Se você é fã de exploração espacial, vai adorar Perdido em Marte

ATÉ QUE ENFIM! UM FILME DECENTE PRA NERDS!

Olha só: esta resenha não é spoiler-free. Eu já tinha uma vaga ideia do que acontecia no filme, então farei o mesmo com você se não viu, e talvez seja pior, então esteja avisado.

Perdido em Marte não tem romancinho. Isto aqui é Ridley Scott! Por acaso Alien tem romancinho? Blade Runner tem romancinho? Prometheus tem romancinho? Então! Se você vai ver Perdido em Marte esperando romancinho, pode tirar o foguetinho de órbita (e não o cavalinho da chuva, porque em Marte não chove). Não tem namoradinha chorosa torcendo pela volta do herói. Nada de “o amor é a única grandeza que transcende as cinco dimensões”. Nada disso! Onde Interestelar errou, Perdido em Marte mostra a Ciência como salvação.

Acima de tudo, o filme tem esta mensagem, que há anos espero ver: a solução está na CIÊNCIA. Na persistência do cientista que poderia escolher sentar e chorar sua sorte até morrer, mas prefere usar o cérebro, usar seu conhecimento, anos de estudo e dedicação, pôr tudo isso à máxima prova e salvar a própria vida. Você vê que Watney sobrevive com base em conhecimento básico sobre o crescimento de plantas, sobre Química, sobre fontes de energia. Minha frase favorita no filme é a mesma do grande Astrônomo Neil deGrasse Tyson: “I’m going to have to science the shit out of this”.

Reparem que ele usa instrumentos básicos, como COMPASSO, hackeia o sistema operacional não-Windows direto em linguagem de máquina, e aproveita o combustível não usado para fabricar água, tudo isso porque sabe os fundamentos. Quando precisa de um método de comunicação simples (por causa da pouca largura de banda), ele recorre a código ASCII com conversão hexadecimal. Quando os astronautas enterram a fonte de radioatividade, ele não se torna supersticioso “oh, plutônio é perigoso, não quero chegar nem perto, é proibido mexer porque o dogma da NASA me proibiu”, não! Ele sabe POR QUE é perigoso, ele pondera o risco, ele escolhe recuperar o plutônio.

(Aliás: no meio de tempestades e ventos que derrubam o módulo e arrancam a antena, a bandeirinha amarela de alerta do plutônio ficou em pé direitinho? Tem que explicar melhor isso aí.)

Mas não é só conhecimento científico básico. Fica evidente que Watney, como qualquer astronauta, sabe de cabeça inúmeros detalhes da missão, detalhes que ele decorou de tanto rever, treinar, rever, treinar, rever, treinar e rever de novo. Ele sabe as localizações do Pathfinder e da Ares 4 embora não fosse necessário saber isso para sua missão, e por quê? Porque é um autodidata, um entusiasta, que deve ter devorado tudo que já foi escrito sobre as missões passadas, e vive e respira isso porque é isso que adora. Ele se salvou porque é um nerd! Também se salvou porque, como todo astronauta, ele não entra em pânico: foi treinado para sobreviver, para usar seu cérebro da melhor forma possível, recorrendo a milênios de aprendizado da raça humana e concertando uma interdisciplinaridade que mostra capacidade de planejar e executar. Por exemplo: quando se vê sòzinho, qual é a primeira medida? Primeiros socorros (alô, treinamento). Qual é a segunda? Avaliar a situação, avaliar os requisitos de nutrição, contar a comida, como fazê-la durar, em quanto tempo terá que ter uma plantação, de qual tamanho. Contas, planejamento, e o cuidado de não desperdiçar nenhum recurso. Repare que, depois que ele vai embora sem intenção de voltar, nem por isso destrói qualquer coisa, e ainda fecha a comporta pressurizada atrás de si. Podia ter que voltar, né! Alguém ainda pode precisar no futuro!

É claro que, sendo este o mesmo Ridley Scott que fez Alien e Prometheus, não poderia faltar a autocirurgia a sangue frio. Na extremidade oposta do filme, também vemos o resultado de dois anos de racionamento, uma gravidade menor do que a da Terra e uma dieta paupérrima em proteína (já que Watney só plantou batatas, não vacas): seja por CGI, seja por esforço de Matt Damon, Watney está magro feito Christian Bale em O Operário.

O filme também faz boa homenagem a toda a História do programa espacial. Num momento de humor (para nerds), “nada de ruim adveio de se queimar hidrogênio”. Você logo pensa em todos os acidentes desde o Hindenburg (embora não tenha sido o hidrogênio que causou o desastre) e lembra qual é o principal combustível dos foguetes… No teto do JPL, um modelo da cápsula Mercury. No gabinete do diretor da NASA, um dos mais célebres quadros de Chesley Bonestell, Saturno visto de Titã.

E, com tanta coisa para se gostar, com todo o ritmo que não pára de nos trazer ideias o filme inteiro e não dá descanso, com tantas paisagens marcianas belíssimas que eu não sei de onde tiraram, a cena que mais me emocionou começa quando Watney encontra o pára-quedas da Pathfinder — porque aí eu sabia o que estava para vir — e tem seu clímax quando ele começa a desenterrar o Sojourner. Fiquei emocionado porque, no ato, lembrei-me deste melancólico quadrinho e pensei “tantos anos depois de morto, o robozinho vai servir novamente”. Certamente é tudo de que ele gostaria.

Eu li no Tuíter uma galera achando o filme “chato”. Claro! É gente que não é fã de Ciência, que não entendeu nada do que se passava, que nada sabe de Química, ou de Botânica, ou do frio ou da atmosfera de Marte, ou de Física, ou do retardo ou da dificuldade de comunicação, ou da tragédia que é acelerar uma nave para o estilingue em volta de Marte sem ter como freá-la justo na hora do resgate. O filme não tem explosões (OK, tem quatro que eu me lembre, e três são intencionais), não tem correria, não tem vilão maligno, não tem tiros, não tem violência, então, para eles, “não acontece nada, o filme é parado e chato”. Para quem aprecia Ciência, o filme é movimentado, com uma sucessão de problemas e soluções que atiça a curiosidade. Como não é seu blockbuster habitual para deixar o cérebro na porta do cinema enquanto come pipoca, algumas pessoas se decepcionarão. Mas é bem feito.

E olha que isso é ainda considerando que o Ridley Scott acelerou o tempo. Você vê meses inteiros sendo pulados, porque nada de novo estaria acontecendo. Você vê a comunicação Watney-NASA parecendo ser em tempo real, embora haja um retardo de vários minutos entre emissão e recepção de cada mensagem. E até nisto o tratamento do filme foi cientìficamente correto: eles enfatizam que há essa demora, e aliás o tempo varia de um momento para outro do filme, porque as órbitas podem aproximar e afastar Terra e Marte.

Você nem pode reclamar que o filme seja tão difícil de entender. Quando Rich Purnell propõe a aceleração no perigeu da Ares III, ele está explicando mecânica orbital básica para quem não é nerd. É claro que seus interlocutores no filme não têm a menor necessidade da simplificação simbólica que ele faz, com grampeador e caneta, porque conhecem toda a Física por trás. Aquilo ali foi para benefício do público. Quer ver outro detalhe que você pode não ter percebido? Mesmo ao meio-dia, Marte tem dias mais escuros do que os da Terra. Claro: está 50% mais distante do Sol.

Mesmo assim, eles não ficam martelando Ciência tanto quanto poderiam. Por exemplo: não ficaram explicando por que os astronautas da Ares III Hermes flutuam em “gravidade zero” quando estão no eixo principal da nave nem como conseguem simular gravidade quando ocupam a roda. Tampouco o filme explicou por que eles não precisam descer manualmente os degraus do eixo para a roda, bastando deixar que a “força centrífuga” (com todas as aspas) faça o trabalho. Foi até engraçado no cinema: a Senhora Atoz começou a me perguntar como eles podiam ficar em pé ou sentados (já que é “gravidade zero”), mas aí reparou na rotação da roda e se calou no meio da frase.

É claro que o filme tem momentos previsíveis. Quando a sonda com suprimentos é lançada, o pessoal começa a comemorar, mas, na vida real, a comemoração costuma vir DEPOIS que a queima acabou. Quem acompanha os lançamentos na vida real, desde o tempo do Sputnik I, sabe que MUITA coisa pode dar errado e frequentemente dá. Quantos foguetes explodem na plataforma? Quantos vídeos já não vimos de foguetes saindo do rumo e sendo destruídos remotamente? Por causa de um ridículo anel de vedação congelado, a Challenger se desfez com todomundo dentro! Então, à medida em que vi o foguete subindo, fiquei pensando “e se explodisse agora? Bem plausível explodir agora”. A Senhora Atoz comentou depois do filme: “óbvio que ia explodir. Tem que ter o drama, estava fácil demais, estava tudo dando certo. Tem que ter um evento que limite as alternativas e faça a tripulação ter que dar a volta”.

Da mesma forma, para quem pega as letras das músicas, a trilha sonora faz todo o sentido. I Will Survive é bem óbvia, mas a gente também ouve Hot Stuff diante do isótopo radioativo (no jargão de quem lida com radioatividade, “quente” significa “emissor de radiação”) e “there’s a starman waiting in the stars” quando a Ares III Hermes completa a manobra para retornar a Marte. A gente ouve Waterloo, do ABBA (na ideia de que ele não consegue desistir e afinal voltará para a Terra), logo depois de uma cena que mostra um vinil da banda.

Naturalmente, apesar de todos os acertos, ainda tenho algumas perguntas.

1) Se o nerd Rich Purnell (aliás bem interpretado: o sujeito tem aquele olhar distante do nerd) precisou de um supercomputador para conferir as contas (ele, que é especialista nisso), como é que outros apenas dizem que “já conferiram” e, a bordo da Ares III Hermes, a tripulante afirma, na maior simplicidade, que já as conferiu? Ainda por cima, ela teve que fazer isso no braço e com muito menos dados.

2) Se o MAV da Ares 4 está há meses em pèzinho esperando seus usuários, como é que tem tão pouca poeira e seus sistemas estão funcionando tão confiàvelmente?

3) Aliás, se Marte tem tempestades tão terríveis, como é que aquele MAV ainda está em pé? (Este caso admite suspensão da descrença: no início do filme, a tripulação comenta que uma tempestade do nível daquela é de fato incomum. Então é questão de probabilidade.)

4) Será que foi agradável voltar para a Terra (266 dias aproximadamente) em uma nave que acabou de perder sua atmosfera exceto na ponte de comando? Que tal ver seu espaço confinado ser sùbitamente reduzido a um confinamento ainda pior, sem acesso ao ginásio, aos laboratórios, ao alojamento ou à cozinha? (Apideite em 10/10/2015: Carlos Cardoso respondeu-me essa de modo elegante, fazendo-me ver que naves como a Hermes levariam ar para se pressurizarem mais de uma vez. Eu deveria ter considerado esse ponto.)

Infelizmente, o filme também tem alguns estereótipos. Um é que Purnell, sendo um nerd, é necessàriamente estabanado, tropeça e cai. Outro é que o único astronauta religioso é latino. O terceiro (talvez correto) é que os chineses desenvolvem sua tecnologia em segredo.

E, por falar em religião, taí dois detalhes muito oportunos em um filme que enaltece a Ciência e a persistência: (1) Nada de fé para salvar o astronauta perdido. O que o traz de volta é conhecimento, planejamento, criatividade e trabalho duro, sem NENHUM espaço para orações. Ao contrário: o único crucifixo de Marte é usado como combustível por um sobrevivente que tem que usar todos os recursos à disposição. (2) Além de Martinez, só um personagem reconhecidamente tem uma crença, mas ele não privilegia nenhum deus, acreditando em vários.

