Não ser uma âncora

Acontece muito: você tem um sonho, que pode ser simples ou complicado. Você conta do seu sonho para alguém. Daí a pessoa logo diz que você não vai conseguir, melhor desistir etc.

Aí você vê a Internet, e vários livros, e várias crônicas, todos dizendo que você tem que acreditar em si mesmo, não dar ouvidos à multidão, que as pessoas vão tentar te derrubar, mas seja forte, acredite no sonho… Você sabe como é.

Aconteceu até comigo. Quando eu estava na segunda metade do primeiro grau (hoje seria sexta a nona série do ensino fundamental), minha escola premiava com medalha o aluno que concluísse todas as disciplinas com média 7. Na sétima série, a escola tinha a disciplina de Datilografia, que era terceirizada e onde as notas não eram números, mas os subjetivos S (Sofrível), R (Regular), B (Bom), MB (Muito Bom) e E (Excelente). Sendo a disciplina terceirizada, e sendo a nota expressa desse modo tão diferente, já estávamos no segundo semestre quando perguntei à instrutora se ela contaria para a concessão da medalha.

Não integrando a equipe do colégio, a instrutora não sabia dessa premiação, de modo que pensou que eu estivesse viajando na maionese, imaginando uma medalha fantasiosa. Sabe o que ela me respondeu?

“Hm! Sonha, passarinho…” e sorriu com escárnio enquanto já se afastava.

Se ela apenas dissesse que a nota de Datilografia contava (embora não contasse, como depois vim a saber), eu não teria me incomodado, pois era o que eu tinha perguntado. Mas a resposta continha uma vigorosa dose de desprezo. Ela me magoou tão profundamente que me lembro até hoje. Afinal consegui a tal medalha, e você pensaria que isso tivesse o poder de apagar o sentimento ou de substituí-lo com uma satisfação de vingança, mas não, especialmente porque a agressora nunca soube. Talvez nem se ela viesse a saber.

Por causa disso, ali mesmo em 1987, decidi que nunca, na minha vida, eu menosprezaria o sonho de outra pessoa. Nunca seria eu a dizer “você não vai conseguir”. Posso estar convicto de que o sujeito não tenha a menor chance, posso perceber que ele não tenha o menor preparo, mas não serei eu a dizer-lhe que deva desistir. Às vezes eu posso dizer “você precisa estudar tal assunto”, mas então estarei ajudando-o a suprir uma deficiência e a tornar possível aquilo que hoje é impossível. Também posso considerá-lo tão sem esperança que eu não responda nada, mas não serei eu a lhe tirar a ilusão.

É claro que sempre existe a possibilidade de eu estar errado e o sujeito ter, sim, alguma chance de concluir seu insano projeto. Nesse caso, ao tirar-lhe a esperança, serei mais um daqueles milhares de medíocres de quem mais tarde, ao ter sucesso, ele dirá que “muitas pessoas tentaram me puxar para trás, mas não desisti” — é assim que desejo ser lembrado? Se, porém, eu estiver certo, ainda assim eu farei mal em desencorajá-lo, pois o sonho lhe dá forças, trazendo-lhe a nobreza dos visionários e a sublimidade dos loucos, cuja desconexão os poupa deste mundo cão. No mínimo, não gostaria de ser eu aquele que ouve que deveria desistir, tal como de fato fui um dia.

Em 2005, tive aula com o Juiz Marcelo Tavares, que, em determinado momento, explicou um pouco de seu ofício. Disse que é preciso ouvir as pessoas que formulam seus pedidos em juízo, e levar esses pedidos a sério, mesmo que seja para depois indeferi-los. Pois, segundo ele, “você não pode tirar o sonho de uma pessoa, porque às vezes é tudo que ela tem”. (É claro que, ao negar o pedido, o juiz pode estar fazendo exatamente isso, mas, ao ouvir o pleito e mostrar que o considerou antes de decidir, não estará desprezando seu autor. Às vezes, a pessoa só quer ser ouvida.)

Essas lembranças me vieram ontem, quando fui assistir à exposição The Art of the Brick, de obras do escultor Nathan Sawaya. Uma das figuras era esta.

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Conforme a legenda, sempre haverá mãos para segurar você.

Não serei eu!

A Exposição de Motivos, as fontes primárias e o Carnaval

Veja só como são as coisas. Vou agora ensinar a você como se pesquisa.

Estava eu aqui, numa segunda-feira de Carnaval, estudando Direito penal (sim, sim). Prosseguindo naquele meu projeto de ler toda a legislação relevante, um artigo por dia, eu estava lendo a Exposição de Motivos da lei 7209 de 1984 (que trouxe a vigente Parte Geral do Código Penal).

Eu estava lendo a Exposição de Motivos conforme consta em um exemplar impresso em janeiro de 2000 e publicado pela editora Revista dos Tribunais com ISBN-13 978-85-203-1834-8. Na EM, dizia o item 12: “[s]e o crime consiste em uma ação humana, positiva ou negativa (…), o destinatário da norma penal é todo aquele que realiza a ação proibida ou omite a ação determinada, desde que, em face das circunstâncias, lhe incumba o dever de participar o ato ou abster-se de fazê-lo”.

Vamos abstrair desse pronome oblíquo “lhe” depois de vírgula, que a norma culta proíbe. O item 12 está aludindo à dicotomia entre crimes comissivos e crimes omissivos. No primeiro conjunto estão aqueles que a parte (o autor do crime) comete ao praticar um ato proibido. A ação é chamada de “positiva” não por ser boa (não é), mas por ser algo posto, afirmado no mundo por quem comete o crime. No segundo conjunto estão os crimes onde o autor deixa de praticar um ato que tem o dever de praticar; o crime está na omissão, que é indevida: é o que o texto chama de “ação negativa”.

Mas aí estranhei a redação desse item 12. Veja: perto do fim, ele diz “dever de participar o ato”. Ora, “participar o ato”, onde “participar” é transitivo direto, significa “relatar o ato”; significa, talvez, noticiar o ato a uma autoridade policial. Se o Autor do texto quisesse dar ao verbo o significado de “exercer o ato”, ele diria “participar Do ato”, onde “participar” é transitivo INdireto.

Portanto, a redação é um tanto inesperada. Por que alguém teria o dever de participar o ato, de relatar o ato à polícia? Apesar de a Exposição de Motivos (e o anteprojeto da lei 7209) datar de 1983, quando o Brasil estava sob uma ditadura militar, não faria sentido exigir do cidadão o dever de participar um crime à polícia, pois o próprio Código de Processo Penal, então em vigor (e nascido ao tempo de uma ditadura até pior sob esse aspecto, a de Getúlio Vargas, em 1941), explicitamente dizia e diz que o cidadão NÃO tem o dever de coibir crimes.

Desconfiei de um erro de transcrição. Imaginei que, no documento original submetido pelo então Ministro Abi-Ackel, subscritor da Exposição de Motivos, a redação tivesse um D, omitido pela editora em 2000: “participar Do ato”. Esse seria um erro compreensível, a mera supressão de uma letra na transcrição, embora com o efeito danoso de inverter o sentido do texto.

Fui investigar. Embora o trâmite legislativo tenha ocorrido em 1983 e 1984, supus que o website da Câmara dos Deputados contivesse a informação que eu buscava. Saiba meu Leitor: o saite da Câmara é muito bom para se ver, não somente a sucessão de eventos do trâmite legislativo, mas também os documentos produzidos ao longo dele, a respeito de todas as leis após 2001. Para leis anteriores, isto é espantoso, mas também se encontra muito material. Então comecei a buscar o que havia em relação à lei 7209.

Para minha alegria, encontrei um PDF de 669 páginas que é a digitalização de todo o dossier do trâmite legislativo, montado na época. Lá se veem as capas, em papel, com manuscritos diversos; lá se veem inúmeros documentos datilografados, com rabiscos manuscritos e carimbos. Eu procurava, e encontrei, a Exposição de Motivos original, datilografada, assinada pelo ministro, com carimbos de numeração de página, datas postas a mão e furos para encadernação.

Veja só o que descobri. No documento original, o documento que valeu mesmo, diz o item 12: “[s]e o crime consiste em uma ação humana, positiva ou negativa (…), o destinatário da norma penal é todo aquele que realiza a ação proibida ou omite a ação determinada, desde que, em face das circunstâncias, lhe incumba o dever de praticar o ato ou abster-se de fazê-lo”.

Você reparou? PRATICAR o ato. Aí o texto faz muito mais sentido, já que estamos falando de crimes comissivos (“ação positiva”). E é ESSE o texto da Exposição de Motivos — não o texto, supostamente transcrito, que traz meu exemplar da RT. A lição que fica é que sempre devemos nos referir às fontes primárias, porque erros de transcrição podem acontecer. É por isso que o saite do Planalto sempre diz, ao fim de toda transcrição de ato normativo, que “este texto não substitui aquele publicado no Diário Oficial no dia tal”. Claro! Pois a redação oficial é a que está no Diário; em caso de conflito, é ela que vale, e não venha alguém depois alegar que foi induzido em erro pelo Planalto, cujos servidores fizeram inserir essa advertência.

Essa lição os historiadores conhecem bem e por isso tantos procuram a Torre do Tombo, em Portugal, para ver o que é exatamente que dizia o documento original lá do tempo do Pero Vaz de Caminha. O que a gente às vezes não lembra é que, estranhando o texto supostamente transcrito, a gente tem que fazer a mesma coisa com a legislação, com todos os instrumentos que a tecnologia hoje nos dá. Quem diria! Sem ter que ir a Brasília, aqui estou eu, quase 33 anos depois, tendo acesso ao documento original produzido, para entender o conteúdo e o propósito da lei ainda em vigor. A gente às vezes não dá valor a isso, mas é certo que, hoje em dia, os Poderes da República praticam muito mais transparência, e você tem acesso a muito mais informação de seus atos, do que no tempo mesmo em que foram praticados. Em particular, recomendo os websites da Câmara e do Senado para quem quiser pesquisar o conteúdo correto ou o propósito teleológico da maior parte da legislação emitida pela União.

Este caso também ilustra que, antes de qualquer discussão, sempre fazemos bem em irmos à fonte original. Imagine todo o debate que poderia haver — e que se evita — sobre o significado de “participar” quando se vê que não era esse o verbo realmente usado! Ainda mais quando penalistas adoram discutir o tema da participação (co-autoria, partícipes do crime etc.).

E era isso que eu tinha para contar sobre como foi meu Carnaval este ano.

Observações em A Identidade Bourne

Em The Bourne Identity (o filme de 2002, com Matt Damon, não o de 1988, com Richard Chamberlain), na marca de 1:35:30, vemos um jato executivo da CIA, onde embarca o Agente Conklin. O avião é claramente um Dassault Falcon trimotor branco, portando o símbolo do fabricante na deriva e o registro N-GIDE.

Ora. Qualquer Leitor acostumado a registros de aeronaves (“prefixos” no linguajar brasileiro) sabe que, nos Estados Unidos, os registros começam com a letra N mas continuam com algarismos, sem traço entre o N e os algarismos. Uma sequência de traço e quatro letras não faz sentido num registro americano.

Mas uma letra seguida de traço e quatro letras faz todo o sentido na Europa, onde são assim os registros britânicos, alemães, italianos e franceses. Além disso, podemos ver, no filme, que a letra N não está pintada diretamente na fuselagem como estão as outras; o N, e somente ele, está impresso em alguma camada adesiva que foi colada antes do traço.

Não é necessária muita intuição para se perceber que alguma outra letra ocupava o lugar do N. Sendo um avião da Dassault e ainda tendo o símbolo dela na cauda, podemos imaginar que a aeronave pertença à própria Dassault (e não a alguma empresa que a tivesse alugado ao estúdio). Portanto, o avião há de ser francês, com registro original F-GIDE.

Uma breve pesquisa por F-GIDE no Airliners.net revela que, de fato, o trimotor do filme é o primeiro exemplar do Dassault Falcon 900, apresentado em Farnborough em 1988. Pode-se ver aí uma espécie de product placement por parte da distinta fabricante francesa.

Além disso, Bourne Identity tem duas cenas com truques de desaparecimento. A primeira, aos 0:09:45, mostra Bourne caminhando no porto quando uma camioneta passa entre ele e a câmera. No exato instante em que os dois passam um pelo outro, dois sujeitos caminham da esquerda para a direita a centímetros de distância da câmera, òbviamente encobrindo Bourne e a camioneta. Assim que os dois sujeitos saem da frente, vê-se a camioneta, ainda fazendo seu percurso, mas… Bourne sumiu!

Essa cena tem a evidente intenção de simbolizar o desaparecimento de Bourne no terreno: sem identidade, sem cartão de crédito, sem passaporte, não é possível rastreá-lo, não é possível saber onde ele está até que seja encontrado a centenas de quilômetros dali. Mas, mesmo assim, a técnica é surpreendente. Nos comentários ao DVD, o Diretor Doug Liman esclarece que não houve edição de vídeo nem efeitos de computador; foi tudo feito realmente diante das câmeras. Nesse caso, onde está o truque?

Pausando e exercendo um quadro-a-quadro, podemos ver uma esperta sequência: antes que os dois sujeitos apareçam para encobrir sua visão, você consegue perceber que Matt Damon e a camioneta estão muito próximos um do outro e que o ator está apenas alguns passos além dela. Os dois caminhantes cobrem sua vista porque é aí que o diretor vai desempenhar seu pequeno truque de mágica; eles fazem o mesmo papel de uma cortina no palco. Mas, em um fotograma isolado, conseguimos perceber as pernas de Damon. Prestando muita atenção a seu casaco vermelho, e olhando através dos vidros da camioneta, podemos ver que Damon sobe no lado de fora dela mas fica escondido, abaixado por trás do motorista e da cabine. Nos fotogramas seguintes, a camioneta desloca-se para a direita da tela e ele vai junto; no fim da sequência, Damon até mesmo começa a se levantar. O truque funciona porque, no início, ele estava caminhando para nossa esquerda, e a ponto de cruzar seu caminho com o da camioneta, de modo que temos a expectativa de vê-lo na continuação desse movimento, quando, na verdade, ele e a camioneta avançam para nossa direita, onde não esperamos vê-lo. Tal como em todo truque de ilusionismo, o mágico rompe com nossas expectativas, fazendo com que tudo ocorra em uma direção diferente daquela para onde estamos olhando.

Outro pequeno truque de desaparecimento ocorre aos 1:49:29: Bourne vem caminhando da direita para a esquerda, a câmera acompanha-o de modo a mantê-lo centralizado, e então a câmera pára. Como Bourne continua caminhando, òbviamente ele avança para fora do campo de visão. A câmera continua parada e então volta-se lentamente para o lado onde ele sumiu, supostamente para acompanhá-lo — exceto que, novamente, ele desapareceu. Esta é outra cena intencionalmente simbólica, indicando que Bourne se tornou novamente irrastreável e que agora pode estar em qualquer lugar, abaixo dos radares. Também aqui o diretor informa que tudo foi feito diante das câmeras, sem mais tecnologia. Este caso é fácil, e Liman esclarece que bastou Matt Damon correr para fora do campo de visão, mais rápido do que se podia acompanhá-lo.

Uma última observação é que, aos 1:50:10, o Vice-Diretor Abbott menciona o projeto Blackbriar. Neste filme, essa é uma menção genérica; poderia ser qualquer outra palavra, indicando apenas que Abbott está descrevendo projeto atrás de projeto, sendo Blackbriar o próximo na fila depois de Treadstone. Porém, quando assistimos ao terceiro filme da sequência, The Bourne Ultimatum, aprendemos que Blackbriar é o projeto que sucedeu a Treadstone. Nenhuma fala é perdida.

