Citações, 26/11/2016

ECO, Umberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. Trad. por Aurora F. Bernardini e Homero F. Andrade.

Página 66:
“‘Guilherme!’ exclamou. ‘Meu irmão querido!’ Levantou-se com esforço e veio ao encontro de meu mestre, abraçando-o e beijando-o na boca. ‘Guilherme!’ repetiu, e os olhos se lhe umedeceram de pranto. ‘Quanto tempo! Mas eu te reconheço ainda! Quanto tempo, quantas vicissitudes! Quantas provas o Senhor nos tem imposto!’ Chorou. Guilherme retribuiu o abraço, evidentemente comovido.”

P. 83:
“‘Nada que seja pretextuoso é santo, Guilherme, sabes que te quero bem. Sabes que confio muito em ti. Castiga a tua inteligência, aprende a chorar sobre as chagas do Senhor, joga fora os teus livros.’
“‘Guardarei apenas o teu’, sorriu Guilherme. Ubertino sorriu também e ameaçou-o com o dedo: ‘Inglês tonto. E não caçoes muito dos teus semelhantes. Ou melhor, os que não podes amar, teme-os. E cuidado com a abadia. Este lugar não me agrada.’
“‘Quero justamente conhecê-lo melhor’, disse Guilherme despedindo-se. ‘Vamos, Adso.’
‘Eu estou te dizendo que não é bom, e tu dizes que queres conhecê-lo. Ah!’, disse Ubertino sacudindo a cabeça.

P. 84:
“‘(…) Não construas um castelo de suspeitas sobre uma palavra.’
“’Nunca o farei’, respondeu Guilherme. “(…) Porém gosto de ouvir também as palavras, e depois fico pensando nelas.’”

P. 158:
“‘(…) Quem ri não acredita naquilo de que está rindo, mas tampouco o odeia. E portanto rir do mal significa não estar disposto a combatê-lo e rir do bem significa desconhecer a força com a qual o bem se difunde a si próprio. (…)’”

Trago quatro trechos alheios

… de obras diferentes.

O primeiro é de Umberto Eco, em O nome da rosa, conforme tradução de Aurora F. Bernardini e Homero F. Andrade, editora Nova Fronteira, 1983, p. 45.

” ‘Compreendo’, disse Guilherme. Eu já tivera meios de notar que, quando se exprimia daquele modo tão solícito e educado, de costume calava, de maneira honesta, o seu dissenso ou sua perplexidade.”

Conheço quem me deu o mesmo exemplo. Atento, procuro praticar; ainda falho miseràvelmente, mas insisto.

O segundo é do artigo Supersônicos: a primeira turma no F-103 no Brasil, de Reinaldo Peixe Lima, publicado na Revista força aérea no. 41 (dez.2005 – fev. 2006), p. 31-35. Na página 34,

“(…) o AT-26 Xavante, com a sua camuflagem verde, voando sobre os verdes mares cearenses, era praticamente invisível, (…)”

“Eu vi o que você fez”, disse Castro Alves.

O terceiro é do artigo Mistral I: o dia em que a FAB armou a arapuca…, de Carlos Lorch, da mesma edição da RFA acima, p. 36-41. Na página 36, o Autor relata um evento de 1997, quando a Armée de l’Air trouxe seus Mirages 2000 para treinarem em Natal, em exercícios de combate simulado com os Mirages III (“F-103”) do Esquadrão Jaguar da FAB.

“(…) bem, na verdade não dava para esperar muito dos nossos Mirage. Eram aeronaves de outra geração, o esquadrão estava treinado para conduzir interceptações vetoradas. Sabe como é …coisa de outra época. Nada que não fosse varrido pela fantástica relação peso/potência, pelos radares RDI e mísseis Super R.530 e Magic II dos Mirage 2000 da nova geração. Estava quase me perguntando se não teria sido melhor deixar os F-103 lá em Anápolis…

“Mas o que eu imaginava não foi bem o que ocorreu. Logo no início da Operação, enquanto fazia fotografias no pátio de estacionamento das aeronaves, comecei a notar um estranho padrão de comportamento nas tripulações que retornavam do vôo. Principalmente nas francesas. Ao descerem de seus Mirage 2000, os pilotos começaram a agir de forma estranha. Coçavam a cabeça, discutiam com seus alas já ali, na rampa. Gesticulavam e partiam rápido para o debriefing com cara de poucos amigos. Esse padrão se repetiu no dia seguinte e já então permeava no ar uma sensação esquisita. Os pilotos e os mecânicos de nossos Mirage, por sua vez, mal conseguiam esconder uma satisfação coletiva que de pronto tomou conta da base. Não dava para saber exatamente o que estava acontecendo, mas era algo fora do comum. De algu’a maneira, os Jaguares, com seus aviões de outros tempos, estavam dando uma escovada em nossos incrédulos visitantes. Havia rumores e explanações desencontradas. Muita vibração de um lado, e um misto de surpresa e indignação do outro.

“Eu não sabia o que havia acontecido. Só sabia que os havíamos superado, e isso já era o bastante…”

O quarto trecho vem da mesma reportagem de C. Lorch. Na página 37, as palavras são do Major-Aviador José Eduardo Portella Almeida:

“… os franceses nos ofereceram voar na nacele [eu tinha pra mim que o nome certo fosse ‘carlinga’] traseira dos dois M2000 biplaces que haviam trazido, o que foi disputado por todos os pilotos brasileiros. Nós também tínhamos trazido dois MIII biplaces e nenhum francês tinha pedido para voar de ‘saco’. O exercício durou uma semana. Lá pela quinta-feira, começamos a fase operacional, os vôos em que aplicaríamos a tática. O posicionamento tático era o seguinte: dois MIII simulariam estar defendendo Natal e dois M2000, vindos do oceano, tentariam romper a patrulha (…). Na quinta-feira, se não me engano, ganhamos todos os combates. Em um deles, contra o Comandante dos franceses (…), os dois M2000 foram abatidos nos dois engajamentos. No debriefing, o Comandante gritava, em francês, com seu ala, inconformado com a ‘derrota’ a que ele tinha sido submetido, a seu ver por causa de falhas do ala. Ele fez questão de assistir ao filme em que ele manobrava na frente do MIII, lançando flares, em vão. Naquele dia, os franceses se trancaram na sala de briefing reservada a eles e ficaram até altas horas, fazendo não sabemos o que (todos os dias nós ficávamos fazendo nossa reunião do pôr-do-sol e eles saíam para a cidade logo após o último vôo. Na quinta-feira, nós saímos antes). No dia seguinte (sexta), havia dois franceses na porta da nossa sala de briefing pedindo para voar conosco, na nacele traseira do MIII…”

É como diziam no Exército: “treinamento difícil, guerra fácil”.

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Traduzi isto hoje

Obrigado
Original por Ken Block, Jeff Beres, Andrew Copeland, Ryan Carter Newell, Mark E. Trojanowski; cantado por Dido Armstrong, publicado no album No Angel
Tradução por João Paulo Cursino

Meu chá esfriou, e eu me pergunto por que sequer me levantei da cama
A chuva matinal enevoa minha janela, e não consigo ver nada
E mesmo que eu conseguisse, estaria tudo cinza, mas seu retrato na minha parede
Ele me lembra que não é tão ruim, não é tão ruim

Bebi muito a noite passada, tenho contas pra pagar, só sinto dor de cabeça
Perdi o ônibus e vai ser uma cobrança danada hoje, estou atrasado pro trabalho de novo
E mesmo quando eu estiver lá, vão todos ficar mandando indiretas de que eu não passo de hoje
E aí você me liga e não é tão ruim, não é tão ruim e

Quero te agradecer por me dar o melhor dia da minha vida
Oh, só ficar com você é ter o melhor dia da minha vida

Empurro a porta, finalmente estou em casa e estou completamente ensopado
Aí você me estendeu uma toalha e tudo que vejo é você
E mesmo que a minha casa desabasse agora, eu nem perceberia
Porque você está perto de mim e

Quero te agradecer por me dar o melhor dia da minha vida
Oh, só ficar com você é ter o melhor dia da minha vida

Vendo a velocidade da luz

Não é “vendo”, presente do indicativo de “vender”, mas “vendo”, gerúndio de “ver”.

Este vídeo está correndo a Web feito fogo na palha, e merecidamente.

Mas todos os rápidos (e ingênuos) textos que já vi têm um defeito em comum: passam a ideia errada de que você “vê a luz se deslocando”, igual àqueles raios laser de filmes de scifi. Não é isso que você vê. A explicação do cientista-engenheiro está correta (ÓBVIO), mas está em inglês. Então, abaixo ofereço meu próprio texto sobre o que acontece.

Ninguém filmou “a luz se propagando”. É assim: primeiro, um raio de luz avança e bate num grão de poeira, ou numa molécula de plástico, ou no que for. Aí, esse raio reflete, vai noutra direção, e acerta (por exemplo) a câmera, que está ali do lado. Nesse momento, a câmera vê a luz pela primeira e única vez; a luz marca o filme; a câmera registra uma centelha. Para a câmera, tudo se passa como se o raio tivesse vindo originalmente daquele grão de poeira que havia no meio do caminho, porque veio mesmo. Para a câmera, o que aconteceu foi uma centelha, ali onde está o grão de poeira, vindo na direção da câmera. Mas sabemos que essa centelha é um raio que veio ali do grão de poeira, que estava se intrometendo no começo do percurso original do raio. Fim.

Agora, junto àquele primeiro raio, havia outro, paralelo, emitido ao mesmo tempo. Esse outro fez um percurso mais longo do que o primeiro sem ser perturbado. Até que, cerca de 0,00000000003 segundo depois, também encontrou um grão de poeira. Como seu percurso durou 0,00000000003 segundo a mais, esse encontro aconteceu 1 cm adiante do encontro anterior. Mas também esse raio foi forçado a refletir noutra direção. E encontrou a câmera, e fez a câmera “acreditar” que estava vindo do segundo grão de poeira, tendo saído dali 0,00000000003 segundo depois e 1 cm adiante do primeiro raio. Então, a câmera registra uma centelha em um ponto que fica 1 cm adiante da primeira centelha.

E assim sucessivamente. São milhares, milhões de raios. À medida que avançam, vão trombando na poeira, refletindo, e alguns atingem a câmera. O que a câmera vai registrando são sucessivas colisões entre luz e poeira; somente aquelas cujas consequências são raios apontados para a câmera. Naturalmente, essa sucessão de colisões vai acontecendo ao longo do caminho que os raios tentam percorrer desde o começo. Então, vemos os impactos acontecendo, um depois do outro, ao longo do caminho que a luz está percorrendo.

Claro que, enquanto um raio de luz está avançando pela garrafa sem colidir com nada, ele é invisível: você só o veria se ele batesse na câmera, mas ele está lá, percorrendo a garrafa, sem bater em nada. Até que ele colide com a poeira. Nesse momento, pronto: aquele raio de luz não está mais fazendo o percurso; ele está colidindo com a poeira e refletindo, e sofrendo o fenômeno que acabei de descrever. Então, de certo modo, o que você vê não é o “percurso” da luz. Ao contrário: é uma sucessão de colisões onde a luz foi impedida de fazer seu percurso. São sucessivas interrupções ao percurso. Cada raio que colide (e assim se torna visível) é menos um raio que está fazendo o percurso, e com isso há cada vez menos raios fazendo a corrida. Os raios que chegam à tampa da garrafa estão em menor quantidade do que os que partiram do emissor.

São diferentes grãos de poeira, espalhados ao longo do caminho, e cada um gera sua centelhinha. Por isso, cada ponto de impacto é diferente do outro. Mas a sucessão de impactos dá a impressão de ser um ponto só que avança. Essa impressão-de-avanço vai andando à medida em que novos impactos surgem. E com que velocidade a impressão-de-avanço vai avançar? Com a mesma velocidade com que os raios vão avançando, sem serem detidos, até afinal serem detidos pela poeira: a velocidade da luz.

E é isso que vemos no vídeo.

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2011 in review

The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2011 annual report for this blog.

 

Here’s an excerpt:

A New York City subway train holds 1,200 people. This blog was viewed about 4,500 times in 2011. If it were a NYC subway train, it would take about 4 trips to carry that many people.

Click here to see the complete report.

Presidente Dilma ou Presidenta Dilma? A falsa dúvida

Joguei isto agora há pouco como comentário ao belogue http://www.tradutorprofissional.com e repito aqui.

Ó Danilo, eu sempre achei que "presidente" fosse particípio presente de "presidir". “Estrela cadente", porque cai; "tenente", porque tem (tem um lugar, detém um lugar, lieu-tenant) etc. Daí que "presidente" se torna comum de dois gêneros e admite artigo masculino ou feminino, sem se queixar. "A PresidentE Fulana".

Engraçado que, quando foi a Violeta Chamorro na Nicarágua ou aquelas outras moças no Chile e na Colômbia (era Colômbia ou Venezuela?), ninguém questionou; a imprensa só dizia "presidentE Fulana". Agora que é Dilma, surgiu uma enorme novidade! Óóóóóh!

Hipócritas todos.

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Receita de milkshake

Esta é a receita de milkshake que aperfeiçoei nos últimos meses através de experimentação. É bastante empírica, de modo que nunca fica igual; mas sempre fica excelente, quase sempre perfeita.

Tudo começou como minha tentativa de imitar, em casa, a receita de mateshake de cappuccino do Rei do Mate. O original ainda é deles, mas acho que gosto mais dos resultados a que cheguei.

A receita é dimensionada para dois copos que devem ter uns 500 ml. Primeiro, vai leite semi-desnatado até cerca de 40 % do volume dos copos. Depois, cinco generosas colheres de sopa de pó de cappuccino. Três Corações é a melhor marca, mas também é a mais cara. Depois, uma colher de sopa, rasa, de Matte Leão em pó. Depois, uma quantidade de sorvete de creme Kibon que supere tudo isso em volume, mas só até o ponto de você pensar se o copo do mixer não vai transbordar (nosso mixer pouco passa de 1 litro). Por último, um cálice generoso de conhaque barato (temos usado Nautilus, mas serve Dreher, Presidente… você pegou a ideia). Da última vez, substituí o conhaque por uma dose generosa de Amarula e ficou excelente.

Bata bem. O sorvete diminui bastante de volume, de modo que mal dá para encher os dois copos. Bem, na verdade depende das circunstâncias, porque às vezes ultrapassa. A consistência é perfeitamente cremosa e quase não faz espuma. É um litro de felicidade gelada, companhia ideal para assistir a episódios de sua série de TV favorita.

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Seguindo a tendência enigmática de questões que já coloquei aqui, e valendo outro prêmio por enquanto indefinido, lanço o desafio: em quais versos Carly Simon previu e resolveu as dificuldades postas por Eyjafjallajökull? A dica joguei no Twitter. Respostas na caixa de comentários.

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Postando às 04:40 da manhã

Não prometo visitar sempre, mas acabo de me divertir um bocado lendo os pensamentos nerds desconexos daqui. Lembra muito o XKCD. Altamente nerd. Requer elevadas doses de nerdice para entender.

Algumas pérolas:

“If I weren’t on my way to being a neuroscientist, I would have to get a Ph.D. in Mathematics, because its the only way I could have an academic career all about Tetris and still be taken seriously.”

E quem entender esta aqui ganha um prêmio. Dica: quem primeiro falou nisto foi o Capitão Oveur.

“When on an airline, Pt 2
“As the crew is thanking me for flying with them, I have to resist the urge to ask the pilot if he has ever been in a Turkish prison and/or enjoys gladiator films.”

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Panopticons da vida privada e outros da vida online

Acabo de ver um linque na Web, com uma chamada tão mal escrita que fiquei até curioso: que notícia obscura seria essa? Então cliquei e li que Tiger Woods bateu com o carro, ontem, anteontem, sei lá.

Ordinàriamente, eu não continuaria lendo, mas o que me deixou tão intrigado foi a extensão da reportagem. Comecei uma metaleitura, na intenção de descobrir o que esses jornalistas conseguem extrair de um mero acidente de trânsito. Sei lá, vai que tem alguma implicação mais séria, né?

Bom. Aparentemente, Woods bateu com o carro perto de casa, às 2 e pouco da manhã. A esposa ouviu, acudiu e teve que quebrar uma janela para tirá-lo do carro. O golfista estava sangrando e com a consciência indo e voltando, mas consta que já passa bem.

O que me chamou a atenção, mesmo, foi o seguinte:

“Left unanswered was where Woods was going at that hour.” – Ou, em língua lusa, “o que ficou sem resposta foi aonde Woods estava indo àquela hora”.

Como assim? Ora, pombas, quer dizer que, agora, um cidadão tem que dar satisfações sobre aonde vai a que horas? Não pode mais dirigir seu carro de madrugada sem se tornar suspeito? Tem toque de recolher, é isso?

“Pois não, policial?”

“O senhor estava dirigindo seu carro de madrugada. Aonde estava indo?”

Faz sentido essa conversa pra você?

NINGUÉM TEM NADA COM A VIDA DELE. Não é pra se meter, ficar fazendo inquérito, saber aonde ele ia com seu carro.

Eu, hein.

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Em uma nota não relacionada, vejamos.

Belogues, fóruns de discussão, email, listas de email, instant messaging, Google Translate, Orkut, Facebook, Google Docs, Google Maps, 4share, Rapidshare, Scribd, Flickr, Picasa, YouTube… Deixei alguma coisa de fora? Não, né?

Pois bem, ontem assisti a este vídeo de apresentação do Google Wave:

 

De início, fiquei apaixonado pela idéia. Juntaram tudo em uma interface só. Fundiram todos os modos de expressão que você tem na Web, de um modo intuitivo, como já aprendemos a esperar desse pessoal do Google. A programação deve ter sido animal, depois de sessões insanas de desenvolvimento da arquitetura, de modelagem, de brainstorms viajantes sobre as funcionalidades. A orientação a objeto salta aos olhos.

Ao mesmo tempo, não pude deixar de pensar: confuso, bagunçado, com um elevadíssimo potencial para ser mal utilizado pelas mentes analfabetas destes tempos de inclusão digital. Deu-me a sensação de uma ferramenta prematura – não uma ferramenta que está “adiante de seu tempo”, mas uma implementação prematura, talvez carecendo de ferramentas que ainda estão por inventar e tais que, na falta delas, fica desconjuntado. Em outras palavras: está tudo agrupado, mas não realmente agregado, não realmente consolidado.

Sei lá. Como costuma acontecer nesses casos, é muito fácil ficar acrescentando previsões ao hype, sejam elas otimistas ou pessimistas, e quase garantido que estarão todas erradas. Eu poderia dizer, “complicado demais, não vai dar certo”, mas isso é o que disseram de tudo que DEU certo em tecnologia da informação. Muitas vezes, a coisa acabou simplesmente ganhando um uso que não tinha nada a ver com o uso imaginado originalmente. Outras vezes, foi o contrário: fez-se uma comemoração insana de tecnologias “revolucionárias” que simplesmente não pegaram. Ou você conhece alguém que tenha um telefone Iridium? Eu poderia dizer, “é tudo que eu queria, todo o mundo vai adorar”, e as pessoas continuarem preferindo a simplicidade da compartimentalização entre os canais.

Mas que é supermaneiro, é.

***
Já que estamos falando em Web 2.0: está no ar o belogue colaborativo da REDARTE/RJ. A Redarte é uma associação de bibliotecas especializadas em arte situadas no Estado do Rio de Janeiro. Nas palavras do próprio belogue,

“A Rede de Bibliotecas e Centros de Informação em Arte no Estado do Rio de Janeiro (REDARTE/RJ) é uma rede de instituições com acervos especializados na área de artes no Rio de Janeiro e em Niterói. Seu objetivo principal é ampliar, para o público em geral e os pesquisadores de arte em particular, as opções de acesso a todo um universo de informações disponível em um conjunto expressivo e representativo de acervos especializados em arte.

“Participam da Rede instituições públicas e privadas, como museus, universidades, arquivos, centros culturais, totalizando 36 integrantes. As instituições são representadas na Rede por gestores dessas unidades de informação, graduados em Biblioteconomia e áreas afins.

“OBJETIVOS
”- Facilitar aos pesquisadores e ao público em geral o acesso a informações na área de arte;
”- Divulgar suas instituições integrantes;
”- Oferecer serviços e produtos informacionais;
”- Promover o intercâmbio de experiências entre os profissionais da Rede e auxiliar sua atualização;
”- Promover o intercâmbio de informações em arte através da localização de itens e do serviço de empréstimo entre as bibliotecas integrantes;
”- Incrementar a permuta e a doação de itens entre seus membros.”

Até há pouco tempo, a existência online da Redarte era só um website com edição centralizada, que não se comparava às várias atividades que aconteciam no mundo real. Agora, com a iniciativa do belogue, já dá pra ver uma dinâmica onde tudo que acontece é atualizado ràpidamente. Como a Redarte é liderada por bibliotecárias, o belogue cumpre a vocação da classe: contém inúmeros linques para instituições, bases de dados e relatos de eventos. Com o tempo, as organizadoras pretendem disponibilizar os powerpoints das palestras, artigos e por aí vai.

***
Ainda no teste de nerdidade:

31- Você já discutiu com um professor? – É possível, mas não que me lembre.
32 – Você venceu? – Não.
33 – Algum palestrante já indicou que alguém procurasse você como tendo mais conhecimento? – No contexto, não creio.
34 – Você já tentou admissão a alguma faculdade só para “ver se conseguiria entrar”? – SÓ para isso? Não.
35 – No seu SAT, a Matemática estava mais de 300 acima de seu verbal? – Nem conheço o teste, mas já vi que não se aplica no Brasil. Pulo.

Até agora, 20/33. Até que está melhorando (ou piorando, não sei).

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Para dias quentes

Nas últimas duas ou três semanas, temos tido dias de um calor desgraçado aqui no Rio. Hoje é um deles. A praia deve estar cheia, e você ouve os condicionadores de ar da vizinhança, virando direto. Não adianta tomar banho, porque a água desce da caixa na mesma temperatura em que você a queria num dia muito frio.

Em uma de suas obras, Vinicius de Moraes disse que sua receita para esses dias era chupar bala de hortelã. Isso era no tempo em que as casas não tinham ar condicionado.

Já eu recomendo minha fórmula, muito melhor. Em um copo de 300 a 500 ml, vá pondo, nesta ordem,

1 dose de rum Bacardi flavorizado com limão (pode ser outro destilado semelhante: rum, cachaça, gim)
Meia dose de licor de menta
Suco doce de limão até em cima
2 pedras de gelo

Não precisa mexer: conforme cada líquido vai caindo no copo, já mistura sozinho.

Isso ajuda!

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Esqueci-me de contar. Naquele dia em que fui ao zoísta, a sala de espera tinha uma TV ligada num desses programas de barraco ao vivo, onde as pessoas vão contar seus problemas familiares para que a plateia dê palpite. Difícil eu me concentrar na leitura. Posso escolher não ver (é só fechar os olhos), mas não posso escolher não ouvir.

Na TV, uma mulher reclamava do namorado, que só queria saber de jogar bola com os amigos e não dava atenção a suas necessidades de, hm, vadiar (para usar a curiosa nomenclatura de Jorge Amado em Dona Flor), ou de fazer o que a apresentadora chamava de “nhanhãnha”.

Mas, também, lógico. A mulher era feia como a fome!

***
Aliás, no Afeganistão, dizque as mulheres também são todas muito feias e que nunca tomam banho. Por isso, eram obrigadas a usar aquela roupa que cobria o corpo inteiro, só deixando uma gradezinha para elas enxergarem. Parece que os Estados Unidos acharam pouco, então mandaram bombardear o país.

Não sei; dizem.

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Prosseguindo no teste de nerdidade:

26. Você já virou a noite estudando? – Tècnicamente, não. Dormi por quase uma hora.
27. Você já fez algum curso do tipo passar/não passar só para preservar seu GPA? – A pergunta parece-me inaplicável ao Brasil. Vou pular.
28. Você já soube mais sobre o assunto do que o professor? – Já.
29. … mas continuou na aula porque “precisava da nota”? – Sim.
30. … e o professor admitiu isso a você? – Não.

Até agora, 20/29.

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O apagão dos cérebros

Sabe esse apagão que se abateu sobre as regiões Sul e Sudeste do Brasil na noite de terça-feira? Então. Constatei algumas coisas.

1 – A luz não caiu TOTALmente. Os LEDs de meu roteador ficaram acesos, assim como o rádio despertador esqueceu que horas eram mas ficou mostrando 00:00. Isso indica que havia energia nas linhas. Indica, também, que o que NÃO aconteceu foi o acionamento de algum mega-disjuntor em algum lugar; ainda estávamos conectados a Itaipu. Logo pensei no risco que isso envolve. Vai que alguém toma confiança de que “está sem luz mesmo” e vai mexer na rede. Torci para não ter notícia de gente eletrocutada no dia seguinte.

2 – Quando eu estava no Exército, tive uma instrução noturna em um acampamento. Aprendi que, na guerra, deve haver disciplina de luzes e sons. Aprendi que a luz de um cigarro aceso pode ser vista a centenas de metros de distância. Você definitivamente não pode acender lanterna, nem conversar nem fazer qualquer barulho, que o inimigo te vê e te escuta. Pois, na noite do apagão, deu para ver nìtidamente quem eram os vizinhos que iam fumar na janela, lá longe, no outro lado da rua. Impressionante.

3 – Minha ex-chefe me contou que teve gente dizendo que viu vaga-lume. Acredito que não, porque a cidade é um ambiente muito hostil para esses bichos, mas pode muito bem ser que sim nos bairros com mais vegetação – no Rio de Janeiro, estou falando na Zona Oeste, especialmente Vargem Grande e Recreio. Como ela lembrou muito bem, “a gente acha que não porque não tá vendo com essa luz toda em volta, mas eles ainda estão por aí”.

4 – Silêncio completo na vizinhança às onze da noite. No prédio vizinho, onde tem uma família que passa dia e noite aos berros entre si, todos calados. Então constatei que não estava ouvindo o burburinho de fundo das televisões ligadas, nem o vozerio difuso de todos os vizinhos. Minha conclusão é que, não tendo televisão, o povo ficou sem nada pra fazer e foi dormir. Ô gente dependente da caixinha eletrônica do diabo! Todo o mundo virou zumbi, pendurado nas imagens mágicas que Globo, SBT e Record despejam em seus cérebros embotados (sim, porque a classe média tem TV por assinatura só pra ostentar; o negócio mesmo é assistir aos mesmos canais do povão). Não foi só a falta de luz; o cérebro deles também vive em estado constante de apagão.

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Prosseguindo no teste da nerdidade:

16 – Você se senta na fileira da frente por mais de 20% do tempo? – Não. Muito arriscado.
17 – Você já teve uma “assiduidade perfeita”? – Não que chamassem assim ou se importassem, mas já, inúmeras vezes.
18 – Você já verificou uma equação em um texto de Ciência por conta própria? (i.e. prova experimental) – Já.
19 – Você já deduziu uma equação que encontrou em um texto de Ciência? – Já.
20 – … quando não tinha que fazê-lo? – Já.

Até agora, 16/20.

