O passado está de volta no futuro

Então hoje anunciaram a mais nova spinoff de Jornada nas Estrelas, intitulada Strange New Worlds. O Capitão Pike comandará a USS Enterprise ao lado de Number One e do Tenente Spock.

Versão curta: estou ansioso para ver e pretendo assistir com boa vontade.

O que os trekkers da antiga sabem é que, na origem, quando “The Cage” foi criado, quem não tinha emoções era a Number One. Spock era só o alienígena, do qual nem sequer se dizia que era vulcano: naquele momento, seu planeta estava indefinido.

Com a rejeição daquele primeiro episódio piloto, Number One foi excluída da série e Spock perdeu as emoções. (Dizem que foi porque a emissora rejeitou uma mulher na ponte de comando. Isso não é verdade, mas não vem ao caso aqui.)

Depois disso, Spock tornou-se o ícone que conhecemos e amamos. Um vulcano racional, ocultando suas emoções em uma contínua jornada em busca de autocompreensão. A evolução do personagem é uma trajetória fascinante, desde os primórdios, passando por relances de emoções controladas na série Clássica, pela radicalização do Kolinahr, pelo choque com V’Ger, pela quebra de paradigmas após a Ira de Khan e pela paz e sabedoria que viria a adquirir posteriormente.

Na origem da série Clássica, os vulcanos eram cercados de mistério. O pon farr era secreto e sòmente o descobrimos por circunstâncias extremas. O elo mental era um superpoder desconhecido, de raro uso. Gradualmente, fomos sendo expostos à cultura vulcana, e os trekkers passaram a compreendê-la melhor do que os membros da Frota em volta de nosso orelhudo preferido.

Corta para 2017 e, após 729 episódios de Jornada nas Estrelas, estreia Star Trek: Discovery. Mais uma vez a CBS comete o erro que a Paramount cometera com Enterprise em 2001, e cria uma prequel ambientada antes da série Clássica. Se, de um lado, Enterprise fez uma tentativa desajeitada de se encaixar no cânone e acabou antecipando tudo que não devia, Discovery já chegou metendo o pé na porta. Inventou Klingons que tinham pouco a ver com os que conhecíamos, abusou do Universo do Espelho, e zoou com tudo que sabíamos sobre Sarek e os vulcanos. O resultado foi uma série controversa, que me criou desagrado desde o começo.

Mas, na segunda temporada, a CBS resolveu mexer em Discovery, trazendo Anson Mount para atuar como o Capitão Pike e traçando um arco de episódios que, com todos os defeitos, aproximou a série das ideias centrais de Jornada nas Estrelas. Mais do que isso: Mount teve um desempenho brilhante como Christopher Pike. Interpretando o personagem de forma bem diferente das versões de Jeffrey Hunter e Bruce Greenwood (e Sean Kenney também ;-P ), Anson Mount mostrou-nos um Pike que era essencialmente um modelo mais experiente do Capitão Kirk, mais acostumado e relaxado com o comando. Saiu-se TÃO bem, e com tanta popularidade, que alterou dramàticamente a percepção que se tinha de Discovery.

Claramente a fórmula tinha dado certo, mas Discovery não podia fazer uso continuado de Mount/Pike, porque, nesta época, ele era sabidamente o capitão da Enterprise. Ao fim da segunda temporada, ele teve que ir embora.

O resultado era previsível: quase imediatamente surgiu esta nova spinoff anunciada hoje, com as aventuras da Enterprise sob o comando de Pike e tendo, na tripulação, destaque para Spock e Number One.

Independente de outros aspectos, Spock é o personagem mais conhecido e mais popular da série Clássica, e fazia parte da tripulação da Enterprise na época do comando de Pike. Então, ele necessàriamente tem que fazer parte de Strange New Worlds — como foi anunciado que fará, como um dos três personagens centrais. Nem tem como não.

É aqui que entram minhas ressalvas.

Se fizerem uma série com Spock e Number One ao mesmo tempo HOJE, um dos dois vai ter que deixar de ser quem era. Ou Spock será racional e impassível, como era na Clássica toda, ou Number One será, como era em “The Cage”. Mas os dois não dá, e pelo menos um deles vai sair da configuração. Torna-se enorme o potencial de ferir o cânone.

Alternativamente, poderão focar nos aspectos da fisiologia e da cultura dos vulcanos. Aliás nem tem como evitar isso, não só porque é disso que o povo gosta como porque agora são aspectos indissociáveis do personagem. Só que neste ponto também se arrisca uma violação do cânone, porque, na época de Pike, essas características eram pràticamente secretas: só foram reveladas ao longo da série Clássica, pelo próprio Spock. Não importa o fato de que, mais tarde, tornaram-se lugar comum para os trekkers.

Em Discovery, a presença de Spock e Number One não causou grande dano, porque ele estava fora de si e ela apareceu em poucas cenas. Mas, quando vi “Q&A”, esse pequeno episódio pareceu-me furar o que sabíamos sobre os personagens, com uma informalidade que não se encaixava no perfil de qualquer um deles.

OK, então esses são aspectos que podem dar errado e provàvelmente darão. Mas o que podemos dizer sobre a própria série?

Por enquanto, quase nada, é claro. Mas o título é animador. “Strange New Worlds” está no lema de abertura da série Clássica, a ponto de ser uma expressão já vinculada a este universo há tempos. Também é o estimulante nome de uma série de livros de fanfics que exploram a variedade da criação de Gene Roddenberry.

Se vão colocar o Capitão Pike no comando da Enterprise, com Number One e Spock a seu lado, de imediato sou levado a pensar: trata-se da Jornada nas Estrelas que teria existido se “The Cage” tivesse sido aprovado!… É pràticamente uma versão alternativa da série Clássica, onde a Enterprise explorará novos mundos e novas civilizações, audaciosamente se valendo de todos os efeitos visuais de que dispomos em 2020 e que teriam sido impensáveis em 1965.

Com essa perspectiva, vejo um bem-vindo contraste com a tendência que Jornada nas Estrelas vinha adotando, de conspirações e inimigos ocultos. Esse tipo de narrativa era interessante quando era inovador (p.ex. em DS9, contra os Fundadores), mas tende a ser cansativo com o tempo. Felizmente, de tempos em tempos, o universo de Jornada volta a suas origens, como a Nova Geração, Voyager e Enterprise acabaram fazendo, cada uma a seu modo e com resultados variáveis.

De minha parte, fico animado com a possibilidade de se retomar o conceito da série Clássica de um modo respeitoso e muito mais próximo da original do que fez J.J. Abrams com seu reboot (embora, vá lá, a intenção dele fosse outra). Por mais que eu esteja atualmente curtindo Picard (e estou), Strange New Worlds desperta-me maior interesse, inclusive porque uma parte de sua fórmula já foi testada como protótipo na segunda temporada de Discovery.

Há que ver como vão desenvolver simultaneamente Discovery, Picard, Section 31 e Lower Decks, mas quanto a isso tenho fé. Já houve Jornadas simultâneas em outros momentos (TNG/DS9, DS9/Voyager). Embora, na época, tenha havido uma diluição da capacidade criativa, em retrospecto a qualidade das séries afetadas aumentou com o tempo. Além disso, a equipe criativa (nomes como Alex Kurtzman, Akiva Goldsman, Heather Kadin e Aaron Baiers, entre outros) tem mostrado que consegue desenvolver material novo e vigoroso apesar de eventuais tropeços.

E que assim venham outros 54 anos.

Uma atroz dúvida jurídica

Lanche. S.m. 1. Refeição leve que se faz entre o almoço e a janta. 2. P.ext. Qualquer refeição leve. 3. Paulistês. Sanduíche.

Há alguns dias, chegou-me, pelo Twitter, a notícia de que o ex-deputado Eduardo Cunha havia sido preso “enquanto comia um lanche”. Quem me deu a notícia foi um usuário paulista.

Atenção ao verbo. Não é “fazia um lanche”, mas “comia um lanche”.

É claro que, imediatamente, veio-me a dúvida óbvia (a única que deveria preocupar a mente de qualquer leitor dessa notícia com tamanha gravidade): era “lanche” no sentido de “refeição leve” ou “lanche” no sentido de “sanduíche”? A um carioca não vem esse pensamento, porque, para nós, “lanche” nunca significa literalmente “sanduíche” (embora frequentemente o lanche, refeição leve, possa até consistir em um sanduíche). Mas o emissor da mensagem era paulista. Minha dúvida estava mais que justificada.

Apesar de se referir ao ato de comer, e não ao de fazer, paradoxalmente o texto teria sido mais claro se tivesse dito “fazia um lanche”. Afinal, nem à Velhinha de Taubaté ocorreria a hipótese de que o verbo “fazer” fosse literal nesse caso; só poderia estar sendo usado no sentido figurado, de “comer”. Mas, como ninguém aplica tal sentido figurado quando o objeto do verbo é um sanduíche (ou seja: ninguém diz que vai “fazer” um sanduíche no sentido de “comê-lo”), não haveria dúvida: o sentido seria de “comer uma refeição leve”.

Mas não foi essa a escolha de quem escreveu. Como o verbo era literal, “comer”, vieram-me inevitáveis pontos de interrogação.

Felizmente, alguns minutos depois, vim a saber que o “lanche” consistia em um pão com manteiga.

Ora! Ninguém considera um pão com manteiga como parte da categoria dos sanduíches! Sanduíche se faz com alguma coisa que você comeria sòzinha: carne, frango, sorvete, prego de aço — qualquer coisa que você comeria sem pão mas que está escolhendo comer dentro do pão. Se a coisa depende de pão para ser comida — caso da manteiga, da margarina ou do requeijão –, aí você não chama de “sanduíche”; você apenas diz que é “pão com (…)”.

Assim ficou esclarecido o mistério: sendo pão com manteiga, não se tratava de um sanduíche. Não sendo sanduíche, um legítimo herdeiro dos Bandeirantes não chamaria o pão com manteiga de “lanche” com esse sentido. Portanto, òbviamente, só podia ser um “lanche” no sentido de “refeição leve”.

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É claro que outros aspectos jurídicos merecem discussão. O primeiro diz respeito à informação — verdadeira ou falsa — de que os policiais não esperaram que o ex-deputado acabasse de comer para prendê-lo. Ora, se o pão estava ali e não foi comido, logo ficaria duro, apesar da manteiga, e se tornaria imprestável para consumo. O que traz a pergunta: onde fica a sustentabilidade? Então agora se monta um sanduíche para ninguém comer? Será que o País está tão rico que estamos nos dando ao luxo de jogar comida fora? O mínimo que algum policial deveria ter feito seria ter comido o final que restava do sanduíche pão com manteiga, de modo que este cumprisse sua função social.

Pode-se arguir, ainda, que esse ato equivaleria a um confisco, expropriando o preso de seu patrimônio (no caso, o dito final de pão), quando tudo que o Estado poderia suprimir seria sua liberdade. Mas argumento eu: melhor um confisco pelo Estado do que pelo particular. O que você acha que a padaria (ou supermercado, sei lá) ia fazer quando visse o meio pão dando mole, sem consumo, em cima do balcão?