Agora em inglês:

In The Bourne Identity (the movie from 2002, with Matt Damon, not the one from 1988, with Richard Chamberlain), at the 1:35:30 mark, we see a CIA business jet, which Agent Conklin boards. The airplane is clearly a white, three-engined Dassault Falcon, bearing the manufacturer’s logo on the fin and the registration N-GIDE.

Well. Any Reader who is accustomed to aircraft registrations will know that, in the USA, they begin with the letter N but continue with algarisms, without a dash between the N and the algarisms. A sequence with a dash and four letters does not make sense in the American registry.

But one letter followed by a dash and four letters makes every sense in Europe, where British, German, Italian and French registries follow such pattern. Besides, we can see in the movie that the letter N is not painted directly on the fuselage as the other letters are; the N alone is printed on some removable coating that had been glued before the dash.

One does not need much intuition to realise that some other letter occupied that spot under the N. This being a Dassault airplane and, on top of it, bearing the manufacturer’s logo on the fin, we can imagine that the aircraft belongs to Dassault itself (and not to some company that would have loaned it to the studio). Therefore the airplane must be French, with original registration F-GIDE.

A quick search for F-GIDE at Airliners.net reveals that, as a matter of fact, the movie’s trimotor is the first example of the Dassault Falcon 900, displayed at Farnborough in 1988. One could see some product placement by the noted French manufacturer there.

Also, Bourne Identity has two scenes with disappearing acts. The first one, at 0:09:45, shows Bourne walking on the harbour when a small cargo truck passes between him and the camera. At the exact instant when Bourne and the truck pass by each other, two men walk from left to right, centimetres away from the camera, obviously hiding Bourne and the truck. As soon as the two men get out from your face, you can see the truck, still making its run onscreen, but… Bourne has vanished!

This scene has the evident intent of symbolising Bourne’s disappearance into the terrain: without an identity, without a credit card, without a passport, it is not possible to track him, it is not possible to know where he is until he is found hundreds of kilometres away. Even so, the technique is surprising. In the DVD commentary, Director Doug Liman makes it clear that there was neither video edition nor computer effects; everything was made on-camera. In this case, where is the trick?

By freezing and stepping frame by frame, we can see a smart sequence of events: before those two men appear to cover your view, you can notice that Matt Damon and the truck are very close to each other and that the actor is just a few steps beyond it. The two walkers cover your view because this is where the director will perform his little magic trick; they fulfill the same function of a curtain on stage. However, in an isolated frame, we can see Damon’s legs. By paying a lot of attention to his red coat, and by looking through the truck’s glass panes, we can see that Damon climbs on the vehicle’s outside but stays hidden, lowered behind the driver and the cabin. In the following frames, the truck runs to the right of the screen and he goes along with it; at the end of the sequence, Damon even starts to rise. The trick works because, at first, he was walking towards our left, and about to cross paths with the truck, so that we expect to see him proceeding on this movement, when in truth he and the truck are moving towards our right, where we do not expect to see him. Just as in any illusionist’s trick, the magician breaks our expectations, making everything happen in a direction divergent from the one we are looking in.

Another minor disappearing act takes place at 1:49:29: Bourne comes walking from right to left, the camera follows him in order to keep him centred, and then the camera stops. Since Bourne is still walking, he obviously steps outside the field of vision. The camera remains where it stopped and then turns slowly towards the side where he went out of sight, supposedly to continue following him — except that, again, he has disappeared. This is another intentionally symbolic scene, pointing out that Bourne has again become untrackable and that now he may be anywhere under the radars. Here, again, the director advises us that everything was done on camera, without any further technology. This is an easy case, and Liman explains that it was enough for Matt Damon to run out of sight, faster than the camera could follow him.

A last observation is that, at 1:50:10, Deputy Director Abbott mentions project Blackbriar. In this film, this is a generic reference; it could have been any other word, just to show that Abbott is describing project after project, Blackbriar being the next in line after Treadstone. However, when we watch the third movie in the sequence, The Bourne Ultimatum, we learn that Blackbriar is the project that has succeeded Treadstone. So much for throwaway lines.

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É fácil de encontrar quando se sabe onde procurar

Muitas vezes, os iniciantes na apreciação da Arte têm a noção de que os artistas desenham imagens que já têm prontas na cabeça. De que os desenhos são feitos sem qualquer referência a objetos reais, obedecendo sòmente a abstrações. Dentro dessa ideia, a prova do talento do desenhista está no sucesso em representar um objeto real (ou que poderia ser real) sem nunca ter olhado para ele.

É por isso que, às vezes, o apreciador se decepciona quando vem a descobrir que o artista se valeu de um modelo, da observação de uma pessoa viva, ou de uma fotografia. É como se trapaceasse, como se o trabalho valesse menos, como se fosse uma “cópia”.

Porém, se o apreciador convive por tempo suficiente com o processo de criação — ou até se ele mesmo se dispõe a criar sua própria arte –, logo pode perceber que é assim mesmo que funciona. Difìcilmente o artista parte do zero, de uma imagem que não existe. Quando isso acontece, frequentemente o resultado é arte abstrata, que não tem qualquer compromisso com as impressões visuais da realidade. Mesmo Alex Ross, considerado um dos maiores desenhistas de quadrinhos desde os anos 90, usa modelos: o Padre McCay, personagem narrador da obra-prima Kingdom Come, tem sua aparência baseada na do pai de Ross. Boris Vallejo, conhecido por suas capas de livros e figuras de Conan, o Bárbaro, também se vale de modelos. A versão Ultimate de Nick Fury teve sua aparência baseada em Samuel L. Jackson — que veio a interpretar Nick Fury nos recentes filmes da Marvel –, assim como John Henry Irons, o Aço da DC, tem o rosto de Shaquille O’Neal, que interpretou o papel mais tarde, na bomba Steel, que nem apareceu nos cinemas daqui (mas que já foi exibido pela TNT).

Portanto, não é surpreendente o que encontrei. Estava eu lendo Astro City: inquisição, que é a versão brasileira da compilação de Kurt Busiek’s Astro City #4-9, quando cheguei ao capítulo que corresponde a KBAC #8, de abril de 1997, escrita por K. Busiek e desenhada por Brent Anderson.

Nas páginas 121 e 122, encontrei estas figuras.

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Não haveria nada de mais, e o Leitor que não se interessa por aviões passaria batido. Exceto que eu tenho uma memória terrível para as coisas de que gosto, porque de imediato reconheci as duas imagens. Acontece que tenho alguns livros da coleção Guias de Armas de Guerra, publicada pela Nova Cultural nos anos 80 a partir de originais da inglesa Salamander. Um desses livros é Aviões do futuro, que se divide em dois volumes.

A edição original e o volume I da traduzida

A edição original e o volume I da traduzida

No volume I, encontramos uma das várias representações de conceitos preparatórios para o ATF (que, anos mais tarde, viria a se tornar o F-22). Um deles é este aqui:

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Lamentàvelmente, não consigo ler a assinatura do artista original, bastante esmaecida e parcialmente cortada no livro.

Já no volume II, duas páginas são dedicadas ao helicóptero experimental S-69, do qual se vê a seguinte fotografia:

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Vamos facilitar a vida do distinto Leitor:

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Eu não sei você, mas não tenho a menor dúvida de que Anderson teve acesso aos livros dessa excelente coleção.

EOF

Tiro pela culatra — ou isso é o que eles querem que você pense

Acabo de descobrir as tais propagandas “subliminares” (não são) no SBT. Você tá lá assistindo a algum filme PERFUMES NÃOSEIQUÊ e de repente o anúncio pisca durante, sei lá, meio segundo, em silêncio, interrompendo o filme apenas pelo tempo que você leva para perceber o que acabou de acontecer.

FILHOS DA P*TA.

EU MAL TIVE TEMPO DE LER METADE DO ANÚNCIO. Mas sei que devo ter lido a outra metade. Acho que era “perfumes Jequiti”. Pode não ser. Sei que estou propagando a mensagem, possìvelmente porque essa era a ordem deles. (Ó-bê-ésse: editei o texto para dizer que era da Jequiti. Achei que fosse outra marca, mas Google me ajudou. Tá vendo, Jequiti? Não funcionou — pensei que fosse o seu concorrente. OK, funcionou pela metade, porque me fez pesquisar. Mas, se eu não quisesse escrever a respeito, teria entendido outra marca! (E teria ódio da outra marca — ponto para você, Jequiti.))

Isso acontece porque é tevê gratuita: você não paga para assistir. SE VOCÊ NÃO ESTÁ PAGANDO, ENTÃO VOCÊ É A MERCADORIA. Se é de graça, pode ter certeza de que vão dar um jeito de obrigar você a engolir. Porque, veja bem, se fosse pago era fácil: você parava de assistir ao canal, parava de pagar ao fornecedor. Mas é de graça. Você não tem com quem reclamar, nem do quê. Então aguenta.

Então agora tenho MAIS UM motivo para não assistir à m*rda da tevê aberta.

Update. Aliás acabo de ver que o WordPress está pondo anúncios embaixo do meu texto. Claro: eu não pago para publicá-los, nem você para lê-los. QUE QUE EU ACABEI DE DIZER, Ó MERCADORIA?

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A Serra Gaúcha e o limite de número de garrafas

Em 2007, entrou em vigor uma norma internacional que limita o transporte de líquidos na bagagem de mão: somente embalagens de até 100 ml, dentro de um saco plástico de até um litro. Segundo a formulação original, essa norma só se aplica a voos internacionais, mas já a vi aplicada a voos domésticos no Brasil, o que não sei se é legal mas vou presumir que seja.

Pois bem. Atente a isto: para voos domésticos partindo do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, neste ano de 2012, você não pode incluir bebidas na bagagem despachada, e sua bagagem de mão só pode conter até cinco garrafas de até um litro cada uma. Essa segunda regra faz sentido em razão do limite de 5 kg da ANAC para a bagagem de mão, mas a primeira é uma completa novidade para mim, e não encontrei orientação sobre ela no saite da ANAC.

Não adianta espernear, e é melhor conhecer as regras de antemão. Não sei se a proibição quanto à bagagem despachada é sòmente para garrafas de vidro, mas sei o que vi: a moça do checkin perguntou se eu tinha bebidas nessa bagagem; e a moça do raio X viu que havia duas garrafas na bagagem de mão e pediu para vê-las em detalhe. Vendo-as, deteve-se no volume relatado pelos rótulos.

Aparentemente, a regra que limita a bagagem despachada é da Infraero. Não a vi sendo praticada em Curitiba nem no Rio, de modo que presumo que seja específica de Porto Alegre. Não vi divulgação em nenhum lugar; você só fica sabendo dela no ato do checkin. Vi pessoas com caixas de seis garrafas de vinho; não sei como fizeram para embarcarem, já que tampouco poderiam levá-las na mão.

As razões podem ser várias, mas só nos cabe especular. Uma possibilidade é que os carregadores de bagagem, com a gentileza que lhes é peculiar, tenham arremessado algu’a mala e inevitàvelmente quebrado as garrafas que estavam soltas ali dentro. Certamente o proprietário da mala não deve ter tomado nenhum cuidado de acolchoar e isolar o conteúdo, recebeu um monte de cacos e manchas de vinho na esteira ao fim da viagem e entrou com ação em face da Infraero, que deve ter sido condenada. A empresa deve ter imposto a regra a fim de evitar novos danos: “ah, é, eu sou responsável? Então, se sou responsável, ninguém mais pode levar garrafa nenhuma na bagagem, pronto” — no que não estaria de todo errada. Se alguém é responsável por alguma coisa, a esse alguém deve ser reconhecido o poder de impedir essa coisa.

Junte-se a isso o limite de 5 kg na bagagem de mão. Como o vinho tem densidade pràticamente igual à da água, quem levar cinco garrafas de um litro estará certamente violando o limite de peso (não se esqueça do peso do vidro). Daí a implicação mais refinada da regra da bagagem despachada: você tem pouca alternativa.

Não deve ser coincidência com o fato de que os brasileiros viajam cada vez mais de avião e cada vez mais vão à Serra Gaúcha, de lá trazendo bonsdrink. Ora, o vinho é o produto mais famoso daquela região e um dos que mais motivam o turismo por lá. Assim, a nova norma aeroportuária é uma boa forma de coibir o comércio de vinhos do Rio Grande do Sul para turistas, induzindo às vendas por atacado, que seguem por caminhão. Isso vai ser particularmente interessante por ocasião do Natal: em Gramado, essa temporada é tão importante quanto o inverno, e aumentam as vendas no comércio local.

A consequência prática é que ninguém pode trazer mais do que cinco garrafas de vinho da Serra Gaúcha se pretende voltar para casa de avião. Faz TODO o sentido, especialmente se só se avisarem os compradores sobre a bagagem despachada quando estiverem fazendo checkin.

Pelo menos, é o que eu faria, porque assim é muito mais divertido.

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Vendo a velocidade da luz

Não é “vendo”, presente do indicativo de “vender”, mas “vendo”, gerúndio de “ver”.

Este vídeo está correndo a Web feito fogo na palha, e merecidamente.

Mas todos os rápidos (e ingênuos) textos que já vi têm um defeito em comum: passam a ideia errada de que você “vê a luz se deslocando”, igual àqueles raios laser de filmes de scifi. Não é isso que você vê. A explicação do cientista-engenheiro está correta (ÓBVIO), mas está em inglês. Então, abaixo ofereço meu próprio texto sobre o que acontece.

Ninguém filmou “a luz se propagando”. É assim: primeiro, um raio de luz avança e bate num grão de poeira, ou numa molécula de plástico, ou no que for. Aí, esse raio reflete, vai noutra direção, e acerta (por exemplo) a câmera, que está ali do lado. Nesse momento, a câmera vê a luz pela primeira e única vez; a luz marca o filme; a câmera registra uma centelha. Para a câmera, tudo se passa como se o raio tivesse vindo originalmente daquele grão de poeira que havia no meio do caminho, porque veio mesmo. Para a câmera, o que aconteceu foi uma centelha, ali onde está o grão de poeira, vindo na direção da câmera. Mas sabemos que essa centelha é um raio que veio ali do grão de poeira, que estava se intrometendo no começo do percurso original do raio. Fim.

Agora, junto àquele primeiro raio, havia outro, paralelo, emitido ao mesmo tempo. Esse outro fez um percurso mais longo do que o primeiro sem ser perturbado. Até que, cerca de 0,00000000003 segundo depois, também encontrou um grão de poeira. Como seu percurso durou 0,00000000003 segundo a mais, esse encontro aconteceu 1 cm adiante do encontro anterior. Mas também esse raio foi forçado a refletir noutra direção. E encontrou a câmera, e fez a câmera “acreditar” que estava vindo do segundo grão de poeira, tendo saído dali 0,00000000003 segundo depois e 1 cm adiante do primeiro raio. Então, a câmera registra uma centelha em um ponto que fica 1 cm adiante da primeira centelha.

E assim sucessivamente. São milhares, milhões de raios. À medida que avançam, vão trombando na poeira, refletindo, e alguns atingem a câmera. O que a câmera vai registrando são sucessivas colisões entre luz e poeira; somente aquelas cujas consequências são raios apontados para a câmera. Naturalmente, essa sucessão de colisões vai acontecendo ao longo do caminho que os raios tentam percorrer desde o começo. Então, vemos os impactos acontecendo, um depois do outro, ao longo do caminho que a luz está percorrendo.

