O passado está de volta no futuro

Então hoje anunciaram a mais nova spinoff de Jornada nas Estrelas, intitulada Strange New Worlds. O Capitão Pike comandará a USS Enterprise ao lado de Number One e do Tenente Spock.

Versão curta: estou ansioso para ver e pretendo assistir com boa vontade.

O que os trekkers da antiga sabem é que, na origem, quando “The Cage” foi criado, quem não tinha emoções era a Number One. Spock era só o alienígena, do qual nem sequer se dizia que era vulcano: naquele momento, seu planeta estava indefinido.

Com a rejeição daquele primeiro episódio piloto, Number One foi excluída da série e Spock perdeu as emoções. (Dizem que foi porque a emissora rejeitou uma mulher na ponte de comando. Isso não é verdade, mas não vem ao caso aqui.)

Depois disso, Spock tornou-se o ícone que conhecemos e amamos. Um vulcano racional, ocultando suas emoções em uma contínua jornada em busca de autocompreensão. A evolução do personagem é uma trajetória fascinante, desde os primórdios, passando por relances de emoções controladas na série Clássica, pela radicalização do Kolinahr, pelo choque com V’Ger, pela quebra de paradigmas após a Ira de Khan e pela paz e sabedoria que viria a adquirir posteriormente.

Na origem da série Clássica, os vulcanos eram cercados de mistério. O pon farr era secreto e sòmente o descobrimos por circunstâncias extremas. O elo mental era um superpoder desconhecido, de raro uso. Gradualmente, fomos sendo expostos à cultura vulcana, e os trekkers passaram a compreendê-la melhor do que os membros da Frota em volta de nosso orelhudo preferido.

Corta para 2017 e, após 729 episódios de Jornada nas Estrelas, estreia Star Trek: Discovery. Mais uma vez a CBS comete o erro que a Paramount cometera com Enterprise em 2001, e cria uma prequel ambientada antes da série Clássica. Se, de um lado, Enterprise fez uma tentativa desajeitada de se encaixar no cânone e acabou antecipando tudo que não devia, Discovery já chegou metendo o pé na porta. Inventou Klingons que tinham pouco a ver com os que conhecíamos, abusou do Universo do Espelho, e zoou com tudo que sabíamos sobre Sarek e os vulcanos. O resultado foi uma série controversa, que me criou desagrado desde o começo.

Mas, na segunda temporada, a CBS resolveu mexer em Discovery, trazendo Anson Mount para atuar como o Capitão Pike e traçando um arco de episódios que, com todos os defeitos, aproximou a série das ideias centrais de Jornada nas Estrelas. Mais do que isso: Mount teve um desempenho brilhante como Christopher Pike. Interpretando o personagem de forma bem diferente das versões de Jeffrey Hunter e Bruce Greenwood (e Sean Kenney também ;-P ), Anson Mount mostrou-nos um Pike que era essencialmente um modelo mais experiente do Capitão Kirk, mais acostumado e relaxado com o comando. Saiu-se TÃO bem, e com tanta popularidade, que alterou dramàticamente a percepção que se tinha de Discovery.

Claramente a fórmula tinha dado certo, mas Discovery não podia fazer uso continuado de Mount/Pike, porque, nesta época, ele era sabidamente o capitão da Enterprise. Ao fim da segunda temporada, ele teve que ir embora.

O resultado era previsível: quase imediatamente surgiu esta nova spinoff anunciada hoje, com as aventuras da Enterprise sob o comando de Pike e tendo, na tripulação, destaque para Spock e Number One.

Independente de outros aspectos, Spock é o personagem mais conhecido e mais popular da série Clássica, e fazia parte da tripulação da Enterprise na época do comando de Pike. Então, ele necessàriamente tem que fazer parte de Strange New Worlds — como foi anunciado que fará, como um dos três personagens centrais. Nem tem como não.

É aqui que entram minhas ressalvas.

Se fizerem uma série com Spock e Number One ao mesmo tempo HOJE, um dos dois vai ter que deixar de ser quem era. Ou Spock será racional e impassível, como era na Clássica toda, ou Number One será, como era em “The Cage”. Mas os dois não dá, e pelo menos um deles vai sair da configuração. Torna-se enorme o potencial de ferir o cânone.

Alternativamente, poderão focar nos aspectos da fisiologia e da cultura dos vulcanos. Aliás nem tem como evitar isso, não só porque é disso que o povo gosta como porque agora são aspectos indissociáveis do personagem. Só que neste ponto também se arrisca uma violação do cânone, porque, na época de Pike, essas características eram pràticamente secretas: só foram reveladas ao longo da série Clássica, pelo próprio Spock. Não importa o fato de que, mais tarde, tornaram-se lugar comum para os trekkers.

Em Discovery, a presença de Spock e Number One não causou grande dano, porque ele estava fora de si e ela apareceu em poucas cenas. Mas, quando vi “Q&A”, esse pequeno episódio pareceu-me furar o que sabíamos sobre os personagens, com uma informalidade que não se encaixava no perfil de qualquer um deles.

OK, então esses são aspectos que podem dar errado e provàvelmente darão. Mas o que podemos dizer sobre a própria série?

Por enquanto, quase nada, é claro. Mas o título é animador. “Strange New Worlds” está no lema de abertura da série Clássica, a ponto de ser uma expressão já vinculada a este universo há tempos. Também é o estimulante nome de uma série de livros de fanfics que exploram a variedade da criação de Gene Roddenberry.

Se vão colocar o Capitão Pike no comando da Enterprise, com Number One e Spock a seu lado, de imediato sou levado a pensar: trata-se da Jornada nas Estrelas que teria existido se “The Cage” tivesse sido aprovado!… É pràticamente uma versão alternativa da série Clássica, onde a Enterprise explorará novos mundos e novas civilizações, audaciosamente se valendo de todos os efeitos visuais de que dispomos em 2020 e que teriam sido impensáveis em 1965.

Com essa perspectiva, vejo um bem-vindo contraste com a tendência que Jornada nas Estrelas vinha adotando, de conspirações e inimigos ocultos. Esse tipo de narrativa era interessante quando era inovador (p.ex. em DS9, contra os Fundadores), mas tende a ser cansativo com o tempo. Felizmente, de tempos em tempos, o universo de Jornada volta a suas origens, como a Nova Geração, Voyager e Enterprise acabaram fazendo, cada uma a seu modo e com resultados variáveis.

De minha parte, fico animado com a possibilidade de se retomar o conceito da série Clássica de um modo respeitoso e muito mais próximo da original do que fez J.J. Abrams com seu reboot (embora, vá lá, a intenção dele fosse outra). Por mais que eu esteja atualmente curtindo Picard (e estou), Strange New Worlds desperta-me maior interesse, inclusive porque uma parte de sua fórmula já foi testada como protótipo na segunda temporada de Discovery.

Há que ver como vão desenvolver simultaneamente Discovery, Picard, Section 31 e Lower Decks, mas quanto a isso tenho fé. Já houve Jornadas simultâneas em outros momentos (TNG/DS9, DS9/Voyager). Embora, na época, tenha havido uma diluição da capacidade criativa, em retrospecto a qualidade das séries afetadas aumentou com o tempo. Além disso, a equipe criativa (nomes como Alex Kurtzman, Akiva Goldsman, Heather Kadin e Aaron Baiers, entre outros) tem mostrado que consegue desenvolver material novo e vigoroso apesar de eventuais tropeços.

E que assim venham outros 54 anos.

O triunfo de David Brin

Várias postagens deste belogue dão conta de minha progressiva leitura dos livros onde Isaac Asimov construiu sua magistral História do futuro. Embora desordenadamente, o Bom Doutor escreveu contos de robôs, romances de robôs, romances do Império e sete livros da Fundação. Esse material está detalhado na Web inteira, inclusive (bastante) na Wikipedia e aqui. Até eu fiz meu próprio resumo.

Agora, após onze anos, sete dias e 31 livros, acabei. Anteontem terminei a leitura de Foundation’s Triumph, último livro da Segunda Trilogia da Fundação. Ainda existem algumas minisséries escritas por outros autores e ambientadas neste universo, parte delas iniciada enquanto Asimov ainda estava vivo, até agora totalizando 29 livros. Nessas não vou entrar por ora, e considero que a aventura esteja concluída. Mais abaixo explico por quê. Hoje quero tratar justamente de Foundation’s Triumph.

Foundation's Triumph

Foundation’s Triumph

Antes, uma recapitulação. Nos livros de robôs — sejam os contos, ambientados no século 21, sejam os romances, no século 35 –, o principal tema são as Três Leis da Robótica.

Primeira Lei: um robô não pode causar dano a um humano, nem, por omissão, permitir que seja causado dano a um humano. Com esta Lei, os robôs são seguros.

Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens de um humano, exceto se conflitarem com a Primeira Lei. Com esta Lei, os robôs são úteis.

Terceira Lei: um robô deve preservar sua existência, exceto se conflitar com a Primeira ou a Segunda Lei. Com esta Lei, os robôs são econômicos.

Os contos e romances de robôs desenvolvem consequências lógicas e não necessàriamente previsíveis dessas Leis em diversos cenários, quase sempre em alguma busca detetivesca pela explicação de comportamentos aparentemente ilógicos dos robôs. Em todas essas histórias, as Três Leis aparecem como características inalienáveis dos robôs, sem as quais não seria sequer possível construí-los no universo de Asimov.

Se dispusermos os livros dos robôs, do Império e da Fundação na ordem cronológica em que as histórias acontecem (e não na ordem de publicação), o resultado é a sequência abaixo, onde estou pulando as poucas histórias que não têm relevância para a Segunda Trilogia.

*** CUIDADO: DAQUI PARA BAIXO, SPOILERS EM MASSA. ***

1. Contos de robôs — no século 21, a robopsicóloga Susan Calvin decifra a mente dos robôs aplicando as Três Leis da Robótica com uma racionalidade fria e radical. Em um dos contos, é inventada a propulsão hiperespacial, que permite vencer distâncias interestelares instantaneamente.

2. The Caves of Steel e The Naked Sun — no século 35, os habitantes da Terra vivem em metrópoles subterrâneas e têm fobia e ódio dos robôs. Em cinquenta outros planetas vivem os Spacers, descendentes dos colonizadores que lá chegaram com tecnologia hiperespacial. Os terráqueos são desprezados pelos Spacers, cujas economias, por sua vez, dependem totalmente dos robôs. Na Terra e na colônia Spacer de Solaria, o detetive Elijah Baley investiga dois homicídios e nisso recebe ajuda de Daneel Olivaw, um dos recentes e raros robôs que conseguem se passar por humanos.

3. The Robots of Dawn — no planeta Aurora, a primeira colônia Spacer, o roboticista Han Fastolfe sugere a possibilidade de que o comportamento humano possa ser previsto por leis matemáticas que ainda estariam por ser descobertas, em uma espécie de psico-história. Baley resolve mais um crime com ajuda de Daneel e do robô Giskard e vence a resistência dos Spacers a uma nova onda de emigração da Terra. Baley descobre que, graças a um acidente de construção, Giskard é secretamente um telepata.

4. Robots and Empire — trezentos anos após Robots of Dawn, Solaria está deserta e ninguém sabe desde quando, como nem por quê. Em Aurora, Daneel e Giskard descobrem que as cinquenta colônias de Spacers estão estagnadas e fadadas à extinção devido a sua dependência dos robôs e consequente acomodação. Novas colônias foram fundadas por orgulhosos terráqueos que, em lugar de robôs e comodidade, levaram consigo apenas espírito empreendedor e disposição para o trabalho. São os Settlers, cuja cultura é bem diferente da cultura Spacer. Giskard deduz lògicamente a existência da Zeroésima Lei da Robótica: um robô não pode causar dano à humanidade, nem, por omissão, permitir que seja causado dano à humanidade. A partir da Zeroésima Lei, Daneel e Giskard adotam uma medida drástica para tornar inevitável a continuidade da recém-iniciada emigração da Terra pelos Settlers. Giskard confere seu poder telepático a Daneel, que se compromete a descobrir e usar as regras do comportamento humano para salvar a humanidade de si mesma.

5. The Stars Like Dust — após milênios de colonização, os vários planetas da Galáxia disputam poder cosmopolítico, tal como os antigos reinos feudais da Terra. Entre eles, os Reinos Nebulares incluem Nephelos e Widemos, liderados pela família de Biron Farrill, e Rhodia, liderado pelos Hinriads. A Terra está radioativa e, nos Reinos Nebulares, quase ninguém sabe onde ela fica. No início do livro, Biron estuda na universidade da Terra, quando recebe a notícia de que o reino de Tyrann está promovendo um golpe de Estado em Nephelos, na tentativa de anexá-lo. Biron junta-se à princesa de Rhodia e, com auxílio dos dirigentes do planeta Lingane, eles escapam à dominação de Tyrann. Biron e a princesa dos Hinriads casam-se em união real. Esse romance ruim é um dos três romances do Império.

6. The Currents of Space — um pesquisador descobre que no espaço sideral há correntes de matéria orgânica, as quais influem no ecossistema dos planetas e cujo estudo permite prever catástrofes. O pesquisador tenta advertir sobre a iminente destruição do planeta Florina, dominado pelo vizinho Sark. Para salvar Florina, ele busca ajuda do Império de Trantor, que domina metade da Galáxia. Fora do Império de Trantor, ninguém sabe onde fica a Terra. Esse é outro romance do Império, também ruim.

7. Pebble in the Sky — neste que foi o primeiro romance do Império a ser escrito, acontece um acidente no século 21: um raio de táquions experimental transporta o aposentado Joseph Schwartz, de Chicago para sua sucessora de 10.000 anos no futuro. A Terra está ainda mais radioativa do que em The Stars Like Dust. Os terráqueos são vistos como inferiores pelo Império Galáctico, sediado em Trantor e dominador de todos os planetas habitados. Na Terra, um movimento revoltoso, fruto do ressentimento, pretende espalhar uma arma biológica por todo o Império. Schwartz ganha poderes telepáticos, ajuda a derrotar o plano rebelde e obtém a promessa do Império de tentar eliminar a radioatividade da Terra.

8. “Blind Alley” — esta é a única história deste universo onde se vê alguma forma de vida inteligente mas não humana em toda a Galáxia. Uma civilização alienígena foi encurralada pelo crescimento do Império e está a caminho da extinção. O burocrata Antyok manipula a Administração pública imperial e oferece aos alienígenas uma oportunidade de fuga para outra galáxia.

9. Prelude to Foundation — neste romance, publicado em 1988, o Império Galáctico já tem 12 mil anos. O jovem matemático Hari Seldon chega a Trantor e apresenta seu teorema, que demonstra ser possível descobrir as leis matemáticas que regem o comportamento de grandes populações. Esse é o primeiro grande marco na incipiente ciência da Psico-História. O Primeiro-Ministro Eto Demerzel percebe na Psico-História a chave para salvar o Império de sua atual decadência e estimula Seldon a desenvolvê-la. Seldon descobre que, no passado, a humanidade criou seres artificiais, hoje desaparecidos, chamados “robôs”. Em um dos setores de Trantor, a população é composta de xenófobos tradicionalistas, que organizaram uma religião em torno do passado longínquo, quando seus ancestrais viviam rodeados de robôs em Aurora. Esses fanáticos são considerados bizarros pelos demais setores.

Ao fim do livro, Demerzel revela-se como uma identidade secreta do robô Daneel, que ainda luta para salvar a humanidade, mas agora nas sombras, manipulando eventos polìticamente.

10. Forward the Foundation — este livro, publicado em 1993, divide-se em cinco partes e conta cinquenta anos da vida de Hari Seldon enquanto ele desenvolve a Psico-História. Seldon modela o comportamento de populações com leis e equações matemáticas e, com elas, descobre que o Império está em crise, rumando para a extinção em trezentos anos. Na esteira do fim do Império, a Psico-História indica que sobrevirão trinta milênios de ignorância e desunião. Então, Seldon começa a conceber seu grande Plano, com o qual poderá salvar a humanidade das trevas. Na última parte do livro, ele descobre que sua neta faz parte de uma minoria de humanos a quem uma mutação deu poderes telepáticos, e pede a ela que procure outros telepatas.

11. Trilogia da Fundação — estas são nove histórias, dispostas ao longo dos três livros Foundation, Foundation and Empire e Second Foundation, respectivamente publicados em 1951, 1952 e 1953. A primeira história apresenta o leitor ao matemático Hari Seldon, à Psico-História e ao Plano Seldon para a Fundação. Aqui, Seldon tem que defender seu plano contra acusações de traição pela Comissão de Segurança Pública do Império. Ao explicá-lo aos julgadores, o matemático também o revela ao leitor, que passa a ter contexto para as histórias subsequentes.

Eis o plano: o fim do Império é inevitável e será seguido por 30 mil anos de conflitos. Para abreviar esse período tenebroso para “apenas” mil anos, Seldon cria a Fundação, reunindo especialistas em Ciências Exatas no planeta Terminus, isolado na borda mais externa da Galáxia. Ali compilarão a Enciclopédia Galáctica, com todo o conhecimento acumulado pelo Império, para posterior divulgação, qual farol na escuridão dos tempos (como foram os mosteiros medievais após o fim do Império Romano).

Mas esse plano é um engodo. Nas histórias subsequentes, o leitor descobre que o verdadeiro Plano Seldon é que a Fundação, valendo-se do conhecimento privilegiado, seja a semente do Segundo Império Galáctico. Percorrendo quinhentos anos, oito histórias mostram o crescente domínio da Fundação sobre seus vizinhos rumo a um destino glorioso. Sem que a Fundação saiba, seu desenvolvimento é gerido pela secreta Segunda Fundação, também estabelecida por Seldon e composta pelos descendentes dos psicólogos e telepatas reunidos por sua neta.

Nas últimas histórias, o Plano Seldon descarrila quando, de forma não prevista pelas equações da Psico-História, surge o Mulo, um mutante com extremos poderes telepáticos. Com a sutileza de um rolo compressor, o Mulo conquista a Fundação e muitos outros planetas, e sòmente a muito custo a Segunda Fundação consegue restabelecer o cumprimento do Plano.

12. Foundation’s Edge — o político Golan Trevize tem a fama de nunca ter tomado uma decisão errada. Banido da Fundação, ele parte em busca da Terra. Ao mesmo tempo, a Segunda Fundação descobre que uma terceira força está ajustando o Plano Seldon para um sentido não programado. Trevize e a Segunda Fundação descobrem que essa força é o planeta Gaia, onde humanos, robôs e toda a natureza compõem uma só mente unificada, vivendo em harmonia. Gaia pretende estender sua unidade aos demais planetas, fundindo a todos em uma mente única chamada “Galaxia”, mas somente o fará se tiver a concordância de Trevize.

13. Foundation and Earth — Ainda em busca da Terra, Trevize parte de Gaia e visita algumas das cinquenta colônias de Spacers, já desabitadas. Em Solaria, descobre que a população nunca abandonou o planeta, mas vive oculta no subterrâneo. Em Alpha Centauri, encontra os descendentes dos últimos terráqueos, evacuados pelo Império depois que fracassou o plano de eliminação da radioatividade. Afinal Trevize chega à Lua, onde conhece Daneel, que informa ter fundado Gaia e estar prosseguindo no plano de salvar a humanidade através de Galaxia.

Conforme observei aqui, o que Asimov fez nos anos 80, principalmente com The Robots of Dawn, Robots and Empire e Prelude to Foundation, foi conectar as diferentes épocas nas quais se situavam suas obras, unificando-as.

Ou seja: de início, havia apenas períodos históricos desconectados. Então, o Bom Doutor unificou-os em uma linha temporal única, que estivera inicialmente oculta dos leitores. Nesta continuidade retroativa, Asimov olhava para trás, para obras já escritas, e interpretava-as sob uma óptica de materialismo histórico, em que as circunstâncias de um período levavam ao período seguinte, em uma relação de causa e efeito.

Após a morte de Asimov (1992), e a pedido de seu espólio, o escritor Gregory Benford concebeu o tema de três novos livros, que viriam a ser conhecidos como a Segunda Trilogia da Fundação. O próprio Benford escreveu o primeiro livro, Foundation’s Fear, publicado em 1997, e delegou os demais a Greg Bear (Foundation and Chaos, 1998) e David Brin (Foundation’s Triumph, 1999).

A Segunda Trilogia não é uma continuação das histórias da Fundação. Os três livros ambientam-se entre as histórias de Prelude to Foundation, de Forward the Foundation e do próprio Foundation. Conforme já detalhei aqui, Foundation’s Fear é bem fraco, mas Foundation and Chaos já traz uma melhora, e Foundation’s Triumph fecha muito bem a série.

Eu sempre dou preferência a consumir obras em ordem de publicação. O grande motivo é que, quase sempre, o conteúdo de uma obra mais antiga é pressuposto das obras mais recentes, o que é intensamente verdadeiro também no caso desta Segunda Trilogia. Embora o terceiro livro avance mais rápido e tenha mais conteúdo, ele infelizmente depende de eventos dos dois primeiros livros.

Mas eu disse que Triumph fecha bem a série. Porque David Brin teve o talento de reunir todos os elementos de todos os livros anteriores e, com uma muito bem amarrada retrocontinuidade, dar-lhes um sentido panorâmico que o próprio Asimov certamente não imaginou. Brin desenvolveu explicações que, em retrospecto, fazem com que haja uma contínua linha de sentido e propósito ligando todos os livros de Asimov desde o primeiro conto de robô, escrito em 1939. O ponto em que se apoia essa engenhosa unificação é a Zeroésima Lei da Robótica.

Explico.

De todos os livros de robôs escritos pelo próprio Asimov, o último foi Robots and Empire. Ao introduzir a Zeroésima Lei da Robótica, esta história, dependendo da interpretação do Leitor, pode pôr a perder todo o sentido das Três Leis.

Tendo deduzido a Zeroésima Lei, Giskard convence Daneel, que a incorpora a sua própria programação. O vilão auroriano Amadiro, motivado por vingança, pretende iniciar um processo que transformará a Terra em uma vastidão radioativa inabitável. Os dois robôs impedem Amadiro, mas percebem que, se a radioatividade da Terra for aumentada gradualmente, a consequência será que, ao longo de séculos, a humanidade será forçada a evacuar seu planeta natal e conquistar as estrelas, vindo a formar o Império Galáctico. Assim, com base na Zeroésima Lei, os robôs ativam a máquina de Amadiro em um ajuste de baixa intensidade.

Com esse evento, Asimov retroativamente justificava por que a Terra era radioativa na época do Império em The Stars Like Dust e Pebble In the Sky. Também justificava por que, ao tempo da Fundação, ninguém mais sabia onde ficava a Terra, que já era considerada um planeta mítico.

Porém a Zeroésima Lei traz seus próprios problemas. O primeiro que se vê, e mais filosófico, é: se nem mesmo os humanos conseguem enxergar adiante as consequências de seus próprios atos, como esperar que a mente de um robô faça um exercício de futurologia e calcule quais ações causarão dano ou benefício ao conjunto da humanidade? Como se mede ou sequer percebe esse dano ou benefício? É necessário um poder de abstração que difìcilmente se veria na mente de u’a máquina. Em Robots and Empire, Giskard e Daneel deduzem que, a longo prazo, será mais benéfico que a humanidade emigre da Terra; mas eles não podem ter essa certeza, enquanto é certo que, em prazo mais curto, milhões morrerão por efeito da radiação, contrariando a Primeira Lei.

Além disso, para humanos esse já seria um sério dilema ético, enfrentado há muito tempo (lembro-me de “The Conscience of the King”, episódio de Star Trek), e nós mesmos tenderíamos a preservar as vidas imediatas de quem habita a Terra. Não faz muito sentido que os robôs, construídos para servir e limitados pelas Três Leis, decidam o que é melhor e passem a agir como pastores da humanidade.

Também existe uma questão operacional mas também de coerência. Em todos os livros anteriores, sempre esteve claro que as Três Leis são implementadas em um nível fundamental, provàvelmente no hardware dos robôs. Com a introdução da Zeroésima Lei, fica evidente que os robôs podem acrescentar leis fundamentais a sua programação de alto nível. Por extensão, retroativamente fica estabelecido que as Três Leis não são pressupostos da construção dos robôs, mas comandos programáveis e removíveis. Eis aí uma incômoda contradição diante de todas as maravilhosas histórias anteriores, que tão sadiamente afastavam o complexo de Frankenstein. Diante da Zeroésima Lei, em teoria um robô passava a poder até mesmo matar um humano se essa ação beneficiasse a humanidade.

Pois voltemos à Segunda Trilogia da Fundação. Em uma postagem anterior, critiquei bastante a execução de seu primeiro livro por Gregory Benford. O livro é ruim mesmo, mas, sendo justo, não sei quanto do brilhantismo unificador do segundo e do terceiro livro vem dos próprios Autores e quanto foi imaginado por Benford em seu plano para o conjunto.

No segundo livro desta Trilogia, Foundation and Chaos, o leitor vem a descobrir que, quando Daneel começou a seguir a Zeroésima Lei, ele passou a recrutar seus semelhantes para seu grande plano de salvação da humanidade. Os aliados de Daneel agem ocultos, protegendo a humanidade contra si mesma como uma criança irresponsável, que não sabe o que é melhor para si nem pode sequer saber que outros estão cuidando de seu destino.

Os robôs adeptos da Zeroésima Lei, liderados por Daneel, eram os giskardianos, pois Giskard foi o descobridor da lei. Em Foundation and Chaos, Daneel confessa a Hari Seldon que, no passado distante, para cumprir a Zeroésima Lei, os giskardianos cometeram um grande crime, que ele não revela qual foi.

Para minimizar o sofrimento humano, os giskardianos tiveram que amortecer todas as forças sociais que trazem renovação e criatividade, e formou-se um Império Galáctico pacífico e materialmente próspero porém baseado em conservadorismo, estagnação e, principalmente, amnésia sobre suas origens. Por isso é que, em todo o Império, raras são as pessoas que dão crédito ou importância à Terra como planeta de origem da raça humana. O passado pré-imperial é impenetrável e desimportante.

Portanto, esta Segunda Trilogia mostra que o Império e a Fundação, bem como todo o ambiente cultural em que se inserem, são o resultado da obediência de Daneel e seus colaboradores à Zeroésima Lei da Robótica.

Porém, nem todos os robôs concordam com a existência da Zeroésima Lei. Um grupo de radicais conservadores são chamados Calvinianos, por aderirem somente às Três Leis propugnadas por Susan Calvin. Os calvinianos veem no gentil cajado de Daneel uma interferência indevida no rumo natural da humanidade e uma subversão da finalidade dos robôs. Por isso, antes mesmo do estabelecimento do Império, instaurou-se uma guerra civil entre calvinianos e giskardianos. Graças à imitação quase perfeita, os robôs continuaram disfarçados entre os humanos, que nunca desconfiaram do conflito.

Agora, em razão das mesmas características que mantiveram o Império estável durante 12 mil anos, essa grande entidade política já não tem força para suprimir os crescentemente frequentes afloramentos de caos social. Cada vez mais planetas estão incidindo na mesma doença: súbitos renascimentos de criatividade, seguidos de severos conflitos internos e desagregação social.

Por isso é que, à medida que o Império dá mostras de implosão, Daneel vê no Plano Seldon a solução para conduzir a civilização a uma nova estrutura com mínimos efeitos colaterais. Já os calvinianos percebem que, apesar do fim iminente do Império, Daneel continua querendo manipular o destino da humanidade através do Plano Seldon, e tentam impedir o exílio da Fundação em Terminus. Ao mesmo tempo, agentes do Império descobrem uma telepata extremamente poderosa, aberrante e renegada, e tentam usá-la para, de uma só vez, eliminar Seldon, os demais telepatas e os robôs, todos os quais são percebidos como ameaças. Após o clímax onde calvinianos e telepata são derrotados, o livro repete ipsis litteris a cena do julgamento de Seldon.

Então chegamos a Foundation’s Triumph. Neste romance, Hari Seldon já exauriu seu papel na História da humanidade. Os membros da Fundação estão emigrando de Trantor para Terminus e a Psico-História está nas mãos da Segunda Fundação. O velho matemático prepara-se para morrer em breve, quando é convidado a uma nova aventura por Horis Antic, um pesquisador de solos. Antic ficou intrigado quando descobriu que, de modo geral, os planetas habitados têm solos de mesma composição, indicando alguma espécie de preparação. Também descobriu que o surgimento do caos está correlacionado a planetas onde o solo é diferente do padrão e que se situam no caminho de correntes do espaço. Eis aqui a única ocorrência das correntes do espaço fora do livro a que dão nome, reconhecendo importância a um conteúdo que nunca tinha sido abordado novamente.

A partir deste ponto, Foundation’s Triumph segue uma estrutura semelhante à dos romances de Asimov, seguindo o herói em uma fuga por vários planetas da Galáxia, durante a qual vai reunindo pistas para entender o panorama político. O piloto da nave é um nobre da família Biron, senhor dos planetas Nephelos, Rhodia e Widemos —novamente, em referência aos romances do Império. Ele sabe que um de seus antepassados estudou na universidade da Terra e busca registros da História desaparecida.

A parada mais importante desta jornada é dentro de uma nuvem de poeira cósmica, onde há milênios estão guardados segredos aos quais a humanidade jamais poderá ter acesso: são naves robóticas terraformadoras (explico-as adiante) e milhões de bilhões de arquivos, reunindo todo o conhecimento que a humanidade conseguiu preservar antes da grande amnésia que acometeu o Império. Tanto Seldon como os robôs reconhecem que, se alguém encontrar esses arquivos, haverá imediatas manifestações do caos em toda a Galáxia. Para que o Plano Seldon funcione, é imperioso que a humanidade continue progredindo às cegas, sem saber que tudo já foi previsto nem conhecer suas origens. Por isso, Seldon autoriza os robôs a destruírem os arquivos milenares.

Imediatamente após a destruição dos arquivos, um grupo de calvinianos sequestra Seldon, levando-o à Terra para submetê-lo ao mesmo raio taquiônico que deslocou Joseph Schwartz a seu respectivo futuro (e que ainda está ativo desde o século 21, pois ninguém soube desligá-lo). Os calvinianos pretendem avançar Seldon quinhentos anos, para que ele julgue se seu Plano se revelou benéfico, e estão dispostos a se curvarem a esse julgamento.

Depois de várias peripécias, David Brin faz como Asimov: ao fim do livro, monta o quebra-cabeças das peças que foi dispondo pelo caminho. Neste ponto, Foundation’s Triumph estabelece uma gigantesca continuidade retroativa e revela inúmeros fatos que sempre foram verdade ao longo de todos os livros anteriores mas que estiveram escondidos do leitor (e, na verdade, também do próprio Asimov):

– Na Terra, após o século 21, um agente biológico tornou-se o causador de uma doença mental que leva as sociedades a rejeitar novidades e da qual a maioria dos humanos são portadores. Após surtos criativos, essa doença causa o caos das civilizações, que acabam se retraindo. Na Terra, a invenção dos robôs e da propulsão hiperespecial, em tão pouco tempo, resultou numa fobia que levou os terráqueos a se enfurnarem em cidades subterrâneas (“cavernas de aço”). Inevitàvelmente, antigas cepas da doença chegaram às colônias de Spacers, que entraram em obsessão xenofóbica, isolamento e definhamento. Sòmente após várias gerações é que alguns terráqueos se recuperaram do surto criativo, iniciando a emigração dos Settlers, que, porém, também levaram a doença consigo.

– Após Robots and Empire, os giskardianos procuraram estimular e facilitar a expansão de Settlers a novas colônias, sem que os Settlers pudessem saber. Com essa intenção, em poucos séculos, milhares de naves robóticas ajustaram os solos dos planetas de clima adequado a uma futura ocupação, terraformando-os em segredo adiante da onda de colonizadores. Isso explicava a improvável semelhança entre os solos de milhões de planetas. Toda forma de vida pré-existente era eliminada pela terraformação, como quase aconteceu aos alienígenas de “Blind Alley”.

– Nos planetas terraformados, os giskardianos estabeleceram dispositivos biológicos, tecnológicos e sociais de amortecimento, que suprimiam a criatividade e induziam a comportamentos pacíficos de conformidade. Tais dispositivos evitavam o surgimento de novas ideias e dos conflitos de onde brota a evolução, mas também evitavam o caos e estabeleciam as bases de estabilidade do Império.

– Nos planetas onde a terraformação não foi completada por algum motivo, os solos permaneceram na forma original, fugindo ao padrão estatístico descoberto por Horis Antic. Ausentes os mecanismos de amortecimento social, esses planetas vieram a ser os mais suscetíveis ao surgimento do caos. É o caso de Lingane e Sark, o primeiro por se localizar numa zona que foi colonizada antes que os robôs a alcançassem e o segundo por se situar sobre uma corrente do espaço, onde a terraformação é inutilizada em pouco tempo.

– O grande e inconfessável crime dos giskardianos não é completamente definido em Foundation’s Triumph, mas fica claro que é um dentre dois: ou foi o envenenamento radioativo da Terra em Robots and Empire, com o qual os robôs tomaram as rédeas do destino da humanidade sem o conhecimento dela; ou foi a eliminação de outras formas de vida na terraformação, que Horis Antic sabia ter sido impedida no caso de uma espécie inteligente por seu antepassado Antyok, em “Blind Alley”.

– O Império é uma criação de Daneel, que o vem promovendo há 12 mil anos, sob várias identidades secretas. Em uma dessas identidades, Daneel foi a figura histórica que criou as bases da administração confucionista do Império.

– O nobre piloto Biron também descende da família dos Hinriads, que històricamente se opõe aos giskardianos. Seu motivo para pilotar a nave com Seldon e Antic é a perspectiva de, seguindo as correntes do espaço, encontrar os arquivos com o conhecimento oculto da História, do qual os giskardianos privaram o Império.

– A arma biológica de Pebble in the Sky era derivada da doença do caos e levaria à desagregação do Império. Quem identificou o plano terráqueo de contaminação e concedeu telepatia a Joseph Schwartz foi um agente secreto de Daneel.

– Ao detectar a crise que levaria à implosão do Império, Daneel percebeu que sòmente com a Psico-História seria possível prever o comportamento da civilização e descobrir o caminho para uma nova solução. Mas uma criatura jamais conhece os desígnios de seu criador, de modo que Daneel sabia ser incapaz de compreender os humanos. Além disso, a descoberta das leis da Psico-História requeria intuição e criatividade, que estavam além da capacidade dos robôs. Então, através de genética, formação escolar e pedagogia, Daneel e seus agentes selecionaram e aprimoraram o próprio Hari Seldon, seu talento matemático e sua obstinação por ser capaz de prever o rumo da História. A aparente descoberta de Seldon por Demerzel foi apenas o completamento de uma etapa deste projeto.

– O surgimento de mutantes telepatas também é obra de Daneel, que espera promover o surgimento de Galaxia após séculos de contínua propagação desses genes. Infelizmente, a mistura genética de várias cepas de telepatia é propensa a alguns exageros dramáticos e imprevisíveis, o primeiro dos quais é a renegada que se dispõe a ajudar o Império a pôr fim aos demais telepatas. Outro exemplo inesperado será o Mulo.

– Se a Enciclopédia Galáctica é um engodo de Seldon para ocultar seu Plano de mil anos, por outro lado o próprio Plano Seldon é um engodo de Daneel para seu verdadeiro plano de longo prazo, que é Galaxia. Nesta futura comunidade, a união de mentes evitará todo tipo de conflito, promovendo eterna harmonia. Este projeto precisa de, no mínimo, quinhentos anos de preparação. Nesse ínterim, a Fundação é uma forma de passar o tempo distraindo a raça humana rumo a outro propósito (ilusório) de união e prosperidade.

– No momento apropriado, Daneel secretamente preparará outro humano da mesma forma como preparou Seldon. Desta vez, Daneel preordenará circunstâncias que farão parecer que o sujeito sempre tome a decisão correta. Esse humano será levado a escolher Galaxia em detrimento da Fundação, convencendo os robôs de que essa tenha sido uma escolha espontânea de alguém que sempre acerta. Isso evitará uma nova guerra civil entre giskardianos e calvinianos, que também serão absorvidos por Galaxia.

Em Foundation’s Triumph, David Brin levou a continuidade retroativa um passo além do ponto aonde a levara o próprio Asimov. Como se pode ver dessas revelações finais, Brin introduziu a noção de que todos os eventos deste universo tenham uma causa subjacente desde os contos de robôs. Essa causa seria o caos que ressurge a cada vez que uma civilização atravessa um período de grande criatividade, interrompendo o progresso tecnológico e social em surtos espasmódicos.

Na nova e adicional continuidade retroativa de Brin, vê-se que o robô Daneel sempre lutou contra o caos desde o momento em que descobriu a Zeroésima Lei da Robótica. No permanente esforço de defender a humanidade do caos, Daneel dirigiu os humanos a formarem o Império Galáctico, sem que eles mesmos soubessem que estavam sendo guiados. Também foi Daneel que estimulou a criação da Psico-História e do Plano Seldon, para preservar a civilização após o fim do Império. Por fim, é Daneel que pretende dar início à solução definitiva para todos os problemas humanos, na forma de Galaxia.

Em Triumph, Brin acrescenta mais uma camada de complexidade ao universo asimoviano: a sucessão de eventos passa a ser vista como o reflexo visível de um conflito oculto, de uma dialética da qual a raça humana participa como executora mas não como conhecedora. A evolução da civilização humana é retratada como uma consequência deliberada de uma só mente planejadora, que enxerga todo o panorama e testemunha 20 mil anos de História.

Em síntese, Brin mostrou que havia um sentido finalístico deliberado por trás de todas as histórias escritas por Asimov e ambientadas neste universo. A raça humana, personagem dessas histórias, desconhecia essa intenção com a qual era guiada; e o próprio Autor original das histórias também a desconhecia!

Infelizmente, a Segunda Trilogia também atenta contra um dos fundamentos da obra de Asimov. Um dos personagens de Foundation and Chaos e Foundation’s Triumph é um robô que, embora seja um dos agentes secretos de Daneel, sofre um acidente que o liberta das quatro Leis da Robótica. Esse evento implica que, desde Robots and Empire, a concepção tenha sido de que as Três Leis tenham sido programadas, em lugar de fìsicamente gravadas nos robôs. É um rompimento sério em relação à concepção original de Asimov, pois as Três Leis haviam sido imaginadas de modo que fosse fìsicamente impossível um robô que não as seguisse. Já na Segunda Trilogia, os robôs obedecem às Três Leis (e à Zeroésima) da mesma forma como humanos obedecem às leis que criam: meramente por atos de vontade, decorrentes da noção de sua obrigatoriedade. As Leis da Robótica deixaram de ser tratadas como implementações orgânicas para serem meras leis jurídicas, a que os robôs obedecem por convicção racional.

O conflito entre giskardianos e calvinianos é uma das consequências dessa mudança de paradigma. Se as Três Leis estivessem implantadas fìsicamente, não haveria possibilidade de diferentes convencimentos racionais entre diferentes robôs, nem, portanto, qualquer divergência ideológica ou filosófica.

Com esse tratamento, também desmorona o único pressuposto relevante das histórias de robôs de Asimov, pois o cumprimento da Primeira Lei depende da cognição pessoal dos robôs, que assim deixam de ser inerentemente seguros. Quando os robôs ganham a capacidade de filosofar, eles deduzem novas leis que se impõem às Leis da Robótica. Com isso, “comem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal” e atentam contra o criador que impôs essas leis (a raça humana). Eis uma curiosa inversão em relação ao livro do Gênesis: é pelo pecado original cometido por dois robôs que a raça humana, sua criadora, é expulsa do paraíso na Terra.

Foundation’s Triumph chega a comparar os humanos a deuses aos olhos dos robôs, mas lembra a lição de que servos que pensam deixam de ser seguros e se tornam indignos de confiança.

***

Minha motivação para a leitura sequencial do universo de Asimov era o fascínio pela habilidade desse Autor em montar uma História unificada do futuro. Agora, já li todas as obras que o Bom Doutor situou neste universo (exceto, talvez, sete contos do computador Multivac, que fogem ao escopo deste texto). Movido pela curiosidade, até mesmo fui além, terminando quatro livros com que outros Autores davam continuidade à obra original: Foundation’s Friends e a Segunda Trilogia da Fundação.

Quanto a Foundation’s Friends, supus que fossem pequenas histórias bem humoradas para homenagear o criador deste universo, e algumas eram mesmo. Quanto à Segunda Trilogia, imaginei que fosse uma continuação ambientada em momento posterior a Foundation and Earth. Não era, mas, uma vez iniciada a leitura, eu não ia interrompê-la, e fui até o fim.

Ainda restam por ler as minisséries Robot City, Robots and Aliens, Robots in Time, e a Segunda e Terceira Séries dos Robôs. Entretanto, esses livros também foram escritos por outros Autores e, do que pude apurar, são histórias laterais, fora da linha principal contínua que vai dos contos de robôs até Foundation and Earth. Robot City e Robots and Aliens foram publicadas enquanto Asimov estava vivo, mas as demais minisséries são posteriores a 1992 e, portanto, à morte do Autor original.

(Foundation’s Triumph chega a fazer referência a um dos livros da Segunda Série dos Robôs. Quando Daneel resume as tentativas fracasssadas de fundar novas sociedades imunes ao caos, ele menciona os robôs fabricados com Leis da Robótica mais flexíveis no planeta de Isaac Asimov’s Inferno, que é parte dessa Segunda Série.)

Da mesma forma, falta ler a trilogia I, Robot, que narra o início da carreira de Susan Calvin (portanto antes de todos os outros livros), e Psychohistorical Crisis, que se passa mais de quinhentos anos após Foundation and Earth (portanto após todos os outros livros). Esses quatro livros foram publicados na década de 2010.

Ora, vê-se que não pára de crescer a quantidade de livros ambientados no universo dos robôs, Império e Fundação. Se eu me dispuser a acompanhar estas histórias enquanto forem publicadas, não conseguirei ler outra coisa. Como não é mais Asimov escrevendo, mas quinze outros Autores, não seria possível correr mais que eles, o que me põe em uma clara desvantagem. Então, chega um momento em que é preciso traçar uma linha.

Por isso, chega por ora. Os 29 livros de outros Autores entram na fila infinita dos livros que pretendo ler, e um dia hei de alcançá-los (estimo que daqui a, digamos, 13.098 livros). Se não conseguir, paciência.

EOF

Bastou trocar a grafia e a mensagem ficou clara

Em outras postagens (como esta, esta e esta), comentei os livros da Fundação, onde Isaac Asimov imaginou seu Império Galáctico. Situado 21 mil anos no futuro, o Império é constituído de 25 milhões de planetas habitados, ocupando toda a Via Láctea.

Asimov foi categórico em mais de um desses livros: em todo o Império, a única vida inteligente é a humana. Quando explorados pelos primeiros visitantes, alguns planetas tinham plantas nativas, pouquíssimos tinham pequenos animais; nenhum tinha outra espécie autoconsciente. E assim tomamos esse espaço sem disputa, e deixamos a Terra para trás, e ninguém mais lembra onde ficava nosso planeta natal, cuja própria existência é matéria de debate.

Para um Autor de ficção científica tão prolífico, Asimov escreveu muito poucas histórias envolvendo alienígenas, nenhuma passada no universo do Império. Após alguns livros, esse contraste chama a atenção do leitor. Como poderia um Autor de scifi, dono de uma imaginação tão fértil, NÃO conceber que outros planetas da Galáxia pudessem ser habitados?