Aliás só vi os dois primeiros trailers agora. Rapaz, como manipulam a audiência! Os trailers “mostram” Watney chorando supostamente diante da esposa e do filho (que eram de outro tripulante e estavam em outra cena), mostram uma explosão na Ares III Hermes como se fosse desastrosa (quando era a descompressão de frenagem no fim do filme), mostram a comandante falando em motim como se fosse algo ruim… e contêm algumas tomadas que não entraram no filme (p.ex. o diretor da NASA contemplativo em uma varanda e depois hesitando em responder se Watney pode estar vivo).

Antes que eu termine, cabe um parabéns a Sean Bean: depois de participar do Conselho de Elrond pela segunda vez, neste filme ele não morre! (Mas sua carreira sim.) Outro parabéns a Matt Damon: depois da trilogia Bourne, de Resgate do Soldado Ryan e de Interestelar, de novo ele deu trabalho a um monte de gente para trazê-lo de volta, sendo que, neste filme, diferente do anterior, ele não ficou maluco no espaço.

Por último, as legendas cometeram dois erros (o que está até bom considerando o histórico a que me acostumei):

1) No original, Watney fala que “foi assim que o Laboratório de Propulsão a Jato foi inventado”. Depois disso, várias vezes ao longo do filme, o JPL (Laboratório de Propulsão a Jato, “na sigla em inglês” como dizem nossos periódicos) aparece com o nome todinho. Mesmo assim, o tradutor escreveu lá: “foi assim que a propulsão a jato foi inventada”. Não!

2) O nome da chinesa é Tao. O autocorretor da legenda escreveu “Tão”. Não!

E por hoje é isso. Se eu me lembrar de mais coisa, pode deixar que eu incremento este texto.

Apideite do apedeuta em 10/10/2015:

À medida em que os dias passaram, realmente eu fui me lembrando ou raciocinando sobre vários pontos do filme. Você vai encontrar vários websites apontando os mesmos detalhes que eu, mas tudo que está aqui embaixo são percepções que tive sem a ajuda deles.

Você reparou que o filme nunca diz em que ano se passa? Isso foi sábio, porque assim ele não fica datado cedo demais. Um tópico de discussão do Reddit indica 2035, e este video promocional com Neil Tyson, gravado na época da decolagem, mostra que necessàriamente o filme se passa após 2029.

A atmosfera de Marte é muito rarefeita: 0,6% da pressão atmosférica da Terra. Portanto, o vento de Marte seria absolutamente incapaz de provocar a tempestade catastrófica que vimos no começo do filme e certamente incapaz de fazer tombar o MAV. É claro que, com isso, não haveria a premissa que levou ao abandono de Watney. Considerando que tudo mais no filme está bàsicamente correto, podemos perdoar essa falha intencional na medida em que foi um componente necessário da história. Neil Tyson certamente a perdoou.

Pelo mesmo argumento da atmosfera rarefeita, não teríamos visto a cobertura plástica a oscilar no vento depois que Watney a pôs no lugar da comporta explodida. Com a pressurização interna do habitat, a cobertura teria ficado abaulada sem flutuações, e o vento não lhe faria nem cosquinha. Na cena em que os nervos dele estão à flor da pele durante outra tempestade, ele não teria o que temer.

Já um problema a contornar — e que o filme essencialmente ignorou — é que, justamente em razão da atmosfera rarefeita, Watney não estava protegido contra a radiação solar. Na vida real, ele teria passado mais de um ano sendo duramente castigado por raios cósmicos e por todo tipo de comprimento de onda nocivo. Aliás, não sòmente ele, senão toda a tripulação da Ares III. Conforme adianta Phil Plait, se o filme realmente fosse realista, todomundo ali teria morrido de câncer depois de um tempo.

Marte é bàsicamente vermelho visto de longe, mas de perto as cores variam mais; há tons de verde, e o filme aborda isso. Os frequentes redemoinhos aparecem ao fundo toda hora, acrescendo realismo, porque o planeta é assim mesmo. Infelizmente, o pôr-do-sol de Marte é azulado, mas o filme o mostrou vermelho como os da Terra.

Você reparou que os objetos em Marte caem devagar? Quando a comporta de ar explode e capota, e quando Watney descarta componentes do MAV da Ares 4, tudo cai devagar. Isso não é coincidência. De início eu até pensei em câmera lenta como estilo do diretor, mas aí lembrei que a gravidade de Marte é 38% a da Terra. O filme acertou até nisso!

OK, esta percepção não foi minha, mas de Neil Tyson: a prova de que o filme é ficção é que todos os seus tomadores de decisão têm conhecimento científico básico.

No fim, quando Watney vai incerimoniosamente desmontando o MAV e despejando seus componentes sobre o solo de Marte, fiquei pensando: cada um daqueles parafusos, assentos e cabos custou algumas centenas de milhares de dólares para fazer e outros tantos milhões para levar até a superfície de Marte… e agora ele se desfaz de tudo sem o menor pudor.

Aliás, quando um dos astronautas está indo lá pra fora da Hermes, sua colega o adverte para tomar cuidado porque, “in space…”, e não completa a frase. Fãs de scifi sabem que a outra metade da frase seria o lema do maior sucesso de Ridley Scott: “… no one can hear you scream”.

Ao montar a bomba, um dos astronautas conecta seu cabo de ativação a uma saída na parede junto à comporta. Você reparou nas portas USB bem ao lado dessa conexão? A gente não mexe naquilo que está funcionando; no ano 2035 ainda haverá portas USB.

Perdido em Marte não é um filme de ação nem tem um vilão, algo raríssimo nos blockbusters de Hollywood. Você reparou na contagem de corpos deste filme? ZERO! Já viu ALGUM filme de scifi conseguir esse feito? Geralmente, algum herói sacrifica sua vida para salvar os demais — não desta vez!

Outros vídeos promocionais gravados durante a preparação da missão Ares III:

Finalmente, aponto algumas resenhas que encontrei por aí:

Apideite do apedeuta em 11/10/2015:

Tem um ponto que eu pensei assim que vi no filme, mas depois me esqueci de comentar. Quando o Diretor Kapoor intui o percurso que Watney está fazendo, ele corre até a cantina para usar o mapa de Marte que está pendurado na parede. Entendi a necessidade dramática de mostrar a empolgação e as prioridades de um nerd, mas será que ele mesmo não teria, em seu computador, um mapa de Marte muito melhor do que o da cantina? Pense bem. Se o ofício dele é esse, com certeza ele estaria cercado de mapas mais recentes e mais precisos.

Outra que eu pensei na hora e que foi abordada em uma das postagens que referi acima: quando a comandante Lewis vai lá fora puxar Watney para dentro, o arnês dá voltas em torno dos dois. Quando o Dr. Beck começa a dar tração no arnês, o certo é que, primeiro, o arnês fique teso, reto entre ele e o par que flutua lá fora, para só depois começar a puxá-los. Entretanto, o filme errou neste ponto: o arnês começa a puxá-los enquanto ainda está em um formato frouxo, solto em volta da dupla.

Se eu não me lembrar de mais nada, este é o último ponto: considerando que o filme não tem vilão e que Lewis está do mesmo lado do protagonista, creio que tenha sido inevitável que a Hermes tivesse que ir novamente a Marte para buscar Watney. Por quê? Porque, Lewis não sendo uma vilã, ela terá sentido um remorso terrível por deixá-lo vivo no planeta. Na estrutura narrativa tradicional, desse ponto em diante ela precisa de uma oportunidade de se redimir diante de si mesma, ainda que ninguém a esteja culpando. Então, ela precisa pessoalmente resolver isso: na sua óptica, foi ela quem fez mal ao colega (ao dar a ordem de partida sem ele), então ela é quem deve reparar esse mal.

EOF

My inevitable review of Star Trek: Renegades

After nearly two years of nail biting, the pilot episode of Star Trek: Renegades is here. This professional-quality fan production has been anxiously awaited by all of us enthusiasts who have supported great works such as Star Trek: Phase II, Star Trek Continues, Starship Farragut and Axanar, to name only those of higher production values (not that I do not appreciate the likes of other fan series, but the list is too long to fit here).

As always, it feels somewhat awkward to review something that is already covered in depth elsewhere on the Web. Also, it is a bit unfair that we sit back and comment on other people’s work as if we were entitled to a quality set by our own standards when it is not us sweating to make a good film. And Renegades more than matches the criteria by which so-called “official” Star Trek works are judged, canonical or otherwise (Enterprise and J.J., I am looking at you).

Still, some aspects of Star Trek: Renegades came to mind on first watching.

If you look at the Icarus with more than a casual glance, you will see that it has sagital symmetry. That is, the ship’s bottom mirrors the ship’s top along a plane that runs through the waistline. There are two shuttlebays, the nacelles are located right on the symmetry plane and there are four of them. It is thus only a matter of time before upcoming episodes show us the vessel in a classical split (aka “multivector assault mode”) as an improvement on the preceding Enterprise-D’s and Prometheus‘s abilities.

Also, the Icarus‘s design is reminiscent of a continuous line of aggressive-looking ships that started way back in 1991, in Rick Sternbach and Michael Okuda’s ST:TNG Technical Manual. Along the Defiant, the Equinox and the Prometheus, ships have become smaller in size, more angular, more detailed and more heavily armed in relation to their size. The Icarus‘s hull and bridge shape continue the Voyager‘s precedent, and, at the ship’s very front, those two prongs look like they have been borrowed from the Klingon Vor’cha class. In particular, the ship’s overall front and torpedo tubes seem to (at last) be the realization of part of Sternbach’s design for a small fighting ship that was detailed in the ST:DS9 Technical Manual.

None of this should be any wonder, of course, since Sternbach and John Eaves did ship design for Renegades. But will someone please remind me of where I have seen the backs of the Klingon ships’ nacelles before? I am sure I have seen that, but I cannot seem to remember where.

Exploring the Icarus‘s array of technical marvels, we are introduced to a novel communications device that conveys tact as much as realistic image and sound. At first this may seem very nifty and impressive, but one has to bear in mind the advances that Voyager promoted with the EMH and its fake matter. With holodeck technology, it is very easy to imagine a puppet controlled to mimic a real person’s remote behavior, as previewed in Worf and Quark’s bat’leth handling in “Looking for par’Mach in All the Wrong Places” and by today’s performance capture as amply demonstrated by Andy Sirkis (of Gollum fame). Even if it is only forcefields instead of real tangible matter, the holodeck has done this and better in the past. The 3-D imaging in communications was also shown in DS9’s second half (notably in “Doctor Bashir, I Presume” but elsewhere as well; episode names fail me now). Lucien and Zimmermann’s communications escapades would naturally strain today’s bandwidth possibilities (especially if they take them one step beyond as hinted, nudge nudge wink wink). However, if we look back to the Internet’s achievements in this respect since 1996 and extrapolate them to the late 2380s, we may even consider Renegades to aim too low.

Last but not least regarding starships, the “Derelict Ship” (Tuvok’s infiltrator that meets the Icarus midflight) also reminds me of previous ships, but again I cannot quite identify which. Is it the scoutship from Insurrection with the addition of a Bird of Prey’s head? Will someone point it out to me? Thank you in advance.

Moving onwards to the cast, I was very much aware of Walter Koenig and Tim Russ making their comebacks as Chekov and Tuvok, but I intentionally remained ignorant of other cast members and rôles. It was a pleasure to see eyecandy Adrienne Wilkinson (from Star Trek Continues‘s “The White Iris”). My non-Brazilian readers would never know, but she looks like a clone of Brazilian actress Christiane Torloni when she was younger.

Now, Sean Young came as a total surprise to me. I did not realize it was she, though the face seemed familiar. When I saw the credits, my only reaction was that I had lived to see the day when Young would be in Star Trek. She looks beautiful (possibly more so than in the raving 80s) but it is a striking contrast to her early rôles that now she plays a more homely character, kind of “that aunt of yours whose job it is to prevent a space powderkeg from blowing up”. I wonder if it was intentional to have Dr. Lucien repeatedly put on and remove her glasses, reminding you that (1) Star Trek never had any after that infamous transporter chief’s from “The Cage” and Kirk’s Retinax 5 surrogate and (2) that is how Sean Young manages to focus on objects around her these days, so you live with it (not that I am complaining).