Claro que, enquanto um raio de luz está avançando pela garrafa sem colidir com nada, ele é invisível: você só o veria se ele batesse na câmera, mas ele está lá, percorrendo a garrafa, sem bater em nada. Até que ele colide com a poeira. Nesse momento, pronto: aquele raio de luz não está mais fazendo o percurso; ele está colidindo com a poeira e refletindo, e sofrendo o fenômeno que acabei de descrever. Então, de certo modo, o que você vê não é o “percurso” da luz. Ao contrário: é uma sucessão de colisões onde a luz foi impedida de fazer seu percurso. São sucessivas interrupções ao percurso. Cada raio que colide (e assim se torna visível) é menos um raio que está fazendo o percurso, e com isso há cada vez menos raios fazendo a corrida. Os raios que chegam à tampa da garrafa estão em menor quantidade do que os que partiram do emissor.

São diferentes grãos de poeira, espalhados ao longo do caminho, e cada um gera sua centelhinha. Por isso, cada ponto de impacto é diferente do outro. Mas a sucessão de impactos dá a impressão de ser um ponto só que avança. Essa impressão-de-avanço vai andando à medida em que novos impactos surgem. E com que velocidade a impressão-de-avanço vai avançar? Com a mesma velocidade com que os raios vão avançando, sem serem detidos, até afinal serem detidos pela poeira: a velocidade da luz.

E é isso que vemos no vídeo.

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O calendário maia e o fim do mundo

Então dizem que o mundo vai acabar em dezembro de 2012. Supostamente porque o calendário maia acaba em dezembro de 2012.

Imagine a cena: dois calendaristas maias seminus, andrajosos, barbão imundo, trabalhando numa parede de pedra. Cipós no lugar de cintos, botas de pele de urso. Entalhando o calendário com cinzel contra o granito, fazendo a maior força, as mãos calejadas e cansadas. Estão há dias ocupados, sem comer, incumbidos pelo imperador de registrar o calendário completo. Só podem sair quando terminarem.

De repente…

— Ô Fulano, acho que já tá bom, não tá não?

— Cê acha? A gente ainda não acabou!

— Rapaz, a gente não vai acabar nunca! O calendário não tem fim!

— Ué, mas por que é então que o imperador botou a gente aqui, fazendo calendário?

— Eu sei lá. Acho que ele queria dar alguma coisa pra gente fazer. Sabe como é, tem a crise, o desemprego, e coisa e tal. Vai ver que ele não queria deixar a gente por aí, de bobeira.

— Mas será que ele sabe que o calendário não acaba?

— Acho que ele nem pensou nisso! Deixou a gente aqui, fazendo, e esqueceu. Olha lá o pessoal brincando. Tá todomundo lá, na beira do rio, e só nós aqui, feito dois otários, entalhando calendário nessa pedra dura que nem a cabeça do imperador.

— E se a gente largar como tá agora e disser pra ele que já acabou?

— Mas ele vai acreditar na gente? Vai nada. Ele vai perguntar, “que que cês tão fazendo aqui? Volta lá e acaba, senão eu solto os cachorro em cima de vocês!”

— Ah, a gente diz pra ele que o mundo vai acabar em 2012. Até lá vai tá todomundo morto mêmo, cê acha que ele vai conferir? Ele nem vai se importar. Qualquer coisa, a gente diz que foi profecia.

Mas eu tenho outra teoria. Aliás, tenho duas.

Conforme é bem sabido, o México é um lugar propenso a terremotos. Não faz nem cem anos, surgiu um vulcão lá, no meio duma plantação de milho! Então, foi assim:

Em 1848, o famoso arqueólogo Arne Saknussem encontrou a caverna maia em cuja parede estavam registrados os números de todos os dias até o fim dos tempos. O último número era 12/12/2012. Então ele saiu da caverna e anunciou aos jornais que o fim do mundo seria em 2012. Seu assistente, Otto Lidenbrock, expressou preocupação:

— Professor Saknussem, não é meio imprudente anunciar que o mundo acaba em 2012 só porque os números acabam em 2012? Isso pode causar pânico!

— Meu caro Lidenbrock, eu quero mais é que se dane. Em 2012 já estaremos todos mortos. Se eu estiver errado, o problema não será mais meu.

Mal sabia o distinto arqueólogo que, no ano anterior, um terremoto havia afundado a entrada de uma caverna ao lado. A continuação do calendário estava lá. É por isso que os estranhos caracteres no final do calendário diziam “continua na caverna ao lado”, embora o professor tivesse entendido “aqui é o fim do mundo”.

De acordo com outra teoria, o final do calendário estava gravado em uma pedra cujos caracteres tinham mais ou menos a forma que reproduzi abaixo:

…20052006200720082009201020112012ACABOU

Todos sabemos que, tal como os romanos, os maias acreditavam que a correta pontuação das frases tivesse poderes sobrenaturais maléficos e por isso a evitavam de todas as formas. (Ainda hoje essa crença é compartilhada pelas tribos de lusófonos que habitam as maiores aldeias sul-americanas.)

Depois de um grande esforço para decifrar essa inscrição, o famoso explorador Henry Jones Jr. percebeu que ela trazia a seguinte mensagem:

2005 — 2006 — 2007 — 2008 — 2009 — 2010 — 2011 — 2012 — ACABOU

E assim ele divulgou sua teoria de que o fim do mundo seria em 2012. Entretanto, o Professor Jones nunca conseguiu explicar por que havia uma lasca na pedra, logo após essa famosa e assustadora inscrição.

A verdade é que, no chão da caverna, havia um pedaço de pedra que se encaixava perfeitamente na parte onde estava faltando um pedaço. Virada para o chão, a face lisa da pedra trazia a continuação da mensagem, que ficou inédita até hoje. Agora, o famoso pesquisador Dr. Satipo Molina revelou-me com exclusividade a continuação da misteriosa inscrição. Após decifrá-la, ele descobriu que o texto diz o seguinte:

2005 — 2006 — 2007 — 2008 — 2009 — 2010 — 2011 — 2012 — ACABOU O ESPAÇO NESTA PEDRA MAS O MUNDO CONTINUA PARA SEMPRE

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De ilusões de óptica

Na minha adolescência, muito ouvi meu pai se queixar de um colega de trabalho, que supostamente era arrogante e inflexível. Após meses e anos ouvindo os resmungos, houve uma curta transição após a qual meu pai reconheceu que, afinal de contas, o colega não era tão arrogante ou inflexível assim; que tinha havido uma falha de comunicação todo esse tempo e que o colega até tinha virtudes e dificuldades com as quais ele se solidarizava.

Disso retive a lição de que não temos que fazer para sempre a mesma imagem das pessoas próximas. Que, mesmo que elas não mudem, ainda podemos mudar nossa percepção sobre elas. Que, às vezes, a distorção (se for distorção) está em nossos olhos, não no objeto observado.

Na vila onde eu morava, sempre tive certa impressão do proprietário de uma das casas: parecia-me agressivo, prepotente e precipitado. Um dia, foi necessário reunir-me com ele em razão de questões exclusivas da vila. Eu, que nunca conversara com ele, fui tratado com educação. Comigo não foi agressivo nem prepotente, nem me pareceu precipitado.

Em outra história, não relacionada, era uma vez o General Guilherme, comandante da 1a. Divisão de Exército em meados dos anos 90. Jogue o nome “General Guilherme” no Google e o autocompletamento já segue com “… toquinho da maldade” — que era o apelido como era conhecido, e tão comum que foi parar no autocompletamento do Google. Na Vila Militar, todos o temiam e dali se espalhou sua fama de implacável, de que punia a todos por tudo, de que mandava prender e punha ordem etc. Vários anos depois, ouvi de um colega, que serviu sob seu comando, que o Gen Guilherme era apenas um militar que cumpria o regulamento, não mais rigoroso do que as previsões normativas. Mas que as pessoas sempre estão erradas e sabem que estão, então o temiam. E que quem andasse na linha não tinha o que temer.

Não sei qual versão é verdadeira, se é que alguma. Mas a lição aqui foi outra: a de que, toda vez que escuto que alguém em alto cargo é intolerante, rigoroso ou trovejante, tenho que interpretar que, na verdade, a pessoa age certo e quer que seus subordinados ajam certo. Atentar para os fatos de que, na maioria das vezes, as pessoas são preguiçosas, negligentes, acomodadas, indispostas a aprender, fazem corpo mole e carecem de iniciativa; e de que reagem à chefia que não tolera esses vícios. Então, sempre que ouço acusarem a diretora de que é exageradamente durona, eu, que nunca a encontrei, desconfio fortemente do que escuto, porque a impressão está sempre vindo de terceiros, e as pessoas são falhas; só terei uma impressão fidedigna quando EU mesmo a tiver. E, em princípio, cresce minha admiração por ela, e mais a respeito — quer dizer, a mensagem acaba funcionando ao contrário.

Tudo isso me confirma a lição que meu pai me transmitiu e vai além: em princípio, não é para pressupormos nada a respeito das pessoas com quem lidamos. Você sofre por antecipação (ou se decepciona, dependendo do caso) desnecessàriamente.

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Servidores públicos, escândalos e falácias

Fica-se dizendo que funcionário público servidor público ganha bem, que servidor público tem aposentadorias e pensões nababescas, que tem privilégios, que ganha verba pra tudo, que desvia dinheiro público, que faz negociatas…

Toda vez que aparece um nome de servidor público envolvido em escândalo, o que é que se verifica? Que é assessor. Que detém cargo em comissão. Que não é concursado nem efetivo. Que é dirigente, diretor de algum órgão. A gente quase nunca vê servidores efetivos envolvidos em maracutaias. Às vezes tem, tanto quanto tem criminoso comum. Mas, quase sempre, os líderes dos esquemas, os servidores que estão levando um por fora, quase sempre é gente que foi nomeada para cargo em comissão, gente que não tem nenhum vínculo com o serviço, nem preparo, gente que é apadrinhada política daquele nosso clássico clientelismo. Essa gente (bem entendido: os criminosos. Não estou falando dos outros, tome nota) sabe que vai ficar no cargo só pelo tempo que ficarem aqueles que os nomeiam. Sabe que essa é sua oportunidade para enriquecimento rápido e fácil. Em regra, é gente que não trabalha, não chega realmente a exercer o cargo no sentido de trabalhar como se espera do ocupante do cargo, às vezes nem dá as caras no local de trabalho. É gente que faz pouco dos servidores efetivos com quem convive e a quem humilha quando pode, gente que tem uma percepção de cargo público bem diferente da de quem fez concurso.

Enquanto isso, os servidores efetivos, que são maioria, continuam ganhando pouco (especialmente no Poder Executivo e suas autarquias), sofrendo com péssimas condições de trabalho, sem ar condicionado nem a aguinha gelada ou o cafèzinho que vemos para os assessores e secretários.

Então, peço ao Leitor que preste atenção: toda vez que sai uma notícia de servidor público ganhando comissão para liberar obra irregular, preste atenção se não é um assessor, diretor, secretário de alguma coisa. Não são esses os representantes da classe, tá? Não são esses os trabalhadores, nem são maioria, que a maioria são servidores efetivos, concursados. Vampará de ficar demonizando os servidores públicos como se fossem os responsáveis pelos problemas do Estado brasileiro.

Aliás, é curioso. Todomundo falando mal de servidor público, todomundo criticando que é uma boca, mas todomundo querendo ser um, estudando pra concurso… Parece contraditório, né? É que, muitas vezes, a indignação não é pelo desvalor ético, não é uma crítica à conduta em tese. É, isto sim, uma queixa: “também queromeu, por que só eles têm e eu não?”, puro fruto de egoísmo mesquinho.

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Em outra notícia, vejo que, esses dias, em Belo Horizonte, uma carreta trazia XYZ mil toneladas de trigo a duzentos mil quilômetros por hora no meio do trânsito movimentado — o que, em si mesmo, já é uma insanidade de punir com marretadas na canela — quando, depois de uma curva, não viu o trânsito parado e saiu atropelando quinze veículos, o que resultou em cinco mortos e vários feridos, com direito a caminhão sendo jogado na vala entre pistas. A alegação do mentecapto motorista foi ter perdido o controle do veículo.

Putaquepariu. É nisso que dá entregar uma carreta na mão de um energúmeno analfabeto. A alegação é sempre essa, você já percebeu? A mais comum é ter “perdido o freio”. O paramécio oligofrênico não percebe que não dá pra parar uma carreta carregada até em cima com tijolos, vindo a duzentos por hora, na mesma distância em que se pára um caminhão vazio que venha a quarenta. Não estou pretendendo que esse animal tenha estudado Física básica, não é isso. Mas, se tivesse um mínimo do treinamento necessário pra subir no veículo, esse aborto viciado em anfetaminas perceberia que o freio, ao contrário do que supõe, não é mágico! Ao contrário do que se possa pensar, não é só pisar no pedal que o caminhão, pronto, instantaneamente pára.

Agora, uma sugestão. Se você olhar pelo espelho retrovisor e vir um mastodonte desses vindo na sua direção, sem ter para onde escapar, solte o freio de mão. Você reduzirá a transferência de energia cinética e ganhará uma minúscula chance a mais de sobrevivência.

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Vivendo de imagens

Aí você recebe uma daquelas propagandas de lançamento imobiliário. Como o prédio ainda não existe, eles publicam fotos virtuais, quer dizer, uma espécie de previsão de como vai ser.

Só que, é claro, as “fotos” são computação gráfica. Então, atrás do prédio, onde tem um morro, aparece a mata, ou o céu. Na rua, aparecem árvores onde não tem árvore nenhuma. No condomínio, há sempre palmeiras, nenhuma peça de roupa pendurada, nenhum brinquedo de criança esquecido na varanda…

O prospecto também mostra os ambientes interiores. Aparece a piscina: com iluminação noturna indireta, águas translúcidas de um azul safíreo (essa palavra existe?), cadeiras perfeitamente alinhadas e ninguém por perto. Na vida real, não vai ser nada disso, né. A água vai ser turva, talvez mal dê para ver o fundo, e vai ter um bocado de sujeira em volta, trazida pelo vento e pelos usuários. Vamos ver um bocado de limo e encardido entre os azulejos, a madeira vai ficar toda manchada. Então, você imagina aquela área de recreação toda arrumadinha, com todas aquelas luzes; a “cave” (que nome mais fresco para “sala de jantar”) com uma grande TV de LCD, garrafas de vinho — completamente irreal. Sempre haverá desgaste, sujeira, muita poeira depositada, desarrumação… Você imagina o cenário tal como no prospecto, com as luzes permanentemente acesas e uma certa tranquilidade no ar… Tudo falso, né. Porque, vem cá, a construtora vai pôr a TV de LCD lá? Não vai, né. Nem o vinho. Alguém vai ter que comprar. E, quando a LCD der defeito, quem é que vai consertar? Vai ficar lá, quebrado. Até porque, sabemos, aquilo que é de todos acaba sendo tratado como se não fosse de ninguém; sempre vai quebrar relativamente cedo, porque esses condôminos (ou, mais ainda, seus convidados) às vezes se comportam feito animais. Feito quem realmente são.

Aí o vídeo mostra uma “brinquedoteca”, uma lanhouse comunitária, salões de festas, “espaço teen“… Tudo muito bonito. Aí você compra, achando que vai morar num resort que já vem com tudo, praticamente uma gigantesca área de lazer, um transatlântico estacionário… Vem cá, quem é que vai ter que pagar para isso tudo ficar funcionando? Hm? E quer apostar quanto como o “espaço teen” logo vai estar com tudo quebrado, que só vai ter uma raquete (a outra vai sumir misteriosamente)… E é você quem vai ter que comprar a mesa de pingue-pongue, véi.