Em uma outra questão igualmente jurídica, mas de muito menor importância, levanta-se a tese de que os policiais poderiam, ao menos, ter esperado que o preso acabasse de consumir sua refeição leve seu lanche. Divirjo. A ordem de prisão é para cumprimento imediato; pudessem os policiais cumpri-la instantaneamente, com teletransporte, deveriam fazê-lo. Então, retardar o cumprimento da ordem seria uma procrastinação ilegal, uma omissão do dever. Mais: se Cunha consumisse o pão até o fim, estaria exercendo liberdade, e a ordem judicial foi justamente para fazer cessar o exercício da liberdade. Então, cuneus panem edere non potest.

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Três primeiros U-2R remotorizados foram entregues

“Os três primeiros U-2Rs remotorizados foram entregues em Palmdale, Califórnia, durante outubro. Após a substituição do motor P&W J75-P-13B por um novo GE F118-GE-101, derivado do motor instalado no bombardeiro B-2, as aeronaves aperfeiçoadas foram redesignadas U-2Ss. A potência extra e a razão empuxo-peso aumentada, junto com uma melhoria de 16% no consumo de combustível, significam que a autonomia foi aumentada em até três horas, o alcance máximo aumentado em 1,200 nm (2.200 km) e o teto aumentado em 3,500 ft (1.100 m). Completo financiamento foi agora concedido para remotorização e algumas melhorias de sensores ao restante da frota de U-2R, que compreendem 33 U-2Rs e três treinadores U-2RT bipostos, todos em serviço com a 9a. RW na Beale AFB, Califórnia. Outro U-2R danificado há alguns anos também está agora em reconstrução para configuração biposta como um U-2RT. A remotorização será executada à medida que as aeronaves chegarem para manutenção programada em escalão de depósito, a última aeronave estando agendada para completamento no Ano Fiscal de 1998. Apesar de algumas melhorias de sensores terem sido aprovadas, incluindo uma melhoria de imageamento multiespectral para cinco câmeras do Sistema de Reconhecimento Eletro-óptico Senior Year, a USAF está buscando financiamento adicional para uma quantidade de outras melhorias de sensores para o tipo — consideradas críticas se ele for permanecer em serviço.”

AIR International, Dec. 1994, p. 325.

Nomenclatura: aviões de caça

Em todo o mundo, “caça” é o nome que se dá a um tipo de avião de combate especializado em derrubar outras aeronaves do céu. Existem vários sub-tipos: interceptadores de longo alcance, interceptadores de defesa de ponto, interceptadores de defesa de frota, caças de combate aéreo, caças de escolta, caças multifuncionais, caças de duplo emprego, de superioridade aérea… Mas todos têm em comum que seu alvo são aeronaves que estão voando.

Em quase toda a literatura sobre aviação, há uma tripartição que é clara a respeito de aviões de combate: aviões de caça contra alvos que estão no céu (em inglês, chamados “fighters”); bombardeiros, para voo nivelado despejando bombas sobre alvos distantes; e aviões de ataque contra alvos na superfície em uma zona de combate (em inglês, “attack” ou “strike”). Parte dos livros inclui os aviões de ataque entre os bombardeiros, dividindo os aviões de combate em apenas dois desses grupos. Para aumentar a confusão, os caças-bombardeiros não são caças nem bombardeiros, mas justamente aviões de ataque.

Nos Estados Unidos, nem sempre essa distinção foi seguida. Em 1948, a nascente Força Aérea daquele país extinguiu a designação “A” para aviões de ataque. Todos os aviões com A existentes foram redesignados como bombardeiros, com B, como no caso do A-26, que se tornou B-26 (gerando uma confusão que persiste ainda hoje, porque havia outro bombardeiro, contemporâneo dele, que também se chamava B-26 e que tinha acabado de ser aposentado). Os novos aviões de ataque surgidos em anos subsequentes foram designados como caças, com a letra F — como, por exemplo, o F-105, o F-111 e, bem recentemente, o F-35 (embora o F-111 e o F-35 tenham, de fato, sido concebidos com o propósito de também serem usados como caças). Já a Marinha fez o contrário, designando com A um conjunto de aviões que claramente eram bombardeiros, como o A3D Skywarrior, o AJ Savage e o A3J Vigilante. Em 1962, a nomenclatura A voltou a ser usada pela Força Aérea, mas o F-105 até hoje é chamado de “caça” sem realmente nunca ter sido destinado a combater outros aviões e apesar de ter um compartimento de bombas.

Não é um caça.

Não é um caça.

No Brasil, por um vício de linguagem, costuma-se chamar de “caça” qualquer avião de combate com apenas um ou dois tripulantes, o que acaba incluindo tanques* voadores feito o americano A-10, que não tem qualquer dos atributos necessários a essa categoria. A Força Aérea Brasileira contribui para o equívoco na medida em que inclui na aviação de caça os esquadrões que operam o AMX (uma aeronave desenvolvida e operada somente contra alvos terrestres) e o Xavante (no qual os pilotos treinavam ataque a alvos terrestres). Então, os aviões de ataque são tratados indistintamente como caças, e até chamados assim.

No caso da FAB, a confusão pode ser decorrente de uma frustração histórica. Em 1944-1945, os pilotos do 1o. Grupo de Aviação de Caça foram treinados pelos americanos para eliminarem aviões alemães dos céus europeus. Chegando à Itália, depararam-se com um cenário bem diferente daquele para o qual haviam sido preparados: a Luftwaffe já havia sido varrida do mapa, e os únicos alvos que restavam eram blindados, caminhões, pontes e depósitos. Com isso, a FAB teve de mudar o foco de sua atuação, e nossos bravos pilotos destacaram-se em arriscadas missões de ataque, a ponto de o Grupo ser uma de apenas três unidades não americanas a terem merecido a Presidential Unit Citation pela bravura de suas ações. Hoje, na FAB, o dia 22 de abril é celebrado como Dia da Aviação de Caça porque, naquela data de 1945, nossos pilotos cumpriram um número extraordinário de missões, em circunstâncias penosas, contra um número significativo de alvos alemães em terra.

Em terra. O vício de linguagem consiste em tratar como “aviação de caça” todo tipo de aviação de combate, e como “caça” todo tipo de avião de alto desempenho, inclusive os de treinamento.

O que me motivou a vir escrever isto é que acabo de ver uma fotografia de vários A-29 da FAB no 7 de Setembro, com a legenda “caças da FAB sobrevoam Brasília”. O nome “A-29”, com A, indica não serem caças. Um dos principais empregos deles é o ataque a pistas clandestinas na Amazônia e similares alvos terrestres. A maior indicação de não serem caças é o fato de serem movidos a hélice: antes dos A-29, o último caça com motor a hélice saiu das linhas de montagem nos anos 50; o último novo caça a hélice data de 1946. Històricamente, os caças sempre foram o tipo de avião de combate de mais alto desempenho, o que decorreu naturalmente da evolução de terem sempre que superar alvos desenvolvidos justamente para fugirem deles, com mais velocidade, mais altitude e mais agilidade.

… E, no entanto, excepcionalmente a legenda da fotografia está certa. Outro dos principais empregos do A-29 da FAB é a derrubada de aeronaves clandestinas do céu do Brasil, com metralhadoras e mísseis ar-ar. Após quase cinquenta anos, a Força Aérea Brasileira realmente pôs em serviço um novo avião de caça movido a hélice, com uma aerodinâmica semelhante à dos caças da II Guerra Mundial, e não há nada de errado nisso.

É um caça.

É um caça.

Mas que fique bem claro: o A-29 é exceção. Estou entendendo que o acerto tenha sido circunstancial, porque a expressão foi usada ainda dentro daquela mentalidade de que todo avião agressivo seja um caça. Em todos os casos, chamar um avião de ataque de “caça” está errado.

* Na verdade, “tanque” é tradução do inglês. O certo em português é “carro de combate”. Mas aí não tem a mesma graça.

Vendo a velocidade da luz

Não é “vendo”, presente do indicativo de “vender”, mas “vendo”, gerúndio de “ver”.

Este vídeo está correndo a Web feito fogo na palha, e merecidamente.

Mas todos os rápidos (e ingênuos) textos que já vi têm um defeito em comum: passam a ideia errada de que você “vê a luz se deslocando”, igual àqueles raios laser de filmes de scifi. Não é isso que você vê. A explicação do cientista-engenheiro está correta (ÓBVIO), mas está em inglês. Então, abaixo ofereço meu próprio texto sobre o que acontece.

Ninguém filmou “a luz se propagando”. É assim: primeiro, um raio de luz avança e bate num grão de poeira, ou numa molécula de plástico, ou no que for. Aí, esse raio reflete, vai noutra direção, e acerta (por exemplo) a câmera, que está ali do lado. Nesse momento, a câmera vê a luz pela primeira e única vez; a luz marca o filme; a câmera registra uma centelha. Para a câmera, tudo se passa como se o raio tivesse vindo originalmente daquele grão de poeira que havia no meio do caminho, porque veio mesmo. Para a câmera, o que aconteceu foi uma centelha, ali onde está o grão de poeira, vindo na direção da câmera. Mas sabemos que essa centelha é um raio que veio ali do grão de poeira, que estava se intrometendo no começo do percurso original do raio. Fim.

Agora, junto àquele primeiro raio, havia outro, paralelo, emitido ao mesmo tempo. Esse outro fez um percurso mais longo do que o primeiro sem ser perturbado. Até que, cerca de 0,00000000003 segundo depois, também encontrou um grão de poeira. Como seu percurso durou 0,00000000003 segundo a mais, esse encontro aconteceu 1 cm adiante do encontro anterior. Mas também esse raio foi forçado a refletir noutra direção. E encontrou a câmera, e fez a câmera “acreditar” que estava vindo do segundo grão de poeira, tendo saído dali 0,00000000003 segundo depois e 1 cm adiante do primeiro raio. Então, a câmera registra uma centelha em um ponto que fica 1 cm adiante da primeira centelha.

E assim sucessivamente. São milhares, milhões de raios. À medida que avançam, vão trombando na poeira, refletindo, e alguns atingem a câmera. O que a câmera vai registrando são sucessivas colisões entre luz e poeira; somente aquelas cujas consequências são raios apontados para a câmera. Naturalmente, essa sucessão de colisões vai acontecendo ao longo do caminho que os raios tentam percorrer desde o começo. Então, vemos os impactos acontecendo, um depois do outro, ao longo do caminho que a luz está percorrendo.

Claro que, enquanto um raio de luz está avançando pela garrafa sem colidir com nada, ele é invisível: você só o veria se ele batesse na câmera, mas ele está lá, percorrendo a garrafa, sem bater em nada. Até que ele colide com a poeira. Nesse momento, pronto: aquele raio de luz não está mais fazendo o percurso; ele está colidindo com a poeira e refletindo, e sofrendo o fenômeno que acabei de descrever. Então, de certo modo, o que você vê não é o “percurso” da luz. Ao contrário: é uma sucessão de colisões onde a luz foi impedida de fazer seu percurso. São sucessivas interrupções ao percurso. Cada raio que colide (e assim se torna visível) é menos um raio que está fazendo o percurso, e com isso há cada vez menos raios fazendo a corrida. Os raios que chegam à tampa da garrafa estão em menor quantidade do que os que partiram do emissor.