A resposta quem deu foi o próprio Asimov. Ao longo de suas centenas de livros, ele sempre reconta como seu primeiro grande editor foi John Campbell. Foi nas conversas com Campbell que surgiram as oito histórias originais e geniais da Fundação.

Conforme narrado pelo Bom Doutor, todas as vezes em que ele propôs histórias com alienígenas, Campbell acolheu a ideia mas sempre fez questão de que a raça humana fosse representada como melhor e superior. Na percepção de Asimov, esse monotema estava firmado em um racismo subjacente: a superioridade da espécie humana sobre os alienígenas seria uma alegoria para uma superioridade entre raças da própria humanidade. Em razão de suas convicções, Asimov ficou bastante incomodado com o racismo de Campbell, ainda que disfarçado, e recusava-se a escrever histórias onde essas noções estivessem sequer implícitas.

Mas ele precisava da aprovação de Campbell para conseguir vender seu material. Então, sua solução foi um meio termo: na Galáxia não haveria seres inteligentes senão os humanos. Pronto; não há comparação com mais ninguém, porque não há mais ninguém.

Do ponto de vista das histórias, fica difícil justificar essa escolha. Afinal, se a vida inteligente nasceu na Terra como resultado natural da evolução após apenas 4,5 bilhões de anos, então seria igualmente provável seu surgimento em pelo menos alguns dos milhões de planetas da Galáxia. Felizmente, Asimov não se esforçou para criar alguma explicação, que sempre soaria implausível. Simplesmente manteve essa unicidade da espécie humana como um mistério, sobre o qual seus personagens especulavam.

(Na verdade existe uma história ambientada no Império, chamada Blind Alley, onde a humanidade é contraposta a uma espécie inteligente nativa de outro planeta. Por ser a única nesses termos, destaca-se bastante entre as demais histórias, sendo a exceção que confirma a regra. Por sinal, é um conto excelente, e seu verdadeiro assunto é a burocracia imperial, não os alienígenas.)

Então, chegamos ao ponto onde li 77% de Foundation’s Fear, de Gregory Benford, na continuação autorizada das histórias da Fundação por Autores pós-asimovianos. Em meu exemplar (de ISBN 978-0-06-105638-3), na página 484, encontramos o seguinte diálogo entre Hari Seldon e sua esposa Dors:

O buraco de minhoca cúbico levou-os ràpidamente a várias docas em órbita próxima em torno de planetas. Um deles Hari reconheceu como um tipo raro com uma biosfera antiga porém arruinada. Como Panucópia, ele sustentava formas de vida avançadas. Na maioria dos mundos habitáveis, os primeiros exploradores haviam encontrado tapetes de algas que nunca se desenvolveram adiante.

— Por que nenhum alienígena interessante, então? — Hari se perguntou enquanto Dors lidava com os Homens de Cinza das docas locais.

Ocasionalmente, Dors lembrava-o de que ela era, afinal de contas, uma historiadora. — A mudança de criaturas unicelulares para multicelulares levou bilhões de anos, diz a teoria. Nós simplesmente viemos de uma biosfera mais rápida, mais durona, só isso.

— Também viemos de um planeta com pelo menos uma grande lua.

— Por quê?

— Temos incorporados padrões repetitivos de 28 dias. A menstruação, por exemplo — incidentalmente diferente da dos chimpanzés. Somos projetados pela biologia. Nós tivemos sucesso, essas biosferas não tiveram. Existem muitos meios de matar um mundo. Geleiras avançando quando uma órbita se altera. Asteróides se chocando, bam-bam-bam! — Ele bateu barulhentamente na lateral da cabine. — A química da atmosfera dá errado. Ela sai do controle até o planeta se tornar uma estufa ou congelar.

— Entendi.

— Humanos são mais resistentes — e mais inteligentes — do que qualquer um. Nós estamos aqui, eles não.

— Quem disse?

— Conhecimento comum, desde que o socioteórico, Kampfbel —

— Tenho certeza de que você tem razão — ela disse ràpidamente.

Nesse diálogo, emerge aquele mesmo racismo que Asimov evitou. “Viemos de uma biosfera mais durona”, “humanos são mais resistentes e mais inteligentes”. Seria uma forma de explicar como nosso planeta evoluiu mais rápido, mas também há uma crítica aí, escondida mais fundo.

Como é o nome do teórico que explicou a prevalência da raça humana? Kampfbel?

Campbell?

Em alemão, muitas vezes, a grafia “pf” indica o som de /f/, e muitas vezes os sons de /p/ e /f/ são intercambiáveis de uma língua para outra. Em particular, várias palavras do alemão têm um /f/ onde, em inglês, têm um /p/. Assim ship (em inglês) x Schiff (em alemão); apple (no inglês) x Apfel (no alemão).

Vê-se que “Kampfbel” é apenas uma transposição do nome escocês “Campbell” para alemão, com o duplo efeito de aproximar o nome de “Kampf” (luta), como no título de Mein Kampf, o livro onde Hitler verteu o núcleo de sua ideologia nazista, fundada na racista noção de superioridade da etnia ariana, a qual teve apoio de teóricos alemães de sua época.

Essa engenhosa equiparação de Campbell a um nazista, embora possìvelmente exagerada, é um pequeno Easter egg inserido por Gregory Benford em Foundation’s Fear. Imagino que tenha sido uma forma de Benford sinalizar ao leitor a verdadeira explicação, fundada no mundo real, para uma Galáxia deserta de outras formas de vida inteligentes na ficção; ou, pelo menos, sua forma de vincular Campbell a esse estranho fenômeno na obra de Asimov.

Trata-se de uma limitação de cenário imposta por Asimov como resposta à limitação mental de seu antigo editor. Um desentendimento político entre escritor e editor tem o efeito de moldar várias obras, e as consequências acabam ressoando décadas depois, quando os personagens continuam discutindo como é possível tamanha ausência de vida inteligente, como se criticassem seu Autor pela extrema improbabilidade.

Gregory Benford e o Princípio de Lavoisier

Como já noticiei em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), prossigo no empreendimento de ler todas as histórias de Asimov ambientadas em seu universo dos robôs, do Império e da Fundação. Houve alguns desvios de rota, quando descobri que, sem querer, havia pulado algumas histórias que não conhecia e voltei para consertar essas omissões. Até agora, porém, acredito ter lido tudo em uma ordem relativamente próxima da ideal (i.e. ordem de publicação das histórias). Todos os livros que ainda restam à frente foram publicados depois dos que já ficaram para trás, que são:

  • I, Robot, de 1950 (contendo nove contos e uma história que os costura);
  • Foundation, de 1951 (contendo cinco noveletas e sendo o primeiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Foundation and Empire, de 1952 (contendo duas noveletas; segundo livro da Trilogia da Fundação);
  • Second Foundation, de 1953 (contendo duas noveletas; terceiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Pebble in the Sky, de 1950 (romance);
  • The Stars Like Dust, de 1951 (romance);
  • The Currents of Space, de 1952 (romance);
  • The Caves of Steel, de 1954 (romance);
  • The End of Eternity, de 1955 (romance);
  • The Naked Sun, de 1957 (romance);
  • The Early Asimov, de 1974 (contendo histórias que são verdadeiros rascunhos do universo dos robôs e da Fundação, mais os contos Blind Alley e Mother Earth);
  • The Rest of the Robots, de 1964 (com contos que não entraram em I, Robot);
  • Nightfall and Other Stories, de 1969 (com mais alguns contos que ficaram de fora);
  • The Bicentennial Man and Other Stories, de 1976 (com a noveleta de mesmo nome);
  • The Complete Robot, de 1984 (com os contos faltantes até aqui);
  • Foundation’s Edge, de 1982 (romance);
  • The Robots of Dawn, de 1983 (romance);
  • Robots and Empire, de 1986 (romance);
  • Foundation and Earth, de 1986 (romance);
  • Robot Dreams, de 1986 (com os contos faltantes até aqui);
  • Prelude to Foundation, de 1988 (romance);
  • Nemesis, de 1990 (romance);
  • Robot Visions, de 1990 (contos e ensaios);

e então Asimov morreu em 1992, deixando o romance Forward the Foundation, de 1993, completo porém póstumo.

Enquanto Asimov ainda vivia, em 1989, seu amigo Martin Greenberg editou uma compilação de diversos Autores intitulada Foundation’s Friends, ambientada no universo dos robôs e da Fundação. Naturalmente, tive que lê-la, já na segunda edição, de 1997, que contém obituários do Bom Doutor.

Estou agora relativamente perto do fim. Faltam três livros ambientados neste universo: Foundation’s Fear, de Gregory Benford; Foundation and Chaos, de Greg Bear; e Foundation’s Triumph, de David Brin. Essas três obras, todas posteriores ao falecimento do Grande Mestre, foram autorizadas por seu espólio e, portanto, constam das listas de obras oficiais, compondo a “Segunda Trilogia da Fundação”. Quando terminar esses três livros, abordarei alguns contos esparsos escritos por fãs, mais a história de toda essa bibliografia narrada por Johnny Pez, e darei o trabalho por encerrado.

Por ora, estou deixando de lado algumas séries de romances de outros Autores, também autorizadas por Asimov e ambientadas no mesmo universo porém, até onde pesquisei, suficientemente autônomas. São uma espécie de via acessória, um meandro para fora do rio, aproveitando elementos da história principal mas sem contribuir de volta para dentro dela nem lhe dar continuidade. Pretendo voltar a estes livros oportunamente, mas já não têm prioridade. São as séries Isaac Asimov’s Robot City, Robots and Aliens e Robot Mystery e a trilogia Caliban. Por fim, o romance não autorizado Psychohistorical Crisis, também deixado para depois.

Lembro ao Leitor que as noveletas e romances da Fundação têm como base os últimos dias de glória do Império Galáctico, que está em seu ápice no momento em que entra na história o teórico Hari Seldon. O talentoso Seldon cria um ramo da Matemática chamado Psico-História, no qual consegue descrever o comportamento de populações humanas por meio de equações. Manejando esse conhecimento, Seldon percebe que, contrariando o senso comum e as evidências imediatas, o Império já começou seu declínio e, em alguns séculos, estará fragmentado em barbárie. Os primeiros livros da Fundação narram como Seldon institui uma forma de restabelecer a civilização após o fim do Império, e os últimos dois livros da Fundação escritos pelo próprio Asimov (Prelude to Foundation e Forward the Foundation) são prequels, contando a vida de Seldon e as experiências que o levaram a formular a Psico-História.

O que me motivou a escrever hoje foram algumas descobertas que fiz ao ler Foundation’s Fear, de 1997. Este livro ambienta-se entre as partes I e II de Forward the Foundation e pretende revelar algumas experiências com que Seldon completou lacunas na modelagem da Psico-História.

Capa de Foundation's Fear

O medo é do que aconteceria com a Trilogia depois que Asimov morreu!

Até agora li 67% do livro e não estou bem impressionado. Para começar, já fiquei um pouco decepcionado quando descobri que a Segunda Trilogia não era a continuação das histórias da Fundação, pois se ambientava em momentos intermediários dentro de histórias já publicadas. Minha experiência com prequels e midquels* já não é boa, depois dos pequenos desastres de Star Trek: Enterprise e Discovery e de Star Wars Episódios I, II e III. Só que isso não seria um problema se o livro fosse bom.
* Midquel: um termo que acabei de inventar para me referir a histórias passadas no meio de outras. Você viu primeiro aqui!

Vejamos. Em determinada passagem, dois personagens coadjuvantes recuperam e incrementam arquivos de computador que são reconstruções de Voltaire e Joana d’Arc. Postas a rodar em um ambiente virtual, essas reconstruções deveriam comportar-se exatamente conforme os originais, permitindo que a plateia comparasse os pontos de vista respectivos, da Razão e da Fé. Entretanto, as duas simulações descobrem que são apenas imitações digitais, e o livro gasta dezenas de sofridas páginas descrevendo as percepções que as duas personalidades têm do ambiente do computador por dentro. Ora é como se estivessem dentro dos cenários de Tron, ora dentro de um holodeck de Jornada nas Estrelas, só que com inúmeras metáforas, subjetivismos, simbolismos, e, na maior parte do tempo, não dá para saber do que estão falando. Foi um suplício superar essas passagens, que não dizem nada e só enrolam o leitor em verborragia e cansaço. Há pouco ou nenhum propósito, e nenhum nexo, em relação ao restante do próprio livro e à obra original de Asimov. Uma perda de tempo rematada.

De repente, do nada, Benford leva Hari Seldon a tirar férias no planeta turístico Panucópia, cujos visitantes dividem seu tempo entre a beira da piscina, as festas e os safáris. Originalmente, o clima tropical de Panucópia serviu para que cientistas pesquisassem o comportamento de vários animais selvagens em seu estado natural, o que é muito raro no Império Galáctico. Com a limitação de fundos para pesquisa, os cientistas tiveram que ser criativos, construindo um hotel de luxo junto à base e cobrando por visitas guiadas à selva. O dinheiro assim arrecadado passou a financiar a continuidade dos trabalhos.

É importante entender que, na Galáxia das histórias da Fundação, há milhões de planetas habitáveis, muitos dos quais colonizados pela raça humana e compondo o Império Galáctico. Não existe vida inteligente além da humana (exceto em Blind Alley e em dois dos primeiros contos de robôs), e as poucas faunas e floras nativas foram facilmente dominadas. Na Era Galáctica (para além do século 180), a humanidade abandonou a Terra há tanto tempo que ninguém mais sabe onde ela ficava, a tal ponto que é considerada um mito, e todo o conhecimento sobre este planetinha é apenas o resultado de deduções com base em evidências praticamente inexistentes.

Então, em Fear, o chefe dos pesquisadores de Panucópia explica a Seldon que os animais do planeta não são nativos, tendo sido levados para lá por alguma expedição muitos milênios antes, tanto tempo que ninguém mais sabe como nem para quê. Supostamente seriam animais oriundos da Terra nos quais teriam sido feitos experimentos genéticos que transformaram as espécies originais. O livro refere-se a símios chamados “pans”, que, pela descrição, tenho certeza de que são chimpanzés. Refere-se, também, a “rabuínos”, o resultado de experimentos sobre outros símios (òbviamente babuínos) que os teriam transformado em uma nova espécie, carnívora, onde as mãos teriam evoluído para garras curtas e as patas traseiras teriam ganhado força para correrem. Refere-se, ainda, a “gigantílopes”, que, pela descrição, seriam paquidermes supostamente derivados dos antílopes.

Um dos serviços oferecidos por Panucópia é a imersão, criada originalmente para fins científicos mas depois estendida aos turistas. Alguns símios foram submetidos a cirurgias, com a implantação de circuitos elétricos e antenas diretamente no cérebro. Na estação de pesquisa, a cada animal fica associada uma câmara de imersão, onde um usuário se conecta e recebe sinais do sistema nervoso do animal. A imersão dá acesso imediato ao que o símio está vendo e ouvindo, a suas emoções e a toda a sua percepção subjetiva, essencialmente permitindo que o usuário viva o chimpanzé. Uma longa passagem de Foundation’s Fear narra como Seldon experimenta a imersão sucessivas vezes, estudando o comportamento dos “pans” como uma versão simplificada do comportamento humano, sem os vernizes civilizatórios que escondem as motivações animais subjacentes a nossos atos. (Aliás, neste ponto lembra muito aquele filme doido, Being John Malkovich, onde as pessoas conhecem o ator “por dentro”.)

Em toda essa passagem, os pans são ameaçados por bandos de rabuínos, e há um momento em que Benford se refere a estes predadores pelo nome científico Carnopapio grandis. Teòricamente rabuínos não existem, mas, mesmo assim, joguei esse nome no Google com a noção de obter alguma descrição precisa, alguma ilustração, quiçá até de descobrir que, na verdade, seriam babuínos, apenas com outro nome.

Foi aí que algumas revelações se descortinaram para mim.

Primeiro, descobri que os rabuínos e gigantílopes não foram inventados por Benford. Ambas as espécies constam do livro de ficção biológica After Man: a Zoology of the Future, do escocês Dougal Dixon, publicado em 1981. Dixon especula sobre espécies que poderiam surgir na Terra 50 milhões de anos após o fim da raça humana.

Até aí, tanto melhor. É sempre bacana ver a criação de um escritor sendo aproveitada por outro, que constrói uma história em cima.

Só que o Google também me mostrou que o nome Carnopapio grandis aparecia em outro livro. Immersion, de Gregory Benford, aparece na Internet Speculative Fiction Database como uma história publicada em março de 1996 e integrante da antologia Immersion and Other Short Novels, de 2002.

Capa de Foundation's Fear

Se você plagia a si mesmo, não é plágio.

Pela evidência que encontrei no Google Books, percebo que Immersion é exatamente o trecho de Foundation’s Fear ambientado em Panucópia, palavra por palavra. Houve mera troca dos nomes dos personagens, a substituição de Panucópia pela África, a dos “pans” por chimpanzés e a da Psico-História por Sócio-História, o que é muito fácil de se conseguir com a função “substituir tudo” do Word. Como o Google Books nunca mostra o conteúdo inteiro dos livros, não pude comparar as duas obras com precisão milimétrica, mas a amostra que tive foi suficiente.

Aliás, conforme lia Foundation’s Fear, percebi que as várias partes do livro são completamente desconexas umas das outras. É como se fossem obras distintas que foram reunidas dentro de um mesmo par de capas, sem uma verdadeira costura que as ligasse. Esse vício de origem fica particularmente claro quando se vê que Benford foi capaz de reaproveitar uma parte inteira do livro como uma noveleta autônoma de algum sucesso, trocando apenas os nomes dos personagens.

Na medida em que Immersion está datada de 1996 e Foundation’s Fear é de 1997, poderíamos pensar que, na verdade, a primeira obra seja a original e a segunda, seu reaproveitamento. Porém, do que li de Immersion, o personagem principal traz características de Hari Seldon. Além disso, claramente sua Sócio-História, baseada em Matemática, é a Psico-História imaginada por Asimov. Portanto, o conteúdo de Immersion já foi concebido com elementos do universo de Asimov, apenas com outros nomes. E a diferença de tempo entre os lançamentos das obras é de apenas um ano. Minha hipótese de trabalho é que esta parte de Fear tenha ficado pronta antes do resto do livro e Benford a tenha lançado antes, possìvelmente até para ter uma estimativa do sucesso que faria o romance mais longo.

Igualmente lamentável é o fato de que esta parte de Foundation’s Fear é a única que conseguiu atrair meu interesse em alguma medida. Até aqui, a maior parte do livro foi um lodaçal, onde avancei contra enorme resistência. Maçante, monótono, perdido em digressões sem ir a lugar nenhum.

As críticas que faço a Foundation’s Fear são várias e estão muito bem resumidas por esta resenha de alguém que se apresenta com o pseudônimo Stettin Palver**, que encontrei quando pesquisava para este artigo, em <http://www.scifi-review.net/foundations-fear-by-gregory-benford.html>. Traduzindo as partes mais relevantes:
** Stettin Palver é o nome de um dos personagens de Forward the Foundation.

“1. Buracos de minhoca: existe uma vasta rede de buracos de minhoca que parece ser parcialmente natural e parcialmente artificial, criada e mantida para ligar o Império. Este é um conceito completamente novo e que é acrescentado, aparentemente do nada [em contraste com o fato de que, nos livros da Fundação de Asimov, a navegação espacial é feita pelo hiperespaço, sem menção a nenhum buraco de minhoca]. Onde estavam esses buracos de minhoca no resto da série de Asimov? Benford não faz qualquer tentativa de reconciliar essa inconsistência [o que poderia fazer facilmente com a famosa técnica da continuidade retroativa]. O próprio Asimov sempre se desculpava em retrospecto após se descobrir que eram impossíveis as tecnologias ou teorias que ele integrava nas histórias, mas não vejo por que haja a necessidade de ACRESCENTAR tecnologia a uma série que já está tão bem estabelecida.

“2. Tiktoks: robôs com mentes simples são usados como mão de obra. Estes não são mencionados por Asimov neste ponto da linha de tempo [da Fundação], onde seres mecânicos são tabu. Benford salta e associa o tabu apenas à função mental e à aparência [humanoide]. Não creio que Asimov aprovasse.

“3. Sims: eu fiquei incomodado pelo arco de história das simulações de Joana d’Arc e Voltaire na primeira vez em que li este livro, e isso não mudou. Sims também são tabu na mesma categoria dos Robôs. Essencialmente 150-200 páginas são dedicadas a exposição de personagens para estas duas simulações e à questão se a vida digital está ‘viva’ ou possui uma alma. Já li resenhas que sugeriram que o romance fica muito melhor simplesmente pulando esta parte, e tenho que concordar [eu também — não contribui em nada]. Se você gosta de diálogo teológico que não tem qualquer impacto no conjunto da história, siga em frente e leia.

“4. Panucópia: esta parte tem aproximadamente cem páginas, mas creio que as ideias poderiam ter sido apresentadas muito mais concisamente. Entretanto, essas foram provàvelmente as cem páginas de texto mais rápidas de todo o romance [para mim também]. Definitivamente, Benford me manteve interessado, pois eu li essa parte inteira de uma assentada só, o que é incomum para mim, especialmente em relação a este romance.

“5. Erros: ‘Dors Vanabili’ deveria escrever-se ‘Venabili’. Se você está dando continuidade à obra de um grande mestre como Isaac Asimov, pelo menos verifique os nomes dos personagens! (…)

“6. Tudo mais: há uma nova tecnologia constantemente sendo introduzida e excessivamente explicada ao longo de todo o livro. Foi só por volta da página 30 que eu percebi isso pela primeira vez. Isso faz com que o Império pareça muito mais avançado e nem tanto em declínio assim.”

Você poderia perguntar, “então por que não pára de ler Foundation’s Fear?” A resposta está no início do texto: após 23 livros, faltando apenas três (e sei lá se os próximos dois são melhores), não vou pular esta parte da saga só porque é chata. Houve outras quase tão chatas quanto (lembro-me de Black Friar of the Flame e de dois dos três romances do Império) e, mesmo assim, prossegui. Não vai ser agora, faltando tão pouco, que vou deixar um vácuo e ficar sem saber o que aconteceu.

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Resenha: Forward the Foundation. Capítulo final (mas nem tanto)

Nesta postagem, tracei um panorama dos livros pelos quais Isaac Asimov é mais conhecido e que se passam no universo dos robôs e da Fundação.

Desde então, já li The End of Eternity e Nightfall e estou lendo Forward the Foundation. A saber:

– Em regra, The End of Eternity é tratado como um livro que não se relaciona ao universo da Fundação e do Império. No entanto, alguns textos de melhores conhecedores indicaram que havia uma ligação. Agora posso confirmar que ele faz, sim, referência a esse universo, mas podemos entender por que é costumeiramente tratado fora do conjunto. É uma história que em NADA influi na história da Fundação. Por outro lado, (1) faz referência a uma tecnologia primeiramente mencionada nos livros da Fundação (não direi qual tecnologia, mas tampouco faz diferença), e (2) a história (e as justificativas) por trás do próprio End of Eternity, que só ficam claras ao fim do livro, só fazem sentido para quem tiver lido os livros da Fundação.

– Até agora, Nightfall não parece guardar qualquer ligação com o universo da Fundação. Trata-se de uma novela desenvolvida a partir do supercelebrado e premiado conto de mesmo nome, publicado em 1941. O terço central da novela é essencialmente uma transcrição ipsis litteris do conto, apenas mudando parcialmente os nomes dos personagens. Os outros dois terços são acréscimos de Robert Silverberg. Especulo, porém, se até o fim de Forward the Foundation encontrarei ligação, ou quiçá em algum dos livros com que outros Autores deram continuidade à obra do Bom Doutor.

Forward the Foundation é uma prequel. Na cronologia dos eventos da série, encaixa-se exatamente entre a prequel anterior, Prelude to Foundation, e o próprio Foundation. Ambos são leituras necessárias para que Forward faça sentido. Aliás, mesmo antes de terminar Forward, já percebi que engatará precisamente ao início de Foundation da mesma forma como Rogue One engata ao início do Episódio IV de Star Wars.

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O que me traz aqui hoje é o reforço de uma constatação. Na abertura de Nemesis, Asimov diz que este livro não tem qualquer ligação com os livros dos Robôs ou da Fundação, embora admita que, mais tarde, se tivesse tempo, pudesse tentar vinculá-los de algum modo (como já tinha feito ao unir os contos de robôs, os romances de robôs e as histórias do Império e da Fundação). Conforme já detalhei na postagem anterior, ele termina Nemesis com uma referência bastante óbvia e um tanto indireta, onde os conhecedores poderão ver que, na verdade, a ligação já está feita; apenas não está detalhada.

Pois muito bem. Nemesis foi publicado em 1990. Não se passaram mais do que dois anos para que seu Autor reforçasse a inserção desse livro no universo da Fundação. Em Forward the Foundation, na parte 4, capítulo 5, página 327 (no meu exemplar, com ISBN 978-0-553-56507-2), o protagonista comenta:

Existe uma história curiosa, de cerca de vinte mil anos atrás e portanto datando das origens enevoadas das viagens hiperespaciais. É sobre uma jovem, com não muito mais idade do que Wanda, que conseguia se comunicar com todo um planeta, que circundava um sol chamado Nêmesis.

Na verdade, o “planeta” era uma lua, Erythro, que orbitava um planeta, e este, sim, orbitava Nêmesis. Mas não importa. Nota-se, nesse parágrafo, que Forward vem integrar Nemesis ao universo da Fundação, justamente ao tempo em que é o último livro deste universo escrito por Asimov.

A primeira interpretação que nos vem é que, tal como no caso de outras “lendas” do universo da Fundação, a história de Nemesis faz parte da continuidade e só ganhou o rótulo de lendária por causa do decurso de vários milênios. Mas considere o Leitor que vários dos elementos de Nemesis tornam este livro incompatível com o universo da Fundação, especialmente a ausência de menção a robôs e a invenção relativamente tardia da propulsão hiperespacial. Com essa perspectiva, posso admitir a ideia de que, dentro do universo da Fundação, Nemesis tenha sido realmente uma história de ficção, não uma história real transformada em lenda.

Mas admitamos que Nemesis faça parte do universo da Fundação, já que essa parece ter sido a sutil intenção do Autor, que certamente se divertiu com a perspectiva de que seus Leitores a perceberiam. Há inconsistências, mas são até esperadas, pois o próprio Asimov sempre se confessou preguiçoso em ficar perseguindo continuidades absolutas entre seus livros. Nem se poderia esperar outro resultado, considerando que os escritores mudam com o tempo e que é muito difícil respeitar continuidades em universos construídos ao longo de anos (vejam os casos da Terra Média de Tolkien, dos quadrinhos da DC e da Marvel, de Star Trek, e até mesmo de Babylon 5, que foi desenvolvida ao longo de um intervalo bem mais curto do que os desses exemplos).

Infelizmente, e justamente por causa dessa virtude de se conectar a livros anteriores, Forward the Foundation padece de uma síndrome: o Autor estava jogando para a galera. Nisso ele foi até explícito, pois a dedicatória do livro diz que é para todos os seus leitores leais. Em inglês, o nome disso é fan service. Trata-se do mesmo mal que acomete produções criadas depois que já existem legiões de fãs de uma original, como é o lamentável caso de Star Trek: Discovery. #faleiesaícorrendo

Explico-me. Nos anos 1940, Asimov foi inovador, genial e vigoroso ao imaginar um pujante Império Galáctico. No primeiro livro da Fundação, o visionário Hari Seldon fazia uso de indecifráveis abstrações matemáticas para prever que, contrariando todas as aparências e o bom senso do cidadão comum, o Império estava em decadência, rumando para uma inevitável extinção em cerca de trezentos anos. À volta dos personagens, tudo parecia indicar a continuidade do progresso dos milênios antecedentes, sem qualquer evidência de que o Império pudesse um dia rumar para o fim. Os sinais da queda sòmente podiam ser detectados nos fenômenos socioeconômicos de larga escala e com ferramentas avançadas de análise. Essa era a genialidade inovadora que Asimov somou à inspiração que lhe viera do Declínio e queda do Império Romano.

Assim é que Fundação começa sob a óptica de um cidadão das províncias visitando Trantor, o planeta-capital, e deslumbrando-se, olhos arregalados a maravilhas oriundas de todos os cantos da Galáxia, a uma atividade frenética e incessante de ruas lotadas, cores, luzes e a uma azáfama onde é fácil se perder. Ao longo desse livro, dos dois seguintes da trilogia (Foundation and Empire, Second Foundation) e dos dois romances ambientados subsequentemente (Foundation’s Edge, Foundation and Earth), o Leitor tem o privilégio de acompanhar panoramicamente a contração, a perda de controle e a Queda do Império, seguidas pelo ingresso de seus planetas na mesma escuridão milenar em que caiu a Europa ao fim do Império Romano. Perde-se o antigo conhecimento e todas as maravilhas retraem ao status de lendas. Mas eu reforço: na pioneira e histórica inauguração do primeiro livro da Fundação, os contemporâneos de Hari Seldon, especialmente os habitantes de Trantor, não tinham como perceber qualquer evidência da já iniciada decadência.

Já em Forward the Foundation, de 1993, presume-se que o Leitor já conheça todas as histórias publicadas anteriormente e portanto já saiba o destino do Império. Nesta prequel, o Leitor acompanha a vida de Hari Seldon a desenvolver a Psico-História enquanto é cercado de graves eventos políticos em Trantor. As cinco partes do livro retratam diferentes momentos da vida do matemático, separados um do outro por dez anos cada, e ao Leitor são reveladas a melancolia e a impotência de Seldon à medida que sinais óbvios se acumulam de que o Império já não consegue se sustentar. A dissipação e a insuficiência de recursos, o decaimento das instalações, o esvaziamento das ruas e das instituições, a rebeldia das províncias, tudo são evidências cumulativas, e os outros personagens gradualmente são forçados a concordar com a inevitabilidade do fim.

Mas justamente esse é ponto! Certamente, para o Bom Doutor, a lembrança que ele tinha, e a percepção que ele sabia que seus leitores teriam, era de que o Império estivesse em colapso ao tempo de Hari Seldon. Ao escrever Forward the Foundation, Asimov sabe que o Leitor tem seu próprio conhecimento privilegiado de que o Império está em crise, e então apresenta ao Leitor um cenário que confirma esse conhecimento, construído pelos livros anteriores. Só que é através dos olhos dos personagens que ele descreve um tal cenário. O Autor parece esquecer-se de que, na concepção original, os personagens não teriam sido capazes de perceber a decadência, nem muito menos deveriam ser capazes agora, em uma prequel. Por isso digo que, trazendo alegria e conforto ao Leitor ao confirmar seu antigo conhecimento, Asimov está jogando para a galera e, com isso, desrespeitando as ideias que ele mesmo havia construído.

Infelizmente, e decerto por causa dessa revisita a antigos conceitos, Forward the Foundation deixa de ter o vigor inovador dos primeiros livros. Em vez disso, parece atender ao desejo de quem espera ler mais do mesmo na longa fileira de títulos iniciada meio século antes.

Forward também enfatiza o envelhecimento de Hari Seldon. Em um período de cinquenta anos, o matemático vai gradualmente perdendo seus entes queridos, sua saúde e suas esperanças. Consequentemente, seu humor torna-se mais resmungão e mais impaciente, suas alegrias escasseiam, e vão crescendo seus sensos de urgência e de desamparo diante da crescente noção de que não conseguirá completar sua obra magistral, perdendo-se o esforço de décadas. Tenho certeza de que essa descrição é um intencional espelho dos sentimentos do próprio Asimov, que já contava 72 anos quando escreveu este último romance.

Até agora, só li 84% de Forward, mas desde o início já me vinha o sentimento de estar me aproximando do fim de uma jornada, pois foi a última visita que Asimov fez a seu tão longamente elaborado universo da Fundação — e todavia ainda com tanto, virtualmente infinito espaço para crescimento. Prova disso é que, após esta obra póstuma, ainda viriam outros quatro títulos autorizados para lhe dar continuidade sob a pena de outros escritores notáveis: Foundation’s Friends, Foundation’s Fear, Foundation and Chaos e Foundation’s Triumph. Serão os próximos na minha fila.

Além desses, há ainda mais numerosos romances não autorizados, ambientados no mesmo universo, como os da série Robot Mystery (quatro até agora), a Segunda Série dos Robôs, de Roger MacBride Allen, e romances isolados como Psychohistorical Crisis, de Donald Kingsbury.

… Aos quais chegarei no devido tempo. Por hoje, é o que eu tinha a comentar. :-)

Às vezes a gente se engana

Estava assistindo ao episódio de Star Trek: the Next Generation intitulado “Emergence”, onde o computador da Enterprise adquire uma forma rudimentar de autoconsciência. Nas palavras (traduzidas por mim) do dicionário Merriam-Webster, “emergence” é “o ato de se tornar conhecido ou visível”, ou “a condição de recém-formado ou recém-proeminente”. O título do episódio traz a ideia da inteligência do computador emergindo de um mar de dados até então desconexos e fazendo-se conhecer, que é justamente o que acontece na história. Essa palavra está ligada ao verbo “emergir”, então poderia se traduzir talvez como “emersão”, mas certamente não com o nome que ganhou no Brasil, “Emergência” — pois essa palavra seria a tradução de “emergency”, que é outra coisa.

… Mas, voltando, estava assistindo ao episódio, e há uma cena onde Data fica segurando um táxi pelo pára-choque.star_trek_the_next_generation_1987_2811_medium

Não se consegue ler o primeiro caracter da placa, mas os caracteres legíveis são “20638”.

Vejamos. 6-38 remete a junho de 1938. Sabe qual foi a famosa edição publicada com data de junho de 1938?
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Então, sendo fã de quadrinhos, é claro que, de imediato, eu pensei que essa fosse uma referência. O modelo de carro é certamente semelhante.

Só que, pesquisando melhor, fui ver que a data de publicação de Action Comics #1 não foi em 20 de junho, nem na semana de 20 de junho (o que também é relevante, pois o que se costuma usar como referência é a segunda-feira da mesma semana, e não o próprio dia). Também descobri aquela letra H na frente e para ela não encontrei explicação.

A conclusão imediata é que provàvelmente se tratava de mera coincidência. Outra conclusão, de âmbito mais amplo, é que não é pra ficar vendo referências que não estão lá, feito aqueles devotos que veem a face de Jesus Cristo em qualquer fatia de pão torrado.

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O Bom Doutor, esse espertinho

Já por algumas vezes tentei escrever meu texto definitivo sobre o universo comum onde se passam inúmeras das histórias do futuro de Isaac Asimov. Terminei alguns textos parciais, que você encontra neste mesmo belogue. Agora, acho que saiu o texto que eu tanto queria. Não é definitivo, porque ainda não acabei de ler todos os livros do dito universo, mas já transmite a visão global que eu vinha buscando há um tempo.

O prolífico escritor americano Isaac Asimov (Petrovichi, Rússia, 1920 – Nova Iorque, 1992) publicou algumas centenas de livros. A maioria são de divulgação científica, mas os livros que o tornaram mais famoso foram os de ficção científica, em particular os contos de robôs positrônicos, aos quais o Autor ficou para sempre associado.

Nem todas as obras de ficção científica de Asimov tratam de robôs. O Bom Doutor publicou vários contos e romances, muitos dos quais são independentes, completamente desconectados de qualquer outra obra. Entetanto, muitos outros (perfazendo cerca de três dezenas de livros) são ambientados em um mesmo universo, a que os textos especializados se referem como o universo dos Robôs, Império e Fundação. Trata-se de uma extensa obra já revirada e analisada por uma multidão de leitores fiéis, que descreve o futuro da humanidade ao longo de milênios e que trouxe a Asimov reconhecimento como um dos maiores Autores de ficção científica até hoje. Nestes livros, os longos diálogos entre os personagens são o veículo para aquilo que mais tarde se convencionou chamar de world-building: extensas descrições da História, Geografia e sociedade do futuro, em uma visão grandiosa onde mais importante é o cenário do que as histórias.

Estes livros foram publicados ao longo de cinco décadas, na ordem em que ao Autor veio a vontade de escrevê-los: uma ordem bem diferente daquela em que se passam seus eventos. Então, existem pelo menos duas formas de se ler esta criação: a ordem histórica de publicação (à qual sempre dou preferência, tal como faço com quadrinhos, J.R.R. Tolkien, Jornada nas Estrelas e Babylon 5) e a ordem cronológica em que os eventos transcorrem no universo criado pelo Autor. As duas ordens estão minuciosamente analisadas em numerosos saites na Web. Para seguir a ordem histórica de publicação, pode-se procurar o artigo na Wikipedia, assim como numerosas fontes online; para seguir a ordem cronológica dos eventos, pode-se procurar a Lista de Ficção Insanamente Completa de Johnny Pez. Para uma história que explica como surgiu e evoluiu esta grande obra espalhada em vários livros, clique na Parte 1 da História das Histórias de Robôs Positrônicos e da Fundação.

Daqui para baixo, SPOILERS. Você foi avisado.

De 1939 até 1982, Asimov criou três universos narrativos sem conexão entre si:

1) Os contos de robôs, ambientados no Sistema Solar no século 21. A colonização dos planetas é auxiliada pela mão de obra dos robôs positrônicos, que são proibidos na Terra mas largamente empregados no espaço. Um número significativo destas histórias é protagonizado pela Robopsicóloga Susan Calvin; algumas, de fundo mais cômico, pelos especialistas Powell e Donovan. A maioria das histórias explora as consequências das Três Leis da Robótica, uma criação de Asimov que caracteriza seus robôs como máquinas úteis à raça humana, evitando o Complexo de Frankenstein. A maior parte destes contos estão agrupados nas coletâneas I, Robot (o mais famoso de todos os livros de Asimov, de 1950), The Rest of the Robots (1964), The Bicentennial Man and Other Stories (1976), Robot Dreams (1986), Robot Visions (1990) e na que reúne os dois primeiros, The Complete Robot (1982), embora alguns contos desses livros não façam parte do universo dos contos de robôs, por não serem compatíveis com as Três Leis.

2) Os romances de robôs, ambientados alguns milênios em nosso futuro. Fazendo uso da tecnologia hiperespacial, a humanidade alcançou cinquenta planetas em sistemas estelares próximos e neles fundou colônias, cujos habitantes são denominados Spacers. As colônias têm baixíssima densidade populacional, enquanto a Terra, superpovoada, é vista por elas como um planeta atrasado, doente e decadente. Enquanto a Terra continua a rejeitar a presença de robôs, as colônias fazem extenso uso deles como sua principal mão de obra. Isso as torna tão economicamente eficientes que a vida dos Spacers é um paraíso hedonista, onde ninguém precisa trabalhar e todos são mais saudáveis e longevos do que seus contemporâneos terráqueos. Essa dicotomia provoca hostilidade entre os dois grupos de humanos, terráqueos de um lado e Spacers do outro, os últimos vendo-se como um novo passo da evolução e os primeiros percebendo-os como elitistas esnobes. Oriundo de Nova Iorque, o Detetive Elijah Baley investiga homicídios na Terra e nas colônias com seu parceiro improvável, o andróide R. Daneel Olivaw, e os dois tornam-se grandes amigos. As obras são os romances The Caves of Steel (1954), ambientado em Nova Iorque, e The Naked Sun (1957), ambientado na quinquagésima colônia, Solaria, mais o conto Mirror Image (1972). Ainda, o conto Mother Earth (1949) passa-se alguns séculos antes dos romances e não faz uso dos mesmos personagens, mas integra o mesmo conjunto.

3A) Os romances do Império, ambientados alguns milênios depois dos romances de robôs. A humanidade espalhou-se e colonizou toda a Galáxia. Dos inúmeros planetas ocupados, Trantor expandiu sua influência a ponto de se tornar a capital de um crescente império, cujo tamanho é diferente de um para outro livro. A Terra é um planeta radioativo, visto como a escória decadente da Galáxia (ou até esquecido, dependendo da época). Os romances são os fracos Pebble in the Sky (de 1950, sendo o mais conhecido e menos ruim deste conjunto), The Stars, Like Dust (1951) e The Currents of Space (1952). Não há robôs nestas histórias.

3B) A Trilogia da Fundação. Trata-se de oito noveletas publicadas isoladamente de 1942 a 1950 e posteriormente agrupadas em três livros, junto com uma nona e tardia história. Entre os admiradores do escritor, esta trilogia é considerada sua obra-prima, tendo sido fortemente inspirada pela leitura do clássico Declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon. As noveletas mostram os dias finais do Império, ainda sediado em Trantor e, a esta altura, existente já há 12.000 anos. O Império estende-se por todos os milhões de mundos habitados por humanos nesta Galáxia, cada um com sua variada cultura, totalizando quatrilhões de súditos. Sua eclética capital, toda coberta de edifícios, representa a epítome da burocracia, para ela afluindo representantes dos mais variados cantos da Galáxia. (Costumo dizer que Londres, capital de um império onde o Sol não se punha, é a mais próxima imagem que hoje temos de Trantor. Imagino que, em Star Wars Episódio I, George Lucas tenha criado Coruscant à imagem daquele planeta-cidade.) Nesse contexto, o cientista Hari Seldon cria um novo ramo da Matemática ao qual batiza de Psico-história. Nesta ciência, as equações formuladas por Seldon permitem deduzir as tendências comportamentais de grandes populações com base em leis sociológicas e probabilidades e, com isso, essencialmente prever o futuro com suficiente e assustadora precisão; quanto maior a amostra, mais acuradas são as previsões. Esse conhecimento avançado permite a Seldon descobrir que o Império já está decadente e cairá em poucos séculos. Da mesma forma, para se atingir determinado resultado a longo prazo, as previsões da Psico-história permitem identificar quais são as ações eficazes. Assim, para preservar o conhecimento de milênios e abreviar a iminente idade das trevas, Seldon calcula que o melhor a fazer é instituir a Fundação, uma nova organização que sucederá o Império em meio a guerras e outros conflitos planetários. A Trilogia narra os desdobramentos da criação da Fundação e do Plano de Seldon ao longo dos séculos subsequentes, sendo constituída pelos livros Foundation (de 1951, abrangendo quatro histórias mais uma que se passa antes das demais mas que foi escrita por último, especialmente para este livro), Foundation and Empire (de 1952, com as duas seguintes histórias originais) e Second Foundation (de 1953, com as últimas duas histórias originais). Não se veem robôs em qualquer um desses livros.

Em algumas destas histórias do Império e da Fundação, fica implícito e, noutras, explícito que a raça humana é a única espécie inteligente em toda a Galáxia. Com isso, Asimov pôde concentrar-se em descrever sòmente conflitos envolvendo a própria raça humana, sem preocupações com alienígenas. (Havia uma motivação editorial antirracista por trás disso, explicada por ele mesmo em The Early Asimov (1972), que não vem ao caso agora.) Como, porém, o Autor nunca se preocupou muito com coesão ou consistência, existem alguns contos de robôs, e outros tantos que mencionam planetas do Império Galáctico, onde se dá o confronto entre a humanidade e outras civilizações. Pode-se considerar que estas histórias estejam fora do conjunto das demais apesar de conterem elementos que lhes são comuns. São elas Victory Unintentional (de 1942, continuação de Not Final!, de 1941) e Black Friar of the Flame (de 1942, fazendo referência a Trantor e a outros planetas do Império). Uma outra, Blind Alley (1945), também envolve alienígenas, mas, mesmo assim, é compatível com os romances do Império.