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Incertezas vespertinas

Para minha desgraça em uma vida tão atribulada pela falta de tempo quando há tanto que fazer ou que quero fazer, agora entrei em mais um blog reading spree. Sabe como é: quando você começa a ler um, que linca pra outro, que linca pra outro, e você vai lendo tudo, opiniões, pontos de vista sendo compartilhados racionalmente, emocionalmente. Fico cheio de inveja que esse pessoal escreva tão bem. E tenha tempo. Ou pareça ter. E entro em fluxo de consciência e, como já disse outras vezes, quem escreve bem tem o dom de fazer você querer escrever tão bem. E muito, para aprender com a prática e ficar igual a eles. Ao lado dos belogues que referencio aqui no lado direito da tela, existem dezenas, dezenas que visito de vez em quando ou uma vez e nunca mais, mas cujos URLs anoto. Acho que vou passar a mencioná-los aqui.

Como esta entrada do Cocadaboa: que me fez vir aqui.

Sou ateu.

Agora que choquei, confesso: isso não é plenamente verdade. Não sei se Deus existe. A cada dia, mais me convenço de que não existe. Fui criado em escolas católicas, induzido a crer na existência, bondade, sabedoria e amor ilimitados de Deus, mas não sei não. Prefiro dizer: a eventual existência de Deus é irrelevante.

De um lado, impossível provar que existe. Deus se descobre é pela fé. A prova é racional, a fé não é. Se você chegasse a Deus pela razão, estaria tornando a fé desnecessária, o que contraria Deus. (Eu sei que não; isso foi uma falácia. Mas é apenas incidental; prossigamos.)

Por outro lado, impossível provar que não existe. Então, os ateus também estão agindo de acordo com uma fé. E fé é o que não tenho.

Deus, se existir, é inatingível: se Ela quiser se esconder, conseguirá isso melhor do que ninguém (a onipotência faz parte do conceito). Então, inútil me preocupar em descobri-La ou me convencer a favor ou contra.

Deus, se existir, é amoral. Não pune pecados nem premia boas ações. “Ah, então tá liberado! Então, Ela encoraja o mal, é isso?” Não, não é isso. Se fosse assim, Deus seria Imoral. Mas um Deus imoral premiaria pecados e puniria boas ações. Não creio que Ela faça isso. Creio que, se existir, não esteja nem aí. Fez o mundo e foi tirar férias, foi fazer outros mundos, está ocupada com as galáxias ou tentando resolver o problema da expansão cósmica, que levará ao esfriamento dos buracos negros, ao esgarçamento do espaço e à extinção da vida. Não está nem aí para o que nos acontece, não ouve orações, não concede audiência, não manda catástrofes nem salva aquele sujeito que ficou doze horas esmagado embaixo do caminhão e saiu sem ferimentos. Imagine como se sente o Dr. Manhattan (este ponto é mais contundente para quem leu o quadrinho).

Se Deus é amoral, que diferença faz eu puxar Seu saco? Que Lhe importa se eu repetir palavras mágicas enquanto seguro um colar de contas? O que Ela ganha com isso?

A alternativa seria um Deus maligno: se eu não repetir trinta pais-nossos, ou comer carne na sexta-feira, ou chutar a imagem da santa, vou para o inferno sem sursis. Para isso não acontecer, puxo-Lhe o saco. Mas sempre me identifiquei com a causa dos que vivem sob um regime tirano. Minha tendência é à rebeldia contra quem me tira minha God-given liberdade. Inclusive contra Ela: e eu e Ela saberíamos que seriam só aparências, e eu diria, não faço mais, me mande pro Inferno se quiser, aliás Você vai me mandar pro Inferno se quiser mesmo apesar de toda a minha puxação de saco, porque é onipotente e não responde perante ninguém, não tem que dar satisfações a algum tribunal olímpico ou valhállico, então vou exercer minha liberdade no pouco de vida que me resta. Prefiro ser sincero. E, no Inferno, lá estaria eu, com um punho cerrado e elevado em sinal de protesto, dizendo, Você sabe que eu estou aqui porque estou certo, eu ganhei de você: pode me quebrar, mas não pode me dobrar.

Mas Deus, se existir, não é maligna. Isso não faz parte do pacote. Então, em Sua infinita misericórdia, também não me mandaria pro Inferno nem que eu fosse mau. Então, pra quer esquentar a cabeça? Preocupemo-nos com esta vida, com quem sente fome e não sabe ler.

Se Deus existir, é onipotente (faz parte do pacote). Então, pode alterar as leis da Física a qualquer momento, inclusive retroativamente, reescrevendo a História, e nem saberíamos que o universo está mudado. Pode me fazer crer nEla de uma hora para outra, e eu nem saberia que um dia não teria crido (está certo esse particípio?). Então, inútil rezar, inútil resistir, inútil tentar puxar Seu celestial saco. Vai fazer o que quiser fazer, e não há nada com que eu consiga convencê-La do contrário. Nem há nada que eu possa fazer por Ela tal que ela retribuísse me fazendo algum favor: onipotentes não costumam precisar de qualquer ajuda. Para que acender velas e jejuar, então? Só para satisfazer Seu incomensurável ego? Deus tem problema de auto-estima, precisa que Lhe digamos quanto Ela é linda e maravilhosa?

Se Deus existir, é indecifrável, certo? Então, não adianta pensar sobre Ela, tentar entendê-La, filosofar sobre Ela — só se for para ser uma filosofia de nós mesmos, mas aí é sobre nós, não sobre Ela. Da mesma forma, inútil perscrutar quais são Seus indecifráveis planos para mim.

Isso se Deus existisse. Não creio que exista, então não tenho o que pensar dEla. De todo modo, irrelevante.

Mas e Jesus Cristo: existiu? Sua existência não é impossível, mas também a tenho considerado cada vez mais improvável. Se tiver existido, coitado, terá sido um sujeito brilhante, que teria tentado ensinar civilidade às pessoas, uma espécie de live-and-let-live hippie, só que alguns milênios off the mark. Òbviamente, foi devidamente punido por isso.

Mas então, e se eu decidir viver pelo Evangelho, isso faz de mim um cristão? Eu, que sou ateu? Adoro a parábola dos trabalhadores que passam o dia na vinha pelo mesmo salário (que, para mim, se traduz em “cuide da sua vida em vez de ficar com inveja de seu vizinho”), bem como a do irmão que vai trabalhar após ter dito que não ia, enquanto o outro não foi, mesmo tendo dito que ia. Adoro a história de se atirar a primeira pedra, e tudo mais. Se eu concordar com as regras de boa vizinhança que estão ali, isso faz de mim um cristão? The horror, the horror. Espero que não, mas talvez seja tarde demais.

Então, de um lado tenho vergonha de não admitir que sou ateu: pelo certo, eu deveria admitir logo, como sugere o Cris Dias. De outro, nem sequer disso tenho certeza!

Recém-lidos:
Justice League #1 (maio de 1987), “Born Again”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 5 (setembro de 2008); Detective Comics #574 (maio de 1987), “…My Beginning… and My Probable End”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 6 (outubro de 2008);

http://yourinnergoddess.blogspot.com/ — Goddess Bless America, sobre a erosão dos direitos individuais numa América tornada insalubre pela direita religiosa;

http://diariodeumdoentedosnervos.blogspot.com/ (de meu ex-discípulo André. Como bom padawan, superou o mestre. Estou orgulhoso e o acrescentei aqui à direita);

http://infinitadiversidade.blogspot.com/ (da Cláudia Freitas, uma das pessoas que me recebeu tão amàvelmente no JETCOM em fevereiro de 1994, que Deus a tenha em Sua infinita ironia);

http://marjorierodrigues.wordpress.com/ (sugerido pelo Alex Castro);

http://www.horsepigcow.com/ (não sei nem quem é, mas me amarrei em seu cenário jornalístico-belogueiro-literário e lhe desejo todo o sucesso, além de ela ser uma gata);

http://johneaves.wordpress.com/ (de John Eaves, criador da esguia Enterprise-E);

http://drexfiles.wordpress.com/ (Drex Files, de Doug Drexler, CGI artist em Deep Space Nine);

http://www.warbirdregistry.org/ (que compila os aviões restaurados pelo mundo — desejo-lhes sorte);

http://www.umsabadoqualquer.com/ (Um Sábado Qualquer, genial);

http://www.malvados.com.br/ (Malvados — outra boa tira online);

http://verbeat.org/blogs/manualdominotauro/ (Manual do Minotauro — o belogue das GENIAIS tirinhas do Laerte, que, se Deus não existe, pelo menos ele é a coisa mais próxima que um cartunista alcança);

http://substantivolatil.com/ (da Mirian Bottan, musa do Cardoso).

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Alguém me explique a lei 11.922, art 20

É assim. Anteontem, saiu a lei 11.922, que tem 19 artigos tratando de créditos da Caixa Econômica Federal, financiamento imobiliário, fundo habitacional e sonho da casa própria. Beleza.

Aí, o artigo 20 estende o prazo para registrar ou entregar arma de fogo à Polícia Federal dentro do Estatuto do Desarmamento.

O artigo 21 trata da vigência da lei. Aí acaba o texto dela.

Peraí, volta. Que que diz o artigo 20?

Fui investigar. Tudo começou com a medida provisória 445 de 2008, cujos dois artigos tratavam de créditos da CEF com negócios imobiliários. Aí, a MP tramitou na Câmara dos Deputados, onde recebeu 18 emendas (detalhes aqui), todas pertinentes ao assunto. Todas exceto duas.

A emenda 16 autorizaria a DNIT (Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes) a fazer obras com determinados recursos que não os tratados pela MP. Naturalmente, estava fugindo do assunto, e o Deputado Duarte Nogueira se insurgiu contra sua aceitação. Foi indeferido. Recorreu e perdeu. Detalhes aqui. A emenda entrou na então-MP 445, futura-lei 11.922.

A outra emenda era a de número 10, do Deputado Sandro Mabel. Ele considerou oportuno estender o prazo relativo às armas (e, pelas razões que ele expôs, concordo com ele) e, out of the blue sky, pediu para enfiar lá um artigo relativo a isso nessa MP-mas-em-breve-lei. Mais detalhes aqui.

E ficou assim! Olhei todos os pareceres escritos e falados na Câmara, inclusive das comissões, e ninguém falou nada! Passou totalmente embaixo do radar!

Eu estava entendendo que, pela boa técnica legislativa, não se podia usar lei de um assunto para tratar de outro. Em matéria de lei orçamentária (que não é o caso), isso é até proibido.

Vou ver se alguém no Senado reparou nisso. Mas não ponho muita fé.

PREMONIÇÃO

Depois da notícia das chicotadas no trem, vi esta, do Laerte:

http://verbeat.org/blogs/manualdominotauro/2009/04/dragea-033.html

Detalhe: é da VÉSPERA.

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Pulling bags

Então, o Yahoo! publicou u’a matéria sobre a tendência que as pessoas podem ter ao puxa-saquismo em tempos de crise. Confesso que a li.

Mas vejam só este trecho:

“A [Consultora Fulana] diz que não é preciso envergonhar-se desse tipo de comportamento. O conselho dela para tempos de dificuldade econômica é: vá para o trabalho mais cedo, fique até mais tarde, assista às reuniões e ofereça-se como voluntário para fazer trabalho extra.”

Ué. No meu dicionário, chegar cedo, sair tarde e fazer trabalho extra chama-se TRABALHAR. Ela parece entender que isso seja puxar o saco.

Agora quem trabalha está puxando saco? Isso tem toda a cara da ética que impera neste País desde Martim Afonso. Você não pode trabalhar mais que os molóides, não pode (eventualmente) se destacar; você tem que ser medíocre. Têm que estar todos, em ordem unida, abaixo da média.*

Suponho, então, que quem puxa saco esteja trabalhando. Quer dizer, não posso trabalhar mais que outros, porque dirão que estou puxando saco. Que é só pra aparecer, apesar da produção medida e da receita maior para a empresa.

*Bonus points para quem percebeu que, por definição, é impossível estarem todos abaixo da média. Agora vá explicar isso pro Tenente [name withheld for privacy], meu instrutor no segundo ano do NPOR/IME, que queria todos os alunos acima da média.

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Pérolas matinais de segunda-feira

Algumas pessoas acham que isto é arte genial e espontânea: o “Grande Artista” encher a cara e sair pela madrugada aporrinhando os outros, gritando barbaridades e mostrando a bunda. Acham que isso é ser grande, é desbravar fronteiras, é demonstrar aonde podemos chegar se sonharmos alto.

Eu acho que é babaquice.

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Lei cínica número 47: se alguém disser a você que você está bem na fita e que a batata de outrem está assando, pode ter certeza de que é o contrário.

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Eu venho no metrô sendo tratado pior do que gado, sendo lembrado de minha condição proletária massificada nos subterrâneos de Metropolis, e ainda querem que eu fique de bom humor?

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Anotações — Isaac Asimov

Prossigo no intento de ler o núcleo da obra de Isaac Asimov: o pequeno conjunto de livros que o tornou célebre e que despertou o interesse de tanta gente na ficção científica. São menos de trinta livros, dos quais li os dois primeiros (Foundation e I, Robot) e estou no terceiro (Foundation and Empire). Creio que, agora, faltem vinte livros.

Diz-se que os dois primeiros concentram o que de melhor ele escreveu. Talvez ele tenha mesmo criado um choque em comparação com Autores anteriores, não sei. Talvez ele tenha trazido um pouco de humanidade a um campo que, de outro modo, é tido por árido. Talvez ele tenha sido o primeiro, ou um dos primeiros, a deixar as tecnicalidades de lado para se concentrar na trama. Pode ser. Por certo, o ponto rico do que ele escreve é um certo conteúdo de mistério, convidando o leitor a decifrar o que vai acontecer. Há, ainda, uma outra constante que identifiquei na obra e que indica muito da personalidade do escritor, que é uma confiança na Ciência e no racionalismo.

Os livros são mesmo bons, mas permitam-me dizer que Asimov é um tanto overrated. Em I, Robot, todos os personagens humanos, exceto a protagonista Susan Calvin, têm o pavio bem curto, estão sempre perdendo a paciência sem motivo, gritando, exasperando-se, de um modo irritante e sem explicação. Tenho duas hipóteses de trabalho para isso. A primeira é que o Autor, à época ainda pouco experiente, estivesse tentando criar personagens realistas, ele que era tão cerebral, e tenha errado na mão. Na tentativa de imitar as demais pessoas, teria acabado por fazer personagens excessivamente emocionais.

A segunda hipótese é que fosse um contraste intencional entre os defeituosos humanos, imprevisíveis e sempre à beira de um ataque de nervos, e os robôs, sempre equilibrados e racionais. Essa hipótese parece-me a melhor das duas, especialmente porque a Dra. Calvin aparece como um modelo de nerd respeitada — mais ou menos uma versão feminina e mais monótona do próprio Asimov — e difìcilmente perde a compostura. Porém, saiba que, com isso, o Autor acaba sendo repetitivo e inverossímil.

Além do mais, contrariando o caráter nerd do próprio Asimov, encontrei mais de um erro nos livros. Há momentos em que ele troca nomes, o que causa uma certa estranheza para quem vem lendo a história. É curioso que o editor original não tenha percebido isso, lá nos anos 40. Agora, passados mais de sessenta anos, naturalmente é tarde demais para uma correção, ainda mais que o Autor está morto.

Voltando à história da Fundação em si mesma: um dos atributos dos bons livros é estimularem você a procurar suas referências. Neste caso, Asimov já comentou que sua grande inspiração foi o Declínio e queda do Império Romano, onde Edward Gibbon demonstrou fatores sociais e econômicos como explicação para a evolução do império. Isso aparece na Fundação, cujo maior efeito sobre mim, até agora, é a vontade de ler o livro de Gibbon — todos os seis volumes.

Recém-lidos:
Justice League of America #244 (novembro de 1985);
2009-03-21 — I, Robot, de Isaac Asimov; Bantam, ISBN 0-553-29438-5;
2009-03-23 — O que muda com o novo Acordo Ortográfico, de Evanildo Bechara; 1a. edição, 2a. impressão, dezembro de 2008, Nova Fronteira: Lucerna, ISBN 978-85-209-2138-8 (cheio de erros de português — e olha que o Autor é imortal, membro da Academia de Ciências de Lisboa, gramático ilustre, autoridade na língua e o escambau);
Justice League of America #245 (dezembro de 1985);
Superman #416 (fevereiro de 1986), “The Einstein Connection”, publicada em Superman 70 anos no. 3 (dezembro de 2008);
Man of Steel #1 (1986), “From Out the Green Dawn…”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 1 (maio de 2008);
Man of Steel #4 (novembro de 1986), “Enemy Mine…“, publicada em Superman 70 anos no. 3;
Superman #2 (fevereiro de 1987), “The Secret Revealed”, publicada em Superman 70 anos no. 1 (setembro de 2008);
2009-04-11 — History of the DC Universe, de Marv Wolfman e George Pérez, ISBN 1-56389-798-9;
Detective Comics #572 (março de 1987), “Dick Sprang Remembers”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 6 (outubro de 2008).

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E ainda querem que eu pague para pagar?

Estava voltando do almoço e vi a manchete do jornal na banca: “veja aqui onde fazer declaração do imposto de renda de graça”.

Pensei: ué, em casa. Você vai à delegacia da Receita, pega o formulário, preenche e entrega. Tudo de graça. Ou, se tiver Internet em casa, baixa o programa, preenche e manda pela própria Internet, também de graça.

Eu, hein.

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Crie sua própria igreja

Não sei em outros lugares, mas, na Europa e, pelo pouco que sei, nos Estados Unidos mais ainda, é muito comum que as igrejas tenham letreiros junto à calçada, trazendo a programação de sermões ou eventos do gênero.

Na disputa por novos seguidores, algumas igrejas parecem não conhecer limites. Vejam só a foto que encontrei hoje:

Oquei, confesso minha cupidez. Primeiro, encontrei esta imagem, junto com seu broxante esclarecimento. Depois, segui o linque para o original. Você pode criar sua própria igreja, tal como fiz acima.

Recém-lidos:
Escape! e Evidence, contos de Isaac Asimov em I, Robot;
Tales of the Teen Titans #42 (maio de 1984), “The Eyes of Tara Markov”; #43 (junho de 1984), “Betrayal”; #44 (julho de 1984), “There Shall Come a Titan”; Tales of the Teen Titans Annual #3 (1984), “Finale”, publicadas em The New Teen Titans: the Judas Contract;
Superman #400 (outubro de 1984), páginas de Frank Miller publicadas em Superman 70 anos no. 1 (setembro de 2008) e “The Exile on the Edge of Eternity”, publicada em Coleção DC 70 anos no. 1 (maio de 2008).

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Who Watches Watchmen

Viu só? Tentei fazer um trocadilho com o título do filme, dizendo “quem assiste a Watchmen“, mas fracassei miseràvelmente. Faltou o “the”. Paciência.

O fato é que fui ver hoje. Gostei, é um bom filme; vale o preço que se paga.

Mais de metade do cinema eram nerds como eu, barrigudos, na faixa de 35 a 50 anos, alguns acompanhados de outros nerds, outros arrastando as parceiras. Previsível, ainda mais em meio de semana: se fizeram como eu, esperaram a garotada se divertir e foram no horário mais tranqüilo, para poderem apreciar. Algumas risadas e aplausos mostravam que tinham lido os quadrinhos.

ATENÇÃO: VOU COMENTAR O FILME. Se não quiser saber detalhes, taqui um linque para você pular fora agora: é a entrada anterior deste belogue, sobre o vídeo do bacalhau.

Você foi avisado.

A fita está bem feitinha, mesmo desde a abertura com os créditos. Com a montagem que fizeram, ela já conta logo o que aconteceu a Dollar Bill, ao Traça e à Silhueta sem ocupar tempo de história e tirando esses pormenores do caminho ao mesmo tempo em que supre muito bem a necessidade de contar o que foi acontecendo aos heróis.

Aliás, um detalhezinho bobo mas expressivo é a pequena variação sobre a clássica foto do beijo em Times Square ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Passado o início, o que mais chama atenção é uma diferença previsìvelmente necessária em relação ao original: a supressão de detalhes. Na maior parte, não tenho queixas, porque atrasariam o filme sem contribuir para a história. É claro que, se Alan Moore os pôs ali, ele teve suas razões e a obra não estaria completa sem eles, mas, diabos, então vá ler o quadrinho, que, afinal, é genial mesmo. O filme não os comporta. A saber (e lembrando-me enquanto digito): os conflitos conjugais do psiquiatra e das lésbicas na banca de jornal, as reações de pessoas nos interrogatórios que Rorschach faz nos bares, a senhoria de Rorschach, a segunda visita dele a Dreiberg (perdendo-se o humor da segunda fechadura perdida), as reaparições do policial que primeiro entrou no apartamento do Comediante, o pai do Dr. Manhattan jogando o relógio pela escada de incêndio, o início da vida profissional de Manhattan, o homicídio de Hollis Mason, o encontro organizado pelo Capitão Metrópole onde vemos o destino do Traça. Tales of the Black Freighter não conta, porque já havíamos sido avisados de que não estaria no filme. Mas também não estão lá os resmungos do jornaleiro, embora o próprio jornaleiro esteja e o garoto lendo o gibi também. Para mim, é óbvio que estão lá sòmente para benefício dos fãs, porque nada acrescentam.

Outros detalhes foram trocados, também a benefício da simplicidade. A visita de Rorschach à torre de Veidt foi substituída por uma visita de Dreiberg. A discussão sobre brinquedos juntou-se à “tentativa de homicídio”. No encontro frustrado da segunda geração de vigilantes, o Capitão Metrópolis foi limado, juntamente com seus sonhos infantilóides e patéticos; seu lugar foi assumido por Veidt, que aparece já arquitetando seu plano. A entrevista de Janey Slater à Nova Express deu lugar a sua aparição no estúdio. A morte do pai de Manhattan foi trocada pela de Wally Weaver. Várias falas mudaram de lugar na história ou, então, aparecem ditas por outras pessoas. Os clássicos de saifai do cine Utopia foram trocados por uma exibição de The Outer Limits. Etc., etc. Regra geral, não creio que a versão para cinema tenha saído pior por isso.

Por outro lado, alguns detalhes foram acrescentados desnecessàriamente: a cena de sexo estendida a bordo de Archie (e grosseiramente explícita, em que pesem os benefícios, knowwhatImean, knowwhatImean, winkwink, nudgenudge, saynomore, saynomore, knowwhatImean, knowwhatImean, say — no — more!); a porta do banheiro revelando a Nite Owl e Silk Spectre que Big Figure estava lá dentro; e a exageradamente gráfica remoção dos braços de Larry.

Também o teletransporte é representado com efeitos demais. O original é instantâneo e mais discreto. Em especial, o de Rorschach, logo no começo, é tão súbito que, na percepção subjetiva do próprio, ele só nota que foi transportado depois que termina a frase. No filme, demora-se demais, com perda do humor.

Um detalhe estranho: na tentativa de estupro de Sally Jupiter, depois de apanhar mais do que no quadrinho (gratuitamente, a meu ver), ela não reage mais! No original, ela só não luta porque não consegue se mexer. No filme, fica esperando, sem estar imobilizada. Pergunto-me por quê.

Um detalhe bacaninha: Lee Iacocca no bolso de Veidt.

Um detalhe que tem tudo a ver com o filme todo e era de se esperar do personagem (e não sei como Moore não pensou nisto): descobrimos quem matou John Kennedy. Bem… ao menos naquele mundo.

Um detalhe contemporâneo demais: lutas em câmera lenta. Depois de Matrix, todas as cenas de luta estão em câmera lenta. Pelo menos dá para acompanhar, mas Moore não teria pensado nisso. Não é um mero uso de CGI que não havia em 1985; é uma inserção despicienda.

Por um terceiro lado, o filme (e insisto: é um bom filme) peca na tentativa de, às vezes, ter que enfiar todas as falas sem ter tempo para isso. Várias ficaram aceleradas em relação ao quadrinho, de um modo em que pessoas reais não teriam tempo de pensar, desconjuntadas, descontextualizadas. O exemplo mais forte é o reencontro de Rorschach e Dreiberg no porão. Quando Dreiberg pergunta, “whatever happened to them?”, ele não está contemplativo, e assume um ar de cobrança.

Também assim se perderam vários comentários cínicos de Rorschach, que, além de acelerado, foi parcialmente descaracterizado. Em alguns trechos, emocional demais: p.ex. pedindo para Nite Owl levantar Archie para não bater nas falésias; ou implorando para Manhattan no finalzinho. O Rorschach original é absolutamente apático, indicando a gravidade de sua doença mental. Especialmente na prisão, permanece sereno e não se dirige a ninguém com raiva nem com ironia (as quais demonstra diante do psiquiatra no filme). Imagino, entretanto, que só quem estava atento aos quadrinhos fosse notar a inconsistência. E o ator que o faz está ótimo. Aliás, fìsicamente, Rorschach estava igualzinho, em especial a voz, que foi desperdiçada em narrações aceleradas. Para ouvir uma versão correta de seu diário (aliás a única, em função de quem lê): aqui (original) e aqui (cópia conjugada ao quadrinho, mas abafada).

Um detalhe que não acrescenta a quem leu o quadrinho, mas que compõe um pouco no filme (embora, infelizmente, também o torne mais óbvio): quando o gordo Larry tenta pegá-lo através das grades e pergunta o que ele tem, a resposta nos quadrinhos é “your fingers. My perspective”. No filme, “your fingers. My pleasure”.

A determinação cínica de Rorschach também foi atenuada. Antes de aplicar o golpe ao seqüestrador, ele hesita, o que não faz no quadrinho. Ademais, aquele golpe é indolor (o cérebro já não está ali para sentir) e misericordioso (porque final). No quadrinho, a forma de execução é mais cruel.

O Comediante: perfeito. Infelizmente, a cena com Moloch padece do mesmo mal de quererem dizer tudo sem contexto para isso. O único outro exemplo ruim que me ocorre é Fernanda Montenegro como a prostituta/cigana de A Hora da Estrela, esquecível e torta imitação do indecifrável.

Uma falha que considero mais severa, embora outros vão discordar: quando Manhattan levanta seu relógio da areia, o efeito é o mesmo que seria se o relógio estivesse pronto e submerso e sùbitamente emergisse, afastando os torrões que estão no caminho. Brutal demais. No original, o efeito mostra a extensão do domínio de Manhattan sobre a matéria: o relógio é reunido a partir da areia que está na superfície, sem sujeira, mostrando que não existe nenhuma parte oculta, que você está vendo tudo que há. Isso faz diferença, porque ele enxerga aquele balé cósmico que empolga os astrônomos e vê o equilíbrio de tudo, todos os instantes são como fotografias estáticas onde ele escolhe se focalizar. Não há violência nem restos deixados por suas ações, que respeitam a ordenação elegante do universo.

A respeito disso, houve uma tentativa de se mostrar a perspectiva temporal dele, com as superposições de instantes em um só. Ainda assim, penso que se perdeu o vigor do trecho, tão curto, em que ele contemplava uma fotografia nas areias de Marte. Mais uma vez, parece-me ter sido o esforço de se enfiar tudo em menos de três horas.