São diferentes grãos de poeira, espalhados ao longo do caminho, e cada um gera sua centelhinha. Por isso, cada ponto de impacto é diferente do outro. Mas a sucessão de impactos dá a impressão de ser um ponto só que avança. Essa impressão-de-avanço vai andando à medida em que novos impactos surgem. E com que velocidade a impressão-de-avanço vai avançar? Com a mesma velocidade com que os raios vão avançando, sem serem detidos, até afinal serem detidos pela poeira: a velocidade da luz.

E é isso que vemos no vídeo.

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Servidores públicos, escândalos e falácias

Fica-se dizendo que funcionário público servidor público ganha bem, que servidor público tem aposentadorias e pensões nababescas, que tem privilégios, que ganha verba pra tudo, que desvia dinheiro público, que faz negociatas…

Toda vez que aparece um nome de servidor público envolvido em escândalo, o que é que se verifica? Que é assessor. Que detém cargo em comissão. Que não é concursado nem efetivo. Que é dirigente, diretor de algum órgão. A gente quase nunca vê servidores efetivos envolvidos em maracutaias. Às vezes tem, tanto quanto tem criminoso comum. Mas, quase sempre, os líderes dos esquemas, os servidores que estão levando um por fora, quase sempre é gente que foi nomeada para cargo em comissão, gente que não tem nenhum vínculo com o serviço, nem preparo, gente que é apadrinhada política daquele nosso clássico clientelismo. Essa gente (bem entendido: os criminosos. Não estou falando dos outros, tome nota) sabe que vai ficar no cargo só pelo tempo que ficarem aqueles que os nomeiam. Sabe que essa é sua oportunidade para enriquecimento rápido e fácil. Em regra, é gente que não trabalha, não chega realmente a exercer o cargo no sentido de trabalhar como se espera do ocupante do cargo, às vezes nem dá as caras no local de trabalho. É gente que faz pouco dos servidores efetivos com quem convive e a quem humilha quando pode, gente que tem uma percepção de cargo público bem diferente da de quem fez concurso.

Enquanto isso, os servidores efetivos, que são maioria, continuam ganhando pouco (especialmente no Poder Executivo e suas autarquias), sofrendo com péssimas condições de trabalho, sem ar condicionado nem a aguinha gelada ou o cafèzinho que vemos para os assessores e secretários.

Então, peço ao Leitor que preste atenção: toda vez que sai uma notícia de servidor público ganhando comissão para liberar obra irregular, preste atenção se não é um assessor, diretor, secretário de alguma coisa. Não são esses os representantes da classe, tá? Não são esses os trabalhadores, nem são maioria, que a maioria são servidores efetivos, concursados. Vampará de ficar demonizando os servidores públicos como se fossem os responsáveis pelos problemas do Estado brasileiro.

Aliás, é curioso. Todomundo falando mal de servidor público, todomundo criticando que é uma boca, mas todomundo querendo ser um, estudando pra concurso… Parece contraditório, né? É que, muitas vezes, a indignação não é pelo desvalor ético, não é uma crítica à conduta em tese. É, isto sim, uma queixa: “também queromeu, por que só eles têm e eu não?”, puro fruto de egoísmo mesquinho.

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Em outra notícia, vejo que, esses dias, em Belo Horizonte, uma carreta trazia XYZ mil toneladas de trigo a duzentos mil quilômetros por hora no meio do trânsito movimentado — o que, em si mesmo, já é uma insanidade de punir com marretadas na canela — quando, depois de uma curva, não viu o trânsito parado e saiu atropelando quinze veículos, o que resultou em cinco mortos e vários feridos, com direito a caminhão sendo jogado na vala entre pistas. A alegação do mentecapto motorista foi ter perdido o controle do veículo.

Putaquepariu. É nisso que dá entregar uma carreta na mão de um energúmeno analfabeto. A alegação é sempre essa, você já percebeu? A mais comum é ter “perdido o freio”. O paramécio oligofrênico não percebe que não dá pra parar uma carreta carregada até em cima com tijolos, vindo a duzentos por hora, na mesma distância em que se pára um caminhão vazio que venha a quarenta. Não estou pretendendo que esse animal tenha estudado Física básica, não é isso. Mas, se tivesse um mínimo do treinamento necessário pra subir no veículo, esse aborto viciado em anfetaminas perceberia que o freio, ao contrário do que supõe, não é mágico! Ao contrário do que se possa pensar, não é só pisar no pedal que o caminhão, pronto, instantaneamente pára.

Agora, uma sugestão. Se você olhar pelo espelho retrovisor e vir um mastodonte desses vindo na sua direção, sem ter para onde escapar, solte o freio de mão. Você reduzirá a transferência de energia cinética e ganhará uma minúscula chance a mais de sobrevivência.

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Quem copia-e-cola tem consciência cívica?

Vários dias atrás, saiu no El País que houvera um incêndio em um depósito na Nova Zelândia. Em decorrência do sinistro, havia sido perdido o equipamento destinado à filmagem de O Hobbit — que é aquela prequel do Senhor dos Anéis, tão aguardada pelos fãs dos livros. Uma pena.

Poucos dias depois disso, saiu nO Globo On que a Warner havia autorizado a execução do filme. Só. Meu primeiro pensamento foi que a Warner estava atrasada, “será que não sabem do incêndio?” Meu segundo pensamento foi que, se o jornalista dO Globo On tivesse tido alguma proatividade (é junto ou separado?) e querido agregar valorTM à reportagem, teria ressalvado o incêndio e comentado que a filmagem não fosse (“fosse” do verbo “ir”, acerte aí a gramática) … que não fosse acontecer tão cedo. Mas assim não fez. Não fez porque, tal como tenho constatado, cada vez mais este é um País de repassadores, de gente que, quando pergunto detalhes do que me entregam, responde com a clássica frase “aaah, não sei, estou só repassando”. São situações onde o intermediário não contribui; ao contrário, só retarda o processo. É só mais um consumindo recursos, então a vontade que me dá é de suprimi-lo, de tirar uma etapa que não acrescenta nada, de enxugar o procedimento, de ir direto na fonte onde se originou a informação que está sendo repassada.

E meu ódio cresce, sabe? Porque eu não simplesmente-repasso nada. Se me vejo intermediário em algum processo, logo crio meu próprio filtro, tento eu mesmo entender antes de mandar adiante, torno-me substituto da etapa anterior, não passo adiante enquanto não vier certo a mim. Assim no ambiente de trabalho, assim em tudo.

Eu não ia escrever sobre nada disso, mas, no domingo, 10/10/2010, deparei-me com notícia, aliás no mesmo Globo On, sobre evento de aviação em Santa Maria (cidade que abriga uma base da FAB de onde decolam AMX). Um dos parágrafos terminava assim:

Trata-se do maior evento aeronáutico da Região Sul do Brasil, que tem por objetivo incentivar a mentalidade aeronáutica e despertar a consciência cívica para o papel da Força Aérea Brasileira.

Mais adiante,

Durante o show aéreo, o público tem a oportunidade de conhecer as aeronaves militares e os demais equipamentos aéreos disponíveis, além do adestramento operacional do efetivo.

Na verdade, o que primeiro me chamou atenção foi esse “adestramento operacional do efetivo”. Esse linguajar lhe parece estranho? No mínimo incomum, não? Pois é. A mim não, porque o conheço bem. Essa forma de expressão é típica de nossos militares. Não gosto dela: é artificial, veiculando uma erudição que em geral não está presente. Mas isso não importa agora. O que importa é que jornalista não escreve assim; militar é que escreve. Outros exemplos são as expressões “tem por objetivo” (que militar sempre usa na abertura de qualquer texto sobre algum evento, como se fosse uma locução verbal), “mentalidade aeronáutica” e “consciência cívica”. Tenha certeza de que, toda vez que militar faz uma ACISO (ação cívico-social), vão aparecer essas palavras. A exposição é gratuita, mas tem sempre o propósito de aproximar o público civil (e não vejo problema nenhum nisso). Então, no contexto, “mentalidade aeronáutica” será aquele ânimo, incutido no jovem, de ele se manter pensando nas coisas da aviação militar, para mais tarde ingressar nos quadros da Força. Já “consciência cívica” é outra expressão-chave, de significado meio difuso, mas sempre ligado àquele positivismo nacionalista com o qual o indivíduo se sente, de algum modo, ligado a uma Pátria, cheio de deveres. Militares usam muito a palavra “cívica” para cerimônias que eles executam mas às quais o público civil também comparece. Tudo muito bonito, mas eu como meu chapéu se o jornalista tiver concebido esses termos ele mesmo. E olha que nem tenho um chapéu.

Você já entendeu o que houve, né? Essa é mais uma ocorrência do clássico copia-e-cola. Quando copiei o texto para vir comentá-lo aqui, a página dO Globo On mandou o popup de sempre: “é proibido copiar este texto para fins comerciais, senão você vai ser processado, preso e chicoteado” etc. e tal. Só que isso foi exatamente o que fizeram com o press release da Força Aérea! ObÒviamente, o estagiário (sempre ele, não é verdade?) …o estagiário deu um básico copia-e-cola no texto da FAB. Provàvelmente nem sabe o que é adestramento nem o que é efetivo.

Em tempo: no contexto, “efetivo” é o pessoal da Força Aérea. O evento serviria para demonstrar o quanto estivessem bem treinados.

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Isto merecia ser retuitado

… mas, como isto aqui não é o Twitter, vou pôr o linque:

http://sniperserra.tumblr.com/

A dica eu peguei no SENSACIONAL Porra, Mauricio!, que tenho acompanhado no Twitter e é imperdível.

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E tem esta notícia no saite do Globo On: “Babuínos na África do Sul estão incorporando hábitos humanos e já tentam até usar celular”. Daqui a um tempo ela terá saído do ar, assim como os comentários. Então, permita-me preservar dois deles para a posteridade (ou, pelo menos, por um tempinho a mais):

Babuíno falando no celular? Dê uma volta no centro da cidade e você vai ver um monte.

Eles vão treinar os babuínos para atendimento em call centers.

De fato.

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O fantasma de São Diogo

Até o século XIX, havia no Rio de Janeiro um prolongamento da baía da Guanabara, chamado Saco de São Diogo. Os registros divergem, mas, pelo que entendi, o Saco ocupava a região onde, hoje, ficam parte da região portuária, a estação Leopoldina, a avenida Francisco Bicalho, o Trevo das Forças Armadas, e pedaços da Cidade Nova. Um debate sobre sua extensão aqui.

Durante o século XIX, aquela área foi toda aterrada. Naturalmente, nem por isso se tornou muito mais alta. Ali chegam o Rio Comprido, o rio Joana, o rio Maracanã, o Trapicheiro e outros cursos d’água que drenam o terreno de nossa cidade desde o tempo da última glaciação. O canal do Mangue é prova de que, por ali, um bocado de água ainda corre para o trecho de baía junto à rodoviária Novo Rio. O Saco de São Diogo foi-se, mas sua macro-influência na hidrografia do Rio permanece, feito um fantasma que se recusa a ser derrotado.