As obras dos três conjuntos acima ambientavam-se em épocas tão distintas que seu tratamento era absolutamente independente. Essencialmente, Asimov exercitava-se em três universos desconectados, um no futuro próximo, outro no futuro distante e um terceiro no futuro bem remoto, sem nenhuma intenção, plano ou esforço de reuni-los. Esse comportamento mudou nos anos 80, quando o Autor começou uma grande unificação dos três universos ficcionais, fundindo-os em um só. Ao longo daquela década, os novos trabalhos passaram a incluir referências bastante ostensivas aos elementos de histórias já conhecidas, costurando os diferentes retalhos em um tecido único.

A tarefa começou em The Robots of Dawn (1983), que é mais um romance de robôs com Baley e Daneel. Ambientado em Aurora, a primeira das Cinquenta colônias, The Robots of Dawn faz referências a eventos dos contos de robôs como parte de um passado já distante, ao mesmo tempo em que um de seus personagens especula sobre um futuro onde seja possível prever o comportamento da civilização com alguma espécie de “Psico-história”.

Nesse ponto, havia uma incompatibilidade entre os períodos históricos dos universos dos robôs e da Fundação. Se a humanidade já entregara à tecnologia robótica todo o trabalho braçal nos romances de robôs, como se explicaria que, milênios depois, não houvesse um só robô nas histórias de Império e Fundação?

A resposta veio do romance de robôs seguinte, ambientado alguns séculos após The Robots of Dawn, com o título de Robots and Empire (1985). Aqui, aprende-se que, conforme fôra previsto em The Robots of Dawn, os Cinquenta Mundos estagnaram e suas culturas começaram a definhar em razão do uso indiscriminado de robôs, que tirou todo o desafio da vida colonial. Ainda no intervalo entre um e outro livro, iniciou-se uma segunda onda de colonização do espaço a partir da Terra, sem o auxílio de robôs. Os mundos da segunda colonização começaram a disputar espaço político com os primeiros, mas seu vigor tende a prevalecer. Ao fim, inicia-se um processo onde a Terra se torna gradualmente radioativa, motivando a emigração e o paulatino abandono pela humanidade, e as colônias da segunda onda estabelecem as bases de um futuro Império Galáctico sem robôs, com o concomitante desvanecimento das Cinquenta colônias originais. Fica explicada a origem da radioatividade da Terra e do esquecimento do planeta original da humanidade nos livros do Império e da Fundação.

Nesse meio tempo, Asimov publicou um romance continuando a Trilogia da Fundação, com o nome de Foundation’s Edge (1982). Após esse livro, assim como havia começado a estender para o futuro os romances de robôs de modo a conectá-los às histórias do Império e da Fundação, da mesma forma ele passou a estender-se também a partir da extremidade oposta, contando, em retrospectiva, como os Cinquenta Mundos haviam dado lugar ao Império. Assim, em Foundation and Earth (1986), continuação de Foundation’s Edge, os protagonistas partem em busca da Terra, agora já um planeta mítico, de cuja existência muitos duvidam. No processo, encontram restos de algumas das já abandonadas Cinquenta primeiras colônias, deparam-se com Daneel (ainda operacional após tanto tempo) e descobrem que ele foi o grande mentor, tanto da formação do Império como da posterior Fundação. Com Foundation’s Edge e Foundation and Earth, passa a haver uma Série da Fundação, para além da Trilogia original.

Pouco depois (1988), Asimov publicou a prequel Prelude to Foundation, que relata um momento da juventude de Hari Seldon, pouco após o matemático inventar o conceito de Psico-história. Em uma das passagens, descobre-se que o setor mais tradicionalista de Trantor é ocupado por descendentes dos habitantes de Aurora, em uma cultura que reverencia o passado perdido, em que eram mestres de robôs. Ao fim do livro, Seldon descobre que ainda existem alguns robôs, disfarçados entre os humanos, um dos quais é Daneel, que continua a influenciar vigorosamente a evolução da humanidade.

É inevitável que, ao longo de cinquenta anos de publicações e sendo tão numerosas as histórias, existam inúmeras inconsistências dentro desta majestosa obra. Apesar de ser um só Autor por trás de todos os livros, Asimov sempre se confessou indisposto ao esforço de compatibilizar novas histórias com as velhas, preferindo concentrar-se na diversão criativa e, por vezes, estabelecendo o que se costuma chamar de continuidade retroativa (quando novas obras essencialmente reescrevem o passado, substituindo o conhecimento dos eventos que o leitor tinha a partir de histórias mais antigas).

Eu só escrevi todo este resumo porque queria comentar o romance que terminei na semana passada, Nemesis, de 1989. Este foi o primeiro romance de Asimov que se pretendeu autônomo em sua obra desde 1972, com uma história original não relacionada às de robôs ou da Fundação. Ambientado no século 23, ele conta como a primeira colônia orbital sai do Sistema Solar e, em uma longa viagem, vai acercar-se de uma estrela anã vermelha descoberta a apenas dois anos-luz do Sol. Ao longo do livro, os personagens inventam a tecnologia hiperespacial, que permite viagens instantâneas entre localidades situadas a anos-luz uma da outra.

Na Nota do Autor ao início de Nemesis, Asimov diz (e traduzo livremente do original, pois não tenho à mão um exemplar da edição da Nova Fronteira) que “este livro não é parte da Série da Fundação, da Série dos Robôs, nem da Série do Império. Ele se sustenta independentemente. Apenas pensei em alertar o Leitor para evitar uma apreensão mal dirigida. É claro, posso um dia escrever outro romance ligando este aos demais, mas, por outro lado, pode ser que não. Afinal, por quanto tempo conseguirei chicotear minha mente para fazer funcionarem estas complexidades da História do futuro?”

Essa passagem é intencionalmente ambivalente. De um lado, Asimov liberava-se para escrever uma obra original, sem compromisso com o universo estabelecido entre robôs e Fundação. Por outro lado, nota-se a intenção, ainda embrionária, de inserir o livro no conjunto da obra maior.

No entanto, olha só o discurso de uma personagem que se encontra a duas páginas do fim do livro: “no fim, talvez a Galáxia venha a ter dois tipos de mundos, mundos de terráqueos e mundos de mais eficientes pioneiros, os verdadeiros Spacers. Eu me pergunto como isso se resolveria. Certamente significaria que o futuro estaria com eles. Em certa medida, eu lamento isso”. Nas duas últimas páginas, outro personagem “sabia que a humanidade correria de estrela para estrela tão facilmente como tinha corrido de continente para continente (…). A mesma anarquia, a mesma degeneração, a mesma mentalidade inconsequente de curto prazo, todas as mesmas disparidades culturais e sociais continuariam a prevalecer — por toda a Galáxia. O que haveria agora? Impérios galácticos? Todos os pecados e tolices graduados de um mundo para milhões? (…) Quem conseguiria enxergar sentido em uma Galáxia, quando ninguém conseguira enxergar sentido em um único mundo? Quem aprenderia a ler as tendências e prever o futuro em uma Galáxia inteira fervilhando de humanidade?”

Quando cheguei a esse trecho, imediatamente percebi o propósito do Bom Doutor. Era quase uma pilantragem: embora ele não assumisse qualquer compromisso de tornar Nemesis compatível com os livros anteriores, desobrigando-se de eliminar inconsistências e de conectar uma história às outras, estava claro que se referia ao período histórico dos romances de robôs, ao Império Galáctico e à Psico-história. Certamente é por causa dessas duas passagens que os pesquisadores situam Nemesis como “tangencialmente” situado no universo da Fundação.

Mais recentemente, descobri que o clássico The End of Eternity, de 1955, também “tangencia” a Série da Fundação. Considerando o ano de publicação, decerto o Autor terá feito isso de forma menos deliberada. Ainda assim, creio que terei que lê-lo prioritàriamente, antes de passar aos últimos livros: Forward the Foundation (1993) e, da pena de outros Autores, Foundation’s Friends (1989), Foundation’s Fear (1997), Foundation and Chaos (1998) e Foundation’s Triumph (1999).

Antes de fechar, quero apenas observar que todos esses livros (até onde sei) foram publicados no Brasil, vários em traduções castiças pela editora Hemus (nos áureos tempos), outros tantos pela Record. Nos últimos três ou quatro anos, os romances de robôs e do Império e os sete livros da Fundação têm saído em novas traduções pela editora Aleph, que parece ressurgida das cinzas com várias traduções de clássicos, não sòmente de Isaac Asimov mas também de Arthur Clarke, Philip Dick e outros veneráveis mestres. A meus estimados Leitores que porventura tenham tido a paciência de chegar até aqui, recomendo embarcar nessa viagem, que, até agora, já me tomou belos oito anos de leituras e há de tomar ainda mais alguns.

ATUALIZAÇÃO EM 4 DE MARÇO DE 2018:
Já li The End of Eternity e estou lendo Forward the Foundation. Veja como é que o primeiro se integra ao universo da Fundação e como foi que afinal Asimov conectou Nemesis a esse universo, clicando aqui.

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Se você é fã de exploração espacial, vai adorar Perdido em Marte

ATÉ QUE ENFIM! UM FILME DECENTE PRA NERDS!

Olha só: esta resenha não é spoiler-free. Eu já tinha uma vaga ideia do que acontecia no filme, então farei o mesmo com você se não viu, e talvez seja pior, então esteja avisado.

Perdido em Marte não tem romancinho. Isto aqui é Ridley Scott! Por acaso Alien tem romancinho? Blade Runner tem romancinho? Prometheus tem romancinho? Então! Se você vai ver Perdido em Marte esperando romancinho, pode tirar o foguetinho de órbita (e não o cavalinho da chuva, porque em Marte não chove). Não tem namoradinha chorosa torcendo pela volta do herói. Nada de “o amor é a única grandeza que transcende as cinco dimensões”. Nada disso! Onde Interestelar errou, Perdido em Marte mostra a Ciência como salvação.

Acima de tudo, o filme tem esta mensagem, que há anos espero ver: a solução está na CIÊNCIA. Na persistência do cientista que poderia escolher sentar e chorar sua sorte até morrer, mas prefere usar o cérebro, usar seu conhecimento, anos de estudo e dedicação, pôr tudo isso à máxima prova e salvar a própria vida. Você vê que Watney sobrevive com base em conhecimento básico sobre o crescimento de plantas, sobre Química, sobre fontes de energia. Minha frase favorita no filme é a mesma do grande Astrônomo Neil deGrasse Tyson: “I’m going to have to science the shit out of this”.

Reparem que ele usa instrumentos básicos, como COMPASSO, hackeia o sistema operacional não-Windows direto em linguagem de máquina, e aproveita o combustível não usado para fabricar água, tudo isso porque sabe os fundamentos. Quando precisa de um método de comunicação simples (por causa da pouca largura de banda), ele recorre a código ASCII com conversão hexadecimal. Quando os astronautas enterram a fonte de radioatividade, ele não se torna supersticioso “oh, plutônio é perigoso, não quero chegar nem perto, é proibido mexer porque o dogma da NASA me proibiu”, não! Ele sabe POR QUE é perigoso, ele pondera o risco, ele escolhe recuperar o plutônio.

(Aliás: no meio de tempestades e ventos que derrubam o módulo e arrancam a antena, a bandeirinha amarela de alerta do plutônio ficou em pé direitinho? Tem que explicar melhor isso aí.)

Mas não é só conhecimento científico básico. Fica evidente que Watney, como qualquer astronauta, sabe de cabeça inúmeros detalhes da missão, detalhes que ele decorou de tanto rever, treinar, rever, treinar, rever, treinar e rever de novo. Ele sabe as localizações do Pathfinder e da Ares 4 embora não fosse necessário saber isso para sua missão, e por quê? Porque é um autodidata, um entusiasta, que deve ter devorado tudo que já foi escrito sobre as missões passadas, e vive e respira isso porque é isso que adora. Ele se salvou porque é um nerd! Também se salvou porque, como todo astronauta, ele não entra em pânico: foi treinado para sobreviver, para usar seu cérebro da melhor forma possível, recorrendo a milênios de aprendizado da raça humana e concertando uma interdisciplinaridade que mostra capacidade de planejar e executar. Por exemplo: quando se vê sòzinho, qual é a primeira medida? Primeiros socorros (alô, treinamento). Qual é a segunda? Avaliar a situação, avaliar os requisitos de nutrição, contar a comida, como fazê-la durar, em quanto tempo terá que ter uma plantação, de qual tamanho. Contas, planejamento, e o cuidado de não desperdiçar nenhum recurso. Repare que, depois que ele vai embora sem intenção de voltar, nem por isso destrói qualquer coisa, e ainda fecha a comporta pressurizada atrás de si. Podia ter que voltar, né! Alguém ainda pode precisar no futuro!

É claro que, sendo este o mesmo Ridley Scott que fez Alien e Prometheus, não poderia faltar a autocirurgia a sangue frio. Na extremidade oposta do filme, também vemos o resultado de dois anos de racionamento, uma gravidade menor do que a da Terra e uma dieta paupérrima em proteína (já que Watney só plantou batatas, não vacas): seja por CGI, seja por esforço de Matt Damon, Watney está magro feito Christian Bale em O Operário.

O filme também faz boa homenagem a toda a História do programa espacial. Num momento de humor (para nerds), “nada de ruim adveio de se queimar hidrogênio”. Você logo pensa em todos os acidentes desde o Hindenburg (embora não tenha sido o hidrogênio que causou o desastre) e lembra qual é o principal combustível dos foguetes… No teto do JPL, um modelo da cápsula Mercury. No gabinete do diretor da NASA, um dos mais célebres quadros de Chesley Bonestell, Saturno visto de Titã.

E, com tanta coisa para se gostar, com todo o ritmo que não pára de nos trazer ideias o filme inteiro e não dá descanso, com tantas paisagens marcianas belíssimas que eu não sei de onde tiraram, a cena que mais me emocionou começa quando Watney encontra o pára-quedas da Pathfinder — porque aí eu sabia o que estava para vir — e tem seu clímax quando ele começa a desenterrar o Sojourner. Fiquei emocionado porque, no ato, lembrei-me deste melancólico quadrinho e pensei “tantos anos depois de morto, o robozinho vai servir novamente”. Certamente é tudo de que ele gostaria.

Eu li no Tuíter uma galera achando o filme “chato”. Claro! É gente que não é fã de Ciência, que não entendeu nada do que se passava, que nada sabe de Química, ou de Botânica, ou do frio ou da atmosfera de Marte, ou de Física, ou do retardo ou da dificuldade de comunicação, ou da tragédia que é acelerar uma nave para o estilingue em volta de Marte sem ter como freá-la justo na hora do resgate. O filme não tem explosões (OK, tem quatro que eu me lembre, e três são intencionais), não tem correria, não tem vilão maligno, não tem tiros, não tem violência, então, para eles, “não acontece nada, o filme é parado e chato”. Para quem aprecia Ciência, o filme é movimentado, com uma sucessão de problemas e soluções que atiça a curiosidade. Como não é seu blockbuster habitual para deixar o cérebro na porta do cinema enquanto come pipoca, algumas pessoas se decepcionarão. Mas é bem feito.

E olha que isso é ainda considerando que o Ridley Scott acelerou o tempo. Você vê meses inteiros sendo pulados, porque nada de novo estaria acontecendo. Você vê a comunicação Watney-NASA parecendo ser em tempo real, embora haja um retardo de vários minutos entre emissão e recepção de cada mensagem. E até nisto o tratamento do filme foi cientìficamente correto: eles enfatizam que há essa demora, e aliás o tempo varia de um momento para outro do filme, porque as órbitas podem aproximar e afastar Terra e Marte.

Você nem pode reclamar que o filme seja tão difícil de entender. Quando Rich Purnell propõe a aceleração no perigeu da Ares III, ele está explicando mecânica orbital básica para quem não é nerd. É claro que seus interlocutores no filme não têm a menor necessidade da simplificação simbólica que ele faz, com grampeador e caneta, porque conhecem toda a Física por trás. Aquilo ali foi para benefício do público. Quer ver outro detalhe que você pode não ter percebido? Mesmo ao meio-dia, Marte tem dias mais escuros do que os da Terra. Claro: está 50% mais distante do Sol.

Mesmo assim, eles não ficam martelando Ciência tanto quanto poderiam. Por exemplo: não ficaram explicando por que os astronautas da Ares III Hermes flutuam em “gravidade zero” quando estão no eixo principal da nave nem como conseguem simular gravidade quando ocupam a roda. Tampouco o filme explicou por que eles não precisam descer manualmente os degraus do eixo para a roda, bastando deixar que a “força centrífuga” (com todas as aspas) faça o trabalho. Foi até engraçado no cinema: a Senhora Atoz começou a me perguntar como eles podiam ficar em pé ou sentados (já que é “gravidade zero”), mas aí reparou na rotação da roda e se calou no meio da frase.

É claro que o filme tem momentos previsíveis. Quando a sonda com suprimentos é lançada, o pessoal começa a comemorar, mas, na vida real, a comemoração costuma vir DEPOIS que a queima acabou. Quem acompanha os lançamentos na vida real, desde o tempo do Sputnik I, sabe que MUITA coisa pode dar errado e frequentemente dá. Quantos foguetes explodem na plataforma? Quantos vídeos já não vimos de foguetes saindo do rumo e sendo destruídos remotamente? Por causa de um ridículo anel de vedação congelado, a Challenger se desfez com todomundo dentro! Então, à medida em que vi o foguete subindo, fiquei pensando “e se explodisse agora? Bem plausível explodir agora”. A Senhora Atoz comentou depois do filme: “óbvio que ia explodir. Tem que ter o drama, estava fácil demais, estava tudo dando certo. Tem que ter um evento que limite as alternativas e faça a tripulação ter que dar a volta”.

Da mesma forma, para quem pega as letras das músicas, a trilha sonora faz todo o sentido. I Will Survive é bem óbvia, mas a gente também ouve Hot Stuff diante do isótopo radioativo (no jargão de quem lida com radioatividade, “quente” significa “emissor de radiação”) e “there’s a starman waiting in the stars” quando a Ares III Hermes completa a manobra para retornar a Marte. A gente ouve Waterloo, do ABBA (na ideia de que ele não consegue desistir e afinal voltará para a Terra), logo depois de uma cena que mostra um vinil da banda.

Naturalmente, apesar de todos os acertos, ainda tenho algumas perguntas.

1) Se o nerd Rich Purnell (aliás bem interpretado: o sujeito tem aquele olhar distante do nerd) precisou de um supercomputador para conferir as contas (ele, que é especialista nisso), como é que outros apenas dizem que “já conferiram” e, a bordo da Ares III Hermes, a tripulante afirma, na maior simplicidade, que já as conferiu? Ainda por cima, ela teve que fazer isso no braço e com muito menos dados.

2) Se o MAV da Ares 4 está há meses em pèzinho esperando seus usuários, como é que tem tão pouca poeira e seus sistemas estão funcionando tão confiàvelmente?

3) Aliás, se Marte tem tempestades tão terríveis, como é que aquele MAV ainda está em pé? (Este caso admite suspensão da descrença: no início do filme, a tripulação comenta que uma tempestade do nível daquela é de fato incomum. Então é questão de probabilidade.)

4) Será que foi agradável voltar para a Terra (266 dias aproximadamente) em uma nave que acabou de perder sua atmosfera exceto na ponte de comando? Que tal ver seu espaço confinado ser sùbitamente reduzido a um confinamento ainda pior, sem acesso ao ginásio, aos laboratórios, ao alojamento ou à cozinha? (Apideite em 10/10/2015: Carlos Cardoso respondeu-me essa de modo elegante, fazendo-me ver que naves como a Hermes levariam ar para se pressurizarem mais de uma vez. Eu deveria ter considerado esse ponto.)

Infelizmente, o filme também tem alguns estereótipos. Um é que Purnell, sendo um nerd, é necessàriamente estabanado, tropeça e cai. Outro é que o único astronauta religioso é latino. O terceiro (talvez correto) é que os chineses desenvolvem sua tecnologia em segredo.

E, por falar em religião, taí dois detalhes muito oportunos em um filme que enaltece a Ciência e a persistência: (1) Nada de fé para salvar o astronauta perdido. O que o traz de volta é conhecimento, planejamento, criatividade e trabalho duro, sem NENHUM espaço para orações. Ao contrário: o único crucifixo de Marte é usado como combustível por um sobrevivente que tem que usar todos os recursos à disposição. (2) Além de Martinez, só um personagem reconhecidamente tem uma crença, mas ele não privilegia nenhum deus, acreditando em vários.

Aliás só vi os dois primeiros trailers agora. Rapaz, como manipulam a audiência! Os trailers “mostram” Watney chorando supostamente diante da esposa e do filho (que eram de outro tripulante e estavam em outra cena), mostram uma explosão na Ares III Hermes como se fosse desastrosa (quando era a descompressão de frenagem no fim do filme), mostram a comandante falando em motim como se fosse algo ruim… e contêm algumas tomadas que não entraram no filme (p.ex. o diretor da NASA contemplativo em uma varanda e depois hesitando em responder se Watney pode estar vivo).

Antes que eu termine, cabe um parabéns a Sean Bean: depois de participar do Conselho de Elrond pela segunda vez, neste filme ele não morre! (Mas sua carreira sim.) Outro parabéns a Matt Damon: depois da trilogia Bourne, de Resgate do Soldado Ryan e de Interestelar, de novo ele deu trabalho a um monte de gente para trazê-lo de volta, sendo que, neste filme, diferente do anterior, ele não ficou maluco no espaço.

Por último, as legendas cometeram dois erros (o que está até bom considerando o histórico a que me acostumei):

1) No original, Watney fala que “foi assim que o Laboratório de Propulsão a Jato foi inventado”. Depois disso, várias vezes ao longo do filme, o JPL (Laboratório de Propulsão a Jato, “na sigla em inglês” como dizem nossos periódicos) aparece com o nome todinho. Mesmo assim, o tradutor escreveu lá: “foi assim que a propulsão a jato foi inventada”. Não!

2) O nome da chinesa é Tao. O autocorretor da legenda escreveu “Tão”. Não!

E por hoje é isso. Se eu me lembrar de mais coisa, pode deixar que eu incremento este texto.

Apideite do apedeuta em 10/10/2015:

À medida em que os dias passaram, realmente eu fui me lembrando ou raciocinando sobre vários pontos do filme. Você vai encontrar vários websites apontando os mesmos detalhes que eu, mas tudo que está aqui embaixo são percepções que tive sem a ajuda deles.

Você reparou que o filme nunca diz em que ano se passa? Isso foi sábio, porque assim ele não fica datado cedo demais. Um tópico de discussão do Reddit indica 2035, e este video promocional com Neil Tyson, gravado na época da decolagem, mostra que necessàriamente o filme se passa após 2029.

A atmosfera de Marte é muito rarefeita: 0,6% da pressão atmosférica da Terra. Portanto, o vento de Marte seria absolutamente incapaz de provocar a tempestade catastrófica que vimos no começo do filme e certamente incapaz de fazer tombar o MAV. É claro que, com isso, não haveria a premissa que levou ao abandono de Watney. Considerando que tudo mais no filme está bàsicamente correto, podemos perdoar essa falha intencional na medida em que foi um componente necessário da história. Neil Tyson certamente a perdoou.

Pelo mesmo argumento da atmosfera rarefeita, não teríamos visto a cobertura plástica a oscilar no vento depois que Watney a pôs no lugar da comporta explodida. Com a pressurização interna do habitat, a cobertura teria ficado abaulada sem flutuações, e o vento não lhe faria nem cosquinha. Na cena em que os nervos dele estão à flor da pele durante outra tempestade, ele não teria o que temer.

Já um problema a contornar — e que o filme essencialmente ignorou — é que, justamente em razão da atmosfera rarefeita, Watney não estava protegido contra a radiação solar. Na vida real, ele teria passado mais de um ano sendo duramente castigado por raios cósmicos e por todo tipo de comprimento de onda nocivo. Aliás, não sòmente ele, senão toda a tripulação da Ares III. Conforme adianta Phil Plait, se o filme realmente fosse realista, todomundo ali teria morrido de câncer depois de um tempo.

Marte é bàsicamente vermelho visto de longe, mas de perto as cores variam mais; há tons de verde, e o filme aborda isso. Os frequentes redemoinhos aparecem ao fundo toda hora, acrescendo realismo, porque o planeta é assim mesmo. Infelizmente, o pôr-do-sol de Marte é azulado, mas o filme o mostrou vermelho como os da Terra.

Você reparou que os objetos em Marte caem devagar? Quando a comporta de ar explode e capota, e quando Watney descarta componentes do MAV da Ares 4, tudo cai devagar. Isso não é coincidência. De início eu até pensei em câmera lenta como estilo do diretor, mas aí lembrei que a gravidade de Marte é 38% a da Terra. O filme acertou até nisso!

OK, esta percepção não foi minha, mas de Neil Tyson: a prova de que o filme é ficção é que todos os seus tomadores de decisão têm conhecimento científico básico.

No fim, quando Watney vai incerimoniosamente desmontando o MAV e despejando seus componentes sobre o solo de Marte, fiquei pensando: cada um daqueles parafusos, assentos e cabos custou algumas centenas de milhares de dólares para fazer e outros tantos milhões para levar até a superfície de Marte… e agora ele se desfaz de tudo sem o menor pudor.

Aliás, quando um dos astronautas está indo lá pra fora da Hermes, sua colega o adverte para tomar cuidado porque, “in space…”, e não completa a frase. Fãs de scifi sabem que a outra metade da frase seria o lema do maior sucesso de Ridley Scott: “… no one can hear you scream”.

Ao montar a bomba, um dos astronautas conecta seu cabo de ativação a uma saída na parede junto à comporta. Você reparou nas portas USB bem ao lado dessa conexão? A gente não mexe naquilo que está funcionando; no ano 2035 ainda haverá portas USB.

Perdido em Marte não é um filme de ação nem tem um vilão, algo raríssimo nos blockbusters de Hollywood. Você reparou na contagem de corpos deste filme? ZERO! Já viu ALGUM filme de scifi conseguir esse feito? Geralmente, algum herói sacrifica sua vida para salvar os demais — não desta vez!

Outros vídeos promocionais gravados durante a preparação da missão Ares III:

Finalmente, aponto algumas resenhas que encontrei por aí:

Apideite do apedeuta em 11/10/2015:

Tem um ponto que eu pensei assim que vi no filme, mas depois me esqueci de comentar. Quando o Diretor Kapoor intui o percurso que Watney está fazendo, ele corre até a cantina para usar o mapa de Marte que está pendurado na parede. Entendi a necessidade dramática de mostrar a empolgação e as prioridades de um nerd, mas será que ele mesmo não teria, em seu computador, um mapa de Marte muito melhor do que o da cantina? Pense bem. Se o ofício dele é esse, com certeza ele estaria cercado de mapas mais recentes e mais precisos.

Outra que eu pensei na hora e que foi abordada em uma das postagens que referi acima: quando a comandante Lewis vai lá fora puxar Watney para dentro, o arnês dá voltas em torno dos dois. Quando o Dr. Beck começa a dar tração no arnês, o certo é que, primeiro, o arnês fique teso, reto entre ele e o par que flutua lá fora, para só depois começar a puxá-los. Entretanto, o filme errou neste ponto: o arnês começa a puxá-los enquanto ainda está em um formato frouxo, solto em volta da dupla.

Se eu não me lembrar de mais nada, este é o último ponto: considerando que o filme não tem vilão e que Lewis está do mesmo lado do protagonista, creio que tenha sido inevitável que a Hermes tivesse que ir novamente a Marte para buscar Watney. Por quê? Porque, Lewis não sendo uma vilã, ela terá sentido um remorso terrível por deixá-lo vivo no planeta. Na estrutura narrativa tradicional, desse ponto em diante ela precisa de uma oportunidade de se redimir diante de si mesma, ainda que ninguém a esteja culpando. Então, ela precisa pessoalmente resolver isso: na sua óptica, foi ela quem fez mal ao colega (ao dar a ordem de partida sem ele), então ela é quem deve reparar esse mal.

EOF

My inevitable review of Star Trek: Renegades

After nearly two years of nail biting, the pilot episode of Star Trek: Renegades is here. This professional-quality fan production has been anxiously awaited by all of us enthusiasts who have supported great works such as Star Trek: Phase II, Star Trek Continues, Starship Farragut and Axanar, to name only those of higher production values (not that I do not appreciate the likes of other fan series, but the list is too long to fit here).

As always, it feels somewhat awkward to review something that is already covered in depth elsewhere on the Web. Also, it is a bit unfair that we sit back and comment on other people’s work as if we were entitled to a quality set by our own standards when it is not us sweating to make a good film. And Renegades more than matches the criteria by which so-called “official” Star Trek works are judged, canonical or otherwise (Enterprise and J.J., I am looking at you).

Still, some aspects of Star Trek: Renegades came to mind on first watching.

If you look at the Icarus with more than a casual glance, you will see that it has sagital symmetry. That is, the ship’s bottom mirrors the ship’s top along a plane that runs through the waistline. There are two shuttlebays, the nacelles are located right on the symmetry plane and there are four of them. It is thus only a matter of time before upcoming episodes show us the vessel in a classical split (aka “multivector assault mode”) as an improvement on the preceding Enterprise-D’s and Prometheus‘s abilities.

Also, the Icarus‘s design is reminiscent of a continuous line of aggressive-looking ships that started way back in 1991, in Rick Sternbach and Michael Okuda’s ST:TNG Technical Manual. Along the Defiant, the Equinox and the Prometheus, ships have become smaller in size, more angular, more detailed and more heavily armed in relation to their size. The Icarus‘s hull and bridge shape continue the Voyager‘s precedent, and, at the ship’s very front, those two prongs look like they have been borrowed from the Klingon Vor’cha class. In particular, the ship’s overall front and torpedo tubes seem to (at last) be the realization of part of Sternbach’s design for a small fighting ship that was detailed in the ST:DS9 Technical Manual.

None of this should be any wonder, of course, since Sternbach and John Eaves did ship design for Renegades. But will someone please remind me of where I have seen the backs of the Klingon ships’ nacelles before? I am sure I have seen that, but I cannot seem to remember where.

Exploring the Icarus‘s array of technical marvels, we are introduced to a novel communications device that conveys tact as much as realistic image and sound. At first this may seem very nifty and impressive, but one has to bear in mind the advances that Voyager promoted with the EMH and its fake matter. With holodeck technology, it is very easy to imagine a puppet controlled to mimic a real person’s remote behavior, as previewed in Worf and Quark’s bat’leth handling in “Looking for par’Mach in All the Wrong Places” and by today’s performance capture as amply demonstrated by Andy Sirkis (of Gollum fame). Even if it is only forcefields instead of real tangible matter, the holodeck has done this and better in the past. The 3-D imaging in communications was also shown in DS9’s second half (notably in “Doctor Bashir, I Presume” but elsewhere as well; episode names fail me now). Lucien and Zimmermann’s communications escapades would naturally strain today’s bandwidth possibilities (especially if they take them one step beyond as hinted, nudge nudge wink wink). However, if we look back to the Internet’s achievements in this respect since 1996 and extrapolate them to the late 2380s, we may even consider Renegades to aim too low.

Last but not least regarding starships, the “Derelict Ship” (Tuvok’s infiltrator that meets the Icarus midflight) also reminds me of previous ships, but again I cannot quite identify which. Is it the scoutship from Insurrection with the addition of a Bird of Prey’s head? Will someone point it out to me? Thank you in advance.

Moving onwards to the cast, I was very much aware of Walter Koenig and Tim Russ making their comebacks as Chekov and Tuvok, but I intentionally remained ignorant of other cast members and rôles. It was a pleasure to see eyecandy Adrienne Wilkinson (from Star Trek Continues‘s “The White Iris”). My non-Brazilian readers would never know, but she looks like a clone of Brazilian actress Christiane Torloni when she was younger.

Now, Sean Young came as a total surprise to me. I did not realize it was she, though the face seemed familiar. When I saw the credits, my only reaction was that I had lived to see the day when Young would be in Star Trek. She looks beautiful (possibly more so than in the raving 80s) but it is a striking contrast to her early rôles that now she plays a more homely character, kind of “that aunt of yours whose job it is to prevent a space powderkeg from blowing up”. I wonder if it was intentional to have Dr. Lucien repeatedly put on and remove her glasses, reminding you that (1) Star Trek never had any after that infamous transporter chief’s from “The Cage” and Kirk’s Retinax 5 surrogate and (2) that is how Sean Young manages to focus on objects around her these days, so you live with it (not that I am complaining).

Regarding the plot twist on Fixer’s nature, it is a natural continuation of TNG’s Moriarty, the EMH’s achievements and Dr. Zimmermann’s research that an entire person’s brain pattern could be downloaded to the portable emitter, so this does not seem far-fetched, and was in fact a welcome surprise. Of course, the concept opens up new ethical frontiers, as a person could be repeatedly killed and brought back to life (of sorts) only to suit the convenience of those who would not release him from this mortal coil. I assume that, one day, Fixer will realize that he does not age and that he is able to rematerialize where he was not supposed to be able to, much like a Highlander when he finds out that death eludes him. Therefore it is also only a matter of time before an upcoming episode forces a guilt-stricken Lucien to explain to him what he really is made of now.

Speaking of which, the circle will then be complete. In a little-known sci-fi production from 1982, Sean Young played a character who had been assembled from parts made in a laboratory. The character was not a real human but thought she was, until someone came along who revealed to her where her artificial memories came from: the brain pattern of a deceased person who she replaced and gave continuation to. Now it will be her turn to reveal this condition to an artificial person of her own making…

Other notable cast members include the comeback of Icheb, from Star Trek: Voyager, and John Carrigan (Kargh from Star Trek: Phase II) as both a Klingon captain and a Starfleet officer.

Going back to the regular Starfleet crew, another good surprise was to see Captain Parker Lewis Alvarez played by Corin Nemec, whose face I had not seen on a screen since 1994 (yes, I know — I have not yet seen either The Stand or — shame on me — Stargate SG-1). Considering his persistence, his apparent backstory with Lexxa, the blood in his eyes as he battled wits and brawn with the Icarus, and his evident honest-to-goodness, died-in-the-wool loyalty to Starfleet’s mandate, it is obvious that we will see a lot of his chasing the Icarus around (as a matter of personal pride too) until a later episode where he will be forced to a truce and an alliance with the Renegades for the common good against betrayals from up high. Commissioner Gordon would be proud.

Still in Alvarez’s turf, the USS Archer disappoints me a little. In contrast to the Icarus and to the more recent designs from Star Trek: Voyager, the Archer is overly simple in its shape and her saucer is a throwback to the TNG era, with a lack of detailing that does not do justice to Renegades. It is almost as if this simplicity was made to reflect Starfleet’s naïveté before the dark forces manipulating it; as if the ship’s very design was made excessively simple to depict the simplicity of its officers’ mindset. What troubles me, though, is that the design seems ripped off from Bernd Schneider’s original projects from the EAS Fleet Yards or from the Advanced Starship Design Bureau. I cannot quite put my finger on which design, but it would be something like the Andromeda class or maybe a cross between that and some other class from therein.

I was going to comment that Renegades‘s makeup left something to be desired, what with their Nausicaan, Andorian and Syphonians, and that it looked amateurish and monochromatic. Before you agree with this hasty evaluation, though, may I remind you that I saw the episode in 960p resolution (was unable to download it in 1080p). This is twice the definition that Star Trek worked with for many years (576i). Now, if we looked at Renegades with the same definition as those TOS, TNG, DS9 and Voyager episodes, I am sure that we would find its makeup to be more detailed than what the artists achieved in the long-running canon productions. Therefore I withdraw my comment.

I had four gripes about the story. One is already covered by Bernd Schneider’s review, which is yet another villain intent on destroying the Federation in a fit of vengeance, as Shinzon and Nero before him. The other is the contrived dialogue between the Betazoid Ronara and former Borg Icheb. You would assume these two characters to have known each other for a while, since they have been crewmates for who knows how long. Therefore it makes little sense that they show the viewer their abilities in an angry bout of exposition as if they were making their acquaintances there and then. The whole dialogue stands apart from the rest of the episode and has no real relation to any scene or take before of after it. I understand the need to bring the explanations to the viewer in as short a time as possible, but maybe the script could have used some polishing there; for example if they disclosed their abilities to someone else.

The third minor misgiving I have is the casual fashion in which transporters are overused. When the transporter was invented by Gene Roddenberry back in 1964, it was a clever means to speed up screen time by avoiding the need to show the Enterprise landing on planets. Over the course of TOS, even though the transporter was taken for granted as a plot device, it was never brushed aside with a shrug. This was a technology to be treated with respect, which Bones McCoy grumbled about and which could still subject people to accidents of varying degrees of tragedy (“The Enemy Within”, “Mirror, Mirror”, ST:TMP). Then along came TNG, where the transporter became an easy escape to all sorts of trouble (“Up the Long Ladder”, “Rascals”), and the Abramsverse, where it made starships obsolete overnight. Now Renegades uses the transporters over distances of lightyears, and characters beam here and there on a whim to the point of the viewer nearly losing track. If you use it too much, you risk making your stories pointless or, at the very least, doing away with suspense.

(Although, as a fan, I keep paying attention to the clever ways to cheapen production where the transport is involved. When Lexxa beams over into the Icarus, you never see the effect, thereby saving on the CGI, but you hear the noise, so no explanation is needed. Star Trek has been playing this trick since “Where No Man Has Gone Before” and it never wears out.)

The final plot hole to deserve comment keeps popping up in Star Trek and would not need any additional beating if it were not so thrown in our faces: will the next crew please not leave the ship and stay all together waiting to be shot at and captured wholesale? Am I asking for too much? At least this time they took advice from the ill-fated crew of Ridley Scott’s Prometheus and sent some floating probes ahead (and we wonder why they have not done so before, seeing as that floating holocameras existed as far back as the christening of the Enterprise-B).

Last but not least, I disagree with Schneider’s view that there were not enough explanations of the episode’s backstory. Granted, this is a pilot and, as such, needs loads of exposition so the finished product makes sense to the viewer, who is thankful not to feel lost. However, pilots are also meant to tease the viewer’s curiosity. As stories progress, I assume that the backstories will be revealed, showing us why Lexxa is being chased since her childhood, what she did to land her into an Orion prison, what Lucien’s accident was that disgraced her, and what prickles me the most: how Starfleet’s advanced battlebrat Icarus came to be stolen by a bunch of Renegades!

Minha resenha bilíngue de JLA: Rock of Ages

I just finished reading JLA: Rock of Ages. Before I bought it, I read many reviews at Amazon and elsewhere saying that it was confusing and that a lot of it did not make sense. But they also said that the story dealt with timetravel. And I knew that it had been written by Grant Morrison, who I consider a genius. Being a scifi fan with a penchant for timetravel stories, I deduced that those readers had not been intelligent enough to follow Morrison’s wit. I thought that his work probably had a high level of ingenuity and that I would enjoy it no end, EXACTLY because so many were deriding it.

Was I wrong. The timetravel bit is not hard to follow, actually. The problems lie elsewhere. Morrison seems to have attempted to tell at least five stories in this so-called arc, so what was supposed to be one storyline becomes a disjointed sequence of mostly unrelated events. The supposed main tale revolves around (1) Lex Luthor attempting a takeover of the Justice League by weakening its members and exploiting those weaknesses. Besides that, however, there are (2) the need to match the story to DC’s contemporary crossover, Genesis; (3) the shoehorning of the heroes’ search for the Philosopher’s Stone, which might as well have been unrelated and was not necessary at all; (4) the unrelated, artificial insertion of a story with JLA members traveling to the end of the universe and to fantasy worlds; (5) the time-traveling, sidetracking story of the heroes confronting Darkseid in the future (as fascinating as it is to witness Batman engaging Darkseid without so much as a shiver). In the end the jigsaw is resolved, but at the expense of a long-winding succession of wasted blind alleys. Also, the epilogue is a lead-in to the then upcoming event DC One Million.

Characterization is weaker than in other Morrison works. Still, the thread that runs throughout the collection is a battle of minds between Luthor and Batman, and both of these get to shine in their chess-playing, foreplanning, cunning personas, which are marvelously written.

Overall a dumbfounding read, so I do not actually recommend it. However, you may be interested if you are keen on the Justice League, want to appreciate Morrison’s take on it and are willing to tolerate edits where scenes seem to succeed each other with no visible connection between them.

Acabei de ler JLA: Rock of Ages. Antes de comprar, eu havia lido várias resenhas na Amazon e alhures dizendo que era uma história confusa e que muito dela não fazia sentido. Mas as resenhas também diziam que a história lidava com viagem no tempo. E eu sabia que havia sido escrita por Grant Morrison, que considero um gênio. Sendo um fã de ficção científica com uma queda por viagens no tempo, eu deduzi que aqueles leitores não haviam sido inteligentes o bastante para seguir a inteligência de Morrison. Pensei que seu trabalho provàvelmente teria um alto nível de engenhosidade e que eu o aproveitaria de montão, EXATAMENTE porque tantos o depreciavam.

Rapaz, como eu estava errado. A porção de viagem no tempo nem é difícil de acompanhar, na verdade. Os problemas estão em outras partes. Morrison parece ter tentado contar pelo menos cinco histórias neste assim chamado arco, de modo que o que deveria ser uma linha de capítulos torna-se uma sequência disjunta de eventos mormente não relacionados. A suposta história principal gira em volta de (1) Lex Luthor tentando tomar a Liga da Justiça através do enfraquecimento de seus membros e da exploração dessas fraquezas. Ao lado disso, porém, há (2) a necessidade de ajustar esta história ao evento contemporâneo da DC, chamado Genesis; (3) o encaixe de uma busca dos heróis pela Pedra Filosofal, que poderia muito bem ser não relacionada e absolutamente não era necessária; (4) a inserção artificial e não relacionada de uma história com membros da Liga da Justiça viajando ao fim do universo e a mundos fantásticos; (5) a tergiversação de viagem no tempo dos heróis confrontando Darkseid no futuro (por fascinante que seja testemunhar Batman encarando Darkseid sem um tremor). No fim, o quebra-cabeças é resolvido, mas às expensas de uma sucessão tortuosa de becos sem saída. Também, o epílogo é uma introdução ao evento então iminente DC One Million.

A caracterização é mais fraca do que em outras obras de Morrison. Ainda assim, o enredo que corre através do encadernado é uma batalha de inteligênicas entre Luthor e Batman, e ambos conseguem brilhar em suas personas vulpinas, planejadoras e jogadoras de xadrez, que estão escritas maravilhosamente.

De modo geral, uma leitura que causa perplexidade, de modo que não chego realmente a recomendá-la. Entretanto, você pode se interessar se tiver predileção pela Liga da Justiça, quiser apreciar a abordagem de Morrison e estiver disposto a tolerar uma edição onde as cenas parecem suceder umas às outras sem conexão visível.

Minha inevitável pseudorresenha de Interestelar

Então seja bem-vindo a mais uma pseudorresenha do Senhor Atoz. Você sabe como é: eu vou ao cinema, eu venho aqui e conto.

Mais uma vez, não farei uma resenha. Já tem gente fazendo isso de montão por aí (nem pesquisei desta vez para saber se é verdade, mas sempre é verdade). Baste ver que há toda uma edição da Slate dedicada ao filme, inclusive com as minúcias científicas. Baste ver que o Bad Astronomer, Phil Plait, tem todo um mea culpa sobre o ponto específico de buracos negros com rotação.