Por falar em perspectiva, tem umas que são iguaizinhas. A saber: a primeira, com o sangue do Comediante na calçada; a de Manhattan ao som de Wagner; a da chuva sobre o túmulo do Comediante; a do controle da multidão; as da penitenciária. Ah, quase todas, se não todas.

A atriz que faz a Silk Spectre é bem ruim, mas não tem problema; é a mó gata.

Finalmente, o Grande Plano de Ozymandias. Acho que ficou melhor no filme. O original é muito complexo, envolve mais personagens, mais absurdos e, francamente, é um deus ex machina que sempre considerei especialmente inverossímil, não correspondendo ao conjunto da obra. A versão do filme é mais simples, requer menos detalhes na história (Max Shea, a genética) e, francamente, mais coerente, usando uma ameaça concreta, conhecida de todos, sem mensagens psíquicas.

Falei mal à beça, mas são queixas típicas de quem, na verdade, gostou. Claro que não é perfeito e, até certo ponto, é uma colagem; mas há suficientes passagens iguais para agradar aos fãs do original, que vejo como o principal público alvo.

Não me dê ouvidos (ou, neste caso, olhos). Vá ver e julgar por si mesmo.

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Cabelos em pé

Acabo de ler aqui e aqui: um asteróide de trinta metros acaba de passar a 66 mil quilômetros da Terra.

Essa distância é menos que o dobro da órbita dos satélites de comunicação.

Se isso não lhe dá calafrios, vou lhe dar uma dica: multiplique Hiroshima por mil.

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Segundo elogio

Já que estou me sentindo particularmente bem, hoje vim aqui para fazer meu segundo elogio.

Uma das características mais nobres do ser humano é o impulso de contribuir para alguma obra maior. Os bons fãs de segmentos da cultura pop costumam verter esse impulso em fan fiction: histórias usando os mesmos personagens ou ambientadas no mesmo universo de Star Trek, Star Wars, Babylon 5, Harry Potter e pràticamente qualquer seriado, filme ou livro de sucesso entre nerds e geeks.

Com a tecnologia digital e o barateamento dos meios de produção, tem-se multiplicado um tipo de criação muito peculiar entre os trekkers: os fan films. Então, meia dúzia de integrantes de um fã-clube decide juntar seus recursos, sua pouca ou nenhuma habilidade e, doando seu tempo e seu dinheiro, divertem-se criando seus próprios episódios de Jornada nas Estrelas, que depois lançam na Web.

Algumas dessas criações chamaram minha atenção. Regra geral, sua qualidade é ruim, mas percebe-se imediatamente que são feitas com paixão. Esse é o caso de Star Trek: Hidden Frontier, Starship Exeter, Starship Farragut e Star Trek: New Voyages, que me parecem as mais célebres produções desse tipo (mas certamente não são as únicas, como uma googlada lhe permitirá descobrir).

Hidden Frontier está na sétima temporada e já gerou três spinoffs. O capitão tem uma das piores dicções que já vi em tela, os diálogos são óbvios, os uniformes são as típicas e patéticas cópias que cada um comprou de um fabricante diferente (com todas as variações de feitio e cor) e os atores (muito ruins) estão muito mal encaixados em cenários virtuais tirados de videogames. Mesmo assim, a série tem cinqüenta episódios no ar (ou melhor, nos cabos), o que é bem mais do que a média atingida por gente que só fala mal, feito eu. As outras séries têm menos episódios e são melhor produzidas, mostrando que o foco de HF está mais na quantidade: o negócio é gerar novos episódios contìnuamente, ainda que não perfeitos.

New Voyages foi uma das grandes surpresas de minha navegação incerta. A série estreou em 2004 e, desde então, tem seis episódios publicados. O produtor, diretor, roteirista, dono do estúdio e manda-chuva geral, James Cawley, despejou seus próprios sestércios — adquiridos como ator em Las Vegas — na montagem de uma ponte de comando idêntica à da série Clássica. Ele mesmo faz o Capitão Kirk em uma continuação que rotula como o quarto ano que a série não teve.

Em New Voyages, é claro que novamente os atores são ruins, mas você não poderia esperar alguém que igualasse o talento de um Leonard Nimoy ou a experiência de um DeForest Kelley. Nesse ponto, o maior pecado é que Cawley tenta overshatnerizar o próprio Shatner. Apesar disso, os valores de produção da série são notáveis. Não apenas os cenários e uniformes ficaram perfeitos. As tomadas de câmera são as mesmas dos episódios da Clássica. A iluminação das paredes é igual, nos mesmos tons pastéis de amarelo, roxo, verde. Há os mesmos efeitos sonoros, os mesmos closes, o mesmo tratamento portentoso de quando alguém se materializa na sala de transporte, o mesmo acompanhamento próximo das lutas. Apesar de toda a tecnologia que se tem hoje, até o teletransporte foi feito igual. As histórias são escritas profissionalmente e os diálogos convencem, como se estivessem sendo ditos pelos próprios Kirk, Spock, McCoy e Scotty.

Essa qualidade chamou a atenção de pessoas envolvidas na produção das séries oficiais de Jornada. Agora, entre os produtores está Doug Drexler (artista de CGI em Deep Space Nine), um dos ilustradores é o reverenciado Andrew Probert (criador dos desenhos da Enterprise nos filmes e da Enterprise-D), e há episódios escritos por D.C. Fontana e David Gerrold. Também já participaram Walter Koenig, George Takei, Grace Lee Whitney e J.G. Hertzler (General Martok).

New Voyages vem ganhando tanto reconhecimento que a Paramount assumiu a postura de não se meter e, mais recentemente, a série mudou de nome para Star Trek: Phase II — que é o nome informal dado à série de Jornada que teria sido produzida no fim dos anos 70 (e que acabou se tornando o primeiro filme de cinema).

Nessa esteira, alguns episódios que haviam sido escritos para Phase II em 1977 já estão sendo filmados: “Kitumba” e “The Child”. Este último havia sido escrito por Jon Povill, que era o editor e um dos principais criadores da Phase II original. Em 1988, esse episódio foi adaptado para A Nova Geração, mas, agora, retorna à forma original, tendo Povill como diretor. Além desses episódios, também estão filmando “Blood and Fire”, que havia sido escrito por David Gerrold para a NG em 1987, mas foi recusado à época.

Nos próximos episódios, o modelo de CGI da Enterprise vai ser alterado para tomar as feições que teria tido na Phase II original. É uma espécie de versão mais modesta da grande reforma que Probert desenhou e que se materializou no primeiro filme de cinema, em 1978.

Em particular, eu gostaria de comentar o quarto episódio, “World Enough and Time”. Trata-se de mais uma versão de A tempestade, de Shakespeare (e faz a referência). A produção visual é perfeita e começa com Takei revivendo o Capitão Sulu a bordo de sua Excelsior. Em um flashback, voltamos aos tempos da série Clássica e a Enterprise invade a Zona Neutra para resgatar um cargueiro em perigo, fazendo referência retroativa ao Kobayashi Maru. Há um breve entrevero com algumas Aves de Rapina (magnìficamente representado em CGI como as séries nunca conseguiram), e a Enterprise é aprisionada em um fenômeno cósmico. Òbviamente, começa uma corrida contra o tempo para libertá-la antes que seja destruída, e, para colher dados, Kirk envia o Tenente Sulu, que é interpretado por um ator tão jovem quanto Takei era em 1969. No retorno à Enterprise, ocorre um acidente com o teletransporte (sempre ele, mas em fan film a gente perdoa, porque é isso que a gente quer, até cair em coma alcoólico no drinking game). Por causa do acidente, quem volta para bordo é um Sulu trinta anos mais velho, que revive seus velhos tempos de Star Trek tanto quanto George Takei, que lhe dá vida.

O episódio só peca por ter mais de uma hora, extrapolando a duração dos originais em 20%. A meu ver, o problema foi não terem sabido cortar uma porção de diálogos que não contribuem para a história.

Não vou contar mais, mas sugiro baixar e assistir essa homenagem bem feita à série Clássica de Jornada nas Estrelas. O linque para “World Enough and Time” está aqui.

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Não se pense que eu só esteja falando mal do Acordo Ortotrágico para ser do contra. Justiça seja feita: as regras para os hífens são mais claras agora. Antes, eram muito casuísticas, mas agora são sistemáticas.

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Recém-lidos: Guia prático da nova ortografia, de Douglas Tufano; 1a. edição, agosto de 2008, Melhoramentos, ISBN 978-85-06-05464-2;
Little Lost Robot, conto de Isaac Asimov em I, Robot;
Tales of the Teen Titans #41 (abril de 1984), Baptism of Blood, publicada em The New Teen Titans: the Judas Contract.

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Segundo e iconoclástico resmungo contra o Acurto Ortográfico

Até dezembro de 1971, usavam-se acentos diferenciais no Brasil. Naquele ano, por força da lei 5765, deixamos de usá-los. Com isso, deixamos de diferenciar acerto (substantivo: eu acertei, isso foi um acerto) de acerto (do verbo acertar).

Haverá quem diga que o contexto sempre nos permitirá dizer qual das duas palavras está sendo usada. É verdade. Só que, com isso, o texto fica mais difícil, você leva mais tempo na leitura, tem que espremer mais raciocínio que seria melhor empregado interpretando o texto inteiro do que só uma palavrinha. O texto sofre, fica menos fluido, sua velocidade de leitura cai. Eu, pelo menos, sempre fico mais revoltado quando isso acontece.

Posso dar um exemplo de como a reforma de 1971 piorou minha vida sob alguns aspectos. Existe um livro de Monteiro Lobato chamado A reforma da Natureza (não da ortografia). A passagem mais criativa é onde Emília imagina papel nutritivo e com sabor, sugerindo que a fome do corpo seja tratada junto com a do espírito, de uma vez só. Você leria e, ato contínuo, comeria seu livro. Eis aqui o trecho original (cortesia do Scribd, onde você viola direitos autorais sem ser perturbado):

“– Muito simples. Em vez de impressos em papel de madeira, que só é comestível para o caruncho, eu farei os livros impressos em um papel fabricado de trigo e muito bem temperado. A tinta será estudada pelos químicos — uma tinta que não faça mal para o estômago. O leitor vai lendo o livro e comendo as folhas; lê uma, rasga-a e come. Quando chega ao fim da leitura está almoçado ou jantado. Que tal?

“A Rãzinha gostou tanto da idéia que até lambeu os beiços.

“– Ótimo, Emília! Isto é mais que uma idéia-mãe. E cada capítulo do livro será feito com papel de um certo gosto. As primeiras páginas terão gosto de sopa; as seguintes terão gosto de salada, de assado, de arroz, de tutu de feijão com torresmos. As últimas serão as da sobremesa — gosto de manjar branco, de pudim de laranja, de doce de batata.”

Quando li esse trecho pela primeira vez, interpretei essa última ocorrência da palavra gosto como o verbo gostar: eu gosto. Foi só anos depois que descobri que era o substantivo, sinônimo de sabor.

Como poderia Lobato ter resolvido a ambigüidade? No original mesmo, publicado lá pelos anos 40, ela estava resolvida, porque ele pôs acento em gôsto. Nos exemplares pós-1971, tratando-se do verbo, ele poderia ter posto um pronome reto eu, mas, no caso do substantivo, a ambigüidade não tem cura: você fica sem saber mesmo.

Apesar da “solução” de 1971, alguns acentos diferenciais permaneceram: pêra, pára e devo estar esquecendo outros.

Mas, agora, nossos Acadêmicos (que mais parecem os do Salgueiro do que os da Academia Brasileira de Letras) decidiram que não poderiam manter meio erro: tinham, por coerência, que ir até o fim e cometer um erro inteiro. Então, pelo novo Acordo Rotográfico, aboliram os acentos diferenciais que ainda restavam. Está lá, falaciosamente, no Anexo II do Acordo, item 5.4.1:

“As razões por que se suprime, nestes casos, o acento gráfico são as seguintes:

“a) Em primeiro lugar, por coerência com a abolição do acento gráfico já consagrada (…) pela Lei nº 5.765, de 18/12/1971 (…)”

As regras já não fazem sentido, a grafia já não tem lógica. Eles dizem que a pronúncia foi o principal critério da reforma, porém refazem as regras de modo que você não tenha como descobrir a pronúncia de nada a partir da leitura.

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Podia ter sido pior. De acordo com o mesmo Anexo II, o acordo de 1986 abordou o fato de que algumas palavras levavam acento circunflexo no Brasil e agudo em Portugal (p.ex.: cômico x cómico). Para resolver esse problema, trouxe uma solução muito simples: pretendeu abolir TODOS os acentos da língua. O acordo de 1986 só não foi adiante porque os portugueses o rejeitaram em massa. Aí, os luminares decidiram repensar o caso e descobriram que, puxa vida, olha só, essa dupla acentuação só acontecia em 1,27 % (sim, isso mesmo: um vírgula 27 por cento) das palavras acentuadas! Por causa delas iam eliminar TODOS os acentos!

Repensado o caso, os gênios da Lexicologia descobriram que a eliminação dos acentos traria algumas dificuldades, a saber:

– ao ler as palavras, todo o mundo correria o risco de passar a pronunciá-las errado;

-ao aprender palavras pouco usadas (especialmente as de uso científico), o leitor correria o risco de aprender a pronunciá-las errado;

– de modo geral, seria mais difícil aprender a língua;

– ficaria mais difícil descobrir se o Autor de um texto estaria dizendo análise ou analise (“contanto que eu analise”), fábrica ou fabrica (“a Embraer fabrica aviões”), etc.

Vem cá. Primeiro, os caras resolvem abolir 98,73% dos acentos porque os outros 1,27% têm grafia variável; depois de rejeitada a medida, descobrem que era melhor avaliar o caso antes de tomá-la; e, finalmente, descobrem que sem os acentos ninguém ia mais conseguir ler nada? Qual foi a parte que eu perdi?

Tenho mais perguntas. Vocês já notaram que isso só acontece entre Brasil e Portugal? Nunca ouvi falar de ter havido imbroglios assim entre, por exemplo, a França, a Bélgica e o Canadá; ou entre Reino Unido, Estados Unidos, Austrália, África do Sul e Nova Zelândia. Só nós, os numerosíssimos países falantes do português, é que ficamos dando essas voltas.

E pra que mudar se a gente continua conseguindo ler tudo?

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Da última vez, comentei que havia algumas próclises e ortografias proibidas no texto do Acordo. Pra que não se pense que estou inventando ou que os exemplos são poucos, trago-vos mais alguns:

– No Anexo II, item 5.3(b): “com a possibilidade de, sem acentos gráficos, se intensificar a tendência (…)”.

– No Anexo II, item 5.4.1(a): “cor (ô), substantivo, e cor (ó), elemento da locação de cor;” — exceto que o certo é locução, não locação! Não tem ninguém alugando nada!

– No Anexo II, item 7.1: “Se, de fato, se abolisse o uso restritivo (…)”

Veja bem, não é que tenha que sair perfeito. É que quem está cagando a regra são eles. Então, quem tinha que PRESTAR ATENÇÃO no que está fazendo e FAZER CERTO são eles, não eu!

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Já que não dá pra respeitar o que esses caras escrevem, estou pensando sèriamente em esquecer tudo isso. Estou — juro — disposto a voltar a escrever conforme pré-1971, com todos os acentos diferenciais que foram extintos então — e olha que nasci depois da reforma de 71. Assim, no trabalho eu vou até respeitar o Acordo. Mas, aqui no belogue e no Cantinho, realmente cogito se não vou passar a escrever cabêlo e obsoléto (sim, eu sei que obsoléto não levava acento).

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Recém-lidas:
Action Comics #544 (junho de 1983), primeira história, publicada em Superman 70 anos no. 3 (dezembro de 2008);
Green Lantern #172 (janeiro de 1984), primeira história, publicada em Coleção DC 70 anos no. 2 (junho de 2008);
The New Teen Titans #39 (fevereiro de 1984) e #40 (março de 1984), publicadas em The New Teen Titans: the Judas Contract.

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De início, a idéia me pareceu ótima. Adquiri-a em visita à casa de T’Riet e Othon, em Houston. Foi assim: fiqui aqui ao computador o dia inteiro e, como faz muita gente, pus uma trilha sonora no drive. Exceto que, em vez de CD ou Media Player, a trilha era um DVD, que ficou rodando. O vídeo até estava ligado, mas eu queria era ficar ouvindo, com todos os diálogos e efeitos sonoros.

Um dos DVDs que rodei hoje foi Star Trek: the Motion Picture, edição do diretor (outros foram outros filmes da seqüência).

Pronto: agora à noite, meu cérebro não pára de ficar reproduzindo a música do encontro dos klingons com V’Ger. Inteira, com todas as trompas, fagotes, violinos e violoncelos. Quando acaba, começa de novo.

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Primeiro e improvável elogio

Antes: minha irmã me ligou alguns minutos atrás para dizer que o Salgueiro foi campeão do desfile de Carnaval no Rio e que, por isso, estão falando em fechar a praça Saenz Peña para comemorar. Para bom entendedor, meia frase basta: isso signif tudo mij e vomit, vdros quebr, tiros ocasion, tmlto e depred generaliz. Ah, que maravilha morar numa terra de tanta brasilidade, tanta malemolência, tanta ginga e selvageria.

E agora, vamos à mensagem de hoje.

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Eu vivo falando mal de tudo. Então, para variar do padrão, hoje vou elogiar uma pequena peça tecnológica.

Meu computador anterior rodava Windows 2000. Nessa versão do sistema, o Windows Explorer permite a busca de arquivos: você indica o diretório onde o arquivo deve estar, o nome do arquivo, parte dele ou uma seqüência de texto contida nele, e ele encontra o arquivo para você. Um dos problemas é que essa busca é muito lenta.

Até que instalei o Vista (não tive escolha: veio assim de fábrica). A busca de arquivos do Windows Explorer é desastrosa. Ele só tem um campo para você preencher com palavra-chave, que pode ser o nome do arquivo ou texto contido no arquivo. A busca é extremamente lenta e, depois de alguns testes, confirmei que o Windows não conseguia encontrar um determinado arquivo ainda que fosse o único do diretório e eu apontasse qual diretório era esse. Além disso, retorna resultados que não se enquadram nos parâmetros de busca apontados — ou, em outras palavras, que não têm nada a ver com o que eu procurava e que só me fazem perder tempo. Devem ser os algoritmos heurísticos da Micro$oft. Sabemos no que deu o último computador que foi concebido para ser programado heuristicamente.

Então, fui à Web e catei uma meia dúzia de programinhas de busca ou gerenciamento de arquivos. Encontrei uma pequena maravilha chamada Effective File Search 5.5, de uma empresinha chamada Sowsoft. É um sharewarezinho básico como há décadas estamos acostumados a ver.

Sem sacanagem: o programa é levíssimo e rápido como um trem britânico em passagem de nível. A melhor parte são as opções de busca: você pode especificar tamanhos mínimo e máximo do arquivo que está procurando, data mínima e máxima, e texto contido no arquivo. Tamanhos e datas já ajudam pra caramba: você sabe que baixou aquele PDF entre dezembro de 2007 e março de 2008, sabe que pesa mais de 100 kB mas menos de 1 MB, só esqueceu o nome. Além disso, ele te dá operadores booleanos: é a opção de procurar arquivos com um nome “ou” outro nome, “e não” aqueloutro nome.

E é rápido. Mal você clica OK, ele já te dá os resultados precisos que você estava procurando, sem a demora inútil e burra do Vista. Para minha surpresa, descobri recentemente que ele dá alguns poucos resultados falsos, mas nisso não se compara ao Vista, que gera muito mais resultados falsos do que verdadeiros. E, como ele gera poucos resultados, é muito mais fácil identificar os falsos e verdadeiros do que no Windows, onde você fica um tempão rolando a tela para chegar no arquivo que procura.

Na instalação, o EFS ainda insere um atalho no menu de botão direito do Windows Explorer. Ali, onde você costuma encontrar “explorar’, “copiar”, “colar”, “excluir”, “criar atalho”, agora tenho também “effective search”.

Usuários de shareware têm o hábito de continuar usando a versão que baixaram e considerar que sejam apenas um mal necessário aqueles popups de lembrete “registre-se já para ter a versão pro”. No caso do EFS, o programa simplesmente pára de funcionar após trinta dias. Mas é tão bom que me fez pensar na justiça de retribuir a quem o criou da maneira mais justa e, além do mais, eu realmente queria continuar a usá-lo honestamente. Então, abri a mão: fui ao saite, paguei os R$ 70 pela licença, e eles me enviaram o código de desbloqueio por email. Bastou clicar e voilà, está funcionando para sempre, sem popups e sem spyware ou algum outro código malicioso oculto (meu firewall é um Comodo 3.5, sensível e atento. Eu saberia). Dinheiro bem e justamente gasto.

Um usuário mais avançado poderia argumentar que o EFS não valesse R$ 70, já que, certamente, foi construído em cima de um código mixuruca que um micreiro das antigas conseguiria imaginar na sua garagem em menos de meia hora. Mas você paga pela comodidade: eu não sei escrever o código de busca mixuruca. Tenho certeza de que seria fácil aprendê-lo, mas quanto tempo tenho? Então, prefiro pagar a quem me fez o conveniente e gentil serviço de trazê-lo pronto.

É assim: a empresa faz um programa eficaz, leve, simples, eficiente, e o cliente satisfeito a remunera por isso. Tão satisfeito que ainda faz propaganda de graça. É assim que devia funcionar com todos: dinheiro honesto ganho de maneira honesta.

Recém-lidas:
Wonder Woman #286 (dezembro de 1981), primeira história, publicada em Coleção DC 70 anos no. 3 (julho de 2008);
Justice League of America #200 (março de 1982), páginas selecionadas publicadas em Coleção DC 70 anos no. 5 (setembro de 2008).

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O Carnaval começou bem

Acabo de ler que Sérgio Naya morreu hoje na Bahia. Sòzinho.

Para uma família, deve ser muito triste ler os comentários que já começaram a aparecer no saite dO Globo: “já foi tarde”, “tomara que o túmulo desabe” etc. Mas você colhe o que planta.

Até há pouco, a riqueza do ex-deputado estava inatingível, impedindo o pagamento de suas vítimas. Diz o mesmo saite que o advogado delas considera que, agora, vá ser mais fácil encontrar esses bens, porque, para que sejam herdados, terão que aparecer em juízo.

Infelizmente, discordo. Existem meios e modos, especialmente em um país ainda não informatizado. Além disso, os interessados sempre poderão continuar a curtir a fortuna sem que ela esteja em seu nome, quanto mais não seja porque ninguém virá reclamá-la. Formalidades jurídicas não importam quando o exercício do poder se faz na vida prática.

Mas o comentário mais sábio que li foi também o mais sucinto (como costuma ser): a esta hora, ele está curtindo a vida no Taiti.

Recém-lidos: Catch That Rabbit e Liar!, contos de Isaac Asimov em I, Robot;
Justice League of America #168 (julho de 1979), publicada em Coleção DC 70 anos no. 5 (setembro de 2008);
Super-Star Holiday Special (abril de 1980), segunda história, publicada em Coleção DC 70 anos no. 6 (outubro de 2008).

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Macacos entre os leitores

Em inglês, quando um texto é um absurdo, costuma-se dizer que foi escrito não por um ser humano, mas por um macaco treinado.

Aí, um jornal nova-iorquino satirizou recente incidente onde um chimpanzé foi morto a tiros pela polícia: uma charge mostra o chimpanzé morto e um policial dizendo ao outro, “vamos ter que encontrar outro para escrever os pacotes de incentivo econômico”.

No saite dO Globo On, o que não falta à notícia são comentários irados (43 até agora), acusando o jornal de extremo racismo contra o Obama.

Convém não esquecer que não é o próprio Obama quem escreve as leis que aprova; que o verdadeiro Autor é o Congresso.

Acho que o racismo está na cabeça de quem comenta. De onde estou vendo, eles confessam que consideram o Obama comparável a um macaco — não necessariamente o cartunista considera.

Recém-lidas:
Justice League of America #166 (maio de 1979) e #167 (junho de 1979), ambas publicadas em Coleção DC 70 anos no. 5 (setembro de 2008).

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Primeiro grande resmungo sobre o Aborto Ortográfico

Conforme eu disse há mais de uma semana, estou mesmo estudando esta desgraça lingÜística (orgulhosamente a favor do trema — ainda vai ter passeata em defesa dos tremas discriminados).

Uma das dificuldades com que já me deparo é que não posso confiar no texto do próprio Acordo conforme baixei do saite da Presidência. Granted, os textos legais de lá sempre dizem que não substituem o original publicado no Diário oficial. Mesmo assim, quem é que vai ler direto no D.O.? A gente baixa e confia. Exceto que não.

Por exemplo: em português, é proibido usar pronome oblíquo depois de vírgula. Isso não tem nada a ver com ortografia; é regra de sintaxe. Mas veja o que encontrei no texto:

“… entre os princípios em que assenta a ortografia portuguesa, se privilegiou o critério fonético…”

Além disso, encontrei alguns casos de vírgula entre sujeito e predicado (uma heresia que nem a tiro de canhão 37 a gente consegue extinguir) e a estranha esquizofrenia segundo a qual, às vezes, o texto suprime o trema em sua própria redação (antecipando aquilo que ainda não estava em vigor), mas outras vezes não.

Nesse ponto, pergunto-me se estou estudando no exemplar correto do Acordo. Mas, então, onde?! No saite da Academia Brasileira de Letras, talvez? Lá não tem.

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Ontem, uma advogada veio me dizer que, agora, cocô não vai mais ter acento. Eu contestei que sim, vai continuar a ter acento sim, já que é oxítona terminada em o. E fiquei indignado: como poderiam, como ousariam tirar os acentos das oxítonas terminadas em a, e, o? Não pode; a tendência natural da língua portuguesa é fazer de todas as palavras paroxítonas, o que faz com que essas oxítonas tenham que ser acentuadas para indicar que saem do padrão. Com a displicência de quem vê que vai levar o xeque-mate, ela saiu dizendo que não sabia e que, segundo o Globo Esporte, não saberemos mais o que estaremos comendo: se côco ou se outra coisa.

Primeiro: então Globo Esporte virou autoridade em matéria de ortografia?

Segundo: essa anedota (real embora) revela um aspecto mais profundo e mais nefasto do Acordo Ortopédico. A esta altura, já tem gente acreditando que TODOS OS ACENTOS VÃO CAIR! Para alguns, seria muito conveniente não ter que acentuar mais nada: não precisariam aprender aquilo que nunca souberam.

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Apidêite do apedeuta: na caixa de comentários, aqui no final deste texto de hoje, você vê o estranho caso de uma professora que declarou a sua turma que não vai ensinar-lhes a reforma e que, na verdade, a reforma oficial mesmo é só em 2010. Não sei de onde ela tirou que o Acordo não seja oficial, nem de onde sacou 2010. Se tivesse lido o texto do Acordo, veria que o fim da transição é em 2012. Aliás, deve ser de propósito, para coincidir com o fim do mundo conforme o calendário maia e, assim, ninguém ter que aprender nada.

Agora, essa “professora” mostra uma atitude comuníssima em brasileiros, especialmente os que declaram imposto de renda: vai deixar para o último minuto, e nem um segundo antes. Uma vergonha.