Regarding the plot twist on Fixer’s nature, it is a natural continuation of TNG’s Moriarty, the EMH’s achievements and Dr. Zimmermann’s research that an entire person’s brain pattern could be downloaded to the portable emitter, so this does not seem far-fetched, and was in fact a welcome surprise. Of course, the concept opens up new ethical frontiers, as a person could be repeatedly killed and brought back to life (of sorts) only to suit the convenience of those who would not release him from this mortal coil. I assume that, one day, Fixer will realize that he does not age and that he is able to rematerialize where he was not supposed to be able to, much like a Highlander when he finds out that death eludes him. Therefore it is also only a matter of time before an upcoming episode forces a guilt-stricken Lucien to explain to him what he really is made of now.

Speaking of which, the circle will then be complete. In a little-known sci-fi production from 1982, Sean Young played a character who had been assembled from parts made in a laboratory. The character was not a real human but thought she was, until someone came along who revealed to her where her artificial memories came from: the brain pattern of a deceased person who she replaced and gave continuation to. Now it will be her turn to reveal this condition to an artificial person of her own making…

Other notable cast members include the comeback of Icheb, from Star Trek: Voyager, and John Carrigan (Kargh from Star Trek: Phase II) as both a Klingon captain and a Starfleet officer.

Going back to the regular Starfleet crew, another good surprise was to see Captain Parker Lewis Alvarez played by Corin Nemec, whose face I had not seen on a screen since 1994 (yes, I know — I have not yet seen either The Stand or — shame on me — Stargate SG-1). Considering his persistence, his apparent backstory with Lexxa, the blood in his eyes as he battled wits and brawn with the Icarus, and his evident honest-to-goodness, died-in-the-wool loyalty to Starfleet’s mandate, it is obvious that we will see a lot of his chasing the Icarus around (as a matter of personal pride too) until a later episode where he will be forced to a truce and an alliance with the Renegades for the common good against betrayals from up high. Commissioner Gordon would be proud.

Still in Alvarez’s turf, the USS Archer disappoints me a little. In contrast to the Icarus and to the more recent designs from Star Trek: Voyager, the Archer is overly simple in its shape and her saucer is a throwback to the TNG era, with a lack of detailing that does not do justice to Renegades. It is almost as if this simplicity was made to reflect Starfleet’s naïveté before the dark forces manipulating it; as if the ship’s very design was made excessively simple to depict the simplicity of its officers’ mindset. What troubles me, though, is that the design seems ripped off from Bernd Schneider’s original projects from the EAS Fleet Yards or from the Advanced Starship Design Bureau. I cannot quite put my finger on which design, but it would be something like the Andromeda class or maybe a cross between that and some other class from therein.

I was going to comment that Renegades‘s makeup left something to be desired, what with their Nausicaan, Andorian and Syphonians, and that it looked amateurish and monochromatic. Before you agree with this hasty evaluation, though, may I remind you that I saw the episode in 960p resolution (was unable to download it in 1080p). This is twice the definition that Star Trek worked with for many years (576i). Now, if we looked at Renegades with the same definition as those TOS, TNG, DS9 and Voyager episodes, I am sure that we would find its makeup to be more detailed than what the artists achieved in the long-running canon productions. Therefore I withdraw my comment.

I had four gripes about the story. One is already covered by Bernd Schneider’s review, which is yet another villain intent on destroying the Federation in a fit of vengeance, as Shinzon and Nero before him. The other is the contrived dialogue between the Betazoid Ronara and former Borg Icheb. You would assume these two characters to have known each other for a while, since they have been crewmates for who knows how long. Therefore it makes little sense that they show the viewer their abilities in an angry bout of exposition as if they were making their acquaintances there and then. The whole dialogue stands apart from the rest of the episode and has no real relation to any scene or take before of after it. I understand the need to bring the explanations to the viewer in as short a time as possible, but maybe the script could have used some polishing there; for example if they disclosed their abilities to someone else.

The third minor misgiving I have is the casual fashion in which transporters are overused. When the transporter was invented by Gene Roddenberry back in 1964, it was a clever means to speed up screen time by avoiding the need to show the Enterprise landing on planets. Over the course of TOS, even though the transporter was taken for granted as a plot device, it was never brushed aside with a shrug. This was a technology to be treated with respect, which Bones McCoy grumbled about and which could still subject people to accidents of varying degrees of tragedy (“The Enemy Within”, “Mirror, Mirror”, ST:TMP). Then along came TNG, where the transporter became an easy escape to all sorts of trouble (“Up the Long Ladder”, “Rascals”), and the Abramsverse, where it made starships obsolete overnight. Now Renegades uses the transporters over distances of lightyears, and characters beam here and there on a whim to the point of the viewer nearly losing track. If you use it too much, you risk making your stories pointless or, at the very least, doing away with suspense.

(Although, as a fan, I keep paying attention to the clever ways to cheapen production where the transport is involved. When Lexxa beams over into the Icarus, you never see the effect, thereby saving on the CGI, but you hear the noise, so no explanation is needed. Star Trek has been playing this trick since “Where No Man Has Gone Before” and it never wears out.)

The final plot hole to deserve comment keeps popping up in Star Trek and would not need any additional beating if it were not so thrown in our faces: will the next crew please not leave the ship and stay all together waiting to be shot at and captured wholesale? Am I asking for too much? At least this time they took advice from the ill-fated crew of Ridley Scott’s Prometheus and sent some floating probes ahead (and we wonder why they have not done so before, seeing as that floating holocameras existed as far back as the christening of the Enterprise-B).

Last but not least, I disagree with Schneider’s view that there were not enough explanations of the episode’s backstory. Granted, this is a pilot and, as such, needs loads of exposition so the finished product makes sense to the viewer, who is thankful not to feel lost. However, pilots are also meant to tease the viewer’s curiosity. As stories progress, I assume that the backstories will be revealed, showing us why Lexxa is being chased since her childhood, what she did to land her into an Orion prison, what Lucien’s accident was that disgraced her, and what prickles me the most: how Starfleet’s advanced battlebrat Icarus came to be stolen by a bunch of Renegades!

Minha inevitável pseudorresenha de Interestelar

Então seja bem-vindo a mais uma pseudorresenha do Senhor Atoz. Você sabe como é: eu vou ao cinema, eu venho aqui e conto.

Mais uma vez, não farei uma resenha. Já tem gente fazendo isso de montão por aí (nem pesquisei desta vez para saber se é verdade, mas sempre é verdade). Baste ver que há toda uma edição da Slate dedicada ao filme, inclusive com as minúcias científicas. Baste ver que o Bad Astronomer, Phil Plait, tem todo um mea culpa sobre o ponto específico de buracos negros com rotação.

Meu público-alvo são as pessoas que já viram Interestelar. Em respeito às que não viram, tomarei o cuidado de esconder o texto que revelaria conteúdo. Então, você já sabe como funciona: para ler o trecho escondido, você tem que selecioná-lo com o mouse, porque o escrevi com fonte branca.

Primeiro, vamos à parte não secreta.

– Em nenhum momento o filme diz quando se passa. Temos sugestões de que seja no futuro próximo, nas poucas décadas adiante de nós, mas nada categórico. Não há referência a NENHUM ano. A camioneta do personagem é um modelo recente, e o interior da casa dele poderia ser hoje, mas isso não quer dizer nada, porque, naquela região dos Estados Unidos, os anos passam e nada muda. Hoje vemos camionetas que estão rodando há quarenta anos; o interior das casas, exceto por um eletrodoméstico ou outro, conserva a mesma estética de cem anos atrás. Então, essa atemporalidade pode ser usada para a frente também, e não sabemos se o filme se passa em 2014, 2024, 2064 ou 2114. O tema de insustentabilidade é premente hoje, quando já sentimos os efeitos do aquecimento global nas colheitas e na falta de água, e é certamente por isso que é tão fácil nos identificarmos com os personagens.

– A trilha sonora é de Hans Zimmer. Naturalmente bem feita, como sempre. A mesma melodia é ouvida diversas vezes, ora devagar ao piano nas cenas de mais reflexão, ora acelerada no violoncelo nas cenas tensas. Dá pra reconhecer. Agora, tive a forte impressão de que as passagens ao piano têm uma semelhança intencional com a introdução de Space Oddity, de David Bowie.

– Matthew McConaughey melhorou muito como ator. Lá na época de Contato (1997), ele era só mais um descamisado (sabe como é: os galãs que só aparecem nos filmes para tirarem a camisa em algum momento). Agora ele atua e convence.

– Na estante de livros do personagem, alguns exemplares chamam atenção e certamente não estão lá por acaso: The Stand, de Stephen King, que versa sobre a resistência à extinção da humanidade; biografia de Lindbergh, pioneiro da aviação; e pelo menos um livro de Conan Doyle, mestre da dedução científica através de seu personagem Sherlock Holmes.

– Nos anos 60, 70 e 80, os filmes de espaço costumavam mostrar os interiores das naves como se estivessem décadas ou mesmo séculos no futuro. Era sempre aquela atmosfera limpíssima, estéril, mas também confortável. Pense em Mercenários das Galáxias (se você não via Sessão da Tarde, azar o seu), O Abismo Negro, Galactica, Buck Rogers ou mesmo o primeiro filme de cinema de Jornada nas Estrelas. Pense em Voyager: Rumo às Estrelas, da Disney (e não o confunda com Star Trek: Voyager, que é outro animal). Já dos anos 90 em diante, instalou-se uma tendência que a mim é bem-vinda: os filmes de espaço costumam mostrar o interior das naves, e a tecnologia toda, como se fossem exatamente os atuais, exceto que um pouquinho de nada mais avançados, como se estivessem apenas dez ou vinte anos no futuro. Veja Space Odyssey, da BBC; Gravidade; até mesmo Armageddon. Isso tem a relevante consequência de ter que explicar menos, porque o público (ou ao menos parte dele) já viu astronautas no telejornal, já viu o interior da Estação Espacial Internacional em notícias e documentários, já sabe o que esperar. Quando se fala em naves e astronautas, já sabemos mais ou menos que aparências as estruturas e seus interiores devem ter, já sabemos que cara têm os painéis, comandos e trajes. Em Interestelar, podemos ver detalhes da superfície da nave, e lá estão todos os tijolinhos que nos acostumamos a ver nos ônibus espaciais, o preto-e-branco de seu revestimento, os bocais de seus motores, os aneis de vedação etc. A estética é conhecida. Então, quando o contador de histórias quer nos dizer “nave espacial”, ou “astronauta”, ou “interior de uma estação”, o que ele nos mostra é isso que temos visto nos filmes, e já sabemos do que ele está falando, e nada mais tem que ser explicado, permitindo que ele se concentre na HISTÓRIA. Afinal de contas, é isso que interessa; um filme é bom ou ruim conforme bem ou mal conte sua história. Se você tirar o foco do cenário, estará tirando isso do caminho, e o enorme benefício é que a história pode ser contada com menos obstáculos. O filme pode andar na sua própria velocidade. E é isso que acontece em Interestelar.

– Vi nos créditos: produtor executivo e consultor de Ciência, Kip Thorne. Quem se amarra em Astrofísica sabe que Thorne é uma das grandes celebridades da Astronomia neste entorno do Milênio. Contemporâneo do planetarista Carl Sagan, Thorne é uma das maiores autoridades na especulativa Física dos buracos negros. De acordo com Phil Plait, ele fez toda a matemática para concluir que fossem válidos certos pontos mostrados no filme — justamente os que os nerds desafiariam — e até mesmo publicou The Science of Interstellar. Talvez eu leia…

– Não sei de onde vieram os nomes CASE e TARS, mas KIPP é claramente uma referência a Kip Thorne.

Agora, a parte escondida.