Aliás, uma coisa me chamou atenção. As construtoras podem dizer que estão promovendo a convivência, as pessoas se encontrando fora de suas casas, no espaço comunitário, espaço de festa de adulto, espaço de jogar poker buraco, espaço zen… É, porque dentro de casa não tem espaço, né. Nem vi o vídeo todo: ele mostra a planta dos apartamentos? Você vive fora de casa, faz festa fora de casa, criança brinca fora de casa, tudo isso porque não tem espaço DENTRO de casa. Então, você vive do lado de fora do seu apartamento, você vai usar o computador da lanhouse (valendo quanto como vai estar cheio de vírus, sem espaço em disco, cheio de pornografia, isso se tiver computador, se não for só um monte de gabinetes quebrados, de monitores quebrados, ou, então, nem isso; e ninguém vai configurar nada na instalação, vem cheio de aplicativos inúteis que o filho do vizinho é que instalou, todos aqueles aplicativos de monitoramento que ninguém nem sabe para que é que servem), você vai assistir a televisão na lanhouse (aliás, a TV só vai ficar mostrando Globo ou então Record — sim, porque quem é que vai pagar TV a cabo do condomínio? Aliás, mesmo com TV a cabo, o povo quer ver mesmo é Globo, é Record, é Band. E imagina a disputa pela escolha do que assistir, e imagina o barulho que vai ser dentro dessa lanhouse, do jeito que os jovens são, cheios de hormônios violentos)… Aliás você reparou quantas LCD esse decorador imaginou no condomínio? Quero só ver quem é que vai pagar isso. E, na “brinquedoteca”, não dou uma semana para aparecerem diversos brinquedos de plástico quebrados, boneca sem cabeça, Playmobil sem braço, carrinho sem roda, peças de quebra-cabeça de plástico espalhadas e extraviadas, bola murcha no canto. Parece que ninguém esteve na vida real, ninguém nunca viu uma sala que criança usa de verdade.

Em outra nota não relacionada, a Piraquê acaba de lançar mais um biscoito. Como sempre que a Piraquê lança um biscoito, este veio ao mundo sem alarde, sem propaganda. Com seu público cativo do Estado do Rio (existe Piraquê no resto do Brasil? Ao que eu saiba, não, né), a Piraquê nunca precisou de propaganda. Feito Monteiro Lobato com a campanha para vender seus livros (punha livro à venda na quitanda, na padaria, na farmácia), a Piraquê não põe seus biscoitos só em supermercado: você encontra biscoito Piraquê em qualquer boteco buteco, lanchonete, loja de conveniência.

Pois agora a Piraquê acabou de lançar um cream cracker amanteigado. Sabe o cream cracker da Piraquê? Aquele da embalagem vermelha-e-branca? Então. Tem os outros, né: o integral (embalagem branca), o de gergelim (embalagem verde), pois agora tem um amanteigado.

Eu detesto biscoito amanteigado. Só como casadinho por causa da goiabada; a manteiga é o preço que eu pago para comer aquela goiabada. Detesto gosto de manteiga. Não ponho manteiga na pipoca, òbviamente não ponho manteiga no pão, tenho nojo de manteiga em biscoito, no macarrão, onde quer que seja. Estranhamente, eu admito manteiga na torrada, vê se pode. Pois agora a Piraquê me lança um biscoito ostensivamente amanteigado.

Pode não ser. A embalagem bem que mostra uma colher pegando manteiga, mas pode ser só encenação. Pode ter só o gosto artificial da manteiga, e o biscoito ser até light. Mas, se for amanteigado mesmo, tenho tremores só de pensar: aquela gordura que vai ficar na mão, aquele cheiro de manteiga.

Mas eu gosto da Piraquê. Pode parecer que estou fazendo propaganda para a Piraquê, mas não estou não: para quem não é do Rio, não adianta nada ler isto aqui; para quem é, não faz diferença, porque já come biscoito Piraquê. No dia em que a fábrica da Piraquê pegar fogo, igual à da Mabel, não pense a Bauducco ou a Tostines que vai conseguir penetrar no mercado, não. Não pense a Triunfo ou a Nestlé São Luiz que vai conseguir tomar a fatia de mercado. No Rio de Janeiro, biscoito maizena, cream cracker ou goiabinha é sempre da Piraquê. Vai ser um chororô que vocês vão ver só, vai haver uma fileira de viúvas da Piraquê para chorar o morto. Queira o Grande Monstro de Espaguete Voador que isso nunca aconteça.

Vocês sabem onde é a fábrica da Piraquê? Pois fica em Turiaçu, perto de Madureira, no Rio de Janeiro. Vai lá no Google Earth e procura: 22°51’51”S 43°20’30”W.

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Apidêite: estive em Natal, RN, em outubro de 2011. Para meu espanto, encontrei vários biscoitos Piraquê nas prateleiras do supermercado! Antigamente (e nem faz tanto tempo assim), Piraquê era só no Estado do Rio, mas agora, pelo visto, tem no Brasil inteiro. Que alegria! Dia de júbilo e regozijo!

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Um falso sinal de socorro, como tantos vemos nos episódios

É tanto spam maldito vendendo remédio, vendendo alongamento de membro, prometendo dinheiro nigeriano, prometendo dinheiro fácil para trabalho em casa, anunciando promoção, vendendo diploma… Apago todos sem olhar.

Só que os argutos olhos atozianos sempre perpassam o conteúdo de qualquer texto antes de lhe dar destino. [Pausa: essa última frase tem métrica?] Além disso, os argutos olhos atozianos alimentam um aplicativo de reconhecimento de expressões que passa correndo pelo texto sem realmente decifrá-lo, uma espécie de radar de busca que, ao detectar expressão familiar, aciona uma segunda leitura, mais precisa. Daquele tipo: “peraí, eu li isso mesmo?”

Assim foi que um dos spams malditos que recebi identificava seu emissor como Jonathan Archer.

Uquê. O capitão da NX-01! Jonathan Archer escreveu para mim! Precisa da minha ajuda em algum planeta? Precisa que eu conserte o inovador motor de dobra 5?

“Oquei,” pensei eu, dando override após a segunda leitura, “boa tentativa”. Durou menos de um segundo. E apaguei o spam maldito.

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Quem cair nesta aqui é porque MERECE

Sabe o Nigerian scam? Pois então. Muita gente já caiu, né. Muita gente. Nesta era de absoluto analfabetismo digital, muita gente continua grosseiramente pedestre em sutileza e malícia, e ainda achando que é malandro. Então, o povo continua caindo no Nigerian scam.

O golpe é simplíssimo e meu sobrinho de quatro anos já não cai nele. Funciona assim: você recebe um email em um inglês tosco, supermal escrito, de uma pessoa que começa já sabendo que o email é inesperado para você. Prossegue explicando que encontrou você após uma desesperada busca por alguém honesto e confiável e que você tem o perfil desejado. Pede completo sigilo e conta que, em seu país da África ocidental (é sempre por lá: às vezes Nigéria, às vezes Burkina Faso, às vezes Gana… o país varia), determinada pessoa caiu vítima da guerra civil (ou de bandidos, ou de acidente de avião – a circunstância é sempre trágica). Que essa vítima tinha acumulado uma fortuna gigantesca, sempre algo acima de alguns milhões de dólares. Que ninguém apareceu para reclamar o dinheiro, que o dinheiro está seguro mas sem dono em algum banco. Que essa pessoa é gerente do banco (ou de outro modo tem acesso ao dinheiro), mas não consegue sacar o dinheiro sem algumas mirabolâncias e precisa da ajuda de alguém de fora.

É aí que você entra. O estranho oferece a você um percentual vultoso (algo entre 10 e 20%) para usar a SUA conta bancária para transitar o dinheiro para fora de seu país. Às vezes, vem a garantia de que a operação toda é perfeitamente legal, mas que a ditadura, se souber, vai matar ou confiscar ou algo otherwise bem ruim. Em geral, essa garantia não vem. Frequentemente, o que vem é uma história triste, onde o estranho alega ser filho do dono da grana, às vezes até príncipe real, e que é vítima da guerra civil, já tendo perdido a família.

Enfim, a história é ótima para convencer quem já quer ser convencido mesmo, quem já tem a moral fraca e está só atrás de uma desculpa para, sendo pego com a mão no pote, poder dizer que também foi enganado. É óbvio que seria só uma desculpa, porque, conforme também já está óbvio para o gentil Leitor, o golpe está apelando para o senso de malandragem de quem só quer sidarbem. O receptor do email sabe muito bem, e percebe muito bem, que, se o dinheiro existir mesmo, só pode ter origem ilegal, e que está sendo transferido a suas mãos de maneira mais ilegal ainda.

Mas é óbvio que não existe dinheiro. O email termina pedindo seus detalhes (endereço, telefone, conta de banco) e dizendo que revelará mais após sua resposta. Insiste no pedido de sigilo.

O que ele não diz é que, quando você manifestar interesse, ele vai pedir uma grana adiantada para molhar a mão das autoridades, depois mais grana para pagar uns tributos de última hora, depois mais grana para facilitar o escoamento através do banco, depois mais grana… Captou? Como você vai receber mais de um milhão de dólares, não se importa em adiantar alguns milhares para as despesas, não é verdade? E assim a sua conta bancária vai sendo depletada, para usar uma expressão bem apropriada aqui.

Pois é. Já recebi diversas variações do Nigerian scam, cada qual mais óbvia do que a outra. Então, foi dando muita risada que acabei de receber este email:

UNITED NATIONS COMPENSATION COMMISSION, IN AFFILIATION WITH THE KOELNER
BANK DE

Our Ref: WB/NF/UNCC/KB027

ATTN:Sir/Madam,

How are you today? Hope all is well with you and family?, You may not
understand why this mail came to you.

We have been having a meeting for the passed 7 months which ended 2 days
ago with the secretary to the UNITED NATIONS. This email is to all the
people that have been scammed in any part of the world.

The UNITED NATIONS have agreed to compensate them with the sum of
US$500,000.00.
.
This includes every foreign contractors that may have not received their
contract sum, and people that have had an unfinished transaction or
international businesses that failed due to Government problems etc.

We found your name in our list and that is why we are contacting you, This
have been agreed upon and have been signed Therefore, we are happy to
inform you that an arrangement has perfectly been concluded to effect your
payment as soon as possible in our bid to be transparent.

However, it is our pleasure to inform you that your ATM Card Number; 5490
9957 6302 4525 has been approved and upgraded in your favor. Meanwhile,
your Secret Pin Number will be available as soon as you confirm to us the
receipt of your ATM CARD.

The ATM Card Value is $500,000.00 USD Only. You are advised that a maximum
withdrawal value of US$10,000.00 is permitted daily.

And we are duly inter-switched and you can make withdrawal in any location
of the ATM Center of your choice/nearest to you any where in the world.

We have also concluded delivery arrangement with our accredited courier
service Company to oversee the delivery of the ATM Card to you without any
further delay.

So you are hereby advice to forward to this office Director ATM SWIFT CARD
Department. Therefore, you should send him your full Name and Telephone
number/your correct mailing address where you want him to send the ATM to
you.

Contact Dr.Henry Cole, immediately for your ATM SWIFT CARD:

Person to Contact Dr.Henry Cole.

Email : dr.henrycole@mail.mn

Thanks and God bless you and your family.

Hoping to hear from you as soon as you receive your ATM Card.

Making the world a better place

Regards,

Mr. Ban Ki-moon.

Secretary General (UNITED NATIONS)

Viu só essa? É o metagolpe! É o golpe que consiste em dizer que vai indenizá-lo pelo golpe! “Ah, finalmente alguém se sensibilizou com minha perda! Alguém vai me indenizar! O maná vai cair do céu para mim!” Para esse imbecil incorrigível, que vai cair no golpe DE NOVO, não adianta nem dizer “não existe almoço de graça, ANIMAL!”

A perguntinha que fica é: se, lá no começo, ele dizia que tinha negociado com o secretário-geral da UN, como é que, no final, assina como o próprio?

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De leis e salsichas

O Código de Processo Civil, artigos 267 e 269, diferencia as sentenças judiciais em dois tipos: terminativas (art 267) e definitivas (art 269). Mediante uma sentença terminativa, o juiz decide que o caso não pode ser julgado por alguma de diversas razões: ou porque o processo é repetição de outro igual, que já está tramitando ou até já foi decidido (é o que se chama, respectivamente, litispendência e coisa julgada), ou porque é juridicamente impossível atender ao pedido (p.ex. se o pedido é de que o juiz condene o réu a entregar uma parte de seu corpo), ou porque o autor (a pessoa que iniciou o processo) desistiu do pedido, ou por qualquer uma de diversas outras razões mencionadas pelo mesmo artigo.

Já em uma sentença definitiva, diz-se que o juiz resolve o mérito da ação, ou seja, resolve-se a questão. Em geral, o juiz decide (“julga”) o mérito, mas há casos onde o mérito se resolve sem que o juiz decida. Por exemplo: autor e réu entram em um acordo, que é homologado (ou seja, o juiz verifica que o acordo não contraria a lei, mas não se ocupa mais de ver quem tinha razão antes dele). Ocorre outro exemplo de resolução sem julgamento do mérito quando o juiz declara que o direito do autor, se existia, está prescrito (ou seja, tanto tempo já se passou que, por lei, não pode mais ser cobrado). Também neste caso, o juiz não precisa verificar se o direito existia ou não.

A diferença não é meramente acadêmica. No caso das sentenças definitivas, se não houver recurso, o que vai ficar estabelecido será o que constar da sentença, que o réu vai ter que cumprir. No caso das terminativas, não há nada a ser cumprido e, em alguns casos, o autor pode propor novamente a mesma ação, já que a questão ainda não ficou resolvida. Também são diferentes os rumos que o processo pode tomar dependendo de a sentença ter sido de um tipo ou do outro.

Até 2005, os artigos 267 e 269 tinham a seguinte redação:

Art. 267. Extingue-se o processo, sem julgamento do mérito:

(seguem-se as hipóteses)

Art. 269. Extingue-se o processo com julgamento de mérito:

(idem)

Conforme se vê do que eu disse acima, a palavra “julgamento” não era apropriada, porque havia casos onde havia resolução do mérito sem que houvesse seu julgamento.

Então, em 22/12/2005, foi sancionada a lei 11.232, que, alterando diversas passagens do Código, deu a esses dois artigos suas formas atuais:

Art. 267. Extingue-se o processo, sem resolução de mérito: (…)

Art. 269. Haverá resolução de mérito: (…)

A redação atual parece-me adequada. Mesmo assim, desde que tive meu primeiro contato com ela, fiquei curioso: após 32 anos de vigência do CPC, quais teriam sido as razões do legislador para adequar o texto? Será que algum deputado se deu conta da impropriedade da redação original e propôs a alteração? Será que algum professor de Direito processual integrou a comissão que redigiu o anteprojeto da lei 11.232?

Então, na noite de 3 de outubro, enquanto o Brasil inteiro acompanhava ansioso a consumação da catástrofe apuração dos votos da eleição, eu gastava meu tempo de modo igualmente inútil porém mais divertido, investigando, nos saites do Congresso Nacional, a tramitação do projeto que se tornaria a lei 11.232. Lá, normalmente, você encontra muito do que aconteceu na evolução dos projetos de lei: por onde passaram, quais comissões examinaram, justificativas e conteúdo das emendas, conteúdo dos pareceres e outras perdas de tempo.

Tudo começou com um anteprojeto de lei apresentado ao ministro da justiça. Esse anteprojeto foi acompanhado pela exposição de motivos EM no. 00034–MJ, que apresentava as razões que o justificavam. O texto desse anteprojeto não alterava os artigos 267 e 269 do Código, nem a Exposição de Motivos tocava no assunto deles.

Então, o anteprojeto chegou ao presidente da república. Com a palavra, a Constituição da República:

Art. 64. A discussão e votação dos projetos de lei de iniciativa do Presidente da República, (…) terão início na Câmara dos Deputados.

