O terror que deduzimos

Neste Mês das Crianças (sez who?), entrei duas vezes em uma famosa loja de varejo desta cidade. Em ambas as vezes, lá estava aquele tenebroso disco de música alegadamente infantil a tocar em todas as caixas de som da loja. Um coro de crianças entoava famosas canções de roda, acompanhado por repetitivos baixos sintéticos, teclados eletrônicos e samplers. A “música” era tão assustadora como um palhaço de filme de terror ou a pobre vítima infantil de Cemitério Maldito.

Estou convicto de que todas as faixas do disco foram gravadas enquanto um guarda mantinha seu revólver apontado para as cabeças das crianças. É a única forma de explicar o que eu ouvia.

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Microconto de Berlim

Tudo isto eu vi

O ônibus parou em frente à atração turística.

De dentro saíram milhares de japoneses, uma parada militar de saúvas, todos ostentando câmeras, todas alinhadas a laser na mesma direção, o mesmo objeto, o mesmo olhar. Alguns astrônomos cogitaram de usar o resultado para interferometria, até que alguém observou que os comprimentos de onda visíveis requeriam uma separação microscópica entre os CCDs.

Feitas as fotos do monumento, os japoneses iniciaram uma estranha coreografia, onde, com coordenação impecável, conseguiram fotografar uns aos outros em todas as combinações possíveis, sem repetição.

Então voltaram para dentro do veículo, com tanta ordem e celeridade quanto houvera em sua chegada.

Naquela noite, derrubaram o servidor do Flickr.

Reencarnação

Você já reparou que quem acredita em reencarnação sempre diz que foi príncipe, princesa, nobre, artista, …? Ninguém nunca diz que foi escravo, operário ou camponês.

Pois eu era escravo. Quando fui reencarnar, aproveitei um descuido de quem controlava a pranchetinha e vim parar aqui. Através de uma psicografia, fiquei sabendo que haviam descoberto o engano e que eu estava sendo chamado de volta. Claro que me neguei, né: comparado com a vida que eu tinha, aqui está muito bom! Aqui tenho água encanada, luz elétrica, só tenho que trabalhar dezesseis horas por dia…

Só que, enquanto eu estiver nesta vida, serei considerado foragido, e mais: para cada minuto adicional, não só a Claro me cobra R$ 0,53 como está aumentando o número de chibatadas que terei de receber como punição pelo golpe que apliquei.

Por isso um de meus objetivos é não morrer nunca. Porque, se eu morrer, sei bem o que está me esperando. E depois terei que reencarnar como um ornitorrinco manco!

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Um falso sinal de socorro, como tantos vemos nos episódios

É tanto spam maldito vendendo remédio, vendendo alongamento de membro, prometendo dinheiro nigeriano, prometendo dinheiro fácil para trabalho em casa, anunciando promoção, vendendo diploma… Apago todos sem olhar.

Só que os argutos olhos atozianos sempre perpassam o conteúdo de qualquer texto antes de lhe dar destino. [Pausa: essa última frase tem métrica?] Além disso, os argutos olhos atozianos alimentam um aplicativo de reconhecimento de expressões que passa correndo pelo texto sem realmente decifrá-lo, uma espécie de radar de busca que, ao detectar expressão familiar, aciona uma segunda leitura, mais precisa. Daquele tipo: “peraí, eu li isso mesmo?”

Assim foi que um dos spams malditos que recebi identificava seu emissor como Jonathan Archer.

Uquê. O capitão da NX-01! Jonathan Archer escreveu para mim! Precisa da minha ajuda em algum planeta? Precisa que eu conserte o inovador motor de dobra 5?

“Oquei,” pensei eu, dando override após a segunda leitura, “boa tentativa”. Durou menos de um segundo. E apaguei o spam maldito.

