cabo, não é instruir nem ilustrar o povo; é vender jornal. Informar o povo é apenas um passo intermediário para a consecução do objetivo. Se a empresa imprime um jornal complexo e caro, ela não vende para essa população, e deixa de auferir lucro. Já se imprime um jornal acessível (intelectual como financeiramente), ela está atingindo mais gente, e é mais dinheiro na caixinha, que é o que interessa.

De todo modo, existe um resultado adicional, que também me deixa mais feliz sem ironia nenhuma. Considere que o faxineiro já não lê O globo nem o JB mesmo. Se ele ler o Meia hora, já estará lendo alguma coisa, que SEMPRE é melhor do que nada. Então, no final de tudo, provàvelmente está melhor assim, e todo o mundo fica satisfeito: o faxineiro em sua leitura matinal, o acionista do jornal com seu dinheirinho, e até eu, cercado de um gado que está um delta menos ignorante.

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Voo AF 447 – relatório interino

Sugestão: ignore os jornais. Os jornais dizem muita bobagem. Chutam, inventam, manipulam.

Vá à fonte. Saiu o relatório do Escritório de Investigações e Análises (BEA: Bureau d’Enquêtes et d’Analyses) sobre o acidente do Airbus 330 da Air France ocorrido em primeiro de junho.

Não estou dizendo que o relatório seja perfeito. Vão dizer que ele é político, que é viciado, vão dizer um monte de coisas. Pode ser. Mas tem dois detalhezinhos para os quais eu gostaria de chamar sua atenção.

1) O relatório é técnico. O jornal não é técnico.

2) O relatório é a fonte primária. O jornal vai citar o relatório, vai dizer que o relatório disse tal e tal coisa, mas você só vai saber o que o relatório disse quando ler o próprio.

Taqui os linques para o relatório em francês e em inglês. Um com 128 páginas, o outro com 72.

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Em uma nota não relacionada, comecei a ler Green Lantern: Ganthet’s Tale, de Larry Niven e John Byrne. Eu conhecia a fama dessa graphic novel de 1992, que é muito elogiada como um ponto de vista original trazido por seu escritor aos quadrinhos da DC. Aliás, Niven já era bastante celebrado como o Autor de Ringworld e das histórias das guerras contra os Kzinti. (Vivo confundindo Ringworld com Discworld, do também elogiado Terry Pratchett. Se tivesse lido algum dos dois, isso não aconteceria.)

A grata surpresa foi, ao abrir o livro, reconhecer o traço de Byrne, que eu não sabia que o havia desenhado. Não só foi uma surpresa como me fez pensar em como evoluiu minha percepção do talento desse inglês. É que, quando vi os desenhos dele pela primeira vez há alguns anos, não gostei: eram muito simples e as expressões faciais, sempre dramáticas. Com o tempo, passei a apreciar justamente a simplicidade, junto com o vigor e o caráter dramático das expressões não faciais, mas corporais. De suas obras, talvez o exemplo mais famoso entre os quadrinhos da DC esteja no clássico Man of Steel, que foi o reboot do Super-homem em 1986.

Vou acabar de ler Ganthet’s Tale e, se for bom mesmo e eu estiver com saco, virei resenhar aqui.

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Verbos defectivos

Quando eu estava na quarta série, meu livro de conjugações verbais não tinha o imperativo do verbo querer. A professora dizia que o verbo era defectivo — ou seja, um verbo que não tem conjugação em todos os tempos verbais. Ninguém me explicou o porquê, mas deduzi que fosse pelo contrassenso: você não teria como mandar uma pessoa querer alguma coisa. Apesar da aparência de razoabilidade, ainda fiquei pensando que isso era uma omissão grave na língua: normalmente, você não mandaria alguém querer nada, mas o português deveria ter essa possibilidade. Vai que, uma vez a cada Lua Azul (A Gata e o Rato, alguém?), um escritor precise expressar o conceito por alguma razão abstrata. Afinal, as possibilidades de pensamentos são infinitas, e deveria haver língua para exprimi-los.

Foi só vários anos depois que me dei conta: o verbo querer tem imperativo, sim. “Por favor, queira se retirar”, “queiram dirigir-se ao balcão”. Mesmo que não tivesse, observe que o imperativo afirmativo se constrói por repetição do presente do indicativo, sem o S, no caso da segunda pessoa, e por repetição do presente do subjuntivo no caso da terceira pessoa: “contanto que você digite o texto” (presente do subjuntivo de digitar), “por favor, digite o texto” (imperativo afirmativo de digitar). O imperativo negativo também tem fórmula, mas eu esqueci qual é; isso não vem ao caso, o que importa é que tenha fórmula. Portanto, automàticamente, querer tem imperativo, sim.

“Tu queres” –> “quere tu”
“Você queira” –> “queira você”
“Nós queiramos” –> “queiramos nós”
“Vós quereis” –> “querei vós”
“Vocês queiram” –> “queiram vocês”

O fato de uma formulação não ser muito usada não deveria significar que não existisse na língua.