– O filme é longo. Com 160 minutos, ele é desnecessàriamente longo. Dá pra ver por quê: ele gasta uma boa meia hora na visita inútil ao planeta do Dr. Mann, gasta um tempo enorme na tentativa de homicídio e de sequestro de uma nave, e nas longas cenas de ação: em luta com Mann, tentando alcançá-lo e depois tentando acoplar o módulo de descida à nave. O que eu faria? Cortaria, sem pena, toda a passagem com o Dr. Mann e boa parte do conflito familiar entre Tom e Murphy Cooper. Só serviram para tornar o filme mais pesado.

– Um milhão de referências a 2001, intencionais ou não. Então a NASA encontrou uma anomalia em órbita de Saturno? Ora, 2001 (o livro, não o filme) tinha um monolito em órbita de Saturno. Então não temos Hal, mas temos KIPP: uma inteligência artificial que tudo controla, que conversa conosco — só não tem aquela maligna luzinha vermelha, mas eles até abordam isso diretamente. E aí o astronauta mergulha numa singularidade e tem uma viagem de luzes psicodélicas… Rapaz, eu estava vendo a hora que Cooper ia cair em um quarto de hotel, encontrar comida azul e encarar um monolito. Faltou pouco. E então o astronauta, dentro da singularidade, conversa com a inteligência artificial, que colheu dados… Isso não está em 2001, mas está nos livros que lhe dão continuidade; a saber, 2010, 2061 e 3001.

– Robôs que, apesar de terem uma personalidade, põem a segurança em primeiro lugar e, de resto, não têm escolha senão obedecer aos humanos? ASIMOV! Primeira e Segunda Leis da Robótica, que aparecem em todos os livros de robôs de Isaac Asimov e que são citadas a toda hora por todos os seus leitores que hoje fazem filmes de saifai.

– Aliás: o TARS, quando está simplesmente em pé, não é DIREITINHO o Monolito? 2001, múltiplo check.

– Não adianta, eu tenho mesmo o coração mole para voos espaciais. Uma das cenas que mais mexeram comigo, que mais me emocionaram, não foi nenhuma das cenas projetadas para isso. Ao contrário, foi uma cena feita mais para nos deixar boquiabertos mas, ao mesmo tempo, passando uma forte ideia de profissionalismo e objetividade, sem muito espaço para outra coisa a não ser a missão. É claro que estou falando da decolagem. No cinema IMAX, o som ficou tão alto, tudo que se ouvia eram os rugidos dos motores, o equipamento sacudindo e a música no último volume. Aquele close, com a câmera parada e o foguete subindo na frente dela enquanto caem partículas de tinta congelada, é intencionalmente evocativo das decolagens do Projeto Apolo. É ISSO que mexe comigo.

– Sensacional a representação do buraco de minhoca com forma esférica. Sensacional a explicação. Claramente influência de Kip Thorne.

– Aliás, pensando um pouco mais sobre o buraco de minhoca, foi depois que me ocorreu: em todas as descrições que os livros fazem do buraco, uma nave permanece em seu próprio espaço e seus ocupantes nem perceberiam que estão passando por ele. Para eles, o espaço parece normal. Veja no desenho — qualquer desenho — que acompanha uma dessas explicações; basta googlar: se você está no espaço 2D (como em todo desenho), você continua andando no espaço 2D até ver que, sem ter se dado conta, foi parar do outro lado. E mais: não existe essa história de furar o papel com o lápis e “atravessar”. Nos desenhos se vê que o contorno é suave, que a nave não “pula” de um lado para o outro, porque, justamente na passagem, o espaço é perfeitamente contínuo, não tem borda afiada. A formiga do exemplo não pula para fora do papel, não se lança no vazio para o outro lado; ela meramente continua andando até ficar de cabeça para baixo do outro lado.

Buraco de minhoca simplificado em espaço 2D

Formigas suicidas tentaram, mas não encontraram a beirada.

Por incrível que pareça, ESTA é uma representação muito mais realista do efeito do buraco em 3D, embora ainda peque por representá-lo em 2D.

Então, no filme, não veríamos os personagens “saltando para fora do espaço”. Eles olhariam para o buraco, veriam uma projeção 2D do buraco (a qual teria meramente a aparência de uma janela), da mesma forma como tudo que vemos está em 2D no nosso olho, e veriam o que tem do outro lado, tal como quem olha por uma janela. Atravessando o buraco como quem passa por uma janela, eles estariam o tempo todo em um espaço 3D, sem nenhuma lei da Física que lhes parecesse diferente, só que, ao olhar em volta, reconheceriam estar em um lugar diferente do lugar de antes da travessia. Em outras palavras: a viagem pelo buraco de minhoca só seria perceptível para quem estivesse prestando atenção, por causa da mudança do cenário em volta. Não haveria nada daquele efeito dramático, das acelerações, das maluquices sensoriais, nada disso. Porque a nave que atravessa o buraco não sai do espaço 3D, não entra em um espaço 5D nem coisa parecida.

– Se um planeta orbitasse um buraco negro tão de perto, ele estaria sujeito a um permanente banho de raios X, resultante da aceleração da matéria no disco de acreção. Você reparou na intensidade luminosa ali perto? Então. Os raios X são ainda mais abundantes, você só os não está vendo; de acordo com Plait, a luz no filme era até pouca. Portanto, se você fosse morar no Planeta de Miller ou no Planeta de Mann, você tomaria doses maciças de raios X a cada segundo. Deviam chamá-los de Planetas do Câncer. Só o tempo que os astronautas passaram nas proximidades do horizonte de eventos já seria suficiente para evaporar a eles e à nave, não sem antes você conseguir ver seus esqueletos na mais espetacular ferramenta de diagnóstico médico que o universo já teve o trabalho de acumular.

– E mais: supostamente há três planetas habitáveis orbitando um buraco negro, certo? OK, um deles é um mar inóspito, outro tem paisagens geladas e atmosfera de amônia, mas, em princípio, até dá para caminhar na superfície, não é isso? Muito bem. Só que, para você não morrer congelado a zero kelvin na superfície de um planeta que congelaria o AR à sua volta, é necessário que esse planeta receba bastante calor. Calor que viria, por exemplo, DA ESTRELA QUE ELE ORBITA. No nosso caso, a Terra só não é uma vastidão de gelo porque o Sol a mantém aquecida. Se, em vez de uma estrela, seu planeta orbita um buraco negro, então o calor que você recebe não é suficiente nem para você ter uma atmosfera, muito menos água líquida, céu claro ou, no caso extremo, habitabilidade. Portanto, só de ver que a “estrela” é um buraco negro, as esperanças para os três mundos acabariam ali.

– Faltou explicarem um pouco melhor este lance de que cada hora no Planeta de Miller corresponde a sete anos longe dele. Eles até pincelaram o motivo (distorção do espaçotempo na proximidade do buraco negro), mas o povo que assiste pode ficar um tanto confuso. É verdade que foram fartamente explícitos em dizer que é tudo por causa da relatividade, e até disseram que Cooper não teve tempo de explicá-la à filha de dez anos (leia-se: não vamos explicar a vocês que assistem; procurem um livro), mas, ainda assim, eu teria comentado.

– Quando Cooper e Brand retornam para Romilly e ele envelheceu 23 anos, você notou duas coisas? Uma são os modos dele: o gestual, o caminhar e os maneirismos de uma pessoa de mais idade. Ele já não era novinho quando a nave decolou, então certamente havia se tornado um senhor próximo da aposentadoria. A segunda coisa são as mãos dele: bem na postura de quem tem artrite, em forte sinal da idade. Parabéns à equipe e ao ator por isso.

– Eu não sei você, mas para mim foi uma total surpresa a aparição de Matt Damon. Não do personagem, mas do ator. Isso está fartamente comentado aqui (javisei: spoilers). Não é a primeira vez que ele faz isso: quem viu EuroTrip teve a oportunidade de se surpreender da mesma forma. Deve ser uma espécie de diversão para ele. Se bem que, em retrospecto, “Mann” soa como “Matt Damon” falado rápido, muito rápido, deixando apenas os dois fonemas iniciais e o último.

– Planeta de Mann = superfície interminável de gelo acumulado, com quilômetros de altura. Portanto: planeta de Mann = Islândia. Isso é óbvio. Quando os créditos reconhecem que o filme foi rodado lá, e listam todos aqueles nomes como “Gunnar” e “Olaf”, todos terminando com “…fsson” e “…dottir”, não há surpresa nenhuma. Quem viu Prometheus saberia.

– Astronauta mandando computador abrir a escotilha, não conseguindo e tentando entrar na marra? 2001, check.

– Explosão no espaço: silenciosa. Pronto, nerds, estão felizes? Pronto, taí. Tal como em Gravidade, vimos uma explosão e o som não se propagou no espaço.

– Quando a Endurance (ou o que restou dela) está completando a manobra de estilingue em torno de Gargântua, TARS comenta que, de acordo com a Terceira Lei de Newton, para ganhar velocidade você tem que deixar alguma coisa para trás. Algumas pessoas riram no cinema, porém a Terceira Lei de Newton é exatamente isso. Ele não estava brincando. Na verdade, a descrição foi um pouco imprecisa, porque não basta deixar massa para trás; é preciso que a massa tenha uma velocidade negativa em relação à sua. Se TARS for apenas abandonado, ele vai continuar acompanhando a nave até que, de acordo com a Segunda Lei, ela sofra alguma aceleração que ele não. Isso acaba acontecendo, mas, infelizmente, não chegamos a ver a Terceira Lei em ação.

– Ambiente artificial criado no fim do filme pelas criaturas avançadas para que os humanos consigam se comunicar? 2001 e Contato, check.

– Outra influência que não passou despercebida foi a de Star Wars: quando, nas últimas cenas, Cooper recruta a ajuda de TARS e sub-reptìciamente furta uma nave monoposta para encontrar Brand no planeta de Edmund, observe que seu embarque espelha aquela cena do Episódio V onde Luke se afasta de seus amigos para ir encontrar Yoda. Sua entrada no cockpit, mais o fato de que a inteligência artificial se acomoda no espaço apertado atrás dele (R2-D2 no X-Wing), mostram claramente de onde partiu a ideia original, mesmo que o diretor não tenha feito de propósito.

– Por último: os fãs de saifai, assim como outras mentes difíceis de se iludir, já devem ter percebido uma falha lógica gritante, extremamente comum neste tipo de filme, mas que mesmo assim continuam fazendo. Se os sinais de Cooper viajaram para trás no tempo e chegaram à adolescência de sua filha, isso só aconteceu porque os humanos-do-futuro criaram esse hipercubo com aparência de tridimensionalidade, de onde ele poderia enviar os sinais, certo? Bem. Mas esses humanos-do-futuro só são possíveis porque a missão deu certo, e a missão só deu certo porque Cooper encontrou a base secreta da NASA, e Cooper só encontrou a base secreta porque sua filha lhe trouxe os dados revelados pelo fantasma, e os dados só foram revelados pelo fantasma porque o fantasma teve um ambiente do qual enviá-los, e ele só teve esse ambiente porque os humanos-do-futuro lho forneceram. Ou seja, os humanos-do-futuro só se tornaram possíveis porque agiram. É um paradoxo temporal de predestinação, mais suave e mais sutil do que o outro, agressivo e gritante, da contradição que surge quando você volta no tempo e mata seu avô. Ainda assim, um paradoxo, e o filme sofre essa falha lógica insuportável, que rompe a relação de causalidade. Feito o loop temporal, nada deu causa ao sucesso da missão, ou ela só deu certo porque só poderia dar certo… Nunca houve dúvida sobre o sucesso da missão? (Desculpe, anos demais vendo filmes e séries de saifai.)

No geral, Interestelar teve o cuidado de não ser um espetáculo de efeitos visuais. Ao contrário: os efeitos, quando existem, são para promover a história, não para ficar no caminho dela. São uma forma de suprir uma expectativa no momento em que aparecem e então permitir que nos concentremos no que os atores fazem. Mas o filme é muito longo.

Para ler a resenha de Phil Plait, que recomendo enfàticamente, apenas clique aqui.