Portanto, na sequência, o presidente encaminhou o anteprojeto à Câmara dos Deputados, que o numerou como o projeto de lei 3253/2004. Até ser aprovado pela Câmara, esse PL sofreu emendas. Certamente eu encontraria a emenda que lhe inseriu o artigo mediante o qual se alterava a redação dos artigos 267 e 269 do CPC.

Não achei tal emenda. Aliás, a redação final do PL 3253, conforme a Câmara a aprovou, não menciona alguma alteração dos artigos 267 e 269. E, com essa aprovação pela Câmara, passa-se à etapa seguinte, determinada pela Constituição:

Art. 65. O projeto de lei aprovado por uma Casa será revisto pela outra, (…)

A tramitação do PL na Câmara pràticamente termina em sua remessa ao Senado em 05/08/2004. Depois disso, o único lançamento é de 22/12/2005, comunicando sua transformação na lei 11.232, o que implica que, nesse 1 ano, 4 meses e 17 dias de diferença, havia sido aprovado pelo Senado e sancionado pelo presidente da república. Porque, continuando a ler a Constituição,

Art. 65. O projeto de lei aprovado por uma Casa será revisto pela outra, em um só turno de discussão e votação, e enviado à sanção ou promulgação, se a Casa revisora o aprovar, (…)

Aí, pensei, peraí! Se o texto do PL aprovado pela Câmara não alterava os artigos 267 e 269, e a lei altera, é que, no meio do caminho, houve alteração ao texto por parte do Senado.

Então, toca a procurar os andamentos no saite do Senado, onde você descobre que o PL 3253 foi denominado Projeto de Lei da Câmara 52/2004. Verificando a tramitação, encontrei o parecer do relator, comentando catorze emendas ao PLC 52 oferecidas por senadores (embora o saite não identifique quem ofereceu o quê). Entre elas, as emendas 3–CCJ e 4–CCJ propunham alteração dos artigos 267 e 269, e o parecer concordava com elas nos seguintes termos:

(…) a alteração do art. 269 é bastante pertinente, pois revela a possibilidade de julgamento do mérito sem que o processo se tenha encerrado, como pode ocorrer em decisão interlocutória (…) ou em decisão monocrática de relator (…). Todavia, cabem duas ressalvas:

1ª) já que se pretende alterar a redação, seria de boa técnica seguir a orientação de ADROALDO FURTADO FABRÍCIO e empregar a terminologia “resolução de mérito”: “… a expressão ‘resolução de mérito’ traduziria melhor a idéia que aí se contém do que a locução utilizada. Com efeito, aí [art. 269 do CPC] se agrupam duas classes bem distintas de sentenças: as que efetivamente contêm julgamento, verdadeira heterocomposição jurisdicional do litígio, e as limitadas à constatação e certificação de seu desaparecimento por ato de parte ou das partes” (Extinção do processo e mérito da causa, in Saneamento do processo, p. 20);

2ª) para manter a coerência e a harmonia da reforma, seria também de boa técnica alterar a redação do art. 267 do CPC, pois não há sentido alterar um e manter o outro, visto que são simétricos.

Pronto! Está aí o motivo que eu buscava: o Senado seguiu a opinião do famoso processualista Adroaldo F. Fabrício (à qual aderem outros ilustres Autores, como o Prof Alexandre F. Câmara — q.v. Lições de Direito processual civil, 7. ed., v. I, p. 374-375) no sentido de adequar o texto do Código ao que realmente acontece no processo.

Em 07/12/2005, foram aprovados o PLC 52, aquelas catorze emendas do Senado e, no dia seguinte, a redação final que decorria de tudo isso.

Recapitulemos: o anteprojeto do ministro da justiça se transformou no PL 3253 do presidente da república, que foi emendado e aprovado pela Câmara, e no PLC 52, que foi assim emendado novamente e aprovado pelo Senado. Vejamos o que diz a Constituição a respeito dessa situação.

Art. 65. O projeto de lei aprovado por uma Casa será revisto pela outra, em um só turno de discussão e votação, e enviado à sanção ou promulgação, se a Casa revisora o aprovar, ou arquivado, se o rejeitar.

Parágrafo único. Sendo o projeto emendado, voltará à Casa iniciadora.

Art. 64. (…) § 3o. A apreciação das emendas do Senado Federal pela Câmara dos Deputados far-se-á no prazo de dez dias (…).

Mas… mas… do Senado, o texto final foi encaminhado a sanção presidencial em 14/12/2005. Houve até ofício do Senado à Câmara no mesmo dia, “comunicando a aprovação, em revisão, do presente Projeto e o seu encaminhamento à sanção presidencial”.

Não era para ter voltado?! Você leu: a Constituição é taxativa quanto a isso, não prevendo exceções. Mesmo assim, fui aos Regimentos Internos do Congresso Nacionalda Câmara dos Deputados, na esperança de que o texto constitucional tivesse alguma brecha à interpretação e de que esses regimentos se aproveitassem dela. Mas não tem, nem se aproveitam. (O regimento do Senado nem olhei, porque ou aprova ou não aprova o procedimento adotado. Se aprova, não importa, porque quem se prejudica é a Câmara, não ele; e um velho brocardo jurídico é o de que a ninguém aproveita sua própria torpeza).

Espremendo o céLebro, encontrei uma possibilidade mediante a qual o procedimento do Senado tenha sido aceitável: neste caso, quem iniciou o processo legislativo foi o presidente da república. Com isso, não houve “Casa iniciadora”, como há nas vezes em que o processo começa com projeto de lei de autoria de algum parlamentar. Mas não sei se é isso.

O PLC 52 foi sancionado pelo presidente da república em 22/12/2005, convertendo-se na lei 11.232. Por mais que Fabrício, Câmara e eu concordemos com as emendas 3–CCJ e 4–CCJ, nenhuma medida corretiva foi tomada quanto às aprovações daquelas catorze emendas, que nunca foram submetidas à Câmara dos Deputados.

Depois, o próprio saite do Senado revela que houve a ação direta de inconstitucionalidade no. 3740, proposta perante o Supremo Tribunal Federal para que se declarassem nulos alguns artigos trazidos ao CPC pela lei 11.232. Pensei, finalmente alguém se insurgiu! Alguém percebeu que a Câmara não fôra ouvida e que, portanto, são inválidos os artigos da lei 11.232 que decorrem de emendas senatoriais…

Mas não. No saite do STF, encontrei a petição inicial da ADIn 3740, apresentada pelo Conselho Federal da OAB. O documento ataca algumas alterações trazidas pela lei 11.232 que, no entendimento da OAB, violam certas garantias relativas a decisões judiciais. Entretanto, nenhuma menção é feita ao descumprimento do trâmite previsto pela Constituição.

Pelo que li até agora e ressalvado o parágrafo acima onde dou interpretação restritiva à expressão “Casa iniciadora”, estou entendendo que o Senado Federal tenha violado o processo legislativo, deixando de submeter à Câmara o projeto de lei que aprovara com emendas. Também estou entendendo que a Câmara tenha comido mosca e que, de dezembro de 2005 até agora, tenham vigorado certos artigos do Código de Processo Civil que não seguiram o processo que lhes daria legitimidade. Em outras palavras: a lei 11.232 é inconstitucional em tudo aquilo que a Câmara não teve oportunidade de apreciar e, portanto, são inconstitucionais alguns artigos atuais do CPC (e não apenas as redações atuais dos artigos 267 e 269) quanto à forma seguida para sua promulgação.

Posso perguntar-me o porquê de tudo isso. Terá sido negligência? Terá sido intencional? Haverá alguma alteração do Senado que não se quisesse potencialmente rejeitada pela Câmara? Não sei. Tudo que sei é que permanece válida a velha máxima sobre as leis e as salsichas, erroneamente atribuída a Bismarck.

Ou não. Quem encontrar falha nas minhas premissas ou no meu raciocínio, por favor, avise-me, que vai me deixar mais tranquilo.

[Apideite do apedeuta em 04/10/2010: aparentemente, isso vem acontecendo direto. Fui fazer uma pesquisa rasteira, andando para trás no tempo, e encontrei a tramitação da lei 12.304/2010, que autoriza o Poder Executivo a criar a Pré-Sal Petróleo S.A. Foi a mesma coisa: depois que saiu da Câmara dos Deputados, o projeto de lei sofreu uma emenda no Senado, ganhou nova redação e foi a sanção sem voltar à Casa de onde saíra. Eu poderia pensar que fosse um grande complô conspiratório para minar a autoridade da Câmara, mas estou mais inclinado a acreditar que seja mera desídia neste país de repassadores, de gente desatenta que não está nem aí pra nada.

Além disso, em debate com uma colega, percebi que não tem jeito, é inconstitucional mesmo. Veja a redação da Constituição, artigo 64, que reproduzi aqui em cima: a iniciativa pode ser do presidente da república, mas o início é mesmo na Câmara dos Deputados.]

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Bad Yahoo!

Ontem, primeiro de abril, o Yahoo! pôs no ar a seguinte desportagem:

http://yahoo.minhavida.com.br/conteudo/11119-Voce-sabe-identificar-quando-alguem-esta-mentindo-para-voce.htm

No final, vem um teste: você consegue identificar um mentiroso? São dez perguntas, cada uma com três opções, e você vai escolhendo a que lhe parecer correta. Assim, por exemplo:

1) Quando conversa com alguém e desconfia do papo, você presta atenção:
a) nos olhos da pessoa.
b) no jeito como ela fala.
c) na forma como ele está sentado.

Respondi às dez perguntas e pedi o resultado. Veio:

É difícil te enganar. Você é capaz de farejar uma mentira a quilômetros de distância. Além de ficar atento aos aspectos físicos, você é capaz de perceber as intenções de quem as conta por seus traços comportamentais.

Quem não gosta de ler isso? Inflaram à beça meu ego!

Só que me dei conta de um detalhe: eles não disseram quantas perguntas eu havia acertado. Então, fiz o teste de novo, e mudei todas as respostas.

DEU O MESMO RESULTADO.

Depois, mudei para a terceira opção de cada pergunta. Mesmo resultado, de novo!

Percebe o que houve? Não é teste coisa nenhuma! O Yahoo! conta com o ego do leitor. Todo o mundo adora se sentir inteligente, capaz, arguto e sagaz. O leitor NUNCA vai desconfiar que o Yahoo! só disse o que disse para puxar seu saco! O que o Yahoo! quer, na verdade, é que seu leitor veja a “credibilidade” do portal, que se sinta paparicado, que queira voltar mais e mais vezes por causa disso.

SÓ MESMO RETARDADOS MENTAIS.

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Casal Nardoni

O título desta postagem é o que Cardoso costuma chamar de Google bait.

A manchete do jornal dizia, enooorme: “FOI FEITA JUSTIÇA”.

Alguém vai lá e explica pro jornalista que sempre seria feita justiça, de um modo ou de outro. Quaisquer que fossem as decisões do júri (condenando ou absolvendo) e do juiz (estabelecendo o quantum da pena), estaria sendo feita justiça. Por definição, justiça é aquilo que eles decidem. É pra isso que existe Poder Judiciário. “Justiça” não é sinônimo de “condenar”.

Outra: “agora você pode descansar em paz, Isabella”. Outro desinformado. Alguém, por favor, vai lá e explica pra esse sujeito, que não sabe p*cas de processo penal, que não acaba aí. Qualquer um que já tenha lido qualquer notícia, sobre qualquer processo penal, sabe que, depois da sentença, ainda cabe recurso. Vocês podem tacar pedra à vontade, dizer que as hipóteses são mais restritas no júri, que o protesto por novo júri foi abolido, podem dizer o que quiserem. A defesa sempre vai entrar com o recurso que quiser, ou até com habeas corpus, e algum tribunal sempre vai ter que, no mínimo, dizer que o recurso não cabe. Mas nunca acaba ali.

Não adianta vir me dizer “ah, mas o jornalista não fez curso de Direito, não é obrigado a saber esses detalhes”. Realmente, não é mesmo. Mas, então, PERGUNTA, P#RRA. Insisto e insisto: SE NÃO SABE, NÃO CHUTA. Não é pra escrever sobre o que não sabe, nem é pra inventar. Advogado taí é pra isso mesmo, pra responder pergunta. Eu, por exemplo, não sou especialista em nada, mas não tem uma palavra que eu escreva aqui cujo significado ignore.

Conheço a tese: tudo é pra ontem, não dá tempo de consultar um especialista, o jornal tem que ir pra gráfica, se possível, ONTEM. Já sei, já sei. É, realmente vai cair o dedo se o sujeito pegar um telefone e ligar prum advogado antes de escrever besteira. Realmente, cinco minutos vão fazer uma diferença enorme para um jornal que leva 24 horas pra ficar pronto.

Ah, é só pra vender jornal mesmo, que se f*da. TNC todo o mundo.

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Capanema, doutores de Coimbra, educação e ideologias

Neste País tropical, abençoado por Deus, onde em fevereiro tem Carnaval e o J. Ben tem uma nêga chamada Teresa (palavras dele, não minhas), temos algumas concepções paternalistas e clientelistas que extraímos desde Roma, passando por Portugal medieval e chegando aos dias de hoje.

Como resultado dessas concepções, nossas elites sempre enviavam seus filhos a se instruírem em Coimbra e a se tornarem “doutores”, mesmo que nunca fossem usar o conhecimento. No período republicano, insuflados pela ilusão de que mobilidade social existe, somos levados a crer que você não é ninguém se não tiver estudo. Bem, não exatamente. Você não é ninguém se não tiver um título. Não faz diferença se domina o assunto ou não.

Então, antes de vir administrar os negócios da família e a compra e venda de escravos, o jovem de tradicional estirpe tinha que ser médico, engenheiro ou advogado. De preferência, advogado, que assim você conhece as fórmulas que obtêm o favor dos deuses. O advogado torna-se uma espécie de pontífice, de sacerdote, com todos os privilégios associados à função. Vêem-se (porque a sociedade os vê) acima dos demais mortais, sabedores dos sortilégios sagrados das artes ocultas, revelados somente a iniciados. Mais ou menos feito os alquimistas.

Com o tempo, a saturação dos mercados e fartas doses de mediocridade, preguiça e hipocrisia, disseminou-se uma noção mais vaga, de que, de qualquer forma, você tem que ter um diploma universitário, qualquer diploma universitário, para conseguir qualquer coisa, para ser alguém, para ter dignidade. Não importa diploma de quê, nem onde. Você acaba forçado a fazer faculdade, mesmo que ìntimamente não queira, porque ninguém te aceita de outro modo. Agora, então, que a Lei de Diretrizes e Bases facilitou a obtenção de diploma para cursos de nível superior em menos de três anos, é como se ninguém mais tivesse desculpa.

Uma noção completamente falaciosa. As pessoas ficam achando que o papel da universidade é servir de curso profissionalizante, como se só houvesse profissões se de nível superior. Algumas viram cursinho para passar em concurso. Chega-se ao absurdo de se supor que todo o mundo tem que ter feito faculdade. Um País de doutores. Sabemos com que qualidade. Sei de doutores que não conseguem soletrar o próprio nome.

Ficam desprezados todos os técnicos, e essa gente esquece que, sem técnicos, não se constrói um país. Não dá pra ter só engenheiro; alguém tem que saber operar no chão de fábrica. Não dá pra ter só cirurgião dentista; alguém tem que saber cuidar do instrumental. O técnico é fundamental.

Mas conhecemos a visão que impera. As pedagogas de voz áspera, aquelas que nunca entraram numa sala de aula mas não deixam de comparecer a um debate na TVE, realmente acreditam que, se você não faz uma faculdade, você automàticamente é um fracassado.