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Procurando por outra coisa, deparei-me com esta coleção de pequenos textos de George Orwell. Se você clicar neste linque que estou fornecendo, vai cair em um ensaio interessantíssimo, publicado em 1945, ainda atualizado (como, de resto, 1984 também está) e chamado Politics and the English Language. Trata-se de uma sagaz análise sobre como a língua inglesa está se deteriorando e como essa deterioração facilita, ou melhor, é aproveitada para finalidades políticas escusas que acabam por retroalimentá-la positivamente.

A leitura é fluida e acaba servindo como uma versão resumida do apêndice de 1984 (inédito à época mas perto de ser concluído), no qual Orwell descreve a criação do Newspeak, a “nova linguagem” do Partido de sua distopia. Faz tempo que estou com vontade de traduzir as passagens mais relevantes desse apêndice, que é uma espécie de manual do método mediante o qual o Partido pretende reduzir a possibilidade de discursos não ortodoxos. Extinguindo-se palavras da língua e amarrando-se a sintaxe, torna-se impossível a formulação de certos conceitos. De fato: se você não tem um nome para sua idéia, você não consegue comunicá-la a outros e, na verdade, será impossível conduzir raciocínios com ela. Efetivamente, a idéia se tornará inconcebível. Diferentemente das demais línguas, Newspeak não pretende expandir, mas limitar a variedade de pensamentos possíveis.

Em particular, há um trecho do ensaio que ecoa com precisão uma passagem do livro. É onde ele menciona que, ao meramente repetir o discurso ortodoxo, você se torna um autômato, e sua laringe emite sons sem que o cérebro disso se aperceba, anestesiado como está. Se a luz bater no seu óculos e fizer determinado reflexo, vai parecer que o óculos são discos brancos, sem olhos por trás, indicando que ali não há uma pessoa. Ora, essa é exatamente a descrição que ele faz de um sujeito que repetia o discurso vazio do Partido na segunda cena do refeitório em 1984.

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Recém-lidas:
Superman #292 (outubro de 1975), primeira história, publicada em Superman 70 anos no. 3 (dezembro de 2008);
The Flash Spectacular (DC Special Series #11, fevereiro de 1978), publicada em Coleção DC 70 anos no. 4 (agosto de 2008);
Batman Spectacular (DC Special Series #15, verão de 1978), terceira história, publicada em Coleção DC 70 anos no. 6 (outubro de 2008).

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Chewbacca defense at the Academy

Genuìnamente tentando estudar o Acordo Ortográfico. Mas, como podem ver, ainda escrevo pelas regras anteriores a 1971, onde genuìnamente levava acento grave.

Pois é, como dizia meu professor de Direito civil, um lodaçal. Base XI, item 2o., alínea “a”, exemplifica uma regra para proparoxítonas com a pura expressão de como me sinto: “sôfrego, sonâmbulo, trôpego”.

O texto do Acordo, conforme baixei da página da Presidência, vem com alguns erros de transcrição que me fazem perder a fé nesse que é o conteúdo oficial divulgado pelo governo. Então, fui procurar o mesmo texto na Biblioteca Nacional. Para minha alegria, de lá salvei um PDF, que, depois constatei, sofre de mutilação textual: algumas linhas foram suprimidas e delas só vemos as cabecinhas de algumas letras. Deve ter sido na conversão de Word para PDF.

Amargurado, procurei o saite da Academia Brasileira de Letras, o STF de nossa língua, Grandes Pajés da tribo, doutos exegetas das Tábuas da Lei, autoridades máximas a quem nos voltarmos em momentos de grande comoção, confusão e consternação nacional.

Olha só o que encontrei na página de apresentação da ABL!

“Composta por 40 membros efetivos e perpétuos, eleitos em votação secreta e 20 sócios correspondentes estrangeiros, (…) tem por fim o cultivo da língua e a literatura nacional.”

Que me perdoe o Alex Castro, mas este é um momento em que não se pode errar no português. Saite da ABL não é notinha de rodapé nem aula de Matemática. Então, vali-me de um serviço que a Academia oferece, no qual você manda sua dúvida de Português e a instituição responde. Taqui a missiva.

“Na página de apresentação da ABL (‘Quem Somos’), encontra-se o seguinte trecho:

“‘Composta por 40 membros efetivos e perpétuos, eleitos em votação secreta e 20 sócios correspondentes estrangeiros,’

“Minha dúvida é: não falta uma vírgula após o aposto? Assim: ’40 membros efetivos e perpétuos, eleitos em votação secreta, e 20 sócios…’

“Uma segunda dúvida é motivada pelo seguinte trecho: ‘tem por fim o cultivo da língua e a literatura nacional’.

“Conforme está redigido, o texto poderia reduzir-se a dizer que a ABL tem por fim o cultivo (da língua) e a literatura. O cultivo e a literatura. Há simetria nesse texto? Não seria mais cabível dizer ‘… o cultivo da língua e DA literatura nacional’?

“Uma terceira dúvida: se a missão da Academia é a preservação (ou, em suas palavras, o cultivo) da língua, não deveria sua página de apresentação ser a primeira a dar o exemplo? É bem verdade que o texto continua compreensível conforme está, mas seu objeto não é outro assunto, nem a língua é nele meramente instrumental. De fato, é a página de apresentação, a oportunidade primeira de se estabelecer um padrão e demonstrar autoridade sobre a matéria. Se falhar a ABL, bastião mais nuclear da língua, é que nada mais há. A ela se volta o cidadão em busca de raízes — para sua frustração.

“São minhas dúvidas para hoje.”

Cabe um debate sobre a melhor concordância: “da língua e da literatura nacionais”? Mas preferi não entrar nisso; a falta de simetria era mais chocante.

Veja bem, não estou criticando alguma página informal da Web. Saite da ABL é coisa séria; é lugar onde eles têm que ser os primeiros a dar o exemplo. O padrão para eles tem que ser muito mais alto do que para mim, porque eles têm que ser o padrão.

Se for para fazerem como está, melhor fechar a porta e ir pra casa. Se bem que, conforme ouvi quando comentei isso, o Brasil inteiro tem que fechar a porta e ir pra casa.

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Apidêite em 15/02/2009: hoje recebi um email de resposta da Academia: “concordamos com suas palavras”. Mas não mudaram nada no saite!

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A transitoriedade da arte

Um artista de nome Scott Wade mora em uma estrada de terra. Essa terra é feita principalmente de calcário, que deixa uma poeira bem fininha. Todo carro que percorre a estrada a mais do que a velocidade de uma tartaruga a galope (inclusive o carro de Wade) levanta atrás de si uma nuvem de poeira branca que forma um filme no vidro traseiro.

Deparando-se com uma tábula rasa para a arte toda vez que sai com seu carro, Scott gerou este magnífico resultado.

Recém-lida: Justice League of America #122 (setembro de 1975).

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Talvez um disruptor assustasse mais

Saiu no Denver News: câmeras de vigilância flagram ladrão assaltando uma 7-Eleven com uma bat’leth. Exceto que não era uma bat’leth de verdade, mas uma miniatura.

O melhor são os comentários:

“A 7-Eleven tinha que mandar os caixas guardarem tribbles atrás do balcão para eventualidades como essa.”

“Sim, mas o grão não pode estar envenenado.”

“Essa é uma boa hora para a 7-Eleven usar borgs como seguranças. ‘We are the Borg. Robberies are futile. You will be assimilated into prison. Existence, as you know it, is over . From this time forward, you will service inmates in prison.'”

“This man shows no honor, and brings disgrace upon his family.”

“Aposto que havia bloodwine envolvido.”

“É uma pena ver que a crise abalou até o Império Klingon a ponto de recorrerem ao crime.”

“Isso já aconteceu no episódio 55. Acho que os romulanos estão envolvidos e deveriam ser investigados.”

“Today is a good day to rob!”

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Apidêite

Alguns especialistas atentos denunciaram que não era realmente uma bat’leth, mas uma Valdris. Não era sequer uma arma klingon. Falha minha, pois eu deveria saber disso. Afinal, klingons não são manés.

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Bioética para quem gosta de saifai

Agora que o Genoma está decifrado, a Genética anda brincando com algumas potencialidades bem sérias que, até pouco tempo atrás, só interessavam a quem gostava de ficção científica. Em particular, existe uma possibilidade (bastante concreta mesmo que hoje ainda não esteja disponível) de os pais interferirem no código genético de seus filhos.

Abstraindo de governos totalitários e seus padrões eugênicos (Admirável Mundo Novo, alguém?), muita gente concordaria em se valer disso. Eu sou um deles. Afinal, você aproveitaria toda chance de evitar que seu filho nascesse com alguma doença séria, ou autismo, síndrome de
Down, diabete ou mesmo alguma perturbação menor, como miopia. Queremos o melhor para nossos filhos, não é verdade?

Mas para quem faríamos isso? No momento em que interfere no genótipo, você pensa que está favorecendo seu filho. Está mesmo? Considere que ele ainda não existe. Você não está dando nada a ninguém, porque o donatário não está lá para receber. “Ah, mas está sim, estará aqui no futuro, vai aproveitar os benefícios no futuro.” Sim, mas seu filho, hoje, não recebe nada, porque não existe. Existe um conjunto de células, ou apenas uma célula, com a qual você interfere. A conseqüência é uma criança saudável, mas a criança saudável já nasce assim. Para ela, nunca houve um estado não saudável, nem mudança de um estado para outro. Ela sempre foi saudável. Você poderia pensar, “tem que me agradecer por isso, sem interferência não teria nascido assim”. Não teria, mas teria nascido de algum jeito. Ou não teria nascido. Para ela tanto faz, porque, seja como for que nasça, dali para a frente ela vai se virar, vai continuar existindo. O filho dirá lìcitamente ao pai: você não ME fez nada. Fez alguma coisa, mas não a mim, porque não havia eu. Qualquer coisa que tenha sido feita à criança, só terá sido feita depois de seu nascimento (essa vírgula era proibida, mas útil à compreensão da frase).

Considere, ainda, que o embrião não teve escolha nem foi ouvido. Imagine a possibilidade de que, afinal, ele escolhesse nascer como Down. A convenção social dirá que ele seria infeliz e que essa escolha não faz sentido. Mas lembre-se de que o Down pode não saber que é Down. A vida nunca foi de outro jeito para ele, assim como o cego que nasce cego não sabe o que é enxergar, nem, portanto, tem padrão de comparação. A vida, para eles, sempre foi isso, então é possível que estejam satisfeitos. É como a Matemática do colégio onde estudei, que era ensinada pelo método
Papy. Diziam-me: esse método é mais difícil, não é? E eu, perplexo, perguntava: mais difícil do que o quê? Não conheço outra; para mim, Matemática é isso.

Se o embrião não tem escolha, será que o estamos beneficiando? Se o embrião ainda não é gente (aliás, não é nem embrião: é zigoto), não existe ainda a pessoa. Na óptica do Direito, não existe o sujeito de direitos; ele não tem direitos nem liberdade, porque, antes de tudo, ele não é. Não confunda com uma situação em que a pessoa está dormindo, ausente, em coma ou de outro modo incapacitada. “Você não estava, então eu tomei a liberdade de lavar a louça.” “Você ainda estava na barriga de sua mãe, então reprogramamos suas células.” Não. Nessas frases, não haveria o “você” nem o “suas”. Ninguém é destinatário dessas ações, porque a pessoa não existe, nem sequer o feto. Não há ninguém na barriga da mãe.

Mas estamos beneficiando alguém. Precisando de uma resposta, meu foco se volta para o outro interessado: os pais. Submeto esta hipótese a sua apreciação: ao escolher características genéticas do filho, os pais não beneficiam o filho; beneficiam a si mesmos. Preocupam-se com suas escolhas, com seu bem-estar, seu alívio de ter um filho com tais ou quais atributos. Atenção: não estou dizendo que estejam errados, nem estou dizendo que não amam os filhos. É só que, enquanto o filho não nasce, não há nem o “a quem” amar. Estou só apontando quem realmente é o interessado na manipulação genética. Se pensarmos no filho, a pergunta nem se aplica: enquanto ele nem existe, não faz sentido dizer que o “quem” seja ele. Ele só existe depois que já houve a manipulação.

***

Em outro tópico, estive novamente no KFC da rua São José, no Centro do Rio de Janeiro. É impressionante: de todas as vezes em que fui lá e pedi uma refeição, nunca acertaram meu pedido. Eu digo: feijão, salada KFC e purée de batata. Eles trazem arroz, salada KFC e purée de batata. Ou: feijão, salada KFC e arroz. Ou: feijão, salada KFC e farofa. Ou: feijão, arroz e batata frita. É consistente mesmo, tem direito até a certificação ISO 9000: erram meu pedido em 100% das vezes.

Pergunta Tostines: eles são desqualificados porque o salário é baixo ou o salário é baixo porque são desqualificados? Do alto de minha crueldade resmungona liberalista, acredito na segunda hipótese. A óptica do coitadismo preferirá a primeira.

Beiços-caídos no KFC me fazem pensar em eugenia profilática.

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Recém-lido: Reason, conto de Isaac Asimov onde, a partir do raciocínio lógico, um robô se torna um fanático religioso.

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Os encargos suspensos

Às vezes eu comento como a imprensa brasileira anda açodada e como tem gente desqualificada nas redações, agindo na contramão dos jornalistas responsáveis que não merecem meu enxovalhamento.

Olhem só esta. O Yahoo! Brasil reproduz a Agência Estado, que teria criado a seguinte matéria.

http://br.noticias.yahoo.com/s/06022009/25/mundo-juiza-retira-acusacao-prisioneiro-guantanamo.html

O texto diz assim: “A juíza Susan J. Crawford, que supervisiona os julgamentos por terrorismo na base militar norte-americana de Guantánamo, retirou ontem as acusações contra (…) um suposto terrorista saudita da Al-Qaeda (…)”

Juízes não “retiram acusações”. Juízes julgam. Quem acusa (ou “retira acusação”) é uma das partes do processo — no Brasil, é o Ministério Público, que, aliás, está impedido de “retirar acusações”. Lá não sei quem faz isso. Sei que é um órgão estatal, mas o que importa é que não é a própria juíza.

O texto prossegue: “Os encargos contra al-Nashiri representavam o último caso em andamento por crimes de guerra…”

Não tem algo soando estranho, não? Que “encargos” poderia haver contra ele? Em casos assim, costumo retraduzir para o inglês. “The charges against al-Nashiri…” Charges são acusações, não “encargos”. Sabe o que foi que causou isso, né? O bom e velho controlcê-controlvê. Usa-se um programa de tradução automática (Babylon, Babelfish etc.) e joga-se no texto aquilo que sai, sem nenhuma crítica.

Mais adiante, a matéria diz que “O porta-voz do Pentágono Geoff Morell disse que Susan retirou as acusações contra al-Nashiri sem entrar no mérito do processo.” Isso confirma minha dedução acima: de que a juíza extinguiu o processo desconsiderando as acusações, mas não as “retirando”. Está faltando técnica. Está faltando, mais do que tudo, PESQUISA. Olha só o que diz o texto original (que achei aqui): “On Thursday, two Obama administration officials said that the charges against al-Nashiri will be dismissed without prejudice. That means new charges can be brought again later.” “Dismiss” uma acusação não é “retirá-la”, mas desconsiderá-la, deixar de julgá-la.

O Cardoso tem razão: os caras querem ter conteúdo, mas só o que fazem é repetir o dos outros, sem nenhuma contribuição própria, sem dedicar um iota a pensarem no que estão escrevendo. Fala-se muito em reações rápidas, mas não adianta reagir rápido se só o que sai são barbaridades.

Agora, entrando no mérito. Alguns dias atrás, eu soube que o Obama tinha mandado suspender os processos contra os prisioneiros de Guantánamo. Quem olhar de fora pode pensar que isso é uma indicação de mudança de ânimo no sentido de libertá-los. Mas observe um detalhe: se o réu está preso, o que mais lhe interessa é que o processo ande. Assim haverá resolução e ele ou irá logo para a rua, ou ficará preso mais tempo — mas terá uma duração definida para sua pena, cujo cumprimento começa a contar imediatamente. Já se o processo é suspenso, ele continua preso indefinidamente, sem ainda ter iniciado o cumprimento de sua pena, estendendo um tempo de prisão que não conta (aos bacharéis: estou presumindo que não haja detração penal [CP, art 42] nos Estados Unidos, ou que, havendo, eles não a apliquem aos terroristas). Muito ruim para ele. Então, isto que é anunciado como grande salvação pode ser, na verdade, um agravamento da situação desses presos.

Recém-lidas:
Detective Comics #439 (março de 1974), primeira história;
Wonder Woman #214 (setembro-outubro de 1974), primeira história.

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A geração Y e o distúrbio de deficit de atenção

O Globo On de ontem ainda trazia esta matéria:

http://oglobo.globo.com/economia/seubolso/mat/2009/01/31/comeca-chegar-ao-mercado-turma-que-nao-conheceu-mundo-sem-internet-754222883.asp

Ela diz que “A capacidade de realizar várias tarefas ao mesmo tempo é uma das características desses jovens, que cresceram em meio à velocidade e enxurrada de informações da era digital.”

Discordo fundamentalmente. Não, essa capacidade não é uma das características deles. Pelo que tenho constatado no ambiente de trabalho e como leitor dos textos dos outros, essa geração, que já nasceu com DDA, na verdade não consegue fazer sequer UMA tarefa ao mesmo tempo. Sai tudo errado.

“Nascidos a partir da metade dos anos 80, aprendem e se adaptam a novas situações com facilidade.”

Aqui tenho outra discordância. Não, eles não se adaptam com facilidade. Eles não se adaptam, ponto. Ficam só te olhando e querem tudo pronto.

“Proporcionalmente, são mais ousados e criativos.”

Ousados são, como todo adolescente. Criativos nunca. Aliás, é pior: não apenas imitam descaradamente como esperam que você os premie pela suposta criatividade. Questionados, reconhecem quem teve a idéia primeiro, bem como o fato de que sabiam disso, mas não admitem que estejam copiando!

Conheço uma moça que, embora seja da minha geração e não da Y, não conhece o conceito de criatividade. Ela tinha o estranho hábito de copiar textos dos outros e apresentá-los como próprios. Parecia julgar que, se trocasse o nome do Autor pelo dela, automàticamente o texto passaria a ser dela, como ela gostaria que tivesse sido. Certa vez, mostrei-lhe alguns desenhos de naves espaciais que eu havia feito. Respondeu-me elogiando e perguntando de onde eu os havia copiado. Mas não perguntou em tom de deboche, não: de boa fé, ela realmente acreditava que fosse impossível alguém criar alguma coisa; que, òbviamente, se alguém lhe mostra um desenho (bonito ou feio), é que necessariamente copiou de algum lugar. Imagino que seu cérebro fosse incapaz de alcançar o conceito de que alguém tinha que ter sido o primeiro. Senão, seria como esclareceu o sábio hindu: “it’s turtles all the way down”.

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Em outra nota, o governador do Illinois, Rod (ou Rob, as fontes divergem) Blagojevich, perdeu o cargo em razão da dificuldade de pronúncia de seu nome. A primeira-ministra da Islândia, Jóhanna Sigurðardóttir, mostrou-se preocupada por ser a próxima.

***

Recém-lidos:
Runaround, conto de Isaac Asimov;
Superman #233 (janeiro de 1971), primeira história;
Superman #247 (janeiro de 1972), primeira história;
Batman #250 (julho de 1973), terceira história;
Batman #251 (setembro de 1973).

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Interpretando a Bíblia

Aqui na Internet, muita gente diz que a Bíblia é um monte de histórias da Carochinha, que é tudo mentira etc. Eu também não acredito em algumas de suas histórias, mas isso não quer dizer que tenham sido escritas de má fé. Prefiro acreditar que tenham sido escritas (ao menos em parte) por gente sincera.

Considere que, naquele tempo, o conhecimento científico era muito incipiente e carente de método. O mundo era grande fonte de assombro; em tudo se via a mão sobrenatural, divina ou otherwise. Além disso, nós, humanos, temos o vício de não narrarmos os fatos objetivamente, mas transmitindo já a nossa própria visão deles, eivada de sentimentos e julgamentos.

Considere, também, o episódio de I Crônicas 13 em que a Arca da Aliança estava sendo transportada em um carro de bois. Um dos bois tropeçou, a Arca quase caiu do carro, e o garoto hebreu Uzá, que vinha caminhando ao lado, estendeu a mão para evitar que ela caísse. Dizia a regra divina que era proibido tocar na Arca. Diz a narração que o pobre Uzá foi imediatamente fulminado por um raio.

Considere, ainda, que a Arca era revestida de ouro e que ela e o carro de bois eram feitos de madeira. Considere, finalmente, que, por décadas e séculos, ninguém tocara na Arca diretamente: só nas varas de madeira com que era transportada.

A madeira é um isolante elétrico. É concebível que, com o roçar das varas e carros durante tanto tempo, a superfície da Arca tenha acumulado um bocado de carga eletrostática. Um dia, o camponês Uzá, certamente descalço sobre o chão do deserto, toca a Arca com seus dedinhos — e fecha o circuito de aterramento. A descarga flui imediatamente por seu corpo, causando parada cardíaca. Como ninguém sabe fazer ressuscitação cardiorrespiratória, Uzá morre. É claro, isso é só uma hipótese. Não sei quanta carga o revestimento de ouro sustenta sem romper o dielétrico.

Outra explicação plausível para mim é um pouco mais elaborada e exige que o boi não tenha tropeçado tanto quanto ficado inquieto. Considere que uma Arca, sendo transportada pelo deserto, projeta-se uns dois metros acima do chão, destacando-se na paisagem. Suponha que estivesse ameaçando chuva (o que é raro mas acontece). Com o acúmulo de eletricidade estática no ar, forma-se um pouco de ozônio, cujo cheiro os sensíveis animais logo percebem (até nós: é o “cheiro de terra molhada” de antes da tempestade). O boi fica inquieto, a Arca quase cai, Uzá estende a mão e, com isso, conecta a Arca à terra. A Arca atua como um pára-raio, rompe o dielétrico (ainda mais porque está carregada há anos) e um raio realmente cai em cima do garoto.

É claro, isso são apenas hipóteses. Não tenho como testá-las, mas os Mythbusters têm. Nem sou tão bom em Eletricidade, cujo ramo da Engenharia era minha última opção ao fim do curso básico (acabei indo para a mecânica, que era a primeira).

Se eu não for apedrejado por causa dessa mensagem, pretendo vir aqui outro dia e reinterpretar a idade de Matusalém e o Sol parado de Josué. Uma dica: calendários.

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Recém-lidas:
Robbie, conto de Isaac Asimov;
The Flash #155 (setembro de 1965);
Wonder Woman #163 (julho de 1966), primeira história;
The Flash #165 (novembro de 1966);
The Flash #179 (maio de 1968);
Wonder Woman #178 (setembro-outubro de 1968 — até agora, a história mais influenciada pela Contracultura dos anos 60);
Justice League of America #77 (dezembro de 1969);
Green Lantern #74 (janeiro de 1970)
… e, com isso, acabei a Era de Prata. A qualidade das histórias já está melhorando.

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A má vontade que move o mundo

Ontem fui ao supermercado Multi Market, no Rio de Janeiro, esquina das ruas Uruguai e Conde de Bonfim. Duas geladeiras de sorvete Kibon. Na da esquerda, o anúncio: “sorvete Kibon 2 litros R$ 10,90”. Dentro dela, os sabores de sempre: creme, chocolate, flocos, napolitano. Na da direita, flocos, napolitano, brigadeiro, Diamante Negro e Sonho de Valsa. Estes dois últimos tinham preços separados, mais caros, marcados junto a eles. Então, para me ater à promoção, peguei o de brigadeiro.

Chegando ao caixa às 22:11 h, brigadeiro custava R$ 11,90. Perguntei à Operadora Roberta por que ali eram R$ 11,90 se, na geladeira, eram R$ 10,90. Ela veio com o caô de que brigadeiro era mais caro e que o preço anunciado era só para os outros. Retruquei que não: que ele estava sem preço e, portanto, o preço mais baixo valia para ele também.

A operadora chamou a supervisora, que, primeiro, confirmou a uniformidade de preços. Mesmo assim, por insistência da maldita operadora (como se fosse ganhar comissão em cima de 1 real), a supervisora foi até a geladeira. Vi que ela procurava um preço diferenciado para o brigadeiro, sem sucesso. Voltou devagar, certamente pensando em algum jeito de sacanear o consumidor. Chegou dizendo que, como o brigadeiro estava na geladeira da direita, o preço de R$ 10,90 não valia para ele.

Eu poderia ter argumentado que (1) outros, para os quais os R$ 10,90 valiam na geladeira da esquerda, estavam na da direita também, o que não mudava seu preço; que (2) brigadeiro estava sem preço, então o cliente tem que adivinhar quanto é?; e que (3) brigadeiro sem preço, anúncio de Kibon 2 litros sem especificar sabor, é óbvio que o preço do anúncio vale para brigadeiro também.

Mas eu não disse nada disso. Só a encarei firme e disse, “então vamos fazer o seguinte. Por causa de 1 real, vamos estornar R$ 11,90. Tá bom pra você?”

Ela fez sem discutir, mas, no caminho pra casa, fiquei pensando que havia feito muito pouco. Eu devia ter simplesmente largado tudo mais em cima do balcão e ido embora sem levar nada. Afinal, se eles estão de sacanagem, também eu devia estar. Devia ter largado tudo ali em cima, só para terem o trabalho de guardar tudo de novo. É verdade que, em vez de me vingar em cima da empresa, eu estaria me vingando em cima dos empregados, mas foram os empregados que me trataram mal, com antipatia e criatividade em me aborrecer.

Pensei mais: que esse é o comportamento de todas as empresas que lidam com consumidores no Brasil. Presume-se que o consumidor (jamais cliente) esteja errado, procuram-se formas de aborrecê-lo, abusa-se da desvantagem logística da pessoa física. Por acaso vai falir o Multi Market se, uma vez só, admitirem o erro e me deixarem levar o sorvete pelo preço que me prometeram? Vai CAIR A MÃO se tirar um reÁU do preço final? Faltava menos de uma hora para fechar o mercado, ninguém mais ia levar sorvete em dia de chuva forte, era só explicitar o preço diferente na manhã seguinte. Mas não: por preguiça, por aleivosia, por espírito emulativo, só o que lhes ocorreu foi estimular mais um pouco a reação de Michael Douglas em Um Dia de Fúria.

Compare com as práticas da Amazon.com. Um livro demorou 61 dias para chegar. Escrevi reclamando, e simplesmente mandaram outro. Acabaram chegando dois e perguntei-lhes se queriam o segundo de volta. Recusaram e sugeriram que eu o doasse a uma biblioteca pública.

Sei que estou levantando muito o sarrafo da comparação. Mas ilegalidades como a do Multi Market se repetem todos os dias com cada um de nós, várias vezes por dia, neste País abençoado onde o Direito do consumidor só existe no papel. Quando aprendo formas de combater esses pequenos massacres, constato que não há relações jurídicas, mas apenas relações de poder. As reações são sempre retaliaçõezinhas, como vir aqui escrever isto ou negociar, na hora, quem sai perdendo mais: eu, R$ 1, ou eles, R$ 41 (se bem que essa é uma batalha que já começa perdida, porque as empregadas não sabem fazer conta e, pior, não se importam. Nem se importa a empresa, principal interessada: se eu não levar, algum favelado leva mesmo).