Quanto à Praça da Bandeira, històricamente sempre foi alagada. O terreno ali é desconfortavelmente baixo, era dominado por um manguezal e estava ìntimamente ligado ao Saco de São Diogo, com toda a sujeição às marés que caracteriza esse tipo de situação. O traçado topográfico variava fortemente conforme o Saco estivesse mais ou menos cheio de água e, mesmo que hoje haja uma praça por cima, os rios ainda passam ali por baixo. Mesmo hoje, se chover forte durante a maré alta, a desembocadura dos rios fica mais baixa do que o nível do mar, a água não tem pra onde ir e é alagamento na certa.

Acho que isso explica por que é que, em tempo de chuvas como a desta semana, não convém ficar muito perto de São Cristóvão e Maracanã. Agora há pouco, eu estava assistindo ao Jornal Nacional online, e tem o vídeo de um ônibus em frente ao CEFET, com água na altura da janela!

E diz a previsão do INPE que vai continuar chovendo nesta quarta-feira e além…

Na cobertura jornalística do G1, tem um meteorologista dizendo que “não é possível associar [a chuvarada desgraçada dos últimos dois dias], que classificou de ‘atípico’, com o aquecimento global, mas também não se pode descartar sua influência”. Em outras palavras, o homem não sabe o que diz. Mas deixe-me acrescentar alguma coisa, eu, que não sou especialista em p**ra nenhuma. Primeiro, concordo que seria ignorante e leviano associar uma específica chuva, em uma específica semana, a um fenômeno mundial de longo prazo, como é o aquecimento global. Não dá pra fazer esse vínculo, como alguns palpiteiros poderão tentar amadorìsticamente. Em matéria meteorológica, existe um zilhão de fatores envolvidos, e não é a primeira vez que chove forte no Rio.

Mas, segundo a mesma reportagem, a causa da chuva forte seria o calor brabo dos últimos dois meses, que provocou uma umidade incomum no ar sobre a cidade. Com a chegada de uma frente fria, caiu o mundo em cima da gente. Ora, com base nisso, arrisco-me a identificar uma tendência para o futuro sim, por mais que eu prefira estar errado: com o aquecimento global, mais vezes veremos o ar ficar úmido além do que era habitual durante o século XX. As chuvas torrenciais, que aconteciam a cada vinte anos, vão passar a acontecer a cada quinze, dez, cinco, dois anos; já não vai ser algo incomum, mas perfeitamente previsível. Com a chuva, virão a falta de luz, o caos nos transportes, isso tudo.

Então taí. Como Esposa estava comentando comigo ontem: vai acabar esta nossa mamata de ter tudo fácil, eletricidade, telefone, água potável. Vamos ter que conviver com escassez sim, e a vida de nossos filhos não vai ter os luxos da nossa. Quero dizer, para quem é rico assim como para quem é pobre, o padrão de vida vai cair e as agendas vão ter que considerar mais contingências do que as nossas. Tudo vai mudar em nossa civilização. E não descarto a falta de comida.

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Pra quem ainda fica glorificando a guerra

Li há pouco a notícia: ontem foi divulgado um vídeo que era mantido em sigilo pelo exército americano desde 2007. O vídeo está aqui. Essencialmente é o seguinte: dois repórteres, câmeras na mão, acompanham um grupo de sete homens no Iraque, dos quais dois me parecem estar armados (mas posso estar enganado). O vídeo foi feito da câmera do canhão de um helicóptero Apache, que filma tudo que acontece no lado para onde está apontado o canhão. O artilheiro do helicóptero identifica uma das câmeras como uma RPG (arma antitanque muito comum entre guerrilheiros por todo o mundo) e, depois de obter autorização, abre fogo contra o grupo inteiro, gastando 82 cartuchos (basta ver o contador no canto inferior direito: 252 decresce para 170). Oito morrem na hora. O nono, por coincidência o fotógrafo, consegue se arrastar, ferido. Um veículo pára para resgatá-lo e o helicóptero põe mais 120 projetis em cima dele, finalmente matando o ferido.

Você pode assistir ao vídeo tranquilo, porque não tem aquela sangueira que deve ter imaginado, nem dá para ver corpos despedaçados. É tudo muito abstrato, e o helicóptero está longe. Não se escuta nada do que deve estar acontecendo no chão.

Mas várias coisas me impressionaram. Uma delas é a precisão com que o artilheiro consegue identificar os alvos. Outra coisa — e isto é importante — é que o canhão do Apache é o M230, um monstro de 30 mm, projetado para furar blindagem de tanque. Os projetis são explosivos ou incendiários. Ou seja: são mais do que overkill para acertar gente, certamente muito piores do que os cruéis projetis de 5,56 mm dos fuzis que os traficantes e os exércitos do mundo usam por aí.

Outra coisa que me impressiona é a remoção emocional dos militares envolvidos, o profissionalismo de alguém para quem aquilo é só mais um dia de trabalho. Na verdade, em mais de um momento eles comemoram o sucesso dos disparos, e tem um que até ri quando, mais tarde, um veículo blindado de infantaria, também americano, acidentalmente atropela um dos corpos. Considerando que os atiradores estavam na confortável proteção do helicóptero enquanto os alvos estavam indefesos em campo aberto, é muito fácil censurar os soldados e chamá-los de ianques covardes e brutais. Só que há um fenômeno fàcilmente esquecido por quem nunca foi à guerra, que é a gradual desumanização, o embotamento de quem se acostuma a matar sem uma censura por parte do sistema. O cara nem percebe que está errado e, de todo modo, no meio da guerra onde está, muitas vezes ele tem mesmo que matar para não ser morto. Então ele se acostuma e, para ele, puxar o gatilho é tão corriqueiro quanto este teclado aqui para mim.

Tem também o par de segundos transcorridos entre o momento em que começamos a ouvir os tiros e o momento em que vemos os impactos na terra. É demorado mesmo. Por aí se pode ver a distância a que estava o helicóptero. E as vítimas não saem correndo antes de a terra começar a voar à sua volta, o que indica que nunca ouviram os disparos: os projetis são supersônicos. Também aí podemos perceber a precisão do M230. Considerando que, pelas especificações de projeto, provàvelmente bastava que o canhão fosse capaz de acertar veículos à distância, claramente ele atende à exigência, porque dá para acertar um homem, escolhido individualmente.

Estou mostrando esse vídeo com um propósito. Tem gente que se empolga com armas de fogo, que se impressiona com sua capacidade de destruição. Alguns são militares, outros são adolescentes; alguns são apenas entusiastas da História das guerras. Conheci várias pessoas assim em meu tempo de vida, embora hoje não conviva com nenhuma, e todas — verdade seja dita — sempre foram minoria nesses grupos aí. Às vezes vemos vídeos de guerras, tanques rolando pela pista, soldados desembarcando, aviões largando bombas, mas é sempre com aquele distanciamento de mostrar o lado de quem atira, ou cenas que não são de combate. O lado da vítima só costuma aparecer nas obras de ficção. Por mais realista que seja, sempre rola um sangue de mentirinha, e você sabe que não é real. Pois o que este filme mostra é como realmente fica a vítima que leva tiro de canhão. Não é nada divertido, não é algo a que se assista para se ficar empolgado. É bem despojado, sem música nem drama. E é para ver como é.

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Um aguaceiro olímpico

Você já sabe o que eu vou dizer, né? É um absurdo, UM ABSURDO que uma cidade, qualquer cidade, pare por causa de uma simples chuva de algumas horas. Mais ainda uma cidade que pretende sediar jogos olímpicos e copa do mundo. Não é possível que a infra-estrutura (tem hífen?) pare de funcionar, e não haja hospitais, nem planos de contingência, nem mais transporte público. Eu soube que, no apagão do início do ano, tinha hospital que não tinha gerador e gente morreu por causa disso. Não é possível que seja tudo no improviso, não é possível descobrirmos isso só quando falta luz. TÁ TUDO ERRADO.

Ontem à noite, várias localidades ficaram inundadas no Rio de Janeiro, todo o trânsito parou, os ônibus pararam de circular, bombeiros militares tiravam gente de seus carros na Praça da Bandeira, minha rua ficou sem luz (a única na Tijuca, aparentemente), o Metrô parou de funcionar durante um intervalo de tempo. Hoje de manhã, quase ninguém no meu local de trabalho, a luz só voltou quase às dez da manhã, e a Defesa Civil pede que ninguém saia de casa. Nos hospitais e quartéis dos bombeiros, os plantonistas dobraram, e eu não me surpreenderia se alguém me dissesse que os jornalistas na tevê são os mesmos de ontem à noite, que não conseguiram ir pra casa e cujos substitutos não chegaram. Nos quartéis do Exército, tenho certeza de que todo o mundo também teve que dobrar o serviço, mas para esses estou pouco me f*dendo e estou até rindo, já paguei o que devia à força, já fiz ronda de madrugada, fiquei de serviço debaixo de chuva no réveillon do milênio.

Ninguém fez nada para resolver nada, e aí me incluo; a crítica vale também para mim mesmo. Eu não sabia se meu síndico havia tentado contato com a Light para trazer a luz — como se o caminhão da Light fosse conseguir chegar a nossa rua no meio do dilúvio –, então tentei contato. Descobri todas as linhas da empresa ocupadas, e tome ouvir musiquinha. Dessa vez, não posso culpá-los.

Enquanto isso, meu telefone fixo é um fax Panasonic que só funciona se estiver ligado na tomada, de modo que fiquei também sem telefone. Passei a contar com o celular, cuja bateria já não estava no máximo e, portanto, tinha que ser usada com parcimônia. Esposa lembrou que temos dois no-breaks (o do computador e o da TV), ambos com carga, e perguntou se poderíamos carregar os celulares neles. Suponho que sim, mas é aquilo: você só tem meia hora de carga — use-a sàbiamente! Aí, lembrei que, dois dias antes, eu havia carregado a bateria da máquina fotográfica. Quer dizer, ainda tinha essa carga com que contar. Me senti o próprio Magáiver*, restabelecendo a luz da rua só com a bateria de lítio de 2,4 Wh da Sony.

E como é que eu soube que a luz tinha voltado? O infeliz do meu vizinho já tinha botado o rádio no máximo. O mesmo e repetitivo disco, over and over again.

* A formulação correta da frase seria “Senti-me o próprio McGyver”, mas não teria o mesmo gosto.

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Acidente da Fumaça em Lages

Vá ao YouTube e você encontrará inúmeros vídeos do acidente havido ontem com um Tucano da Esquadrilha da Fumaça. Dos que vi, o melhorzinho é este.

Estes aqui também são bem completos.

Mais uma vez, os auto-intitulados especialistas vão apresentar suas óbvias causas do acidente. Já vi um comentário no mesmo YouTube, de um sujeito que diz ter acompanhado telemetria do avião e, com isso, percebido pane, assim como ouvido o piloto, a dizer no rádio que o motor tinha falhado. Pode ser verdade, pode ser mentira. Não sei.