Meu público-alvo são as pessoas que já viram Interestelar. Em respeito às que não viram, tomarei o cuidado de esconder o texto que revelaria conteúdo. Então, você já sabe como funciona: para ler o trecho escondido, você tem que selecioná-lo com o mouse, porque o escrevi com fonte branca.

Primeiro, vamos à parte não secreta.

– Em nenhum momento o filme diz quando se passa. Temos sugestões de que seja no futuro próximo, nas poucas décadas adiante de nós, mas nada categórico. Não há referência a NENHUM ano. A camioneta do personagem é um modelo recente, e o interior da casa dele poderia ser hoje, mas isso não quer dizer nada, porque, naquela região dos Estados Unidos, os anos passam e nada muda. Hoje vemos camionetas que estão rodando há quarenta anos; o interior das casas, exceto por um eletrodoméstico ou outro, conserva a mesma estética de cem anos atrás. Então, essa atemporalidade pode ser usada para a frente também, e não sabemos se o filme se passa em 2014, 2024, 2064 ou 2114. O tema de insustentabilidade é premente hoje, quando já sentimos os efeitos do aquecimento global nas colheitas e na falta de água, e é certamente por isso que é tão fácil nos identificarmos com os personagens.

– A trilha sonora é de Hans Zimmer. Naturalmente bem feita, como sempre. A mesma melodia é ouvida diversas vezes, ora devagar ao piano nas cenas de mais reflexão, ora acelerada no violoncelo nas cenas tensas. Dá pra reconhecer. Agora, tive a forte impressão de que as passagens ao piano têm uma semelhança intencional com a introdução de Space Oddity, de David Bowie.

– Matthew McConaughey melhorou muito como ator. Lá na época de Contato (1997), ele era só mais um descamisado (sabe como é: os galãs que só aparecem nos filmes para tirarem a camisa em algum momento). Agora ele atua e convence.

– Na estante de livros do personagem, alguns exemplares chamam atenção e certamente não estão lá por acaso: The Stand, de Stephen King, que versa sobre a resistência à extinção da humanidade; biografia de Lindbergh, pioneiro da aviação; e pelo menos um livro de Conan Doyle, mestre da dedução científica através de seu personagem Sherlock Holmes.

– Nos anos 60, 70 e 80, os filmes de espaço costumavam mostrar os interiores das naves como se estivessem décadas ou mesmo séculos no futuro. Era sempre aquela atmosfera limpíssima, estéril, mas também confortável. Pense em Mercenários das Galáxias (se você não via Sessão da Tarde, azar o seu), O Abismo Negro, Galactica, Buck Rogers ou mesmo o primeiro filme de cinema de Jornada nas Estrelas. Pense em Voyager: Rumo às Estrelas, da Disney (e não o confunda com Star Trek: Voyager, que é outro animal). Já dos anos 90 em diante, instalou-se uma tendência que a mim é bem-vinda: os filmes de espaço costumam mostrar o interior das naves, e a tecnologia toda, como se fossem exatamente os atuais, exceto que um pouquinho de nada mais avançados, como se estivessem apenas dez ou vinte anos no futuro. Veja Space Odyssey, da BBC; Gravidade; até mesmo Armageddon. Isso tem a relevante consequência de ter que explicar menos, porque o público (ou ao menos parte dele) já viu astronautas no telejornal, já viu o interior da Estação Espacial Internacional em notícias e documentários, já sabe o que esperar. Quando se fala em naves e astronautas, já sabemos mais ou menos que aparências as estruturas e seus interiores devem ter, já sabemos que cara têm os painéis, comandos e trajes. Em Interestelar, podemos ver detalhes da superfície da nave, e lá estão todos os tijolinhos que nos acostumamos a ver nos ônibus espaciais, o preto-e-branco de seu revestimento, os bocais de seus motores, os aneis de vedação etc. A estética é conhecida. Então, quando o contador de histórias quer nos dizer “nave espacial”, ou “astronauta”, ou “interior de uma estação”, o que ele nos mostra é isso que temos visto nos filmes, e já sabemos do que ele está falando, e nada mais tem que ser explicado, permitindo que ele se concentre na HISTÓRIA. Afinal de contas, é isso que interessa; um filme é bom ou ruim conforme bem ou mal conte sua história. Se você tirar o foco do cenário, estará tirando isso do caminho, e o enorme benefício é que a história pode ser contada com menos obstáculos. O filme pode andar na sua própria velocidade. E é isso que acontece em Interestelar.

– Vi nos créditos: produtor executivo e consultor de Ciência, Kip Thorne. Quem se amarra em Astrofísica sabe que Thorne é uma das grandes celebridades da Astronomia neste entorno do Milênio. Contemporâneo do planetarista Carl Sagan, Thorne é uma das maiores autoridades na especulativa Física dos buracos negros. De acordo com Phil Plait, ele fez toda a matemática para concluir que fossem válidos certos pontos mostrados no filme — justamente os que os nerds desafiariam — e até mesmo publicou The Science of Interstellar. Talvez eu leia…

– Não sei de onde vieram os nomes CASE e TARS, mas KIPP é claramente uma referência a Kip Thorne.

Agora, a parte escondida.

– O filme é longo. Com 160 minutos, ele é desnecessàriamente longo. Dá pra ver por quê: ele gasta uma boa meia hora na visita inútil ao planeta do Dr. Mann, gasta um tempo enorme na tentativa de homicídio e de sequestro de uma nave, e nas longas cenas de ação: em luta com Mann, tentando alcançá-lo e depois tentando acoplar o módulo de descida à nave. O que eu faria? Cortaria, sem pena, toda a passagem com o Dr. Mann e boa parte do conflito familiar entre Tom e Murphy Cooper. Só serviram para tornar o filme mais pesado.

– Um milhão de referências a 2001, intencionais ou não. Então a NASA encontrou uma anomalia em órbita de Saturno? Ora, 2001 (o livro, não o filme) tinha um monolito em órbita de Saturno. Então não temos Hal, mas temos KIPP: uma inteligência artificial que tudo controla, que conversa conosco — só não tem aquela maligna luzinha vermelha, mas eles até abordam isso diretamente. E aí o astronauta mergulha numa singularidade e tem uma viagem de luzes psicodélicas… Rapaz, eu estava vendo a hora que Cooper ia cair em um quarto de hotel, encontrar comida azul e encarar um monolito. Faltou pouco. E então o astronauta, dentro da singularidade, conversa com a inteligência artificial, que colheu dados… Isso não está em 2001, mas está nos livros que lhe dão continuidade; a saber, 2010, 2061 e 3001.

– Robôs que, apesar de terem uma personalidade, põem a segurança em primeiro lugar e, de resto, não têm escolha senão obedecer aos humanos? ASIMOV! Primeira e Segunda Leis da Robótica, que aparecem em todos os livros de robôs de Isaac Asimov e que são citadas a toda hora por todos os seus leitores que hoje fazem filmes de saifai.

– Aliás: o TARS, quando está simplesmente em pé, não é DIREITINHO o Monolito? 2001, múltiplo check.

– Não adianta, eu tenho mesmo o coração mole para voos espaciais. Uma das cenas que mais mexeram comigo, que mais me emocionaram, não foi nenhuma das cenas projetadas para isso. Ao contrário, foi uma cena feita mais para nos deixar boquiabertos mas, ao mesmo tempo, passando uma forte ideia de profissionalismo e objetividade, sem muito espaço para outra coisa a não ser a missão. É claro que estou falando da decolagem. No cinema IMAX, o som ficou tão alto, tudo que se ouvia eram os rugidos dos motores, o equipamento sacudindo e a música no último volume. Aquele close, com a câmera parada e o foguete subindo na frente dela enquanto caem partículas de tinta congelada, é intencionalmente evocativo das decolagens do Projeto Apolo. É ISSO que mexe comigo.

– Sensacional a representação do buraco de minhoca com forma esférica. Sensacional a explicação. Claramente influência de Kip Thorne.

– Aliás, pensando um pouco mais sobre o buraco de minhoca, foi depois que me ocorreu: em todas as descrições que os livros fazem do buraco, uma nave permanece em seu próprio espaço e seus ocupantes nem perceberiam que estão passando por ele. Para eles, o espaço parece normal. Veja no desenho — qualquer desenho — que acompanha uma dessas explicações; basta googlar: se você está no espaço 2D (como em todo desenho), você continua andando no espaço 2D até ver que, sem ter se dado conta, foi parar do outro lado. E mais: não existe essa história de furar o papel com o lápis e “atravessar”. Nos desenhos se vê que o contorno é suave, que a nave não “pula” de um lado para o outro, porque, justamente na passagem, o espaço é perfeitamente contínuo, não tem borda afiada. A formiga do exemplo não pula para fora do papel, não se lança no vazio para o outro lado; ela meramente continua andando até ficar de cabeça para baixo do outro lado.

Buraco de minhoca simplificado em espaço 2D

Formigas suicidas tentaram, mas não encontraram a beirada.

Por incrível que pareça, ESTA é uma representação muito mais realista do efeito do buraco em 3D, embora ainda peque por representá-lo em 2D.

Então, no filme, não veríamos os personagens “saltando para fora do espaço”. Eles olhariam para o buraco, veriam uma projeção 2D do buraco (a qual teria meramente a aparência de uma janela), da mesma forma como tudo que vemos está em 2D no nosso olho, e veriam o que tem do outro lado, tal como quem olha por uma janela. Atravessando o buraco como quem passa por uma janela, eles estariam o tempo todo em um espaço 3D, sem nenhuma lei da Física que lhes parecesse diferente, só que, ao olhar em volta, reconheceriam estar em um lugar diferente do lugar de antes da travessia. Em outras palavras: a viagem pelo buraco de minhoca só seria perceptível para quem estivesse prestando atenção, por causa da mudança do cenário em volta. Não haveria nada daquele efeito dramático, das acelerações, das maluquices sensoriais, nada disso. Porque a nave que atravessa o buraco não sai do espaço 3D, não entra em um espaço 5D nem coisa parecida.

– Se um planeta orbitasse um buraco negro tão de perto, ele estaria sujeito a um permanente banho de raios X, resultante da aceleração da matéria no disco de acreção. Você reparou na intensidade luminosa ali perto? Então. Os raios X são ainda mais abundantes, você só os não está vendo; de acordo com Plait, a luz no filme era até pouca. Portanto, se você fosse morar no Planeta de Miller ou no Planeta de Mann, você tomaria doses maciças de raios X a cada segundo. Deviam chamá-los de Planetas do Câncer. Só o tempo que os astronautas passaram nas proximidades do horizonte de eventos já seria suficiente para evaporar a eles e à nave, não sem antes você conseguir ver seus esqueletos na mais espetacular ferramenta de diagnóstico médico que o universo já teve o trabalho de acumular.

– E mais: supostamente há três planetas habitáveis orbitando um buraco negro, certo? OK, um deles é um mar inóspito, outro tem paisagens geladas e atmosfera de amônia, mas, em princípio, até dá para caminhar na superfície, não é isso? Muito bem. Só que, para você não morrer congelado a zero kelvin na superfície de um planeta que congelaria o AR à sua volta, é necessário que esse planeta receba bastante calor. Calor que viria, por exemplo, DA ESTRELA QUE ELE ORBITA. No nosso caso, a Terra só não é uma vastidão de gelo porque o Sol a mantém aquecida. Se, em vez de uma estrela, seu planeta orbita um buraco negro, então o calor que você recebe não é suficiente nem para você ter uma atmosfera, muito menos água líquida, céu claro ou, no caso extremo, habitabilidade. Portanto, só de ver que a “estrela” é um buraco negro, as esperanças para os três mundos acabariam ali.

– Faltou explicarem um pouco melhor este lance de que cada hora no Planeta de Miller corresponde a sete anos longe dele. Eles até pincelaram o motivo (distorção do espaçotempo na proximidade do buraco negro), mas o povo que assiste pode ficar um tanto confuso. É verdade que foram fartamente explícitos em dizer que é tudo por causa da relatividade, e até disseram que Cooper não teve tempo de explicá-la à filha de dez anos (leia-se: não vamos explicar a vocês que assistem; procurem um livro), mas, ainda assim, eu teria comentado.

– Quando Cooper e Brand retornam para Romilly e ele envelheceu 23 anos, você notou duas coisas? Uma são os modos dele: o gestual, o caminhar e os maneirismos de uma pessoa de mais idade. Ele já não era novinho quando a nave decolou, então certamente havia se tornado um senhor próximo da aposentadoria. A segunda coisa são as mãos dele: bem na postura de quem tem artrite, em forte sinal da idade. Parabéns à equipe e ao ator por isso.

– Eu não sei você, mas para mim foi uma total surpresa a aparição de Matt Damon. Não do personagem, mas do ator. Isso está fartamente comentado aqui (javisei: spoilers). Não é a primeira vez que ele faz isso: quem viu EuroTrip teve a oportunidade de se surpreender da mesma forma. Deve ser uma espécie de diversão para ele. Se bem que, em retrospecto, “Mann” soa como “Matt Damon” falado rápido, muito rápido, deixando apenas os dois fonemas iniciais e o último.

– Planeta de Mann = superfície interminável de gelo acumulado, com quilômetros de altura. Portanto: planeta de Mann = Islândia. Isso é óbvio. Quando os créditos reconhecem que o filme foi rodado lá, e listam todos aqueles nomes como “Gunnar” e “Olaf”, todos terminando com “…fsson” e “…dottir”, não há surpresa nenhuma. Quem viu Prometheus saberia.

– Astronauta mandando computador abrir a escotilha, não conseguindo e tentando entrar na marra? 2001, check.

– Explosão no espaço: silenciosa. Pronto, nerds, estão felizes? Pronto, taí. Tal como em Gravidade, vimos uma explosão e o som não se propagou no espaço.

– Quando a Endurance (ou o que restou dela) está completando a manobra de estilingue em torno de Gargântua, TARS comenta que, de acordo com a Terceira Lei de Newton, para ganhar velocidade você tem que deixar alguma coisa para trás. Algumas pessoas riram no cinema, porém a Terceira Lei de Newton é exatamente isso. Ele não estava brincando. Na verdade, a descrição foi um pouco imprecisa, porque não basta deixar massa para trás; é preciso que a massa tenha uma velocidade negativa em relação à sua. Se TARS for apenas abandonado, ele vai continuar acompanhando a nave até que, de acordo com a Segunda Lei, ela sofra alguma aceleração que ele não. Isso acaba acontecendo, mas, infelizmente, não chegamos a ver a Terceira Lei em ação.

– Ambiente artificial criado no fim do filme pelas criaturas avançadas para que os humanos consigam se comunicar? 2001 e Contato, check.

– Outra influência que não passou despercebida foi a de Star Wars: quando, nas últimas cenas, Cooper recruta a ajuda de TARS e sub-reptìciamente furta uma nave monoposta para encontrar Brand no planeta de Edmund, observe que seu embarque espelha aquela cena do Episódio V onde Luke se afasta de seus amigos para ir encontrar Yoda. Sua entrada no cockpit, mais o fato de que a inteligência artificial se acomoda no espaço apertado atrás dele (R2-D2 no X-Wing), mostram claramente de onde partiu a ideia original, mesmo que o diretor não tenha feito de propósito.

– Por último: os fãs de saifai, assim como outras mentes difíceis de se iludir, já devem ter percebido uma falha lógica gritante, extremamente comum neste tipo de filme, mas que mesmo assim continuam fazendo. Se os sinais de Cooper viajaram para trás no tempo e chegaram à adolescência de sua filha, isso só aconteceu porque os humanos-do-futuro criaram esse hipercubo com aparência de tridimensionalidade, de onde ele poderia enviar os sinais, certo? Bem. Mas esses humanos-do-futuro só são possíveis porque a missão deu certo, e a missão só deu certo porque Cooper encontrou a base secreta da NASA, e Cooper só encontrou a base secreta porque sua filha lhe trouxe os dados revelados pelo fantasma, e os dados só foram revelados pelo fantasma porque o fantasma teve um ambiente do qual enviá-los, e ele só teve esse ambiente porque os humanos-do-futuro lho forneceram. Ou seja, os humanos-do-futuro só se tornaram possíveis porque agiram. É um paradoxo temporal de predestinação, mais suave e mais sutil do que o outro, agressivo e gritante, da contradição que surge quando você volta no tempo e mata seu avô. Ainda assim, um paradoxo, e o filme sofre essa falha lógica insuportável, que rompe a relação de causalidade. Feito o loop temporal, nada deu causa ao sucesso da missão, ou ela só deu certo porque só poderia dar certo… Nunca houve dúvida sobre o sucesso da missão? (Desculpe, anos demais vendo filmes e séries de saifai.)

No geral, Interestelar teve o cuidado de não ser um espetáculo de efeitos visuais. Ao contrário: os efeitos, quando existem, são para promover a história, não para ficar no caminho dela. São uma forma de suprir uma expectativa no momento em que aparecem e então permitir que nos concentremos no que os atores fazem. Mas o filme é muito longo.

Para ler a resenha de Phil Plait, que recomendo enfàticamente, apenas clique aqui.

EOF

Observações em A Identidade Bourne

Em The Bourne Identity (o filme de 2002, com Matt Damon, não o de 1988, com Richard Chamberlain), na marca de 1:35:30, vemos um jato executivo da CIA, onde embarca o Agente Conklin. O avião é claramente um Dassault Falcon trimotor branco, portando o símbolo do fabricante na deriva e o registro N-GIDE.

Ora. Qualquer Leitor acostumado a registros de aeronaves (“prefixos” no linguajar brasileiro) sabe que, nos Estados Unidos, os registros começam com a letra N mas continuam com algarismos, sem traço entre o N e os algarismos. Uma sequência de traço e quatro letras não faz sentido num registro americano.

Mas uma letra seguida de traço e quatro letras faz todo o sentido na Europa, onde são assim os registros britânicos, alemães, italianos e franceses. Além disso, podemos ver, no filme, que a letra N não está pintada diretamente na fuselagem como estão as outras; o N, e somente ele, está impresso em alguma camada adesiva que foi colada antes do traço.

Não é necessária muita intuição para se perceber que alguma outra letra ocupava o lugar do N. Sendo um avião da Dassault e ainda tendo o símbolo dela na cauda, podemos imaginar que a aeronave pertença à própria Dassault (e não a alguma empresa que a tivesse alugado ao estúdio). Portanto, o avião há de ser francês, com registro original F-GIDE.

Uma breve pesquisa por F-GIDE no Airliners.net revela que, de fato, o trimotor do filme é o primeiro exemplar do Dassault Falcon 900, apresentado em Farnborough em 1988. Pode-se ver aí uma espécie de product placement por parte da distinta fabricante francesa.

Além disso, Bourne Identity tem duas cenas com truques de desaparecimento. A primeira, aos 0:09:45, mostra Bourne caminhando no porto quando uma camioneta passa entre ele e a câmera. No exato instante em que os dois passam um pelo outro, dois sujeitos caminham da esquerda para a direita a centímetros de distância da câmera, òbviamente encobrindo Bourne e a camioneta. Assim que os dois sujeitos saem da frente, vê-se a camioneta, ainda fazendo seu percurso, mas… Bourne sumiu!

Essa cena tem a evidente intenção de simbolizar o desaparecimento de Bourne no terreno: sem identidade, sem cartão de crédito, sem passaporte, não é possível rastreá-lo, não é possível saber onde ele está até que seja encontrado a centenas de quilômetros dali. Mas, mesmo assim, a técnica é surpreendente. Nos comentários ao DVD, o Diretor Doug Liman esclarece que não houve edição de vídeo nem efeitos de computador; foi tudo feito realmente diante das câmeras. Nesse caso, onde está o truque?

Pausando e exercendo um quadro-a-quadro, podemos ver uma esperta sequência: antes que os dois sujeitos apareçam para encobrir sua visão, você consegue perceber que Matt Damon e a camioneta estão muito próximos um do outro e que o ator está apenas alguns passos além dela. Os dois caminhantes cobrem sua vista porque é aí que o diretor vai desempenhar seu pequeno truque de mágica; eles fazem o mesmo papel de uma cortina no palco. Mas, em um fotograma isolado, conseguimos perceber as pernas de Damon. Prestando muita atenção a seu casaco vermelho, e olhando através dos vidros da camioneta, podemos ver que Damon sobe no lado de fora dela mas fica escondido, abaixado por trás do motorista e da cabine. Nos fotogramas seguintes, a camioneta desloca-se para a direita da tela e ele vai junto; no fim da sequência, Damon até mesmo começa a se levantar. O truque funciona porque, no início, ele estava caminhando para nossa esquerda, e a ponto de cruzar seu caminho com o da camioneta, de modo que temos a expectativa de vê-lo na continuação desse movimento, quando, na verdade, ele e a camioneta avançam para nossa direita, onde não esperamos vê-lo. Tal como em todo truque de ilusionismo, o mágico rompe com nossas expectativas, fazendo com que tudo ocorra em uma direção diferente daquela para onde estamos olhando.

Outro pequeno truque de desaparecimento ocorre aos 1:49:29: Bourne vem caminhando da direita para a esquerda, a câmera acompanha-o de modo a mantê-lo centralizado, e então a câmera pára. Como Bourne continua caminhando, òbviamente ele avança para fora do campo de visão. A câmera continua parada e então volta-se lentamente para o lado onde ele sumiu, supostamente para acompanhá-lo — exceto que, novamente, ele desapareceu. Esta é outra cena intencionalmente simbólica, indicando que Bourne se tornou novamente irrastreável e que agora pode estar em qualquer lugar, abaixo dos radares. Também aqui o diretor informa que tudo foi feito diante das câmeras, sem mais tecnologia. Este caso é fácil, e Liman esclarece que bastou Matt Damon correr para fora do campo de visão, mais rápido do que se podia acompanhá-lo.

Uma última observação é que, aos 1:50:10, o Vice-Diretor Abbott menciona o projeto Blackbriar. Neste filme, essa é uma menção genérica; poderia ser qualquer outra palavra, indicando apenas que Abbott está descrevendo projeto atrás de projeto, sendo Blackbriar o próximo na fila depois de Treadstone. Porém, quando assistimos ao terceiro filme da sequência, The Bourne Ultimatum, aprendemos que Blackbriar é o projeto que sucedeu a Treadstone. Nenhuma fala é perdida.

Agora em inglês:

In The Bourne Identity (the movie from 2002, with Matt Damon, not the one from 1988, with Richard Chamberlain), at the 1:35:30 mark, we see a CIA business jet, which Agent Conklin boards. The airplane is clearly a white, three-engined Dassault Falcon, bearing the manufacturer’s logo on the fin and the registration N-GIDE.

Well. Any Reader who is accustomed to aircraft registrations will know that, in the USA, they begin with the letter N but continue with algarisms, without a dash between the N and the algarisms. A sequence with a dash and four letters does not make sense in the American registry.

But one letter followed by a dash and four letters makes every sense in Europe, where British, German, Italian and French registries follow such pattern. Besides, we can see in the movie that the letter N is not painted directly on the fuselage as the other letters are; the N alone is printed on some removable coating that had been glued before the dash.

One does not need much intuition to realise that some other letter occupied that spot under the N. This being a Dassault airplane and, on top of it, bearing the manufacturer’s logo on the fin, we can imagine that the aircraft belongs to Dassault itself (and not to some company that would have loaned it to the studio). Therefore the airplane must be French, with original registration F-GIDE.

A quick search for F-GIDE at Airliners.net reveals that, as a matter of fact, the movie’s trimotor is the first example of the Dassault Falcon 900, displayed at Farnborough in 1988. One could see some product placement by the noted French manufacturer there.

Also, Bourne Identity has two scenes with disappearing acts. The first one, at 0:09:45, shows Bourne walking on the harbour when a small cargo truck passes between him and the camera. At the exact instant when Bourne and the truck pass by each other, two men walk from left to right, centimetres away from the camera, obviously hiding Bourne and the truck. As soon as the two men get out from your face, you can see the truck, still making its run onscreen, but… Bourne has vanished!

This scene has the evident intent of symbolising Bourne’s disappearance into the terrain: without an identity, without a credit card, without a passport, it is not possible to track him, it is not possible to know where he is until he is found hundreds of kilometres away. Even so, the technique is surprising. In the DVD commentary, Director Doug Liman makes it clear that there was neither video edition nor computer effects; everything was made on-camera. In this case, where is the trick?

By freezing and stepping frame by frame, we can see a smart sequence of events: before those two men appear to cover your view, you can notice that Matt Damon and the truck are very close to each other and that the actor is just a few steps beyond it. The two walkers cover your view because this is where the director will perform his little magic trick; they fulfill the same function of a curtain on stage. However, in an isolated frame, we can see Damon’s legs. By paying a lot of attention to his red coat, and by looking through the truck’s glass panes, we can see that Damon climbs on the vehicle’s outside but stays hidden, lowered behind the driver and the cabin. In the following frames, the truck runs to the right of the screen and he goes along with it; at the end of the sequence, Damon even starts to rise. The trick works because, at first, he was walking towards our left, and about to cross paths with the truck, so that we expect to see him proceeding on this movement, when in truth he and the truck are moving towards our right, where we do not expect to see him. Just as in any illusionist’s trick, the magician breaks our expectations, making everything happen in a direction divergent from the one we are looking in.

Another minor disappearing act takes place at 1:49:29: Bourne comes walking from right to left, the camera follows him in order to keep him centred, and then the camera stops. Since Bourne is still walking, he obviously steps outside the field of vision. The camera remains where it stopped and then turns slowly towards the side where he went out of sight, supposedly to continue following him — except that, again, he has disappeared. This is another intentionally symbolic scene, pointing out that Bourne has again become untrackable and that now he may be anywhere under the radars. Here, again, the director advises us that everything was done on camera, without any further technology. This is an easy case, and Liman explains that it was enough for Matt Damon to run out of sight, faster than the camera could follow him.

A last observation is that, at 1:50:10, Deputy Director Abbott mentions project Blackbriar. In this film, this is a generic reference; it could have been any other word, just to show that Abbott is describing project after project, Blackbriar being the next in line after Treadstone. However, when we watch the third movie in the sequence, The Bourne Ultimatum, we learn that Blackbriar is the project that has succeeded Treadstone. So much for throwaway lines.

EOF

Multiple contact points

Today I shall dabble in two different topics within the same overall subject, which is DC Comics’ super-hero comics. These two topics have a point of contact that deserves review, and this is why I have come here.

The first topic is the annuals. DC Comics issues its super-hero titles monthly. (Everything I say in this text is true as a rule in 2013, but the titles change over the years and my reading is still in 1996, so that the specific examples I give are from that year.) Thus, Superman’s continuing adventures are out in Action Comics, The Adventures of Superman and Superman; Batman’s in Detective Comics, Batman, Batman: Shadow of the Bat and The Batman Chronicles; other heroes are published in Wonder Woman, The Flash, Robin, Catwoman and many, many other titles that the lay public would not recognise, such as Nightwing, Azrael and Impulse.

Usually, each one of these series has twelve issues a year. The most popular of them are matched by other, yearly series, which are equivalent to special editions — as if they were thirteenth issues of the main title. These are the Annuals, as in Action Comics Annual, Batman Annual, Flash Annual. According to DC’s practice, the story that comes in an Annual is not a part of the storyline that is told over months in the main series; yet it is a part of the official chronology. Each Annual usually has more pages than the corresponding monthly title, and some have more than one story per issue.

In the 1990s, DC used to give the same theme to each year’s Annuals. For example, in 1991 all of them were interesting tie-ins to the Armageddon 2001 event. In 1994, all of them were Elseworlds stories. In 1996, all Annuals brought the subtitle “Legends of the Dead Earth”. Each one told a story that was not necessarily compatible with those of the other Annuals, but each writer was in charge of creating variations on the same theme: a distant future when planet Earth no longer exists. In this future, the hero from the regular title (not the one in the Annual) has been dead for centuries, but his or her memory lives on somehow, and another hero follows on his or her footsteps.

Batman Annual #20. Weak story.

Green Lantern Annual #5. Fun story.

Most of these Annuals turned out unimpressive. This is not exactly a surprise, seeing as that, according to Sturgeon’s Law, 90% of all cultural production is trash. It could not be otherwise: first, statistically it would not make sense that everything were good, and this is exactly why the word “mediocre” has ceased to mean just “average” and started to mean “bad”; second, by definition you will only notice that something is good because it stands out from the rest, and this is where the word “good” starts to have its meaning. If everything were good, you would not realise that it were good, nor would you, therefore, even be aware of the concept or have a name for it.

Precisely because of all this, when one of these Annuals turned out much better than the others, it drew my attention. I refer to Legionnaires Annual #3, which was one of the last Annuals of 1996, having been published along with December’s regulars. Differing from the other Annuals of 1996, this one had its story as an aftermath of another that took place in a main title.

This is where we hold the discussion of 1996’s Annuals and enter the second topic, which is the chronology of the many characters named “Flash”. As it is in the case of most any other DC super-hero, a full chronology would deserve lengthy explanations and due commentary. Unfortunately, because of the scope of this article, I will have to leave the treatment that the Flash deserves for a later date, because that would be too long an exposition, with too many details. Just you believe that everything I say hereunder has a fascinating, minutiae-ridden story behind it, and do yourself the favour of researching it, because there are lots of effort and creativity involved. For now, let us move on.

Follow me. Historically, the nickname “The Flash” was first attributed to a character called Jay Garrick who had acquired super-speed. This Flash’s stories were published from 1940 to 1949, during the Golden Age of comics, and then his monthly book Flash Comics ceased to be published. Maybe you still remember him: red shirt, blue trousers, helmet, maskless.

Jay Garrick, the first Flash. I tried to use Wikipedia’s image, but WordPress will not allow it. So go there and type “Jay Garrick”.

In 1956, DC Comics revamped the concept and launched a new character named Flash. This time, the runner was an often-late police chemist called Barry Allen, who was gifted with his superpower when struck by a lightning in the Chemistry lab. This second Flash gave continuity to Flash Comics and today is considered to be the character who gave DC’s Silver Age of comics its start.

The second Flash, Barry Allen

This is the Flash who became famous, whom readers came to love and whom the lay public is aware of. He is the epitome of the good-hearted hero willing to sacrifice his own life to save the others’ — in some cases even more so than Superman himself, who is considered the archetypal super-hero for all his physical and psychological traits.

In 1961, with the publication of The Flash #123 and its story “Flash of Two Worlds!”, writer Julius Schwartz brought forth the concept that, in my view, is the most ingenious and mind-stimulating idea in the whole DC Universe: the notion of parallel universes where the heroes have counterparts who are like different versions of the same person. With this issue, it was retroactively established that the old Flash (Jay Garrick) kept on existing despite no longer being published. It is just that his adventures took place in another universe, in so-called Earth-2. By jumping dimensions, Barry Allen meets Jay Garrick, declaring himself his admirer and follower.

The Flash #123, a classic issue. This story changed the whole DC universe. An original copy is worth more than a thousand dollars, but, fortunately, it is easy to find reprints.

In the following years of the Silver Age, we learned that all the heroes who had been published during the Golden Age (from 1938 to 1951), including Superman, Batman and Wonder Woman, were a part of Earth-2, while the heroes that were being published from 1955 were set in Earth-1 (in Brazil, “Active Earth”). Thus there were two Supermen, two Batmen, two Wonder Women, two Green Lanterns (one of them being Alan Scott, the other Hal Jordan), two Flashes etc., one of each on each Earth. The vast majority of DC’s regular titles told the adventures on Earth-1, but, in the 80s, some titles started to tell of adventures that continued on Earth-2, outside of DC’s main chronology. The meetings of heroes from the two universes were much celebrated, especially those in the anxiously anticipated stories that were out once a year in the regular issues of Justice League of America.

(Incidentally, the variety of Earths in many universes only became one of DC’s relevant topics in the miniseries [or so-called “maxiseries”] Crisis on Infinite Earths, in 1985-1986. This lengthy story, written by Marv Wolfman and wonderfully pencilled by George Pérez, redefined the whole DC Universe, with a fundamental impact on the chronology of every character and permanent effects that are discussed to this day. At the time, its purpose was to extinguish the multiverse, kill off many characters and gather the survivors in a sole, streamlined universe. Over the years, the idea of a multiverse has come back, since it was too good to be wasted, but it would only become a main theme of discussion again in the period 2006-2008, with Infinite Crisis and Final Crisis.)

In 1984-1985, the monthly The Flash threw Barry Allen to the 30th century, in a long and complex storyline where he never went back to his original time. When the Crisis on Infinite Earths came about, Barry made the final sacrifice to save the many Earths, but no one witnessed his death. According to George Pérez, Barry was chosen to be a martyr because the idea of a DC multiverse had begun with him, therefore also with him this multiverse would end.

Barry Allen’s final sacrifice, saving DC’s universes in his last race.

Then, in a turn of events which was very controversial at the time and which attracted the fury of many a fan, not only did Barry stay dead definitively(*) (which never happens to any comic book character, but finally happened to him) but also he was succeeded by Wally West, the nephew of his wife. Wally was an old acquaintance of the readers’, because he had undergone the same kind of freak accident as Barry had before him (yeah, writers could be less creative during the Silver Age) and, for a good time, followed in the footsteps of his beloved and admired uncle-by-marriage as Kid Flash, having, by the way, been a part of the Teen Titans and of the New Teen Titans. With Barry’s passing, Wally became the third Flash.

Kid Flash (Wally West during the Silver Age)

At the end of the Crisis, Wally takes on the legacy of his uncle-by-marriage.

Wally West as the third Flash, after the Crisis.

[Parenthetical: the 1990 short-lived TV series The Flash told the adventures of Barry Allen, whose origins and profession matched those of the Barry Allen from the Silver Age comics. However, the Flash from this TV series had the personal traits and metabolic characteristics of Wally West, who already was the Flash in the comics of the time. I assume that these choices were made to join Wally’s popularity to the knowledge by an older public of laymen in relation to the only Flash that they probably knew, who had been the longer-standing Barry Allen (who had been active for thirty years up to 1986), in comparison to then-upstart Wally West (active for only four years up to that point).]

In 1994-1996, the monthly The Flash was written by brilliant Mark Waid, Author of the masterpiece Kingdom Come and one of the writers who best understand and respect their characters. Waid wrote many stories where he rounded up the many super-speedsters of the DC universe, and I love stories that join up variations on the same character. In particular, Waid’s stories on this motif are excellent and inspired. Besides, at the time when he was writing the Flash, Waid raised this character’s superpower to something greater than him, inserting Wally into a continuity where a single force in the universe was the moving source of all the super-speedsters. Suddenly, the Flash’s superpower was no longer unique, and it was revealed that it was derived from an energy field which common mortals were incapable of reaching: the Speed Force. In Waid’s hands, the Flash became sort of a Jedi knight of speed, a privileged man who, just like Neo in The Matrix and Luke Skywalker in Star Wars, had access to understanding hidden meanings in reality and to perceiving universe, time and space with a zen sense of unity. The Speed Force has the effect of a power that is neither magical nor, however, understood or even noticed by humans, an energy that permeates the universe and which only the super-speedsters are able to explore. Therefrom spring some very interesting stories where we can see the world in slow-motion through the eyes of the scarlet racer as Wally gradually finds out that his speed power brings many side benefits, such as time travel and the possibility of giving other people a “ride” on his speed. Also, writer Waid treated Barry Allen’s memory with religious reverence, endowing Wally with the desire to better know the destiny of his uncle in the 30th century and to contact the expanded reality which had fed Barry and which only now became visible to himself.

At the beginning of 1996, The Flash told the many-part Dead Heat story arch, where Wally strove to stop the villain Savitar from disabling all heroes whose superpower is their speed: Wally himself, Jay Garrick, young Impulse (Bart Allen, a grandson of Barry’s, born in the 30th century), Johnny Quick, his daughter Jesse Quick, wise Max Mercury (a time-traveling speedster revamped by Waid, born in the Old West and, already at a certain age, a mentor for the other speedsters) and some others. In order to beat Savitar, Wally had to accelerate in a way that had never been demanded of him, entering the timestream and, out of control, traveling to the 64th century.

In the Race Against Time! story arch, after defeating Savitar and already in the second half of 1996, Wally tries to return to his time in successive jumps back the centuries. One character who helps him is John Fox, the Flash of the 27th century, heir to the mantle out of inspiration by the memory of both Barry and Wally.

Following the continuity of stories, I am now in (or at) December 1996, at the point where Wally manages to return to the 20th century. It just so happens that, when he was still fighting Savitar earlier in the year, Wally was helped by a racer codenamed XS, who, by the way, is also Barry Allen’s granddaughter born in the 30th century (and Bart’s cousin). In Dead Heat, XS had gone back in time, from her 30th to the 20th century, along with her colleagues from the Legion of Super-Heroes, and had become stuck here. Just like Wally resorts to using the Speed Force to come back from the future to the present (and ultimately succeeds), XS attempts to jump in the opposite direction, from the present to the future (which is “her present”). In the 1996 issues of the monthly The Flash, the young heroine XS is just a supporting character, and there comes a moment (in the first chapter of Race Against Time!, The Flash #112, April 1996) when John Fox and Jay Garrick give her a hand in time-jumping. XS disappears, the Reader is led to assume that she has managed to get home, and the story turns its focus back onto the Flash, his misfortunes and his own happy return.

And this is where, always in the effort to read everything in the original publication order, I arrived at Legionnaires Annual #3. This is where the two topics touch. Having read the other annuals of 1996, I had assumed this issue to be in the Sturgeon’s Law’s 90% portion. To my very grateful surprise, I then discovered that I had been wrong! The story starts out by showing what happened to XS when, with the help of Fox and Garrick, she launches into the timestream. Thereafter she feels attracted by a focal point, leaves the timestream and finds herself already in the 30th century, but still a long way from the point she was trying to reach. She realises that the point which attracted her was the assembly of a time-travel device by the hands of… Barry Allen! Ever since the stories published in 1986, I do not recall having seen any new story with Barry Allen that was not some retrospective or otherwise a story set in the Silver Age, when he was the titular Flash. As far as I know, this is the FIRST story where Barry appears while, for the reader, “today’s Flash” already is Wally West. Unfortunately for XS, Barry is still too young, does not even have any children and, therefore, does not recognise her. Still, this is a moving moment, because XS sees the opportunity to meet her grandfather, who was already deceased when she was born. The scene could even have been a tear-bringer, I would not mind. But the two of them do not know each other, so what remains is that deep admiration and XS’s feeling that she is beholding a historic icon, one of the greatest heroes of them all, in a lonely, introspective moment — and he is her grandfather!…

Barry gives XS the privilege and the honour of running along with him and then works as a catapult for her, sending her again into the timestream. This time, XS ends up in the 100th century, where she learns that Earth is no longer (this being the common point with the other annuals of 1996, Legends of the Dead Earth), as the Legion of Super-Heroes is no longer either. On the planet Almeer-5, humanity is oppressed by the villain Nevlor, who has imprisoned the few remaining metahumans. One of the heroes in jail is Avatar, who wields the ancient Spear of Destiny, which can only be raised by those worthy of it. Her outfit resembles those of Jack Kirby’s gods, particularly that of Marvel’s Thor, whose hammer Mjölnir only those worthy are able to raise. Another heroine is Melissa Trask (an anagram of “Stark”, get it?), who is a brilliant electronics engineer and has crafted a flying armour that fires bolts from its hands (just like Iron Man’s armour…). The third hero is Robert “Bob” Brunner (just as Robert Bruce Banner, right?), who, thanks to an energy transfer (gamma rays?), has transformed into a megamuscular blue giant (not green, OK?). His clothes are torn and he is left in his shorts as he throws puny humans about. The last hero, said to be the greatest of all in the 100th century, does not have any superpower, but has arrived there in suspended animation to lead them with his winged helmet and his star-chested uniform (just like, let us see, a certain Captain America…). With XS’s help, the heroes escape and regroup in a new secret base built by Stark Trask, the Avengers Mansion. You may note that the words “Almeer” and “Nevlor” contain the letters of “Marvel” and (Stan) “Lee”.

Receiving new assistance from this “Avenger” Legion of the 100th century, XS again enters the timestream, but, instead of getting home, she ends up at the Vanishing Point, the Linear Men‘s space base, located statically in a parallel dimension during the last time instant before the end of the universe. Sometimes the Vanishing Point appeared in DC’s stories from the 90s, including the miniseries Zero Hour. There XS meets the Time Trapper, a villain from the Legion of Super-Heroes’s stories — whom she did not know of, since there were no confrontations with him after she joined the Legion. The Time Trapper commands the timelines, which he often manipulates in order to change events in his own favour, but, in this brief encounter, he introduces himself to XS as someone who behaves as such to the benefit of the human race, as opposed to the Linear Men, who patrol timelines against interference and, among other things, stop planet Earth from being saved from destruction. Under this point of view, the Time Trapper is the hero! Before he sends her back to the 30th century, XS gets to witness the events of Zero Hour from the Linear Men’s perspective. Though she does not understand what is going on (as she is a character created by Mark Waid after the publication of Zero Hour), the Reader can recognise several speeches by the Linear Men, by Waverider and by the Atom, as well as the Atom’s death, which was one of the outcomes of that miniseries. The writer never makes it explicit that what we are looking at is Zero Hour, but leaves the conclusion very much available whilst we can observe the same happenings from a different viewpoint.

Curiously, the story in Legionnaires Annual #3 was scripted not by consistent, careful Mark Waid, but by Roger Stern. It is so coherent, so well fitting in the DC universe, so in line with the Flash’s tales to which it connects, so perfectly elegant before the chronologies of Zero Hour and of the Legion of Super-Heroes, that one would think that Waid were its true Author. The adherence to continuity and the respectful (as opposed to mocking) treatment of Marvel’s heroes indicate a connection of affection to the comics that we typically see in Waid’s work. Here I leave my compliments to the excellent job accomplished, not only by him who wrote but also by those who drew (Tony Castrillo, Chuck Wojtkiewicz and Dan Jurgens, the last of whom pencilled the “Zero Hour” sequence and had also been the penciller for the original Zero Hour miniseries) and especially those who edited (Ruben Díaz and KC Carlson, who had been one of Zero Hour‘s editors).

(*) Yes, I am partially aware of the effective return of Barry Allen after the Final Crisis. As I said, my reading is in 1996 and, at this point, DC stands by its intent to keep Barry definitively dead.

EOF

Múltiplos pontos de contato

Hoje tratarei de dois tópicos diferentes dentro de um mesmo assunto, que são os quadrinhos de super-heróis da DC Comics. Os dois tópicos têm um ponto de contato que merece resenha, e foi por isso que vim aqui.

O primeiro tópico são edições anuais. A editora DC Comics publica mensalmente os títulos que trazem as histórias com seus super-heróis. (Tudo que digo neste texto é verdade como regra em 2013, mas os títulos mudam com o correr dos anos e minha leitura ainda está em 1996, de modo que os exemplos específicos que dou são daquele ano.) Então, as contínuas aventuras do Super-Homem saem em Action Comics, The Adventures of Superman e Superman; as do Batman, em Detective Comics, Batman, Batman: Shadow of the Bat e The Batman Chronicles; outros heróis saem em Wonder Woman, The Flash, Robin, Catwoman e muitos, muitos outros títulos que o público leigo não reconheceria, como Nightwing, Azrael e Impulse.