Mas a pergunta mais importante é outra: por que os livros e professores estão ensinando a língua incompletamente, como se alguns conceitos não existissem?

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O velho truque do desaparecimento

Òbviamente, você sabe, a esta hora Michael Jackson está na mesma ilha remota do Pacífico onde moram Elvis Presley, John Kennedy, Adolf Hitler e Greta Garbo, tomando prosecco e rindo de todos nós.

A Morte Lhe Cai Bem, com Isabella Rossellini

A Morte Lhe Cai Bem, com Isabella Rossellini

Enquanto isso, quem deu mó azar foi Farrah Fawcett: morreu justamente na véspera (ou no mesmo dia, de manhã, não sei bem). Consequência (agora sem trema): ninguém vai lembrar que ela morreu. Ele ganhará especiais e retrospectivas, ela não. Pois que conste aqui: Mulher Biônica, As Panteras e Encontro Fatal, com Larry Hagman.

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Interpretando a Bíblia

Aqui na Internet, muita gente diz que a Bíblia é um monte de histórias da Carochinha, que é tudo mentira etc. Eu também não acredito em algumas de suas histórias, mas isso não quer dizer que tenham sido escritas de má fé. Prefiro acreditar que tenham sido escritas (ao menos em parte) por gente sincera.

Considere que, naquele tempo, o conhecimento científico era muito incipiente e carente de método. O mundo era grande fonte de assombro; em tudo se via a mão sobrenatural, divina ou otherwise. Além disso, nós, humanos, temos o vício de não narrarmos os fatos objetivamente, mas transmitindo já a nossa própria visão deles, eivada de sentimentos e julgamentos.

Considere, também, o episódio de I Crônicas 13 em que a Arca da Aliança estava sendo transportada em um carro de bois. Um dos bois tropeçou, a Arca quase caiu do carro, e o garoto hebreu Uzá, que vinha caminhando ao lado, estendeu a mão para evitar que ela caísse. Dizia a regra divina que era proibido tocar na Arca. Diz a narração que o pobre Uzá foi imediatamente fulminado por um raio.

Considere, ainda, que a Arca era revestida de ouro e que ela e o carro de bois eram feitos de madeira. Considere, finalmente, que, por décadas e séculos, ninguém tocara na Arca diretamente: só nas varas de madeira com que era transportada.

A madeira é um isolante elétrico. É concebível que, com o roçar das varas e carros durante tanto tempo, a superfície da Arca tenha acumulado um bocado de carga eletrostática. Um dia, o camponês Uzá, certamente descalço sobre o chão do deserto, toca a Arca com seus dedinhos — e fecha o circuito de aterramento. A descarga flui imediatamente por seu corpo, causando parada cardíaca. Como ninguém sabe fazer ressuscitação cardiorrespiratória, Uzá morre. É claro, isso é só uma hipótese. Não sei quanta carga o revestimento de ouro sustenta sem romper o dielétrico.

Outra explicação plausível para mim é um pouco mais elaborada e exige que o boi não tenha tropeçado tanto quanto ficado inquieto. Considere que uma Arca, sendo transportada pelo deserto, projeta-se uns dois metros acima do chão, destacando-se na paisagem. Suponha que estivesse ameaçando chuva (o que é raro mas acontece). Com o acúmulo de eletricidade estática no ar, forma-se um pouco de ozônio, cujo cheiro os sensíveis animais logo percebem (até nós: é o “cheiro de terra molhada” de antes da tempestade). O boi fica inquieto, a Arca quase cai, Uzá estende a mão e, com isso, conecta a Arca à terra. A Arca atua como um pára-raio, rompe o dielétrico (ainda mais porque está carregada há anos) e um raio realmente cai em cima do garoto.

É claro, isso são apenas hipóteses. Não tenho como testá-las, mas os Mythbusters têm. Nem sou tão bom em Eletricidade, cujo ramo da Engenharia era minha última opção ao fim do curso básico (acabei indo para a mecânica, que era a primeira).

Se eu não for apedrejado por causa dessa mensagem, pretendo vir aqui outro dia e reinterpretar a idade de Matusalém e o Sol parado de Josué. Uma dica: calendários.

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Recém-lidas:
Robbie, conto de Isaac Asimov;
The Flash #155 (setembro de 1965);
Wonder Woman #163 (julho de 1966), primeira história;
The Flash #165 (novembro de 1966);
The Flash #179 (maio de 1968);
Wonder Woman #178 (setembro-outubro de 1968 — até agora, a história mais influenciada pela Contracultura dos anos 60);
Justice League of America #77 (dezembro de 1969);
Green Lantern #74 (janeiro de 1970)
… e, com isso, acabei a Era de Prata. A qualidade das histórias já está melhorando.

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