Desta vez, acho que o papo é sério

Durante os anos 80, vivíamos em um período de recrudescimento da Guerra Fria. Reagan de um lado, Brejnev e depois Andropov do outro, e nunca se acumularam tantas armas nucleares e convencionais como naquele tempo (pode pesquisar). Exercícios eram conduzidos por uns na porteira do quintal dos outros, as Alemanhas eram um palco permanente de vigilância e intriga (pois eram a fronteira entre os dois blocos), os mares estavam coalhados de navios de superfície, submarinos, sonares e aviões de patrulha, e todos vivíamos em tensão. Filmes de espionagem eram mais abundantes que os de ação, e os soviéticos eram vilões temíveis, sempre tramando, sempre sorrindo sobre facas afiadas. Foi a época de grandes suspenses de sucesso no cinema como Jogos de Guerra e A Raposa de Fogo.

Naquele tempo, abundava a literatura sobre veículos de combate. Os interessados hão de se lembrar com saudade das inúmeras publicações que saíram traduzidas no Brasil, como Aviões de guerra, Guerra nos céus, Guerra moderna, Corpos de elite, Máquinas de guerra, os Guias de Armas de Guerra, as séries Aviões de Combate e Aero Militar, e assim por diante. Era um material ótimo, como nunca mais se viu. Endereçado mormente a um público curioso mas não realmente especializado no assunto, tinha uma certa redundância de texto e imagens, e foi ali que os atuais quarentões tiveram contato com um conhecimento de (por exemplo) aviões militares que já está bastante desatualizado, embora frequentemente achem que aquilo tudo ainda é verdade (dica: não é. A RAF planeja a aposentadoria do Tornado GR4 já faz um tempo, você que só conheceu Tornado GR1; e os Tornados F3, Harriers, F-4, seu querido F-14 de Top Gun e versões iniciais do F-16 já sumiram do mapa faz tempo).

Mas havia também uma literatura mais séria. Os dois lados da Cortina de Ferro passavam o tempo a traçar cenários, prever ações e planejar reações. Do lado de cá, vimos parte do resultado em livros de ficção como os de Tom Clancy (sendo o mais famoso o primeiro, A caçada ao Outubro Vermelho), mas havia também uns trabalhos de não-ficção, um dos quais saiu pelo Círculo do Livro: Terceira Guerra Mundial: agosto de 1985, organizado pelo General Sir John Hackett e lançado em inglês em 1979. O livro refletia a visão da OTAN sobre como se iniciaria a dita guerra, com uma invasão em massa de blindados soviéticos através dos campos alemães, seguida de todo o desdobramento do que as melhores previsões diziam que aconteceria. Não se tratava de mero romance; era realmente uma peça de doutrina militar, explicitando o pensamento mais atual e planejado da OTAN para sua política de defesa. O assustador O Dia Seguinte, de 1983, partia de uma premissa semelhante e bastante repetida na época: após muita tensão e diplomacia, forças soviéticas invadiam um país do Oriente Médio (agora não lembro se era o Irã; podia ser; não esqueça que o Afeganistão esteve ocupado pela URSS de 1979 a 1989, com resultados desastrosos para o país do Urso) invadiam a Alemanha (será que eu lembrei errado mesmo? Mas ainda me lembro nìtidamente de ser Oriente Médio). O resultado da invasão era uma escalada muito rápida de reações mútuas até o ponto em que os soviéticos, derrotados, retiravam sua tropa da área e, em um gesto de despeito supremo, soltavam ali um artefato nuclear tático. A consequência disso era o imediato disparo de mísseis intercontinentais de um lado a outro do Pólo Norte, uns caindo no Meio-Oeste dos Estados Unidos, outros em alvos siberianos ou similares.

As lições, bastante óbvias, alertavam para os riscos da permanente tensão entre as superpotências, com as sobrevivências dos dois lados tornadas dependentes de gatilhos muito sensíveis. Além dessa quase-platitude, há uma noção que o grande público às vezes não pega (mas tampouco os analistas esquecem): a Guerra Mundial tende a começar em um ponto próximo, mas não dentro de uma das superpotências. É sempre um Estado menor, um satélite de um lado, que é sùbitamente ameaçado ou invadido pelo outro lado. O primeiro, perdendo o território de amortecimento em seu entorno e naturalmente se percebendo acuado, ataca preventivamente com uma ogiva nuclear tática, localizada; e o precedente leva a uma imediata multiplicação de ataques nucleares de gravidade crescente, até a aniquilação. O mundo torna-se mais radioativo e a guerra é realmente bem curta, mesmo que ainda haja remanescentes dos países que a iniciam.