“Mas, Atoz, por que você não procurou o gerente?” Arrã. O Multi Market já deixara evidente a sua posição. Você sinceramente acredita que, em um supermercado com essa conduta de preços e essa negligência em expô-los,o gerente vai ficar do meu lado em vez de sustentar a história de operadora e supervisora de caixa?

Agora, o que o Multi Market ganha com isso? Ganha que vou passar a ir mais vezes ao Extra, ao Ultra, à Sendas, ao Campeão, ao Tijuquinha e às padarias da região. Eles jogaram fora uma excelente oportunidade de conquistar um cliente. Bastaria estornar, lançar o valor correto e pronto, o cliente satisfeito tende a voltar. Veja o Hortifruti, por exemplo. Se compro um pão no Hortifruti e o pão mofa antes da validade, basta procurá-los com a nota fiscal que eles trocam sem fazer perguntas. Com isso, mesmo o Hortifruti sendo mais caro, eu tenho a tendência de ir comprar lá.

O Multi Market mantém aquela atitude antiga dos comerciantes brasileiros: de que o comércio é uma guerra contra o consumidor, onde o mercado tem que fazer tudo a seu alcance para levar as menores vantagens em tudo. A visão embotada não enxerga que, abrindo mão de R$ 1 que não é dele, o mercado ganharia R$ 41 de mim.

Praga de Atoz surte efeito. Eu sinceramente desejo que aquelas duas percam seus empregos e morram sentindo dores e que o amaldiçoado Multi Market acabe fechando.

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Saindo do berço

Quatro coisas.

Aqui no Rio de Janeiro, a posse do Obama foi tão importante que o prefeito decretou feriado. Ninguém trabalhou.

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Você nunca quis saber quem fazia os uniformes dos supervilões? Então. A resposta está em Flash Comics #155 (setembro de 1965): “O desafio dos supervilões!”, publicada no Brasil em Coleção DC 70 anos no. 4 (agosto de 2008). Quando o Mestre dos Espelhos foge da prisão, acompanhamos seus pensamentos:

“Com certeza serei apanhado num pulo com estes trapos da prisão! Tenho que conseguir uma roupa nova! E sei exatamente onde!

“Logo, numa região sórdida da cidade…

“Lá está! O alfaiate que costumava fazer fantasias pra supervilões foi trancafiado pela polícia! Mas soube pelos rumores que seu aprendiz, chamado Leach, tinha aberto essa nova loja num lugar diferente!”

Aí está. Agora você sabe.

***

Quando ouvi esta gravação, alguns dias atrás, fiquei emocionado. Adivinhe o que é.

Isso é a digitalização do original feito por dois irmãos radioamadores italianos, que, ao ouvirem falar do lançamento do Sputnik I, montaram um equipamento rude, porém suficiente para passarem o restante da corrida espacial ouvindo todas as comunicações abertas de soviéticos e americanos. Acumularam quilômetros de gravações, entre elas isso que você ouviu: as emissões do primeiro satélite construído pela raça humana, lançado em outubro de 1957. Preservadas em meio digital, evocaram-me tudo que já li sobre a Era Espacial e seus efeitos inevitáveis em nosso futuro (parte do qual já é nosso passado). Tão simples, o sinal apenas afirmava que sua fonte estava ali e mais nada, mas, para mim, esse é o som de quando eclodimos o ovo. Nas palavras de Tsiolkovsky, assim começamos a sair do berço.

***

Saindo do berço em outro sentido da expressão, este é o primeiro vídeo que subi para o YouTube (se não abrir, tente http://www.youtube.com/v/50pup9L-ES4 ).

Fui eu mesmo que filmei quando fui ao Flying Legends em 12 de julho de 2008. O Flying Legends é um evento anual que acontece em Duxford, Inglaterra, em uma antiga base aérea da RAF (aliás, a primeira base a receber Spitfires, no longínquo 1938). O vídeo mostra a preparação para o encerramento do show, quando decolaram juntos todos os caças da II Guerra Mundial que voaram no evento (primeiro os da Marinha americana, depois os da USAAF e, por último, os Spitfires). Em seguida (mas isto não está nesse filme, só em outro), fizeram um grande Balbo sobre o campo: 26 caças em formação, em uma longa fileira. Vou ver se subo esse outro mais tarde.

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Recém-lida: Green Lantern #31 (setembro de 1964), primeira história.

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Diário de consumo

Recém-lidos:
As concepções fenomenológicas elementares do Estado e do Direito, de André Ricardo C. Fontes, publicado em Cadernos da Escola da Magistratura Regional Federal da 2a Região – EMARF, v. 1, n. 2 (outubro de 2008-março de 2009);
Superman #164 (outubro de 1963), primeira história;
Superman #167 (fevereiro de 1964).

Recém-visitados:
http://discipulodarazao.com/
http://skeptoid.com/
http://ceticismo.net/

Na caixa acústica:
Carly Simon, Libby, Cow Town e Riverboat Gambler;
Camel, Freefall.

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Gente que afirma demais e gente que afirma de menos

Quando os líderes sindicais querem mobilizar suas categorias, que fazem? Vão para cima do carro de som e discursam em tom de censura a sua base sindical. Isso mesmo: dirigem palavras agressivas, reprovando seus colegas. É sempre um tom antipático, acompanhado pelo brandir de dedos que acusam os demais trabalhadores por seu predicamento, culpando-os pela postura do empregador.

É verdade que nós, não outrem, somos responsáveis pelo que nos acontece. Mesmo assim, a meu ver não se justifica a animosidade desses sindicalistas contra sua própria base. Se julgam que estão sendo pisoteados e massacrados pelo capital, ora, que se queixem contra o capital, não contra a mão-de-obra. Se o trabalhador está sendo privado de melhores condições, não é por obra de outro trabalhador.

Qual será a reação natural de quem está ao alcance dos alto-falantes? A minha é de querer me afastar. Se alguém fica cobrando alguma coisa de mim onde não estou obrigado, se alguém vai ficar me condenando em tom de dono da verdade sem que eu lhe deva nada, não vou querer ficar amigo dessa pessoa; vou querer é distância. “Você não pode aceitar, você não pode se deixar levar, vocês têm que se levantar, vocês têm que se insurgir.” Eu não tenhoquê nada.

Não estou querendo minar o movimento nem justificar apatia. Estou resmungando, isto sim, contra uma hostilidade mal endereçada.

Se muita gente reagir como eu, vai ficar difícil esses caras terem adesão. Ocupam-se tanto de fazer política que se esquecem de ser políticos.

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Às vezes, estou na fila para atendimento em uma sorveteria, ou em uma lanchonete, ou em semelhante comércio. O balconista pergunta a quem está à minha frente.

— Quer gelo? (ou: “quer cereja?”, “ponho calda?”, “vai amendoim?”, “é com mostarda?”)

— Pode ser.

Como assim, “pode ser”??? Quem está pagando é você! Quem tem o ônus de definir como quer o sanduíche (sorvete, refrigerante) é você! Quando dizem “pode ser”, não estão dizendo como querem, mas apenas autorizando o atendente a escolher como ele quiser: se põe ou não põe. Estão permitindo que ele defina, estão dizendo que tanto faz.

Comigo é mais direto. “Sim, por favor” (e o “por favor” só está ali por educação, que favor não é) ou “não, obrigado”. Só. Sem essa de “pode ser”.

Gente que não se define, não se afirma, não sabe o que quer!

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Papo de maluco

A linha de meu telefone fixo estava cruzada com as de outras pessoas (assim mesmo, no plural). Se eu ligasse para a própria Telemar, ela identificava meu número como outro. Às vezes, eu tirava o fone do gancho e encontrava uma conversa já instalada.

Sábado de manhã, o telefone tocou.

— Bom dia.

Silêncio.

— Alô, olá, quem fala?

Entrou uma senhora com sotaque levemente português.

— Alô. O sinhoire queire falar com quem?

— Eu? Não, minha senhora, fui eu que atendi. O telefone tocou e eu atendi.

— Como? O sinhoire ligou e o sinhoire mesmo atendeu?

Tem cada uma!

***

Uma de muitas coisas que odeio é ser chamado de “meu querido”. Especialmente por vendedores, balconistas, telemarqueteiros e assemelhados.

***

Recém-lidos:
Batman #156 (junho de 1963), segunda história;
Nineteen Eighty-Four, de George Orwell.

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A paródia é a da própria Paramount

Smallville costuma ser elogiada por seu conteúdo intrínseco, como série. Quanto a sua relação com a mitologia do Super-homem, até hoje só li gente ou neutra ou falando mal. Pelo que leio, há razões para isso; o criador (foge-me o nome) faz muita coisa diferente do que estava estabelecido nos quadrinhos. Exigências do formato, que alguns fãs não vêem (pré-acordo ortográfico) como adaptação, mas como desrespeito.

Agora, Star Trek, o novo filme. Quando o primeiro trailer estreou, falei bem à beça, e ainda falo. É um trailer para os fãs da antiga. Respeitoso, com o tema de espaço, a música da série, a voz do Nimoy, e a homenagem à nave como símbolo das conquistas humanas.

E sai o segundo trailer. Uma b*sta. É igual a todos os insuportáveis trailers de filmes de ação: 24 fotogramas piscantes por segundo, todos de cenas diferentes, pra você nem conseguir identificar o que viu. Parece que eles se esforçam para a audiência ter ataques epilépticos. E tambores, tambores, tambores, explosões, correria, tiros faiscantes. Uma m***a.

Veja só: não estou falando mal do filme, mas do trailer. Pelo que já li e vi, entendo que o filme não terá compromisso com o cânone, mas não espero esse compromisso. Ao contrário, há tempos vêm declarando que é reboot na franquia, começa tudo de novo, tal como a Galactica de agora. Então, vão falar mal, dizer que ele não respeita a tradição, mas a proposta não é mesmo de respeitar a tradição.

Percebe como a queixa é parecida com a de Smallville? Então. Alguém percebeu antes. Dá só uma sacada neste vídeo genial (mas só depois de ver o segundo trailer acima).

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Dedicação de fã

Eu tenho que dividir isto com vocês.

Foram tantos pedidos que o cara montou este papel de parede também.
O que um fã não faz. É de cair pra trás. Com e sem rima. Observem que até os Thundercats e Watchmen estão ali. (Aliás oportuno para o filme.)
Falar em Thundercats, o Alexandre Maron também indicou um trailer feito por fã, com muito tempo e dedicação, para um suposto (e inexistente) filme deles. Dugarai. Comentário que deixei por lá:
“Ué, não entendi. Thundera é Praxis?
“Brincadeira. E eu achei o Tygra bem feito.
““An ancient evil rises.” Caraca, mais clichê do que isso impossível. Como minha Digníssima gosta de comentar (e eu com ela): “são os antigos”. Pode ver: até quando você recua à época do Conan, ou de Çatalhöyük, sempre tem os carinhas que já eram antigos.”

BOMBÁSTICO!

Parem as rotativas!!!
Acaba de sair notícia no TheOnion: foi encontrado um erro na Internet!
A reportagem denuncia um fato gravíssimo: está manchada a reputação da Internet como fonte incontestável de pesquisa. Uma usuária descobriu um erro em uma página sobre determinado seriado. Alguns especialistas reconhecem a possibilidade de que a informação encontrada na Internet possa ter sua veracidade comprometida. Advertem: já não podemos confiar em tudo que lemos na Rede.
Recém-lidas:
Adventure Comics #271 (abril de 1960), primeira história;
Superboy #86 (janeiro de 1961), terceira história;
Green Lantern #17 (dezembro de 1962), assim finalizando Showcase Presents: Green Lantern v. 1, de John Broome et alii;
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Pra ficar orgulhoso? Ou preocupado?

Falando em Jonathan Woodward, estive no belogue dele agora há pouco. Ele indica um teste de conhecimento sobre as instituições políticas dos Estados Unidos, mantido pelo Intercollegiate Studies Institute. São 33 perguntas de múltipla escolha, que ele diz ter gabaritado. Diz, ainda, que o americano médio acerta 49% no teste.

Só de farra — e também porque parece que eu sou competitivo em matérias como essa –, fiz o teste. São perguntas simplinhas, sobre fundamentos da História das instituições políticas dos Estados Unidos. Você consegue responder algumas coisas com base no que vê nos filmes.

Pois bem. Acertei 76%.

É pra ficar orgulhoso ou preocupado? O resultado mostra o quanto somos aculturados abaixo do Equador. E, se superei o americano médio em matéria das instituições políticas deles, fico pensando: essa é a mesma nação cuja suposta crise (crise de cuja existência duvido) está supostamente afetando a economia mundial, e que se mete em tudo quanto é buraco dizendo trazer a democracia.

(Sim, eu sei que o Secretário de Estado não é o cidadão médio. Não fuja do assunto.)

Então, deixei-lhe este comentário.

“Jon, I am worried. I am Brazilian. Have always lived in Brazil. Yet I scored 76% on the test. Granted, I am a lawyer and Brazilian constitutional Law is mostly a copy of American constitutional Law, so we end up studying the foundings and whys of your Constitution. Still!

“And yes, I would vote for you, on other grounds: you are a scifi fan, a comics fan, and literate. This should suffice in this day and age! :) (…)

“BTW, still love your Crisis on I. Earth pages! Have you noticed that Marv Wolfman links to them on his main blog page? Way to go, man!”

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Homenagem maior não há

Existe um escritor de quadrinhos chamado Marv Wolfman. Junto com o desenhista George Pérez, Wolfman foi o criador de uma série em doze capítulos publicada pela DC Comics em 1985 e chamada Crise nas Infinitas Terras. Passados 23 anos, essa série ainda é unanimemente reconhecida como o momento de maior impacto em todos os títulos da editora. Com todos os defeitos que lhe atribuem, os leitores ainda a comentam, ainda a analisam, ainda a tomam como referência.

Existe um website que é uma referência valiosa sobre a Crise. Chama-se The Annotated Crisis on Infinite Earths, é mantido por Jonathan Woodward e disseca as edições da série, esclarecendo referências e comparando passagens.

Dia desses, eu estava lendo o belogue de Wolfman quando vi que ali havia um linque para a Annotated Crisis. De um ponto de vista objetivo, trata-se de um Autor apontando para uma obra de referência útil para se ler a dele próprio, o que beneficia a divulgação dessa obra e, portanto, do artista.

Mas a primeira leitura que fiz foi outra. Coloque-se no lugar de Woodward: o criador da obra comentada está mostrando seu reconhecimento pela qualidade do trabalho do comentarista. Está dizendo: em toda a Internet, não há maior (ou melhor) autoridade sobre o que eu fiz do que este sujeito.

Eu não conheço homenagem maior. Se Woodward souber disso, estará plenamente justificado em se sentir o máximo.

Recém-lida: Superman #90 (junho de 1954), terceira história.

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Intimações do Ministério Público da Justiça

Eu ia escrever sobre outra coisa hoje, mas fica para amanhã. Hoje quero comentar um spam recebido por meu colega Ismaga (não é seu verdadeiro nome).

Começa dizendo que é intimação. Neste país de otoridades e abusos, intimação assusta qualquer um. Aí, o remetente se identifica como “Procuradoria Regional da Justiça”.

Vamos analisar:

1 – Se é de Justiça, já é estadual, então nunca teria o nome de “Regional”.
2 – “Da” Justiça não: “de” Justiça. O idiota que escreveu não sabe a diferença, pra ele é tudo Justiça, Poder Judiciário, otoridade. Mas Ministério Público nunca é “da” Justiça. Só pra você saber: a justiça do nome das procuradorias não é o Poder Judiciário (“a” Justiça), mas o valor moral, sem artigo. Procurador = pro curador, ou seja, alguém a favor de tomar os cuidados com. Eles cuidam da justiça, é o que diz o nome.

Em outras versões, o texto diz que é do “Ministério Público da Justiça” — órgão que, aliás, NÃO EXISTE.

O texto prossegue, dizendo ser do Ministério Público do Trabalho e exigindo seu comparecimento a depor em Brasília.

Continuemos:

3 – Ministério Público estadual ou do Trabalho? Se é Procuradoria de Justiça, é estadual.
4 – Brasília??? Mas a Procuradoria era Regional. E como é que Ismaga, estando no Rio, seria chamado a depor em Brasília? Pra isso eles mandam carta precatória, e o procurador daqui é que te ouve, não o de lá.

Diz o email que tem fundamento nos artigos 137 e 119, VI, da Constituição federal.

Prossigamos:

5 – O artigo 137 versa sobre estado de sítio. BASTA OLHAR. Será que o Ministério Público quer ouvir Ismaga antes de pedir ao presidente da República que decrete estado de sítio?
6 – O artigo 119 versa sobre Justiça Eleitoral, não do Trabalho. E não tem inciso VI; pára no II.

Finalmente, quando o assunto é sério, o Poder Público NUNCA manda email. É sempre pelo correio ou até pessoalmente. Pela simples razão de que a mentalidade ainda é a do papel.

Claro que termina dizendo “clique aqui”.

E tem também aqueles emails onde um banco supostamente ameaça tirar seu acesso à Internet (sim, isso mesmo: você vai ser desconectado), todos escritos em miguxês. Essa é uma fraude primária, em que já não cai uma criança de três anos. Ainda mais que, quando você desliza o mouse em cima do “clique aqui”, aparece o endereçamento real: saites obscuros e escusos de roubo de senha. Normalmente eu recebo esses de bancos onde não tenho conta, então estou ca*ando se eles tirarem meu Internet banking.

Se alguém ainda cai, e depois tem sua senha roubada, sinceramente, eu acho que é BEM FEITO. Bem feito pela preguiça de pensar, pela ignorância voluntária, por achar que comparecimentos a audiências se resolvem com um mero clique — preguiça de ir até lá também –, por serem analfabetos no uso da Internet, que não é para crianças.

Recém-lidas:
Action Comics #23 (abril de 1940), primeira história;
Green Lantern #16 (outubro de 1962).

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Quem vigia os vigilantes

Fui ver Body of Lies (Rede de Mentiras) no sábado. Fiquei decepcionado. Eu esperava que fosse uma história onde todo o mundo mentisse para todo o mundo, onde não se pudesse confiar em ninguém, onde o DiCaprio fosse traído justo quando estivesse no meio da lama e depois tivesse que se virar sozinho — e não foi nada disso. Bem, foi um pouco disso, mas pouco. Permita-me colocar do seguinte modo: eu esperava certos clichés conforme os últimos quinze anos de cinema nos têm levado a esperar, mas os clichés foram os de cinqüenta anos atrás (oito dias para a queda do trema, e contando). — [Apidêite em 07/01/2009: a versão original desta mensagem dizia “queda da crase”. É que eu sou tão obcecado com crase que confundi as inguinoranças. Foi mal aí.]

Também esperava mais helicópteros, várias cenas de helicópteros, como sugeria o trailer — e só teve uma. Além disso, o mocinho cometeu um erro grave e tinha que pagar por ele, mas, mesmo assim, acabou sendo ajudado quando não merecia. Estou profundamente decepcionado. Se soubesse, não teria pago os R$ 17 do ingresso no Cinemark. O lado bom foi ter tido a oportunidade de escolher lugar, já marcado antes de entrar, igual a avião.

O lado ainda melhor foi o que veio antes do filme: trailer de Watchmen! Assim que apareceu a primeira cena, antes de o Dr. Manhattan explodir em pedacinhos, eu já tinha reconhecido que era ele. Está muito igual ao quadrinho! Várias cenas estão perfeitamente reconhecíveis! O clima está igual ao do original! Os personagens estão iguais! Maneiríssimo! Tenho que ir ver! Urru!

Recém-lida: Green Lantern #15 (setembro de 1962).

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Resmungo sortido de Natal (4): diplomas escusos

Voltando à filipeta que já comentei aqui, tem mais uma coisa. Dizia ali que a academia estava sob a responsabilidade de uma certa profissional, “Dra. Fulana de Tal — formada em Educação Física, especializada em…”. Peraí. Formada onde? Só diz em quê. Se a faculdade fosse boa (ou, pelo menos, conhecida), ela diria qual foi. A conclusão que tiro é que a “doutora” tenha se formado em alguma faculdade obscura, cujo nome prefere esconder por vergonha. Então, seu anúncio funcionou ao contrário: ali é que não quero mais ir.

Recém-lida: Green Lantern #14 (julho de 1962).

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Resmungo sortido de Natal (3): metodologias

Sem sacanagem: o que significa a palavra metodologia? Logia, logos, discurso. Então, metodologia é o discurso, o estudo, a ciência que estuda o método. Você pega um método e começa a analisá-lo, interpretá-lo, avaliá-lo. Essa atividade é a metodologia.

Quando você está descrevendo um método a alguém, você está descrevendo o método, não a metodologia. Metodologia é o que você faz, é o que você está fazendo; método é a coisa que você está expondo, explicando, é a coisa que você está trazendo.

Estou de saco cheio dos acadêmicos tecnocratas cujas monografias começam com o seguinte resumo: “… expondo uma metodologia de classificação da produção tecnológica…”. Não. Vampará com isso. O que está sendo exposto é o método de classificação, não a metodologia. As frases estão sendo alongadas desnecessariamente.

Mais um centavo para o Tal Shiar.

Recém-lida: Green Lantern # 13 (junho de 1962).

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Resmungo sortido de Natal (2): neogramática

Existem algumas campanhas por aí, “doe dinheiro para o abrigo dos cegos”, “faça uma doação para as vítimas da enchente”, “clique aqui e doe um prato de comida”.

Pois pode escrever aí: a partir de agora, pra cada crase proibida que eu encontrar, cada há-do-verbo-haver que eu encontrar escrito como “à”, cada vírgula entre sujeito e verbo, cada erro de concordância com que eu me deparar, vou doar um centavo pràlguma ditadura bem maligna, ou pros fundamentalistas islâmicos, pro IRA, pro Tal Shiar, sei lá pra quem. Eles vão ficar milionários.

Recém-lida: Green Lantern #12 (abril de 1962).

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Resmungo sortido de Natal (1): o trem do Inferno

Qualquer um que ande de metrô no Rio de Janeiro sabe o suplício que é. Um aperto desgraçado, você não consegue entrar no vagão. Outro dia, quando cheguei ao Estácio e aquele mundo de gente saiu por um lado, pelo outro entrou uma moça que quase caiu pra trás com — palavras dela — o cheiro de suor que havia ficado no ambiente. Verdade. Até eu, que estivera imerso ali, estava sentindo.

Outro detalhe curioso é a quantidade de retardados que reclama que “o ar está desligado” (ou o equivalente: “está só na ventilação”). É incrível. O vagão foi projetado para levar, sei lá, oitenta pessoas, mas está levando, digamos, duzentas. O imbecil realmente espera que fique geladinho do mesmo jeito. Não percebe que, se ele ainda não morreu sufocado, é que o ar está ligado. Não percebe um ventinho que percorre sua cabeça, mais frio do que a sauna à sua volta. No cérebro de ervilha do hipoplausibilóide, ele está sentindo calor, portanto o ar está desligado. Dá vontade de ligar uma bomba de vácuo na boca do desgraçado e perguntar se o ar já foi ligado ou se está só na ventilação.

Enquanto isso, em cada uma das estações, vários cartazes mostram modelos sorridentes sob slogans do gênero “Metrô Rio. A vida é melhor aqui”, mais conforto, mais feliz, orgânico e sustentável. Estou convencido de que esses cartazes têm a única serventia de debochar do cliente.

Pois, não bastasse tudo isso, na estação Saenz Peña, nesse último sábado, um barulho infernal veio somar-se à tortura apavorante. Uma TV de LCD e umas caixas de som faziam propaganda da Sky exibindo um videoclip de soul music, enquanto um par de cadeiras de plástico supostamente servia como ponto de vendas, aliás desocupado. O som estava altíssimo, tomava todo o ambiente, deslocava meus pensamentos, martelava pessoas e mobília.

Será possível que a Sky realmente acredite que, torturando meus ouvidos, vá me convencer a comprar algum pacote? Se alguém me faz mal, não vou querer negociar com aquela pessoa; vou querer é distância dela. Mas fui advertido por quem estava comigo: os imbecis só se sentem confortáveis quando há barulho alto. Então, para a maioria dos imbecis (e para a infeliz que, depois eu vi, chegou para ocupar aquele posto), o barulho é agradável.

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Privacidade na Internet

Preciso mandar um email pra um colega do curso de Engenharia, o [name withheld by Blogger for privacy]. Joguei o nome dele no Google, joguei partes do nome, acrescentei o nome da companhia onde ele trabalha, joguei o nome e a especialidade do pai dele (vai que consigo mandar email para o pai dele redirecionar), tudo sem sucesso.

Achei-o no LinkedIn. Só que, para mandar mensagem para ele pelo LinkedIn (que não mostra o email), tenho que pagar US$ 30 de anuidade ao LinkedIn.

Até que encontrei o 123people, um saite onde você digita um nome e ele mostra tudo que achou vinculado àquele nome: belogues, comentários em belogues, mensagens no ICQ, vídeos, páginas da Web, … Uma espécie de “Google de pessoas”, mais específico. Nem assim adiantou.

Taí um cara que sabe preservar sua privacidade na Web. Não é coisa fácil por estes dias.

Mas o 123people mostrou que a Amazon tem uma wishlist do meu colega. Felizmente, alguns livros que ele quer são livros que li (ou estou lendo) e que recomendo: 1984, Fahrenheit 451, Admirável mundo novo. Então, que fiz? Comprei-lhe Fahrenheit 451 e pedi que a Amazon colocasse um recado junto com o presente, recado no qual consta meu email. Custou só US$ 17, que a informação de que preciso vale para mim. E ainda avisei que tenho um exemplar sobrando de 1984 (edição americana, não britânica como a que estou lendo), que não preciso comprar da Amazon.

Então, olha só que legal: paguei $17 em vez de $30 e ainda vou deixar meu colega feliz. E ele não precisa me dizer o email dele.

Essa foi a boa notícia de hoje.

Recém-lidas:
Green Lantern #8 (outubro de 1961);
Green Lantern #9 (dezembro de 1961).

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Colapso nos transportes

Ontem, o metrô parou na estação Saenz Peña. O locutor avisou, “estação terminal, todos os passageiros deverão desembarcar”.

Todo o mundo saiu rápido, enquanto as luzes eram apagadas e os seguranças já percorriam o trem para garantirem que ninguém permanecesse a bordo. Quando foi minha vez de sair, percebi a plataforma cheia de caminhantes, então esperei alguns segundos antes de aparecer um vazio na multidão, para poder pisar fora.

Imediatamente, senti um golpe atrás dos joelhos. Caí. Do chão, vi o guarda ainda brandindo o cassetete, apontando a porta e gritando, “sai! levanta do chão e sai agora!” Tentei me apoiar em um banco para me levantar, mas outro guarda me apanhou pelos ombros e me atirou para fora, onde, todo desequilibrado, não sei como não acertei ninguém.

Enquanto eu me recumpunha, ouvi mais de um transeunte comentando, “bem feito, quem mandou demorar a sair do trem?”, “é nisso que dá, ficatrapalhando asotra pessoa”, “esses aí só qué ficá dando trabaio pros guarda”.