EOF

Observações em A Identidade Bourne

Em The Bourne Identity (o filme de 2002, com Matt Damon, não o de 1988, com Richard Chamberlain), na marca de 1:35:30, vemos um jato executivo da CIA, onde embarca o Agente Conklin. O avião é claramente um Dassault Falcon trimotor branco, portando o símbolo do fabricante na deriva e o registro N-GIDE.

Ora. Qualquer Leitor acostumado a registros de aeronaves (“prefixos” no linguajar brasileiro) sabe que, nos Estados Unidos, os registros começam com a letra N mas continuam com algarismos, sem traço entre o N e os algarismos. Uma sequência de traço e quatro letras não faz sentido num registro americano.

Mas uma letra seguida de traço e quatro letras faz todo o sentido na Europa, onde são assim os registros britânicos, alemães, italianos e franceses. Além disso, podemos ver, no filme, que a letra N não está pintada diretamente na fuselagem como estão as outras; o N, e somente ele, está impresso em alguma camada adesiva que foi colada antes do traço.

Não é necessária muita intuição para se perceber que alguma outra letra ocupava o lugar do N. Sendo um avião da Dassault e ainda tendo o símbolo dela na cauda, podemos imaginar que a aeronave pertença à própria Dassault (e não a alguma empresa que a tivesse alugado ao estúdio). Portanto, o avião há de ser francês, com registro original F-GIDE.

Uma breve pesquisa por F-GIDE no Airliners.net revela que, de fato, o trimotor do filme é o primeiro exemplar do Dassault Falcon 900, apresentado em Farnborough em 1988. Pode-se ver aí uma espécie de product placement por parte da distinta fabricante francesa.

Além disso, Bourne Identity tem duas cenas com truques de desaparecimento. A primeira, aos 0:09:45, mostra Bourne caminhando no porto quando uma camioneta passa entre ele e a câmera. No exato instante em que os dois passam um pelo outro, dois sujeitos caminham da esquerda para a direita a centímetros de distância da câmera, òbviamente encobrindo Bourne e a camioneta. Assim que os dois sujeitos saem da frente, vê-se a camioneta, ainda fazendo seu percurso, mas… Bourne sumiu!

Essa cena tem a evidente intenção de simbolizar o desaparecimento de Bourne no terreno: sem identidade, sem cartão de crédito, sem passaporte, não é possível rastreá-lo, não é possível saber onde ele está até que seja encontrado a centenas de quilômetros dali. Mas, mesmo assim, a técnica é surpreendente. Nos comentários ao DVD, o Diretor Doug Liman esclarece que não houve edição de vídeo nem efeitos de computador; foi tudo feito realmente diante das câmeras. Nesse caso, onde está o truque?

Pausando e exercendo um quadro-a-quadro, podemos ver uma esperta sequência: antes que os dois sujeitos apareçam para encobrir sua visão, você consegue perceber que Matt Damon e a camioneta estão muito próximos um do outro e que o ator está apenas alguns passos além dela. Os dois caminhantes cobrem sua vista porque é aí que o diretor vai desempenhar seu pequeno truque de mágica; eles fazem o mesmo papel de uma cortina no palco. Mas, em um fotograma isolado, conseguimos perceber as pernas de Damon. Prestando muita atenção a seu casaco vermelho, e olhando através dos vidros da camioneta, podemos ver que Damon sobe no lado de fora dela mas fica escondido, abaixado por trás do motorista e da cabine. Nos fotogramas seguintes, a camioneta desloca-se para a direita da tela e ele vai junto; no fim da sequência, Damon até mesmo começa a se levantar. O truque funciona porque, no início, ele estava caminhando para nossa esquerda, e a ponto de cruzar seu caminho com o da camioneta, de modo que temos a expectativa de vê-lo na continuação desse movimento, quando, na verdade, ele e a camioneta avançam para nossa direita, onde não esperamos vê-lo. Tal como em todo truque de ilusionismo, o mágico rompe com nossas expectativas, fazendo com que tudo ocorra em uma direção diferente daquela para onde estamos olhando.

Outro pequeno truque de desaparecimento ocorre aos 1:49:29: Bourne vem caminhando da direita para a esquerda, a câmera acompanha-o de modo a mantê-lo centralizado, e então a câmera pára. Como Bourne continua caminhando, òbviamente ele avança para fora do campo de visão. A câmera continua parada e então volta-se lentamente para o lado onde ele sumiu, supostamente para acompanhá-lo — exceto que, novamente, ele desapareceu. Esta é outra cena intencionalmente simbólica, indicando que Bourne se tornou novamente irrastreável e que agora pode estar em qualquer lugar, abaixo dos radares. Também aqui o diretor informa que tudo foi feito diante das câmeras, sem mais tecnologia. Este caso é fácil, e Liman esclarece que bastou Matt Damon correr para fora do campo de visão, mais rápido do que se podia acompanhá-lo.

Uma última observação é que, aos 1:50:10, o Vice-Diretor Abbott menciona o projeto Blackbriar. Neste filme, essa é uma menção genérica; poderia ser qualquer outra palavra, indicando apenas que Abbott está descrevendo projeto atrás de projeto, sendo Blackbriar o próximo na fila depois de Treadstone. Porém, quando assistimos ao terceiro filme da sequência, The Bourne Ultimatum, aprendemos que Blackbriar é o projeto que sucedeu a Treadstone. Nenhuma fala é perdida.

Agora em inglês:

In The Bourne Identity (the movie from 2002, with Matt Damon, not the one from 1988, with Richard Chamberlain), at the 1:35:30 mark, we see a CIA business jet, which Agent Conklin boards. The airplane is clearly a white, three-engined Dassault Falcon, bearing the manufacturer’s logo on the fin and the registration N-GIDE.

Well. Any Reader who is accustomed to aircraft registrations will know that, in the USA, they begin with the letter N but continue with algarisms, without a dash between the N and the algarisms. A sequence with a dash and four letters does not make sense in the American registry.

But one letter followed by a dash and four letters makes every sense in Europe, where British, German, Italian and French registries follow such pattern. Besides, we can see in the movie that the letter N is not painted directly on the fuselage as the other letters are; the N alone is printed on some removable coating that had been glued before the dash.

One does not need much intuition to realise that some other letter occupied that spot under the N. This being a Dassault airplane and, on top of it, bearing the manufacturer’s logo on the fin, we can imagine that the aircraft belongs to Dassault itself (and not to some company that would have loaned it to the studio). Therefore the airplane must be French, with original registration F-GIDE.

A quick search for F-GIDE at Airliners.net reveals that, as a matter of fact, the movie’s trimotor is the first example of the Dassault Falcon 900, displayed at Farnborough in 1988. One could see some product placement by the noted French manufacturer there.

Also, Bourne Identity has two scenes with disappearing acts. The first one, at 0:09:45, shows Bourne walking on the harbour when a small cargo truck passes between him and the camera. At the exact instant when Bourne and the truck pass by each other, two men walk from left to right, centimetres away from the camera, obviously hiding Bourne and the truck. As soon as the two men get out from your face, you can see the truck, still making its run onscreen, but… Bourne has vanished!

This scene has the evident intent of symbolising Bourne’s disappearance into the terrain: without an identity, without a credit card, without a passport, it is not possible to track him, it is not possible to know where he is until he is found hundreds of kilometres away. Even so, the technique is surprising. In the DVD commentary, Director Doug Liman makes it clear that there was neither video edition nor computer effects; everything was made on-camera. In this case, where is the trick?

By freezing and stepping frame by frame, we can see a smart sequence of events: before those two men appear to cover your view, you can notice that Matt Damon and the truck are very close to each other and that the actor is just a few steps beyond it. The two walkers cover your view because this is where the director will perform his little magic trick; they fulfill the same function of a curtain on stage. However, in an isolated frame, we can see Damon’s legs. By paying a lot of attention to his red coat, and by looking through the truck’s glass panes, we can see that Damon climbs on the vehicle’s outside but stays hidden, lowered behind the driver and the cabin. In the following frames, the truck runs to the right of the screen and he goes along with it; at the end of the sequence, Damon even starts to rise. The trick works because, at first, he was walking towards our left, and about to cross paths with the truck, so that we expect to see him proceeding on this movement, when in truth he and the truck are moving towards our right, where we do not expect to see him. Just as in any illusionist’s trick, the magician breaks our expectations, making everything happen in a direction divergent from the one we are looking in.

Another minor disappearing act takes place at 1:49:29: Bourne comes walking from right to left, the camera follows him in order to keep him centred, and then the camera stops. Since Bourne is still walking, he obviously steps outside the field of vision. The camera remains where it stopped and then turns slowly towards the side where he went out of sight, supposedly to continue following him — except that, again, he has disappeared. This is another intentionally symbolic scene, pointing out that Bourne has again become untrackable and that now he may be anywhere under the radars. Here, again, the director advises us that everything was done on camera, without any further technology. This is an easy case, and Liman explains that it was enough for Matt Damon to run out of sight, faster than the camera could follow him.

A last observation is that, at 1:50:10, Deputy Director Abbott mentions project Blackbriar. In this film, this is a generic reference; it could have been any other word, just to show that Abbott is describing project after project, Blackbriar being the next in line after Treadstone. However, when we watch the third movie in the sequence, The Bourne Ultimatum, we learn that Blackbriar is the project that has succeeded Treadstone. So much for throwaway lines.

EOF

As séries amadoras de Jornada nas Estrelas: status em 2013

Esta postagem é a atualização de uma outra que publiquei em 2009. Update: ao final, há uma pequena nova atualização, feita em 2016.

Com a tecnologia digital e o barateamento dos meios de produção, tem-se multiplicado um tipo de criação muito peculiar entre os trekkers: os fan films. Então, meia dúzia de integrantes de um fã-clube decide juntar seus recursos, sua pouca ou nenhuma habilidade e, doando seu tempo e seu dinheiro, divertem-se criando seus próprios episódios de Jornada nas Estrelas, que depois lançam na Web. O que me surpreende (mas não deveria) é que a quantidade dessas produções tem aumentado.

O resultado tem chamado minha atenção. São obras amadoras, mas apresentam valores de produção que estão ao mesmo nível do que era produzido nos anos 60 ou que é produzido hoje. Em vários casos, os atores são de fato profissionais, e as filmagens acontecem no interior de estúdios, em cenários que são reconstruções impressionantes da ponte de comando da Enterprise original. Os efeitos sonoros e a trilha musical estão perfeitamente sincronizados com a ação. Com as câmeras e computadores atuais, os episódios são rodados em HD e contam com tomadas espaciais que fariam inveja às equipes de produção da série original naqueles tempos de barro fofo e pedra lascada. Esse é o caso, especìficamente, de Star Trek: Hidden Frontier, Starship Farragut e Star Trek: Phase II, que me parecem as mais célebres (mas certamente não são as únicas, como uma googlada lhe permitirá descobrir).

Nos Estados Unidos, é muito comum que os fã-clubes de Jornada nas Estrelas se organizem no formato de naves espaciais. Em 1999-2000, o fã-clube USS Angeles, situado em Los Angeles, produziu cinco episódios de uma série à qual deu o nome Voyages of the USS Angeles e que contava as aventuras de uma tripulação da mesma época de Jornada nas Estrelas: a Nova Geração. Os personagens tinham os mesmos nomes dos atores e a produção era tosca, mas você via que estavam se divertindo. Mais tarde, houve uma dissensão no grupo, e alguns integrantes, sob a liderança do cineasta iniciante Rob Caves, iniciaram uma série que era continuação de Voyages, repetindo vários personagens e aproveitando a linha de histórias que havia sido iniciada ali. A nova série ganhou o nome de Star Trek: Hidden Frontier.