Então, quem passou a vida lendo sobre esses cenários chega a 2014 e se depara com quê? Com a Rússia atrás de qualquer pretexto para incorporar a Crimeia a seu território enquanto soldados russos ocupam postos estratégicos (militares ou não) na península e, do outro lado, os Estados Unidos enviam 6 F-15C de Lakenheath para defender o céu lituano (no que, aliás, não há qualquer novidade, pois faz anos que os países da OTAN se revezam para compor a força de caças no patrulhamento daquele pequeno espaço aéreo) e 12 F-16C de Aviano para desembainhar suas espadas na Polônia (onde, aí sim, há novidade). Cabe lembrar que, vinte anos após o fim da Guerra Fria, a OTAN cresceu e alguns países que compunham o Pacto de Varsóvia — notàvelmente a Polônia — agora fazem parte da OTAN. A Alemanha Oriental, fronteira do Pacto, foi absorvida para dentro da OTAN; a Lituânia também, ela que era parte da URSS. Então, vejam que o território sob domínio soviético encolheu, e a Crimeia pode ser interpretada como uma área em disputa… como era a Alemanha em 1983.

Esses caras estão brincando com fogo. A Rússia não é a Coreia do Norte, onde cão que ladra não morde. Não é a Venezuela, onde a venda de petróleo aos EUA prossegue tranquila longe dos olhos do público iletrado. A Rússia é comandada por um ex-agente da KGB que não tem medo de apertar o botão.

O que eu sei é que hoje meu sono não será tranquilo.

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O fantasma de São Diogo

Até o século XIX, havia no Rio de Janeiro um prolongamento da baía da Guanabara, chamado Saco de São Diogo. Os registros divergem, mas, pelo que entendi, o Saco ocupava a região onde, hoje, ficam parte da região portuária, a estação Leopoldina, a avenida Francisco Bicalho, o Trevo das Forças Armadas, e pedaços da Cidade Nova. Um debate sobre sua extensão aqui.

Durante o século XIX, aquela área foi toda aterrada. Naturalmente, nem por isso se tornou muito mais alta. Ali chegam o Rio Comprido, o rio Joana, o rio Maracanã, o Trapicheiro e outros cursos d’água que drenam o terreno de nossa cidade desde o tempo da última glaciação. O canal do Mangue é prova de que, por ali, um bocado de água ainda corre para o trecho de baía junto à rodoviária Novo Rio. O Saco de São Diogo foi-se, mas sua macro-influência na hidrografia do Rio permanece, feito um fantasma que se recusa a ser derrotado.

Quanto à Praça da Bandeira, històricamente sempre foi alagada. O terreno ali é desconfortavelmente baixo, era dominado por um manguezal e estava ìntimamente ligado ao Saco de São Diogo, com toda a sujeição às marés que caracteriza esse tipo de situação. O traçado topográfico variava fortemente conforme o Saco estivesse mais ou menos cheio de água e, mesmo que hoje haja uma praça por cima, os rios ainda passam ali por baixo. Mesmo hoje, se chover forte durante a maré alta, a desembocadura dos rios fica mais baixa do que o nível do mar, a água não tem pra onde ir e é alagamento na certa.

Acho que isso explica por que é que, em tempo de chuvas como a desta semana, não convém ficar muito perto de São Cristóvão e Maracanã. Agora há pouco, eu estava assistindo ao Jornal Nacional online, e tem o vídeo de um ônibus em frente ao CEFET, com água na altura da janela!

E diz a previsão do INPE que vai continuar chovendo nesta quarta-feira e além…

Na cobertura jornalística do G1, tem um meteorologista dizendo que “não é possível associar [a chuvarada desgraçada dos últimos dois dias], que classificou de ‘atípico’, com o aquecimento global, mas também não se pode descartar sua influência”. Em outras palavras, o homem não sabe o que diz. Mas deixe-me acrescentar alguma coisa, eu, que não sou especialista em p**ra nenhuma. Primeiro, concordo que seria ignorante e leviano associar uma específica chuva, em uma específica semana, a um fenômeno mundial de longo prazo, como é o aquecimento global. Não dá pra fazer esse vínculo, como alguns palpiteiros poderão tentar amadorìsticamente. Em matéria meteorológica, existe um zilhão de fatores envolvidos, e não é a primeira vez que chove forte no Rio.