Essa foi uma história de ficção. Mas, se você chegou a acreditar que fosse real, é que a narração, de algum modo, estava batendo com sua expectativa. Então concordamos que tem alguma coisa errada com o metrô — e com as pessoas também, cordeirinhos obedientes em Metrópolis (de Fritz Lang, não de Siegel & Shuster). Não?

***

Agora uma história real, também acontecida ontem. Dentro do 229 parado, uma mulher berrava no celular. Todos conseguíamos ouvir detalhadamente seus planos de encontrar uma pessoa no Shopping Tijuca, onde tinha que tirar dinheiro, e depois jantar em casa da mãe.

Os gritos incomodavam, mas não foram o pior. O pior foi ouvi-la pronunciar nìtidamente “Saens PeNa”. Juro pra você: toda vez que escuto alguém dizer “Saens PeNa”, sinto um impulso homicida. Não sei o que é pior: se isso, se crase onde não pode ou se vírgula entre sujeito e predicado.

Pra quem não é do Rio, um serviço de utilidade pública: Roque e Luis Saenz Peña, pai e filho (não sei qual é qual), foram presidentes da Argentina no início do século XX. Em homenagem aos dois, a principal praça da Tijuca foi batizada Saenz PeÑa.

Recém-lidas:
Green Lantern #7 (agosto de 1961);
The Flash #123 (setembro de 1961).

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Huguinho 2

Ontem, a caminho do trabalho no ônibus, ouvi e depois vi um helicóptero Bell “Huey” atravessar baixinho a rua Haddock Lobo (do Rio de Janeiro, não de São Paulo). O ruído era aquela característica batedeira de duas pás. Imediatamente pensei, que faz um helicóptero da FAB por aqui e tão baixo? E lembrei-me de como a FAB está desatualizada, com helicópteros obsoletos e monomotores dos anos 60, quando meio mundo já usa o Black Hawk, este mesmo também já não considerado novo.

A visão e, principalmente, o sonido me remeteram à guerra do Vietnã, chamada de “a guerra do helicóptero” no documentário Choppers, do Discovery Channel. Lembrei-me de todos aqueles filmes, Platoon, Full Metal Jacket, documentários, a indissociável imagem dos Hueys com um fundo de floresta. E fiquei pensando, puxa, aquela guerra foi séria mesmo, etc.

Qual não foi minha não-surpresa quando, vendo as manchetes dos jornais hoje, descobri que realmente era um Huey, mas não o mesmo que estávamos acostumados a ver. A Polícia Civil agora ostenta orgulhosamente sua nova aquisição: um Huey II — novo modelo que a Bell criou há uns anos quando descobriu que muita gente tinha Hueys fiéis dos quais não queria se desfazer ao mesmo tempo em que queria modernizar a frota sem gastar dinheiro. São Hueys recondicionados, com células zeradas e reforçadas, transmissão e rotores trocados e nova aviônica. São helicópteros militares, mas não são helicópteros de combate. Já faz alguns anos que leio sobre seu lançamento na AIR International. E agora descubro que a Polícia os está usando para sua “guerra ao crime” (as if). Os jornais já apelidaram este assim-chamado Águia 3 de Caveirão do Ar, enquanto pelo menos um jornal acusa a Polícia de usar uma “carcaça do Vietnã”.

Tècnicamente, o jornal está certo, mas demonstra uma certa falta de conhecimento sobre quanto se pode aproveitar uma aeronave ainda em boas condições. O material é sim obsoleto, mas não precisamos de helicópteros raiteque para combater molambos com fuzis. Isto aqui não são os campos de batalha da Europa Ocidental, onde se lutaria a abertura da III Guerra Mundial. Mais uma vez, ataco a premissa: é fácil criticar que a escolha de helicóptero está mal feita; antes, devia ver-se é se é caso de usar helicópteros com fuzis como “arma contra o crime”. Assalta-me o pensamento de que tudo isso é uma futilidade, um desperdício de dinheiro público. A “guerra ao crime” é toda ela uma farsa. Aqueles que não são cínicos são iludidos que não percebem que, mais uma vez, a guerra está em outro lugar.

***

Às vezes fico refletindo sobre as ambigüidades da língua (aproveite o trema enquanto ele ainda existe). E “desconstruo” frases, constato a dependência de palavras sobre palavras e de palavras sobre contexto. Cada vez, observo que nada tem significado próprio. Que, devidamente dissecadas, as frases são todas vazias, que é o ouvinte ou leitor que as preenche. Mais concluo: que nunca estamos dizendo nada. Ninguém nunca diz nada. Então, melhor nem tentar dizer nada, que a comunicação é impossível. Todos recolhidos a seus silêncios, e sigo calado. Aproximo-me do texto de Cosmologia de Lawrence Krauss na Scientific American, onde ele demonstrava que, para viver mais, a solução seria não interagir. Toda ação só aumenta a entropia, o que é uma obviedade e, dita, também aumenta a entropia.

***

Recém-lida: Green Lantern #6 (junho de 1961).

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Não seja prolixo

“Eu, SENHOR ATOZ, identidade 31415926-5, declaro, para os devidos fins, que fui prolixo na data de hoje, 27 de novembro de 2008.”

ou

“Fui prolixo em 27/11/2008.” — (Ass) Sr Atoz

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Diálogo que acabei de ter com o Porcão

Esta foi de matar. Menos de uma hora atrás, liguei para o restaurante Porcão, no Rio de Janeiro.

— Central de Reservas, boa tarde.

— Boa tarde. Meu nome é João Paulo e eu quero fazer uma reserva.

— Pois não, com quem eu falo?

E há quem tenha fé na humanidade. Alguns fé demais, outros fé de menos.

***

Já não lembro quem me disse isto, mas concordo plenamente: se alguém lhe disser (sem estar brincando) que, “na prática, a teoria é outra”, é que não estudou a teoria.

Recém-lida: Green Lantern # 5, abril de 1961.

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Resenha: Nineteen Eighty-Four

No ar, minha resenha de Nineteen Eighty-Four, de George Orwell.

Recém-lidos:
Foundation, de Isaac Asimov;
The Hobbit, de J.R.R. Tolkien;
Superman #1 (junho de 1939), trecho;
Detective Comics #33 (novembro de 1939), primeira história, trecho;
Look (fevereiro de 1940), trecho;
Batman #5 (primavera de 1941), terceira história;
Sensation Comics #1 (janeiro de 1942), primeira história;
Superman #30 (setembro de 1944), quarta história;
Flash Comics #86 (agosto de 1947), primeira história;
Wonder Woman #28 (março de 1948), primeira história;
Flash Comics #104 (fevereiro de 1949), segunda história;
Superman #65 (julho de 1950), terceira história;
Batman #62 (dezembro de 1950), primeira história;
Wonder Woman #99 (julho de 1958), segunda história;
Wonder Woman #108 (agosto de 1959), primeira história;
Showcase #22 (outubro de 1959);
Superman #132 (outubro de 1959);
Showcase #23 (dezembro de 1959);
Showcase #24 (fevereiro de 1960);
Green Lantern #1 (agosto de 1960);
Green Lantern #2 (outubro de 1960);
Superman #141 (novembro de 1960);
Green Lantern #3 (dezembro de 1960);
Green Lantern #4 (fevereiro de 1961).

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Queda de avião em Pernambuco

O bimotor que caiu em Pernambuco hoje à tarde (notícia com mais detalhes neste jornal do Piauí do que em qualquer outro lugar até agora) era um Beech 200 Super King Air. Isso dá para descobrir bastando ver a matrícula do avião (terminada em OSR) nas fotos do pós-desastre e, depois, clicando aqui.

Impressionante como nenhum jornalista descobriu isso sozinho até agora.

Retorno a Krypton

Conforme é do seu conhecimento, estou lendo quadrinhos antigos da DC. Duas edições que li há pouco são Superman #132 (outubro de 1959) e #141 (novembro de 1960), republicadas em Superman 70 anos #1: as grandes aventuras do Superman (setembro de 2008).

Eu julgava que, durante a Era de Prata (1956-aprox. 1970), não houvesse muitas histórias ambientadas em Krypton. Descobri que provavelmente estava enganado. Superman #132 apresenta a vida alternativa que Kal-El teria tido se aquele planeta não houvesse explodido; e, em Superman #141, uma viagem no tempo leva o Super-homem a viver nos últimos dias de seu mundo natal.

Quando John Byrne restabeleceu o Super-homem em 1986 e em particular nas minisséries Man of Steel e The World of Krypton, ele representou Krypton de uma forma bastante inovadora, que é a oficial desde então: um planeta árido, com grandes extensões inóspitas entre cidades feitas de torres de vidro. A tecnologia supria todas as necessidades dos habitantes, que podiam dedicar-se à Filosofia, Artes e Ciências como naquele ideal grego reproduzido no episódio “The Cloud Minders”, de Jornada nas Estrelas. Ao mesmo tempo, esses habitantes haviam se tornado pessoas tão estéreis quanto seu planeta. Seguindo o mesmo padrão dos vulcanos, os kryptonianos foram retratados como racionalistas reclusos organizados em clãs, restringindo ao mínimo o contato entre si e a nada o contato com a Natureza, e mantendo costumes anacrônicos com uma devoção religiosa.

Eu já sabia que essa representação diferia bastante de tudo que viera antes, mas não imaginava seu radicalismo. Nas edições de 1959 e 1960, Krypton é uma repetição da idéia, que então se fazia, do que viria a ser a América do futuro. Tal como em tantas histórias de ficção científica barata do período, o planeta de Kal-El era uma versão futurista da pujante e deslumbrada sociedade americana do pós-guerra, onde os recursos pareciam ilimitados e o progresso, destinado a continuar melhorando a vida e sustentando a estrutura social vigente. Tudo continuaria sendo feito como era, apenas com mais conforto.

Assim, a família kryptoniana era constituída pelo Pai, que ia trabalhar de manhã e voltava à noite com sua pastinha; pela Mãe, dirigindo o trabalho dos robôs domésticos; e pelos 2.3 filhos, freqüentadores da escola e acompanhados de seu cãozinho. Os homens e crianças vestiam aqueles trajes típicos de quadrinhos futuristas da época, com peças monocromáticas de cores berrantes: p.ex. camisa amarela, calça vermelha, mangas verdes e um triângulo azul no peito; e sempre aquele arco em volta de cada ombro. E botas, claro. As mulheres usavam sempre penteados, vestidos caros e brincos discretos, todos conforme a moda dos anos 50.

Exceto por algumas curvas bizarras, os edifícios e suas funções eram iguais aos das cidades da Terra. As atividades econômicas eram aquelas de maior prestígio ao tempo do Presidente Eisenhower: tudo que envolvesse a Engenharia, motor do progresso continuado. A escola baseava-se no mesmo paternalismo que conhecemos, com turmas de obedientes escoteiros repetindo as técnicas expostas em quadros-de-giz por seus doutrinadores, sem pensamento crítico. Jor-El era cientista em uma base de mísseis (e eu pergunto por que Krypton teria uma base de mísseis, já que as guerras estavam abolidas e a tecnologia espacial era incipiente).

Quando o Super-homem chegou a Krypton em Superman #141, deparou-se com uma filmagem de ficção científica local, onde o diretor, as câmeras e a técnica eram idênticos aos estereótipos de Hollywood. As poucas diferenças em relação ao mundo do leitor eram apenas as mesmas extrapolações tecnológicas de sempre: carros voadores, comida em pílulas, materiais inquebráveis; e alguns exotismos alienígenas, como vulcões jorrando ouro e animais que comiam metal. O trabalho da dona-de-casa era diminuído por uma cozinha onde bastaria apertar um botão e a comida viria pronta da parede — mas não de graça.

De certo modo, esse cenário ingênuo era inevitável. Na sociedade americana do início dos anos 60, a DC não teria conseguido vender quadrinhos que não tranqüilizassem o jovem leitor espelhando o mesmo referencial que ele tinha à sua volta. Não poderia estimular a imaginação para fora do ideal positivista necessário a se construir uma América dominadora onde se valorizava o conhecimento técnico. Além disso, quadrinhos eram considerados uma leitura exclusivamente infantil, que não poderia provocar questionamentos sobre a sociedade que retratavam, sob pena de trazer sobre si os aldeões com suas tochas e forcados. Ideològicamente, as histórias de super-heróis tinham que inserir-se no processo pedagógico validando a estrutura social desde cedo ao demonstrar seu triunfo em um mundo seguro onde todos seriam felizes e super-heróis benfeitores poderiam voar.

***

Ao ler histórias de super-heróis dos anos 50 e 60, minha primeira reação foi de tédio. Por tanto tempo eu as quisera ler, idealizando-as por não conhecê-las, mas, finalmente me deparando com elas, a ilusão desfez-se em desapontamento. Apesar disso, comecei a analisar sua estrutura e descobri um discurso subjacente à ação e ao suspense: os vilões eram pessoas maliciosas com planos de subverter a ordem, ora cometendo crimes patrimoniais, ora dominando uma população, ora espionando segredos militares. Os heróis atuavam no sentido de proteger essa ordem, interrompendo atos criminosos e entregando os malfeitores às autoridades. Em nenhum momento essas autoridades eram questionadas, nem os superpoderes eram empregados de forma a desrespeitá-las.

Portanto, não é de espantar que o público tenha sido sacudido de seu entorpecimento quando, em 1970, Dennis O’Neil lançou uma seqüência de histórias onde o Lanterna e o Arqueiro Verde percorriam os Estados Unidos revelando injustiças que aquela nação preferia não enxergar. Racismo, miséria, poluição, superpopulação, drogas e pedofilia, tudo isso foi apontado em meia dúzia de edições da revista Green Lantern que, até hoje, são lembradas como clássicas. Ali se discutia como, ao manter a Ordem, o Lanterna Verde contrariava a Justiça, em um debate que a Filosofia do Direito propõe desde Aristóteles, ou mesmo antes.

Para a maioria dos comentadores na Web, o fim dos anos 60 marca o começo da Era de Bronze dos quadrinhos, que, para a minoria (eu incluído), melhor deveria ser chamada de segunda metade da Era de Prata. O momento já era outro: a sociedade americana tinha sido confrontada com sua segregação racial, tinha visto os assassinatos de Kennedy e Martin Luther King e pedia o fim do massacre de seus filhos no Vietnã; as feministas queimavam sutiãs; e a fumaça de Woodstock desafiava o sistema. Os quadrinhos, sempre fruto de sua época, tornavam-se mais um canal de questionamento, incorporando um realismo agressivo que se maximizaria no cinzento final dos anos 80.

***
E a você sugiro este vídeo, que demonstra do que a criatividade ainda é capaz na Web. Por favor, não redimensione a tela! É um filme bobinho, mas deixou-me intrigado: como é que fizeram? Acho que foi com um pouquinho só de programação em Java (ou algum script similar). Considerando que o vídeo deve rodar em plataformas Linux e Mac tanto quanto em Windows, imagino que nem passe pelas DLLs.

Pergunta 1: glicose e frutose

A Bárbara Axt propôs que fizéssemos [pelo menos] uma pergunta por dia. A minha de hoje é a seguinte: se glicose e frutose são isômeros, por que uma é reputada menos calórica do que a outra? Pergunta derivada (que, portanto, não conta): por que diabético pode comer frutose mas não pode comer glicose?

***

Recebi um panfleto de uma academia de ginástica. Falava em estimulação russa, mas não dizia o que era isso. Então, estou autorizado a imaginar:

– Estimulação russa é vodka?

– Estimulação russa é uma técnica de interrogatório inventada pela KGB, envolvendo porões e choques elétricos?

***

Apidêite do apedeuta

Acabo de verificar (onde mais?) que a frutose não é menos calórica.

Estou por conta

Prometo a você unilateralmente: nunca vou usar a expressão “por conta” com o significado de “por causa”. Já estou farto: agora, todo o mundo só quer dizer “por conta”; ninguém mais diz “por causa”. “Por conta das minhas férias, passo a tarefa para você”, “… o trânsito ficou lento por conta da chuva”.

Chega. Não eu. Esteja tranqüilo: não vou cobrar de você. Mas comprometo-me, de hoje ao fim dos tempos, a nunca perpetuar essa prática que já vitimou famílias, trouxe fome, guerra e peste, aqueceu o planeta e causou choro e ranger de dentes.

Síndrome da paisagem

Esta mensagem da Bárbara Axt estimulou-me a vir repetir um tema antigo que me é muito caro. Existem livros demais, filmes demais, quadrinhos, artigos de revistas, da Web, coisas demais para ver, e não dá tempo de aproveitar tudo no tempo de uma só vida. Chamo a isso de síndrome da paisagem: sou como um cego, sabendo que está diante de uma paisagem mas incapaz de admirá-la. Posso ler um zero vírgula por cento de tudo quanto há, mas quase tudo vai escapar.

Como se isso não bastasse, cada obra que você consome também o estimula a pensar, comparar, correlacionar e, se tiver disposição, escrever mais. Então, só acumula, acumula, acumula. A produção vai ficando gigante, bola de neve mesmo. Em Engenharia, a gente diz que é um caso de retroalimentação positiva: o resultado do processo contribui para ampliar a causa do mesmo processo. (Na retroalimentação negativa, o resultado diminui a causa.)

Um problema é onde e como armazenar toda a produção, que, em princípio, é o legado da humanidade, com tudo que tem de bom e de ruim. Escolher o que preservar, e o que não, é basicamente uma questão ideológica, então presumo guardar tudo. Outro problema é como indexar para recuperação: não adianta você ter a informação e não conseguir chegar até ela, porque isso equivale a não tê-la.

Um terceiro problema, este pessoal mais do que institucional mas comentado pela Bárbara, é você ter tempo de organizar seus pensamentos e deitar a pena ao papel. No meio da azáfama, acabamos sufocados e não conseguimos sequer terminar as tarefinhas que começamos. Ela está em busca de uma solução e eu, que compartilho a dor, desejo-lhe sucesso.

***

Mudando de assunto, hoje eu caminhava em frente ao Centro Cultural da Justiça Federal quando vi a placa em (suposto) inglês para benefício de turistas. Só olhei de relance, mas sei qual é o conteúdo: a placa comenta o próprio prédio, que, històricamente, foi a sede do Supremo Tribunal Federal. No meio do texto, meu olho bateu em “… The Hearing Room was…” e pensei, “hearing room”? Sala de ouvir? Traduzindo de volta, entendi que é a sala de audiências, courtroom ou, sendo benevolente com o tradutor, audience room. Fico pensando no pobre turista, deparando-se com uma sala que escuta. Sabe como é, as paredes têm ouvidos.

Mão-de-obra não especializada

Eu na Barnes & Noble, fechando uma compra de US$ 125. A moça do caixa anuncia que, se eu tiver um cartão da loja, tenho 10% de desconto, pergunta se tenho um (não tenho) e se quero fazer. Quanto tem que pagar? pergunto. 25 dólares. Aí eu disse (deveria ter só pensado, mas cometi o erro de falar em voz alta), pago 25 para ter um desconto de pouco mais de 12…

Ao que ela me interrompeu: — Não sei, não sou boa com Matemática.

Então, como vocês estão vendo, não é só aqui que eles põem as pessoas mais desqualificadas para atender no balcão. Em Nova Iorque também. Fico pensando se não é um requisito para assumir o emprego.

Em tempo, e é claro que isto não tem nada a ver: naquela grande metrópole judaico-cristã ocidental, constatei que os motoristas de táxi, engraxates, arrumadeiras de hotel, vendedores e balconistas em geral são todos oriundos ou da América Latina, ou do Extremo Oriente (China, Vietnã, Filipinas), ou do Subcontinente Indiano (Índia, Paquistão), ou da África Meridional (Quênia, África do Sul). Os nativos estão todos em ocupações que rendem mais dinheiro. Você pode não acreditar, mas falei mais portunhol do que inglês na Grande Maçã.

Cada um tem os alienígenas que merece

Segundo a manchete do jornal popular Expresso de hoje, ontem à noite houve uma assustadora visão no Rio de Janeiro. Moradores da zona Norte teriam visto um enorme objeto redondo e iluminado flutuando no céu, acima do Engenhão, e depois desaparecendo. O jornal traz a sugestão de que tenha sido uma visita de alienígenas.

Mas que coincidência! Ontem à noite, eu também vi um enorme objeto redondo e iluminado no céu. Era a Lua cheia, belíssima, que a neblina tornava amarela. Depois, com a ventania, as nuvens encobriram o céu do Rio e a Lua desapareceu.

Acho que era um OOI: objeto orbitante identificado.

Em brancas nuvens

Ontem à noite me dei conta: nove dias atrás, a Constituição de 1988 fez vinte anos de promulgada e ninguém parece ter reparado nisso.

Frustrações urbanas variadas

Uma das formas de se escrever um belogue é o fluxo de consciência. Muitos Autores de vanguarda escreveram assim no século XX; talvez a mais famosa no Brasil seja Clarice Lispector. Faz muito tempo que venho querendo imitar esse estilo, e o belogue pretendeu ser uma tentativa, que, na verdade, acabou nunca tendo início. E ainda não vai ser desta vez, mas hoje os pensamentos serão quase tão desconexos quanto.

Estou lendo 1984 (que, na verdade, chama-se Nineteen Eighty-Four, por extenso). Para minha agradável surpresa, logo no início do livro o protagonista tenta escrever um diário, e o que sai é mais ou menos o que eu imaginava que fosse sair quando também eu tentasse: diante da página em branco, ele simplesmente deixa jorrar um conjunto impulsivo e atropelado de sensações sem pontuação.

Talvez eu seja apenas ansioso. Tenho andado muito pensativo porque insatisfeito, especialmente por causa de meu mau gerenciamento do tempo. Mas equilibro meu desconforto com um otimismo calculado e deliberado: de que, a cada dia, na verdade a cada instante, renova-se meu propósito de fazer certo daquele momento em diante. Assim: errei até as 19:48 h, mas às 19:49 farei direito, farei certo.

***
Tem chovido todo dia no Rio de Janeiro. Todo dia a chuva é fraca mas longa e fria. Gosto dos dias chuvosos, introspectivos, mais calmos; mas não do chão molhado, do óculos molhado, do guarda-chuva desajeitado importando água para onde ainda estaria seco.
Quando esfria no Rio de Janeiro, mais ainda quando chove, existe um aspectozinho mesquinho e nefasto da rotina que piora a vida de todo o mundo: a primeira coisa que povão faz é fechar as janelas do ônibus, a de cima e a de baixo. Fica aquela estufa móvel cheia de gente tossindo, você quase consegue ver as doenças respiratórias trafegando no ar graciosamente parado dentro do veículo. Como povão não foi à escola, perdeu aquela noção sanitária básica segundo a qual tem que haver renovação do ar. Sim, vai entrar um pouco de vento, mas a chuva nunca entra nem vai dar pra sentir frio. Ainda que desse, é muito melhor do que a tuberculose, pneumonia, gripe ou resfriado que virá voando na última tossida do infeliz que dorme a seu lado.

***
Exame de saúde periódico, exigido por meu empregador. A moça preparava a seringa quando viu o livro no meu colo (1984) e o adesivo na capa, “3 for 2 — bargain price — only if marked”.

— Esse livro é de inglês?

— Não, não é de inglês. Mas está em inglês.

— Ahn.

Enquanto ela me espetava o braço (e eu dava meu sangue pela Companhia), senti que eu estava dizendo pouco. Se, por um lado, ela estava sendo discreta e respeitosa ao não perguntar mais nada (ou, o que é mais provável, apenas odiosamente desinteressada, para que perder tempo com livros, não é mesmo?), por outro lado senti que não era possível que eu não comentasse mais sobre a obra, o mínimo que fosse. Sim, eu sei, ela não queria ouvir, mas, pombas, tinha que ir até o fim, ainda que o fim fosse próximo. Então, enchido o segundo tubinho de plasma e tudo que nele vai em suspensão, complementei:

— É um dos livros mais importantes que já foram escritos.

— Ah, é?

… Ao que, como se eu não tivesse dito nada, o resultado sai em cinco dias úteis, a senha está no protocolo, se quiser ali tem biscoito. Tenha um bom dia.

Tenho certeza de que, desta vez, provoquei uma inversão: o chato insistente fui eu. Mas não deixo de sentir que algo não está bem. Provavelmente a moça adora assistir ao Big Brother Brasil — Big Brother, marque minhas palavras — e nunca ouviu falar de 1984. A ironia é gritante, entende? a verdade está implorando para nos libertar, eu tinha que fazer alguma coisa. So much for minha evangelização.

***
Por falar no quê, tenho vagarosamente desenvolvido um tema que discuti recentemente com o Filósofo. Olhe só: a gente lê nos jornais que o tráfico está matando transeuntes lá pro lado do Alemão. A gente lê que determinado bandido foi preso, vê a fotografia do sujeito de cabeça baixa na delegacia, vê imagem do blindado da polícia em algum acesso à favela. Todas essas evidências trazem um tom de palpável, inquestionável realidade.

E se Benny Cemoli não existisse?* E se fosse tudo falso? A realidade da qual tenho certeza (e nem desta tenho certeza) é apenas a que vejo entre casa e trabalho, por onde passa o ônibus, e onde mais trafego. O que o jornal me traz são abstrações, não tenho provas de nada. Meu ônibus não é assaltado, não pega desvio por causa de algum tiroteio, aquela notícia não se relaciona a meu mundo. Mais do que não me afetar: é irrelevante seu caráter de verdadeira ou falsa, tal como uma obra de ficção. O jornal passa a ser como uma novela ou folhetim, cujo próximo capítulo leio no dia seguinte.

E assim com tudo: a crise das bolsas e a montanha-russa do dólar; a estatização do petróleo no Equador; o resultado das eleições municipais. Tudo abstrações. Agora mesmo, que estou há três meses sem ver televisão, percebo que não preciso dela, meu mundo não muda, está só dentro de casa, dos lugares aonde vou e dos livros que leio (onde tenho a certeza da ficção). Meu mundo sempre esteve circunscrito a apenas isso, e o dinheiro no banco é apenas questão de crédito: eles me dizem que tenho tanto, então tenho.

Faça o teste. Imagine ler as notícias como se estivessem acontecendo em outro planeta, outro universo, e você vai ver que, de fato, o imediato a sua volta não é afetado por elas.

Qualquer dia me oferecem uma pílula azul e outra vermelha e descubro que estou flutuando dentro de uma gosma rosada e que não tenho nenhum pêlo no corpo.

* Título de um conto de Philip K. Dick, onde um exército descobre que seu inimigo era apenas uma ficção de jornais que, aliás, estavam sendo editados por um computador descontrolado.

Destaques do Velho Mundo

Se um dia eu estiver a fim, conto mais coisas. Hoje vou contar só algumas coisas que me chamaram a atenção.

1. Biblioteca Britânica
Ali havia uma exposição de manuscritos e de impressos do início da imprensa. Uma das primeiras coisas impressas na Europa era, imagine só, um formulário de indulgência. Porque a Igreja vendia centenas, milhares de indulgências por dia, por mês, por ano, gastava-se muito tempo escrevendo os documentos, e os escribas não davam vazão. Então, inventou-se um formulário igual a esses de DARF que você compra em papelaria, ou igual a esses de diploma: o texto do perdão vem todo pronto, só falta você preencher o nome. Então, o mortal ia lá, comprava o formulário, preenchia (ou, mais provàvelmente, pedia para alguém preencher a rogo) e levava para o padre como comprovante.