Em Hidden Frontier, o cenário é a nebulosa em torno do planeta Ba’ku, do filme Star Trek: Insurrection. Como premissa da série, a Federação instala a base estelar Deep Space 12 na fronteira da nebulosa e designa algumas naves estelares para patrulharem a região, entre elas a USS Independence e a USS Excelsior — não a mesma do Capitão Sulu, mas uma integrante da classe Galaxy com três naceles. O comando de DS12 é passado para um comodoro veterano da guerra contra o Dominion. Entre os muitos personagens da série está Shelby, a ousada tenente-comandante de “The Best of Both Worlds”, que, interpretada pela estudante de teatro Risha Denney, vai sendo promovida, primeiro a capitão (comandando a Excelsior) e depois a almirante. Também é recorrente a Almirante Nechayev, velha conhecida do Capitão Picard em diferentes episódios da Nova Geração, e um dos personagens fixos é Robin Lefler, que era alferes e havia sido interpretada por Ashley Judd em dois episódios daquela série. Passados tantos anos, Lefler (agora interpretada por duas diferentes atrizes) é tenente-comandante e engenheira-chefe da Excelsior.

Hidden Frontier durou sete temporadas, ganhando sua própria mitologia, complexidade crescente e valores de produção em aprimoramento contínuo. Com tanta longevidade, é compreensível que tenha havido um certo entra-e-sai de atores e personagens. As histórias tomaram diferentes rumos com a passagem do tempo, formando arcos onde se enfrentaram diferentes arqui-inimigos e onde se pôs foco no desenvolvimento ora de um personagem, ora de outro.

A equipe de produção de Hidden Frontier (ou ao menos parte dela) mantém contato com um fã-clube situado em Dundee, na Escócia, o qual, sob a liderança do ator amador (e enfermeiro em seu emprego diurno) Nick Cook, produz a série Star Trek: Intrepid, até agora com sete episódios. Dessa proximidade nasceram três crossovers, episódios que mostram a interação entre personagens de Hidden Frontier e de Intrepid. Um desses crossovers, chamado Operation Beta Shield, é um filme de duas horas de duração, bastante complexo por depender de conhecimento de boa parte do que aconteceu em Hidden Frontier, mas impressionante na qualidade narrativa e nos valores de produção, com especial destaque para as cenas espaciais. Um aspecto particularmente curioso de Intrepid é ver como toda a tripulação da nave fala com forte sotaque escocês… Aqui, um trailer de Beta Shield.

Os cenários de Hidden Frontier são telas de videogames de Jornada, e a música de abertura é ripada do filme Galaxy Quest. Fora isso, os diálogos e a atuação melhoraram contìnuamente ao longo das sete temporadas, atraindo novos atores amadores e profissionais e gerando duas spinoffs filmadas com esses atores — nominalmente, Star Trek: Odyssey e Star Trek: the Helena Chronicles, ambas as quais prosseguem na história de Operation Beta Shield. Essas duas séries contam uma mesma história, sendo uma (Helena Chronicles) ambientada nesta Galáxia enquanto seus personagens tentam resgatar os personagens da outra (Odyssey), que ficaram isolados em Andrômeda. Após três temporadas, essas duas séries terminaram em 2012, com um episódio final de 127 minutos que reúne atores e personagens de Voyages of the USS Angeles (retomada como série de áudio em determinado momento anterior), Hidden Frontier, Intrepid, Odyssey e Helena Chronicles.

Outras spinoffs de Hidden Frontier prosseguem, incluindo (até hoje) Henglaar, M.D. (apenas em áudio) e Star Trek: Federation One (uma temporada em áudio, outra em vídeo). A mesma equipe produz Star Trek: Diplomatic Relations (contando histórias dos diplomatas da Federação, que atuam depois que a Frota Estelar vai embora, e novamente com a participação do elenco de Intrepid no primeiro episódio); Star Trek: Grissom, que relata as aventuras da navezinha exploradora de Jornada nas Estrelas III antes de ela ser explodida pelos klingons; e Frontier Guard, a única não relacionada ao universo de Jornada nas Estrelas.

Falei bastante de Hidden Frontier, mas ela não é a série amadora de maior ou mais famoso impacto no fandom. Essas honras cabem a Star Trek: Phase II, produzida sob a liderança do ator James Cawley. Profissionalmente, Cawley segue carreira como imitador de Elvis Presley em Las Vegas. Aparentemente essa função lhe rende um bom dinheiro, que ele gasta em um estúdio onde produz sua própria continuação da série original de Jornada nas Estrelas.

Tendo estreado em 2004 sob o nome de Star Trek: New Voyages (o nome atual Phase II veio só depois), esta série tem o propósito de contar as aventuras da Enterprise após o terceiro ano de Jornada nas Estrelas, em um quarto ano que a série não teve — ou não tivera até agora, porque isso está mudando. Para tanto, Cawley reconstruiu os cenários da série original, inclusive uma réplica minuciosa da ponte de comando, e tem contado com a colaboração de diversas pessoas que participaram das séries oficiais, como os atores Walter Koenig (realmente como Chekov), Malachi Throne, William Windom (Comodoro Decker), Barbara Luna, J.G. Hertzler e Tim Russ, o ilustrador Doug Drexler, a consultora Denise Okuda, a roteirista D.C. Fontana, o produtor de efeitos visuais Ronald B. Moore e vários outros. O próprio Cawley faz o papel do Capitão James Kirk, com diferentes atores tendo assumido os papéis de Spock, Sulu, Uhura e Chekov ao longo dos oito episódios já lançados, mas sendo constantes os atores que têm feito McCoy e Scott. Se, de um lado, todos associamos Kirk ao desempenho paradigmático e exagerado de William Shatner, de outro a atuação de Cawley é notável, seguindo até os trejeitos e entonações de Shatner nos mais minuciosos detalhes.

É impressionante como Phase II consegue emular a série Clássica à perfeição. Não apenas os cenários e uniformes ficaram perfeitos. As tomadas de câmera são as mesmas. O colorido dos cenários é igual, nos mesmos tons pastéis de amarelo, roxo, verde. Há os mesmos efeitos sonoros, os mesmos closes, o mesmo tratamento portentoso de quando alguém se materializa na sala de transporte, o mesmo acompanhamento próximo das lutas, os mesmos tons de maquiagem, os mesmos filtros nas lentes. Apesar de toda a tecnologia que se tem hoje, até o teletransporte foi feito igual. As histórias são escritas profissionalmente e os diálogos convencem, como se estivessem sendo ditos pelos próprios Kirk, Spock, McCoy e Scotty. Provàvelmente o detalhe que mais dá a sensação de se estar assistindo à série original é a iluminação, que define todo um clima mas que é sempre um componente sutil, de cuja importância frequentemente não nos damos conta, o que bem mostra o quanto a equipe de Cawley estudou a série Clássica. Em contraste, o detalhe que mais se percebe é a música incidental, que é usada exatamente nos mesmos momentos e com as mesmas partituras a que nos acostumamos na série Clássica: os temas de introspecção vulcana, de luta animada, de suspense antes do intervalo, de contraponto cômico, todos esses são empregados como esperamos.

Em particular, eu gostaria de comentar o quarto episódio de Phase II, “World Enough and Time”. Trata-se de mais uma versão de A tempestade, de Shakespeare. A produção visual é perfeita e começa com George Takei revivendo o Capitão Sulu a bordo de sua Excelsior em companhia de Janice Rand, novamente interpretada por Grace Lee Whitney. Em um flashback, voltamos aos tempos da série Clássica e a Enterprise invade a Zona Neutra para resgatar um cargueiro em perigo, fazendo referência ao Kobayashi Maru. Há um breve entrevero com algumas Aves de Rapina (magnìficamente representado em CGI como as séries nunca conseguiram), e a Enterprise cai vítima de um fenômeno cósmico. Òbviamente, começa uma corrida contra o tempo para libertá-la antes que seja destruída, e Kirk envia o Tenente Sulu aos destroços de uma nave inimiga. No retorno à Enterprise, ocorre um acidente com o teletransporte, e quem emerge é um Sulu trinta anos mais velho, que revive seus velhos tempos de Star Trek tanto quanto o hoje idoso Takei.

Star Trek: Phase II” é o nome convencionalmente adotado para a série de Jornada nas Estrelas que a Paramount preparou mas afinal não produziu no fim dos anos 70 e que acabou se materializando como Jornada nas Estrelas: o Filme, com parte de suas ideias reaproveitada na Nova Geração. Fazendo uma espécie de ponte retroativa entre a série original e as produções oficiais que a sucederam, a Phase II de James Cawley inclui o vulcano Tenente Xon (que substituía Spock na Phase II dos anos 70, mas aqui o complementa, interpretado por Patrick Cawley, filho do produtor) e uma promoção de Sulu a tenente-comandante (da qual decorre o cômico curta-metragem “Center Seat”). Além disso, o traje antirradiação de sua Engenharia é o mesmo que vemos nos filmes de cinema.

Entre os episódios da Phase II de Cawley estão as duas partes de “Blood and Fire”, uma história que o escritor David Gerrold propôs para a Nova Geração mas não foi aceita naquela época. Agora, o roteiro ganha vida com as participações de Denise Crosby, Bobby Rice como Alferes Peter Kirk (um veterano de Hidden Frontier e Odyssey, que comentei acima, aqui fazendo o papel do sobrinho do capitão), e Nick Cook (o escocês que normalmente faz o capitão da Intrepid, mas que, aqui, é um camisa-vermelha). A adaptação para esta filmagem é de Carlos Pedraza, um colombiano que também escrevia Hidden Frontier, e a direção é de Gerrold, que recentemente se tornou um dos produtores de Phase II.

O episódio mais recente de Phase II é “The Child”, que foi escrito por Jon Povill para a Phase II dos anos 70, realizado como episódio da Nova Geração em 1988 mas, agora, refilmado pela equipe de Cawley sob a direção de Povill e relançado em 2012 como o episódio da série Clássica que poderia ter sido. Neste episódio vemos o Tenente-Comandante Sulu ser interpretado por J.T. Tepnapa, um dos atores mais importantes de Hidden Frontier e The Helena Chronicles. O próximo episódio, a ser lançado em outubro de 2013, é “Kitumba”, outro que foi escrito para a Phase II original mas que até hoje não havia sido filmado. Já vi um dos trailers de “Kitumba” e percebi que o “Comodoro Probert” é interpretado por Andrew Probert, o artista que desenhou as Enterprises dos filmes de cinema e da Nova Geração. Outros quatro episódios estão em filmagem ou pré-produção.

Uma grande diferença de Phase II em relação à série Clássica são os efeitos visuais, especialmente as tomadas externas de naves espaciais. Os produtores sabem resistir à tentação de abusar do CGI, que se mantém como ferramenta a serviço da história (em vez do contrário, tão comum em filmes amadores). Mesmo assim, são empolgantes os movimentos da Enterprise e de seus rivais klingons no espaço. Dê só uma olhada nas primeiras tomadas de “Blood and Fire” Part Two.

Outras produções recentes foram bem sucedidas em trazer de volta a sensação de se estar assistindo a um episódio da série original de Jornada nas Estrelas. Um bom exemplo é Starship Farragut, que começou tão tosca quanto todas as demais porém se aperfeiçoou e hoje tem quase a mesma qualidade de Phase II, com exibição em alta definição e cenários que replicam os da série Clássica. Em Farragut, o produtor John Broughton atua como o Capitão Carter, comandando a nave estelar de mesmo nome, e os produtores Michael e Holly Bednar fazem o oficial de ciências e a chefe da Engenharia. Nesta série já vimos a participação especial de James Cawley como Capitão Kirk e podemos ver o ator Paul Sieber como o chefe de segurança Henry Prescott. Conforme uma rápida consulta ao IMDB poderá lhe mostrar, Sieber já apareceu em Phase II no papel de um alienígena e em breve deveremos vê-lo novamente como Prescott, mas em “Kitumba”, mostrando o grau de intercâmbio entre os estúdios e suas produções. O próprio Cawley já havia aparecido em Hidden Frontier no papel do Capitão Mackenzie Calhoun, um personagem que, na série de livros New Frontier, comandava a USS Excalibur e tinha a Comandante Shelby como sua imediata.