Tenho uma pergunta. O avião estava òbviamente perto do chão, apontado para o chão e não para o público, e  nivelado com o cockpit para cima. Não vejo motivo para o piloto precisar ficar a bordo até o último instante (embora talvez ele tivesse). Que eu saiba, os assentos do Tucano são zero-zero: funcionam a zero velocidade e zero altitude. Por que, então, ele não ejetou?

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Casal Nardoni

O título desta postagem é o que Cardoso costuma chamar de Google bait.

A manchete do jornal dizia, enooorme: “FOI FEITA JUSTIÇA”.

Alguém vai lá e explica pro jornalista que sempre seria feita justiça, de um modo ou de outro. Quaisquer que fossem as decisões do júri (condenando ou absolvendo) e do juiz (estabelecendo o quantum da pena), estaria sendo feita justiça. Por definição, justiça é aquilo que eles decidem. É pra isso que existe Poder Judiciário. “Justiça” não é sinônimo de “condenar”.

Outra: “agora você pode descansar em paz, Isabella”. Outro desinformado. Alguém, por favor, vai lá e explica pra esse sujeito, que não sabe p*cas de processo penal, que não acaba aí. Qualquer um que já tenha lido qualquer notícia, sobre qualquer processo penal, sabe que, depois da sentença, ainda cabe recurso. Vocês podem tacar pedra à vontade, dizer que as hipóteses são mais restritas no júri, que o protesto por novo júri foi abolido, podem dizer o que quiserem. A defesa sempre vai entrar com o recurso que quiser, ou até com habeas corpus, e algum tribunal sempre vai ter que, no mínimo, dizer que o recurso não cabe. Mas nunca acaba ali.

Não adianta vir me dizer “ah, mas o jornalista não fez curso de Direito, não é obrigado a saber esses detalhes”. Realmente, não é mesmo. Mas, então, PERGUNTA, P#RRA. Insisto e insisto: SE NÃO SABE, NÃO CHUTA. Não é pra escrever sobre o que não sabe, nem é pra inventar. Advogado taí é pra isso mesmo, pra responder pergunta. Eu, por exemplo, não sou especialista em nada, mas não tem uma palavra que eu escreva aqui cujo significado ignore.

Conheço a tese: tudo é pra ontem, não dá tempo de consultar um especialista, o jornal tem que ir pra gráfica, se possível, ONTEM. Já sei, já sei. É, realmente vai cair o dedo se o sujeito pegar um telefone e ligar prum advogado antes de escrever besteira. Realmente, cinco minutos vão fazer uma diferença enorme para um jornal que leva 24 horas pra ficar pronto.

Ah, é só pra vender jornal mesmo, que se f*da. TNC todo o mundo.

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Helicópteros e sabotagem

Estava lendo no Globo On: caiu no Centro-Oeste um helicóptero do Batalhão de Aviação do Exército.

Como se só houvesse um. Na verdade, são quatro Batalhões de Aviação do Exército. A matéria até dá a entender que a aeronave era do 3o. Batalhão, mas será que vai cair o dedo se escrever certo?

Mas o mais importante é isto. A fotografia mostra um helicóptero Tigre, usado pelos exércitos francês e alemão e não usado no Brasil. E a legenda diz “Modelo de helicóptero que caiu no Pantanal /Reprodução TV Morena”. É evidente que o helicóptero caído não tem como ser do mesmo modelo do da foto.

É o que vivo dizendo sobre a absoluta preguiça de se pesquisar qualquer coisa, tão comum entre pseudojornalistas brasileiros. Ninguém olha nada. Fiquei sem saber qual é o modelo do helicóptero que caiu. E aí você começa a duvidar de tudo: sequer caiu?

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Boçais e ladinos

Hoje havia uma notícia no jornal: um homem foi executado pelo tráfico porque havia dito “é nóis”.

Pensei, que maravilha! Finalmente os erros de português estão sendo punidos como merecem!

Lendo o restante da matéria, descobri o verdadeiro motivo: “é nóis” era o lema da facção criminosa inimiga da dos homicidas. Aí não tem graça.

Mas bem que ajudaria se minha primeira impressão tivesse sido real. A Companhia de Comédia Melhores do Mundo fez uma peça de teatro (vídeo aqui) onde o sequestrador avisava à polícia que ia matar um refém para cada erro de português. Pleonasmo eliminava dois reféns. A peça tinha o seguinte diálogo:

— Vou ligar para uma autoridade aqui pra resolver o problema!

— Liga para um delegado, para um deputado, sei lá. Liga pro Presidente Lula!

— P***a, “Presidente Lula”?! Cê quer uma chacina aqui??!!

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Pode ser que você tenha lido um de meus textos sobre os intreináveis. Se não leu, faz favor: vai lá e depois voltaqui para ler o que segue abaixo. Eu espero.

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Já leu? Então tá bom. Só mais uns espacinhos, e aí entra meu texto novo.

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É o seguinte. A Revista de História da Biblioteca Nacional, edição no. 2, de agosto de 2005, traz um interessante comentário em matéria não assinada, intitulada Vende-se gente e constante da página 89:

Os comerciantes de escravos classificavam suas mercadorias como usadas ou novas, sendo ‘boçais’ os [escravos] sem habilidades ou treinamento, (…) e ‘ladinos’ os escravos africanos assimilados.

Você aprende duas coisas daí. Primeiro, que essa é a origem do uso que fazemos da expressão “ladino”, que significa, basicamente, “safo”, “esperto”, “atilado”, “malandro”.

Segundo, que os intreináveis se enquadram na exata definição de “boçal”. Com a diferença de que jamais podem vir a se tornar ladinos.

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A juíza antenada

Muita gente tem a imagem dos juízes como aqueles homens sisudos, conservadores e autoritários. Podem até ser, mas, às vezes, essa imagem está bem longe da verdade. Existe uma geração de juízes jovens que estão a par do que acontece no mundo. A saber:

De acordo com a Constituição da República, artigo 150, inciso VI, alínea d, livros são imunes a impostos. Isso significa que, no Brasil, livro não paga (ou não deveria pagar; se pagar, tem alguém tomando seu dinheiro ilìcitamente) não paga imposto de importação, imposto de exportação, IPI nem  ICMS. Outro dia, a dona da loja de quadrinhos que frequento (Point HQ, na Tijuca) tava reclamando do que paga de imposto; e eu disse a ela, procure um advogado, que livro não paga imposto, nem revista, nem jornal, nem o papel destinado a sua impressão.

Aliás, em uma digressão: toda vez que vou ao Exterior (como se eu fosse sempre — até hoje, foram só cinco vezes), toda vez volto com vários livros. Não compro muamba, não compro eletrônicos, não compro bebida; só livros. Oquei, às vezes bebida, certa vez u’a máquina fotográfica, mas sempre dentro da cota de US$ 500; o que faz volume mesmo são livros. Certa vez, foi u’a mala inteira — a MALA INTEIRA — de livros. Fico torcendo pro fiscal me mandar abrir. Vai ser frustrante pra ele, porque não vai poder cobrar imposto por nada, hahaha. Fico imaginando a ganância seguida de decepção. Eu sou um recalcado mesmo, e divirjo. Voltemos ao ponto.

O ponto é o Kindle. Você sabe: aquele dispositivo da Amazon que está fazendo um sucesso danado, especialmente o Kindle 2, mais leve e com melhor interface do que o original. Agora tem até O globo no Kindle. Você compra o aparelhinho, ele tem o tamanho de um livro, uma tela e umas teclas. Você baixa os ebooks, revistas e jornais e vai lendo no ônibus, no aeroporto, na piscina do clube. Usa as teclas para folhear e para anotar seu exemplar do livro eletrônico. No Brasil não levo fé em que funcione, mas conto com a vanguarda de cobaias antenadas; depois que tiverem debugado bem, quem sabe se também compro um pra mim. E você pode ler belogues e alguns saites também.

Você poderia dizer que ele fosse um computador; e é, na definição mais clássica, um computador especializado. Na prática, só serve para você ler livros, periódicos e belogues. Não serve para jogar, não tem calculadora nem editor de texto, não exibe filmes, não navega na Web. Não tem software instalado a não ser o essencial, para sua atividade fim.

E aí: Kindle é livro? Não é livro no sentido do conteúdo, da obra literária; mas pode-se dizer que seja livro no sentido físico, do papel que sai da editora com letrinhas de tinta. Assim como você precisa daquele maço arrumadinho de páginas para ler a obra, também precisa do Kindle para ler a obra. É uma tese defensável, com a qual concordo.

Então, o saite Migalhas conta-nos de um caso decidido na semana passada. Não sei qual é a exata história, porque a decisão judicial não a relata pormenorizadamente, mas estou entendendo, pelo contexto, que o sujeito tenha comprado um Kindle da Amazon e, na hora de retirá-lo nos Correios, teve que pagar imposto. Posso entender o lado do fiscal da Receita: é eletrônico, não é impresso; logo, pague-se through the nose, como se diz em terras de Sua Majestade.

Mas o comprador não se resignou tão fàcilmente. Impetrou mandado de segurança dizendo: eu não tenho que pagar imposto, porque Kindle é livro e livro é imune.

Então, a Juíza Federal Substituta Marcelle Ragazoni Carvalho, da 22a. Vara Federal de São Paulo, decidiu a favor do impetrante. Entendeu que o Kindle, se não é livro no sentido clássico, equipara-se. Acertadamente, considerou que a Constituição não pode ser interpretada literalmente, mas sim conforme a intenção de seu texto, que poderá ser melhor atingida de uma ou de outra maneira conforme os tempos mudam e a tecnologia evolui. Você não precisa ficar editando o texto da Constituição (que, a propósito, já foi objeto de 68 emendas até hoje); basta atualizar a forma de lê-lo. Não vou me estender sobre isso, mas adianto que considero esse um dos tópicos mais interessantes (e, ao mesmo tempo, abstratos e filosóficos) de Direito constitucional e que, só sobre ele, já se escreveram dezenas de livros e capítulos de livros, tanto no Brasil como fora.

Então, disse a Juíza que a imunidade tributária da alínea d, de que falei acima, visa a assegurar a liberdade de pensamento e deve ser interpretada conforme sua finalidade, adaptando-se às inovações tecnológicas. No texto da decisão, ela citou jurisprudência do TRF da 4a. Região, que já dizia que o livro deve ser considerado, não só como o objeto de papel, mas como o conceito finalístico de livro. Na ocasião, o Tribunal havia reconhecido a imunidade do quicktionary (que, se pesquisei bem, é um scanner tradutor) por ter conteúdo de livro e funcionar como livro, ainda que o suporte físico fosse outro. Eu, particularmente, nem concordo com a decisão no caso do quicktionary, mas, se valeu para ele, com ainda mais razão a Juíza Marcelle Carvalho acompanhou o precedente.

Antes que você fique muito animado, advirto-o de que a decisão da juíza foi apenas uma liminar, com o efeito de permitir o desembaraço alfandegário sem pagamento de imposto. Mais adiante, ela ou outro juiz dará sentença julgando o mérito do MS, o que sempre pode reverter a situação. E, ainda que a sentença confirme o que foi decidido na liminar, caberá recurso por parte da Fazenda; depois dele, a situação pode muito bem subir até o STJ e o STF. Além disso, a decisão só vale para esse um caso, desse um Kindle, desse um sujeito importador; não vale para outras pessoas. Cada um que mova sua própria ação. Não se espante se você também tentar e o juiz do seu caso entender que Kindle não seja livro.