Como você vê, à Igreja não faltava pragmatismo. Eu pensei outras coisas engraçadas na hora, mas não lembro mais.

2. Museu do Prado
Você está lá, cercado de obras-primas de Bosch, Ticiano, Caravaggio, Goya, Velásquez. Passa um grupo de velhos acompanhando um guia. Nenhum deles olha sequer de relance para as paredes. Simplesmente se ocupam de seguir o guia e não dedicam um segundo pensamento a olhar em volta, como se não estivessem em um museu, como se não houvesse nada para ver. Pra fazer isso, é melhor nem viajar, né não? Igual àquela gente que viaja e diz que não tinha nada pra comer, “tive que comer no McDonald’s, porque eles não tinham arroz com feijão”.

3. B-17 Pink Lady
Aconteceu comigo aquilo que havia acontecido com Hiro e o Lancaster (veja aqui, em Junho 16, 2007). Estava trocando de roupa no quarto de hotel quando ouvi um ruído de avião diferente lá fora. Corri à janela a tempo de ver uma B-17, seus quatro motores girando, sobrevoando Londres, tal como sessenta anos atrás.

As utopias realmente me perseguem

A esta altura, deve ter dado para notar um fato que não me incomodo em confessar: um de meus interesses atuais é a Wikipedia. Desejo entender sua estrutura, critérios de qualidade de texto, normas de edição, etiqueta, conteúdo, estilo e formato. Desejo contribuir escrevendo artigos inteiros e adequando outros a esses padrões. Já descobri as várias páginas, aliás bastante didáticas, que explicam esses tópicos exaustivamente. Fascinam-me as possibilidades de páginas sobre os próprios editores, de convivência em torno de projetos e de listas de tarefas para crescimento desses projetos.

Estou bem certo de estar infelizmente abrindo uma caixa de Pandora e potencialmente embarcando em um monstruoso desperdício de um tempo que não tenho. Quanto mais não seja, porém, há de valer-me um grande aprendizado sobre edição de texto e ambientes compartilhados, a mim, que abraço conhecimento como a mariposa circunda a lâmpada.

Provavelmente não farei nada disso. De antemão, desencoraja-me saber que, muitas vezes, os editores são pessoas sem a noção profissional, apaixonada pela enciclopédia mas desapaixonada das idéias, de manter um distanciamento impessoal naquilo que escrevem. Por mais que se tente manter a neutralidade, os editores sempre acabam por derramar seus preconceitos, suas visões ideológicas, religiosas, políticas, controversas.

Assim, por exemplo, descobri que há um editor que se projeta bastante nas páginas sobre aviação, com vasto conhecimento e, tenho certeza, correspondente boa fé. Descobri, também, que esse mesmo sujeito é um daqueles típicos comedores de milho do Meio-Oeste dos Estados Unidos, religiosos extremados que acreditam no Destino Manifesto da América como senhora do mundo e para quem o aquecimento global não tem relação com a indústria humana. Imagine o estrago que um camarada desses pode fazer em páginas sobre temas um pouco mais polêmicos do que a história da tecnologia aeronáutica.

Se eu afinal me juntar com intensidade a esse esforço, estou convicto de que ficarei frustrado com a falta de isenção e com noções peculiares quanto à relevância de certos tópicos obscuros dentro de páginas de conteúdo universalista. Por tudo isso, hesito.

Entretanto, não posso deixar de reconhecer que as ferramentas Wiki são a materialização de mais uma de minhas antigas utopias. Pela minha impressão, elas também vêm ao encontro dos objetivos mais puros de certos idealistas do conhecimento cujo exemplo mais vigoroso são os enciclopedistas do século XVIII, liderados por Diderot. É a mesma noção que orientou a criação da biblioteca de Alexandria e das bibliotecas nacionais, é o mesmo sonho que estimulou os criadores primeiros da Internet e os gravadores do disco da Voyager. E é o seguinte: faz tempo que também concebo a possibilidade de uma grande, gigantesca, incomensurável, descomunal base de dados que reúna todo o conhecimento humano de forma consolidada e isenta (oquei, essa parte é impossível, a ideologia está por toda parte, especialmente quando não a percebemos), nos níveis ilustrativo, introdutório e profundo, destilando o conhecimento dos especialistas e acessível ao digitar das palavras-chaves.

Percebe? A atração é forte demais, não posso ficar inerte. Agora que sei que a Wikipedia existe e que tem padrões de excelência, não posso não fazer nada. Existem assuntos demais sobre os quais me dá comichão escrever: Brasil, Física, Astronomia, aviação, Direito, literatura, bibliofilia, Jornada nas Estrelas, Richard Bach, rock, quadrinhos, Astérix, Tintin, super-heróis…

‘Ver no que isso vai dar.

Clarke, Leiber e Lavoisier

Na semana passada, acabei de ler The Wanderer. Afinal o Autor não me decepcionou: acabou explicando a natureza do planeta Errante, o porquê de seus habitantes vagarem pelo hiperespaço e o que ele queria na órbita da Terra. Infelizmente, o livro só foi ficar bom quando três quartos já haviam ficado para trás.

Para trazer parte da explicação, Leiber lança mão de um recurso tão misterioso quanto útil. O astronauta Don Merriam escapa à destruição da Lua embarcando em uma nave auxiliar, que entra em órbita do misterioso planeta Errante e é capturada para dentro dele por um raio trator. Lá dentro, Merriam é convidado a sair de sua nave, encontrando uma atmosfera respirável e sendo levado a um quarto onde suas necessidades básicas são atendidas e onde, antes de pegar no sono, percebe que sua mente está sendo lida. Ao acordar, o astronauta descobre que está fora de seu corpo enquanto uma força desconhecida arrasta sua consciência descarnada através dos corredores do planeta. A visita é compulsória: a sensação é de que ele poderia controlar para onde vai, mas sempre percebendo uma urgência que o compele a passar a outro ambiente, ao mesmo tempo em que percebe presenças invisíveis. O passeio lhe mostra seres com uma grande variedade de estruturas e vivendo em ecossistemas os mais diversos, até que ele retorna a sua acomodação e volta a dormir.

Mais uma vez: se a seqüência lhe parece familiar, é porque é. The Wanderer é de 1964. No final do livro 2001 (que Arthur Clarke publicou em 1968) e lá pelo meio de 2010 (que saiu em 1982), esses são os exatos eventos que sucedem ao astronauta David Bowman. As diferenças são o objeto destruído (a Discovery em vez da Lua), o objeto misterioso orbitado (o Monolito em vez do planeta Errante), a localização dos ecossistemas (Júpiter e seus satélites em vez do planeta Errante) e o retorno ao próprio corpo, que não acontece na obra de Clarke.

Comentário ao belogue dos quadrinhos

Aqui, em 23/04/2008, o Dr. Paulo Ramos comentou histórias em quadrinhos que usaram o contorno de modo inovador. Através de metalinguagem, os personagens mostram quase saber que foram apenas desenhados sobre o papel.

Tive que lhe deixar este comentário:

“Sobre o uso dramático do contorno: Mauricio de Sousa tem pelo menos mais um exemplo brilhante. Lembro-me de uma história do Cascão dos anos 80 onde ele era atirado sobre um rio. Para não cair na água, o único lugar onde pôde se agarrar foi o contorno.”

Recém-lidos:
The Wanderer, de Fritz Leiber;
Justice League America #62 (maio de 1992);
Superman #67 (maio de 1992);
Hellblazer #53 (maio de 1992);
Armageddon: Inferno #2 (maio de 1992);
Action Comics #677 (maio de 1992);
Flash #63 (fim de maio de 1992);
Flash #64 (início de junho de 1992);
Justice League America #63 (junho de 1992);
The Sandman #38 (junho de 1992).

V-E Day

Hoje é Dia da Vitória.

Nesta data, há 63 anos, cessou aquela que foi talvez a maior carnificina na História da humanidade. Estima-se que mais de 60 milhões de pessoas tenham morrido em um conflito que moldou a geopolítica do mundo inteiro e sobre o qual já se escreveram milhares de livros.

Hoje, voltávamos do almoço eu e o Filósofo. Tínhamos acabado de atravessar a rua da Assembléia quando ouvi um barulhão. Imediatamente olhei para cima e vi quatro AMX em formação diamante, cruzando o céu do meio-dia em alta velocidade e a baixo nível — tão baixo que ele não teve tempo de ver. Comentei: hoje é Dia da Vitória, o monumento aos mortos é ali na frente. Deve estar acontecendo algum evento. (O telejornal da Record disse que eram “caças supersônicos” da Força Aérea. Não sei de onde tiram isso, é nossa imprensa chutando novamente o que não quer ter trabalho de pesquisar. Não eram caças nem supersônicos!)

Por alguns momentos, dediquei meu pensamento aos que se sacrificaram, aos que morreram à toa, aos que acreditavam, às vítimas sem escolha, à juventude perdida de toda uma geração e aos sobreviventes, feridos e orgulhosos.

É impossível não ter reação, alguma reação, diante da Segunda Guerra Mundial. Documentários abundam, consciências nacionais foram alteradas por ela, marcas profundas permanecem, há monumentos e cemitérios por toda parte. Depoimentos aos milhares, iconografia, ideologia.

Talvez nenhuma comemoração tenha sido tão apropriada quanto a do fim da guerra, a felicidade de que ninguém mais ia ter que morrer. E, no entanto, a Europa estava destruída, famílias desfeitas, e era uma alegria amarga, estragada, triste. E o conflito no Oriente ainda ia durar três sofridos meses, terminando com o calor do Sol na Terra e a chuva negra que trazia câncer.

A data não pode passar em branco. 63 anos hoje, para escarmento das gerações futuras, até nos esquecermos e começarmos tudo de novo.

Anotações: Swamp Thing #87

Acabo de enviar isto a Jonathan Woodward. É uma contribuição a seu saite sobre a Crise nas infinitas Terras, onde há uma página sobre textos relacionados.

“(…) In Swamp Thing #87 (June 1989), the green plantman goes to Camelot. In page 8, there is this dialogue between him and Merlin:

“‘That Knight [the Shining Knight] that drew me out of the wormhole… HE is able to travel through time?’

“‘Sort of. First let me explain that time is a complicated thing. In fact, what many think to be time travel is merely the exploration of ALTERNATE worlds.

“‘But at some point during YOUR era, a sort of CONVERGENCE of the worlds seems to have occurred.

“‘And all the endless possibilities were boiled down into a single reality, which is MUCH easier to set up a direct channel to.’

“‘HMMM. An interesting theory. Others I have encountered… have espoused it as well. But if there were… a CRISIS on such a scale… I’m sure I would REMEMBER it.’ (…)”

Maré de tranqüilidade

Conforme já comentei aqui, estou lendo The Wanderer, de Fritz Leiber. A idéia do livro é simples: de repente, não mais que de repente, oriundo do hiperespaço durante um eclipse lunar, surge um planeta bem junto da Terra, logo além da órbita da Lua. O Autor demonstra os fenômenos que decorrem daí e as diferentes reações das pessoas.

Foi por causa dessa premissa que comecei a ler o livro. O que eu não sabia era isto: que a narrativa é arrastada e que está fragmentada em (que eu lembre agora) doze perspectivas, cada uma com seus protagonistas tendo uma visão parcial do fenômeno. Bem, tendo eu lido metade do livro, ele melhorou da chatice e, apesar dela, persisto porque estou muito curioso em saber o que o Autor propõe.

A propósito, é sintomático que, quando fui pesquisar sobre The Wanderer na Internet, eu tenha encontrado várias resenhas repetindo a mesma crítica que fiz acima: há personagens demais e a narrativa fica toda entrecortada. Com isso, o próprio Autor revela-se incapaz de uma caracterização adequada, patinando e cansando o leitor.

Mas não foi pra falar disso que entrei no assunto. É o seguinte: o planeta tem massa semelhante à da Terra. Sua proximidade causa tremendos efeitos de maré sobre a Terra e, mais importante, sobre a Lua. Na primeira, o mar sobe muito além do que a civilização consegue tolerar, e a segunda é toda deformada e partida em pedacinhos. Vai daí que, em certa passagem, um cientista lembra que a força de maré decai com o cubo da distância.

Na hora, parei a leitura e pensei: tem algo errado. A força de maré é uma decorrência da gravidade, e esta decai com o quadrado da distância, não o cubo. Mas o Autor insistiu no parágrafo seguinte e ainda deu um exemplo. Além do mais, não escreveu o algarismo 3, mas pôs “cube” por extenso.

Nesse ponto, vocês sabem o que eu tinha que fazer: consultar minha nova amiga, a Wikipedia. Para meu espanto, o verbete sobre a força de maré não só confirma que ela decai com o cubo da distância como ainda mostra a dedução da equação.

(Incidentalmente, se você precisa saber, grosso modo é o seguinte: a força de maré é um diferencial da força da gravidade. Expandindo a gravidade em uma série polinomial, a força de maré aparece no segundo termo e é por isso que sua potência é –3 em vez de –2. Mas isso não interessa.)

O enfoque aqui é o seguinte: senti placidez ao ver a dedução da equação.

É preciso entender que, durante todo o curso de Matemática do segundo grau e, depois, durante todo o curso de Engenharia, você aprende a nunca aceitar uma equação pelo valor de face. Todas as equações que expressam leis naturais devem ser provadas através de dedução. Isso faz todo o sentido, porque a carreira do engenheiro será construída sobre o pressuposto de que as equações são válidas, e não haverá tempo para ficar verificando se estão corretas. Então, você deduz uma por uma, penosamente, para prová-las para si mesmo, uma única e sólida vez, não ter mais que olhar para trás depois e poder consultá-las sempre que quiser, sabendo que é território já conhecido e provado. Desse ponto em diante, elas podem ser consideradas verdadeiras, e você saberá todos os pressupostos que vão implícitos, todas as premissas e, a partir delas, os limites até os quais se pode acreditar em cada equação.

Então, ao longo da minha vida, toda vez que me deparei com uma equação, tornou-se uma reação quase instintiva verificar se realmente ela estava correta, se nenhum termo estava faltando, quais eram as premissas. É verificar se posso acreditar no que estou lendo, do mesmo modo como você confere a retórica de qualquer texto, verificando se os argumentos são válidos, se o Autor não omitiu nada, se seus exemplos se aplicam. Porque uma equação é um argumento como qualquer outro, sujeito a verificação para o Autor te convencer com base na credibilidade que adquiriu junto a você. Isso é importante, porque às vezes eles erram mesmo, e as conclusões passam a estar furadas. Minha própria dissertação de mestrado nasceu de um erro de sinal cometido por um conceituado pesquisador ao deduzir uma equação. Levei meses para aceitar que o cara realmente tinha errado, mas a oportunidade de fazer do jeito certo foi uma das grandes motivações do trabalho.

Assim, quando a Wikipedia mostrou a dedução da equação da força de maré, senti uma tremenda segurança: eu já tinha passado por tudo aquilo, todas as grandezas físicas eram minhas conhecidas. Especìficamente, nunca havia estudado a força de maré, mas isso não importava, porque eu tinha a certeza de que, com o conhecimento de que a escola me munira, a qualquer tempo seria (e sou) capaz de conferir se a dedução está correta.

E o melhor de tudo é que não tenho que. Eu não estava interessado na fórmula exata, nem queria verificar se estava correta, nem seria obrigado a isso: bastava-me confirmar se o denominador tinha um raio ao cubo, e passei a ser o responsável por minha própria certeza e meu eventual e irrelevante erro. Há uma demonstração para acompanhar, e sempre existe o argumento de autoridade de que, se o digitador se deu ao trabalho de demonstrar (e com isso deu a cara a tapa, porque qualquer um pode conferir), então provavelmente está certo. E não abro mão do poder de verificar a correção. É só que não tem importância nenhuma, não estou projetando nenhum satélite para estar proibido de errar a conta.

Então, vejam: eu procurava a confirmação de uma declaração que encontrei em um livro. O Autor não é nenhum tolo. Se sua ficção científica é respeitada, é que ele tomou certos cuidados e não ia cometer um erro desses. Aí, fui investigar e encontrei demonstração de que a força realmente decai com o cubo da distância, qualquer que seja a fórmula completa. É quanto basta, e me senti totalmente por cima daquilo tudo, território já dominado, onde tàcitamente sei tudo que preciso saber para me convencer da correção do aprendizado novo. As equações apareciam desnudadas para mim, sem possibilidade de se imporem, de eu ter que ficar quebrando a cabeça com alguma realidade física desconhecida.

A propósito, meu exemplar é tão velho e está tão seco que vai se fragmentando à medida em que vou lendo. As páginas vão quebrando quando são abertas e acabam caindo, de modo que, por mais que eu leia, não muda o número de páginas entre a primeira e o ponto onde estou. O negócio é ler mais rápido do que o livro se desfaz antes que ele me alcance, feito Tom Hanks subindo a escadaria em Um Dia a Casa Cai.

Recém-lidas:
Justice League America #61 (abril de 1992);
Justice League Europe #37 (abril de 1992), apenas as primeiras páginas;
Flash #62 (início de maio de 1992);
The Sandman #37 (maio de 1992).

O Evangelho do Coiote

Recentemente, terminei de ler Animal Man #5, do inverno de 1988. A história chama-se “The Coyote Gospel” e foi escrita por Grant Morrison e desenhada por Chas Truog e Doug Hazlewood, com capa de Brian Bolland. O motivo de eu ter procurado essa edição de AM é a grande quantidade de elogios que li na Internet, principalmente os que dizem que a história é perturbadora e inovadora, usando a simbologia cristã para trazer uma interpretação de seu Autor sobre o significado e as intenções de Deus.

ATENÇÃO: VOU CONTAR A HISTÓRIA E SEU FINAL. Você foi avisado.

Tudo começa com um caminhão atropelando e matando um coiote, que em seguida ressuscita. Um ano depois, o motorista volta ao local, acreditando que sua vítima seja um demônio que prejudicou sua vida de lá pra cá e determinado a matá-lo de uma vez por todas. Ele atira no coiote, que vemos cair no abismo e ficar pequenininho, cada vez menor, até virar uma fumacinha lá embaixo. E uma pedra cai em cima dele.

Isso lhe parece familiar?

Mas o coiote sobe de volta e o sujeito explode uma bomba que o deixa mutilado. Nisso, chega o Homem-Animal, que, apesar de teòricamente ser o protagonista, é um mero espectador nesta história. Aí, o animal ferido lhe estende um papel enrolado: o Evangelho do Coiote, que o leitor tem chance de saber o que contém.

O Evangelho é a história de como, no mundo dos bichinhos, tudo era violência e eles passavam o dia se matando uns aos outros em atos de crueldade fútil: bombas explodindo na cara, bigornas caindo, rolos compressores atropelando-os etc. Os bichinhos sempre ressuscitavam para serem mortos de novo em um ciclo de carnificina sem fim.

Um dia, o coiote Crafty (Engenhoso em português) estava preparando uma armadilha para o pássaro que corria — e agora, reconheceu? –, quando a passagem súbita do corredor fez a armadilha reverter e ele levou um tiro de canhão na cara. Para Crafty, isso foi a gota d’água. Ele foi se queixar a Deus, que lhe respondeu que essa era a ordem natural das coisas e mais: a inconformidade de Crafty foi um desafio à autoridade divina, e ele devia ser punido. Mas Deus era misericordioso e permitiu que a punição tivesse um propósito. Então, Crafty pediu que seu suplício servisse para que não houvesse mais violência no mundo dos bichinhos. Em resposta, Deus condenou-o a morrer sucessivas e trágicas vezes no mundo real, sempre sentindo as dores. Enquanto isso continuasse acontecendo, os bichinhos seriam poupados. Assim, Crafty tornou-se um mártir, que aceitou sobre si todo o sofrimento do mundo para que outros pudessem viver em paz.

Infelizmente, o Homem-Animal não consegue ler a escrita e devolve o papel sem ter tido acesso a seus ensinamentos. Ato contínuo, o motorista do caminhão atira em Crafty com uma bala de prata e ele morre pela última vez, estatelado com braços e pernas abertos sobre o asfalto, o corpo na mesma atitude que vemos nos crucifixos. Fim.

Em primeiro lugar, confirma-se o que li na Internet: história perturbadora, inovadora, chocante e, definitivamente, não o tipo da coisa que se costumava ver em quadrinhos. Eu nunca vi temas dessa seriedade serem discutidos assim, ainda mais misturando seu conteúdo com o de desenhos animados considerados infantis.

Em segundo lugar, existe a admissão aberta de que os desenhos da Warner são violentos sim, o que chama atenção diante do fato de que a DC já pertencia ao grupo Time Warner na época da edição. Reconhece-se abertamente que seus personagens sofrem crueldades que matariam qualquer um. A única explicação possível é que, em seu mundo surreal, as mortes seqüenciais são sucedidas por imediatas ressurreições, e também o absurdo dessa situação é abordado de frente, escancarando que as leis físicas dos desenhos animados são diferentes das de nosso mundo.

Em terceiro lugar, a história é um vislumbre da visão que Grant Morrison deixaria mais clara entre as edições 23 e 26 de Animal Man: a de que o universo dos quadrinhos (e também o dos desenhos animados) não é mais nem menos real do que o nosso, e de que cada um tem suas próprias regras. A “realidade” dos desenhos não é absurda, apenas funciona de outro modo.

Em quarto lugar, existe aí um tema bastante grave e que exige reflexão. É a possibilidade, intuída e apontada por Morrison, de que nós, criaturas, não passemos de joguetes nas mãos de um Deus que nos usa apenas para Seu próprio divertimento. Assim como não dedicamos um segundo pensamento a formigas ou bactérias, da mesma forma talvez estejamos sendo tratados sem a menor consideração por um criador que não poderia sequer ser chamado de cruel. A própria Bíblia autoriza essa interpretação quando traz a idéia de termos sido criados para servi-Lo. Assim como Morrison se importa com personagens que considera bastante reais, também demonstra preocupação com seu poder de manipular esses personagens, como seu criador que é. Na qualidade de autor, ele teria uma responsabilidade, que ficaria mais evidente nas edições 23-26 da revista. Não por coincidência, o rosto de Deus não aparece, mas Ele é representado usando roupas como as nossas e portando lápis e pincéis.

Finalmente, a noção de um coiote como o Cordeiro de Deus, como o redentor que se oferece a livrar o mundo de seu sofrimento absorvendo o padecimento sobre si mesmo, é dolorosamente familiar e, por isso mesmo, há de ser considerada sacrílega por quem não tiver o poder de generalizar. Afinal, por que somente os homens teriam a possibilidade de uma tal salvação? A história é totalmente coerente com a visão ecológica de que a raça humana não tem a importância que atribui a si mesma e de que os animais têm tanto direito a este planeta (e universo) quanto nós.

Ao mesmo tempo, “The Coyote Gospel” é uma subversão da visão tradicional da figura de J.C., na medida em que retrata Deus como um tirano que exige sacrifício. Nessa óptica, J.C. não seria Deus encarnado, mas uma vítima da autoridade sanguinária. É até de se estranhar que a história não tenha levado multidões com archotes a apedrejar o prédio da DC nem o escocês Morrison a ser banido de escrever nos puritanos Estados Unidos.

Incidentalmente, “The Coyote Gospel” foi publicada no Brasil em DC 2000 no. 7, de julho de 1990, e republicada nos Estados Unidos no encadernado Animal Man, de 1991.

Recém-lida: Armageddon: Inferno #1 (abril de 1992).

Aqui como lá

Alguns dias atrás, o Strange Maps mostrou a curiosa situação da cidade alemã de Büsingen am Hochrhein: existe um pedaço de Suíça entre essa cidade e o resto da Alemanha. Então, o mapa da Suíça tem um olho, ou um buraco, onde fica Büsingen; e o mapa completo da Alemanha tem um pedaço destacado do principal, tal como o Alaska dos Estados Unidos.

Essa anomalia territorial tem algumas conseqüências curiosas, como o fato de o único posto de gasolina de Büsingen afirmar (aparentemente com razão) ter a gasolina mais barata do país, em decorrência de acordos alfandegários que a cidade mantém com a Suíça.

Comentei essa situação com o Filósofo, que me lembrou: temos isso no Brasil também. Como assim? perguntei. É em Brasília: a sede do STF, com seus Onze Alemães.

(Em tempo, cabe um esclarecimento. Habitualmente, nosso Supremo Tribunal profere julgamentos academicamente impecáveis, bem fundamentados etc. Infelizmente, conforme eu e o Filósofo já havíamos conversado, na maioria desses julgamentos os Ministros do Supremo têm a tendência de imaginar que estão na Alemanha, onde há dinheiro para tudo, onde ninguém tem fome, onde a polícia não bate nas pessoas, onde o cidadão acompanha a política e vota conforme uma convicção formada independentemente, onde todos são alfabetizados e conservadores e os vizinhos se respeitam. Apesar de mim, não vai aí uma crítica. Realmente devemos nos esforçar para este País se converter naquela espécie de paraíso dos direitos, e os julgamentos devem ser emitidos no sentido de realizar aquela utopia. É só que, na visão que os Senhores Ministros deixam transparecer, parece que aquilo tudo já é real. Com isso, às vezes os julgamentos se distanciam da realidade e seu conteúdo acaba perdendo efetividade.)

Recém-lidas:
Swamp Thing #98 (agosto de 1990);
Hellblazer # 52 (abril de 1992).

A Bíblia é metal total

Hoje à tarde, comentei com o Filósofo que a Bíblia é um livro bem heavy metal. Com isso, dizia que é genocídio, ciúme doentio, radicalismo, guerra total, muito sangue, violência gráfica, cadáveres putrefatos aqui e ali, etc.

Não é à toa que é o livro preferido do Alex Castro, porque tem tudo que um bom livro deve ter: intriga, romance, traições, corrupção, incesto, conflitos familiares, vingança, conflitos morais. Também contém conselhos sensatos (Sabedoria, Provérbios, Eclesiastes), poemas belíssimos (Salmos), recomendações para uma boa dieta (Daniel), Direito (Levítico, Deuteronômio), mitologia e arquétipos junguianos (Gênese), delírios insanos e geniais (Ezequiel, Apocalipse — vai dizer que as capas dos discos do Iron Maiden não vieram de lá?), épicos (Êxodo, também conhecido pela atuação de Charlton Heston), regras simples mas eficazes de boa convivência (os quatro evangelhos), a lista é longa.

Aí, cliquei no Janer Cristaldo e li seu post sobre liberdade, ateísmo e religião (datado de 13 de abril). Tive que comentar por email:

“Há umas semanas, também comentei em meu belogue: toda vez que a Igreja se mete em política (o que, aliás, é direito dela), é SEMPRE para dizer NÃOPODE. SEMPRE para PROIBIR crentes e incréus de fazer alguma coisa, nunca para permitir.

“Tremenda inimiga da liberdade, essa Igreja. Entre os dela, não me importo (estão lá porque querem. Já estive lá, sei disso). O problema é que querem que EU me sujeite a seus mandamentos, eu, que não escolhi segui-los, não lhes pedi nada nem, em teoria, vou para o Céu.”