Mas, segundo a mesma reportagem, a causa da chuva forte seria o calor brabo dos últimos dois meses, que provocou uma umidade incomum no ar sobre a cidade. Com a chegada de uma frente fria, caiu o mundo em cima da gente. Ora, com base nisso, arrisco-me a identificar uma tendência para o futuro sim, por mais que eu prefira estar errado: com o aquecimento global, mais vezes veremos o ar ficar úmido além do que era habitual durante o século XX. As chuvas torrenciais, que aconteciam a cada vinte anos, vão passar a acontecer a cada quinze, dez, cinco, dois anos; já não vai ser algo incomum, mas perfeitamente previsível. Com a chuva, virão a falta de luz, o caos nos transportes, isso tudo.

Então taí. Como Esposa estava comentando comigo ontem: vai acabar esta nossa mamata de ter tudo fácil, eletricidade, telefone, água potável. Vamos ter que conviver com escassez sim, e a vida de nossos filhos não vai ter os luxos da nossa. Quero dizer, para quem é rico assim como para quem é pobre, o padrão de vida vai cair e as agendas vão ter que considerar mais contingências do que as nossas. Tudo vai mudar em nossa civilização. E não descarto a falta de comida.

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Pra quem ainda fica glorificando a guerra

Li há pouco a notícia: ontem foi divulgado um vídeo que era mantido em sigilo pelo exército americano desde 2007. O vídeo está aqui. Essencialmente é o seguinte: dois repórteres, câmeras na mão, acompanham um grupo de sete homens no Iraque, dos quais dois me parecem estar armados (mas posso estar enganado). O vídeo foi feito da câmera do canhão de um helicóptero Apache, que filma tudo que acontece no lado para onde está apontado o canhão. O artilheiro do helicóptero identifica uma das câmeras como uma RPG (arma antitanque muito comum entre guerrilheiros por todo o mundo) e, depois de obter autorização, abre fogo contra o grupo inteiro, gastando 82 cartuchos (basta ver o contador no canto inferior direito: 252 decresce para 170). Oito morrem na hora. O nono, por coincidência o fotógrafo, consegue se arrastar, ferido. Um veículo pára para resgatá-lo e o helicóptero põe mais 120 projetis em cima dele, finalmente matando o ferido.

Você pode assistir ao vídeo tranquilo, porque não tem aquela sangueira que deve ter imaginado, nem dá para ver corpos despedaçados. É tudo muito abstrato, e o helicóptero está longe. Não se escuta nada do que deve estar acontecendo no chão.

Mas várias coisas me impressionaram. Uma delas é a precisão com que o artilheiro consegue identificar os alvos. Outra coisa — e isto é importante — é que o canhão do Apache é o M230, um monstro de 30 mm, projetado para furar blindagem de tanque. Os projetis são explosivos ou incendiários. Ou seja: são mais do que overkill para acertar gente, certamente muito piores do que os cruéis projetis de 5,56 mm dos fuzis que os traficantes e os exércitos do mundo usam por aí.

Outra coisa que me impressiona é a remoção emocional dos militares envolvidos, o profissionalismo de alguém para quem aquilo é só mais um dia de trabalho. Na verdade, em mais de um momento eles comemoram o sucesso dos disparos, e tem um que até ri quando, mais tarde, um veículo blindado de infantaria, também americano, acidentalmente atropela um dos corpos. Considerando que os atiradores estavam na confortável proteção do helicóptero enquanto os alvos estavam indefesos em campo aberto, é muito fácil censurar os soldados e chamá-los de ianques covardes e brutais. Só que há um fenômeno fàcilmente esquecido por quem nunca foi à guerra, que é a gradual desumanização, o embotamento de quem se acostuma a matar sem uma censura por parte do sistema. O cara nem percebe que está errado e, de todo modo, no meio da guerra onde está, muitas vezes ele tem mesmo que matar para não ser morto. Então ele se acostuma e, para ele, puxar o gatilho é tão corriqueiro quanto este teclado aqui para mim.