Aliás, essa mistura de elencos e equipes pode render bons momentos de diversão. Em 2010, a FedCon (grande convenção europeia de Jornada nas Estrelas) foi brindada com este maravilhoso vídeo produzido por James Cawley e por seu colaborador Tobias Richter. Trata-se de uma brincadeira que trata os filmes de J.J. Abrams como muitos trekkers gostariam de ver, inclusive enfatizando a diferença de tamanho entre a Enterprise original e a do jovem diretor. Outra brincadeira, produzida pela equipe de Farragut, encontra-se aqui, onde o Presidente Nixon tem um delírio que somente o Agente Smith (de Matrix) poderia abordar.

Em mais um recente e excelente caso de homenagem extra-oficial à série Clássica, eu não poderia deixar de mencionar o filme em três partes intitulado Star Trek: Of Gods and Men. Trata-se de uma história de viagem no tempo produzida por Tim Russ que tem o próprio como Tuvok, mais as participações de Nichelle Nichols como Uhura, Walter Koenig como Chekov, Alan Ruck novamente como Capitão Harriman (bem melhor do que quando comandou a Enterprise em Generations), Garrett Wang, J.G. Hertzler, Ethan Phillips, Chase Masterson e Cirroc Lofton.

Uma característica comum a todas estas séries feitas por fãs — além da paixão de quem as faz — é sua qualidade artesanal. Os créditos finais mostram a sintomática repetição de nomes: é muito frequente vermos a mesma pessoa como ator, produtor, editor, supervisor de roteiro, figurinista, carpinteiro, motorista, pintor, eletricista e artista de CGI; enquanto algum colega é ator, produtor, marceneiro, supervisor de efeitos visuais, maquiador, fotógrafo e continuísta; e uma terceira pessoa participa como atriz, produtora, roteirista, iluminadora, eletricista, maquiadora e operadora de som… E por aí vai.

A mais recente fanseries a seguir os passos da série original é Star Trek Continues, produzida pelo mesmo estúdio de onde sai Starship Farragut. O ator Vic Mignogna (que já atuara em Phase II) faz James Kirk ao comando da Enterprise (já tendo aparecido nesse papel em “The Price of Anything”, o mais recente episódio de Farragut), tendo a seu lado Todd Haberkorn (ator e diretor veterano de Farragut e de Phase II) como Spock, Larry Nemecek como McCoy e Chris Doohan como Scotty. Permita-me enfatizar: Nemecek é um dos mais ativos fãs antigos de Jornada, tendo publicado vários trabalhos, dos quais o mais famoso é seu ST:TNG Companion. Já Chris Doohan é filho do Scotty original, James Doohan. Todos os atores do elenco principal de Star Trek Continues são profissionais, embora a produção não seja oficial. No primeiro episódio, “Pilgrim of Eternity”, o ator Michael Forest retorna ao papel de Apolo, que desempenhara na série Clássica em “Who Mourns for Adonais?”.

A próxima grande produção deve ser Star Trek: Renegades, que promete trazer em 2014 uma nova história com Walter Koenig, Tim Russ, J.G. Hertzler e outros experientes atores de Jornada nas Estrelas. Recomendo observar o trailer e acompanhar as notícias.

Outras séries amadoras há, embora sem a mesma qualidade. Posso enumerar a extinta Starship Exeter e ainda Star Trek: the Romulan Wars, Enterprise: the Next Generation, Tales of the Seventh Fleet, Starfleet Renegades, Star Trek: Aurora, Star Trek: Encarta, … A lista é longa.

Atualização de 2016:

Star Trek: Phase II voltou a se chamar “Star Trek: New Voyages”. O produtor executivo James Cawley emitiu um comunicado no sentido de que havia se tornado insuportável o assédio de pessoas criticando, atacando e agredindo seu trabalho. Essas pessoas desgastam, não agregam e, por fim, venceram o ânimo de Cawley, que preferiu dedicar sua atuação a projetos que, ao menos, rendem dinheiro. Então, quanto a Phase II/New Voyages, ele se mantém como produtor executivo, mas deixou a atuação como Kirk a cargo do ator profissional Brian Gross. Os episódios recentes incluem “Kitumba”, um dos que foram escritos para a Phase II dos anos 70 e não filmados então, com uma perspectiva inovadora sobre o Império Klingon (que, lembre-se, não havia sido exibido na época; tudo que vimos em TNG ainda estava por vir) e a participação de atores de Star Trek Continues no papel de Klingons e de Gil Gerard (o Buck Rogers dos anos 70) como almirante; “Mind Sifter”, com a experiente atriz Rebecca Wood, veterana de Hidden Frontier, onde fizera a ardilosa Presidente Vindenpawl, agora no papel de uma enfermeira, em um episódio com duas referências internas ao clássico “Nightmare at 20,000 Feet” e James Cawley em uma rápida ponta como maluco em um hospício; e “The Holiest Thing”, com a esposa de Brian Gross no papel da Dra. Carol Marcus, testando seus primeiros passos na terraformação e tendo-os desafiados pela protomatéria. Os últimos episódios tiveram uma colaboração mais intensa de Ralph Miller e do alemão Tobias Richter, mago das belas visões da Enterprise em CGI. Aliás, com a chegada de Gross, a Enterprise passou por uma pequena reforma, que lhe deu a aparência que teria na abortada série Phase II dos anos 70 (uma espécie de visual intermediário entre o da série Clássica e o do primeiro filme de cinema).

Infelizmente, ST:NV acabou. Em razão das novas regras da CBS para filmes amadores de Jornada nas Estrelas (q.v. mais detalhes abaixo), Cawley decidiu fechar o website americano, mantendo apenas seu espelho alemão. Foi definitivamente interrompida a elaboração de novos episódios, nem sequer se concluindo aqueles que já estavam em pós-produção, embora os financiadores vão ter acesso ao próximo episódio, que estava quase pronto.

Star Trek Continues segue de vento em popa. A série está ainda mais próxima da Clássica a cada episódio, assemelhando-se em mínimos detalhes que às vezes nem reparamos: as cores, a iluminação, as tomadas de câmera, a música incidental, até as sombras ao fundo. Em qualidade, considero que ela conseguiu a incrível proeza de superar ST:NV. Entre os personagens fixos, há uma conselheira, em uma espécie de pioneirismo retroativo da função que, cem anos depois, será desempenhada por Deanna Troi. Esta série costuma fazer menos referências a episódios de Star Trek (seja a original ou outras séries) do que ST:NV, evitando o que se convencionou chamar de continuity porn.

Star Trek: Renegades afinal lançou seu episódio piloto em 2015. Sobre ele já publiquei uma resenha em inglês. Em síntese, a série ambienta-se no futuro após Star Trek: Voyager, quando traidores assumiram posições importantes no Comando da Frota Estelar. O Almirante Chekov (interpretado por Walter Koenig), auxiliado pela Almirante Uhura (interpretada por Nichelle Nichols e só vista no segundo episódio) e pelo Comandante Tuvok (interpretado pelo produtor Tim Russ), estabelece uma aliança entre a Segurança da Frota Estelar e um grupo de renegados que tomaram posse de uma nave da Frota, a Icarus, com o propósito de combater a ameaça através de canais pouco ortodoxos. Entre os atores, Robert Picardo retoma seu papel de Lewis Zimmermann, Edward Furlong faz um personagem que nos traz uma surpreendente revelação nas últimas cenas do piloto, e a bela Sean Young é a ciberneticista da tripulação. Em razão das regras da CBS, recentemente Renegades abandonou o rótulo e o universo de Star Trek, e seu segundo episódio, “Requiem”, tomará lugar em um novo e autônomo ambiente.

Outra série que merece comentário é a abortada Star Trek: Axanar. A intenção de seus produtores era mostrar a Guerra dos Quatro Anos, que, de acordo com a literatura trekker, aconteceu entre a Federação e o Império Klingon pouco antes da série Clássica. O protagonista seria o Capitão Garth de Izar, célebre herói que tinha a admiração de James Kirk em razão de seu desempenho na Batalha de Axanar, interpretado pelo produtor Alec Peters. Após o episódio piloto Prelude to Axanar, o estúdio tornou-se réu em uma ação judicial promovida pela CBS/Paramount. Esta ação vem sendo acompanhada de perto e discutida por todos os websites com algum interesse nas produções amadoras de Jornada nas Estrelas. Na minha interpretação, ela é motivada pela percepção (errada) da CBS no sentido de que essas produções amadoras esvaziariam o mercado para a iminente série oficial Star Trek: Discovery. De fato, as séries amadoras que destaquei superam a qualidade das produções oficiais, e a CBS estaria, com a ação, inibindo aquilo que percebe (erradamente) como uma concorrência. Essencialmente, a CBS nivela por baixo. Por enquanto, Axanar está perdendo o processo.

(Interessante observar que Alec Peters chegou a aparecer como o Capitão Garth também em Star Trek: Phase II, na vinheta “Going Boldly”, que introduz a nave após sua reforma e temporàriamente muda o nome da série. É de se notar a frequente participação, em uma série amadora, de atores de outra série amadora, às vezes no mesmo papel, às vezes não. Phase II/New Voyages e Farragut compartilham estúdios e equipes, e um dos personagens de Farragut, o chefe de segurança Prescott, interpretado por Paul Sieber, aparece tanto em Farragut como em Phase II.)

Uma consequência particularmente desastrosa do processo de Axanar foi a emissão pela Paramount, no início de 2016, de suas draconianas regras para a criação de filmes amadores. Em síntese e em termos práticos, a CBS proibiu a criação de novos filmes de fãs. Por causa dessas regras, alguns estúdios escolheram suspender suas produções enquanto aguardam o resultado do processo (como é o caso de Star Trek: Phoenix, sobre a qual não escrevi), outros as cessaram, conforme comentei acima sobre New Voyages, e outros, ainda, decidiram por outros rumos, como Renegades.

Neste fim de 2016, tudo permanece em um estado incerto, contrastando com o clima animador de apenas um ano atrás. Todavia, as produções nunca tiveram tão boa qualidade como temos visto, mostrando que o espírito criativo dos trekkers permanece tão vivo quanto sempre foi nossa apaixonada tradição.

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Minha pseudorresenha de Man of Steel

Tal como no caso de Into Darkness (q.v. abaixo), não vou resenhar o filme do Homem Que Avoa (Agora Com a Cueca Para Dentro da Calça), porque muita gente já está fazendo isso e com mais habilidade do que eu. Vim apenas relatar alguns detalhes que me chamaram a atenção. Há spoilers, de modo que, novamente, a fonte do texto é branca. Você tem que selecionar para lê-lo.

Logo ao começo do filme, os kryptonianos golpistas são condenados à Zona Fantasma. Já tínhamos visto essa cena, embora de outro modo, em Superman II, de 1980. Naquela ocasião como nesta, a Zona Fantasma acaba servindo mais como salvação do que como punição. Pense bem: o planeta é destruído, todos os kryptonianos morrem — exceto Kal-El e os ocupantes da Zona Fantasma. Neste filme de 2013, o prêmio é ainda mais evidente, porque, assim que o planeta se acaba, cessa também o efeito da Zona Fantasma, e os criminosos estão livres! Você poderia argumentar que, com o fim de Krypton, vão-se também suas leis e toda a importância que poderia ter seu sistema penal. Seria como libertar todos os prisioneiros em um país que se revoluciona e arruína, já que não faria sentido continuar a punir alguém segundo regras que já não têm relevância ou vigência. Só que eu tenho certeza de que não foi essa a intenção dos roteiristas, assim como tenho certeza de que não faz o menor sentido privilegiar os criminosos e deixar que morra o restante da população.

Vários personagens do filme são velhos conhecidos de quem conhece os quadrinhos. Falar em Jor-El, Lara, Lois Lane e Perry White é um tanto óbvio, mas também estão presentes o robô flutuante Kelex — com bàsicamente a mesma aparência que lhe deu John Byrne –, Pete Ross, Lana Lang e até mesmo Ken Braverman, o valentão que descobriu a identidade secreta de Kal-El/Clark Kent na história A morte de Clark Kent, de 1995. Braverman é aquele moleque ruivo que desafia Clark, jogando-o ao chão em frente a uma oficina mecânica, e afinal se afasta quando vê que os adultos estão olhando.