Normalmente, cada uma dessas séries tem doze edições por ano. As mais populares são acompanhadas de outras séries com periodicidade anual, que, na prática, equivalem a edições especiais — como se fosse uma décima-terceira edição do título principal. São os Annuals, como Action Comics Annual, Batman Annual, Flash Annual. Pela prática mais comum da editora, a história que vem em um Anual não integra a sequência da história que está sendo contada ao longo dos meses na série principal; mas, mesmo assim, faz parte da cronologia oficial. Cada Anual costuma ter mais páginas do que o título regular correspondente, e alguns têm mais de uma história por edição.

Nos anos 90, a DC costumava dar um mesmo tema aos Anuais de cada ano. Por exemplo, em 1991, todos foram interessantes histórias vinculadas ao evento Armageddon 2001. Em 1994, todos foram histórias do tipo Elseworlds. Já em 1996, todos os Anuais traziam o subtítulo “Legends of the Dead Earth”. Cada um contava uma história que não era necessàriamente compatível com as dos outros Anuais, mas a cada roteirista a editora incumbiu de criar uma variação sobre o mesmo tema: um futuro distante onde o planeta Terra não existe mais. Nesse futuro, o herói publicado pelo título regular (não o do Anual) já morreu há séculos, mas sua memória sobrevive de algum modo, e outro herói segue sua tradição.

Batman Annual #20. História fraca.

Green Lantern Annual #5. História divertida.

Na sua maioria, esses Anuais ficaram ruins. Isso não é exatamente uma surpresa, já que, de acordo com a Lei de Sturgeon, 90% de toda a produção cultural é lixo. Não poderia ser de outro modo: primeiro que, estatìsticamente, não faria sentido que tudo fosse bom, e é justamente daí que a palavra “medíocre” deixou de significar apenas “médio” e passou a significar “ruim”; segundo que, por definição, você só repara que alguma coisa é boa porque ela se destaca do resto, e é daí que a palavra “bom” passa a ter significado. Se tudo fosse bom, você não perceberia que fosse bom, nem, portanto, teria sequer o conceito ou um nome para ele.

Justamente por tudo isso, quando um desses Anuais ficou bem melhor do que os outros, ele chamou minha atenção. Refiro-me a Legionnaires Annual #3, que foi um dos últimos Anuais de 1996, tendo sido publicado junto com os regulares de dezembro. Diferente dos outros Anuais de 1996, este fez sua história como continuação de outra que acontecia em um título principal.

É nesse momento que suspendemos a discussão dos Anuais de 1996 e entramos no segundo tópico, que é a cronologia dos vários personagens chamados “Flash”. Tal como no caso de qualquer outro super-herói da DC, uma cronologia completa mereceria extensas explicações e os devidos comentários. Infelizmente, diante do escopo desta discussão, vou ter que ficar devendo o tratamento que o Flash merece, porque seria uma exposição muito longa, com muitos detalhes. Apenas acredite que tudo que eu digo a seguir tem uma história fascinante e minuciosa por trás, e faça a si mesmo o favor de pesquisá-la, porque há muito esforço e muita criatividade envolvidos. Por ora, prossigamos.

Acompanhe. Històricamente, o epíteto “The Flash” foi atribuído a um personagem chamado Jay Garrick que havia adquirido supervelocidade. As histórias desse Flash foram publicadas de 1940 até 1949, durante a Era de Ouro dos quadrinhos, e então sua revista Flash Comics deixou de ser publicada. Talvez você ainda se lembre dele: camisa vermelha, calça azul, capacete, sem máscara.

Jay Garrick, o primeiro Flash. Tentei usar a imagem da Wikipedia, mas o WordPress não aceita. Então vá na Wikipedia (em inglês, por favor) e jogue “Jay Garrick”.

Em 1956, a DC Comics reformulou o conceito e lançou um novo personagem com o nome de Flash. Desta vez, o corredor era um químico forense e atrasildo contumaz chamado Barry Allen, que adquiriu seu superpoder ao ser atingido por um raio no laboratório. Este segundo Flash deu continuidade a Flash Comics, sendo hoje considerado o personagem que inaugurou a Era de Prata dos quadrinhos na DC.

O segundo Flash, Barry Allen

Esse é o Flash que ganhou fama, que os leitores passaram a amar e que o público leigo conhece. Ele é a epítome do herói de bom coração disposto a sacrificar a própria vida para salvar a dos outros — em alguns casos mais do que o próprio Super-Homem, que é considerado o arquétipo do super-herói por todos os seus aspectos físicos e psicológicos.

Em 1961, com a edição The Flash #123 e sua história “Flash de dois mundos”, o roteirista Julius Schwartz trouxe o conceito que, a meu juízo, é o mais genial e estimulante de mentes em todo o Universo DC: a noção de universos paralelos onde os heróis têm contrapartes que são como diferentes versões da mesma pessoa. Com essa edição, ficou retroativamente declarado que o antigo Flash (Jay Garrick) continuava existindo apesar de ter deixado de ser publicado. É que suas aventuras aconteciam em outro universo, na assim chamada Terra-2 (no Brasil, “Terra Paralela”). Exercendo um salto dimensional, Barry Allen encontra Jay Garrick, declarando-se seu admirador e imitador.

The Flash #123, uma edição clássica. Esta história mudou todo o universo DC. Um exemplar original custa mais de mil dólares, mas, felizmente, é fácil encontrar reimpressões.

Nos anos subsequentes da Era de Prata, aprendemos que todos os heróis que haviam sido publicados durante a Era de Ouro (de 1938 a 1951), inclusive Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha, faziam parte da Terra-2, enquanto os heróis que estavam sendo publicados desde 1955 estavam ambientados na Terra-1 (no Brasil, “Terra Ativa”). Logo, havia dois Super-Homens, dois Batmen, duas Mulheres-Maravilhas, dois Lanternas Verdes (sendo um deles Alan Scott e o outro Hal Jordan), dois Flashes etc., um de cada em cada Terra. A grande maioria dos títulos regulares da DC contavam as aventuras da Terra-1, mas, nos anos 80, alguns títulos passaram a contar as aventuras que continuavam na Terra-2, fora da cronologia principal da DC. Eram muito comemorados os encontros de heróis dos dois universos, especialmente nas ansiosamente esperadas histórias que saíam uma vez por ano nas edições regulares de Justice League of America.

(Incidentalmente, a variedade de Terras em vários universos só veio a se tornar um dos pontos relevantes da DC na minissérie Crise nas infinitas Terras, em 1985-1986. Essa extensa história, escrita por Marv Wolfman e maravilhosamente desenhada por George Pérez, redefiniu todo o Universo DC, com um impacto fundamental na cronologia de todos os personagens e efeitos permanentes que são discutidos até hoje. Na época, seu propósito era extinguir o multiverso, matar vários personagens e reunir os sobreviventes em um universo único e simplificado. Com o correr dos anos, a ideia de multiverso voltou, já que era boa demais para ser desperdiçada, mas ela só voltaria a ser tema principal de discussão no período 2006-2008, com Crise infinita e Crise final.)

Em 1984-1985, a revista The Flash lançou Barry Allen ao século 30, em uma longa e complexa história onde ele nunca mais voltou a sua época original. Quando houve a Crise nas Infinitas Terras, Barry fez o sacrifício final para salvar as várias Terras, mas ninguém testemunhou sua morte. De acordo com George Pérez, Barry foi escolhido para mártir porque com ele havia começado a ideia do multiverso na DC, portanto também com ele se extinguia esse multiverso.

O sacrifício final de Barry Allen, salvando os universos da DC em sua última corrida.

Então, em uma reviravolta que foi bastante controversa na época e atraiu a fúria de vários fãs, não apenas Barry ficou morto definitivamente(*) (o que nunca acontece com personagem nenhum de quadrinhos, mas finalmente aconteceu com ele) como foi sucedido por Wally West, sobrinho de sua esposa. Wally já era conhecido dos leitores, porque havia sofrido o mesmo tipo de acidente de Barry (pois é, os roteiristas eram menos criativos na Era de Prata) e, durante um bom tempo, seguiu os passos de seu amado e admirado tio-afim como Kid Flash, tendo, aliás, feito parte dos Titãs e dos Novos Titãs. Com a morte de Barry, Wally passou a ser o terceiro Flash.

Kid Flash (Wally West durante a Era de Prata)

Ao fim da Crise, Wally assume o legado do tio-afim.

Wally West como o terceiro Flash, após a Crise.

[Parêntese: a série de TV The Flash, que teve vida curta em 1990, contava as aventuras de Barry Allen, cujas origem e profissão coincidiam com as de Barry Allen nos quadrinhos da Era de Prata. Entretanto, o Flash dessa série de TV tinha as características pessoais e o metabolismo de Wally West, que já era o Flash nos quadrinhos da época. Suponho que essas escolhas tenham sido feitas para aliar a popularidade de Wally ao conhecimento do público mais velho e mais leigo em relação ao único Flash que provàvelmente conheciam, que era o mais duradouro Barry Allen (ativo por trinta anos até 1986), em comparação com o então novato Wally West (ativo por apenas quatro anos até ali).]

Em 1994-1996, o título The Flash era escrito pelo brilhante Mark Waid, Autor do clássico Kingdom Come (Reino do amanhã) e um dos roteiristas que mais compreendem e respeitam seus personagens. Waid escreveu várias histórias onde reuniu os diversos supervelocistas do universo DC, e eu adoro histórias que reúnem as variações do mesmo personagem. Em particular, são excelentes e inspiradas as histórias que Waid escreveu com esse mote. Além disso, no tempo em que escreveu o Flash, Waid elevou o superpoder do personagem a algo maior do que ele, inserindo Wally em uma continuidade onde uma só força do universo era a fonte motora de todos os supervelocistas. Sùbitamente, o superpoder do Flash deixava de ser único, e revelou-se que era derivado de um campo de energia que os mortais comuns não seriam capazes de atingir: a Speed Force. Nas mãos de Waid, o Flash tornou-se uma espécie de cavaleiro Jedi da velocidade, um privilegiado que, tal como Neo em Matrix e Luke Skywalker em Star Wars, tinha acesso a compreender significados ocultos na realidade e a perceber universo, tempo e espaço com um senso zen de unicidade. A Speed Force tem o efeito de uma força que não é mágica mas tampouco é compreendida ou sequer percebida pelos humanos, sendo uma energia que permeia o universo e que sòmente os supervelocistas conseguem explorar. Saem daí algumas histórias interessantíssimas onde conseguimos enxergar o mundo em câmera lenta através dos olhos do corredor escarlate à medida em que, aos poucos, Wally descobre que seu poder de velocista traz várias utilidades colaterais, como a viagem no tempo e a possibilidade de dar “carona” em sua velocidade para outras pessoas. Além disso, o roteirista Waid tratou a memória de Barry Allen com uma reverência religiosa, criando em Wally o desejo de conhecer melhor o destino de seu tio-afim no século 30 e de ter contato com a realidade ampliada que havia alimentado Barry e que sòmente agora se fazia visível para ele.

No início de 1996, The Flash contava o arco Dead Heat, em várias partes, onde Wally se esforçava por impedir que o vilão Savitar desabilitasse todos os heróis cujo superpoder é a corrida: o próprio Wally, Jay Garrick, o jovem Impulso (Bart Allen, neto de Barry, nascido no século 30), Johnny Quick, sua filha Jesse Quick, o sábio Max Mercúrio (um velocista revitalizado por Waid, nascido no Velho Oeste, viajante do tempo e, já com uma certa idade, mentor dos outros velocistas) e alguns outros. Para vencer Savitar, Wally teve que acelerar de um modo que nunca lhe fôra exigido, entrando na correnteza do tempo e, sem controle, viajando para o século 64.

Na sequência Race Against Time!, após a vitória sobre Savitar e já no segundo semestre de 1996, Wally tenta voltar para sua época em sucessivos saltos que vão retrocedendo ao longo dos séculos. Um dos personagens que o auxiliam é John Fox, o Flash do século 27, herdeiro do manto inspirado na memória de Barry e de Wally.

Na continuidade das histórias, estou em dezembro de 1996, no ponto em que Wally consegue voltar ao século 20. Acontece que, ainda na luta contra Savitar no início do ano, Wally havia sido auxiliado por uma corredora de codinome XS (lê-se “excess”), que aliás também é uma neta de Barry Allen nascida no século 30 (e prima de Bart). Em Deat Heat, XS havia voltado no tempo, de seu século 30 para o século 20, juntamente com seus colegas da Legião dos Super-Heróis, e havia ficado presa aqui. Assim como Wally passa a usar a Speed Force para voltar do futuro para o presente (e afinal consegue), XS tenta saltar em sentido contrário, do presente para o futuro (que é o “presente dela”). No título The Flash, nas edições de 1996, a jovem heroína XS é apenas um personagem coadjuvante, e chega um momento (no primeiro capítulo de Race Against Time!, The Flash #112, abril de 1996) em que John Fox e Jay Garrick a auxiliam a dar um salto no tempo. XS desaparece, o Leitor é levado a presumir que ela tenha conseguido voltar para casa, e a história volta seu foco para o Flash, suas desventuras e seu retorno feliz.

E foi aí que, sempre tentando ler tudo na ordem de publicação original, cheguei a Legionnaires Annual #3. É aqui que os dois tópicos se tocam. Tendo lido os outros anuais de 1996, eu havia presumido que esta edição estivesse na porção de 90% da Lei de Sturgeon. Para minha gratíssima surpresa, descobri que estava enganado! A história começa mostrando o que aconteceu a XS quando, auxiliada por Fox e Garrick, consegue projetar-se à correnteza do tempo. Na sequência, ela se sente atraída por um ponto focal, sai da correnteza e descobre-se já no século 30, mas ainda muito antes do ponto aonde queria chegar. Ocorre que o ponto que a atraiu foi a construção de um dispositivo de viagem no tempo pelas mãos de… Barry Allen! Desde as histórias publicadas em 1986, não me lembro de ter visto nenhuma história nova com Barry Allen que não fosse alguma retrospectiva ou, de outro modo, alguma história ambientada na Era de Prata, quando ele era o Flash titular. Até onde sei, esta é a PRIMEIRA história onde Barry aparece ao mesmo tempo em que, para o leitor, o “Flash atual” já é Wally West. Infelizmente para XS, Barry ainda é muito jovem, não tem sequer filhos e, portanto, não a reconhece. Mesmo assim, o momento é emocionante, porque XS se vê na oportunidade de conhecer seu avô, que já era falecido quando ela nasceu. A cena poderia ter sido até pungente, eu não me importaria. Mas os dois não se conhecem, então o que fica é aquela profunda admiração e o sentimento de XS de que está diante de um ícone histórico, um dos maiores heróis de todos, em um momento solitário de introspecção — e ele é seu avô!…

Barry dá a XS o privilégio e a honra de correr com ele e então consegue servir como catapulta para ela, novamente a lançando na correnteza do tempo. Desta vez, XS vai parar no século 100, onde descobre que a Terra já não existe (é aqui o ponto em comum com os outros anuais de 1996, Legends of the Dead Earth), assim como já não existe a Legião dos Super-Heróis. No planeta Almeer-5, a humanidade é oprimida pelo vilão Nevlor, que aprisionou os poucos meta-humanos restantes. Um dos heróis presos é Avatar, que empunha a milenar Lança do Destino, a qual só pode ser levantada pelos dignos. Seu traje assemelha-se aos dos deuses de Jack Kirby, em particular ao de Thor, da Marvel, cujo martelo Mjölnir sòmente os dignos podem levantar. Outra heroína é Melissa Trask (anagrama de “Stark”, pegou?), que é uma brilhante engenheira eletrônica e criou uma armadura que voa e dispara raios das mãos (tal como a do Homem de Ferro…). O terceiro herói é Robert “Bob” Brunner (como Robert Bruce Banner, certo?), que, graças a uma transferência de energia (raios gama?), transformou-se em um megamusculoso gigante azul (e não verde, OK?). As roupas se rasgam e ele fica só de calção e arremessa homenzinhos. O último herói, dito o maior de todos do século 100, não tem superpoderes, mas chegou ali em animação suspensa para liderá-los, com seu capacete com asinhas e seu traje com uma estrela no peito (tal como, vejamos, um certo Capitão América…). Com a ajuda de XS, os heróis escapam e se reúnem em uma nova base secreta construída por Stark Trask, a Mansão dos Vingadores. Observe que as palavras “Almeer” e “Nevlor” contêm as letras de “Marvel” e (Stan) “Lee”.

Recebendo nova ajuda dessa Legião “Vingadora” do século 100, XS consegue entrar novamente na correnteza do tempo, mas, em vez de voltar para casa, vai parar no Ponto de Fuga, a base espacial dos Homens Lineares, situada estàticamente em uma dimensão paralela durante o último instante de tempo antes do fim do universo. Às vezes o Ponto de Fuga aparecia nas histórias da DC dos anos 90, inclusive na minissérie Zero hora. Ali, XS encontra o Senhor do Tempo (Time Trapper), um vilão das histórias da Legião dos Super-Heróis — que, porém, ela não conhecia, porque não houve confrontos com ele depois que ela passou a integrar a Legião. O Senhor do Tempo tem domínio das linhas de tempo, que muitas vezes manipula para alterar eventos a seu favor, mas, neste breve encontro, ele se apresenta a XS como alguém que age assim a benefício da raça humana, em contraposição aos Homens Lineares, que patrulham as linhas de tempo contra interferências e, entre outras coisas, impedem que o planeta Terra seja salvo da destruição. Sob essa óptica, o Senhor do Tempo é que é o herói! Antes que ele a envie de volta ao século 30, XS consegue testemunhar os eventos de Zero Hora sob a perspectiva dos Homens Lineares. Embora ela não entenda o que está acontecendo (pois é uma personagem criada por Mark Waid após a publicação de Zero hora), o Leitor consegue reconhecer diversas falas dos Homens Lineares, de Waverider e do Átomo, assim como a morte do Átomo, que foi um dos desdobramentos da minissérie. O roteirista nunca explicita que é o Zero Hora que estamos vendo, mas deixa a conclusão bem disponível enquanto conseguimos observar os mesmos acontecimentos sob uma perspectiva diferente.

Curiosamente, a história de Legionnaires Annual #3 não foi escrita pelo consistente e cuidadoso Mark Waid, mas por Roger Stern. É uma história tão coerente, tão bem encaixada no universo DC, tão alinhada com as histórias do Flash às quais está ligada, tão perfeitamente elegante diante das cronologias de Zero Hora e da Legião dos Super-Heróis, que você pensaria que Waid fosse o verdadeiro Autor. A obediência à continuidade e o tratamento respeitoso (e não debochado) dos heróis da Marvel mostram um vínculo afetivo aos quadrinhos que tìpicamente vemos na obra de Waid. Fica o elogio ao excelente trabalho, não só de quem escreveu como de quem desenhou (Tony Castrillo, Chuck Wojtkiewicz e Dan Jurgens, o último dos quais foi quem desenhou o trecho “Zero Hora” e fôra também o desenhista da minissérie Zero Hora original) e, especialmente, de quem editou (Ruben Díaz e K.C. Carlson, que fôra editor de Zero Hora).

(*) Sim, estou parcialmente ciente do efetivo retorno de Barry Allen após a Crise Final. Como eu disse, minha leitura está em 1996 e, neste ponto, permanece a intenção da DC de manter Barry morto definitivamente.

EOF

As séries amadoras de Jornada nas Estrelas: status em 2013

Esta postagem é a atualização de uma outra que publiquei em 2009. Update: ao final, há uma pequena nova atualização, feita em 2016.

Com a tecnologia digital e o barateamento dos meios de produção, tem-se multiplicado um tipo de criação muito peculiar entre os trekkers: os fan films. Então, meia dúzia de integrantes de um fã-clube decide juntar seus recursos, sua pouca ou nenhuma habilidade e, doando seu tempo e seu dinheiro, divertem-se criando seus próprios episódios de Jornada nas Estrelas, que depois lançam na Web. O que me surpreende (mas não deveria) é que a quantidade dessas produções tem aumentado.

O resultado tem chamado minha atenção. São obras amadoras, mas apresentam valores de produção que estão ao mesmo nível do que era produzido nos anos 60 ou que é produzido hoje. Em vários casos, os atores são de fato profissionais, e as filmagens acontecem no interior de estúdios, em cenários que são reconstruções impressionantes da ponte de comando da Enterprise original. Os efeitos sonoros e a trilha musical estão perfeitamente sincronizados com a ação. Com as câmeras e computadores atuais, os episódios são rodados em HD e contam com tomadas espaciais que fariam inveja às equipes de produção da série original naqueles tempos de barro fofo e pedra lascada. Esse é o caso, especìficamente, de Star Trek: Hidden Frontier, Starship Farragut e Star Trek: Phase II, que me parecem as mais célebres (mas certamente não são as únicas, como uma googlada lhe permitirá descobrir).

Nos Estados Unidos, é muito comum que os fã-clubes de Jornada nas Estrelas se organizem no formato de naves espaciais. Em 1999-2000, o fã-clube USS Angeles, situado em Los Angeles, produziu cinco episódios de uma série à qual deu o nome Voyages of the USS Angeles e que contava as aventuras de uma tripulação da mesma época de Jornada nas Estrelas: a Nova Geração. Os personagens tinham os mesmos nomes dos atores e a produção era tosca, mas você via que estavam se divertindo. Mais tarde, houve uma dissensão no grupo, e alguns integrantes, sob a liderança do cineasta iniciante Rob Caves, iniciaram uma série que era continuação de Voyages, repetindo vários personagens e aproveitando a linha de histórias que havia sido iniciada ali. A nova série ganhou o nome de Star Trek: Hidden Frontier.

Em Hidden Frontier, o cenário é a nebulosa em torno do planeta Ba’ku, do filme Star Trek: Insurrection. Como premissa da série, a Federação instala a base estelar Deep Space 12 na fronteira da nebulosa e designa algumas naves estelares para patrulharem a região, entre elas a USS Independence e a USS Excelsior — não a mesma do Capitão Sulu, mas uma integrante da classe Galaxy com três naceles. O comando de DS12 é passado para um comodoro veterano da guerra contra o Dominion. Entre os muitos personagens da série está Shelby, a ousada tenente-comandante de “The Best of Both Worlds”, que, interpretada pela estudante de teatro Risha Denney, vai sendo promovida, primeiro a capitão (comandando a Excelsior) e depois a almirante. Também é recorrente a Almirante Nechayev, velha conhecida do Capitão Picard em diferentes episódios da Nova Geração, e um dos personagens fixos é Robin Lefler, que era alferes e havia sido interpretada por Ashley Judd em dois episódios daquela série. Passados tantos anos, Lefler (agora interpretada por duas diferentes atrizes) é tenente-comandante e engenheira-chefe da Excelsior.

Hidden Frontier durou sete temporadas, ganhando sua própria mitologia, complexidade crescente e valores de produção em aprimoramento contínuo. Com tanta longevidade, é compreensível que tenha havido um certo entra-e-sai de atores e personagens. As histórias tomaram diferentes rumos com a passagem do tempo, formando arcos onde se enfrentaram diferentes arqui-inimigos e onde se pôs foco no desenvolvimento ora de um personagem, ora de outro.

A equipe de produção de Hidden Frontier (ou ao menos parte dela) mantém contato com um fã-clube situado em Dundee, na Escócia, o qual, sob a liderança do ator amador (e enfermeiro em seu emprego diurno) Nick Cook, produz a série Star Trek: Intrepid, até agora com sete episódios. Dessa proximidade nasceram três crossovers, episódios que mostram a interação entre personagens de Hidden Frontier e de Intrepid. Um desses crossovers, chamado Operation Beta Shield, é um filme de duas horas de duração, bastante complexo por depender de conhecimento de boa parte do que aconteceu em Hidden Frontier, mas impressionante na qualidade narrativa e nos valores de produção, com especial destaque para as cenas espaciais. Um aspecto particularmente curioso de Intrepid é ver como toda a tripulação da nave fala com forte sotaque escocês… Aqui, um trailer de Beta Shield.

Os cenários de Hidden Frontier são telas de videogames de Jornada, e a música de abertura é ripada do filme Galaxy Quest. Fora isso, os diálogos e a atuação melhoraram contìnuamente ao longo das sete temporadas, atraindo novos atores amadores e profissionais e gerando duas spinoffs filmadas com esses atores — nominalmente, Star Trek: Odyssey e Star Trek: the Helena Chronicles, ambas as quais prosseguem na história de Operation Beta Shield. Essas duas séries contam uma mesma história, sendo uma (Helena Chronicles) ambientada nesta Galáxia enquanto seus personagens tentam resgatar os personagens da outra (Odyssey), que ficaram isolados em Andrômeda. Após três temporadas, essas duas séries terminaram em 2012, com um episódio final de 127 minutos que reúne atores e personagens de Voyages of the USS Angeles (retomada como série de áudio em determinado momento anterior), Hidden Frontier, Intrepid, Odyssey e Helena Chronicles.

Outras spinoffs de Hidden Frontier prosseguem, incluindo (até hoje) Henglaar, M.D. (apenas em áudio) e Star Trek: Federation One (uma temporada em áudio, outra em vídeo). A mesma equipe produz Star Trek: Diplomatic Relations (contando histórias dos diplomatas da Federação, que atuam depois que a Frota Estelar vai embora, e novamente com a participação do elenco de Intrepid no primeiro episódio); Star Trek: Grissom, que relata as aventuras da navezinha exploradora de Jornada nas Estrelas III antes de ela ser explodida pelos klingons; e Frontier Guard, a única não relacionada ao universo de Jornada nas Estrelas.

Falei bastante de Hidden Frontier, mas ela não é a série amadora de maior ou mais famoso impacto no fandom. Essas honras cabem a Star Trek: Phase II, produzida sob a liderança do ator James Cawley. Profissionalmente, Cawley segue carreira como imitador de Elvis Presley em Las Vegas. Aparentemente essa função lhe rende um bom dinheiro, que ele gasta em um estúdio onde produz sua própria continuação da série original de Jornada nas Estrelas.

Tendo estreado em 2004 sob o nome de Star Trek: New Voyages (o nome atual Phase II veio só depois), esta série tem o propósito de contar as aventuras da Enterprise após o terceiro ano de Jornada nas Estrelas, em um quarto ano que a série não teve — ou não tivera até agora, porque isso está mudando. Para tanto, Cawley reconstruiu os cenários da série original, inclusive uma réplica minuciosa da ponte de comando, e tem contado com a colaboração de diversas pessoas que participaram das séries oficiais, como os atores Walter Koenig (realmente como Chekov), Malachi Throne, William Windom (Comodoro Decker), Barbara Luna, J.G. Hertzler e Tim Russ, o ilustrador Doug Drexler, a consultora Denise Okuda, a roteirista D.C. Fontana, o produtor de efeitos visuais Ronald B. Moore e vários outros. O próprio Cawley faz o papel do Capitão James Kirk, com diferentes atores tendo assumido os papéis de Spock, Sulu, Uhura e Chekov ao longo dos oito episódios já lançados, mas sendo constantes os atores que têm feito McCoy e Scott. Se, de um lado, todos associamos Kirk ao desempenho paradigmático e exagerado de William Shatner, de outro a atuação de Cawley é notável, seguindo até os trejeitos e entonações de Shatner nos mais minuciosos detalhes.

É impressionante como Phase II consegue emular a série Clássica à perfeição. Não apenas os cenários e uniformes ficaram perfeitos. As tomadas de câmera são as mesmas. O colorido dos cenários é igual, nos mesmos tons pastéis de amarelo, roxo, verde. Há os mesmos efeitos sonoros, os mesmos closes, o mesmo tratamento portentoso de quando alguém se materializa na sala de transporte, o mesmo acompanhamento próximo das lutas, os mesmos tons de maquiagem, os mesmos filtros nas lentes. Apesar de toda a tecnologia que se tem hoje, até o teletransporte foi feito igual. As histórias são escritas profissionalmente e os diálogos convencem, como se estivessem sendo ditos pelos próprios Kirk, Spock, McCoy e Scotty. Provàvelmente o detalhe que mais dá a sensação de se estar assistindo à série original é a iluminação, que define todo um clima mas que é sempre um componente sutil, de cuja importância frequentemente não nos damos conta, o que bem mostra o quanto a equipe de Cawley estudou a série Clássica. Em contraste, o detalhe que mais se percebe é a música incidental, que é usada exatamente nos mesmos momentos e com as mesmas partituras a que nos acostumamos na série Clássica: os temas de introspecção vulcana, de luta animada, de suspense antes do intervalo, de contraponto cômico, todos esses são empregados como esperamos.

Em particular, eu gostaria de comentar o quarto episódio de Phase II, “World Enough and Time”. Trata-se de mais uma versão de A tempestade, de Shakespeare. A produção visual é perfeita e começa com George Takei revivendo o Capitão Sulu a bordo de sua Excelsior em companhia de Janice Rand, novamente interpretada por Grace Lee Whitney. Em um flashback, voltamos aos tempos da série Clássica e a Enterprise invade a Zona Neutra para resgatar um cargueiro em perigo, fazendo referência ao Kobayashi Maru. Há um breve entrevero com algumas Aves de Rapina (magnìficamente representado em CGI como as séries nunca conseguiram), e a Enterprise cai vítima de um fenômeno cósmico. Òbviamente, começa uma corrida contra o tempo para libertá-la antes que seja destruída, e Kirk envia o Tenente Sulu aos destroços de uma nave inimiga. No retorno à Enterprise, ocorre um acidente com o teletransporte, e quem emerge é um Sulu trinta anos mais velho, que revive seus velhos tempos de Star Trek tanto quanto o hoje idoso Takei.

Star Trek: Phase II” é o nome convencionalmente adotado para a série de Jornada nas Estrelas que a Paramount preparou mas afinal não produziu no fim dos anos 70 e que acabou se materializando como Jornada nas Estrelas: o Filme, com parte de suas ideias reaproveitada na Nova Geração. Fazendo uma espécie de ponte retroativa entre a série original e as produções oficiais que a sucederam, a Phase II de James Cawley inclui o vulcano Tenente Xon (que substituía Spock na Phase II dos anos 70, mas aqui o complementa, interpretado por Patrick Cawley, filho do produtor) e uma promoção de Sulu a tenente-comandante (da qual decorre o cômico curta-metragem “Center Seat”). Além disso, o traje antirradiação de sua Engenharia é o mesmo que vemos nos filmes de cinema.

Entre os episódios da Phase II de Cawley estão as duas partes de “Blood and Fire”, uma história que o escritor David Gerrold propôs para a Nova Geração mas não foi aceita naquela época. Agora, o roteiro ganha vida com as participações de Denise Crosby, Bobby Rice como Alferes Peter Kirk (um veterano de Hidden Frontier e Odyssey, que comentei acima, aqui fazendo o papel do sobrinho do capitão), e Nick Cook (o escocês que normalmente faz o capitão da Intrepid, mas que, aqui, é um camisa-vermelha). A adaptação para esta filmagem é de Carlos Pedraza, um colombiano que também escrevia Hidden Frontier, e a direção é de Gerrold, que recentemente se tornou um dos produtores de Phase II.

O episódio mais recente de Phase II é “The Child”, que foi escrito por Jon Povill para a Phase II dos anos 70, realizado como episódio da Nova Geração em 1988 mas, agora, refilmado pela equipe de Cawley sob a direção de Povill e relançado em 2012 como o episódio da série Clássica que poderia ter sido. Neste episódio vemos o Tenente-Comandante Sulu ser interpretado por J.T. Tepnapa, um dos atores mais importantes de Hidden Frontier e The Helena Chronicles. O próximo episódio, a ser lançado em outubro de 2013, é “Kitumba”, outro que foi escrito para a Phase II original mas que até hoje não havia sido filmado. Já vi um dos trailers de “Kitumba” e percebi que o “Comodoro Probert” é interpretado por Andrew Probert, o artista que desenhou as Enterprises dos filmes de cinema e da Nova Geração. Outros quatro episódios estão em filmagem ou pré-produção.

Uma grande diferença de Phase II em relação à série Clássica são os efeitos visuais, especialmente as tomadas externas de naves espaciais. Os produtores sabem resistir à tentação de abusar do CGI, que se mantém como ferramenta a serviço da história (em vez do contrário, tão comum em filmes amadores). Mesmo assim, são empolgantes os movimentos da Enterprise e de seus rivais klingons no espaço. Dê só uma olhada nas primeiras tomadas de “Blood and Fire” Part Two.

Outras produções recentes foram bem sucedidas em trazer de volta a sensação de se estar assistindo a um episódio da série original de Jornada nas Estrelas. Um bom exemplo é Starship Farragut, que começou tão tosca quanto todas as demais porém se aperfeiçoou e hoje tem quase a mesma qualidade de Phase II, com exibição em alta definição e cenários que replicam os da série Clássica. Em Farragut, o produtor John Broughton atua como o Capitão Carter, comandando a nave estelar de mesmo nome, e os produtores Michael e Holly Bednar fazem o oficial de ciências e a chefe da Engenharia. Nesta série já vimos a participação especial de James Cawley como Capitão Kirk e podemos ver o ator Paul Sieber como o chefe de segurança Henry Prescott. Conforme uma rápida consulta ao IMDB poderá lhe mostrar, Sieber já apareceu em Phase II no papel de um alienígena e em breve deveremos vê-lo novamente como Prescott, mas em “Kitumba”, mostrando o grau de intercâmbio entre os estúdios e suas produções. O próprio Cawley já havia aparecido em Hidden Frontier no papel do Capitão Mackenzie Calhoun, um personagem que, na série de livros New Frontier, comandava a USS Excalibur e tinha a Comandante Shelby como sua imediata.

Aliás, essa mistura de elencos e equipes pode render bons momentos de diversão. Em 2010, a FedCon (grande convenção europeia de Jornada nas Estrelas) foi brindada com este maravilhoso vídeo produzido por James Cawley e por seu colaborador Tobias Richter. Trata-se de uma brincadeira que trata os filmes de J.J. Abrams como muitos trekkers gostariam de ver, inclusive enfatizando a diferença de tamanho entre a Enterprise original e a do jovem diretor. Outra brincadeira, produzida pela equipe de Farragut, encontra-se aqui, onde o Presidente Nixon tem um delírio que somente o Agente Smith (de Matrix) poderia abordar.

Em mais um recente e excelente caso de homenagem extra-oficial à série Clássica, eu não poderia deixar de mencionar o filme em três partes intitulado Star Trek: Of Gods and Men. Trata-se de uma história de viagem no tempo produzida por Tim Russ que tem o próprio como Tuvok, mais as participações de Nichelle Nichols como Uhura, Walter Koenig como Chekov, Alan Ruck novamente como Capitão Harriman (bem melhor do que quando comandou a Enterprise em Generations), Garrett Wang, J.G. Hertzler, Ethan Phillips, Chase Masterson e Cirroc Lofton.

Uma característica comum a todas estas séries feitas por fãs — além da paixão de quem as faz — é sua qualidade artesanal. Os créditos finais mostram a sintomática repetição de nomes: é muito frequente vermos a mesma pessoa como ator, produtor, editor, supervisor de roteiro, figurinista, carpinteiro, motorista, pintor, eletricista e artista de CGI; enquanto algum colega é ator, produtor, marceneiro, supervisor de efeitos visuais, maquiador, fotógrafo e continuísta; e uma terceira pessoa participa como atriz, produtora, roteirista, iluminadora, eletricista, maquiadora e operadora de som… E por aí vai.

A mais recente fanseries a seguir os passos da série original é Star Trek Continues, produzida pelo mesmo estúdio de onde sai Starship Farragut. O ator Vic Mignogna (que já atuara em Phase II) faz James Kirk ao comando da Enterprise (já tendo aparecido nesse papel em “The Price of Anything”, o mais recente episódio de Farragut), tendo a seu lado Todd Haberkorn (ator e diretor veterano de Farragut e de Phase II) como Spock, Larry Nemecek como McCoy e Chris Doohan como Scotty. Permita-me enfatizar: Nemecek é um dos mais ativos fãs antigos de Jornada, tendo publicado vários trabalhos, dos quais o mais famoso é seu ST:TNG Companion. Já Chris Doohan é filho do Scotty original, James Doohan. Todos os atores do elenco principal de Star Trek Continues são profissionais, embora a produção não seja oficial. No primeiro episódio, “Pilgrim of Eternity”, o ator Michael Forest retorna ao papel de Apolo, que desempenhara na série Clássica em “Who Mourns for Adonais?”.

A próxima grande produção deve ser Star Trek: Renegades, que promete trazer em 2014 uma nova história com Walter Koenig, Tim Russ, J.G. Hertzler e outros experientes atores de Jornada nas Estrelas. Recomendo observar o trailer e acompanhar as notícias.

Outras séries amadoras há, embora sem a mesma qualidade. Posso enumerar a extinta Starship Exeter e ainda Star Trek: the Romulan Wars, Enterprise: the Next Generation, Tales of the Seventh Fleet, Starfleet Renegades, Star Trek: Aurora, Star Trek: Encarta, … A lista é longa.

Atualização de 2016:

Star Trek: Phase II voltou a se chamar “Star Trek: New Voyages”. O produtor executivo James Cawley emitiu um comunicado no sentido de que havia se tornado insuportável o assédio de pessoas criticando, atacando e agredindo seu trabalho. Essas pessoas desgastam, não agregam e, por fim, venceram o ânimo de Cawley, que preferiu dedicar sua atuação a projetos que, ao menos, rendem dinheiro. Então, quanto a Phase II/New Voyages, ele se mantém como produtor executivo, mas deixou a atuação como Kirk a cargo do ator profissional Brian Gross. Os episódios recentes incluem “Kitumba”, um dos que foram escritos para a Phase II dos anos 70 e não filmados então, com uma perspectiva inovadora sobre o Império Klingon (que, lembre-se, não havia sido exibido na época; tudo que vimos em TNG ainda estava por vir) e a participação de atores de Star Trek Continues no papel de Klingons e de Gil Gerard (o Buck Rogers dos anos 70) como almirante; “Mind Sifter”, com a experiente atriz Rebecca Wood, veterana de Hidden Frontier, onde fizera a ardilosa Presidente Vindenpawl, agora no papel de uma enfermeira, em um episódio com duas referências internas ao clássico “Nightmare at 20,000 Feet” e James Cawley em uma rápida ponta como maluco em um hospício; e “The Holiest Thing”, com a esposa de Brian Gross no papel da Dra. Carol Marcus, testando seus primeiros passos na terraformação e tendo-os desafiados pela protomatéria. Os últimos episódios tiveram uma colaboração mais intensa de Ralph Miller e do alemão Tobias Richter, mago das belas visões da Enterprise em CGI. Aliás, com a chegada de Gross, a Enterprise passou por uma pequena reforma, que lhe deu a aparência que teria na abortada série Phase II dos anos 70 (uma espécie de visual intermediário entre o da série Clássica e o do primeiro filme de cinema).

Infelizmente, ST:NV acabou. Em razão das novas regras da CBS para filmes amadores de Jornada nas Estrelas (q.v. mais detalhes abaixo), Cawley decidiu fechar o website americano, mantendo apenas seu espelho alemão. Foi definitivamente interrompida a elaboração de novos episódios, nem sequer se concluindo aqueles que já estavam em pós-produção, embora os financiadores vão ter acesso ao próximo episódio, que estava quase pronto.

Star Trek Continues segue de vento em popa. A série está ainda mais próxima da Clássica a cada episódio, assemelhando-se em mínimos detalhes que às vezes nem reparamos: as cores, a iluminação, as tomadas de câmera, a música incidental, até as sombras ao fundo. Em qualidade, considero que ela conseguiu a incrível proeza de superar ST:NV. Entre os personagens fixos, há uma conselheira, em uma espécie de pioneirismo retroativo da função que, cem anos depois, será desempenhada por Deanna Troi. Esta série costuma fazer menos referências a episódios de Star Trek (seja a original ou outras séries) do que ST:NV, evitando o que se convencionou chamar de continuity porn.

Star Trek: Renegades afinal lançou seu episódio piloto em 2015. Sobre ele já publiquei uma resenha em inglês. Em síntese, a série ambienta-se no futuro após Star Trek: Voyager, quando traidores assumiram posições importantes no Comando da Frota Estelar. O Almirante Chekov (interpretado por Walter Koenig), auxiliado pela Almirante Uhura (interpretada por Nichelle Nichols e só vista no segundo episódio) e pelo Comandante Tuvok (interpretado pelo produtor Tim Russ), estabelece uma aliança entre a Segurança da Frota Estelar e um grupo de renegados que tomaram posse de uma nave da Frota, a Icarus, com o propósito de combater a ameaça através de canais pouco ortodoxos. Entre os atores, Robert Picardo retoma seu papel de Lewis Zimmermann, Edward Furlong faz um personagem que nos traz uma surpreendente revelação nas últimas cenas do piloto, e a bela Sean Young é a ciberneticista da tripulação. Em razão das regras da CBS, recentemente Renegades abandonou o rótulo e o universo de Star Trek, e seu segundo episódio, “Requiem”, tomará lugar em um novo e autônomo ambiente.

Outra série que merece comentário é a abortada Star Trek: Axanar. A intenção de seus produtores era mostrar a Guerra dos Quatro Anos, que, de acordo com a literatura trekker, aconteceu entre a Federação e o Império Klingon pouco antes da série Clássica. O protagonista seria o Capitão Garth de Izar, célebre herói que tinha a admiração de James Kirk em razão de seu desempenho na Batalha de Axanar, interpretado pelo produtor Alec Peters. Após o episódio piloto Prelude to Axanar, o estúdio tornou-se réu em uma ação judicial promovida pela CBS/Paramount. Esta ação vem sendo acompanhada de perto e discutida por todos os websites com algum interesse nas produções amadoras de Jornada nas Estrelas. Na minha interpretação, ela é motivada pela percepção (errada) da CBS no sentido de que essas produções amadoras esvaziariam o mercado para a iminente série oficial Star Trek: Discovery. De fato, as séries amadoras que destaquei superam a qualidade das produções oficiais, e a CBS estaria, com a ação, inibindo aquilo que percebe (erradamente) como uma concorrência. Essencialmente, a CBS nivela por baixo. Por enquanto, Axanar está perdendo o processo.

(Interessante observar que Alec Peters chegou a aparecer como o Capitão Garth também em Star Trek: Phase II, na vinheta “Going Boldly”, que introduz a nave após sua reforma e temporàriamente muda o nome da série. É de se notar a frequente participação, em uma série amadora, de atores de outra série amadora, às vezes no mesmo papel, às vezes não. Phase II/New Voyages e Farragut compartilham estúdios e equipes, e um dos personagens de Farragut, o chefe de segurança Prescott, interpretado por Paul Sieber, aparece tanto em Farragut como em Phase II.)

Uma consequência particularmente desastrosa do processo de Axanar foi a emissão pela Paramount, no início de 2016, de suas draconianas regras para a criação de filmes amadores. Em síntese e em termos práticos, a CBS proibiu a criação de novos filmes de fãs. Por causa dessas regras, alguns estúdios escolheram suspender suas produções enquanto aguardam o resultado do processo (como é o caso de Star Trek: Phoenix, sobre a qual não escrevi), outros as cessaram, conforme comentei acima sobre New Voyages, e outros, ainda, decidiram por outros rumos, como Renegades.

Neste fim de 2016, tudo permanece em um estado incerto, contrastando com o clima animador de apenas um ano atrás. Todavia, as produções nunca tiveram tão boa qualidade como temos visto, mostrando que o espírito criativo dos trekkers permanece tão vivo quanto sempre foi nossa apaixonada tradição.