Tem também o par de segundos transcorridos entre o momento em que começamos a ouvir os tiros e o momento em que vemos os impactos na terra. É demorado mesmo. Por aí se pode ver a distância a que estava o helicóptero. E as vítimas não saem correndo antes de a terra começar a voar à sua volta, o que indica que nunca ouviram os disparos: os projetis são supersônicos. Também aí podemos perceber a precisão do M230. Considerando que, pelas especificações de projeto, provàvelmente bastava que o canhão fosse capaz de acertar veículos à distância, claramente ele atende à exigência, porque dá para acertar um homem, escolhido individualmente.

Estou mostrando esse vídeo com um propósito. Tem gente que se empolga com armas de fogo, que se impressiona com sua capacidade de destruição. Alguns são militares, outros são adolescentes; alguns são apenas entusiastas da História das guerras. Conheci várias pessoas assim em meu tempo de vida, embora hoje não conviva com nenhuma, e todas — verdade seja dita — sempre foram minoria nesses grupos aí. Às vezes vemos vídeos de guerras, tanques rolando pela pista, soldados desembarcando, aviões largando bombas, mas é sempre com aquele distanciamento de mostrar o lado de quem atira, ou cenas que não são de combate. O lado da vítima só costuma aparecer nas obras de ficção. Por mais realista que seja, sempre rola um sangue de mentirinha, e você sabe que não é real. Pois o que este filme mostra é como realmente fica a vítima que leva tiro de canhão. Não é nada divertido, não é algo a que se assista para se ficar empolgado. É bem despojado, sem música nem drama. E é para ver como é.

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Capanema, doutores de Coimbra, educação e ideologias

Neste País tropical, abençoado por Deus, onde em fevereiro tem Carnaval e o J. Ben tem uma nêga chamada Teresa (palavras dele, não minhas), temos algumas concepções paternalistas e clientelistas que extraímos desde Roma, passando por Portugal medieval e chegando aos dias de hoje.

Como resultado dessas concepções, nossas elites sempre enviavam seus filhos a se instruírem em Coimbra e a se tornarem “doutores”, mesmo que nunca fossem usar o conhecimento. No período republicano, insuflados pela ilusão de que mobilidade social existe, somos levados a crer que você não é ninguém se não tiver estudo. Bem, não exatamente. Você não é ninguém se não tiver um título. Não faz diferença se domina o assunto ou não.

Então, antes de vir administrar os negócios da família e a compra e venda de escravos, o jovem de tradicional estirpe tinha que ser médico, engenheiro ou advogado. De preferência, advogado, que assim você conhece as fórmulas que obtêm o favor dos deuses. O advogado torna-se uma espécie de pontífice, de sacerdote, com todos os privilégios associados à função. Vêem-se (porque a sociedade os vê) acima dos demais mortais, sabedores dos sortilégios sagrados das artes ocultas, revelados somente a iniciados. Mais ou menos feito os alquimistas.

Com o tempo, a saturação dos mercados e fartas doses de mediocridade, preguiça e hipocrisia, disseminou-se uma noção mais vaga, de que, de qualquer forma, você tem que ter um diploma universitário, qualquer diploma universitário, para conseguir qualquer coisa, para ser alguém, para ter dignidade. Não importa diploma de quê, nem onde. Você acaba forçado a fazer faculdade, mesmo que ìntimamente não queira, porque ninguém te aceita de outro modo. Agora, então, que a Lei de Diretrizes e Bases facilitou a obtenção de diploma para cursos de nível superior em menos de três anos, é como se ninguém mais tivesse desculpa.

Uma noção completamente falaciosa. As pessoas ficam achando que o papel da universidade é servir de curso profissionalizante, como se só houvesse profissões se de nível superior. Algumas viram cursinho para passar em concurso. Chega-se ao absurdo de se supor que todo o mundo tem que ter feito faculdade. Um País de doutores. Sabemos com que qualidade. Sei de doutores que não conseguem soletrar o próprio nome.

Ficam desprezados todos os técnicos, e essa gente esquece que, sem técnicos, não se constrói um país. Não dá pra ter só engenheiro; alguém tem que saber operar no chão de fábrica. Não dá pra ter só cirurgião dentista; alguém tem que saber cuidar do instrumental. O técnico é fundamental.

Mas conhecemos a visão que impera. As pedagogas de voz áspera, aquelas que nunca entraram numa sala de aula mas não deixam de comparecer a um debate na TVE, realmente acreditam que, se você não faz uma faculdade, você automàticamente é um fracassado.