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Minha contribuição à paranoia global

A partir do final do século XIX, a pólvora negra foi deixando de ser usada nas armas de fogo. Em seu lugar, passou-se a usar nitrocelulose, que é mais energética e menos sensível a atrito e pressão, causa menos corrosão nas armas, tem um processo de fabricação mais seguro e faz muito menos fumaça. Por todas essas razões é que, nos últimos cem anos, a munição de todas as armas de fogo não usa pólvora como propelente, mas nitrocelulose, apesar de o público leigo continuar chamando de pólvora.

Ora, esmalte de unha é, basicamente, nitrocelulose dissolvida em acetato. Quando se diz que esmalte é inflamável, talvez seja tècnicamente mais apropriado dizer que seja explosivo, porque é isso que ele é.

Agora, falemos na segurança dos aeroportos do mundo. Nas salas de embarque espalhadas por todo este lindo planeta azul, cartazes advertem da proibição de determinados itens na sua bagagem: armas brancas e de fogo, substâncias inflamáveis, corrosivas ou tóxicas, animais, explosivos…

Peraí. “Explosivos”?

Isso vale para esmalte de unha?

Sssshhhh!!!!… Vale, sim. Por enquanto, os agentes de segurança ainda não se deram conta disso, nem proibiram as madames de embarcarem com suas últimas tonalidades da moda. Quero ver o rebu que vai ser quando perceberem que qualquer perua inconsequente pode iniciar um incêndio a 20 mil pés…

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Quase um twit

Alvejante é uma substância que você ingere para melhorar sua pontaria.

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Fui ao oftalmologista ontem. Durante o atendimento, entrou uma assistente dele:

— Doutor, a Fulana já está preparada para o procedimento. Está esperando há meia hora e já está bastante dilatada. O Dr. Sicrano pergunta se já pode ir começando.

— Pode, eu não demoro. Daqui a uns dez minutos eu acabo aqui. Diz a ele que eu já vou lá.

Depois que ela saiu, eu disse a ele: um ouvido menos atento pensaria que o Sr. fosse obstetra.

***
Então, a julgar pelo que vejo na Web, parece que a moça do vestido já apareceu chorando em foto posada pro jornal, está na capa da Istoé e vai aparecer no Casseta e Planeta. Não dou quinze dias para ler o anúncio de que é a próxima capa da Playboy.

Estou convicto de que TUDO isso foi cuidadosamente arquitetado por ela. Estou igualmente convicto de que deu uma grana para os primeiros começarem a gritar. Quando essa história tiver rendido bastante, vão perceber que ganharam pouco. Ninguém me convence do contrário.

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Ainda no teste de nerdidade:
21.  …usando outros princípios? (começando de uma equação diferente da que o texto usou) — Acho que sim.
22. Você toma notas em mais de uma cor? — Hoje em dia, não.
23. Você usa outros instrumentos ao tomar notas? (régua, compasso, transferidor) — Não.
24. Você já orientou alguém? — Não.
25. Você já fez dever de casa na sexta-feira à noite? — Já.

Até agora, 18/25.

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… e ainda estou lhes devendo uma arrumação deste belogue.

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Find the One

Na minha caixa de correio, todo dia encontro um spam intitulado “Find the One”.

Tem um episódio de Babylon 5 chamado “Babylon Squared”, onde o alienígena Zathras tem uma importante missão mas, primeiro, precisa encontrar “the One”. Cada um que aparece na sua frente ele examina e conclui, “not the One”.

Se eu fosse ele, procurava em Matrix. De qualquer modo, ele não deve estar prestando muita atenção, porque, como se pode ver pelas mensagens que recebo, tem até gente anunciando onde encontrar the One.

Ou isso, ou estou recebendo essas mensagens do mesmo endereço que me manda “Daters Wanted”.

Prosseguindo no teste de nerdidade:

6. … em nível superior? — Sim.
7. … e recebeu uma nota A? (Novamente traduzo como 7,5 ou acima.) — Sim.
8. Você ainda é capaz de fazer o que aprendeu no curso de #5? — Sim.
9. Você já se graduou nas “ciências duras”? (Engenharia, Física, Química etc. mas excluindo Psicologia, Economia etc.) — Já.
10. Você já estudou Latim? — Não.

Até agora, 9/10.

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