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Minha pseudorresenha de Man of Steel

Tal como no caso de Into Darkness (q.v. abaixo), não vou resenhar o filme do Homem Que Avoa (Agora Com a Cueca Para Dentro da Calça), porque muita gente já está fazendo isso e com mais habilidade do que eu. Vim apenas relatar alguns detalhes que me chamaram a atenção. Há spoilers, de modo que, novamente, a fonte do texto é branca. Você tem que selecionar para lê-lo.

Logo ao começo do filme, os kryptonianos golpistas são condenados à Zona Fantasma. Já tínhamos visto essa cena, embora de outro modo, em Superman II, de 1980. Naquela ocasião como nesta, a Zona Fantasma acaba servindo mais como salvação do que como punição. Pense bem: o planeta é destruído, todos os kryptonianos morrem — exceto Kal-El e os ocupantes da Zona Fantasma. Neste filme de 2013, o prêmio é ainda mais evidente, porque, assim que o planeta se acaba, cessa também o efeito da Zona Fantasma, e os criminosos estão livres! Você poderia argumentar que, com o fim de Krypton, vão-se também suas leis e toda a importância que poderia ter seu sistema penal. Seria como libertar todos os prisioneiros em um país que se revoluciona e arruína, já que não faria sentido continuar a punir alguém segundo regras que já não têm relevância ou vigência. Só que eu tenho certeza de que não foi essa a intenção dos roteiristas, assim como tenho certeza de que não faz o menor sentido privilegiar os criminosos e deixar que morra o restante da população.

Vários personagens do filme são velhos conhecidos de quem conhece os quadrinhos. Falar em Jor-El, Lara, Lois Lane e Perry White é um tanto óbvio, mas também estão presentes o robô flutuante Kelex — com bàsicamente a mesma aparência que lhe deu John Byrne –, Pete Ross, Lana Lang e até mesmo Ken Braverman, o valentão que descobriu a identidade secreta de Kal-El/Clark Kent na história A morte de Clark Kent, de 1995. Braverman é aquele moleque ruivo que desafia Clark, jogando-o ao chão em frente a uma oficina mecânica, e afinal se afasta quando vê que os adultos estão olhando.

Aliás, estudando os créditos do filme no IMDB, descubro que há alguns extras (nem sequer são personagens secundários) chamados Byrne e Sekowski. John Byrne foi o roteirista e desenhista do reboot do Super-Homem na minissérie The Man of Steel, de 1986, sucedida por um período em que foi ele o principal Autor por trás do personagem. Mike Sekowski foi o principal desenhista da Liga da Justiça nos anos 60.

No filme, o ruivo Pete Ross é um gordinho que começa provocando Clark Kent no ônibus escolar, é salvo de afogamento e, quando adulto, é gerente de uma IHOP. As IHOPs são lanchonetes sub-McDonald’s, bem fuleirinhas, onde só trabalham pessoas de pouca qualificação. Creio que a ideia fosse mostrar um emprego bem medíocre para o ex-colega de Clark. Em contraste, nos quadrinhos, Pete Ross é um bom e velho amigo de Clark Kent, não tem nada de gordinho, casa-se com Lana Lang e, bem mais tarde, chega a senador e vice-presidente dos Estados Unidos na década de 90, ao ponto de exercer a presidência.

Ainda em Smallville, Jonathan Kent foi um idiota de escolher a morte. Pense bem: independente de superpoderes, o que você tem na estrada é um jovem de dezessete anos, na flor da idade e no máximo de sua capacidade física, e um cansado agricultor que já está entrando na senectude. QUEM você envia para resgatar um cachorro preso na camioneta? QUEM teria mais possibilidades diante de um tornado? E quem teria que ficar abrigado embaixo do viaduto? Aliás, pensando bem, seria uma EXCELENTE oportunidade para se usarem os superpoderes, já que, no meio da ventania, não daria para ver que estivessem sendo usados. Mesmo que Clark não voasse nem usasse superforça, ele não seria ferido, nem ninguém perceberia que o normal seria não sobreviver. Portanto, Jonathan Kent foi um idiota que buscou a própria morte e por isso mereceu morrer.

Na minissérie Man of Steel, de Byrne, assim como na divertida série Lois & Clark, o uniforme de Super-Homem foi criado e costurado por Martha Kent, com acréscimo do S por Jonathan Kent. Neste filme, o uniforme tem origem kryptoniana, aproximando-se do retorno às origens proposto em The Adventures of Superman #455, de junho de 1989 (publicada em Super-Homem no. 85 em julho de 1991). Além disso, tal como no filme de 1978 e nos quadrinhos pós-Byrne, agora o símbolo de S já era usado pela Casa de El em Krypton. Absolutamente não há erro nem criatividade nisso; é uma questão de escolha do roteirista, que dará preferência à versão que mais combina com a história que quer contar. Pessoalmente, prefiro esta versão usada no filme, por mais que haja a incrível coincidência de que o símbolo de esperança em Krypton coincida com a letra S.

Aliás, você reparou como a insígnia de Zod lembra um pouco a foice-e-martelo usada por Kal-El na minissérie Superman: Red Son?

Neste filme de 2013, ficamos sabendo que Krypton explorou o espaço no passado, tomando conhecimento da Terra entre muitos outros planetas, e que depois optou pela reclusão. Fica evidente que os kryptonianos erraram ao abandonarem seu programa espacial e se concentrarem no próprio umbigo, já que, no fim, causaram a condenação de Krypton sem terem para onde fugir. A meu juízo, essa solução aproveita a parte dramática, melancólica e inteligente das histórias de John Byrne dos anos 80, sem seu lado ligeiramente estúpido. De acordo com Byrne na minissérie World of Krypton, de 1987-1988 (Super-Homem especial no. 1, de agosto de 1988), e com Jerry Ordway e George Pérez em Action Comics Annual #2, de 1989 (Super-Homem no. 84, de junho de 1991), foram os próprios kryptonianos quem usaram uma arma de guerra para iniciar uma reação em cadeia no núcleo de seu planeta, milênios antes do nascimento de Jor-El. A reação desenvolveu-se lenta mas contìnuamente, enquanto, na superfície, a sociedade evoluía para repudiar as guerras mas, ao mesmo tempo, hipervalorizar tradições, abrir mão de todo contato entre pessoas e estagnar, mais ou menos como a civilização de Solaria e Aurora nos livros The Naked Sun, The Robots of Dawn e Robots and Empire, de Isaac Asimov, e o planeta Vulcano, de nosso querido Sr. Spock. Com o tempo, o gradual envenenamento radioativo causou esterilidade não apenas das ideias mas também dos corpos dos kryptonianos, que já não se reproduziam quando o planeta finalmente explodiu, deixando uma amarga lição sobre o efeito de longo prazo das armas nucleares — muito pertinente naquele fim dos anos 80, quando a Guerra Fria, atingindo o clímax, entrava em sua corrida armamentista final antes de terminar para alívio de todos os terráqueos. A parte estúpida da História de Krypton veio em ACA #2, quando ficou revelado que os kryptonianos tinham um defeito genético que os impedia de deixar o planeta. Ora, em razão de tudo que já foi exposto, é muito mais coerente, trágico e didático supor que eles tenham optado por abandonar suas excursões espaciais, em lugar de dizer que haviam sido impedidos por alguma causa inerente a sua constituição. Além disso, novamente fica a mensagem do preço que se paga por se agredir irresponsàvelmente o planeta onde se vive: os kryptonianos deste filme de 2013 estão usando o núcleo de Krypton como fonte de energia e, com isso, causando a destruição de seu mundo, tal como os terráqueos humanos de 2013 fazem ao queimarem combustíveis fósseis como fonte de energia e, com isso, causarem o aquecimento global e o fim de várias espécies — inclusive sua própria. A solução correta, para eles como para nós, seria abandonar as práticas destrutivas; a paliativa, para eles como para nós, será procurar um novo e acolhedor planeta — exceto que nossa exploração espacial nem de longe está adiantada como a deles.

… Pelo menos a representação de Krypton está coerente com o cenário demonstrado nas histórias de Byrne: desolado, desértico e pontiagudo, contribuindo para isolar as pessoas umas das outras, mas sem aquele aspecto polar de espigões cristalinos contra um céu negro como se vê nos filmes de 1978 e 1980.

Um detalhe que faz TODA a diferença na mitologia do Homem de Aço: neste filme, Lois Lane descobre sòzinha que Clark Kent é o Super-Homem — e cedo! O fim do filme mostra que haverá uma convivência entre eles dali em diante, mas, diferentemente do que aconteceu nos quadrinhos durante décadas, Lois SABE o segredo de Clark, e nem foi ele quem contou.

Repare que, quando Zod discursa para o mundo exigindo a entrega de Kal-El, uma das versões do texto “you are not alone” está em português. Aqui houve um erro de tradução lá em Roliúdi: em português, no contexto em que a frase foi usada, o certo não seria “vocÊ não estÁ sòzinhO”, mas “vocÊS não estÃO sòzinhOS”. Em tempos de salas de projeção digitais, não sei se isso foi só no Brasil ou se também está assim nas exibições de Man of Steel pelo resto do mundo. Na segunda hipótese, suponho que o Brasil tenha passado a chamar a atenção do mundo com todo o petróleo, o ressurgimento da economia e os recentes e futuros eventos de esporte e visita do Papa.

Por falar em Papa, há diversas semelhanças entre Kal-El e Jesus Cristo, certamente intencionais. Este paralelo já foi enfatizado em múltiplos momentos ao longo da História da DC, com o maior e mais notável exemplo na minissérie Kingdom Come (O reino do amanhã na tradução). A noção geral é, naturalmente, a de um deus que caminha entre humanos com aparência de pessoa comum enquanto desempenha diversos milagres sem querer chamar atenção para si. No caso particular, o foco do filme e de Kingdom Come está no papel de Kal-El como salvador da humanidade. No caso do filme, Kal-El está disposto a se sacrificar para conseguir essa salvação, na mesma rendição que é o clímax do Evangelho. Para deixar isso ainda mais evidente, há uma cena onde Kal-El procura um padre numa igreja, aflito e em dúvida: se deve ou não deve assumir o sacrifício. Atrás dele, vê-se um vitral que representa Jesus Cristo no Getsêmane, na mesma passagem do Evangelho onde está em dúvida e pede para, se possível, ser dispensado da função de Cordeiro de Deus, logo antes de ser capturado pelos soldados romanos. O padre fala em esperança e, atrás dele, vê-se outro vitral, onde Jesus Cristo ressuscita. Aliás essa é a mesma justaposição que foi praticada por Kingdom Come perto do fim do capítulo 4, quando o Padre McCay prega em sua igreja com os mesmos vitrais ao fundo.

Outra semelhança entre Kal-El e Jesus Cristo é que, no filme, no momento em que é chamado a salvar a humanidade, Kal-El tem 33 anos de idade. Nos quadrinhos, o Azulão apresenta-se ao mundo antes dos trinta.

Uma terceira semelhança entre Kal-El e Jesus Cristo é o momento em que os militares estão reunidos no deserto e Kal-El desce em pé, braços abertos na posição de crucifixão, a capa esvoaçando e o Sol por trás. É uma visão bem religiosa e dramática de um ser òbviamente superior. Por sinal, Kingdom Come tem essa mesma cena, apenas um pouco diferente.

Durante a luta em Metrópolis, tenho certeza de que todos viram, enormes, as letras “LEX CORP” no caminhão trailer de combustível que é jogado em cima de Kal-El. Ele passa por cima do engate e o caminhão explode no térreo de um prédio, atrás dele. Só que, além disso, há um determinado momento anterior no filme em que Clark chega para visitar a mãe. Fica claro que ele pegou carona em um veículo que vemos acelerar ao fundo. O que algumas pessoas podem não ter visto é que esse veículo não é um ônibus, mas outro caminhão da Lexcorp. Esses dois detalhes minúsculos evidenciam que, embora Lex Luthor não esteja em pessoa neste filme, a Lexcorp é uma entidade onipresente.

A respeito do Coronel Hardy (Christopher Meloni, de Law and Order: Special Victims Unit), o filme cometeu o mesmo erro da série Space: Above and Beyond. Na série (que de outro modo é excelente e recomendo), jovens pilotos de caças espaciais têm a dupla função de atuar como infantaria móvel ao estilo de Starship Troopers. Minha maior crítica a S:AAB é justamente essa impossível dupla especialização. Ou bem se é um piloto (uma profissão que exige dedicação 24/7, inclusive quando se está em terra), ou bem se é um socador de barro (como os chamou Garibaldi em Babylon 5). As duas coisas não dá! Em Man of Steel, Hardy é responsável pelas escavações no Ártico, mas também é o encarregado da infantaria que vai receber Faora-Ul no deserto e, finalmente, é visto aos controles de um C-17… Não dá pra fazer tudo!

Na estação de trem, vemos Zod tentando matar um grupo de terráqueos assustados, que se encolhiam a um canto, enquanto Kal-El tenta impedi-lo. Ao fim, Kal-El mata Zod, para seu grande lamento. O filme não foi específico em expressar o principal valor moral de Clark Kent, que é a preservação da vida — toda e qualquer vida, inclusive a de um criminoso kryptoniano. Mesmo assim, chegou a mostrar (sem explicar) que Kal-El só matou Zod por uma razão, que era a total impossibilidade de detê-lo de outro modo. Ficou muito claro que, enquanto Kal não o matasse, Zod estaria o tempo inteiro tentando acabar com os humanos; a única forma de interromper a matança seria pôr fim ao próprio Zod: uma vida sendo interrompida para salvar bilhões. Essa é a mesma escolha difícil com que Clark se depara, e que Kal-El pratica, em Superman #22, de outubro de 1988 (Super Powers no. 17, de maio de 1990). Nos quadrinhos, foi uma experiência traumática cujos efeitos se estenderam e ramificaram por todo o universo DC por um longo tempo. No filme — veremos. Mas ele me pareceu curado depois de um mero grito de desespero e lamúria.

É claro que, morto Zod, você não ouviu vozes, suspiros aliviados nem agradecimentos dos terráqueos que estavam acuados no canto, nem os viu rodeando o Homem de Aço diante do general inerte. Ao contrário: só o que se vê é uma pequena e densa nuvem de fumaça preta, vindo justamente de onde Zod os encurralara. Alguma dúvida de que foram efetivamente torrados a despeito dos esforços do Azulão? Imagino que uma das intenções dos roteiristas, ostensiva ou mesmo subconsciente, fosse ter Kal-El punindo Zod com a pena capital em razão desse específico homicídio.

E isso era o que eu tinha para comentar. Sua vez.

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Falsa resenha de Star Trek: Into Darkness (Jornada nas Estrelas: Além da Escuridão)

Não vou resenhar o filme. Já tem gente demais fazendo isso pela Internet e, a bem da verdade, nunca dei muita relevância às resenhas dos outros: são impressões subjetivas de quem gostou ou não gostou, e terei minhas próprias impressões, gostando ou não gostando eu mesmo. Se tenho essa atitude em relação às resenhas dos outros, com mais razão hei de considerar justo quem a tenha em relação às minhas.

O que vou fazer, isto sim, é relatar detalhes que chamaram minha atenção e que podem passar despercebidos para parte da audiência. Tal como fiz com outros filmes, minha esperança é ajudar a digestão dos trekkers que já foram ver, ou, nos casos de quem não se importa com spoilers, preparar para a curtição que poderia não acontecer.

Aliás não sei se esta exposição será útil. A esta altura, os dois meses de pré-estreia já foram suficientes para todos os trekkers que estavam ansiosos, e já se passaram duas semanas e dois dias desde a estreia. Todomundo a quem aproveitaria meu texto já teve sua oportunidade de gastar R$ 37 no ingresso e duvido que vá ver de novo. Mesmo assim, fica este registro para escarmento do futuro e, quiçá, aproveitamento no Blu-ray.

Portanto, prepare-se: mega spoilers abaixo! Para não causar dano inadvertidamente, estou mudando a cor da fonte para branco e pedindo a você que, se realmente quiser ler, dê um copia-cola e leve o texto para o Word, o bloco de notas, sei lá.

Segue o relato.

O filme começa no planeta Nibiru. Esse é o nome que os babilônios davam a Júpiter, e os lunáticos de hoje dizem que é o nome do (inexistente) planeta que extinguirá a raça humana por meio de distúrbios gravitacionais quando entrar sùbitamente no Sistema Solar.

Na cena de abertura, a correria de Kirk e McCoy é totalmente reminiscente das cenas de abertura nos filmes de James Bond. Supostamente somos apresentados a mais um dia rotineiro na vida do herói aventureiro, sem nenhuma ligação com a história principal porém suficiente para sermos apresentados aos personagens.

Enterprise debaixo d’água?!?! Deixando de lado as queixas do Sr. Scott sobre os efeitos da água salgada (em princípio desprezíveis, já que o casco é feito de durânio), essa nave foi projetada para aguentar pressão de dentro para fora — não o contrário! Se não deveria sequer voar dentro de uma atmosfera (o que fez duas vezes neste filme), menos ainda dentro do oceano!

Se eu visse a Enterprise saindo da água na minha frente, eu também ia cair de joelhos no chão feito os nativos de Nibiru, mas por diferentes razões. #coraçãodetrekker

Não tenho a menor dúvida de que o uniforme de almirante de Pike (cinza e branco) é uma referência ao uniforme que Kirk usava em ST:TMP. Eu só gostaria de que o filme não fosse um desfile de moda dos uniformes. No caso de Kirk, por exemplo, tem a camisa amarela, a túnica cinza e o macacão azul escuro. Convinha usarem UNIformes. Da mesma forma, Chekov não mudaria de especialidade só porque foi para a Engenharia. Na verdade, talvez até estivesse errado em usar amarelo em primeiro lugar, já que era o pequeno gênio do teletransporte no filme anterior.

Então Kirk violou a Diretriz Primeira. Grandesm*rda. Pela “evolução natural” daquela sociedade de pigmeus espaciais, o vulcão ia explodir e MATAR TODOMUNDO. Se quer falar em Diretriz Primeira de não interferir, o “natural” era não haver mais sociedade nenhuma. No momento em que salvou os nativos, a Enterprise já interferiu demais e, desse ponto em diante, já que não tinham morrido, a meu juízo eles até poderiam idolatrar nossos bravos tripulantes. É melhor isso do que estarem mortos.

Quando Pike diz a Kirk que ele despreza regras, está descrevendo nosso bom e velho Capetão e, ao mesmo tempo, abordando um ponto que ficou pendente ao fim do filme anterior. Como se aceitaria que, desde o fim do filme anterior, a Frota Estelar mantivesse um moleque impulsivo e imaturo como capitão de uma nave estelar? Resposta: não aceitaria. Foi bom encarar isso neste filme aqui, de modo absolutamente explícito. Embora, a meu juízo, tenham cometido um erro no roteiro: Kirk não cometeu nenhum crime, de modo que não se justificaria que fosse rebaixado a comandante. Observe que isso não acontece nas forças armadas do mundo e certamente não acontece em Star Trek. Mesmo em ST IV, foi necessário que ele cometesse crimes militares e fosse julgado pelo próprio Conselho da Federação para ser rebaixado de almirante. Aqui não poderia ser diferente. Não é por conveniência do serviço ou por prerrogativa disciplinar que se rebaixam oficiais. Nomeou mal? Agora conviva.

Ao mesmo tempo, a preocupação de Pike com regras tem relação com o homem que vimos em “The Cage”.

É interessante que o Kirk da série não seja impulsivo como este moleque interpretado por Chris Pine. Mas também é interessante que, no piloto “Where No Man Has Gone Before”, Kirk não é sequer o aventureiro descumpridor de regras, espada em punho na proa do navio, que viríamos a conhecer. Ele era muito mais cerebral, filosófico, “enciclopédia ambulante” (ou algo assim) como o descreveu Gary Mitchell. Foi só a partir do episódio seguinte que pudemos vê-lo como o popular jogador de pôquer e enganador da morte, fruto, sem dúvida, de uma deliberada mudança no modo de se escrever e interpretar o personagem.

“John Harrison?” você pensa. Já viu alguém com esse nome em todos os 46 anos da franquia? Claramente era pseudônimo.

Na sala onde Kirk vai pedir a Marcus que lhe restitua o comando, consegui identificar alguns modelos de naves sobre a mesa. O primeiro é o Wright Flyer; depois vêm o Spirit of St. Louis, o X-15 (até hoje recordista de velocidade para aviões, pilotado por alguns candidatos a astronautas, como Scott Crossfield e Neil Armstrong, e um dos integrantes da abertura da malfadada série Enterprise), uma cápsula Mercury, uma Vostok, a space shuttle Enterprise, a XCV-330 Enterprise (a nave civil em forma de anel que aparece em Star Trek: the Motion Picture e que foi vezes demais ignorada pela cronologia), a Phoenix, de Cochrane, o protótipo de “First Flight” e a NX-01. Veja detalhes dos modelos aqui.

Perdi a fala do Almirante Marcus onde ele defere o pedido de Kirk para reassunção da Enterprise. A cabeça dele deu um pulo e uma frase não era continuação da outra. É que o Cinemark fez a gentileza de trocar os rolos de fita (ainda existe isso?) e cortar o discurso do ator. Acho que, agora, só no Blu-ray.

Como assim o Alte. Marcus revela a existência da Seção 31? Certamente os caras têm backups em algum lugar, certamente os agentes deles estão por aí. Não era para revelar nada! Referência gratuita para quem já conhece e inútil para quem não conhece. E agora Kirk e Spock estão a par da pouco querida Seção.

Quando a Tenente Wallace se apresentou, logo pensei, “Janet Wallace” (“The Deadly Years”)? Mas era Carol. Aí, claro, descobrimos que era a jovem que, mais tarde, criaria o Dispositivo Gênesis. De certo modo, a fala de Spock dentro do vulcão (“as necessidades da maioria se impõem às necessidades da minoria”) e a presença de Carol no filme foram duas introduções que nos disseram quem realmente seria o vilão, embora só depois de uma cola da Mãe do Movimento Trekker Brasileiro (descubra você quem é) eu tenha reconhecido a primeira como uma dica.

A cena da lingerie da Ten. Marcus foi injustificada, gratuita. Para as mulheres, ofensiva; para os homens, mostrou muito pouco. Se era para fazer só isso, melhor seria não ter feito nada. Parece até que era para cumprir alguma cota (como foi o caso no filme anterior).

Quando a Enterprise chegou a Qo’noS, você viu Praxis explodida? Eu vi. É uma semi-esfera no céu, com uma nuvem de detritos espalhando-se para a direita. A paisagem está lá para quem quer vê-la.

Vá lá que os diálogos abordam a preocupação com a Enterprise ser detectada pelos klingons enquanto está no espaço deles. Mas fico espantado em ver que longo tempo se passa sem que eles a detectem.

Quando Kirk retoma o comando do Ten. Sulu, o jovem oriental observa que é difícil largar a cadeira. A uma, creio que uma frase muito parecida já tenha sido usada em ST V; a duas, parece-me uma premonição em referência ao estimado Capitão Sulu, um dos favoritos dos fãs.

Questões tecnológicas. A nave do Alte. Marcus não deveria ser capaz de disparar os phasers enquanto estava em velocidade de dobra. Vários episódios da TNG (que acontece em uma era de tecnologia mais avançada) deixam claro que isso não é possível. Por outro lado, a tecnologia desta versão de Jornada avançou mais rápido do que a do universo Prime, ainda mais com ajuda de Khan, de modo que tudo é possível.

Quando a nave do Alte. Marcus — maior, mais poderosa, mais veloz do que a Enterprise — vai disparar o tiro de misericórdia, descobre-se que o Sr. Scott a sabotou. Ao apertar do botão, os sistemas caem e o Sr. Scott revela sua pequena intervenção. Ecos da Excelsior em ST III.

Khan menciona que o sistema de suporte de vida fica na parte de trás de uma das naceles. Isso não faz o MENOR sentido. Tem toda a cara de que foi enchimento de diálogo feito com o propósito de ser substituído na revisão técnica, mas que passou.

Nimoy-Spock volta a aparecer. Mas J.J. Abrams não disse que não ia mais fazer isso? Veja bem: é sempre agradável rever o Marmitão da Galáxia, mas há uma hora em que se deve largar as muletas. A passagem da tocha foi feita no filme anterior e com muita legitimidade por sinal, mas não se pode depender dessa conexão para sempre. Se era para ser reboot, era para ser reboot.

“Conseguiram derrotar Khan?” “Yes — at great cost.” Tell me about it. Se tem alguém que sabe do custo, é ele, não é mesmo?

Quando Kirk dialoga com Scott pouco antes de entrar no reator, os trekkers atentos à tradição podem contar com o iminente ato heróico. Quando pôs Scott para dormir, podia-se ter plena certeza. Nesse instante, meu pensamento foi, “mas sem mind meld, como que ele vai sobreviver?!”

Então Kirk entra no reator. Não sei nem por onde começar a criticar isso. Dentro do reator, matéria e antimatéria encontram-se no vácuo; nosso bravo Capetão não deveria ser capaz de respirar ali dentro. Além disso, não é que a radiação fosse envenená-lo: a intensa produção de energia deveria transformá-lo em átomos saltitantes imediatamente. Também muito me admira que um componente feito para lidar com potências da ordem das usadas pela Enterprise, uma vez desalinhado, vá voltar para o lugar com alguns chutes. Ainda que volte: todo o aspecto das peças mostra que são componentes de alta precisão. O tratamento ministrado por nosso nobre desbravador do espaço não deveria ser exatamente um exemplo de eficácia.

Outra questão tecnológica. Quando Kirk põe o reator para funcionar, a energia retorna e Spock ordena o acionamento dos manobradores (thrusters). Do modo como se conduziu o diálogo, fica evidente que o reator era necessário para que os manobradores funcionassem; do contrário, Sulu já os teria operado bem antes. Pois bem. Inúmeros episódios (TNG “Booby Trap”, Voyager “The Cloud”) já deixaram muito clara a noção de que os dois sistemas são completamente independentes. Os manobradores funcionam com seus próprios reatores de fusão, que não são afetados pelo que ocorre ao reator de dobra. Então, com todo o efeito dramático, a cena contrariou uma consistência já estabelecida.

Quando a nave estava novamente funcionando e a voz de Scott veio da Engenharia à ponte chamando Spock com urgência, posso afiançar a vocês que as falas de Scott foram as mesmas, e todas as falas de Scott (“You will flood the whole comparment!”), Spock e Kirk, até certo ponto, também foram as mesmas da morte original de Spock, lá em 1982. O vidro separando os dois e a saudação vulcana final foram os detalhes mais marcantes. Mas isso você também já sabia. De meu lado, se o diálogo teve a intenção de ser o mesmo, penso que deveria ter sido o mesmo até o fim, com exatamente as mesmas falas.

Bem perto do fim do filme, Spock comenta que nunca houve uma missão de cinco anos. Não??! De acordo com a literatura, “The Cage” aconteceu justamente durante a missão de cinco anos de Pike. Até o equívoco chamado Enterprise lançou a nave em uma prolongada missão de exploração do espaço. Não dá pra acreditar que, em quase cem anos de existência da Frota Estelar (mais, se contarmos o tempo antes da fundação da Federação), ninguém tenha tentado uma missão desse tipo.

Ao fim de tudo, reparo que os personagens estão mais entrosados e que os atores estão mais próximos desses personagens do que no filme anterior, em particular McCoy (Karl Urban perfeito nos resmungos e perdas de paciência) e Scott, que é mais do que um sotaque de Aberdeen.

Há um detalhe que me chamou atenção no filme anterior e que continua presente neste, que é o nível de detalhe com que Zachary Quinto conseguiu reconstruir o desempenho de Leonard Nimoy. Na série original e em seus filmes, Nimoy sempre apareceu caminhando de um modo peculiar, deliberado, típico de um idoso. Pode-se ver que levanta bem os pés, realçando sua magreza. Provàvelmente de modo intencional, Quinto emula o caminhar de Nimoy e, com isso, traz Spock de volta sem que a audiência média consiga apontar o dedo para onde, exatamente, está a semelhança.

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Vendo a velocidade da luz

Não é “vendo”, presente do indicativo de “vender”, mas “vendo”, gerúndio de “ver”.

Este vídeo está correndo a Web feito fogo na palha, e merecidamente.

Mas todos os rápidos (e ingênuos) textos que já vi têm um defeito em comum: passam a ideia errada de que você “vê a luz se deslocando”, igual àqueles raios laser de filmes de scifi. Não é isso que você vê. A explicação do cientista-engenheiro está correta (ÓBVIO), mas está em inglês. Então, abaixo ofereço meu próprio texto sobre o que acontece.

Ninguém filmou “a luz se propagando”. É assim: primeiro, um raio de luz avança e bate num grão de poeira, ou numa molécula de plástico, ou no que for. Aí, esse raio reflete, vai noutra direção, e acerta (por exemplo) a câmera, que está ali do lado. Nesse momento, a câmera vê a luz pela primeira e única vez; a luz marca o filme; a câmera registra uma centelha. Para a câmera, tudo se passa como se o raio tivesse vindo originalmente daquele grão de poeira que havia no meio do caminho, porque veio mesmo. Para a câmera, o que aconteceu foi uma centelha, ali onde está o grão de poeira, vindo na direção da câmera. Mas sabemos que essa centelha é um raio que veio ali do grão de poeira, que estava se intrometendo no começo do percurso original do raio. Fim.

Agora, junto àquele primeiro raio, havia outro, paralelo, emitido ao mesmo tempo. Esse outro fez um percurso mais longo do que o primeiro sem ser perturbado. Até que, cerca de 0,00000000003 segundo depois, também encontrou um grão de poeira. Como seu percurso durou 0,00000000003 segundo a mais, esse encontro aconteceu 1 cm adiante do encontro anterior. Mas também esse raio foi forçado a refletir noutra direção. E encontrou a câmera, e fez a câmera “acreditar” que estava vindo do segundo grão de poeira, tendo saído dali 0,00000000003 segundo depois e 1 cm adiante do primeiro raio. Então, a câmera registra uma centelha em um ponto que fica 1 cm adiante da primeira centelha.

E assim sucessivamente. São milhares, milhões de raios. À medida que avançam, vão trombando na poeira, refletindo, e alguns atingem a câmera. O que a câmera vai registrando são sucessivas colisões entre luz e poeira; somente aquelas cujas consequências são raios apontados para a câmera. Naturalmente, essa sucessão de colisões vai acontecendo ao longo do caminho que os raios tentam percorrer desde o começo. Então, vemos os impactos acontecendo, um depois do outro, ao longo do caminho que a luz está percorrendo.

Claro que, enquanto um raio de luz está avançando pela garrafa sem colidir com nada, ele é invisível: você só o veria se ele batesse na câmera, mas ele está lá, percorrendo a garrafa, sem bater em nada. Até que ele colide com a poeira. Nesse momento, pronto: aquele raio de luz não está mais fazendo o percurso; ele está colidindo com a poeira e refletindo, e sofrendo o fenômeno que acabei de descrever. Então, de certo modo, o que você vê não é o “percurso” da luz. Ao contrário: é uma sucessão de colisões onde a luz foi impedida de fazer seu percurso. São sucessivas interrupções ao percurso. Cada raio que colide (e assim se torna visível) é menos um raio que está fazendo o percurso, e com isso há cada vez menos raios fazendo a corrida. Os raios que chegam à tampa da garrafa estão em menor quantidade do que os que partiram do emissor.

São diferentes grãos de poeira, espalhados ao longo do caminho, e cada um gera sua centelhinha. Por isso, cada ponto de impacto é diferente do outro. Mas a sucessão de impactos dá a impressão de ser um ponto só que avança. Essa impressão-de-avanço vai andando à medida em que novos impactos surgem. E com que velocidade a impressão-de-avanço vai avançar? Com a mesma velocidade com que os raios vão avançando, sem serem detidos, até afinal serem detidos pela poeira: a velocidade da luz.

E é isso que vemos no vídeo.

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Isto não é uma resenha dOs Vingadores

Cada vez parece que tenho menos tempo, então não vou fazer uma resenha do filme dos Vingadores. Vou só fazer o que já fiz para Homem de Ferro 2 e As Aventuras de Tintim: comentar de algumas coisas em que reparei.

O filme é muito bom. Muito divertido. Vale a grana do ingresso.

Filme em 3D fica escuro.

Explosões! Efeitos! Essa parte está MUITO boa.

Aeronaves utilizadas no filme:
– helicóptero Agusta A109, provàvelmente o modelo civil mais usado em filmes de ação desde os anos 90. Não sei por quê, já que é pequeno e não muito agressivo. Pode ser (1) por causa da aerodinâmica que lhe dá uma aparência de veloz ou (2) porque é sempre a mesma locadora que os cede para filmagens;
– Quinjets da S.H.I.E.L.D.: fictícios e me lembrando os APC da excelente e saudosa Space: Above and Beyond;
– jatos de treinamento Alpha Jet, do modelo francês (não do modelo alemão), fornecidos pela Air USA (como dizem os créditos do filme) e usados em cima do Helicarrier;
– jatos de ataque Harrier, em forma de maquetes sobre e dentro do Helicarrier;
– jato de caça F-35, usado como escolta do Helicarrier;
– jato executivo da Stark Industries, fictício, o mesmo de Homem de Ferro 2, lembrando o projeto conjunto de jato executivo supersônico que a Gulfstream e a Sukhoi iniciaram e abandonaram nos anos 90.

A parte de baixo do Helicarrier lembra muito a Enterprise-E.

Como sempre, Tony Stark, maior do que o mundo, domina a cena, mesmo em presença de deuses e monstros verdes. Inclusive por causa da atuação de Downey Jr., mais uma vez perfeita, maior do que o mundo e dominando a cena. Pergunto-me se ele não faz como Shatner, que não atua, simplesmente é ele mesmo diante das câmeras.

Mark Ruffalo, o ator que faz Bruce Banner, é muito bom em representar o estado emocional de permanente controle de uma raiva que está sempre querendo emergir.

Tudo a ver com Tony Stark: o momento em que ele espeta Banner pra ver se vira monstro.

As falas de Downey/Stark são engraçadas.

Os diálogos do filme são todos previsíveis, óbvios, ralos. Mas que se dane; se eu quisesse ouvir diálogos, teria procurado algum “filme de arte” europeu. Fui ver o filme por causa dos efeitos e esses, sim, corresponderam ao ingresso que paguei.

Excelente a representação do Hulk, bem conforme os quadrinhos: uma força incontível e indiscriminante.

Engraçada a referência: “Hulk — smash.”

Participação de Stan Lee: não vou estragar para quem prefere procurá-lo. Já se você prefere que eu conte, basta selecionar o texto na linha abaixo, que escrevi com fonte branca:
Stan Lee aparece após o clímax, quando as televisões estão mostrando o povo nas ruas a comemorar a atuação dos Vingadores. É o velho que vira pra trás e diz que não acredita em super-heróis em Nova Iorque (o que é uma tremenda ironia, já que o que ele mais fez em sua carreira foi criar super-heróis em Nova Iorque).

Desta vez você não precisa ficar até o final dos créditos. Eu fiquei, não tem nada. Mas tem que ficar até acabar a parte inicial dos créditos, que tem animação.

EOF

As Aventuras de Tintim, uma preciosidade para connoîsseurs e para novatos

Depois de tanto tempo em silêncio neste belogue, depois de ter pensado e iniciado inúmeros textos candidatos a serem o próximo, eu não imaginava que esta postagem fosse tratar justamente do filme do Tintim.

Eu vinha acompanhando as notícias sobre o filme com uma certa apreensão, que aumentou quando vi o trailer. Depois do fracasso do Expresso Polar e de sua perturbadora imitação da vida real, minha expectativa era que Spielberg e Peter Jackson desperdiçassem o potencial aventuresco do personagem. Mas os nerds andaram confiantes e a propaganda foi favorável antes da estreia, então decidi arriscar meus R$ 17 — embora tenha preferido ver a versão 2D depois da má experiência e do desperdício de dinheiro no filme escuro e sem graça do Capitão América 3D.

Senhoras e Senhores, não me arrependi. O filme é divertido! Especialmente para os fãs de Tintim, que vão se deliciar com a adesão ao espírito do personagem e de suas histórias. Já na abertura, somos brindados com créditos escritos com a mesma fonte das capas dos livros. Ao fundo, quadrinhos sortidos e referências diversas sucedem-se para deleite dos fãs: a Ilha Negra, o foguete de Rumo à Lua, a estátua de astronauta de Vôo 714 para Sidnei

Ainda que não houvesse as referências, a própria abertura já teria seu valor. É uma animação de cores fortes, acompanhada de jazz, remetendo às aberturas de filmes dos anos 60 como os de Blake Edwards. Ela mesma já conta uma história e apresenta o teor elaborado das aventuras de Tintim.

Na primeira cena, Tintim está em uma feira de antiguidades enquanto seu retrato é pintado por ninguém menos do que o próprio Hergé, desenhista e Autor de todos os seus livros. Atrás dele há vários outros retratos, saídos diretamente da contracapa das edições clássicas. Nessa mesma linha, para nós que lemos esses livros na desde a infância, o filme traz uma sucessão de referências deliciosas:

– durante os créditos de abertura, vemos um letreiro de aeroporto com localidades como Ilha Negra e Sildávia;

– os recortes de jornal nas paredes do apartamento de Tintim são manchetes correspondentes a aventuras anteriores (especìficamente Os charutos do faraó, O loto azul, O ídolo roubado e O cetro de Otokar);

– o jornal Le Petit Vingtième faz uma breve aparição: esse é o suplemento do jornal Le XXe Siècle onde eram publicadas as aventuras de Tintim até 1940;

– o uísque do Capitão Haddock é Loch Lomond (de Tintim e os Tímpanos);

– as bolas de uísque em queda livre são reminiscentes de Explorando a Lua;

– entre as estátuas do palácio de Omar Ben Salaad, encontra-se a de Shiva, de Os charutos do faraó.

A história avança rapidamente, sem alguma longa exposição do personagem, o que é muito bom, não apenas porque não perde tempo mas também porque os próprios livros não se detêm nisso. O roteiro é uma fusão de O caranguejo das tenazes de ouro com O segredo do Licorne, embora eliminando partes de um e de outro. O resultado ficou bem mais simples do que a soma das duas histórias, mas bem mais complicado do que cada uma individualmente. Então, não há nem menções aos traficantes do primeiro livro, nem aos irmãos Pardal, do segundo. E há algumas outras diferenças, criadas para unir as duas histórias.

CUIDADO: SPOILERS APÓS OS ASTERISCOS. PARA CONTINUAR SEM SPOILERS, PULE PARA OS OUTROS ASTERISCOS.
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Embora a história principal de O caranguejo não tenha sido usada, algumas referências permaneceram, como o gigantesco ornamento em forma de caranguejo dourado no palácio marroquino e a derrubada de uma grande caixa com latas de caranguejo no duelo final entre Sacarina e Haddock.

São de O caranguejo o sumiço da lupa, a promoção de bengalas, o Karaboudjan, a fuga do porão com garrafas de champanha, a bebedeira de Haddock e seu primeiro encontro com Tintim, o imediato Allan, a fuga e o fogo no escaler, o hidroavião metralhador, sua tomada e sua queda, a caminhada no deserto, o resgate pela Legião Estrangeira e o poderoso Omar Ben Salaad. Tudo mais é de O segredo, exceto que o Capitão Haddock não ouviu nem esqueceu segredo nenhum de seu avô: ele leu as memórias de Francisco, Cavaleiro de Hadoque, e ficou empolgado em reconstituí-las, não no deserto, mas dentro de sua própria casa. Já o personagem Barnaby Dawes é a fusão de um personagem chamado Barnabé, de O segredo, com o marinheiro Dawes, de O caranguejo.

Houve um acréscimo divertido porém desnecessário, que foi toda a sequência rocambolesca ambientada na cidade marroquina de Bagar. Já o parentesco entre o Professor Sacarina e Rackham, o Terrível, não existe nos livros e, portanto, enriqueceu a história. No fim do filme, a busca de Sacarina por vingança proporcionou um duelo que espelha a luta entre o Cavaleiro de Hadoque e o pirata. (Se bem que um detalhe talvez tenha escapado aos roteiristas: se o Cavaleiro de Hadoque foi o único sobrevivente do Licorne e do navio pirata, então ninguém mais soube dos detalhes de seu encontro com Rackham. Como se explica que Sacarina tivesse obsessão por vingança ou conhecimento da maldição?)

De um certo modo, eu tinha a expectativa de encontrar o Professor Girassol. Entretanto, chegando ao meio do filme, o segredo do Licorne não havia sequer sido desvendado, de modo que percebi que o filme não mostraria a continuação que é O tesouro de Rackham, o Terrível. De fato, desse livro só o final foi usado, coincidindo com os últimos cinco ou dez minutos de filme.

(Outro detalhe que escapou, este jurídico: se Sacarina se havia tornado legítimo proprietário de Moulinsart, então lhe pertencia o tesouro encontrado na cripta, que veio junto com o imóvel. Não é para Haddock ficar todo animadinho achando que é dono.)

A última tomada de As Aventuras de Tintim convenceu-me de que Peter Jackson e Spielberg estão pensando em fazer o segundo filme; possìvelmente estão só esperando os resultados de bilheteria do primeiro. Se for isso mesmo, certamente será uma adaptação de O tesouro, exibindo o conteúdo principal do livro depois de já ter mostrado o final. A seguir o raciocínio do filme atual, terão de complicar o próximo com a adição de vilões. Nesse caso, aposto que O tesouro será fundido à aventura A estrela misteriosa, onde Tintim e Haddock, a bordo do Aurora, concorrem com a expedição do navio rival Peary para alcançar uma riqueza sem dono em alto mar.

Se Girassol não apareceu, por outro lado tivemos a participação especial da famosa cantora Bianca Castafiore, representada com aparência idêntica à dos quadrinhos e com o sotaque italiano que deveríamos esperar. Inevitàvelmente, ela também tinha que trocar alguns nomes, chamando Sacarina de Aspartame e Salaad de Salada. Todavia, apesar do uso engenhoso que foi dado à personagem, considero que não tenha contribuído para a história senão com algumas gracinhas, confirmando a desnecessidade da sequência em Bagar.
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Dois excelentes toques do filme (e que os livros difìcilmente teriam) foram o sotaque escocês do Capitão Haddock e o sotaque inglês de Nestor, absolutamente compatíveis com seus personagens. Outra preciosidade* foram as magníficas tomadas do choque dos navios em alto mar, que não estavam detalhadas em O segredo do Licorne. Aqui e aqui, você encontra, respectivamente, uma prévia e uma entrevista sobre a criação de As Aventuras de Tintim.

Uma diferença especial entre o filme e os livros é a menção ao Rouxinol de Milão, que normalmente estaria um pouco fora de contexto. É claro que, no momento em que esse nome é usado, os fãs logo sabem quem aparecerá. E, sabendo quem é, também é claro que, no momento em que vemos que há uma proteção em volta da terceira miniatura, já percebemos como ela será vencida!…

Já em matéria de tradução, há um detalhe muito bem-vindo aos fãs de longa data. No som original em inglês, o filme dá aos personagens os nomes que ganharam nas traduções dos livros para o inglês (Milu é Snowy; Dupond e Dupont são Thomson e Thompson; Moulinsart é Marlinspike Hall). Mas as legendas respeitam os originais em francês, mais conhecidos no Brasil. Não sei como ficou a dublagem; quem souber, é fineza comentar abaixo. Grato.