Não há de ser outra a mentalidade que motivou certo artigo que encontrei na Revista de História da Biblioteca Nacional, edição no. 2, de agosto de 2005.

A matéria é uma biografia de Gustavo Capanema em quatro páginas. Já começa por uma ambivalência: na chamada, afirma que Capanema “foi um ministro renovador e idealista”, citando carta de Lúcio Costa que elogia o arrojo do prédio do MEC no Centro do Rio e o atribui à visão do mecenas; mas, poucos parágrafos adiante, esclarece como esse intelectual mineiro chegou a ministro:

Capanema acompanhou os mineiros, quer na fase da campanha eleitoral, quer na da conspiração, tornando-se oficial de gabinete de Maciel, por sinal, seu primo. Vitoriosa a revolução [de 1930], o presidente de Minas foi o único a não ser afastado do cargo pelo chefe do Governo Provisório. Seu oficial de gabinete tornou-se o secretário do Interior e Justiça (…) Campos e Capanema articularam um plano para ‘liquidar’ a liderança do mais poderoso político mineiro, Artur Bernardes (…). Uma briga de cachorro grande (…) que aproximou Vargas de Capanema, pois foi ele que intermediou as sigilosas conversações entre poderes estadual e federal. (…) Maciel morre e Capanema assume, interinamente, o cargo de interventor federal, postulando uma efetivação.

Os grifos são meus. Mas quer dizer: a Autora abre o texto enaltecendo o ministro visionário, mas mostra como ele armou para subir a escada do poder à medida em que se instalava uma ditadura no País.

Já ministro da Educação e Saúde, Capanema estava encarregado de sistematizar o ensino em todo o Brasil. Havia um debate entre correntes leigas e religiosas, entre estatizantes e liberalistas.

Essa discussão se prolongou, sendo interrompida pelo golpe de 1937, que deu ao ministro a liberdade de encaminhar suas propostas conforme as diretrizes autoritárias, nacionalistas e centralizadoras do Estado Novo.

Não é que eu seja fundamentalmente contra o modelo educacional. Provàvelmente ele estava correto, considerando que a geração que foi à escola nos anos 40 não é tão ignorante quanto as posteriores — ressalvado, aí, seu viés por vezes doentio, exageradamente positivista, nacionalista, integralista até; por culpa mais do Estado conformador do que dos próprios alunos. O lance é que, seja que modelo for, não é assim que se implementa. O cara é incensado como gênio da educação, mas parece não ter se pejado em simplesmente mandar cumprir o que achava que estivesse certo. Grande exemplo estava dando.

Bom, mas eu me estendo em digressões. Esse nem era para ter sido o foco principal. O que mais chamou minha atenção foi a seguinte passagem:

a reforma também criou cursos profissionalizantes, voltados para os que não seguiriam carreiras universitárias. Como é fácil perceber, eles se destinavam aos jovens menos abastados, o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública única e de boa qualidade.

Esse trecho está tão errado que nem sei por onde começar. Deixe-me seguir na ordem da leitura.

Primeiro: por que a Autora considera que os cursos profissionalizantes sejam voltados a quem não iria para a faculdade? Veja só que ela escreve por exclusão: “os que não seguiriam carreiras universitárias”. Presume-se que o padrão seja você fazer faculdade e que os demais se definam por não seguirem a regra. O pressuposto é que a universidade seja o certo, o óbvio, e que os refugos vão fazer escola técnica. Como se não houvesse a opção de não fazer universidade; como se não pudesse parar no primeiro ou segundo grau. A escola técnica surge como opção de quem perdeu, de quem é excluído, ráuli.

Segundo: “como é fácil perceber” — fácil para quem, cara-pálida? Há uma certa arrogância no texto: para ela, tudo que for dito depois são verdadeiras obviedades e, em princípio, o Leitor que não concordar tem dificuldade de perceber algo que está na cara.

Terceiro: “eles se destinavam aos jovens menos abastados” — ah, quer dizer então que escola técnica é pra pobre, é isso? Se escolho ser técnico, é porque sou um proletário limitado, emburrecido talvez pelo simples fato de ser pobre e, portanto, incapaz de alcançar um ambiente intelectual mais elevado — é essa a mensagem? Depois do primeiro grau, não convivi mais com gente rica, mas, desde então, já conheci várias pessoas que fizeram escola técnica e que não tinham dificuldade nenhuma de se sustentarem com isso.