Mas que isso foi uma pequena vitória, foi. E a juíza se mostrou atualizada com a tecnologia.

Agora dá licença, que vou voltar a minha inércia.

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Panopticons da vida privada e outros da vida online

Acabo de ver um linque na Web, com uma chamada tão mal escrita que fiquei até curioso: que notícia obscura seria essa? Então cliquei e li que Tiger Woods bateu com o carro, ontem, anteontem, sei lá.

Ordinàriamente, eu não continuaria lendo, mas o que me deixou tão intrigado foi a extensão da reportagem. Comecei uma metaleitura, na intenção de descobrir o que esses jornalistas conseguem extrair de um mero acidente de trânsito. Sei lá, vai que tem alguma implicação mais séria, né?

Bom. Aparentemente, Woods bateu com o carro perto de casa, às 2 e pouco da manhã. A esposa ouviu, acudiu e teve que quebrar uma janela para tirá-lo do carro. O golfista estava sangrando e com a consciência indo e voltando, mas consta que já passa bem.

O que me chamou a atenção, mesmo, foi o seguinte:

“Left unanswered was where Woods was going at that hour.” – Ou, em língua lusa, “o que ficou sem resposta foi aonde Woods estava indo àquela hora”.

Como assim? Ora, pombas, quer dizer que, agora, um cidadão tem que dar satisfações sobre aonde vai a que horas? Não pode mais dirigir seu carro de madrugada sem se tornar suspeito? Tem toque de recolher, é isso?

“Pois não, policial?”

“O senhor estava dirigindo seu carro de madrugada. Aonde estava indo?”

Faz sentido essa conversa pra você?

NINGUÉM TEM NADA COM A VIDA DELE. Não é pra se meter, ficar fazendo inquérito, saber aonde ele ia com seu carro.

Eu, hein.

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Em uma nota não relacionada, vejamos.

Belogues, fóruns de discussão, email, listas de email, instant messaging, Google Translate, Orkut, Facebook, Google Docs, Google Maps, 4share, Rapidshare, Scribd, Flickr, Picasa, YouTube… Deixei alguma coisa de fora? Não, né?

Pois bem, ontem assisti a este vídeo de apresentação do Google Wave:

 

De início, fiquei apaixonado pela idéia. Juntaram tudo em uma interface só. Fundiram todos os modos de expressão que você tem na Web, de um modo intuitivo, como já aprendemos a esperar desse pessoal do Google. A programação deve ter sido animal, depois de sessões insanas de desenvolvimento da arquitetura, de modelagem, de brainstorms viajantes sobre as funcionalidades. A orientação a objeto salta aos olhos.

Ao mesmo tempo, não pude deixar de pensar: confuso, bagunçado, com um elevadíssimo potencial para ser mal utilizado pelas mentes analfabetas destes tempos de inclusão digital. Deu-me a sensação de uma ferramenta prematura – não uma ferramenta que está “adiante de seu tempo”, mas uma implementação prematura, talvez carecendo de ferramentas que ainda estão por inventar e tais que, na falta delas, fica desconjuntado. Em outras palavras: está tudo agrupado, mas não realmente agregado, não realmente consolidado.

Sei lá. Como costuma acontecer nesses casos, é muito fácil ficar acrescentando previsões ao hype, sejam elas otimistas ou pessimistas, e quase garantido que estarão todas erradas. Eu poderia dizer, “complicado demais, não vai dar certo”, mas isso é o que disseram de tudo que DEU certo em tecnologia da informação. Muitas vezes, a coisa acabou simplesmente ganhando um uso que não tinha nada a ver com o uso imaginado originalmente. Outras vezes, foi o contrário: fez-se uma comemoração insana de tecnologias “revolucionárias” que simplesmente não pegaram. Ou você conhece alguém que tenha um telefone Iridium? Eu poderia dizer, “é tudo que eu queria, todo o mundo vai adorar”, e as pessoas continuarem preferindo a simplicidade da compartimentalização entre os canais.

Mas que é supermaneiro, é.

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Já que estamos falando em Web 2.0: está no ar o belogue colaborativo da REDARTE/RJ. A Redarte é uma associação de bibliotecas especializadas em arte situadas no Estado do Rio de Janeiro. Nas palavras do próprio belogue,

“A Rede de Bibliotecas e Centros de Informação em Arte no Estado do Rio de Janeiro (REDARTE/RJ) é uma rede de instituições com acervos especializados na área de artes no Rio de Janeiro e em Niterói. Seu objetivo principal é ampliar, para o público em geral e os pesquisadores de arte em particular, as opções de acesso a todo um universo de informações disponível em um conjunto expressivo e representativo de acervos especializados em arte.

“Participam da Rede instituições públicas e privadas, como museus, universidades, arquivos, centros culturais, totalizando 36 integrantes. As instituições são representadas na Rede por gestores dessas unidades de informação, graduados em Biblioteconomia e áreas afins.

“OBJETIVOS
”- Facilitar aos pesquisadores e ao público em geral o acesso a informações na área de arte;
”- Divulgar suas instituições integrantes;
”- Oferecer serviços e produtos informacionais;
”- Promover o intercâmbio de experiências entre os profissionais da Rede e auxiliar sua atualização;
”- Promover o intercâmbio de informações em arte através da localização de itens e do serviço de empréstimo entre as bibliotecas integrantes;
”- Incrementar a permuta e a doação de itens entre seus membros.”

Até há pouco tempo, a existência online da Redarte era só um website com edição centralizada, que não se comparava às várias atividades que aconteciam no mundo real. Agora, com a iniciativa do belogue, já dá pra ver uma dinâmica onde tudo que acontece é atualizado ràpidamente. Como a Redarte é liderada por bibliotecárias, o belogue cumpre a vocação da classe: contém inúmeros linques para instituições, bases de dados e relatos de eventos. Com o tempo, as organizadoras pretendem disponibilizar os powerpoints das palestras, artigos e por aí vai.

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Ainda no teste de nerdidade:

31- Você já discutiu com um professor? – É possível, mas não que me lembre.
32 – Você venceu? – Não.
33 – Algum palestrante já indicou que alguém procurasse você como tendo mais conhecimento? – No contexto, não creio.
34 – Você já tentou admissão a alguma faculdade só para “ver se conseguiria entrar”? – SÓ para isso? Não.
35 – No seu SAT, a Matemática estava mais de 300 acima de seu verbal? – Nem conheço o teste, mas já vi que não se aplica no Brasil. Pulo.

Até agora, 20/33. Até que está melhorando (ou piorando, não sei).

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Quase um twit

Alvejante é uma substância que você ingere para melhorar sua pontaria.

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Fui ao oftalmologista ontem. Durante o atendimento, entrou uma assistente dele:

— Doutor, a Fulana já está preparada para o procedimento. Está esperando há meia hora e já está bastante dilatada. O Dr. Sicrano pergunta se já pode ir começando.

— Pode, eu não demoro. Daqui a uns dez minutos eu acabo aqui. Diz a ele que eu já vou lá.

Depois que ela saiu, eu disse a ele: um ouvido menos atento pensaria que o Sr. fosse obstetra.

***
Então, a julgar pelo que vejo na Web, parece que a moça do vestido já apareceu chorando em foto posada pro jornal, está na capa da Istoé e vai aparecer no Casseta e Planeta. Não dou quinze dias para ler o anúncio de que é a próxima capa da Playboy.

Estou convicto de que TUDO isso foi cuidadosamente arquitetado por ela. Estou igualmente convicto de que deu uma grana para os primeiros começarem a gritar. Quando essa história tiver rendido bastante, vão perceber que ganharam pouco. Ninguém me convence do contrário.

***
Ainda no teste de nerdidade:
21.  …usando outros princípios? (começando de uma equação diferente da que o texto usou) — Acho que sim.
22. Você toma notas em mais de uma cor? — Hoje em dia, não.
23. Você usa outros instrumentos ao tomar notas? (régua, compasso, transferidor) — Não.
24. Você já orientou alguém? — Não.
25. Você já fez dever de casa na sexta-feira à noite? — Já.

Até agora, 18/25.

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… e ainda estou lhes devendo uma arrumação deste belogue.

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F-X não são só “efeitos especiais”

Continuo tendo que fazer uma faxina aqui no belogue: atualizar listas de linques, vídeos e leituras. Enquanto não faço isso,

Vocês devem estar sabendo que a Força Aérea tem uma concorrência em andamento para a compra de uns 36 novos aviões de caça. Após quase trinta anos de serviço do Mirage IIIEBR, a FAB iniciou a concorrência F-X para sua substituição. No início do governo Lula, nosso Poder Executivo entendeu que outras prioridades mereciam mais atenção, mormente o Fome Zero, de modo que a concorrência foi extinta antes de se escolher um vencedor. Como solução temporária, decidiu-se fazer o leasing de alguns Kfirs, aviões israelenses derivados do Mirage III (mas com turbojatos J79, os mesmos do Phantom II). Não acompanhei se esse leasing chegou a se efetivar, mas, algum tempo depois, uma nova solução temporária foi adotada: o leasing, ou empréstimo, de um punhado de caças Mirage 2000C, de um lote do início da produção e já usados pela França. Esses aviões estão em serviço na FAB com o nome de F-2000. A solução definitiva ficou adiada para quando se escolhesse o vencedor de uma nova concorrência, a F-X 2, que está rolando já faz um tempo e cujos concorrentes são o Dassault Rafale, o Boeing F/A-18E, o Sukhoi Su-35 e o SAAB 39 Gripen. Perdoe-me se eu tiver deixado algum outro modelo de fora.

O Gripen foi o primeiro caça de quarta geração a entrar em serviço e normalmente é considerado o mais bonito. Ele e o Su-35 costumam ser os mais admirados por amadores da aviação, este último por causa do desempenho impressionante (especialmente a manobrabilidade mas também o alcance), do porte e da capacidade de transportar armamento.

No 7 de setembro deste ano, muito antes de se anunciar um vencedor da F-X 2, nosso Iluminado Líder disse ao Sarkozy e à imprensa que o Brasil compraria o Rafale. Logo o Ministério da Defesa tentou botar panos quentes e dizer que isso ainda não era certo, mas sabemos o quanto nosso Glorioso Defensor parece estar acima de qualquer responsabilidade pelo que diz.

Mais adiante, ainda em setembro, um ex-colega de escola me perguntou qual avião eu pensava que seria vitorioso. Então, escrevi-lhe o que está abaixo. Fica registrado para me cobrarem depois do anúncio.

“Importante entender uma coisa. Em matéria de defesa nacional, os argumentos técnicos deveriam prevalecer, mas a política sempre acaba decidindo. Isso não é só no Brasil: o mesmo acontece nos países que costumamos tomar como paradigmas (EUA, Reino Unido, França).