Ainda quanto a traduções, o Capitão Haddock tem uma característica onde as versões brasileiras dos livros aperfeiçoaram os originais. Em francês, ele sempre se enraivece invocando “millions de sabords” (milhões de escotilhas), mas a versão brasileira traz o célebre MIL RAIOS E TROVÕES e sua versão mais contundente, COM MIL MILHÕES DE RAIOS E TROVÕES. Aparentemente, a versão inglesa aproxima-se disso, porque, ao longo do filme, Haddock frequentemente esbraveja “milhares de borrascas”. Já os célebres insultos do Capitão, esses aparecem uma ou duas vezes, como não poderia deixar de ser.

Em síntese: As Aventuras de Tintim é diversão garantida para quem conhece e para quem não conhece o personagem — tanto que estou até cogitando ir ver de novo, desta vez em 3D…

* Preciosidade: minha pequena homenagem a Andy Sirkis, que muito bem interpretou o Capitão Haddock em As Aventuras de Tintim e que, há alguns anos, emprestou sua reconhecível voz a outro personagem, quase tão célebre quanto, obcecado com determinado Anel…

“Eu tô aí com um projeto…”

Aí, né, tem este seriado novo da Mulher-Maravilha. Amigo meu, fã da personagem, resumiu sua crítica:

PROXIMO SERIADO A SER CANCELADO RAPIDAMENTE
A NOVA MULHER MARAVILHA É HORROROSA
O UNIFORME ( NINGUEM MAIS RESPEITA PORRA NENHUMA) É RIDICULO…LEMBRA UM DESTAQUE
DA UNIDOS DA TIJUCA…
TOMARA QUE AFUNDE…PARA ESSES BABACAS APRENDEREM…
http://www.youtube.com/watch?v=r9swHb3v0XU&feature=relmfu

Eu não podia ser mais ponderado, simplesmente porque concordava com ele. Mas acrescentei o seguinte:

Eu concordo…

A atriz não tem presença, não tem porte, não tem garbo, não tem tamanho, NÃO PARECE UMA AMAZONA, o uniforme está errado (CALÇAS? AHSIFUDÊ), …

A Lucy Lawless teria sido uma Mulher-Maravilha muito melhor.

Pelo visto, eles acham que qualquer baixinha de peito grande servia. Então que se afundem.

Mas demos também o benefício da dúvida. Smallville consta que era uma m*rda no início, mas que depois ficou boa… Não sei, não vi. Vai que a moça é boa atriz?…

De todo modo, ouvi no YouTube: “… at least it’s not Beyoncé… Enough of that Halle Berry Catwoman fiasco…”

Realmente, né. Eu não sei o que há que a DC, pra cada um que acerta, tem errado outros tantos. O filme do Superômi ficou parecendo um emo com a cueca pra fora da calça, que até Kevin-Coisa fez um Lex Luthor mais interessante do que o herói. Depois é esse tal filme do Lanterna Verde onde o intrépido piloto se comporta feito um geração-Y deslumbrado, com uma roupa brilhante que mais parece anúncio de sabão em pó para sapos. Por enquanto, só se salvou o Why-So-Serious das Trevas, e mesmo assim não foi incólume.

Enfim. Não quero ser um hater reclamão, não. Se o filme do Lanterna passar no Brasil, eu vou (parece que não vai mais passar, que a DC entendeu que não tem público Update: Esse “parece que” foi relato trazido por um colega meu que não tem Jesus no coração. Resulta que ele confessou ter mentido para mim. Ora, gato escaldado não dá crédito a versão ouvida na feira: eu só escrevi “parece que”, disclaimers apply, o Leitor tem que pesquisar sempre).

Mas é que o próprio estúdio não ajuda no discurso de fanboylagem. Por exemplo: outro dia, saiu matéria no Los Angeles Times sobre a suposta intenção da Warner de fazer um filme da Liga da Justiça.

O Globo On traduziu a matéria e a ela acrescentou alguns comentários bem típicos de fanboy:

DC Comics desafia Marvel

a Marvel corre na frente

E outra que vi por aí na Web, “DC bate de frente com a Marvel…”

Mas que infantilidade. Não há desafio nenhum, nem corrida, nem disputa. Imagina só: o bilheteiro põe o dedo na sua cara, “Escutaqui! Você só pode gostar de um! Ou Marvel ou DC! Se for pego entrando no filme da outra, vai ficar de castigo!”

Ou, então, você imagina dois trens, um da Marvel, outro da DC, numa colisão em alta velocidade, BUM, e só sai uma da poeira, e a outra fica proibida PARA SEMPRE de fazer seus filmes… Porque perdeu a disputa…

Não faz sentido! É uma disputa que não existe! Fã de um não deixa de ser fã do outro, é igual àquelas disputas idiotas de “quem é o melhor capitão de Star Trek, Kirk ou Picard” (Kirk é melhor, óbvio), ou “qual é melhor, Star Trek ou Star Wars“… É a velha visão com antolhos daqueles haters que o @Cardoso tanto comenta, que só conhecem o mundo em preto-e-branco e não admitem que se possa gostar de duas coisas diferentes; você só pode gostar de uma, uma só, e tem que ODIAR tudo mais. Fãs da Marvel e fãs da DC não poderiam encontrar-se na porta do cinema, que seria igual àquelas brigas de gangue de rua de filme americano — com as óbvias diferenças de que só poderiam brigar até a hora em que a mamãe os quisesse em casa, e que as armas seriam anéis de Lanterna Verde da caixa de sucrilhos.

Mas olha só. A reportagem é só hype mesmo, é só para agitar as águas turvas, para que gente como eu fique dando visibilidade. Porque ela mesma deixa pistas de que não há nenhum projeto de filme da Liga da Justiça. Parece ser só uma tentativa do entrevistado de roubar atenção da Marvel, que está com filme do Capetão América, do Thor e dos Vingadores saindo do forno, enquanto a DC tem só esse Lanterna verde-novato e o terceiro Voz Rouca da Escuridão bem mais para a frente.

(Em um aparte, isso me lembra muito uma sequência que o Pânico na TV! fazia: chegava para um ex-BBB numa festa, “e aí? O que você está fazendo depois que saiu do BBB?” “Ah, eu tô aí com um projeto…” “Ah, mais um que tá com um projeto… Quer dizer, não tá fazendo p*rra nenhuma, nem tem projeto nenhum… Tá legal.”)

Se duvida, preste atenção em algumas frases:

“But Robinov said a new Justice League script is in the works.” (Desnecessário enfatizar para assegurar de uma verdade se ela fosse mesmo verdade: transpareceria por si só e inevitàvelmente com o correr do tempo.)

“Also being written for Warner are scripts featuring the Flash and Wonder Woman, who could be spun off into their own movies after Justice League.” “Roteiros sendo escritos” é o mesmo que dizer “não existe nem o cheiro de um projeto ainda”. Além do mais, “could” é expressão muito vaga, e a frase mostra bem que não sabem mesmo se querem fazer algo com os personagens… Como se fizesse sentido haver um Flash ou uma Mulher-Maravilha quase como elenco de apoio em um filme cheio de astros, sem investimento próprio — logo eles, que nunca foram meros figurantes.

“Though Wonder Woman is also in the works as a television pilot for NBC produced by Warner, Robinov dismissed that as a sticking point.” Certo. Como se o estúdio estivesse mesmo disposto a ver fãs comparando, medindo e, afinal de contas, não entendendo nada se o filme não bater com a série.

“We have the third Batman, but then we’ll have to reinvent Batman…” Quer dizer: ele nem lançou o filme de 2012 (que faz parte da atual reinvenção do Batman) e já está dizendo que vai ter que reinventar o personagem de novo. Sei. Excelente maneira de dizer que o investimento atual não vai ter continuidade. Realmente é isso que gostam de ler as pessoas que vinham gostando do resultado (que, aliás, hoje são maioria).

Afinal de tudo isso, fã de DC que sou, não me preocupo não. Essa palhaçada está sendo cogitada para 2014. Até lá, muitos fracassos de bilheteria ainda podem acontecer.

EOF

Cronologia do Lanterna Verde até maio de 1994

A história do Lanterna Verde dos Lanternas Verdes é extensa e complexa. Recentemente, um colega fez-me diversas perguntas, que resolvi responder pesquisando e enviando-lhe um email. Mas por que ele tem que ser o único beneficiário? O trabalho já está pronto, então posso dividir com você, com quem googlar e comigo mesmo — já que é referência à qual eu mesmo posso querer voltar.

A cronologia abaixo é intencionalmente supersimplificada. Há farto material na Web, em saites como glcorps.dcuguide.com e todos os de quadrinhos indicados aí ao lado. A Wikipedia é suficientemente boa, e o Google vai te trazer ainda um montão de informação sobre inúmeros personagens, planetas, histórias, poderes, características… Não pretendo suplantar nada disso. Esta cronologia é só para ajudar o nobre Leitor a contextualizar as histórias que ler e que sejam ambientadas no período coberto.

De 2006 até agora, aconteceu MUITA coisa em torno do Lanterna Verde. O título ganhou enorme destaque nos EUA sob a batuta de grandes artistas (inclusive Ivan Reis, premiado por isso) e atualmente, no Brasil, com retardo de um ano, está passando de um abrangente arco (Blackest Night, A noite mais densa) para outro (Brightest Day, O dia mais claro). Não estou cobrindo nada disso, porque não li nada disso. Nem o período 1994-2005, onde também aconteceu muita coisa na vida de Hal Jordan. Neste momento estou em junho de 1994 e é só até aí que vou. Intencionalmente, estou omitindo referências a Alan Scott, zamorianas, e vilões além de Sinestro. Para manter simples.

CRONOLOGIA DO LANTERNA VERDE DA TERRA-1 (DEPOIS TERRA ÚNICA) ATÉ JUNHO DE 1994

Showcase #22 (Oct 1959) – Primeira aparição do Lanterna Verde Hal Jordan.

Green Lantern #1 (Aug 1960) – Primeira aparição dos Guardiões.

GL #6 (Jun 1961) – Primeira aparição de outro LV (Tomar-Re, do planeta Xudar).

GL #7 (Aug 1961) – Primeira aparição e origem de Sinestro: LV que usava o anel para dominar, humilhar e explorar os habitantes de seu planeta, Korugar. Julgado, perdeu o anel, foi banido para Qward e tornou-se renegado.

GL #9 (Dec 1961) – Primeira aparição do anel amarelo de Sinestro, que extrai energia dos anéis verdes.

GL #40 (Oct 1965) – A história de Krona, que investigou a origem de tudo, espalhou o Mal no universo e foi banido. Os oanos, tentando compensar o dano causado ao universo, tornaram-se os Guardiões e criaram a Tropa dos Lanternas Verdes.

GL #59 (Mar 1968) – Primeira aparição de Guy Gardner, destinado a ser substituto eventual de Hal Jordan.

GL #76 (Apr 1970) – Primeira história de Dennis O’Neil: Hal Jordan questiona a ordem sem justiça dos Guardiões.

Nas histórias de Dennis O’Neil, a parceria de LV e Arqueiro Verde inicia a Era de Bronze dos quadrinhos, questionando a ética dos super-heróis.

GL #81 (Dec 1970) – Dennis O’Neil conta como os Guardiões saíram de Maltus para Oa.

GL #87 (Jan 1972) – Guy Gardner incapacitado por acidente com ônibus. Primeira aparição de John Stewart como LV substituto eventual.

1972-1976 – Com baixas vendas, a revista GL é suspensa em 1972 mas retomada em 1976, seguindo normalmente a numeração.

GL #123 (Dec 1979) – Culminando uma linha de histórias, Guy Gardner entra em coma.

GL #151 (Apr 1982) – Hal Jordan exilado no espaço por dar atenção demais à Terra. Continua LV, cumprindo missões por um ano. John Stewart fica como LV da Terra?

GL #181 (Oct 1984) – “Take This Job — and Shove It”: Hal Jordan pede as contas. Guardiões nomeiam John Stewart o LV permanente da Terra.

John Stewart casa-se com Katma Tui (sucessora de Sinestro em Korugar e sua treinadora). Durante a Crise nas Infinitas Terras, John Stewart é o LV da Terra.

Crisis on Infinite Earths revela que, quando investigou a origem de Tudo, Krona criou o multiverso. Que os oanos ficaram divididos sobre a forma de mitigar o mal. Os mais passivos tornaram-se os Guardiões; os mais intervencionistas foram embora de Oa e tornaram-se os Controladores.

Crisis on Infinite Earths #9 (Sep 1985) + GL #195 (Dec 1985) – Guy Gardner curado e convocado pela facção brigona dos Guardiões.

GL #198 (Mar 1986) – Tomar-Re morre em combate; Hal Jordan fica com seu anel e volta a ser LV.

Millennium (Jan-Fev 1988) – Guardiões vão embora do Universo, e a Tropa fica abandonada à própria sorte. Só fica para trás um Guardião, Appa Ali Apsa, que havia perdido a imortalidade como punição por seu comportamento nas histórias de Dennis O’Neil. Em Maltus, A.A. Apsa começa a treinar Guy Gardner, que se rebela. Apsa tenta retomar o anel de Gardner, mas Jordan livra a cara dele.

Secret Origins #22 (1988) – Revelado que, antes do GLC, os Guardiões haviam criado os robôs Manhunters. Quando os MH se rebelaram, os Guardiões fundaram o GLC.

O título GL torna-se Green Lantern Corps. Arisia, Ch’p, Kilowog, Katma Tui e Salakk vêm morar na Terra.

GLC #222-223 (Mar-Apr 1988) – A Tropa decide matar Sinestro. Em reação à morte de Sinestro, a Bateria Central é destruída. A maioria dos anéis perde o poder. (Na verdade, Sinestro não morreu; sua essência foi parar dentro da Bateria.)

GLC #224 (May 1988) – Último número da série. Lanternas Verdes passam a aparecer em Action Comics Weekly.

Action Comics Weekly #601 (Jul 1988) – Safira Estrela mata Katma Tui.

ACW #635 (Jan 1989) – Última aparição do GLC em ACW.

GL: Emerald Dawn #1-6 (Dec 1989 – May 1990). Reconta a origem do LV. Reboot do personagem.

GL: Emerald Dawn II #1-6 (Apr-Sep 1991) é continuação imediata de Emerald Dawn conforme a cronologia dos personagens, contando do treinamento do novato Hal Jordan pelo experiente Sinestro. Também reconta o banimento de Sinestro, que, nesta versão, é um tirano em Korugar, mas por ser obcecado com ordem e achar que está fazendo a coisa certa.

GL #1 (Jun 1990) – Imediatamente após o reboot de GL:ED, a DC inicia novo título do LV. A história continua do ponto onde havia parado ACW.

Os oito primeiros números de GL compõem a história GL: the Road Back, onde Hal Jordan, não mais LV, está em busca de uma finalidade na vida. Enquanto isso, A.A. Apsa enlouquece e começa a sequestrar para Oa as cidades que visitou em vários planetas. Jordan, Gardner, Stewart e outros vão combatê-lo. Entre os voluntários que auxiliam os LV está Tomar-Tu de Xudar. Quando os LV estão a ponto de ser derrotados por A.A. Apsa, os Guardiões retornam (GL #8, Jan 1991).

Em GL #8, a Bateria Central é restaurada e os Guardiões distribuem tarefas:
– Guy Gardner passa a ser o LV da Terra;
– Hal Jordan vai recrutar novos membros para recompor a Tropa;
– John Stewart fica incumbido de cuidar das cidades trazidas a Oa.

Após GL #15, inicia-se a série GL: Mosaic, onde Stewart é o protagonista e que dura 18 edições. Ao fim da série, Stewart torna-se o primeiro Guardião mortal.

GL #25 (Jun 1992) – Hal Jordan retorna à Terra para reassumir a antiga função. Guy Gardner desafia-o e perde o anel na porrada.

Guy Gardner Reborn #1-3 (1992) – Gardner recruta o auxílio de Lobo e recupera o anel amarelo de Sinestro em Oa.

Guy Gardner #1 (Oct 1992) – Início da série, que foi até o #44 (Jul 1996).

Superman #80 (Aug 1993) – Coast City destruída.

GL #48-50 compõem o arco Emerald Twilight.

GL #48 (Jan 1994) – Hal tenta recriar Coast City para trabalhar seu luto, mas é convocado a Oa para ser julgado por abuso do anel.

GL #49 (Feb 1994) – Jordan matando LV diversos, tomando seus anéis.

GL #50 (Mar 1994) – Hal mata Kilowog e Sinestro, destrói Bateria Central, mata os Guardiões. O último Guardião deixa anel para Kyle Rayner.

GL #51 (May 1994) – Primeira história onde Rayner é o novo LV.

Darkstars #21 (Jun 1994) – Com o fim do GLC, Stewart torna-se um Darkstar. Os Darkstars foram criados pelos Controladores.

A SEGUIR: ZERO HORA!

Minha resenha sobre os primeiros números de GL desde 1959 estava publicada no falecido Geocities e não fiz nenhum esforço para preservá-la. Algumas almas caridosas, porém, fizeram. Várias páginas estão recuperadas nos domínios http://www.reocities.com e http://www.geocities.ws, inclusive esta, que é minha: http://www.geocities.ws/jpcursino/ScPGLv1.htm

EOF

Um falso sinal de socorro, como tantos vemos nos episódios

É tanto spam maldito vendendo remédio, vendendo alongamento de membro, prometendo dinheiro nigeriano, prometendo dinheiro fácil para trabalho em casa, anunciando promoção, vendendo diploma… Apago todos sem olhar.

Só que os argutos olhos atozianos sempre perpassam o conteúdo de qualquer texto antes de lhe dar destino. [Pausa: essa última frase tem métrica?] Além disso, os argutos olhos atozianos alimentam um aplicativo de reconhecimento de expressões que passa correndo pelo texto sem realmente decifrá-lo, uma espécie de radar de busca que, ao detectar expressão familiar, aciona uma segunda leitura, mais precisa. Daquele tipo: “peraí, eu li isso mesmo?”

Assim foi que um dos spams malditos que recebi identificava seu emissor como Jonathan Archer.

Uquê. O capitão da NX-01! Jonathan Archer escreveu para mim! Precisa da minha ajuda em algum planeta? Precisa que eu conserte o inovador motor de dobra 5?

“Oquei,” pensei eu, dando override após a segunda leitura, “boa tentativa”. Durou menos de um segundo. E apaguei o spam maldito.

EOF

Propulsão de dobra com uma nacele a menos

Advirto ao preclaro Leitor que este texto só faz sentido para trekkers. Quem não for trekker também pode ter a aprender, mas não se espante se não souber do que estou falando.

Recentemente, minha colega Leila Kalomi consultou-me a respeito de propulsão de dobra, que é a utilizada pelas naves de Jornada nas Estrelas. Considerei que nossa troca de emails poderia ser guardada para referência futura, não só por nós dois, mas por eventuais googladores. Então, com autorização dela, segue abaixo.

1 – Sei que é possível uma nave voar(?) com apenas uma nacele, mas qual seria o desempenho da que está funcionando? 50%? Seria possível uma velocidade de dobra muito grande?

Se uma nave foi feita para voar com duas naceles, em princípio ela não será capaz de voar com uma só. Para dar forma ao campo de dobra, ela precisa da configuração das duas. Com uma só nacele, o campo será só o campo gerado por ela, que é assimétrico, incompleto. Só seria simétrico se tivesse as duas. É diferente do caso de quando a nave já foi feita para voar com uma nacele só.

Os detalhes por trás vêm daqui: http://www.ex-astris-scientia.org/treknology/treknology-w.htm (… descer até Warp nacelle).

É claro, isso sou eu deduzindo. Ou inventando. O bom da treknologia é que é igual a Direito: cada um diz uma coisa, porque ninguém sabe nada. E todas as versões são aceitáveis, porque você não tem um paradigma “real” para contrastar.

2 – Em teoria, seria o seguinte: a nacele danificada está com um rombo. Daí, deduzo que o combustível deve vazar, certo? Seria possível criar um campo de força para conter esse vazamento?

Não é o combustível que está vazando. É plasma de dobra (isso, pelo menos, é certo; já foi falado diversas vezes em DS9/Voyager). Se você pegar o capítulo 5 do ST:TNG Tech Manual, o plasma de dobra é o que resulta quando você combina matéria e antimatéria no reator de dobra.

Esse vazamento pode ser contido por um campo de força, porque estamos tratando de um gás quente a ser recolhido no espaço como tantas vezes se faz, tanto para recolher como para evitar que entre ou saia de algum lugar. Por exemplo, os extintores de incêndio de bordo funcionam assim: bloqueiam o acesso do oxigênio ao fogo por meio de um campo de força local. Também as portas dos hangares da Enterprise-D têm um campo de força para evitar que o ar escape, mantendo as portas abertas com atmosfera lá dentro. Outros exemplos: em Generations, o campo de força que evita a despressurização na Enterprise-B, permitindo que Scott e Chekov fiquem perto do rombo no casco; e em First Contact, quando Pituquinha abre uma escotilha e mostra a Lily Sloane que é uma longa queda até Montana.

Mas não seria desejável conter o plasma de dobra que vazou. Ele é muito quente, e qualquer nave que esteja vazando plasma de dobra está arriscada a uma falha de contenção em pouco tempo. O ideal é interromper o vazamento o mais cedo possível e deixar que o plasma já vazado se perca no espaço — que é o que eles costumam fazer se você reparar. Para interromper o vazamento, há de se parar a produção do plasma (i.e. desligar o reator) e fechar o buraco.

Você pode pensar em usar um campo de força para “tapar o buraco”, mas isso equivale a tomar remédio para diarreia. O objetivo não é segurar dentro de você aquilo que é ruim. O objetivo é deixar ir embora e parar de produzir mais — ou seja, desligar o reator (assim parando de produzir mais), deixar o plasma escapar evacuando os conduítes, e fechar os conduítes, ou com campo de força ou com algum anteparo. Eu presumo que as naves sejam equipadas nesse sentido, de preferência com anteparos porque não gastam energia para se manterem.

3 – Em caso afirmativo, como seria esse campo de contenção? Alguma ideia?

Os campos de contenção são os mesmos campos de contenção que são usados para muita coisa. Existem dois tipos: os gravitacionais e os magnéticos. Os gravitacionais são os campos obtidos por geração artificial de gravidade; são campos de gravidade, mais intensos ou menos intensos, gerados pela nave com tecnologia que só foi inventada em algum momento lá pela década de 2060. É a mesma tecnologia dos diversos campos de força que servem como barreiras ou suportes, p.ex. o SIF (Structural Integrity Field), que ajuda a manter a nave inteira durante manobras; o IDS (Inertial Damping System), que segura os ocupantes para eles não virarem pizza quando a nave acelera; o defletor navegacional; os escudos; e o raio trator.

Já os campos magnéticos — que me parecem os mais indicados no seu caso — são tecnologia das décadas de 1940-1960. São campos que contêm, feito garrafas, a matéria que quer escapar feito um gás. São exemplos o campo de contenção do teletransporte e o campo de contenção de plasma de dobra (que é gerado dentro do reator e dos conduítes para evitar contato do plasma com as paredes).

Campos gravitacionais também serviriam no seu caso, mas eles são mais indicados para objetos sólidos e força bruta. Para controles refinados e objetos fluidos, campos magnéticos são mais apropriados. Especialmente se for plasma, por razões que a Física do século 20 explica perfeitamente: o plasma é eletricamente carregado, e todo campo magnético só se presta a aprisionar um gás se ele estiver eletricamente carregado.

Não acredito que, passados dezesseis anos, eu ainda consiga dizer tanta bobagem com coerência e, pior, dominando o assunto. Eu e Senhora temos assistido a episódios feitos por fãs e, de vez em quando, algum personagem manda uma dessas, tipo assim: “vai ter que trocar os injetores de plasma”, ao que eu digo na hora para ela: “pô, mas essa manutenção é demorada pra burro, vai ter que estacionar numa base estelar para fazer o serviço, e ainda vai ter que calibrar os injetores novos”. Em seguida, o outro personagem responde: “mas isso só vai poder ser feito na base tal, e vamos ter que chamar alguém que entenda da calibração necessária”. Ela só fica me olhando enquanto eu digo, “eu não disse?” [Atualização: ontem, estávamos vendo o primeiro episódio de Star Trek: Odyssey. Uma romulana sugere a adaptação de um quantum slipstream drive em uma nave romulana. Pensei, isso não pode, porque vai interagir com a singularidade quântica que os romulanos usam para propulsão. Dito e feito: ato contínuo, o Ten.-Cte. Aster responde exatamente o que pensei.]

4 – Uma pequena dúvida: é possível entrar dentro de uma nacele com ela funcionando ou é hermeticamente fechada?

Com ela funcionando não pode. O plasma de dobra é mais quente do que palpite comprado para o páreo armado da corrida de cavalos. Vaporiza a vítima em menos tempo do que leva uma multidão de trekkers famintos para esgotar o estoque de fotografias autografadas que o Nimoy levou para a convenção.

Mas, com a nacele desligada, pelo menos nas classes Galaxy e Sovereign, você pode até entrar nela — conforme visto em “Eye of the Beholder” (http://stng.36el.com/st-tng/episodes/270.html).

De todo modo, não é hermeticamente fechada. Existe um escapamento de plasma “gasto” através das laterais, que é o que permite rastrear a nave através do espaço. Mas aí é só saída, não serve de entrada.

Vista interna de uma nacele da classe Sovereign: http://www.ex-astris-scientia.org/scans/sovereign-nacelle.jpg

5 – Mais uma vez você dá mostras que o seu intelecto continua afiado. Vou explicar a situação e, quem sabe, você me ajuda a sair da sinuca de bico em que me meti. [Seguem-se detalhes da história que está escrevendo.] (…) Uma nave da classe Excelsior está dentro da Zona Neutra Romulana por uma série de fatores. Uma Warbird descobre a dita nave[, que] tem a nacele esquerda atingida. Acontecem alguns fatos e ela acaba por se livrar da Warbird, mas ainda está dentro da ZN e ela precisa urgentemente sair de lá. A minha pobre ignorância já tinha pensando a respeito de um campo de contenção e a sua resposta 2 vai de encontro àquilo que tinha intuído, mas tinha partido da seguinte teoria: ora, se um avião pode voar com apenas um motor, por que não uma nave? Terei de repensar isso. Estou encalacrada no seguinte ponto da história: o engenheiro-chefe pensou em usar o feixe de teletransporte para criar um campo de contenção para que o plasma não se perca. Ele pensa em mandar o plasma através do transporte e ao mesmo tempo criaria um campo que serviria de contenção e assim poderia aumentar a velocidade de dobra, pois, do jeito que a nave está, vai demorar uns seis meses pra sair da ZN e claro, não seria lá muito prudente passar seis meses sendo perseguidos pelos romulanos. Deu pra entender? Please, be free para publicar onde quiser. Quem sabe alguém também não dá um pitaco que ajude?

Depois dessa última pergunta, discutimos o tema ao telefone, e recrutei auxílio de meu primo, meu irmão Leandro M. Pinto, que deu uma excelente sugestão: pode-se conjugar uma certa quantidade de naves auxiliares e fazê-las ocupar o lugar da nacele faltante. Nas palavras dele no Twitter,

Outra opção é tecnoblabar os shuttles na posição da nacele perdida e utilizar as deles para complementar o campo de dobra da nave

Legal é que a solução encontrada dá para ser escrita de maneira bem dramática – pilotos coordenando esforços com a nave, etc.

O lance é o seguinte: nada disso existe, certo? Nada disso existe. Mas já existe um bocado de trabalho teórico em cima, verdadeiros tratados sendo escritos. Especial atenção merecem os saites de Joshua S. Bell, Jason Hinson e Bernd Schneider. Então, no dia em que os trabalhos do maluco do Alcubierre gerarem resultado e cruzarmos a barreira de Dobra Um, a maior parte da teoria já estará desenvolvida! Graças a nós, trekkers, boa parte do trabalho estará pronta!

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Medo de altura, mas não de eletricidade

Existe uma passagem do romance Contato, de Carl Sagan, onde um personagem religioso desafia a fé da cientista na Ciência. Atendendo ao desafio, ela solta um pesadíssimo pêndulo de Foucault e fica exatamente onde estava, na certeza de que, na volta, ele não vai atingi-la. Como de fato não a atinge.

O vídeo abaixo mostra o que, de fato, é você confiar sua VIDA à Ciência. Mostra o que é que, de fato, significa você acreditar em um princípio científico, segurar na mão de Faraday e ir.

A ideia é a seguinte: no século XIX, Michael Faraday descobriu que, em um objeto metálico, a corrente elétrica flui por fora, mas não por dentro. Em um fio elétrico, a corrente está sempre na superfície, nunca no núcleo. Agora, pense no sujeito que vai inspecionar fios de alta tensão. O cara veste uma roupa que é 25% aço inox. Então, a roupa é uma gaiola de Faraday e protege seu usuário. Quando ele encosta em um cabo que está com UM MILHÃO DE VOLTS de potencial em relação à terra, a corrente flui em volta dele, a carga ocupa o lado externo da roupa, e ele adquire o mesmo potencial do cabo. Daí por diante, é mamão com açúcar.

Alguns diriam que é preciso ter muito colhão para fazer o que esse cara faz. Concordo na medida em que não se pode ter medo de altura, nem se pode dar um passo em falso, nem tocar em nada na hora errada. Concordo na medida em que o vento do rotor pode jogar a vítima lá embaixo. Mas, quanto à voltagem, não precisa ter coragem não: basta entender e, daí, acreditar.

Aí, você põe um homem temente-a-Deus ali em cima, sem a roupa especial, e um desses inspetores. Vamos ver quem protege mais: as orações ou a roupa.

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Yamato 2010

Desde 19 de junho, estou em Davis, na California, e este computador nao acentua (claro que acentua, mas ainda nao aprendi). Se quiser saber mais detalhes da minha vida, tem um bocado de coisa no Twitter, entao nao vou entrar nisso agora.

Esta interrupcao no silencio foi so para dizer que meu irmao Leandro M. Pinto mandou uma dica no Twitter que eu tinha que compartilhar com voce. Eh este video aqui.

So quem viu esse desenho na Manchete sabe o arrepio que vai ser se for mesmo verdade (i.e. se nao for um desses fake teasers que eu mesmo venho aqui apregoar de vez em quando). Pago o que for necessario para ir ver esse filme. Ponho minha casa na hipoteca se for o caso. Isso TEM que ir para o cinema no Brasil!

Os superpoderes de Sniper Serra

Sei que não fica bem kibar o belogue dos outros. Mas é que esta aqui do Sniper Serra é tão boa, mas tão boa, que tenho que passar adiante assim.

Kibado do Sniperserra

Porque é muito nerd! O primeiro que vier aqui na caixa de comentários e acertar a ligação entre as figuras e a frase no final ganha um prêmio!

E tem esta aqui também, que já me convenceu da Jovemnerdice de Sniper Serra. Vou ter que adicioná-lo a meus feeds!

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Star Wars crash course em 2:12

… E aqui temos um excelente resumo da trilogia Star Wars (a original e única), em apenas 2 minutos e 12 segundos. Perfeito.

Ah, sim, eu ia me esquecendo de dizer… É stopmotion feito com Lego…

Dica do Animação S.A.

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Sobre a experiência de ir assistir a Homem de Ferro 2

Não vou falar sobre o filme. Não precisa. É muito bom, etc. Armaduras que voam, muitas metralhadoras, projéteis perfurantes e explosivos. Pode ler tranquilo, não vou revelar detalhes que estraguem surpresas pra ninguém.

Vou falar sobre como foi ir ao cinema desta vez.

Quando você compra ingresso para o Kinoplex, você escolhe o lugar com antecedência. Fui à Internet na última sexta-feira à noite e me pus a escolher no Shopping Tijuca, sala 6. Como tenho feito desde 2006 (ou antes, não estou certo), preocupei-me em ficar o mais colimado possível com o centro da tela. Infelizmente, a representação da sala no computador é apenas esquemática, de modo que não se pode ter certeza de nada. Medindo com régua, o meião da sala ao longo da horizontal eram os assentos 14 e 15, mas e na vertical? A única certeza que eu tinha era que a fileira bem no meio não correspondia ao meio da altura da tela. Meio no chute, imaginei que a fileira ideal fosse um pouco acima da metade, entre M e Q. Alguns assentos na periferia da sala estavam ocupados, mas a maioria não. Aí, observei que O14 e 15 também estavam ocupados. Mas que incrível coincidência: dois dias antes da sessão, alguém comprara ingressos bem no meio da horizontal e na zona que parecia ser o meio da vertical. Deduzi que os ocupantes deviam ser cinéfilos profissionais que sabiam o que estavam fazendo.

Como dizia o Chapolim Colorado, “sigam-me os bons”, então fui na aba dos connoîsseurs, escolhendo a segunda-melhor fileira, que seria a P. E fiz uma nota mental de manifestar minha apreciação pela nerdice ao encontrar a figura sentada à minha frente.

Aaah, tá, vou falar do filme. Mas só um pouquinho, tá?

Bem no comecinho, você descobre que o vilão é um klingon. Se souber por quê, por favor, diga aqui nos comentários que, se acertar, eu prometo que ganha um prêmio. (Não vou pensar em qual. Um problema de cada vez.)

O laboratório de Tony Stark continua tendo um telão com o noticiário. Tal como no primeiro filme, onde fizeram product placement esperto da Dell, desta vez as beneficiadas foram a LG, a Kodak, a Oracle (mencionada explicitamente pelo menos duas outras vezes), a Sega (que, suponho, deve ter lançado o VG do filme) e a Audi — que também ganha um painelzão de vários metros de altura e, claro, é a marca que Stark dirige. Kodak aparece novamente em velhos rolos de filme. Quando fores assistir, faz favor, vê se deixei algum nome de fora.

Na primeira cena com Scarlett Johansson, Tony Stark está treinando com Happy Hogan e a chama para subir aonde ele está. Segue-se uma tomada em close do rosto da moça. Tão em close que dá para ver as espinhas por baixo da maquiagem. Photoshop FAIL.

Vamos às aeronaves. As deste filme não fugiram ao padrão do anterior, mas são menos numerosas. Aparecem um C-17 no começo e B-1, B-2, C-17, F-16 e F-22 na base aérea de Edwards. Os F-16 têm o esperado código de cauda ED, assim como o traje do Máquina de Guerra, que, pelo que eu tenha reparado, não é mencionado pelo nome. O esquadrão VX-25 identifica uma das armaduras, mas, pelo que pesquisei, não existe. Novamente, o jato executivo de Stark não é nenhum que exista, mas me parece um projeto que a Sukhoi desenvolveu por um tempo nos anos 90, parecido com uma versão espichada do turboélice Piaggio Avanti.

Aqui cabe um comentário sobre a tradução que legendou o filme. Quando Rhodes pergunta a Stark se o equipamento é “supposed to smoke”, a tradução correta é perguntar se era para estar saindo fumaça — e não se era “para fumar”, como se o paládio do peito de Stark fosse uma caixa de charutos. No finalzinho do filme, “stable-ish” não é “estável”, mas “quase estável”. Isso foi o em que reparei. Estava muito concentrado no filme para observar legendas, mas essas me chamaram a atenção.

Naturalmente, em um filme desses ninguém espera que se vá respeitar completamente o fundamento científico. Nem teria graça, òbviamente. Por isso, vou observar só um detalhe impussívi, que é o seguinte. É verdade que a raça humana tem a capacidade prometeica de sintetizar novos elementos químicos: todos os que vêm depois de 92 na tabela periódica são prova disso. Também é verdade que o jeito de fazê-lo é usar um acelerador de partículas para jogar núcleos atômicos um contra o outro. Só que o que não é verdade é que um tal acelerador caiba em um laboratório doméstico — na vida real, estaria mais para o LHD (se bem que esse também é um monstro de exagero). Menos ainda o método seria jogar um raio pra cima de uma pecinha triangular presa em um torno e menos ainda se esperaria que, miraculosamente, a pecinha deixasse de ser feita de seu material (whatever seja) para passar a estar constituída do tal novo elemento químico. Aliás, quanto mais novo o tal elemento, mais fuderoso tem que ser o acelerador, e o do filme é uma piada. Por fim, na vida real a primeira coisa seria jogar a pecinha num espectrômetro de massa para se ver do que é feita e se realmente se trata do tal novo elemento, sem achismos. Afinal, método científico é isso. A tentativa poderia ter dado errado; tem que submeter a testes pra saber. E não “congratulations, sir, acabou de criar um novo elemento”, como se Ciência se construísse no improviso, por mais prodigioso que seja o intelecto starkiano. Mas relevemos. Adiante.

Agora, existe uma inconsistência em que tenho reparado em todos os filmes que envolvem computadores-que-controlam-coisas e personagens-que-sabem-driblar-criptografia-e-invadir-sistemas-alheios. Já faz 25 anos que estamos usando Windows, em uma ou outra encarnação. Mesmo assim, você já notou que, nesses filmes, os especialistas em segurança de informação NUNCA usam o mouse? Aliás, as máquinas nem têm o ratinho! É tudo feito via linha de comando, desde o tempo de Tron e Jogos de Guerra. A impressão que dá é que todo o mundo, do Pentágono às Indústrias Stark, passando pela Batcaverna e pelos alienígenas de ID4, todo o mundo ainda está rodando alguma interface de UNIX ou MS/DOS, a mais primitiva que conseguir!

(Suponho que seja mais dramático assim. Afinal, você sempre escuta o bater frenético dos dedos sobre as teclas, bastante aumentado em relação à vida real, enquanto o foco normalmente está no rosto do ator. Já com o mouse, você teria que acompanhar o ponteiro na tela, e os cliques seriam poucos e silenciosos, quebrando o ritmo e alienando os alienados que não usam computador — e que talvez ainda sejam maioria, apesar dos esforços de Bill e Steve.)

Mais uma vez, a trilha sonora encaixou direitinho. São oportunas Another One Bites the Dust, do Queen, e todas as inserções de metal pesado, tal como as do primeiro filme. Uma faixa que me surpreendeu — por não ser exatamente um exemplo de popularidade — foi Pick Up the Pieces, pràticamente igual à versão do disco A Hot Night in Paris, da Phil Collins Big Band, de 1999. É a musiquinha instrumental que aparece na cena em que o personagem Justin Hammer faz uma dancinha em cima de um palco.

Antes de eu passar à cena final, chamo sua atenção para a indefectível participação de Stan Lee. Bem que eu estava achando que o Larry King não fosse tão magro.

Mas vamos à tão esperada cena final. Esperada, certo? Claro! Porque, depois que as letrinhas subiram no primeiro filme do Homem de Ferro, todos vimos a verdadeira última cena, com Nick Fury na mansão de um perplexo Tony Stark, sem dizer como conseguiu entrar e começando um discurso sobre a Avenger Initiative.*

O quê??? Você é um daqueles trouxas que se levantam quando as letrinhas começam? Você perdeu a cena mais maneira do primeiro filme? Ah, mas não vai dar esse mole de novo, né. Afinal, você teve dois anos para saber o que havia perdido, e até alugou o DVD para conferir. Ou também é daqueles que dão stop assim que começam as letrinhas no DVD?

Pois é. Desta vez aconteceu de novo. As luzes nem se haviam acendido e já tinha mogalera fugindo do cinema, parece até que tem formiga na cadeira. É fobia, só pode ser! Não sei o que é tão repulsivo, mas a impressão que dá é que o cinema vai irromper em chamas se não estiverem todos do lado de fora quando acabar o rol dos atores.

Mas tenho a impressão de que havia muitos gatos escaldados também, porque um número incomum de nerds ficou sentadinho esperando subir todas as letrinhas. E olha que tem letrinha pra caramba! Passaram os nomes de todos os pintores, gesseiros, jardineiros (não estou brincando, pode conferir) e, básico, aquele mundão de gente que trabalhou nos CGI do filme, que é o que mais toma os créditos hoje em dia.

Antes do fim dos créditos, rolaram agradecimentos a John Byrne, Romita Jr., Romita Sr. e — desculpe, esqueci quem era o outro quadrinhista. Provàvelmente pelas diversas ideias que foram sendo usadas ao longo do filme.

E afinal não nos decepcionaram. Veio a última cena e foi bem legal. É óbvio que não vou contar nada dela, mas os conhecedores de Marvel (ainda que beeeeem superficiais) vão reconhecer. É fugaz, somente um segundo de filme ou dois, os últimos antes do escurecimento definitivo. E me faz pensar… Não vi o segundo filme recente do Hulk (não se preocupe, a cena não tem nada a ver com ele; eu disse que não ia contar o que era e mantenho a palavra); mas algo me diz que tenho que alugar o DVD, nem que seja só pela eventual cena pós-créditos, que nem sei se tem. Só pelo gosto, porque nem há um quebra-cabeças a ser montado. Sabemos no que vão dar essas ceninhas, temos lido.

Ah, sim, o cinéfilo do assento O15 mostrou que tinha escolhido O de otário. Foi embora assim que os créditos começaram a subir. Como disse minha companhia, não era especialista coisa nenhuma: deve ter escolhido o assento porque a mulher dele se chama Olga e 15 foi o dia em que ele se casou.

* Não sei traduzir isso. Iniciativa dos Vingadores? Iniciativa Vingadora? Iniciativa Vingadores? Leitores de Marvel, sugiram.

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Postando às 04:40 da manhã

Não prometo visitar sempre, mas acabo de me divertir um bocado lendo os pensamentos nerds desconexos daqui. Lembra muito o XKCD. Altamente nerd. Requer elevadas doses de nerdice para entender.

Algumas pérolas:

“If I weren’t on my way to being a neuroscientist, I would have to get a Ph.D. in Mathematics, because its the only way I could have an academic career all about Tetris and still be taken seriously.”

E quem entender esta aqui ganha um prêmio. Dica: quem primeiro falou nisto foi o Capitão Oveur.

“When on an airline, Pt 2
“As the crew is thanking me for flying with them, I have to resist the urge to ask the pilot if he has ever been in a Turkish prison and/or enjoys gladiator films.”

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Some more comics annotations

All information here is garnered from the Brazilian translations of these issues, which were published in Superalmanaque DC no. 2 (June 1991). They are listed here in the order in which they appear there, which is the order in which they are supposed to be read as part of the Janus Directive storyline.

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Checkmate! #16 (May 1989) — pencils by Rick Hoberg

In page 3, panel 6, a helicopter attack is represented on Project Atom which is the exact selfsame attack depicted in Suicide Squad #27 — an issue immediately preceding this one here. In Checkmate! #16, the helicopter can be identified as a twin-engine Bell AH-1 Cobra. Curiously, in SS #27, the helicopter was no current type, instead being some generic design contrived by the penciller. I would suggest they coordinate somewhat better if they wanted to appear so ingenious in showing continuity.

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Checkmate! #17 (Jun 1989) — pencils by Steve Erwin

In pages 4 and 5, the helicopters are respectively a long-cabin Bell 206 and a Bell 212. If I could venture a guess, I would say that the penciller was resorting to some Bell calendar to draw his pictures from.

Page 9, panel 3; page 14, panels 4 and 7 — The spaceship is Starblade, directly from the pages of Spacecraft 2000-2100 AD, by Stewart Cowley.

Page 16, panels 3 and 4 — The helicopter is a Hughes 269 (TH-55 Osage).

Page 19, panel 5; page 20, panel 3; page 23, panel 3; page 24, panel 1 — The helicopter appears to be an Aérospatiale AS 365, even though its first appearance gives it the front of an SA 360.