Não há de ser outra a mentalidade que motivou certo artigo que encontrei na Revista de História da Biblioteca Nacional, edição no. 2, de agosto de 2005.

A matéria é uma biografia de Gustavo Capanema em quatro páginas. Já começa por uma ambivalência: na chamada, afirma que Capanema “foi um ministro renovador e idealista”, citando carta de Lúcio Costa que elogia o arrojo do prédio do MEC no Centro do Rio e o atribui à visão do mecenas; mas, poucos parágrafos adiante, esclarece como esse intelectual mineiro chegou a ministro:

Capanema acompanhou os mineiros, quer na fase da campanha eleitoral, quer na da conspiração, tornando-se oficial de gabinete de Maciel, por sinal, seu primo. Vitoriosa a revolução [de 1930], o presidente de Minas foi o único a não ser afastado do cargo pelo chefe do Governo Provisório. Seu oficial de gabinete tornou-se o secretário do Interior e Justiça (…) Campos e Capanema articularam um plano para ‘liquidar’ a liderança do mais poderoso político mineiro, Artur Bernardes (…). Uma briga de cachorro grande (…) que aproximou Vargas de Capanema, pois foi ele que intermediou as sigilosas conversações entre poderes estadual e federal. (…) Maciel morre e Capanema assume, interinamente, o cargo de interventor federal, postulando uma efetivação.

Os grifos são meus. Mas quer dizer: a Autora abre o texto enaltecendo o ministro visionário, mas mostra como ele armou para subir a escada do poder à medida em que se instalava uma ditadura no País.

Já ministro da Educação e Saúde, Capanema estava encarregado de sistematizar o ensino em todo o Brasil. Havia um debate entre correntes leigas e religiosas, entre estatizantes e liberalistas.

Essa discussão se prolongou, sendo interrompida pelo golpe de 1937, que deu ao ministro a liberdade de encaminhar suas propostas conforme as diretrizes autoritárias, nacionalistas e centralizadoras do Estado Novo.

Não é que eu seja fundamentalmente contra o modelo educacional. Provàvelmente ele estava correto, considerando que a geração que foi à escola nos anos 40 não é tão ignorante quanto as posteriores — ressalvado, aí, seu viés por vezes doentio, exageradamente positivista, nacionalista, integralista até; por culpa mais do Estado conformador do que dos próprios alunos. O lance é que, seja que modelo for, não é assim que se implementa. O cara é incensado como gênio da educação, mas parece não ter se pejado em simplesmente mandar cumprir o que achava que estivesse certo. Grande exemplo estava dando.

Bom, mas eu me estendo em digressões. Esse nem era para ter sido o foco principal. O que mais chamou minha atenção foi a seguinte passagem:

a reforma também criou cursos profissionalizantes, voltados para os que não seguiriam carreiras universitárias. Como é fácil perceber, eles se destinavam aos jovens menos abastados, o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública única e de boa qualidade.

Esse trecho está tão errado que nem sei por onde começar. Deixe-me seguir na ordem da leitura.

Primeiro: por que a Autora considera que os cursos profissionalizantes sejam voltados a quem não iria para a faculdade? Veja só que ela escreve por exclusão: “os que não seguiriam carreiras universitárias”. Presume-se que o padrão seja você fazer faculdade e que os demais se definam por não seguirem a regra. O pressuposto é que a universidade seja o certo, o óbvio, e que os refugos vão fazer escola técnica. Como se não houvesse a opção de não fazer universidade; como se não pudesse parar no primeiro ou segundo grau. A escola técnica surge como opção de quem perdeu, de quem é excluído, ráuli.

Segundo: “como é fácil perceber” — fácil para quem, cara-pálida? Há uma certa arrogância no texto: para ela, tudo que for dito depois são verdadeiras obviedades e, em princípio, o Leitor que não concordar tem dificuldade de perceber algo que está na cara.

Terceiro: “eles se destinavam aos jovens menos abastados” — ah, quer dizer então que escola técnica é pra pobre, é isso? Se escolho ser técnico, é porque sou um proletário limitado, emburrecido talvez pelo simples fato de ser pobre e, portanto, incapaz de alcançar um ambiente intelectual mais elevado — é essa a mensagem? Depois do primeiro grau, não convivi mais com gente rica, mas, desde então, já conheci várias pessoas que fizeram escola técnica e que não tinham dificuldade nenhuma de se sustentarem com isso.

Quarto: “o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública única” — hein? Quer dizer que as escolas técnicas não têm como se inserir num sistema de ensino? O Senhor Ministro não sabe onde encaixá-las, elas não se destinam a formar doutores — então, estão fora do sistema unificado, é isso? Estão entregues ao descontrole, estão à margem, é essa a ideia? E o que que eu digo pra quem acabou de entrar no CEFET?

Quinto e talvez pior de todos: “o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública (…) de boa qualidade”. Então, quer dizer que as escolas técnicas são todas ruins, é isso? Só está certo quem seguiu o caminho virtuoso da universidade; todos os demais são desqualificados e, se o curso é técnico, então automàticamente o curso é ruim — é isso? Por que a Autora não diz logo que tinha que acabar com o SENAI e rasgar o diploma de todos os soldadores, mecânicos e técnicos em Radiologia? Será que ela realmente acha que conseguiria sequer ter luz e água encanada em casa sem esse pessoal? O que o texto está dizendo é: “você nunca vai ter educação pública de boa qualidade se continuar formando técnicos”. Vá perguntar o que um russo, o que um alemão acha disso. Vá ver o que estão fazendo na China.

E era aqui que eu queria chegar. Nota-se aí mais uma das manifestações desta nossa ideologia do diploma. A Autora absolutamente despreza quem não tem é doutor em Ciência Política pelo IUPERJ ou pós-doutor pela Sorbonne. Essa é a exata visão da nossa cultura dos bachareis de Coimbra, do grau universitário como único reconhecimento de valor social. Uma cultura de opressão, onde alguns arrotam erudição e “falam difícil” para outros ficarem impressionados e temerosos, ignorando que os primeiros, muitas vezes, são tremendos enroladores que sequer aprenderam o básico das primeiras disciplinas da graduação, quiçá do próprio segundo grau. Uma cultura que não conhece o conceito de accountability (e por isso não tem nome para ele), onde professores titulares não aparecem para dar aula “porque estão acima disso”, onde a ocupação de qualquer sinecura autoriza o alto bradar da pergunta, “você sabe com quem está falando?”

Eu sei. Sei muito bem.

E estou de mau humor. MAU HUMOR COM “U”, PELO AMOR DE NEWTON!

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Pessoa jurídica comete estelionato?

Em 20 de outubro de 2009, fui à loja da Claro na avenida 13 de Maio, no Rio. Queria trocar meus pontos acumulados por um telefone celular. O vendedor Lucas James(*) foi muito solícito. Perguntei-lhe, inúmeras vezes, se havia alguma condição, se eu tinha que pagar alguma coisa, se eu tinha que adquirir algum plano diferente. A resposta foi sempre que não. Saí de lá não com um, mas com dois aparelhos, e ainda deixei um bom saldo na minha contagem de pontos. Senti-me premiado por minha fidelidade (freguês desde 2003, sem atrasar uma conta, porque pobre sempre respeita data de vencimento de conta, nem que seja tirando da comida dos filhos).

Passados três meses, em fevereiro de 2010, vem uma cobrança da Claro: Pacote Fixo 100 minutos + Pacote 50 torpedos, por R$ 54. Telefonei para a Claro e me informaram que, em 20/10/2009, eu  havia sido inscrito nesses pacotes (!!!) e que o Bônus 1200 minutos havia sido ativado. Mandei (e, supostamente, consegui — não sei; vamos ver a próxima fatura) mandei me desinscrever (ou seria “descrever”?) desses pacotes, mas, como o bônus havia sido ativado, não era possível estornar a cobrança. Detalhe: eu nunca fui informado de que haveria bônus. Nem, por óbvio, contratei pacote nenhum.

Mais: o atendente diz que não tem autonomia para estornar. Passa a ligação para quem também não tem, que passa a ligação para o “setor de contas” — e a ligação cai.

Você já reparou como é comum que as ligações caiam quando você liga para fazer reclamação?

Então, liguei de novo. O setor de contas diz que o sistema está indisponível

(já reparou como o sistema está sempre indisponível?)

e que só depois das 23:30 h.

Aliás, o telefone 133, da Anatel, só atende em dias úteis, e só até as 20 horas.

Vou tentar de novo com a Claro. Mas, na primeira oportunidade, vou também à loja da 13 de Maio, ter uma conversa com o gerente que ensinou Lucas James(*) a aplicar golpe nos clientes. Desnecessário dizer que, três meses depois, o gerente é outro. Não que isso faça alguma diferença.

Ainda não desisti, mas tampouco tenho muita esperança. O pior é que eles sabem que eu não vou à Justiça por causa de R$ 54; os gastos de dinheiro, tempo e energia não compensam.

E é assim que eles vão erodindo seu dinheiro: hoje, a Claro me toma R$ 54; outro dia, o cartão de crédito me morde R$ 20; depois, a Oi tunga uns R$ 15; e nessa, em um ano, quanto vai? Quanto já paguei a eles, acumulado até hoje, desde que comecei a trabalhar? Mil, dois mil reais? Quanto tempo até o pombo gastar o planeta inteiro com o roçar da asa?

É frustrante. O dinheiro que a gente economiza — não dá em árvore, sabia?, nem algum tio rico me deixou de herança — eles vêm e tomam; e sabem que você não vai fazer nada, porque, onde não há justiça, não há como recuperar sem perder mais no processo.

Uma lição fica confirmada e é por isso que há tanto tempo a pratico: não aceito nada. Não aceito nenhuma promoção. Toda vez que me ligam oferecendo algum plano, algum benefício, alguma vantagem, minha resposta é sempre não. Se fosse bom para mim, eles não ofereciam; eu é que teria que descobrir. Se eles estão oferecendo, é que é bom pra eles. Outro dia, a Oi me ligou oferecendo um maravilhoso plano para ligações internacionais; eu só teria que aderir, pagar um nada irrisório, e teria ligações internacionais gratuitas. Minha resposta foi não. É óbvio que, na letrinha miúda, a promoção só seria válida entre 02:30 e 03:30 da manhã e que as tarifas da Oi e da Embratel, somadas, viriam acima do dobro do normal.

Nem tenho escrúpulos em maltratar telemarqueteiros enviados pelo Diabo. Antigamente, eu me divertia à custa deles, até que fui censurado por pessoas próximas, que diziam, “coitados, eles não têm escolha”, “só conseguiram esse emprego, e a vida é dura”. Por causa disso, parei de escarnecer deles por um tempo, limitando-me a dizer que não estava interessado.

Só que é o seguinte: respeito é uma via de mão dupla. Eles telefonam quando estou dormindo, eles ocupam a linha quando estou esperando ligação, eles insistem, eles teimam, eles me afrontam (“mas por que o senhor não quer o plano?”) como se eu lhes devesse alguma coisa. E eles se recusam a ir embora. Então, pombas, vou devolver na mesma moeda. Já tive que me sujeitar a muito capricho de gente mais burra do que eu, ainda vivo me frustrando com gente inepta que se esconde atrás de “procedimentos administrativos” para não responder pela própria ignorância, e não estou sendo pago para ter paciência. Então, não vou mais me incomodar em ser grosseiro com essa gente. Estudassem mais e escolhessem outro emprego, porque, nesse, eles ganham a vida infernizando os outros e sabendo disso. Natural, portanto, que um dos riscos ocupacionais seja ouvir desaforo. Não tenho que ser gentilzinho, “meu tempo é precioso”.

Assim foi que, em ocasião mais recente, novamente a Oi me ligou oferecendo um plano para eu pagar menos. E perguntou quanto eu pagava atualmente. Tive que pular na oportunidade:

— Peraí, peraí, peraí. Você trabalha na Oi.

— Trabalho.

— E você não sabe quanto eu pago à Oi.

— Se o senhor quiser, eu posso puxar sua fatura.

— Não, não, não precisa: eu sei quanto pago. Só que — como é que você pode saber que eu vou pagar menos com sua oferta se não sabe quanto eu pago? [Teòricamente é possível, só que ela não sabe disso.] Aliás, como é que você liga pra mim, pra me oferecer qualquer coisa, sem saber quem sou eu ou qual é meu perfil de cliente? Pra mim, isso é negligência, isso é falta de cuidado, isso mostra que você não está nem aí, que pra você eu sou só um número, não um cliente de carne e osso. Você tem muita sorte de eu não ser seu supervisor, porque, se fosse, você já tinha sido demitida.

Foi por aí a conversa. Isso que coloquei acima é só um resumo. Amigo meu me conta que já foi responsável por call center e que esse tipo de ligação costuma ser usado em treinamento. Se for verdade, eu infelizmente estou mais ajudando essas empresas do que outra coisa. Mas vou te contar, do alto do meu recalque e mesquinharia, ajuda a descarregar a tensão. Eu pràticamente me senti um ator, desempenhando um personagem, com a vantagem adicional de ser mais barato do que pagar médico para me curar da neurastenia.

… Ou, como diz esse mesmo amigo: TNC todo mundo. Se o mundo está assim, quero mais é que se acabe mesmo, e o mar suba e engula todos os call centers e suas maldosas criaturas das trevas. Pra assistir a isso, pago até ingresso.

(*) Lucas James não é seu nome real. Não criei este belogue para ser processado por difamação, embora seja tudo verdade e ele se tenha, sim, configurado como um estelionatário capaz de qualquer pilantragem para ganhar comissão. Entretanto, se você tiver bom conhecimento de latim, descobrirá o verdadeiro nome desse leprechaun traiçoeiro. Mais não direi.

Rastros no céu

Acordei ontem de manhã e vi este cenário:

Chamem os bombeiros!

É preciso entender que eu ainda não havia completado o boot do cérebro. Quando vi a contrail da esquerda, pensei em aviões no céu. Quando olhei a coluna de vapor da direita, pensei que fosse uma coluna de fumaça e pensei, “c@#$%&o, caiu um avião na Tijuca”. Aí vi de novo a contrail da esquerda e percebi que a da direita era outra, que o vento já estava dissipando.

EOF

Quase um twit

Alvejante é uma substância que você ingere para melhorar sua pontaria.

***
Fui ao oftalmologista ontem. Durante o atendimento, entrou uma assistente dele:

— Doutor, a Fulana já está preparada para o procedimento. Está esperando há meia hora e já está bastante dilatada. O Dr. Sicrano pergunta se já pode ir começando.

— Pode, eu não demoro. Daqui a uns dez minutos eu acabo aqui. Diz a ele que eu já vou lá.

Depois que ela saiu, eu disse a ele: um ouvido menos atento pensaria que o Sr. fosse obstetra.

***
Então, a julgar pelo que vejo na Web, parece que a moça do vestido já apareceu chorando em foto posada pro jornal, está na capa da Istoé e vai aparecer no Casseta e Planeta. Não dou quinze dias para ler o anúncio de que é a próxima capa da Playboy.

Estou convicto de que TUDO isso foi cuidadosamente arquitetado por ela. Estou igualmente convicto de que deu uma grana para os primeiros começarem a gritar. Quando essa história tiver rendido bastante, vão perceber que ganharam pouco. Ninguém me convence do contrário.

***
Ainda no teste de nerdidade:
21.  …usando outros princípios? (começando de uma equação diferente da que o texto usou) — Acho que sim.
22. Você toma notas em mais de uma cor? — Hoje em dia, não.
23. Você usa outros instrumentos ao tomar notas? (régua, compasso, transferidor) — Não.
24. Você já orientou alguém? — Não.
25. Você já fez dever de casa na sexta-feira à noite? — Já.

Até agora, 18/25.