“Você já percebeu que, em matéria de F-X 2, o que não falta são especialistas. Todo o mundo agora é especialista. As revistas populares comentam o assunto como se seus jornalistas fossem íntimos dele há anos e acompanhassem o cenário de defesa internacional, o que é ridículo. As reportagens acabam virando propaganda mal disfarçada. O povo ignora que o tema F-X e F-X 2 vem sendo discutido exaustivamente pela imprensa especializada há, pelo menos, uns sete anos, sem que o assunto tenha morrido.

“Em princípio, todos os aviões são muito bons. E não vou manifestar “preferências”: primeiro, que o que EU prefiro não faz a menor diferença para quem decide; segundo, que não tenho interesse pessoal na história. Não vou fazer como a molecada de doze anos, que gosta de gozar com o bilau dos outros e ficar enaltecendo os caças americanos como se esses próprios moleques é que os fabricassem na garagem de casa.

“Então, vejamos. O Brasil tem um longo histórico de cooperação com a França e a Dassault em razão do Mirage III. Também arrendou os Mirage 2000 por um tempo. E a França tem o hábito de facilitar a venda de armas, diferente dos Estados Unidos. Então, faz sentido comprar o Rafale, na continuação do uso de uma tecnologia já conhecida.

“F/A-18. Os Estados Unidos sempre resistiram em vender o pacote completo de armas que dá utilidade ao avião. Além do mais, tem havido uma certa tônica na política externa de não mais depender dos EUA para a defesa nacional, preferindo fornecedores que nos deem mais liberdade de uso para o equipamento.

“Su-35. A maior vantagem do avião russo é sua grande autonomia, que permite cobrir uma fração significativa do Território Nacional. Outra grande vantagem é sua robustez, adequada às condições climáticas e à necessidade, que a FAB tem, de não precisar fazer muita manutenção. As desvantagens são a notória falta de apoio logístico do fabricante e a maior necessidade de treinamento, por ser um avião oriundo de cultura diferente da ocidental.

“Saab 39 Gripen. Muita gente tem-no como favorito, mas, sinceramente, acho que é por ele ser considerado tão bonito. Como se fosse concurso de beleza de aviões. A vantagem do Gripen é o datalink integrado com os sistemas em terra e em outros aviões, tudo a ver com o SIVAM e com o radar **SUECO** já empregado no EMB-145. A seu favor também conta o fato de ser um avião de manutenção mais fácil. Só que tem dois problemas: um é a autonomia de titica que os aviões suecos sempre tiveram; outro é o que ouvi do pessoal da FAB em Santa Cruz: que os eletrônicos dele fritaram ao sol do Brasil; tinham que ficar trocando componentes queimados.

“Não sei qual desses aviões é mais adequado ao Brasil. Independente disso, imagino que o Rafale vá ganhar por causa de considerações políticas.

“Então taí minha opinião.”

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Winston Smith, O’Brien e Miniluv

Está no noticiário dos últimos dias: o cientista e PhD americano David Nozette, 52 anos, trabalhou de 1989 a 2006 em projetos do mais alto interesse estratégico para seu país. Teve farto acesso a informação da mais alta sensibilidade, top secret etc e tal: inteligência de comunicações, sistemas de vigilância, defesas contra ataque nuclear, projeto de armas avançadas (nucleares inclusive), satélites de espionagem, you name it. Aí, foi pego pelo FBI tentando vender informação a uma pessoa que ele acreditava ser um membro da inteligência israelense.

O que os saites de notícias não estão dizendo, mas o próprio FBI está, é que, aparentemente, o Estado de Israel, mesmo, não esteve envolvido. Um agente do FBI apresentou-se a Nozette em setembro como sendo integrante do Mossad e, ao longo de poucos dias, valeu-se do correio para lhe enviar pelo menos dois questionários, que Nozette preencheu com informação privilegiadíssima, top secret mesmo, só com base no que guardara de cabeça. Também lhe pagaram US$ 11,000. Nozette afirmou ao agente que, embora já não tivesse acesso a vários documentos, ainda tinha muita informação na cabeça e estava disposto a vendê-la. As idas de Nozette ao correio foram filmadas, até que, em 16 de outubro, ele foi preso e está sendo acusado de tentativa de espionagem. A pena máxima é perpétua.

Agora, observe só. O Estado teve todo o controle da situação neste caso. Foi o próprio FBI que propôs o cometimento de todos os atos, que dirigiu a conduta de Nozette, que o estimulou e instruiu. Era impossível que Nozette efetivamente cometesse crime, porque não tinha como a informação chegar a Israel. Se o crime era impossível, então ele não estava tentando algo que, ao final, pudesse chegar a ser um crime consumado; não houve nem haveria prejuízo para seu país.

No Brasil, o Código Penal define a tentativa de cometer crime:

“Art. 14. Diz-se o crime: (…)
“II – tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente.”

Vejam que a execução não se iniciou, porque o que se iniciou não foi um crime, mas um simulacro, um teatrinho, um arremedo, supervisionado e controlado pelo Estado, onde Nozette era um hamster na gaiola. Então, não há que se falar em sequer punir a tentativa.

No Brasil, flagrante armado não vale, porque o próprio Estado provocou a conduta imoral do sujeito: ele fez, mas o Estado fez primeiro. Se o Estado foi maligno, não pode vir alegar que o sujeito também foi. Ou, em u’a máxima que se usa mais no Direito civil que no penal, “a ninguém aproveita sua própria torpeza” (em língua de poetas mortos, nemo turpitudinem alegans).

(O flagrante armado é diferente do flagrante esperado. Neste último, é o próprio criminoso quem tem a iniciativa, e você só fica de tocaia, à espera de que ele faça o que vai fazer mesmo, sem estímulo. Aí, não partiu do Estado.)

Incidentes como esse fazem-me pensar, obòviamente, em 1984, de Orwell. Onde, aliás, tem uma situação igualzinha, onde um agente bem graúdo do Estado (Inner Party) induz o protagonista Winston Smith a crer que está vindo fazer parte de uma conspiração, quando, na verdade, era tudo armado para se criar nele uma culpa, seguida de inquisição e correção.

A conclusão é em duas partes. Primeira: é verdade o que diz a nota do FBI? Resposta: não sei, mas vou presumir que sim, porque a narrativa faz com que ele mesmo fique mal na fita. Segunda: pode fazer isso? é Nozette culpado? Não, não pode, e não, não é. Porque o Estado criou toda a situção do nada.

Sei que já concluí, mas deixe-me complementar. Considere o seguinte. Se não fosse o FBI provocando, Nozette não ia fazer nada; ia continuar cuidando de sua vida. Poderá ser que o FBI tivesse suspeitas de que ele estivesse a ponto de se envolver com espionagem, mas não estamos na época de Minority Report: só poderia punir o crime efetivamente cometido, não o desejo seminal ou sonho louco de um sujeito potencialmente corruptível. Passados tantos séculos após a Inquisição Espanhola, hoje em dia já não se punem desejos e ânimos, mas somente atos efetivamente praticados. Então, não tem essa de “ah, mas ele era mau, ia cometer mesmo”. Nana nina não: nada de punir pensamentos. Eu mesmo tenho inúmeras idéias condenáveis (especialmente a de descumprir a nova ortografia em vez de escrever “ideias”), mas, do crânio para dentro, ali está meu âmbito de última defesa, meu forte inexpugnável, onde o Estado não pode invadir. O âmbito de punição possível começa na superfície da minha pele.

É de se pensar por que o FBI fez isso. Pode ser simples queima de arquivo, “ele sabia demais”. Pense bem: não é o que você faria? Se o sujeito é PhD, inteligente pra burro, dono de ótima memória e com acesso a tudo, é de se presumir que, depois de dezessete anos, ele já soubesse MUITA coisa e se tivesse tornado um perigo ambulante. O que os Estados Unidos fizeram foi ganhar a corrida contra os israelenses, iranianos e incas venusianos, prendendo Nozette antes que eles lhe pusessem a mão.

Então, é pura tirania mesmo: o Estado aprisionando seus súditos sem justa causa. Sem dúvida, isso atende a interesses bastante legítimos de segurança nacional, mas utiliza meios indignos de um Estado democrático de Direito. Viola valores democráticos fundamentais, põe o Estado acima do indivíduo e fere o interesse público. Não que os Estados Unidos sejam os únicos a fazerem isso (o Brasil faz muito), mas é que sempre são os primeiros a bater no peito, falando de democracia…

Como diz minha sogra: dime lo que te presumes y te diré lo que te falta.

EOF

“Nossa missão é agradar ao cliente.”

Estou há um tempo sem escrever e precisando fazer uma faxina em minhas anotações, de modo que, hoje, é só um comentariozinho rápido.

Mais cedo, eu estava lendo Cynthia Semíramis e sua preocupação com o subtratamento que as mulheres ainda recebem no mercado de trabalho.

Agora à noite, encontrei esta notícia. Em síntese: produtor tentou chantagear David Letterman porque, supostamente, Letterman teve relações com várias mulheres com quem trabalhou na CBS. Letterman confessou pùblicamente, desse modo esvaziando a chantagem. De um lado, a promotoria foi em cima do chantagista, enquanto, de outro, a situação de Letterman ficou complicada perante a percepção pública. Imprensa e advogados discutem se o que ele fez pode ser classificado como assédio sexual, aproveitamento de uma situação de vantagem etc. A emissora manifestou-se ao lado dele, mas sem excessos. O público sente-se traído porque Letterman costuma criticar políticos justamente por causa das puladas de cerca que cometem. Bill Clinton foi seu alvo durante anos.

Não vou fazer nenhum comentário sobre o caso de Letterman, primeiro porque nada sei, segundo porque já deve ter varada de gente fazendo isso. Vou observar só dois detalhes.

Um, que já faz alguns anos que percebi: se alguém, algum dia, resolver me chantagear, acho que a melhor saída é revelar pùblicamente aquilo que, em princípio, teria sido escondido. Fácil falar, claro. Porque nem sempre é fácil falar claro. É muito fácil vir com bravata quando não se está sofrendo na pele. Mas é a solução que resolve o problema definitivamente: esvazia a chantagem imediata e todas as chantagens futuras, que o chantagista teria o potencial de voltar a praticar porque o fato permaneceria. Essa minha tese foi alimentada por duas fontes: uma, Richard Bach, que, em Ilusões, sugeriu que você devesse viver de modo a não ser afetado pelo que outros dissessem de você — mesmo que estivessem mentindo. A outra é Frank Miller, que, em Batman: ano um, pôs o Tenente Gordon em um caso com sua colega Sarah Essen. Devidamente exposto a fotografias e ameaças, ele optou pelo caminho difícil, entrou em conflito conjugal mas continuou dono da própria vida.

Dois, o seguinte. A reportagem analisou, ouviu colegas e ex-chefes de Letterman e do produtor, consultou especialistas e advogados, todos perplexos e em dúvida sobre as condutas dos cavalheiros, mas fechou o texto com a constatação de que não houve nem se espera uma evasão de anunciantes do Late Show. O dinheiro continua entrando (~US$ 145M em seis meses de 2009). Por quê? A frase final é reveladora: “(…), said Laura Caraccioli-Davis, an executive vice president and director at Starcom. ‘We believe that he handled it with full transparency. Consumers are looking for that authenticity and honesty.'”