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Suicide Squad #29 (1989) — pencils by John K. Snyder III

Page 16, panel 1 — The Starblade features prominently at a picture that is a near-replica of the original from Spacecraft 2000-2100 AD.

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Checkmate! #18 (Jun 1989) — pencils by Steve Erwin

Throughout this issue, the USAF fighters are clearly those seen in An Illustrated Guide to Future Fighters and Combat Aircraft, by Bill Gunston, as the British Aerospace P.1214-3. The Brazilian edition of Gunston’s work (Aviões do futuro) has them on volume II, page 43. In Checkmate! #18, the same picture can be seen on page 17, with the major difference that the single, fuselage-mounted engine has been replaced by four engines under the wings. Other depictions are seen on pages 1, 12, 18 and 19.

Likewise, the Starblade is featured throughout, notably on pages 14, 15, 18, 19 and 20.

Page 21 — The landing on the Starblade’s cargo bay was unlikely enough, to say the least. Now they compound it with a charge very much resembling one of those from the silly G.I. Joe cartoon, which, to be sure, was contemporary to this issue.

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Suicide Squad #30 (1989) — pencils by John K. Snyder

Page 19, panel 2 — Starblade again.

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Mais anotações a quadrinhos

Toda a informação aqui foi apanhada das traduções brasileiras destas edições, que foram publicadas em Superalmanaque DC no. 2 (junho de 1991). Elas estão listadas aqui na ordem em que aparecem lá, que é a mesma ordem em que devem ser lidas como parte do arco Conspiração Janus.

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Xeque-mate #16 (maio de 1989)– desenhos de Rick Hoberg

A página 3, quadro 6, representa um ataque de helicóptero ao Projeto Átomo que é o mesmo e exato ataque mostrado em Esquadrão Suicida #27 — uma edição imediatamente precedendo esta aqui. Em Xeque-mate #16, pode-se identificar o helicóptero como um Bell AH-1 Cobra bimotor. Curiosamente, em ES #27, o helicóptero não era qualquer tipo atual, sendo, em vez disso, de algum formato genérico imaginado pelo desenhista. Eu sugeriria que eles se coordenassem um pouco melhor se quisessem parecer tão engenhosos em mostrar continuidade.

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Xeque-mate #17 (junho de 1989) — desenhos de Steve Erwin

Nas páginas 4 e 5, os helicópteros são, respectivamente, um Bell 206 de cabine longa e um Bell 212. Se eu pudesse arriscar um palpite, diria que o desenhista estivesse recorrendo a algum calendário da Bell de onde tirar suas figuras.

Página 9, quadro 3; página 14, quadros 4 e 7 — A nave espacial é a Starblade, diretamente das páginas do clássico Naves espaciais 2000 a 2100, por Stewart Cowley, livro tão fácil de se encontrar nos sebos do Rio de Janeiro e, até há uns anos, na promoção dos encalhes da Sodiler.

Página 16, quadros 3 e 4 — O helicóptero é um Hughes 269 (TH-55 Osage).

Página 19, quadro 5; página 20, quadro 3; página 23, quadro 3; página 24, quadro 1 — O helicóptero parece ser um Aérospatiale AS 365, apesar de sua primeira aparição lhe dar a frente de um SA 360.

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Esquadrão Suicida #29 (1989) — desenhos de John K. Snyder III

Página 16, quadro 1 — A Starblade aparece com destaque em uma figura que é quase uma réplica da original de Naves espaciais 2000 a 2100.

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Xeque-mate #18 (Jun 1989) — desenhos de Steve Erwin

Por toda esta edição, os caças são claramente aqueles vistos em Aviões do futuro, de Bill Gunston, no volume II, página 43, como o British Aerospace P.1214-3. Em Xeque-mate #18, pode-se ver a mesma figura na página 17, com a grande diferença de que o motor único, montado na fuselagem, foi substituído por quatro motores sob as asas. Outras representações são vistas nas páginas 1, 12, 18 e 19.

De forma semelhante, a Starblade aparece ao longo da edição, notavelmente nas páginas 14, 15, 18, 19 e 20.

Página 21 — O pouso no compartimento de carga da Starblade era improvável o bastante, para se dizer o mínimo. Agora, eles o compõem com uma carga que em muito se assemelha a uma daquelas dos infantis desenhos animados dos Comandos em Ação, que, note-se, eram contemporâneos desta edição.

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Esquadrão Suicida #30 (1989) — desenhos de John K. Snyder

Página 19, quadro 2 — Novamente a Starblade.

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O Garoto da Camisa Dourada não morre mais

Já deve fazer uns quinze anos que William Shatner só interpreta um personagem: William Shatner.

Desde o início da carreira, ele sempre disse que estava interpretando a si mesmo, que se comportava no palco e na tela como se comportaria na vida real diante daquela situação, e que tentava trazer de si mesmo, e de sua vida, para dentro do personagem. Tenho certeza de que isso foi verdade para o Capitão Kirk, que é indissociável dele (a despeito de Chris Pine — um filme em 2009, por melhor que seja, não apaga 44 anos de História).

Por variadas razões, Shatner é o meu herói — a começar por ter sido o grande Rapa-Trilho da Galáxia, assim denominado em priscas eras de JETCOM por minha colega Leila Kalomi. Nos anos 70, qual moleque de doze anos não queria estar no lugar dele, no comando da Enterprise e de suas 400 almas, desbravando o espaço com um phaser numa das mãos e alguma tripulante gostosona a tiracolo na outra? E ainda sendo mais esperto do que o Spock e enganando os inimigos e a morte por mais um dia?

Só que, de meados dos anos 90 para cá, o homem largou qualquer pretensão ao fingimento. É escancarado mesmo: toda vez que aparece na mídia, ele faz a si mesmo, e faz de si mesmo um personagem, uma paródia constante de todos os seus papéis canastras do passado. Nem parece o ator substituto ovacionado por Henrique V, de Shakespeare, ou o sério passageiro assustado de “Terror a 20.000 Pés”, no Além da Imaginação.

Sua biografia traz evidências de que ele tenha sido um canalha, e é bem possível mesmo. Gente com um ego do tamanho do dele costuma deixar uma trilha de corpos e corações partidos atrás de si. Mas o sujeito nos entretém tão bem que não vou julgá-lo (de todo modo, não estava lá pra saber). Você fica em dúvida sobre quanto é sério em seu discurso, até que lembra que ele tem consagrado sua vida à diversão, ao teatro e à pândega. NADA é sério. Aquela disputa aparentemente mesquinha com George Takei, onde pede desculpas e convida Takei a vir a seu programa quando quiser — não dá pra levar a sério tampouco. É muito provável que ele mesmo não esteja dando importância a nada disso, que respeite Takei mais do que diz e que não se importe com ele nem uma fração do que declara. Na verdade, não parece importar-se com ninguém, nem pode: se um sujeito na condição de Shatner tiver qualquer pudor, não faz um décimo do que ele vem fazendo.

O mesmo vale para tudo que Shatner faz em cima de um tablado ou na frente de uma câmera. Aos 79 anos, o cara aparenta mais hiperatividade e jovialidade do que muita subcelebridade de dezoito. E não é que “esteja sempre se reinventando”, como é moda dizer, mas fazendo sempre o mesmo: William Shatner.

Veja bem: ele pode. Olha o tamanho da filmografia do malandro. Então, com esses créditos, ouso afirmar que, hoje, esteja permanentemente se divertindo, importando-se zero com o que a audiência vai pensar, e, na verdade, de certo modo, divertindo-se à nossa custa. Basta observar qualquer coisa que ele tenha feito na televisão nos últimos quinze anos. Exemplos ilustres que conheço: How William Shatner Changed the World, de 2005; seu personagem Big Giant Head, onde satiriza o Capitão Kirk e a si mesmo (inclusive em Twilight Zone) em 3rd Rock From the Sun; e Free Enterprise, onde declama Júlio César, de Shakespeare, em ritmo de rap. Especial destaque merece sua participação em Boston Legal: aquilo não é Denny Crane coisa nenhuma, nem é realmente atuação em qualquer sentido da palavra. Aquele ali é William Shatner sem nenhum disfarce, inclusive se declarando senil para não ter que responder por nada do que faz ou diz. E a mulherada ainda morre pelo cara!

Agora ele confirma todo esse histórico. Depois de ter gravado o clássico álbum The Transformed Man nos anos 70, declamando Lucy in the Sky e destroçando Mr. Tambourine Man, agora Shatner retorna a sua veia não-exatamente-musical e faz este dueto de Total Eclipse of the Heart com o fenômeno instantâneo Lin Yu Chun:

Dá pra disputar? O Oscar eterno vai mesmo para The Shat, com u’a mão nas costas!

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More dull annotations on comics

These are my annotations on some comics issues I have read not too long ago. They are not meant to be interesting to the general public, but only to myself and to those who google for them.

Batman #500 (Oct 1993)
Page 7, panel 2; page 8, panel 5; page 23, panel 6; and page 24, panel 1 — Jordan B. Gorfinkel, Assistant Editor.
Page 23, panel 6 — Does the sign not remind you of Geoforce?
Page 52 — The car’s impact was reused in 2005’s Batman Begins.

Superman: the Man of Steel #26 (Oct 1993)
Page 19 (Brazilian edition), panel 3 — The Cyborg’s eye and teeth are reminiscent of Swamp Thing‘s Anton Arcane as seen after death in Alan Moore’s run.

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Estas são minhas anotações a algumas edições de quadrinhos que li há não muito tempo. Elas não pretendem interessar ao público em geral, mas apenas a mim mesmo e àqueles que googlarem por elas. A numeração das páginas e dos quadros segue a das edições originais.

Batman #500 (Oct 1993) — publicada em Batman no. 4 (junho de 1995)
P. 7, quadrinho 2; p. 8, quadrinho 5; p. 23, quadrinho 6; e p. 24, quadrinho 1 — Jordan B. Gorfinkel, Editor Assistente.
P. 23, quadrinho 6 — O símbolo não lembra o do Geoforça?
P. 52 — O impacto do vagão foi reutilizado em Batman Begins, de 2005.

Superman: the Man of Steel #26 (Oct 1993) — publicada em O retorno do Super-Homem no. 3 (novembro de 1994)
P. 19 (edição brasileira), quadrinho 3 — O olho e os dentes do Superciborgue remetem aos de Anton Arcane após a morte, conforme representado no período em que Alan Moore escrevia o Monstro do Pântano.

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Babylon 5: comentários de março e abril

Acabo de atualizar meus comentários a Babylon 5, com acréscimos sobre “Z’ha’dum”, “The Hour of the Wolf”, “Whatever Happened to Mr. Garibaldi?” e “The Summoning”. Também já vi “Falling Toward Apotheosis”, mas nada tenho a acrescentar.

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Retuíte nerdiano de quem não tuíta

Isto é maravilhoso. Dica do Juan (que não conheço, mas acabo de visitar o belogue dele). O WordPress não me deixar mostrar o vídeo nem na porrada, mas, se você clicar, é diversão garantida.

Star Wars: Uncut Trailer from Casey Pugh on Vimeo.

A explicação você encontra aqui: centenas de fãs estão, cada um, refilmando uma cena de quinze segundos de A New Hope. Quando tiverem terminado, os caras farão a colagem.

Trailer do Lanterna Verde!

Quando vi a chamada, Green Lantern trailer, pensei mesmo que fosse de verdade. De todos os super-heróis (ainda tem acento?), pelo menos de todos os super-heróis principais, o Lanterna é talvez o único que nunca ganhou filme. E é justamente aquele que mais me interessa ver em filme. E não estou sòzinho nisso; faça uma enquête e você vai ver que muita gente também gostaria. Até já imaginei conceitos para não um, mas vários filmes do LV, com base nas histórias dos quadrinhos.

Antes de clicar, reparei no aviso: “this is a fan-made trailer”. Não tem nada de real. Na verdade, nem a ideia é original, porque a gente já conhecia aquele excelente fake trailer dos Thundercats (se você não conhece, saiba que está perdendo. É uma obra de arte). Imitando o caso dos Thundercats, o trailer do Lanterna é uma óbvia colagem de cenas de ID4, da série Enterprise (o andoriano tornado Guardião), do trailer do Star Trek de 2009, de falas do Senhor dos Anéis (tem acento?)… Mas não importa. É maneiro:

É verdade que o filminho segue as mesmas obviedades de todos os trailers de filmes de ação: feitos para quem sofre de DDA, potencialmente induzindo espasmos epiléticos na audiência, com dez cenas por segundo, sem dar tempo de você sequer saber o que está vendo, com o mesmo tipo de música, todos aqueles portentos visuais… Aliás, ele prova que qualquer garoto, usando ferramentas que estão em domínio público (ou não deveriam… “fotoshop-jogos-coréu”, alguém?), qualquer garoto consegue fazer a mesma coisa que custa milhões aos estúdios. Quer dizer, a tecnologia e a indústria do entretenimento nivelaram a todos.

Não me queixo não. Se você observar quanto dinheiro vai para esse ramo da economia, mais tudo que é lançado ao consumidor de tecnologia, entre telefonia celular, banda larga, smartphones, netbooks… Ainda é melhor do que gastarem em guerras, que é outro ramo que movimenta muito dinheiro.

Há um toque do trailer que será melhor apreciado por quem é fã dos quadrinhos: entre os membros da Tropa dos Lanternas Verdes, dá pra identificar Kilowog, Tomar-Re e até mesmo Ch’p. Naturalmente, ficaram faltando Katma Tui e Arisia, que, aliás, em tempos polìticamente corretos, necessàriamente teriam que ser inventadas se não existissem. Nada que não se possa corrigir.

O juramento dos Lanternas também caiu bem. Não dá pra escutar direito, e parece até uma tropa de borgs falando, mas ficou bem como encerramento.

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Finalmente, questões importantes

Sinceramente, este cara realmente conseguiu me fazer perder a respiração de tanto rir — em particular nesta página (“quanto tempo você sobreviveria após chutar o saco de um urso?”). Descobri o saite através de uma indicação no Twitter. Tem quadrinhos, dicas de gramática e questionários que lhe dão as respostas para algumas das questões mais tormentosas que já encontrei, como nos exemplos abaixo.

Se mordido por um zumbi, quanto tempo você levaria para ser infectado?

Quanto tempo você sobreviveria na superfície do Sol?

Quanto tempo você sobreviveria acorrentado a um beliche com um velocirráptor?

Quantas solitárias seu estômago consegue sustentar? (Vamos abstrair do fato de que elas moram é no seu intestino, não estômago.)

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Babylon 5: comentários até “Grey 17 Is Missing”

Só para dar uma espanada na poeira, acabo de atualizar meus comentários a Babylon 5, incorporando os relativos a “Messages from Earth”, “Severed Dreams”, “Ceremonies of Light and Dark”, “A Late Delivery from Avalon”, “Walkabout” e “Grey 17 Is Missing”. Estão todos em inglês, mas eu tinha textos pré-existentes (é com hífen?) sobre alguns deles, que seguem abaixo.

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“Messages from Earth”

O episódio não chamou a atenção para isto, nem Straczynski nem os comentaristas na Usenet: por causa do Livro de G’Quan, Garibaldi está aprendendo Narn. Indiretamente, é muito provável que esse conhecimento seja útil no futuro.

Vaughn Armstrong tem cabelo castanho, mas seu personagem é louro e usa o mesmo penteado dos alemães dos anos 30 e 40. A referência ao nazismo não deve ser coincidência.

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“Severed Dreams”

A Clarkstown é o mesmo modelo CGI da Hyperion: é tão pouco detalhada como era o CGI no começo da série; e tem até as mesmas inscrições (“21” bem grande no casco).

Quando ativos, os motores da Alexander lembram muito os da Yamato.

Pode-se dizer que fossem suicidas os Narns que enfrentaram os Marines, mas isso é porque não são soldados treinados. Pense: estes são apenas os Narns, civis, que viviam na estação até há pouco tempo. Sua incorporação à segurança foi um improviso. Sua noção de combate é simplista, só na base de ir correndo e atirando, só força bruta, sem planejamento nem autodefesa. Por isso foram caindo, um a um, enquanto avançavam quase em fila indiana contra os fuzis.

Quem combate ao lado dos japoneses não pode contar com eles para sustentarem a defesa: japoneses só podem combater quando estão em perfeitas condições. Ao lhes causar o menor arranhão, o inimigo ativa seu modo suicida, e eles fazem um ataque kamikaze.

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“Ceremonies of Light and Dark”

A primeira coisa que pensei quando Londo ofereceu bebida a Refa: dois pretendentes ao trono, duas velhas raposas, e Londo já o esperava com a bebida pronta, sem você ver se Londo está bebendo da mesma ou se é outra… Eu não aceitaria!

Veneno, o método preferido de assassinato político… Tal como em Roma.

“Espaço necessário para expansão” (Lebensraum), a tolice da guerra em duas frentes, … III Reich.

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Passei! Passei no teste!

Por décadas, os nerds fomos rejeitados. Quando eu estava no Exército, havia um coronel que me chamava de nerd. Acho que, em certa medida, ele estava me ofendendo, ou era sua própria noção distorcida do que seria um tipo de humor não ofensivo, mas, em igual medida, eu na verdade me orgulhava. Porque nós, nerds, sempre nos achamos superiores, certo?

O problema é que, hoje, ser nerd é maneiro. Então, todos os não-nerds ficam dizendo que são também. Não adianta negar nem explicar, porque eles nem sequer SABEM o que é ser um nerd, e de boa fé estão achando que são. Deixe-me dar-lhes a dica: se você deixou de entender uma porção significativa das piadas de Big Bang Theory e só riu dos nerds da série “porque eles são engraçados”, ou porque são diferentes de você, então você não é um nerd. Muitas vezes, Sheldon não está só fazendo piada com os nerds, mas com você, que não é.

Nerds acham graça na maior parte das piadas de http://xkcd.com/. Nerds acham graça em todas as piadas (que tenham graça) de http://www.phdcomics.com/.

No ano passado, vi-me jantando com uma amiga atriz logo depois de sairmos do teatro onde ela fazia a madre superiora nA Noviça Rebelde. Junto vieram três de seus amigos do teatro, atores ou sei lá, e uma das sem-noção desse grupo começou a me perguntar o que é um nerd. A sério. Tinha ouvido a palavra mas não sabia o que era. Depois que expliquei, a desconectada criatura teve a desfaçatez, a ousadia, o desplante de me dizer que então era uma nerd.

Não, jovem, não é. Para entender a mente nerd, leia o Cardoso. Especialmente aqui. Não posso escrever melhor do que ele. Não se chega a nerd por vontade ou esforço pessoal. Se você precisa se esforçar, então automàticamente é impossível que se torne um nerd.

É frustrante. A vida inteira, ser um nerd era estar na de fora. Agora que os nerds conquistaram o mundo, agora que estamos por cima e ganhamos mais dinheiro (bom… menos eu), agora que é legal ser nerd, todo o mundo quer dizer que é nerd também! Porra, assim não dá! Os caras querem ter o bolo *e* comê-lo?!?! Só querem ganhar sempre sem trabalharem nunca?!

Ser nerd não é uma espécie de clubinho onde você entra só porque se diz sócio. Você nem sequer entra; você tem que já nascer dentro, ou melhor, um dia se descobrir dentro. E essa gente toda está querendo entrar, usurpar indevidamente.

Alguns de vocês podem estar acompanhando minha lenta e longa atualização das 500 respostas ao teste de nerdidade. Só que o teste é muito específico e datado. A época é claramente o início dos anos 90, e o viés das respostas fica muito alterado.

MAAAS acabo de descobrir uma versão atualizada do teste:

http://nerdtests.com/ft_nt2.php?score

É óbvio que o fiz imediatamente. E passei!

Taqui meu resultado. Foi alcançado, entre outras perguntas, sendo capaz de fornecer uma tabela periódica, um mapa-múndi, um mapa do mundo antigo e um exemplar da Ilíada, cada um em menos de quinze segundos. Quem se acha um nerd, saiba: pois eu sou um Cool High Nerd.

(Não consigo fazer upload da figura, mas foda-se. Sou um Cool High Nerd, não preciso provar nada.)

Meu resultado (1)
Meu resultado (1)
Meu resultado (2)
Meu resultado (2)

Consolidado (com base na versão feita minutos antes dessa que está acima):

Meu resultado (consolidado)
Meu resultado (consolidado)

 

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Find the One

Na minha caixa de correio, todo dia encontro um spam intitulado “Find the One”.

Tem um episódio de Babylon 5 chamado “Babylon Squared”, onde o alienígena Zathras tem uma importante missão mas, primeiro, precisa encontrar “the One”. Cada um que aparece na sua frente ele examina e conclui, “not the One”.

Se eu fosse ele, procurava em Matrix. De qualquer modo, ele não deve estar prestando muita atenção, porque, como se pode ver pelas mensagens que recebo, tem até gente anunciando onde encontrar the One.

Ou isso, ou estou recebendo essas mensagens do mesmo endereço que me manda “Daters Wanted”.

Prosseguindo no teste de nerdidade:

6. … em nível superior? — Sim.
7. … e recebeu uma nota A? (Novamente traduzo como 7,5 ou acima.) — Sim.
8. Você ainda é capaz de fazer o que aprendeu no curso de #5? — Sim.
9. Você já se graduou nas “ciências duras”? (Engenharia, Física, Química etc. mas excluindo Psicologia, Economia etc.) — Já.
10. Você já estudou Latim? — Não.

Até agora, 9/10.

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Testando a nerdidade

Alguns minutos atrás, deixei um comentário no belogue da BAxt (linque à direita), dizendo que eu havia obtido 44% no teste de nerdidade. Minha pontuação pode ter caído nos dez anos passados desde então, de modo que resolvi fazer o teste de novo, aqui, na sua frente. Aos poucos. Cinco perguntas de cada vez. Se quiser, vá fazendo comigo. São quinhentas perguntas, que interromperei quando perder a paciência (o que já demonstra uma queda no potencial de nerdidade). Tirei o teste daqui: The Nerdity Test, Version 5.x.cubed.minus.3.x.all.divided.by.2, 5 December, 1993.

1. Você já fez um curso de Matemática “superior”? (Trigonometria, Cálculo) — Já.
2. … na faculdade? — Já.
3. … e recebeu um A ? (Vou traduzir como 7,5 ou mais.) — Já.
4. Você ainda é capaz de fazer o que aprendeu durante #1? — Sim.
5. Você já fez um curso de Ciências? (Biologia, Física, Química) — Já.

Até agora, 5/5. Mas a tendência é que o número caia, até porque  as perguntas seguintes têm um forte viés para a Eletrônica, que  nunca foi minha praia. Mas veremos.

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Hitler dislikes the Phantom Menace

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As guerras inquilínicas

Alguns dias atrás, a BAxt fez algumas ponderações sobre o tratamento que os ricos fazem questão de dar aos pobres: aqui e aqui.

Minha Senhora estava chegando ao prédio onde moramos. Havia um morador segurando a porta do elevador, mas, quando ela chegou, o sujeito disse que ela podia subir e ficou no térreo, conversando com o vigia noturno. Ela embarcou sòzinha (no que fico muito feliz: menos um possível ataque de estuprador nesta cidade maravilhosa).

No dia seguinte, quando ela saía cedo para o trabalho, o vigia disse a ela que o morador lhe havia perguntado se ela era proprietária ou inquilina. Explicou: “é que tem proprietário que não sobe no elevador com inquilino”.

Então, agora, sou eu que baixo a seguinte regra: não subo no elevador com quem não sobe com inquilino.

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Hoje é dia 8 de setembro. Se tiver algum trekker desnaturado lendo isto, lembro a ele o que esqueceu: hoje é o 43o. aniversário de Jornada nas Estrelas. Parabéns pra todos nós.

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Os comentários do Sr Atoz a Babylon 5

Continuando uma prática que iniciei algumas semanas atrás, resolvi criar uma página específica para arquivar meus comentários sobre Babilônia Cinco. Assim, reduzo o percentual de inglês do belogue ao mesmo tempo em que organizo a matéria mais conforme o (des)interesse do Leitor.

Portanto, além dos comentários que eu já havia feito sobre “There All the Honor Lies”, a partir de hoje estão no ar algumas notas sobre “Knives” e “In the Shadow of Z’ha’dum”. Infelizmente, as janelas de edição do WordPress não parecem ter sido feitas para páginas permanentes muito longas, e a formatação dá bem mais trabalho do que no Word. Esse problema só piora à medida em que o arquivo cresce e, aliás, nem sei se existe limite para esse crescimento. Portanto, creio que, algum dia, terei que arrumar uma melhor solução permanente para minhas notas. Até lá, vou colocando-as no arquivo criado hoje.

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Babylon 5: “There All the Honor Lies”

Estou assistindo à segunda temporada da série. Para meu próprio registro, tenho escrito alguns comentários sobre episódios. Ocorreu-me que outras pessoas, assistindo, possam também querer esta informação. Então, a benefício delas, quando jogarem o nome deste episódio no Google, pode ser que venham parar aqui e se deparem com isto.

I am watching the series’s second season. For my own record, I have written some comments on episodes. It has occurred to me that other people, watching it, may want this information too. Thus, to their benefit, when they google this episode, they may end up here and find this.

This episode is a succession of disasters for Sheridan. Edition is therefore nervous, with innumerable short scenes and cameras zooming from side to side, giving the viewer the same uneasiness as Sheridan should be feeling.
02:47 — Now that we see where the passageway led, we can also see that, if Sheridan had ran forwards instead of backwards, he would very easily have cut the thief’s path, without the need of climbing to the level where he had been before. Of course, then there would be no episode to begin with.
13:30 — This is obviously one of the latex masks that production crew routinely uses for the Drazi.
13:40 — You can easily trace the latex prosthetics that Mark Hendrickson is wearing: its upper border runs from right in front of his ear, down through his cheek, to the front of a falsely bulbous neck. When he starts to pull it, you actually see all that there is to it, with the added utility of it passing in front of his mouth and thereby muffling his voice as if in a mask. A smart edit completes the motion in the mirror, convincing you of a full-head mask. Quite a clever job, actually.
14:00 — Universe Today: “Vorlons to make (…)” Can anyone please help me out with this?
17:56 — “Fear running out of questions” — This is really not what a warrior (such as Sheridan) would be expected to say. As a rule, the military do not encourage the habit of making questions.
18:03-04 — Watch for the break between takes: when Ivanova is shown only from the breast up, you see she is holding back her left arm. When she is shown fullbody, both arms are just hanging at her sides.
23:13 — As you watch this scene, pay attention to the intense repetition of extras walking by in the background. The same actors repeat their strolls over and over again.
23:16 — Now the human in a colored shirt (HCS) sets down his glass and rises.
23:19 — Now HCS leaves to the left.
23:24 — Is that the waistcoat Kirk was wearing near the end of Generations?
23:25 — Now who is lecturing whom on drowning trouble in alcohol?
23:25 — Now Purple-head Alien (PHA) walks to the left, followed by man wearing African cap (MWAC) and Drazi in beige robe (DBR).
23:31 — Now PHA walks to the right.
23:37 — Now MWAC walks to the right.
23:45 — Is that Mark Hendrickson walking in the back?
23:52 — Now HCS walks to the right.
23:54 — … And now PHBR walks to the right.
23:57-58 — Large robed alien (LRA) walks slowly, right to left.
23:59 — And here is Kirk in waistcoat (KWC) again.
24:03 — Here comes DBR again.
24:05 — Hendrickson walking towards you decidedly.
24:08 — There goes KWC.
24:09 — MWAC just passed again.
24:10 — And here comes DBR again; LRA is talking to someone.
24:13 — Short, grey-haired woman (SGHW) in the distance.
24:15 — Long-face alien was reading Universe Today at 14:00.
24:18 — Hendrickson, right to left.
24:19 — KWC just passed.
24:19-21 — Hendrickson like he’s waiting for someone.
24:28 — I think that was Hendrickson again.
24:33 — … and again.
24:35 — Second man with African cap (SMAC).
24:38 — Hendrickson again.
24:45 — DBR again, now at a quicker pace.
24:51 — Now DBR, talking to PHA.
24:53 — That Centauri walking — he’s appeared at least twice in the past 100 seconds (eg at 23:52-53).
24:54 — SGHW walking towards us.
25:03 — There goes the Centauri again.
25:05 — LRA just appeared in the distance.
25:07 — KWC passed again.
25:08 — SGHW walking at the back.
25:17 — LRA walking right to left.
25:20 — Was that not Hendrickson?
25:24 — SMAC walking left to right.
25:29 — There is that Centauri again at the back.
25:31 — SGHW.
25:41 — After SGHW again, the Ranger comes again, followed by Hendrickson.
25:51 — KWC just walked by, looking down.
25:56 — Look who’s here! SMAC, DBR and PHA.
26:03 — Now the Ranger again.
26:11 — KWC just walked right to left.
And many other examples appear. These were just the more obvious of the lot.
27:19 — Now who might Chester be? I can only think of Fran Fine’s dog.
28:02 — Allan did not make it much of a subtle job following Ashan…
28:06 — I believe I should take this as Lennier’s attempt at an FSNP.
31:38 — The order of delivering Ashan to Minbar came from the Minbari embassy on Earth, rather than from the Minbari embassy on B5 (i.e. Delenn). The latter would be both much more legitimate and much more practical. Now why is that?
34:59 — “I will retain honor” — now hold on there. This is not the same “honor” as they had been speaking of just seconds ago. There are two honors here, or two levels of honor. Once the setup attempt on Sheridan is revealed, the clan is going to lose honor before all Minbari, which includes Lennier — let us call this “clan honor”, which is extensive to everyone in the clan and pertains to the outer world’s perception of a clan and of its specific individuals. Now, Lennier is going to retain his own “personal honor”, but this is a sliver of honor which an individual wields before the rest of the clan — and only before the rest of the clan. There is no such “personal honor” before the rest of the world.
35:17 — Here we are, at the end of the episode, and we see someone privately confessing and explaining an elaborate plot to a (supposedly trustworthy) kinsman. Isn’t it obvious that the confession is being recorded?
35:40 — The trap was perfectly licit. If the Black Star had been crewed by honorable Minbari, they would never have thought of attacking a disabled ship and therefore never fallen for the ruse. It was their lack of honor that brought about their own undoing.
36:37 — Lennier is religious caste. Lavell was warrior caste. Surely they could not belong to the same clan?

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Recém-visitado:
http://www.youtube.com/watch?v=CtYCOAFPPVc&feature=related (Cantina Band on harp)

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Uma dúzia de melhores episódios

Estava na Saraiva ontem quando vi uma caixa de DVD à venda: “os melhores episódios de Star Trek: The Next Generation”. Estou farto de me deparar com pífias seleções arbitrárias de três ou quatro episódios que se intitulam seleções dos melhores. Mesmo assim, curioso em saber quais estavam sendo rotulados como os melhores desta vez, conferi a listagem no verso.

Até que não fizeram mal. Realmente, os episódios estão entre os que considero os melhores da série: “The Measure of a Man”, “Yesterday’s Enterprise”, “The Best of Both Worlds” e “The Best of Both Worlds” Part II. Mas tenho uma reserva. Esses dois últimos ocupam metade da seleção com apenas uma história.

Quem comprar a seleção não estará mal. Até serve como uma boa introdução à série, da mesma forma como assim serve a seleção dos “melhores episódios da série Clássica”, também à venda: “Balance of Terror”, “The City on the Edge of Forever”, “Amok Time” e esqueci qual é o outro. Mesmo assim, após tantos anos me deparando com listas de melhores episódios de Star Trek, decidi que era hora de apresentar minha seleção dos melhores da NG.

Cabe observar que a série tem 176 episódios, alguns dos quais são ruins ou apenas passáveis, mas a maioria dos quais são realmente bons ou excelentes. Claro, porque, se não fosse assim, a série não seria boa, ela mesma. Então, qualquer lista de três, cinco ou dez melhores arrisca-se a ser injusta. Resolvi listar os doze melhores, perfazendo 7% do total, um em cada quinze, ou 9% dos que vi. Não levei em conta a popularidade dos episódios, mas considero sintomático que as listas de melhores episódios da NG sempre acabem repetindo os mesmos nomes. Alguns entram, outros saem, mas existem alguns que sempre tendem a aparecer.

Vejamos. Depois de ter assistido a 138 dos 176 episódios da NG, os episódios que considero melhores, sem qualquer ordem de preferência ou valor, são

“The Measure of a Man” (segunda temporada)
“Who Watches the Watchers” (terceira temporada)
“Yesterday’s Enterprise” (terceira temporada)
“The Offspring” (terceira temporada)
“The Best of Both Worlds” (terceira temporada)
“The Best of Both Worlds” Part II (quarta temporada)
“The Drumhead” (quarta temporada)
“Darmok” (quinta temporada)
“Cause and Effect” (quinta temporada)
“I, Borg” (quinta temporada)
“The Inner Light” (quinta temporada)
“All Good Things…” (sétima temporada)

Feita a lista, algumas constatações aparecem. Em primeiro lugar, não há episódios da pavorosa e tosca primeira temporada. Não é que ela seja realmente ruim, mas é que, em face de uma comparação com as demais, não tem chance. Em segundo lugar, é notável que, da sétima temporada, só haja o último episódio da série, visto como a qualidade dessa temporada é nìtidamente inferior à das que a precederam. Também é digno de nota como um terço dos melhores episódios se concentra na quinta, que também tem outras histórias muito boas, o que indica sua especial qualidade em relação às demais.

Observa-se que, nessa lista, não estão os episódios que envolvem os carismáticos personagens da Clássica: “Sarek”, “Unification II” e “Relics”. De fato, eles são marcos históricos notáveis, trazem grande carga afetiva, têm especial valor para trekkers, mas as histórias não são grande coisa em si mesmas (nem foram feitas para serem). Nem estão ali os episódios da saga klingon: “The Emissary”, “Sins of the Father”, “Reunion”, “Redemption” e “Redemption II”. Minha explicação para isso é que a saga é muito boa como um todo, mas nenhum de seus episódios tem um valor individual tão eminente que o destaque dentre os 138; o valor está justamente na evolução da história ao longo de seu conjunto.

Em coerência com minhas preferências pessoais, não me surpreende que quatro episódios tratem de dignidade da pessoa humana e direitos individuais: “The Measure of a Man”, “The Offspring”, “The Drumhead” e “I, Borg”. Nem me surpreende que só um tenha batalhas espaciais como tema (“Yesterday’s Enterprise”) e três as utilizem incidentalmente (“The Best of Both Worlds”, sua parte II e “All Good Things…”). Três episódios envolvem viagens no tempo ou laços de causalidade (“Yesterday’s Enterprise”, “Cause and Effect” e “All Good Things…”) e três foram dirigidos por Jonathan Frakes (“The Offspring”, “The Drumhead” e “Cause and Effect”). Por último, três envolvem os borgs (“The Best of Both Worlds”, sua parte II e “I, Borg”). Essas duas últimas observações ilustram como Frakes e os borgs passaram a ter a boa vontade do público, o que explica a escolha do diretor de First Contact e daquela m*rda de Insurrection, bem como o excesso de uso dos borgs mais adiante, até a exaustão.

Existem outros episódios dos quais gosto bastante (p.ex. “Chain of Command, Part II”, “Relics” e “Parallels”), mas não mereceram entrar na “melhor dúzia”. Em algum momento você tem que traçar a linha de corte.

Por exemplo: aqui.

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A380 pra você

Sabe o Google Earth? Pois é. Acabei de flagrar um Airbus A380, fotografado em Heathrow em 2009.

Pelo menos até umas semanas atrás, as fotos de Heathrow eram todas de 2008 ou mesmo de antes, com o terminal 5 ainda todo em construção. Para minha sorte, pelo menos para uma parte do aeroporto, o Google atualizou as fotos para 2009 e, aí, apareceu isto aqui (o linque não leva ao Google Earth, mas ao Google Maps. A base de dados é a mesma):

http://maps.google.com/maps?ll=51.468399,-0.45410031&z=19&t=h&hl=pt-BR

O que chamou minha atenção imediatamente foi um avião bem maior do que os outros, que, de início, associei a um 747. Mas notei que havia uma enorme asa de enorme corda*. Também reparei que o enorme avião tinha pouco comprimento adiante da asa e um cockpit bem pertinho da ponta do nariz rombudo, de um modo tal que toda a curvatura do nariz ficava para cima do cockpit, não para baixo, como no 747.

Isso tudo já me dizia que era um A380. Some-se, ainda, o fato de que não muitas companhias aéreas se dispuseram a operar um monstro desses, e conseguimos ler na fuselagem: “Singapore Airlines” (a mesma que operou Concorde em conjunto com a British, lá nos anos 70).

Compare o 380 com os “aviõezinhos” que o rodeiam: imediatamente à esquerda, vemos um 767 da Air Canada e, mais à esquerda, um A340 da Virgin. Pombas, o A340 era pra ser um avião bem grande! Mais à esquerda ainda, um 747-400 da Cathay Pacific, modelo que, até há pouco tempo, era o recordista mundial em tamanho de avião de passageiros. Tire o zoom e compare os dois: o 747 fica pequenininho!

A sudoeste do 380, vemos um 757 taxiando; bem à direita do 380, um A321 da Air France. Minúsculos os dois.

Então taí.

*corda = distância entre bordo de ataque e bordo de fuga, ou entre a “frente” e os “fundos” da asa.

***
ANTES QUE EU ME ESQUEÇA

Hoje faz quarenta anos. É como eu já disse certa vez: verdade que é uma conquista americana mais do que uma conquista da raça humana. Ainda assim, é um tema que me empolga, e estimula-me pensar que alguns seres humanos andaram na Lua. Que, toda vez que você olha para ela, está olhando para os veículos, instrumentos e bases dos módulos de alunissagem, que lá deixaram. E pensar que até o seu celular tem mais memória do que qualquer coisa que tenham usado naquela época.

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Star Trek: Countdown

Star Trek: Countdown é uma minissérie em quadrinhos, composta por quatro capítulos e publicada pela IDW nos meses anteriores a esse filme novo. Ela ajuda a entender o que aconteceu na linha de tempo “normal” antes dos acontecimentos do filme. Ou seja: que história foi aquela de supernova, de matéria vermelha, de Spock ajudando os romulanos etc. É uma espécie de prequel do filme, exceto que é ambientada no século 24. Atenção: seguem spoilers do filme e dos quadrinhos. Prossiga por sua própria conta e risco.

As 4 capas. A figura está centralizada porque a m*rda do WordPress não me deixa colocá-la no início do texto nem alinhada pela esquerda sem f*der toda a formatação. Filhos da p*ta.

As 4 capas. A figura está centralizada porque a m*rda do WordPress não me deixa colocá-la no início do texto nem alinhada pela esquerda sem f*der toda a formatação.

Peraí, pára para tudo. Deixeu descomplicar. O filme Star Trek lançado em 2009, apelidado “Star Trek XI” e que ainda está levando nos cinemas, é ambientado no século 23 e mostra o início da carreira do Capetão Kirk e do Orelha. Exceto que ele não está mostrando o passado dos personagens como você os conhece. Conforme o próprio filme explica, o que acontece é que, no século 24, Spock — òbviamente bem mais velho — envolveu-se com os romulanos e com um acidente cósmico de proporções, bem, cósmicas, e a consequência (agora sem trema) foi uma viagem de Spock e de alguns romulanos no tempo, ao século 23. O surgimento de Spock e de uma nave romulana no século 23 é a causa de uma nova linha de tempo, uma realidade alternativa, divergente daquela que os demais filmes e séries mostravam. Nesta linha de tempo alternativa, muita coisa passa a ser diferente por causa da chegada de Spock e da nave romulana. E é nessa realidade alternativa que se desenrola o filme.

Bem, mas que acontecimentos foram esses, no século 24, que causaram a viagem de Spock de volta no tempo? O filme explica, até mostra resumidamente, mas o foco dele não é essa passagem. Ela só entra como uma justificativa histórica, fazendo a ponte entre a linha de tempo tradicional e a nova. Para quem está interessado nos porquês e desdobramentos, fica uma lacuna.

Então, Countdown supriu essa lacuna, contando justamente esses detalhes, e mais: foi lançada antes do filme. Isso faz todo o sentido, primeiro porque você, ao assistir, já vai com a explicação na cabeça. Segundo porque, seguindo a lógica das viagens no tempo e apesar de tudo, a história passada no século 24 realmente vem antes da história do filme. Realmente é antecessora, realmente o filme é sequência (também sem trema) dela. É como se fossem duas metades de uma história só, embora bastante separadas uma da outra.

Outro dia, li Countdown inteira (bom, mais ou menos… aos saltos. Vendo as figuras, aliás bonitas, e lendo os diálogos na diagonal). É uma minissérie da Nova Geração, tendo o Embaixador Spock como protagonista, e se passa alguns anos após os acontecimentos de Nemesis — que, incidentalmente, é, IMHO, o pior, mais fraco e mais sem sentido dos filmes de Jornada. Mas, voltando à minissérie, nela vemos onde foram parar alguns personagens da NG. Data é o capitão da Enterprise-E, tendo sido ressuscitado a partir das memórias que deixara em B4 no filme anterior (óbvio óbvio óbvio. Alguém tinha dúvida de que era isso mesmo que ia acontecer?). Não reparei no que LaForge está fazendo, mas ele também aparece, assim como o Embaixador Picard — que, assim, acabou materializando aquilo que havia sido prenunciado no episódo “Future Imperfect”. Já Worf é general entre os Glunkons, o que não faz muito sentido em face do destino que teve no final de Deep Space Nine (não vou contar, que também é spoiler. Google: “What You Leave Behind”). E mataram Worf???!!!

Em síntese, gostei bastante. Juntando com o que se lê aqui, imagino que ainda seja possível fazer boas histórias no século 24 da linha de tempo tradicional.

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Star Trek mashups

Eu ia pôr aqui só os linques. Só que leva tanto tempo para carregar o saite original que resolvi kibar e dizer de onde tirei. A fonte taqui:
http://www.empireonline.com/features/movie-poster-mash-up/star-trek/

São 52 cartazes de filmes, adaptados para Jornada nas Estrelas. Os melhores momentos estão aqui embaixo. Logo depois, coloquei também os de Star Wars e de outros temas nerds. Vêm de outros linques do mesmo saite, clicáveis na página de Star Trek que indiquei no parágrafo de cima. Clique nas imagens para ampliar, porque, assim pequenas, perdem um pouco da graça.

Visitas recentes:
http://putaqpaliu.blogspot.com/
http://conversasemsentido.wordpress.com/
http://www.youtube.com/watch?v=OGqX-tkDXEk (The Monty Python Channel on YouTube)
http://trekmovie.com/2009/06/14/time/ — para entender as linhas de tempo de Star Trek “XI”
http://www.wired.com/geekdad/2009/06/passing-the-phaser-10-tips-for-turning-your-kids-into-trekkies/
http://aliengirl.wordpress.com/
http://jovemnerd.ig.com.br/especiais/filmes/tudo-o-que-voce-sempre-quis-saber-sobre-star-trek/ (RESUMÃO suficiente)
http://www.empireonline.com/features/movie-poster-mash-up/star-trek/
http://motherjoana.blogspot.com/
http://scienceblogs.com.br/discutindoecologia/2009/05/um_pontinho_pretomais_uma_bale.php
http://horroresgraficos.marcamaria.com/2009/05/12/vegetarianos/
http://coconobanho.blogspot.com/
http://panoptico.wordpress.com/2009/05/28/wwf-expoe-desempregados-a-humilhacao/
http://marcogomes.com/blog/

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