Quarto: “o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública única” — hein? Quer dizer que as escolas técnicas não têm como se inserir num sistema de ensino? O Senhor Ministro não sabe onde encaixá-las, elas não se destinam a formar doutores — então, estão fora do sistema unificado, é isso? Estão entregues ao descontrole, estão à margem, é essa a ideia? E o que que eu digo pra quem acabou de entrar no CEFET?

Quinto e talvez pior de todos: “o que se contrapunha aos ideais de uma educação pública (…) de boa qualidade”. Então, quer dizer que as escolas técnicas são todas ruins, é isso? Só está certo quem seguiu o caminho virtuoso da universidade; todos os demais são desqualificados e, se o curso é técnico, então automàticamente o curso é ruim — é isso? Por que a Autora não diz logo que tinha que acabar com o SENAI e rasgar o diploma de todos os soldadores, mecânicos e técnicos em Radiologia? Será que ela realmente acha que conseguiria sequer ter luz e água encanada em casa sem esse pessoal? O que o texto está dizendo é: “você nunca vai ter educação pública de boa qualidade se continuar formando técnicos”. Vá perguntar o que um russo, o que um alemão acha disso. Vá ver o que estão fazendo na China.

E era aqui que eu queria chegar. Nota-se aí mais uma das manifestações desta nossa ideologia do diploma. A Autora absolutamente despreza quem não tem é doutor em Ciência Política pelo IUPERJ ou pós-doutor pela Sorbonne. Essa é a exata visão da nossa cultura dos bachareis de Coimbra, do grau universitário como único reconhecimento de valor social. Uma cultura de opressão, onde alguns arrotam erudição e “falam difícil” para outros ficarem impressionados e temerosos, ignorando que os primeiros, muitas vezes, são tremendos enroladores que sequer aprenderam o básico das primeiras disciplinas da graduação, quiçá do próprio segundo grau. Uma cultura que não conhece o conceito de accountability (e por isso não tem nome para ele), onde professores titulares não aparecem para dar aula “porque estão acima disso”, onde a ocupação de qualquer sinecura autoriza o alto bradar da pergunta, “você sabe com quem está falando?”

Eu sei. Sei muito bem.

E estou de mau humor. MAU HUMOR COM “U”, PELO AMOR DE NEWTON!

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Dia de franceses tosquiarem cabeças

Há 64 anos, em 8 de maio de 1945, os Aliados aceitaram a rendição alemã, pondo fim ao maior conflito armado que a humanidade já sofreu. Dia de grande euforia na Europa — mas uma euforia amarga e meio vazia, com cheiro de fumaça e sabor de lágrimas, porque famílias estavam desfeitas, milhões de pessoas estavam mortas, cidades estavam arrasadas, e muito sofrimento ainda viria com a fome e a penúria nos anos seguintes.

Em entrevista no excelente documentário Senta a Pua, o Brigadeiro Rui Moreira Lima conta a sensação que teve quando, jovem tenente da FAB, recebeu a notícia de que não teria mais que bombardear nem metralhar alemães no Norte da Itália: uma profunda alegria de que ninguém mais tinha que morrer e ninguém mais ia ter que dar tiro e todos poderiam voltar para casa.

Estou sendo insistente de propósito. Esse assunto é sério. Ainda tem muita gente que gosta de guerra. Não é pra gostar. Admito que gosto de estudar as guerras, em particular a própria IIGM, mas isso não quer dizer que eu goste delas, assim como não necessariamente um advogado penalista gosta de homicídios, um médico de doenças ou um fiscal da Receita de sonegação. Sort of.

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64 anos atrás hoje

Há 64 anos, em 7 de maio de 1945, a Alemanha se rendeu em Reims. No Brasil, o dia 8 de maio é comemorado como Dia da Vitória; nos Estados Unidos e Inglaterra, é chamado V-E Day (vitória na Europa — ainda faltava Japão, que foi em agosto).

23 milhões de mortos na União Soviética, 6 milhões de judeus nos campos de extermínio, 42 milhões nas cidades; 73 milhões de mortos no total.

Que nunca mais se repita e que sirva como escarmento para todas as gerações futuras.

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Mudando de assunto: só quem pega gripe suína é espírito de porco. Deve tá cheio de gente contaminada à minha volta.

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