***
… e ainda estou lhes devendo uma arrumação deste belogue.

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Winston Smith, O’Brien e Miniluv

Está no noticiário dos últimos dias: o cientista e PhD americano David Nozette, 52 anos, trabalhou de 1989 a 2006 em projetos do mais alto interesse estratégico para seu país. Teve farto acesso a informação da mais alta sensibilidade, top secret etc e tal: inteligência de comunicações, sistemas de vigilância, defesas contra ataque nuclear, projeto de armas avançadas (nucleares inclusive), satélites de espionagem, you name it. Aí, foi pego pelo FBI tentando vender informação a uma pessoa que ele acreditava ser um membro da inteligência israelense.

O que os saites de notícias não estão dizendo, mas o próprio FBI está, é que, aparentemente, o Estado de Israel, mesmo, não esteve envolvido. Um agente do FBI apresentou-se a Nozette em setembro como sendo integrante do Mossad e, ao longo de poucos dias, valeu-se do correio para lhe enviar pelo menos dois questionários, que Nozette preencheu com informação privilegiadíssima, top secret mesmo, só com base no que guardara de cabeça. Também lhe pagaram US$ 11,000. Nozette afirmou ao agente que, embora já não tivesse acesso a vários documentos, ainda tinha muita informação na cabeça e estava disposto a vendê-la. As idas de Nozette ao correio foram filmadas, até que, em 16 de outubro, ele foi preso e está sendo acusado de tentativa de espionagem. A pena máxima é perpétua.

Agora, observe só. O Estado teve todo o controle da situação neste caso. Foi o próprio FBI que propôs o cometimento de todos os atos, que dirigiu a conduta de Nozette, que o estimulou e instruiu. Era impossível que Nozette efetivamente cometesse crime, porque não tinha como a informação chegar a Israel. Se o crime era impossível, então ele não estava tentando algo que, ao final, pudesse chegar a ser um crime consumado; não houve nem haveria prejuízo para seu país.

No Brasil, o Código Penal define a tentativa de cometer crime:

“Art. 14. Diz-se o crime: (…)
“II – tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente.”

Vejam que a execução não se iniciou, porque o que se iniciou não foi um crime, mas um simulacro, um teatrinho, um arremedo, supervisionado e controlado pelo Estado, onde Nozette era um hamster na gaiola. Então, não há que se falar em sequer punir a tentativa.

No Brasil, flagrante armado não vale, porque o próprio Estado provocou a conduta imoral do sujeito: ele fez, mas o Estado fez primeiro. Se o Estado foi maligno, não pode vir alegar que o sujeito também foi. Ou, em u’a máxima que se usa mais no Direito civil que no penal, “a ninguém aproveita sua própria torpeza” (em língua de poetas mortos, nemo turpitudinem alegans).

(O flagrante armado é diferente do flagrante esperado. Neste último, é o próprio criminoso quem tem a iniciativa, e você só fica de tocaia, à espera de que ele faça o que vai fazer mesmo, sem estímulo. Aí, não partiu do Estado.)

Incidentes como esse fazem-me pensar, obòviamente, em 1984, de Orwell. Onde, aliás, tem uma situação igualzinha, onde um agente bem graúdo do Estado (Inner Party) induz o protagonista Winston Smith a crer que está vindo fazer parte de uma conspiração, quando, na verdade, era tudo armado para se criar nele uma culpa, seguida de inquisição e correção.

A conclusão é em duas partes. Primeira: é verdade o que diz a nota do FBI? Resposta: não sei, mas vou presumir que sim, porque a narrativa faz com que ele mesmo fique mal na fita. Segunda: pode fazer isso? é Nozette culpado? Não, não pode, e não, não é. Porque o Estado criou toda a situção do nada.

Sei que já concluí, mas deixe-me complementar. Considere o seguinte. Se não fosse o FBI provocando, Nozette não ia fazer nada; ia continuar cuidando de sua vida. Poderá ser que o FBI tivesse suspeitas de que ele estivesse a ponto de se envolver com espionagem, mas não estamos na época de Minority Report: só poderia punir o crime efetivamente cometido, não o desejo seminal ou sonho louco de um sujeito potencialmente corruptível. Passados tantos séculos após a Inquisição Espanhola, hoje em dia já não se punem desejos e ânimos, mas somente atos efetivamente praticados. Então, não tem essa de “ah, mas ele era mau, ia cometer mesmo”. Nana nina não: nada de punir pensamentos. Eu mesmo tenho inúmeras idéias condenáveis (especialmente a de descumprir a nova ortografia em vez de escrever “ideias”), mas, do crânio para dentro, ali está meu âmbito de última defesa, meu forte inexpugnável, onde o Estado não pode invadir. O âmbito de punição possível começa na superfície da minha pele.

É de se pensar por que o FBI fez isso. Pode ser simples queima de arquivo, “ele sabia demais”. Pense bem: não é o que você faria? Se o sujeito é PhD, inteligente pra burro, dono de ótima memória e com acesso a tudo, é de se presumir que, depois de dezessete anos, ele já soubesse MUITA coisa e se tivesse tornado um perigo ambulante. O que os Estados Unidos fizeram foi ganhar a corrida contra os israelenses, iranianos e incas venusianos, prendendo Nozette antes que eles lhe pusessem a mão.

Então, é pura tirania mesmo: o Estado aprisionando seus súditos sem justa causa. Sem dúvida, isso atende a interesses bastante legítimos de segurança nacional, mas utiliza meios indignos de um Estado democrático de Direito. Viola valores democráticos fundamentais, põe o Estado acima do indivíduo e fere o interesse público. Não que os Estados Unidos sejam os únicos a fazerem isso (o Brasil faz muito), mas é que sempre são os primeiros a bater no peito, falando de democracia…

Como diz minha sogra: dime lo que te presumes y te diré lo que te falta.

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Find the One

Na minha caixa de correio, todo dia encontro um spam intitulado “Find the One”.

Tem um episódio de Babylon 5 chamado “Babylon Squared”, onde o alienígena Zathras tem uma importante missão mas, primeiro, precisa encontrar “the One”. Cada um que aparece na sua frente ele examina e conclui, “not the One”.

Se eu fosse ele, procurava em Matrix. De qualquer modo, ele não deve estar prestando muita atenção, porque, como se pode ver pelas mensagens que recebo, tem até gente anunciando onde encontrar the One.

Ou isso, ou estou recebendo essas mensagens do mesmo endereço que me manda “Daters Wanted”.

Prosseguindo no teste de nerdidade:

6. … em nível superior? — Sim.
7. … e recebeu uma nota A? (Novamente traduzo como 7,5 ou acima.) — Sim.
8. Você ainda é capaz de fazer o que aprendeu no curso de #5? — Sim.
9. Você já se graduou nas “ciências duras”? (Engenharia, Física, Química etc. mas excluindo Psicologia, Economia etc.) — Já.
10. Você já estudou Latim? — Não.

Até agora, 9/10.

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O spam nosso de cada dia

Os caras realmente acham que eu vou cair. Mas o mais incrível não é isso. O mais incrível é que tem gente que realmente cai. Bem diz o ditado: “fools and their money are soon parted”.

Quer saber? Quem clicar, é bem feito. A Internet não é para as salsinhas. Se o analfabeto funcional não tem capacidade de amarrar sapato, escovar dente ou pontuar frase (não necessariamente nessa ordem), então não tinha nada que se meter na Internet, e está certíssimo que seu computador seja infectado.

Veja só o que recebi hoje.

ABRASPAS

Procedimento Investigatorio Nº 2009.00.17126-3

Prezado usuario,

Com ajuda de seu CPF e junto com seu provedor de e-mail, viemos por meio deste lhe informar que o seu CPF esta sendo usado em varias compras On-Line fraudulentas, por favor, clique no link abaixo e veja em quais locais foram feitas as compras e os valores. Caso voce nao seja o(a) responsavel, pedimos que nos preencha o formulario afim de que possamos tomar as atitudes necessarias por tais compras.

Formulario:

(cortei o URL)

FECHASPAS

O URL era ministeriopublico ponto ORG ponto br. Passando o mouse em cima, você vê que o linque vai para um saite obscuro com final ponto net.

Então, vem cá. Qual é meu CPF? Hein? O texto não diz, o que significa que é um texto genérico, que vale para qualquer um. Tudo bem, porque eu NUNCA tenho que informar CPF em compras online. E como é que meu provedor de email (o Yahoo!) vai informar que meu CPF está sendo usado em compras online, se meu provedor de email NÃO SABE meu CPF? Aliás, como assim o Yahoo! colaborou com o MP? A sede é fora do Brasil!

E tem aquela questãozinha básica: nossos analfabetos nunca foram à escola e, se tivessem ido, a escola não lhes teria ensinado que o Ministério Público não é defensor de seu CPF nem sucedâneo de operadora de cartão de crédito. Se tem uma coisa que o órgão não vai fazer, é investigar por você e trazer um retorno, mostrando onde houve a fraude, apresentando formulário e dizendo que vai fazer tudo por você — de um modo tal que você não precisa se mexer, não precisa levantar da poltrona, basta clicar e ele fará tudo por você, patricinha entitled (BAxt, foi mal o furto da expressão).

Aliás, isso é jeito de o MP se manifestar? “Tomar as atitudes necessarias”? Vamos abstrair do fato de o texto estar todo  sem acento. “Tomar atitude”? Isso é jeito de procurador escrever? Pobre é quem diz que o presidente tem que tomar uma atitude. Atitude, pra mim, é marca de cachaça. Ou, como diria o Catarro Verde (linque aí ao lado), atitude de c* é r*la.

E que “atitude” é essa? Hein? Procedimento investigatório? Ação penal? O texto não diz. Eu vou clicar para o MP fazer o que é necessário, só não sei o que é, mas deixe, que eles são responsáveis; eles que saibam as consequências, eu não.

Ah, sim, antes que eu esqueça: alguma vez algum órgão público mandou EMAIL para você? A mim nunca! Quando o Estado quer falar comigo, sempre manda correio físico. Assim é obrigado a fazer.

Essa fraude, como tantas, está se aproveitando da preguiça alheia. É tão fácil, né? Você só clica e deixa que outros façam o trabalho todo por você. Veja bem, supostamente é a sua vida, então você mesmo teria que tomar as providências (aliás, Providência é outra marca de cachaça), mas não: tem quem faça, então pra quê? Muito melhor do que ir à delegacia, tirar segunda via, mandar carta para a operadora do cartão, perder uma tarde na fila, ter que faltar ao trabalho… Fique no ar condicionado mesmo… NOT!

Reclame à vontade, mas acho que esse golpe é justo. De vez em quando recebo uma variação dele: já recebi do “Ministério Público da Justiça”, já recebi do Tribunal Superior Eleitoral falando em problema com CPF… Até hoje não caí, mas, se cair, terá sido justo. (Se bem que não vai adiantar nada, porque não digito senha de banco no computador.)

Apideite: os saites do MPU e da Rede Nacional de Pesquisa têm advertências sobre essa exata fraude, com esse exato texto. E, buscando no Google pelo número do “procedimento”, dei-me conta de que o mesmo número já aparecia na versão antiga, emitida pelo (inexistente) “Ministério Público da Justiça”.

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Profecias para 2010

Vou te contar, meu. A quantidade de paraquedistas (agora é sem hífen?) que aparecem por aqui procurando por “profecias para 2010” no Google não está no gibi. Veja bem, este é um belogue pequeno, não passa de quinze visitas por dia, mas, todo dia, tem pelo menos um procurando profecias para 2010.

Caraca. Esse povo tá precisando ler O mundo assombrado pelos demônios, do Carl Sagan. Parar de acreditar em trambiqueiros e estelionatários de modo geral.

***
ONTEM FEZ SETENTA ANOS QUE COMEÇOU A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL. Não vi NEM UM comentário na Internet sobre isso.

Verdade que não tenho navegado muito também. Mas, se você quiser ser lembrado de algumas estatísticas, taqui.

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Compre o CD e leve 100 kg de papel

Esta história aconteceu a uma bibliotecária que conheço. Ela tem uma coleção completa da enciclopédia Barsa, que é maravilhosa mas ocupa vinte volumes daquele tamanho. Como o espaço em casa é pouco, ela procurou a Barsa em CD, para substituir mesmo. Foi a uma feira sobre bibliotecas, onde encontrou a vendedora.

Pois acontece que existe. De acordo com a vendedora, o CD vem de brinde na compra de uma Barsa completa em vinte volumes.

Mas, vem cá — pergunta a Bibliotecária Sem Espaço em Casa –, não dá pra eu levar só o CD? Diz a vendedora que não: você só leva o CD se comprar tudo mesmo, o que, aliás, custa um número de quatro algarismos.

E aí vem a pérola: a vendedora explicou que a editora tem o propósito de estimular as crianças à leitura e é por isso que não vende o CD separadamente.

Arrã. Estimular as crianças à leitura. As crianças vão ler uma ENCICLOPÉDIA, ainda mais uma sisuda feito a Barsa, que tem letra miúda e pouca figura, e vão passar a gostar de ler.

Aliás, pára. Antes de a criança ser afastada da leitura pela Barsa, primeiro ela teria que PEGAR a Barsa pra ler, o que já não vai acontecer. Aliás, antes de pegar a Barsa pra ler, os pais teriam que comprar pra ela, o que não aconteceria NEM se só custasse um reau. Vinte volumes? Sem figura?

Aí: temos uma novidade no linguajar da editora. “Encalhe de exemplares que ninguém mais compra” virou “estímulo à leitura”.

TNC todo o mundo.

Charlatanismo rampante

Vi o linque. Desconfiei que fosse charlatanismo, então cliquei para ver qual era a novel forma de enganar o público.

Vim parar aqui. Parece a história de sucesso de uma dona-de-casa americana típica, que teria conseguido perder 21 kg sem regime nem ginástica.

Só comendo açaí.

Ela começa dizendo não ser uma celebridade, mas minha desconfiança começou a se transformar em certeza quando vi que o texto ficava promovendo a Oprah e o Dr. Oz, usando a credibilidade de figuras que vendem MUITA credibilidade às donas-de-casa americanas e falando das maravilhas de uma frutinha que, para eles, é exótica. Santo de casa não faz milagre; portanto, para muitas americanas, seria garantido que a frutinha da Amazônia traria a receita extraterrestre para resolver todos os problemas de emagrecimento. Uma espécie de velho da montanha, só que em cápsulas.

Prosseguindo na descrição, detectei a lorota da “parede de gordura velha grudada no intestino”. É um velho truque dos charlatas do emagrecimento: eles te fazem engolir uma cápsula que, na verdade, contém uma espécie de massinha, dizendo que é remédio para purgar as gorduras velhas, toxinas, venenos etc. Dentro do seu corpo, a massinha absorve água, molda-se ao intestino e multiplica enormemente seu volume. Você acaba ca*ando esse negócio e acha que é mesmo uma substância que estava dentro de você fazia anos e que só agora está sendo expulsa, pelo “remédio”.

Pensei em entrar na caixa de comentários e denunciar a mentira do açaí. Foi aí que vi os comentários desabilitados. E a nota de copyright de uma empresa, não de uma pessoa física. E um linque para o belogue de Rachael Ray — esta, sim, celebridade no padrão Oprah. E também notei que o “belogue” só tinha esta entrada, de 2008, e mais nada.

Entrei no “belogue de Rachael Ray”. Idêntico, também tinha só esta entrada, texto igual, arranjo visual igual, mesmas cores, exceto que o texto não se dizia escrito por “Jenny Thompson”, mas por “Alyssa Johnson from Duque De Caxias, 21”.