Eu poderia ser levado para o Céu contra minha vontade? “Muito bem, Atoz, você agiu com retidão e piedade. Vem pra cá.” “Não quero, quero ir para o Inferno.” “Veja bem, Atoz, você não tem escolha, tem que vir para onde Eu quero.” “Pô. Até aqui? Já não basta antes, estou condenado pela eternidade?!”

***

Vocês sabem a opinião que tenho das pessoas que trabalham em determinada lanchonete de festifúdi. Abaixo deles, o único degrau na escala das qualificações profissionais são os malditos distribuidores de filipetas que abundam em calçadas do Centro. Mas ontem eles se superaram. Sério. Conseguiram me surpreender mesmo.

É uma venda na porta do Metrô da Carioca, só duas moças atendendo. Uma no caixa, outra no balcão. Paguei à primeira, fui à segunda.

Eu: “Boa tarde. Um Chicabon quinhentos, por favor.”

Moça do balcão (com olhar morto e beiço pendurado): “O que que é Chicabon quinhentos?”

Moça do caixa, aflita: “É um milkshake sabor Chicabon. É médio.”

Em seguida, a moça do caixa largou a cliente que estava sendo atendida e foi fazer o milkshake pra mim enquanto a moça do balcão só olhava.

***

Já esta foi no caixa eletrônico, menos de dez minutos depois. A máquina tinha cinco opções de valores para saque: R$ 10 — R$ 60 — R$ 110 — R$ 180 — R$ 330. Escolhi a terceira: cento e dez reais.

Deu mensagem de erro: “VALOR INVÁLIDO — VALOR DEVE SER MÚLTIPLO DE R$ 50”

Sou eu?

Recém-lidas:
Swamp Thing #96 (junho de 1990);
Swamp Thing #97 (julho de 1990).

Anotações: Swamp Thing #70 e #74

Enviado a Greg Plantamura em dois momentos diferentes:

“Greetings.

“First, let me compliment you on your Annotations for Swamp Thing. One cannot do it enough. Also, I should thank you for the help they provide.

“But then, may I contribute? I have found a minor detail in issue 70, page 22, panel 3. As Swamp Thing is forming, we can read the usual “shlep plep blup”sounds, but this time they are different and appear as “SHLOEL BSSTTE TTLBN”. I do not know who “Shloel” is, but do you not recognize the other two names?…

“Once I found this tidbit, I felt I had to share it with you so you could choose whether or not to put it up. Thanks for bearing with me so far.

“Keep up the good work,

“João Paulo Cursino
“Recent fan of Moore and Veitch’s Swamp Thing

“Greetings. Me again.

“In your annotations for Swamp Thing #74, you mention that the cops in page 24 are the same as in #31, page20. Indeed. I realize that you have noticed what follows, but I thought you might like to make explicit mention to this: that #74, page 24, panels 4 to 7 are a precise mirror of #31, page 21, panels 1 to 4.

“Still using your annotations as reference,
“J.P. Cursino”

Deep Space Nine: Jornada em tons de cinza

Em fevereiro de 2007, Alex Castro comentou como Jornada nas Estrelas defende a ideologia do modo de vida americano. De modo geral, concordo com ele. Mas tenho uma contestação a fazer, que fiz por correio eletrônico e que repito abaixo.

“Alex, sou trekker há 17 anos e há 17 anos analiso Star Trek com o mesmo olhar crítico, em busca de ideologias, significados, referências. Você está certo. A Terra do século 24 é a canonização da Nova Ordem Mundial, arauteada por Bush Pai.

“Mas —

“Talvez você gostasse de assistir a Deep Space Nine a partir da terceira temporada (ignore as duas primeiras). Mostra como os humanos/a Federação são egocêntricos e acham que sempre têm razão. O comandante da estação Nove é obrigado a aceitar que existem outros modos de vida (OK, isso as outras séries também tinham, “mas o nosso é melhor”) — E QUE O DELE PODE ESTAR PODRE. Critica-se como é fácil ser santo no paraíso (i.e. Terra) [aqui eu me referia ao magnífico monólogo de Sisko em “The Maquis, Part II”], como os oprimidos podem preferir a opressão, como uma vida mais simples pode ser preferível etc. Os melhores episódios são justamente os que criticam a Federação e lhe fazem um contraponto [p.ex. o discurso de Quark em “The Jem’Hadar”].

“Aliás, não é verdade o que você disse: que nunca há rebelião na Terra do século 24. O par de episódios “Homefront” e “Paradise Lost” mostra justamente um GOLPE DE ESTADO dos almirantes que queriam um Estado policial, usando o medo para manipular a população. Infelizmente, são episódios mal conduzidos, mas é uma grande premissa.

“A série é muito mais madura do que a NG: os personagens cínicos ganham destaque [aqui eu me referia ao Garak mais do que tudo, mas também aos lampejos de cinismo de Quark e Odo e a Sloane, de “Inquisition”], ninguém nunca mais é bonzinho puro nem mauzinho até o fim [q.v. Dukat e Damar], joga-se muita Realpolitik, engana-se, mente-se, trapaceia-se, manipula-se direto.

“A propósito: você disse que Roddenberry transformou a série Clássica em uma conservadora NG. Na verdade, Roddenberry era conservador, fã de Lincoln etc. O que a série Clássica teve de bom no caráter dos personagens é devido unicamente aos *outros* produtores e editores: John D.F. Black, D.C. Fontana e, principalmente, Gene L. Coon. Roddenberry deu só a estrutura e as premissas, mas nunca teve o talento de desenvolver. Isso está fartamente documentado, embora não tenha ampla divulgação fora do círculo trekker. Já na NG, os produtores foram mormente Rick Berman e Michael Piller (especialmente o primeiro), que não tinham as mesmas motivações nem queriam mexer muito com uma série que dava dinheiro porque dizia o que as pessoas queriam ouvir.

“Isso não me impede de ser fã das três, mas é que eu gostaria de pôr tudo em perspectiva.

“Valeu.

“Seu continuado leitor,
João Paulo”.

Recém-lida: Swamp Thing #87, de Rick Veitch e Tom Yeates (junho de 1989).

Make war not love

Esta notícia mostra alguma coisa sobre a população americana e sua moral. Aparentemente, as pessoas consideram mais tolerável uma agressão extrema do que uma demonstração de afeto.

Na verdade, não deveríamos nos surpreender: o puritanismo está na raiz histórica daquela cultura. Acontece que se pode fazer também outra leitura: há uma cultura da agressividade, do individualismo; da tomada, por um cão, do pedaço de carne que está na boca de outro cão. É uma cultura da supressão da vontade e da existência do outro em nome da satisfação das necessidades próprias imediatas. Não é sem motivo que a atitude genérica dos britânicos em relação aos americanos é considerar imaturos estes últimos, como um bando de adolescentes mimados com excesso de testosterona e de recursos.

Dirão que o problema está nos vidiuguêimes e criarão leis para suprimir jogos sensuais ou violentos. Feliz ou infelizmente, o capitalismo e a cultura de massa não devem ser encarados como causas dessas tendências. São apenas ambientes que as revelam, que as escancaram.

Acho que o próximo passo vai ser nos amarrarem nas cadeiras e nos forçarem a assistir três dias seguidos de cenas violentas. Então sairemos cantarolando Beethoven e reencontraremos nossos amigos Pete, Georgie e Dim. Videe well.

Uma coisa que me irrita e outra que me diverte

Irrita-me a expressão “e nem”. São duas conjunções aditivas juntas e, por isso, a expressão está errada. “Não pode sentar na grama, cuspir no chão e nem jogar papel na rua.” Está errado.

Por favor, nunca escreva “e nem”. “Não pode sentar na grama, cuspir no chão nem jogar papel na rua”, por piedade.

Minha última conta de luz traz a lista dos sorteados na promoção do débito automático. É assim: você inscreve sua conta no débito automático e entra na promoção. Se for sorteado, ganha uma televisão de plasma de 42 polegadas! Legal, não?

Muito. Pense comigo: deve haver um bom motivo para a companhia de luz sortear cinco televisões de plasma por mês em troca de sua inscrição no débito automático. Alguma coisa muito importante está acontecendo a ponto de a companhia me acenar com tamanha isca. E tudo que preciso fazer para ganhar uma televisão de plasma é permitir que, todo mês, tirem da minha conta bancária o valor do pagamento da luz, sem me dar a opção de discordar dele: vou pagar, querendo ou não. Se houver algum erro, não é mais possível exigir uma fatura corrigida; primeiro pago, depois discuto.

É o seguinte: se fosse bom pra mim, eles não estavam me oferecendo cinco televisões de plasma por mês, é ou não? Se o débito automático fosse bom para mim, eles estariam é escondendo, não estimulando; eu ia ter que pagar pra fazer. Então, quanto mais eles querem me subornar com o sorteio — aliás, não é nem com o sorteio: é só com a perspectiva dele, porque não tenho qualquer garantia. É uma promessa vazia –, quanto mais querem me seduzir com o sorteio, mais me convenço de que é uma roubada. Então, estou fora; podem sortear televisões de plasma à vontade, podem sortear coleções completas de Asimov e Clarke e todos os DVDs de Futurama, que só vão me convencer a fugir disso.

Ninharias em troca de minha escravidão eterna. Deparamo-nos com essa escolha todos os dias. Não, obrigado; prefiro eu mesmo trabalhar para comprar a tal televisão. No final, é mesmo a única forma de adquiri-la; todas as outras são ilusão.

Recém-lida: Swamp Thing #84, de Rick Veitch e Tom Mandrake (março de 1989).

Você é aquilo que aprova

Na semana passada, acabei de ler Preceitos para uso do pessoal doméstico. Trata-se de uma tradução portuguesa (de João Fonseca Amaral, Lisboa: Editorial Estampa, 1970) que inclui quatro obras de Jonathan Swift: Directions to Servants, A Letter of Advice to a Young Poet, A Modest Proposal e When I Come to Be Old. A edição conta com uma introdução ao Autor, escrita por André Breton, da qual extraio a seguinte passagem:

“Opõe-no a Voltaire (…) a forma de reagir ao espectáculo da vida (…): um, disposto à perpétua chacota, o de um homem que tomou as coisas pelo lado da razão, nunca pelo do sentimento, e que se encerrou no cepticismo; o outro, impassível, glacial, o de um homem que as tomou de maneira inversa, e por isso se indignou com o mundo. Alguém observou que Swift ‘provoca o riso sem dele participar’. (…) Em toda a sua existência, apenas a misantropia é a disposição que não encontra qualquer correctivo e que os factos não desmentem. Ele disse um dia, mostrando uma árvore fulminada por um raio: ‘sou como esta árvore, morrerei pelo cimo’. Como por ter desejado alcançar ‘este grau de felicidade sublime que se chama a faculdade de ser bem enganado, o estado plácido e sereno que consiste em ser louco entre patifes’ (…).”

Assim, Preceitos contém três casos típicos do talento corrosivamente cínico de Swift (a última obra traduzida não segue o mesmo estilo). Permito-me destacar alguns exemplos que bem ilustrarão o senso do gênio. Um deles é justamente o primeiro parágrafo da obra:

“Quando o senhor ou a senhora chamarem um criado pelo nome e ele não estiver presente, que ninguém responda, pois de outro modo não se acabarão os trabalhos (…).

“Não se sujeitem a mexer um dedo seja para que trabalho for, diferente daquele para que foram contratados. Por exemplo, se o moço de estrebaria estiver embriagado, ou ausente, e o mordomo receber ordem de fechar a cavalariça, a resposta imediata deve ser esta: ‘Salvo o devido respeito por Vossa Senhoria, nada percebo de cavalos’ (…).

“Para ficar a conhecer os segredos das outras casas, conte à confraria os da sua; tornar-se-á, assim, um favorito, dentro e fora de portas, e será tido por pessoa importante.”

E por aí vai. Há recomendações para que os empregados não peçam permissão antes de se ausentarem, para não aborrecerem seus senhores: em lugar disso, saiam sorrateiramente para que sua falta não seja notada e, se chamados ao retorno, sempre possam dizer que saíram há coisa de um minuto.

(O conteúdo desta mensagem foi cortado pelo próprio autor. Motivado por considerações políticas, tirei dois parágrafos que estavam aqui.)

Recém-lida: Animal Man #5, de Grant Morrison e Chas Truog, inverno de 1988.

Correndo atrás

Não brinco nem exagero quando digo que gostaria muito de um dia ter lido todos os livros de e sobre Jornada nas Estrelas. São várias centenas. Confira aqui.

Se você não é um trekker, é difícil que entenda ou sinta o prazer de ler livros de ficção ambientados no universo criado por Gene Roddenberry. Esses livros só podem ser mesmo apreciados por quem ama essas séries e conhece seus personagens a fundo. De modo geral, descrevem um universo ainda mais rico do que aquele mostrado na televisão, porque não se submetem aos limites do filmável e apelam à imaginação de quem os lê. Também são recheados de referências, que só podem ser compreendidas por quem tem intimidade com as séries. Ao que consta, isso é especialmente verdadeiro nos livros publicados de uns quinze anos para cá.

Faz muito tempo que não leio ficção de Jornada. Especialmente, nunca li nada mais recente do que a quarta temporada da NG, de 1991. Não há mal nisso, porque, se a opinião dos trekkers dos anos 70 bater com a minha, os livros dos anos 80 parecem os melhores. Foram escritos por verdadeiros fãs e vêm do coração. Já os mais recentes também são escritos por fãs, mas têm três desvantagens: (1) os Autores são profissionais; (2) dependem de muitas referências de episódios recentes, que não vi; (3) os Autores parecem fãs mais novos, de um tipo que nutre menos afeto por personagens e histórias e mais por mistério e ação.

Mesmo apesar disso, sinto falta de ler o abundante material publicado desde o final dos anos 90. Tantas obras de ficção, situadas em um ambiente tão familiar a mim, seriam um confortável retorno a uma versão mais simples de minha vida.

Nos últimos minutos, estive visitando as atualizações dos saites de Steven Roby, que lhes havia acrescentado as capas de sua enorme coleção de fanzines dos anos 80. Lá estavam nomes como o de Jean Lorrah, autora de Kobayashi Maru, e desenhos de pessoas que òbviamente os extraíam de seus sentimentos.

A nostalgia é forte. Sinto saudade de um movimento trekker do qual só pude testemunhar o final, no momento em que despontava uma nova juventude, que já não se importava. Perdi a melhor parte: os amadores e apaixonados anos 70 e 80.

No fone de ouvido: Nightwish, End of an Era, ao vivo, incluindo Nemo e Wish I Had an Angel. Há poucos dias, Pink Floyd, Comfortably Numb.

Gravidez

Eu não sou trekker porque gosto destas coisas. Eu gosto destas coisas porque sou trekker.

Com atraso de três meses, acabei de ver o teaser de Star Trek XI.

Coisas que me deixam arrepiado:

– as vozes de Kennedy prometendo os anéis de Saturno em 1961, do controlador se despedindo de John Glenn, da Águia pousando, de Tio Neil dando um pequeno passo, e de Spock, “espaço, a fronteira final…”;

– conseguirmos saber qual é a nave antes de o nome aparecer;

– o tema original de Alexander Courage quando vemos o nome da nave;

– a ponte de comando como era na época de “The Cage”;

– as letras “Enterprise” como eram antes de “The Cage”.

Posso fazer uma autocrítica: toda a nostalgia da Era Espacial é voltada para o público americano. Só que convenhamos: aqui no Ocidente, durante a Guerra Fria, a Era Espacial era um produto americano. Foram eles que fizeram aquilo tudo. Se quiser apelar para essa lembrança coletiva, não tem jeito, é americanóide mesmo. Então embarquemos.

O apelo à herança da Era Espacial não é novidade. A lamentável e esquecível série Enterprise tinha essa virtude em sua abertura.

Estou tão descrente quanto a maioria: temo (e considero provável) que o filme não respeite o cânone, não seja um bom filme nem uma boa homenagem. Mas, se corresponder ao teaser, contrariará maravilhosamente essa expectativa cinzenta. 

Andando sobre esteiras

Quando estive em viagem no Exterior, tive uma impressão marcante que agora divido com você. É uma impressão que também me vem quando vejo fotografias desses lugares e anúncios em revistas, na Web e na televisão, mas ao vivo é bem mais forte.

Eu olho para fora do veículo na estrada e vejo aqueles enormes cartazes (no Brasil são chamados de outdoors, o que é uma obviedade; lá são billboards). Se estiverem em inglês, eu até entendo as palavras, mas, qualquer que seja a língua, não entendo os cartazes. Nem em português, quando viajo para qualquer outro Estado do Brasil.

O primeiro choque é que não sei do que estão falando. Anunciam empresas das quais nunca ouvi falar, produtos que não conheço, nem sei com que facilidade estão presentes no mercado local. Não sei o quanto deveria ser óbvio eu conhecê-las quando estou ali. Não fazem parte da minha vida, não tenho um referencial nem qualquer familiaridade; não há aquele conforto do reencontro com as coisas conhecidas. Faltam-me parâmetros para orientação e avaliação do que estou lendo. São cartazes vazios de significado para mim e meramente fazem poluição visual na paisagem.

O segundo choque é que não importa o que estão falando. É sempre a mesma baboseira, com as mesmas frases prontas e genéricas: “a vida na sua mão”, “com você em todos os momentos”, “pensando sempre em você”, “você pode esperar mais”. Então, na verdade eu sei, sim, o que está escrito, porque nunca é diferente disso.

O terceiro choque é ver como fui capaz de decifrar o código. É ver como é trágico que não haja tanta identidade cultural nos lugares aonde vou. É ver como, em qualquer lugar do mundo, os anúncios são iguais, porque o capitalismo é absolutamente homogêneo, as empresas se comportam da mesma forma, os padrões e sistemas são os mesmos. Com a Nova Ordem Mundial e a globalização, o mundo ficou mais pasteurizado.

Olhem esta fotografia, por exemplo. Isso poderia ser o que eu estivesse vendo de dentro de um ônibus, é a típica foto que eu poderia tirar em viagem. Na verdade, baixei-a do saite de um banco holandês chamado ING e não entendo o que está escrito no cartaz. Mas preciso? O banco poderia ser qualquer banco no mundo, o aeroporto poderia ser qualquer aeroporto do mundo (provavelmente é Schiphol, mas isso não faz diferença). Os anúncios são todos iguais, os cartazes são os mesmos da estrada do Galeão. Provavelmente está escrito algo como “o ING quer falar com você”.

Às vezes me incomoda visitar o país dos outros e encontrar as mesmas coisas que vejo em casa.

Recém-lidas:
Swamp Thing #75 (agosto de 1988);
Swamp Thing #76 (setembro de 1988);
Swamp Thing #79 (dezembro de 1988).

Estranhas compulsões

Na última terça-feira, entrei na estação do Metrô da Saenz Peña, cerca de uma da tarde. Bilheteria com quatro guichês. Dois com fila, um fechado. Diante do primeiro, uma linha de cinco ou seis pessoas; diante do segundo, outra com três ou quatro. Eu ia entrar na fila de três ou quatro quando fiz o que sempre faço: procurei algum guichê aberto e disponível.

Tinha! Atrás do vidro, a moça estava sòzinha, olhando para fora meio desolada. Imediatamente, em vez de me enfiar atrás dos outros, fui ali, fui o primeiro a ser atendido.

O detalhe é que ela não estava abrindo naquela hora, não. Simplesmente ninguém a procurou! Até perguntei, por que que não tem fila? Mais intrigada do que eu, retrucou, sei lá, vai ver que não vão com a minha cara.

É mesmo muito engraçado: diante de uma fila, as pessoas logo procuram garantir o seu e vão entrando sem questionar. Como em tudo na vida, sempre acaba custando mais caro a miopia de só enxergar o que está na sua frente e de se contentar com o que se consegue sem ter que ter muito trabalho. A *primeira* coisa que faço antes de entrar em uma fila é me certificar de aonde ela vai dar, e se não tem outra mais curta. Só depois me torno o último.

Do alto de meus recalques, fantasio e festejo que as pessoas da fila menor, bem ao meu lado, ficaram revoltadas ao me ver ser atendido antes delas, ofendidas ao me ver furar.

Conversas furtadas

O título deste post é uma referência a este belogue. Quando estou empacotado no metrô, mal podendo me mexer entre braços e bolsas, não tenho o que ler nem em que me concentrar. Então, perdoem-me se acabo ouvindo a conversa alheia (de todo modo, não deviam falar tão alto).

Algumas semanas atrás, ouvi um camarada explicar a outro que nem sempre houve Internet. Mais que isso: o ouvinte parecia não saber, então o falante explicava, que o Google não nasceu junto com a Internet e que, alguns anos atrás, havia vários outros mecanismos de busca, hoje desconhecidos.

Essa conversa me chocou levemente por várias razões. Uma delas é a mais óbvia, que a memória do mundo é curta e a juventude realmente nasceu ontem. Ainda me lembro de quando o Yahoo! era um mecanismo de busca dos mais importantes e de quando o Altavista se tornou o mais popular. Lembro que havia vários saites disputando a preferência dos internautas: Lycos, Hotbot, Askjeeves… Já um indício de que estou ficando senil é que não lembro qual era meu mecanismo favorito antes de o Altavista ganhar essa importância.

Na época em que a Internet se comercializou (1996), os mecanismos de busca não eram equipados com spiders nem crawlers, e ainda me lembro de quando cadastrei a página do JETCOM no Yahoo! — porque era assim que você ganhava visibilidade nesses buscadores.

Mas outra razão que me chocou está fora da Rede. Quando fiz primeiro e segundo graus, não havia Internet. Então, a gente ia à biblioteca da escola (tive muita sorte de estudar em um colégio que tinha uma biblioteca enorme à disposição dos alunos), ou usava os livros que tinha em casa, buscava o conhecimento em livros, revistas e enciclopédias e fazia resumos do que havia lido. Não havia “controlcê-controlvê”; então, até mesmo quem, desonestamente, copiava ipsis litteris também estava aprendendo.

Já hoje, o que vemos? O jovem tem que pesquisar um assunto. Então, ele vai lá no Google, joga a palavra-chave e copia o primeiro saite que aparece, não se dando ao trabalho de sequer ler. Como todo velho resmungão, cabe-me reprovar o procedimento dos mais novos e dizer que a juventude está perdida.

A terceira lição que me fica é sobre mim mesmo. Foi só em 2003 que passei a usar a Internet como principal meio de pesquisa, o que mostra meu retardo em aderir às novas tecnologias. Em compensação, assim que isso aconteceu, pràticamente tudo eu procuro na Internet primeiro, e só vou à literatura quando realmente preciso verificar alguma coisa mais importante. A primeira coisa que faço é ir ao Google e jogar o conjunto adequado de palavras-chaves: não só a primeira e mais óbvia mas, também, mais uma ou duas para contextualizar.

(De certo modo, buscar produtivamente no Google é uma arte: você tem que saber o que jogar para ter um retorno rápido e correspondente ao que procura. Para isso, o ideal é jogar palavras que (1) com certeza têm que aparecer em qualquer texto que trate do assunto e (2) com certeza não vão aparecer em textos que não tratem do assunto. A próxima coisa é pegar a relação de saites que vem como resposta, dizer logo de cara quais servem e quais não servem, e já escolher o saite onde o sucesso é mais provável, tudo isso antes mesmo de entrar em qualquer um deles.)

Hoje em dia, quando alguém tem acesso à Internet mas mesmo assim vem me perguntar alguma coisa, fico escandalizado que essa pessoa não tenha pensado, antes de tudo, em fazer uma busca no Google ou até na Wikipedia. (Bom, na verdade, muitas vezes pensaram sim. É só que é bem mais fácil gastar o meu esforço do que o próprio. O que mais se vê é gente fazendo perguntas que já estão na FAQ ou que a primeira googlada já mostra em meio segundo.)

Homo electronicus

Semana passada, o filósofo e eu recebemos o mesmo email de uma determinada pessoa. Ele perguntou se eu já o havia lido e eu disse que não, porque estava com medo. É que, em todos os contatos anteriores, a emissora da mensagem nos escrevia cobrando, exigindo e até ameaçando. Aí ele riu, dizendo (a reprodução é idêntica): “as pessoas criam fantasmas de si mesmas”.

Isso me lembrou um tema que aparece, só en passant, na minha monografia sobre ameaças à privacidade na Internet: o corpo eletrônico. Funciona da seguinte forma: nossas vidas são bastante complexas. Temos atividades profissionais, gostos, contratos e contatos. Minhas manifestações internéticas são apenas uma parte do conjunto de tudo que faço. Inevitàvelmente, essas manifestações revelam um aspecto de mim, só que é apenas *um* aspecto; sou muito mais do que isso. Certamente, aquilo que revelo é coerente com a pessoa que sou, mas não é toda essa pessoa. De certo modo, Atoz — a porção de mim que aparece através da Internet — é uma porção de mim, mas não sou eu.

Entretanto, Atoz é a única porção de mim que você está vendo. Você não tem como distingui-lo de mim, porque o único acesso que tem a mim é por este meio virtual, e, para você, Atoz se identifica comigo. Para todos os fins práticos, para você não há diferença e Atoz efetivamente sou eu.

Então, Atoz é uma projeção de mim, um personagem que uso para me comunicar através da Rede. Ele pode ser mais inteligente, mais resmungão e mais generoso do que eu, e isso não será fingimento de minha parte: assim terei escolhido construir esse personagem, sem má fé. Assim terei escolhido ser na Internet.

Decorre daí, necessariamente, que Atoz é incompleto. É um fantasma, uma casca com pouco conteúdo, como se eu fosse um quebra-cabeças de milhares de peças e Atoz fosse apenas uma meia dúzia delas.

Em contrapartida e da mesma forma, se Atoz diz (ou não diz) alguma coisa, ele pode provocar uma reação em seu Leitor, que pode ofendê-lo ou elogiá-lo. Nesse caso, deverei entender que a ofensa ou elogio está sendo dirigido não a mim, mas a Atoz, que é quem emitiu a mensagem. Certamente o emissor original fui eu, mas, então, a ofensa ou o elogio é dirigido apenas a uma parte de mim, não a todo eu. Não a mim, mas àquela figura virtual, criada, que a comunidade de internautas toma como sendo eu.

Se Atoz é ofendido, pode ser que a comunidade dos internautas perceba isso. Pode ter até havido crime de difamação contra mim. Em alguns desses casos, a comunidade que toma ciência não inclui pessoas de meu convívio profissional ou familiar. O efeito terá ficado circunscrito à Internet e, algumas vezes, na vida física, poderei apresentar-me dissociado de Atoz — nesses casos, na prática, minha honra só terá sido atingida na medida em que a de Atoz foi atingida. Na vida física, pode não ter sido atingida em absoluto, o que poderá levar a uma atenuação da pena de crime contra a honra com base no artigo 59 do Código Penal. Para remediar uma eventual injúria extremada, poderei até mudar de identidade eletrônica, criando novo endereço de email e cadastrando-me com novos logins nos fóruns e listas.

É claro que nada disso autoriza alguém a me ofender. Nem deve desencorajar os elogios! :)