Full transparency, indeed. Em segredo, o sujeito mantém supostos envolvimentos (aliás, confessados) com mulheres sob sua influência. Mesmo assim, na empresa de publicidade que põe dinheiro no programa, uma vice-presidente — tipo de cargo profundamente envolvido em governança corporativa — analisa que ele agiu com transparência. Letterman continuará respeitado e o assunto nem é tão grave assim, na medida em que os anunciantes se mantêm fiéis, mesmo que ele não tenha sido com seu público. Beleza; o que importa é o que os consumidores percebem. Tudo se resume a isso.

Quer dizer, a humanidade continua podre. Ao fim e ao cabo, tudo neste mundo continua girando em volta do dinheiro. Então, quer saber? Nessa história, todo o mundo se merece. Não ganhei o meu, então todos que se danem.

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Tragédias cariocas e proibição do fanque

Este é um texto desconjuntado, que descreve vários problemas urbanos de uma vez só, sem relacioná-los nem analisá-los. Não resulta de minhas reflexões; ao contrário: é o início delas. Nasceu de diversas impressões minhas à medida em que eu ia jogando pensamentos que vêm se atropelando em minha mente perturbada, sem a menor intenção de concluir alguma coisa — como, de fato, não concluí.

Para tudo que vejo, tenho várias reações, em geral simultâneas. Existe a reação emocional, que me é impossível escolher ou filtrar. Existe a reação defensiva, disfarçada de racional e causada por minhas experiências, que, muitas vezes, é preconceituosa, elitista, recalcada e também impossível de evitar. Normalmente, a última é a reação racional de verdade, oriunda de meus valores morais e políticos, construída deliberadamente a partir de tudo que já li e  ouvi e de muita reflexão, e com a qual concordo: é minha opinião. Essa eu posso escolher, reformular, e é essa que exponho ao mundo.

Por exemplo: sou contra a pena de morte. Essa é minha opinião moral, jurídica e política. Já vi inúmeros argumentos favoráveis à pena de morte, mas todos consegui rebater com base em seu conteúdo falacioso ou do qual simplesmente divirjo, seja com base em contra-argumentos jurídicos, estatísticas, ou considerações práticas. Onde há pena de morte, normalmente só os inocentes são condenados, ou aqueles que cometem infrações de menor potencial ofensivo. Os verdadeiros facínoras sempre se safam.

Minha reação emocional é muito outra. Não consigo deixar de me revoltar com esta notícia (desculpe a fonte, mas é a que achei). Se, no dia em que você está lendo isto, o linque já saiu do ar, vou resumir pra você: uma moça vinha dirigindo um carro pela Linha Amarela (via expressa do Rio de Janeiro). Um animal sem mãe atirou um pedaço de concreto de 10 kg de encontro ao veículo e afundou o crânio da moça, com fratura exposta. Enquanto digito isto, a notícia é de que a moça está em coma. Pode-se entender por que, em momentos como esse, eu me sinta tentado a apoiar a pena de morte.

É cansativo viver cercado de uma criminalidade tão intensa. Eles tiram nossa liberdade. Não posso percorrer a Linha Amarela, não posso ir à UERJ de metrô à noite (a passarela é campo de caça dos assaltantes), não posso morar em certas áreas sem um baile fanque ao lado, gritando obscenidades e estimulando roubos, tráfico e homicídios a 547.000 decibéis por toda a madrugada. Não posso circular pela cidade onde moro e onde sou inofensivo, porque “é perigoso”, os predadores querem meu sangue e não tenho nada nem ninguém com quem contar. Não posso trabalhar duro, juntar dinheiro e comprar um carro, porque posso levar um tiro na cabeça no sinal de trânsito. (Pelo menos seria indolor.) Quando levaram o carro do meu irmão, comprado com horas de trabalho insone, dedicação e persistência, minha mãe levantou as mãos pro céu porque não o feriram nem molestaram a esposa dele, como se isso fosse uma dádiva, uma espécie de concessão da parte de quem tem direitos sobre nós, podendo dispor sobre nossa vida e nossa morte. Bem, sobre a morte, porque vida isso não é.

Aliás, por falar no baile. Os antropólogos e sociólogos vêm publicando trabalhos sobre como o fanque é a manifestação cultural de um grupo de excluídos sociais. Não posso negá-los. Para mim, faz todo o sentido que os excluídos se aglomerem e teçam alguma espécie de expressão e de identidade sócio-cultural através dos sons do fanque. Acredito, firmemente (olha a opinião aí, racional, ponderada), que a liberdade de expressão é um dos fundamentos mais nobres da democracia; e é minha opinião política que, com base nela, não se possa reprimir o fanque. Se tenho o direito de vir aqui escrever, da mesma forma o fanqueiro tem o direito de dizer o que quiser com o batuque de sua preferência.

Isso não significa que eu deva gostar do fanque (pela dissonância), nem que eu deva aprová-lo moralmente (pela apologia de uma vida desestruturada). Devo, porém, tolerá-lo, não apoiando quem pretende reprimi-lo. É inevitável que os autores do fanque exprimam aquilo que vêem e sentem, aquilo em que acreditam, suas intenções reprimidas e a vida lastimável que sofrem. Por todos os motivos históricos, econômicos e sociais, são pessoas maltratadas, despossuídas, desprovidas de liberdade. Não têm tantas oportunidades como os homens brancos adultos, não têm tantas escolhas nem tanto poder político, não ditam regras, não têm qualificação nem participam do mercado de trabalho formal em paridade com os homens brancos adultos. Se o fanque descreve uma vida desestruturada, é porque é isso que seu causador tem para descrever; ele não haveria de compor poemas parnasianos.

Então, estou entendendo que os autores do fanque são pessoas revoltadas, que devolvem ao mundo a agressividade de que se vêem vítimas (“vêem” com acento. Aos diabos com a reforma. Estou em um WASP mood, embora longe de ser um WASP). Não posso culpá-los por isso se também eu venho aqui cuspir meus resmungos.

Se os pais deixam de educar seus filhos, ensinam-lhes violência e eles vão ao baile,  não tenho nada com isso; cada um cuida de sua vida. Não posso dizer a cada um o que fazer com seus filhos. Se o tráfico vende drogas no baile e expõe menores de idade à violência, esses são crimes graves, mas não se confundem com o próprio baile; não vou apoiar que ele seja proibido com base na suposta venda de drogas ou nos outros abusos. Só que o baile estupra meus ouvidos e os de meus vizinhos a 948 milhões de decibéis, e isso vai muito além da liberdade de expressão. Com a potência sonora, os fanqueiros demonstram que decidiram responder à violência com mais violência, de forma ampla. Não se alegue que é mera diversão, porque a diversão é possível sem invasão da esfera de direitos alheia. Poderíamos sugerir que eles procurassem os espaços de diálogo, que lutassem pelos canais formais construídos democraticamente, mas estaríamos alimentando uma falácia, porque eles não têm o acesso a esses canais tal como a escola nos ensina que têm. Falar no poder do voto, do diálogo e da conscientização é quase uma piada; não se pode esperar que o diálogo, que de nada adiantou nos quinhentos anos do Brasil (ainda) colonial, resolva as carências de uma geração atirada à marginalidade. Eles só conseguem reagir pela violência mesmo.

Portanto, à noite, gritos ásperos de “um cinco sete, um cinco sete” (vá pesquisar: Código Penal, artigo 157) impediam o sono de vários cidadãos. Vozes agressivas defendiam a união do Comando Vermelho contra facções rivais. Os tais cidadãos não só não podiam dormir como não tinham meios de fazer cessar a verborragia. “Com licença, Sr. Traficante. Pode abaixar as caixas de som? Não estou pedindo para interromper a venda de drogas, nem o abuso de menores, não; pode até continuar a desfilar com suas armas. Só peço que abaixem o amplificador ali.”

Já que não há diálogo, já que o conflito se resolve todo com base na força apenas, então tem que abaixar o som na marra. Como o cidadão comum é fraco diante do arsenal do boçal, o Poder Público cumpriu sua mais primitiva e hobbesiana função, sua fundamental razão de ser: reprimiu o estado de guerra em que vivem os homens, aqui representado pelos bailes fanque, batendo com seu tacape maior em quem trazia a insônia de todos com seus instrumentos malignos. O cidadão voltou a dormir.

Surgiu daí uma onda de revolta. O tráfico ganha muito dinheiro com os bailes, de modo que, manipulando sua massa de manobra, conseguiu reverter a atitude estatal. O foco do discurso saiu do barulho e passou a uma espécie de imposição da minoria sobre o consenso da maioria: os valores do fanque ganharam o manifesto apoio da ALERJ a esse mais novo “patrimônio cultural” do Estado do Rio. Com isso, esses valores foram reconhecidos como tão importantes que o fanque passou a ter precedência sobre a paz pública, sobre o sono dos trabalhadores, sobre o desejo de paz e a passeata inútil das velhas, de braços dados e camisetas brancas, pedindo paz no calçadão de Ipanema enquanto seus netos enchem o nariz de alcalóides ilícitos. Velhas filhas da p*ta.

Independente das agendas políticas em disputa, dos preconceitos, dos conceitos e da cultura (ou falta dela, segundo alguns), tenho uma certeza: enquanto os sociólogos discutem as minorias no ar condicionado e publicam suas teses acadêmicas em prestigiadas livrarias da Zona Sul, vários trabalhadores desta cidade vão voltar a passar suas noites em claro.

Outra notícia: em Bangu (subúrbio do Rio), hoje de manhã, explodiu um item de munição ainda não identificado. Supõe-se que a munição tenha sido furtada do campo de instrução de Gericinó. As versões são contraditórias, mas, aparentemente, alguns catadores de lixo manipulavam o objeto, seja brincando de jogá-lo um para o outro, seja dando-lhe marretadas para desmontá-lo e vender o material. Ao detonar, a granada (de mão, de morteiro ou lançada por fuzil, não sei) matou dois e feriu seis, pelo menos um gravemente.

Minha reação racional é que isso é lamentável e que não aconteceria em um país com mais justiça social, população instruída e mão-de-obra qualificada; lamento pelas vítimas imediatas e por seus familiares. Já minha reação emocional-cínica é que Darwin continua fazendo um bom trabalho. Não é pra ficar brincando com granada, nem é pra ficar dando marretada em material furtado de dentro de um campo de instrução do Exército. Não bastasse o crime de furto, é ÓBVIO que marretar munição não pode dar certo. Você há de entender por que a porção mais troglodita de meu cérebro chega até a comemorar o evento, para minha sincera perturbação e quase vergonha (“quase” porque não chego a concordar com ela).

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Prosseguindo no teste de nerdidade:

11. Você já fez uma pergunta em aula? — Sim. (É só o que faço.)
12. Você já respondeu a uma pergunta feita em aula? — É provável, mas não lembro. Não.
13. Você já corrigiu um professor em aula? — Não do modo como a pergunta dá a entender, mas já. Sim.
14. Você já respondeu a uma pergunta retórica? — Todos os dias: “tudo bem?” Sim.
15. Você já deu uma aula? — Não no sentido formal, de estar presidindo ou ser o principal expositor. Não.

Até agora, 12/15.

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