Uma soccer mom americana de Duque de Caxias??? Ah, sim: aos 21 anos ela tem um filho de TREZE??? O que estão pondo na comida dessas meninas hoje em dia?

Bom. O último comprimido de anfetamina A gota d’água foi este detalhezinho no canto superior esquerdo: “Note: expiring on Fri, Aug. 14, 2009”. Estou digitando isto na sexta, 14 de agosto. Se você está lendo em outro dia, veja lá se a oferta não expira no dia em que está lendo, ou no dia seguinte.

Não sei. Certos websites, dá vontade de chamar a polícia. Exceto que não é crime, nem eu sei em que Estado publicaram.

Apidêite: testei. Agora Alyssa é de Niterói, mas ainda tem 21 anos e é casada há quinze. Já que agora é sábado, 15, a oferta vai só até domingo, 16. Aí: é muito Polishop, né não? “Mas espere! Você ainda leva este descascador de banana, inteiramente grátis!”

Visitas recentes:
http://news.yahoo.com/s/ap/20090808/ap_on_re_us/us_wrong_way_crash
http://news.yahoo.com/s/ap/20090808/ap_on_re_mi_ea/ml_iran_election
http://www.youtube.com/watch?v=Shti4brylgw&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=YVIHn5GdWhI&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=0Kgusd1rN6E&feature=related
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http://www.youtube.com/watch?v=WRfDsSnLtE4&feature=related
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http://www.youtube.com/watch?v=GGoSCX9V4fo&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=HmIkH1-ehKc&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=xz8fOZxIdVg&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=Q6l1rwQJjYg&feature=related (USS Forrestal, part 1)
http://www.youtube.com/watch?v=_MVXRng2VCc&NR=1 (part 2)
http://www.youtube.com/watch?v=UuTq6d51JfY&feature=related (part 3)
http://www.youtube.com/watch?v=hvZH7wtzY_Q&NR=1 (pt 4)
http://www.youtube.com/watch?v=iK7RGpSlJ7Y&NR=1 (pt 5)
http://www.youtube.com/watch?v=vYAWrkvyYdc&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=SAhWU19etQM&feature=related (Tu-22M3)
http://www.patricksaviation.com/videos/Caribougnal/1694/ (Rio, 1967)
http://www.patricksaviation.com/videos/Guest/503/ (A-4 da MB)
http://mundofox.com.br?bcpid=5830441001&bctid=8364530001 (Family Guy) (uma das continuações diz que estão levando o prisioneiro para o bloco 1138, referência ao primeiro filme de George Lucas, THX 1138)
http://www.camigoestonorway.blogspot.com/

http://xkcd.com/123/ — sugestão da Pacamanca. E o mais engraçado é que o diálogo está 100% correto do ponto de vista da Física. Realmente, as forças centrífugas não existem nos referenciais inerciais, mas apenas nos referenciais em rotação, tal como explicado pelo vilão. Muito bom.

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De censuras e pretextos

Veja bem. Tal como todo o mundo, entendo que todo político é corrupto, safado etc. Tal como todo o mundo, “fora, Sarney” etc. Tal como todo o mundo, estou entendendo que nosso querido presidente do Senado dá um espetáculo de truculência e falta de sutileza típico dos políticos do Norte e Nordeste deste amado Zilzilzil, coronéis que sabem que ninguém tem peito de enfrentá-los e vão fazendo na cara de todo o mundo.

Aí, você lê esta notícia e fica pensando, “é um absurdo, o juiz tá comprado, é um ataque à liberdade de imprensa, é censura, é ditadura, abaixo Sarney”…

E eu digo, calmaí. Pode até ser um absurdo, pode ser um ataque à liberdade de imprensa, censura e ditadura, tudo isso. Pode ser. Mas observe dois detalhes.

1) Você leu os autos do processo? Leu os exatos termos da decisão judicial? Sabe o que exatamente foi deferido pelo juiz? Nem eu. Não considero prudente falar mal de uma decisão judicial sem, primeiro, saber que decisão foi essa.

2) A notícia veio pelo próprio Estado de São Paulo. Então, em princípio, está maculada pelo interesse do jornal, sem a isenção que se espera da imprensa. Em princípio, pode estar manipulada e não necessàriamente os fatos são esses que estão noticiados.

É claro que pode ser que o jornal tenha razão. Só pedi calma. Apure e leia antes de julgar, que, ùltimamente, a imprensa anda muito perigosa em matéria de política. Aliás, sempre foi.

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Visitas recentes:
http://br.noticias.yahoo.com/s/10062009/48/entretenimento-gostar-rock-progressivo.html
http://news.yahoo.com/s/ap/20090724/ap_on_sc/eu_sci_spain_giant_telescope
http://cynthiasemiramis.org/
(em particular, http://cynthiasemiramis.org/?p=70)
http://aqueladeborah.wordpress.com/2008/11/14/depilar/

http://aqueladeborah.wordpress.com/2009/07/08/voce-sem-deus-nao-e-nada/ (muito, muito parecido com o texto que estou há meses pensando em escrever. Mas ainda não é o mesmo texto, só concorda com ele)

http://www.idelberavelar.com/archives/2009/07/cinco_truismos_que_querem_silenciar_o_debate.php
http://marjorierodrigues.wordpress.com/2009/05/11/da-frase-que-mais-me-irrita-nessa-vida/
http://viagemaleatoria.wordpress.com/2009/05/11/gosto-se-discute/
http://myamazingfact.blogspot.com/2009_01_01_archive.html
http://www.howcast.com
http://www.youtube.com/watch?v=ElGksWAbo1s&feature=relatedStar Trek 2009: my action figures version (SENSACIONAL)

http://oubarbarie.blogspot.com/2009/06/aquilo-ali-e-homem-ou-mulher.html
http://dehreloaded.blogspot.com/2009/02/conversa-de-muie.html
http://news.yahoo.com/s/ap/20090802/ap_on_go_ca_st_pe/us_gulf_war_missing_pilot
http://news.yahoo.com/s/ap/20090802/ap_on_re_ca/cn_canada_helicopter_drugs
http://news.yahoo.com/s/ap/20090731/ap_on_re_ca/cn_canada_arctic_sovereignty_2
http://news.yahoo.com/s/ap/20090802/ap_on_re_us/us_idaho_aryan_stain
http://static.panoramio.com/photos/original/1686344.jpg — uma foto duca
http://www.youtube.com/watch?v=cTgJQRYAK24&feature=related — Bolsa-Família, vinte anos atrás
http://www.youtube.com/watch?v=URkuG0_unbA&feature=related — Birth Control!!
http://pae-dc.blogspot.com/2009/04/star-trek-serie-classica-onde-nenhum.html
http://www.youtube.com/watch?v=4VBxd9n1dSU (Firth of Fifth no teclado)
http://www.youtube.com/watch?v=8t83PL5Z8Gg&feature=related (Firth of Fifth no violão)
http://www.youtube.com/watch?v=MVAfxY10Ev0&feature=related (Time Table no violão)
http://www.youtube.com/watch?v=i2hGJF07BGE&feature=related (In the Cage no violão)
http://www.youtube.com/watch?v=XEEJqE2pe7I&feature=related (Cinema Show intro no violão)

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Voo AF 447 – relatório interino

Sugestão: ignore os jornais. Os jornais dizem muita bobagem. Chutam, inventam, manipulam.

Vá à fonte. Saiu o relatório do Escritório de Investigações e Análises (BEA: Bureau d’Enquêtes et d’Analyses) sobre o acidente do Airbus 330 da Air France ocorrido em primeiro de junho.

Não estou dizendo que o relatório seja perfeito. Vão dizer que ele é político, que é viciado, vão dizer um monte de coisas. Pode ser. Mas tem dois detalhezinhos para os quais eu gostaria de chamar sua atenção.

1) O relatório é técnico. O jornal não é técnico.

2) O relatório é a fonte primária. O jornal vai citar o relatório, vai dizer que o relatório disse tal e tal coisa, mas você só vai saber o que o relatório disse quando ler o próprio.

Taqui os linques para o relatório em francês e em inglês. Um com 128 páginas, o outro com 72.

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Em uma nota não relacionada, comecei a ler Green Lantern: Ganthet’s Tale, de Larry Niven e John Byrne. Eu conhecia a fama dessa graphic novel de 1992, que é muito elogiada como um ponto de vista original trazido por seu escritor aos quadrinhos da DC. Aliás, Niven já era bastante celebrado como o Autor de Ringworld e das histórias das guerras contra os Kzinti. (Vivo confundindo Ringworld com Discworld, do também elogiado Terry Pratchett. Se tivesse lido algum dos dois, isso não aconteceria.)

A grata surpresa foi, ao abrir o livro, reconhecer o traço de Byrne, que eu não sabia que o havia desenhado. Não só foi uma surpresa como me fez pensar em como evoluiu minha percepção do talento desse inglês. É que, quando vi os desenhos dele pela primeira vez há alguns anos, não gostei: eram muito simples e as expressões faciais, sempre dramáticas. Com o tempo, passei a apreciar justamente a simplicidade, junto com o vigor e o caráter dramático das expressões não faciais, mas corporais. De suas obras, talvez o exemplo mais famoso entre os quadrinhos da DC esteja no clássico Man of Steel, que foi o reboot do Super-homem em 1986.

Vou acabar de ler Ganthet’s Tale e, se for bom mesmo e eu estiver com saco, virei resenhar aqui.

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O velho truque do desaparecimento

Òbviamente, você sabe, a esta hora Michael Jackson está na mesma ilha remota do Pacífico onde moram Elvis Presley, John Kennedy, Adolf Hitler e Greta Garbo, tomando prosecco e rindo de todos nós.

A Morte Lhe Cai Bem, com Isabella Rossellini

A Morte Lhe Cai Bem, com Isabella Rossellini

Enquanto isso, quem deu mó azar foi Farrah Fawcett: morreu justamente na véspera (ou no mesmo dia, de manhã, não sei bem). Consequência (agora sem trema): ninguém vai lembrar que ela morreu. Ele ganhará especiais e retrospectivas, ela não. Pois que conste aqui: Mulher Biônica, As Panteras e Encontro Fatal, com Larry Hagman.

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Balok era apenas um baixinho

(O título acima é para quem viu o episódio “The Corbomite Maneuver”. Não vou explicar.)

Quando eu estudava inglês no colégio e no curso, uma das coisas que vi, mais de uma vez até, foi como escrever cartas comerciais. Era uma redação toda formal, com o endereço do destinatário no canto superior direito, local e data, e abria com “Dear Sir or Madam,” Tinha que ser uma gramática toda castiça, com os tempos verbais bem cuidados e um fecho impecável: “I look forward to your reply. Yours truly, Fulano”.

Hoje negocio contratos internacionais, a maioria dos quais em inglês. Muitas vezes sou eu que abro as negociações, então sigo direitinho as instruções da Dona Nara, da Carmen Lúcia, da Dona Míria, do Quaresma e do Mr. Perry. “Dear Sir”, “Dear Mr. Sobrenome”, e vários had nots e would haves.

No início, as respostas me surpreendiam: ingleses e americanos mostravam uma total ausência de formalismo, preferindo ser chamados pelo primeiro nome (ou até abreviações: Ted, Chris). O vocabulário era totalmente coloquial. Os tempos verbais eram contraídos sem apóstrofo! I hadnt seen it, por exemplo. Ainda é assim, mas ainda não me habituei, mesmo após dois anos fazendo isso.

Então me lembrei de um detalhe: todos aqueles livros e professores estavam me contando sua versão acadêmica, sem exemplos extraídos do mundo real. Eu treinava e fazia provas, sempre com base no que tinha sido dado em sala de aula, sem verificação da realidade: será que realmente se escrevia carta assim? Ou isso era só o que *a escola* queria me fazer crer?

Duas hipóteses se candidatam a explicar o fenômeno. Uma é que primitivamente fosse assim mesmo e os livros tenham ficado desatualizados. Afinal, a vida se acelerou e já não escrevemos com o cuidado de nossos avós, que trabalhavam em estruturas fortemente hierarquizadas e cujos contratos tinham que vir em papel, a mão ou a máquina. Você tinha mais tempo elaborando uma carta e podia se dar ao luxo das firulas.

A outra hipótese é que nós, alunos latrino-americanos, tenhamos sido enganados por nosso paternalismo clientelista e pela falta de autoestima que lhe vem atrelada. O sinhô é sempre uma ameaça imprevisível, uma espécie de senhor de terras no feudo onde somos servos, a quem devemos homenagens pela simples diferença de status social, independentemente do interesse ou da posição das partes na negociação. Presume-se que o gringo seja mais respeitável, mais refinado, e que não dependa de nós para nada, de modo que tememos ofendê-lo, nós que desejamos os espelhos e miçangas que ele nos traz de outro mundo. Então nos desdobramos em rapapés e salamaleques.

A convivência me mostrou que eles erram, sim, que se confundem, que não são mais inteligentes e que deixam de usar s depois de apóstrofo só porque a palavra anterior também termina com s. De nosso lado, ainda temos uma força de trabalho analfabeta e desqualificada, de modo que o Gringo continua em vantagem. Mas não é um poder intrínseco nem sobrenatural que ele tenha. Talvez as veias da América Latina não estejam tanto para Galeano quanto para Galeno, que descobriu que somos todos feitos da mesma carne.

Superaquecimento da credulidade

Hoje, cerca das 09:00 h, houve incêndio no Metrô do Rio de Janeiro. Eu estava lá: a estação Saenz Peña ficou cheia de fumaça e de um cheiro forte de borracha queimada. Que eu saiba, não houve feridos. Infelizmente, tampouco há evidência de que o Metrô tenha reembolsado o dinheiro de quem já havia pago, estava dentro do trem e teve que evacuá-lo. Confusão, incerteza e seguranças (?) desorientados.

Lápelas 10:50 h, li no Globo On e no Extra que, segundo o Metrô, houvera superaquecimento dos trilhos e que, por precaução, evacuaram tudo e levaram o trem para manutenção.

Essa é a versão oficial. O jornal não apresentou outra, e duvido que apresente, porque o que mais se vê hoje em dia é jornal repassando versão oficial, sem investigar nada.

Então, deixe-me trazer um pouquinho de contraditório. Oquei, não sou especialista em ferrovia nem em metrô. Mas sou engenheiro mecânico. Até onde sei, trilho só “superaquece” se houver um trem freando em cima, contìnuamente. De resto, trilho fica lá, parado. Se houver apenas trens passando por cima, contìnuamente, trilho só aquece um pouco. Se houver trem parado em cima, trilho não aquece.

Como não tinha trem freando em cima do trilho, resta investigar outra causa possível para um “superaquecimento”. A única hipótese que me ocorre é um curto-circuito: algum cabo que não deveria estar em contato com o trilho tenha, afinal, fechado contato e deixado passar aquela corrente suave que tira uma composição do lugar.

Outra possibilidade é, para mim, muito mais plausível: o Metrô teria simplesmente MENTIDO para o público, mascarando um incêndio com um improvável (quiçá impossível) “superaquecimento de trilhos”. Escolha sua hipótese.

Isso me lembra a bronca que dei numa colega outro dia: acreditava na versão oficial divulgada pelo saite de uma empresa, sem questionar. Tive que explicar a ela: se o saite diz isso, é que a verdade é justamente o contrário, e aquilo que se diz que aconteceu, como bem se pode estimar, na verdade não aconteceu.

Aliás, é por isso mesmo que, por enquanto, estou convicto de que Dilma não tem câncer coisa nenhuma. É claro que, nos próximos meses, veremos profissionais muito sisudos, todos de jaleco branco e mostrando consternação, apresentando os últimos desdobramentos no jornal da noite. Mas não acreditarei nem que ela morra.

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E essa é a cidade que pretende sediar jogos olímpicos.