Aliás, estudando os créditos do filme no IMDB, descubro que há alguns extras (nem sequer são personagens secundários) chamados Byrne e Sekowski. John Byrne foi o roteirista e desenhista do reboot do Super-Homem na minissérie The Man of Steel, de 1986, sucedida por um período em que foi ele o principal Autor por trás do personagem. Mike Sekowski foi o principal desenhista da Liga da Justiça nos anos 60.

No filme, o ruivo Pete Ross é um gordinho que começa provocando Clark Kent no ônibus escolar, é salvo de afogamento e, quando adulto, é gerente de uma IHOP. As IHOPs são lanchonetes sub-McDonald’s, bem fuleirinhas, onde só trabalham pessoas de pouca qualificação. Creio que a ideia fosse mostrar um emprego bem medíocre para o ex-colega de Clark. Em contraste, nos quadrinhos, Pete Ross é um bom e velho amigo de Clark Kent, não tem nada de gordinho, casa-se com Lana Lang e, bem mais tarde, chega a senador e vice-presidente dos Estados Unidos na década de 90, ao ponto de exercer a presidência.

Ainda em Smallville, Jonathan Kent foi um idiota de escolher a morte. Pense bem: independente de superpoderes, o que você tem na estrada é um jovem de dezessete anos, na flor da idade e no máximo de sua capacidade física, e um cansado agricultor que já está entrando na senectude. QUEM você envia para resgatar um cachorro preso na camioneta? QUEM teria mais possibilidades diante de um tornado? E quem teria que ficar abrigado embaixo do viaduto? Aliás, pensando bem, seria uma EXCELENTE oportunidade para se usarem os superpoderes, já que, no meio da ventania, não daria para ver que estivessem sendo usados. Mesmo que Clark não voasse nem usasse superforça, ele não seria ferido, nem ninguém perceberia que o normal seria não sobreviver. Portanto, Jonathan Kent foi um idiota que buscou a própria morte e por isso mereceu morrer.

Na minissérie Man of Steel, de Byrne, assim como na divertida série Lois & Clark, o uniforme de Super-Homem foi criado e costurado por Martha Kent, com acréscimo do S por Jonathan Kent. Neste filme, o uniforme tem origem kryptoniana, aproximando-se do retorno às origens proposto em The Adventures of Superman #455, de junho de 1989 (publicada em Super-Homem no. 85 em julho de 1991). Além disso, tal como no filme de 1978 e nos quadrinhos pós-Byrne, agora o símbolo de S já era usado pela Casa de El em Krypton. Absolutamente não há erro nem criatividade nisso; é uma questão de escolha do roteirista, que dará preferência à versão que mais combina com a história que quer contar. Pessoalmente, prefiro esta versão usada no filme, por mais que haja a incrível coincidência de que o símbolo de esperança em Krypton coincida com a letra S.

Aliás, você reparou como a insígnia de Zod lembra um pouco a foice-e-martelo usada por Kal-El na minissérie Superman: Red Son?

Neste filme de 2013, ficamos sabendo que Krypton explorou o espaço no passado, tomando conhecimento da Terra entre muitos outros planetas, e que depois optou pela reclusão. Fica evidente que os kryptonianos erraram ao abandonarem seu programa espacial e se concentrarem no próprio umbigo, já que, no fim, causaram a condenação de Krypton sem terem para onde fugir. A meu juízo, essa solução aproveita a parte dramática, melancólica e inteligente das histórias de John Byrne dos anos 80, sem seu lado ligeiramente estúpido. De acordo com Byrne na minissérie World of Krypton, de 1987-1988 (Super-Homem especial no. 1, de agosto de 1988), e com Jerry Ordway e George Pérez em Action Comics Annual #2, de 1989 (Super-Homem no. 84, de junho de 1991), foram os próprios kryptonianos quem usaram uma arma de guerra para iniciar uma reação em cadeia no núcleo de seu planeta, milênios antes do nascimento de Jor-El. A reação desenvolveu-se lenta mas contìnuamente, enquanto, na superfície, a sociedade evoluía para repudiar as guerras mas, ao mesmo tempo, hipervalorizar tradições, abrir mão de todo contato entre pessoas e estagnar, mais ou menos como a civilização de Solaria e Aurora nos livros The Naked Sun, The Robots of Dawn e Robots and Empire, de Isaac Asimov, e o planeta Vulcano, de nosso querido Sr. Spock. Com o tempo, o gradual envenenamento radioativo causou esterilidade não apenas das ideias mas também dos corpos dos kryptonianos, que já não se reproduziam quando o planeta finalmente explodiu, deixando uma amarga lição sobre o efeito de longo prazo das armas nucleares — muito pertinente naquele fim dos anos 80, quando a Guerra Fria, atingindo o clímax, entrava em sua corrida armamentista final antes de terminar para alívio de todos os terráqueos. A parte estúpida da História de Krypton veio em ACA #2, quando ficou revelado que os kryptonianos tinham um defeito genético que os impedia de deixar o planeta. Ora, em razão de tudo que já foi exposto, é muito mais coerente, trágico e didático supor que eles tenham optado por abandonar suas excursões espaciais, em lugar de dizer que haviam sido impedidos por alguma causa inerente a sua constituição. Além disso, novamente fica a mensagem do preço que se paga por se agredir irresponsàvelmente o planeta onde se vive: os kryptonianos deste filme de 2013 estão usando o núcleo de Krypton como fonte de energia e, com isso, causando a destruição de seu mundo, tal como os terráqueos humanos de 2013 fazem ao queimarem combustíveis fósseis como fonte de energia e, com isso, causarem o aquecimento global e o fim de várias espécies — inclusive sua própria. A solução correta, para eles como para nós, seria abandonar as práticas destrutivas; a paliativa, para eles como para nós, será procurar um novo e acolhedor planeta — exceto que nossa exploração espacial nem de longe está adiantada como a deles.

… Pelo menos a representação de Krypton está coerente com o cenário demonstrado nas histórias de Byrne: desolado, desértico e pontiagudo, contribuindo para isolar as pessoas umas das outras, mas sem aquele aspecto polar de espigões cristalinos contra um céu negro como se vê nos filmes de 1978 e 1980.

Um detalhe que faz TODA a diferença na mitologia do Homem de Aço: neste filme, Lois Lane descobre sòzinha que Clark Kent é o Super-Homem — e cedo! O fim do filme mostra que haverá uma convivência entre eles dali em diante, mas, diferentemente do que aconteceu nos quadrinhos durante décadas, Lois SABE o segredo de Clark, e nem foi ele quem contou.

Repare que, quando Zod discursa para o mundo exigindo a entrega de Kal-El, uma das versões do texto “you are not alone” está em português. Aqui houve um erro de tradução lá em Roliúdi: em português, no contexto em que a frase foi usada, o certo não seria “vocÊ não estÁ sòzinhO”, mas “vocÊS não estÃO sòzinhOS”. Em tempos de salas de projeção digitais, não sei se isso foi só no Brasil ou se também está assim nas exibições de Man of Steel pelo resto do mundo. Na segunda hipótese, suponho que o Brasil tenha passado a chamar a atenção do mundo com todo o petróleo, o ressurgimento da economia e os recentes e futuros eventos de esporte e visita do Papa.

Por falar em Papa, há diversas semelhanças entre Kal-El e Jesus Cristo, certamente intencionais. Este paralelo já foi enfatizado em múltiplos momentos ao longo da História da DC, com o maior e mais notável exemplo na minissérie Kingdom Come (O reino do amanhã na tradução). A noção geral é, naturalmente, a de um deus que caminha entre humanos com aparência de pessoa comum enquanto desempenha diversos milagres sem querer chamar atenção para si. No caso particular, o foco do filme e de Kingdom Come está no papel de Kal-El como salvador da humanidade. No caso do filme, Kal-El está disposto a se sacrificar para conseguir essa salvação, na mesma rendição que é o clímax do Evangelho. Para deixar isso ainda mais evidente, há uma cena onde Kal-El procura um padre numa igreja, aflito e em dúvida: se deve ou não deve assumir o sacrifício. Atrás dele, vê-se um vitral que representa Jesus Cristo no Getsêmane, na mesma passagem do Evangelho onde está em dúvida e pede para, se possível, ser dispensado da função de Cordeiro de Deus, logo antes de ser capturado pelos soldados romanos. O padre fala em esperança e, atrás dele, vê-se outro vitral, onde Jesus Cristo ressuscita. Aliás essa é a mesma justaposição que foi praticada por Kingdom Come perto do fim do capítulo 4, quando o Padre McCay prega em sua igreja com os mesmos vitrais ao fundo.

Outra semelhança entre Kal-El e Jesus Cristo é que, no filme, no momento em que é chamado a salvar a humanidade, Kal-El tem 33 anos de idade. Nos quadrinhos, o Azulão apresenta-se ao mundo antes dos trinta.

Uma terceira semelhança entre Kal-El e Jesus Cristo é o momento em que os militares estão reunidos no deserto e Kal-El desce em pé, braços abertos na posição de crucifixão, a capa esvoaçando e o Sol por trás. É uma visão bem religiosa e dramática de um ser òbviamente superior. Por sinal, Kingdom Come tem essa mesma cena, apenas um pouco diferente.

Durante a luta em Metrópolis, tenho certeza de que todos viram, enormes, as letras “LEX CORP” no caminhão trailer de combustível que é jogado em cima de Kal-El. Ele passa por cima do engate e o caminhão explode no térreo de um prédio, atrás dele. Só que, além disso, há um determinado momento anterior no filme em que Clark chega para visitar a mãe. Fica claro que ele pegou carona em um veículo que vemos acelerar ao fundo. O que algumas pessoas podem não ter visto é que esse veículo não é um ônibus, mas outro caminhão da Lexcorp. Esses dois detalhes minúsculos evidenciam que, embora Lex Luthor não esteja em pessoa neste filme, a Lexcorp é uma entidade onipresente.

A respeito do Coronel Hardy (Christopher Meloni, de Law and Order: Special Victims Unit), o filme cometeu o mesmo erro da série Space: Above and Beyond. Na série (que de outro modo é excelente e recomendo), jovens pilotos de caças espaciais têm a dupla função de atuar como infantaria móvel ao estilo de Starship Troopers. Minha maior crítica a S:AAB é justamente essa impossível dupla especialização. Ou bem se é um piloto (uma profissão que exige dedicação 24/7, inclusive quando se está em terra), ou bem se é um socador de barro (como os chamou Garibaldi em Babylon 5). As duas coisas não dá! Em Man of Steel, Hardy é responsável pelas escavações no Ártico, mas também é o encarregado da infantaria que vai receber Faora-Ul no deserto e, finalmente, é visto aos controles de um C-17… Não dá pra fazer tudo!

Na estação de trem, vemos Zod tentando matar um grupo de terráqueos assustados, que se encolhiam a um canto, enquanto Kal-El tenta impedi-lo. Ao fim, Kal-El mata Zod, para seu grande lamento. O filme não foi específico em expressar o principal valor moral de Clark Kent, que é a preservação da vida — toda e qualquer vida, inclusive a de um criminoso kryptoniano. Mesmo assim, chegou a mostrar (sem explicar) que Kal-El só matou Zod por uma razão, que era a total impossibilidade de detê-lo de outro modo. Ficou muito claro que, enquanto Kal não o matasse, Zod estaria o tempo inteiro tentando acabar com os humanos; a única forma de interromper a matança seria pôr fim ao próprio Zod: uma vida sendo interrompida para salvar bilhões. Essa é a mesma escolha difícil com que Clark se depara, e que Kal-El pratica, em Superman #22, de outubro de 1988 (Super Powers no. 17, de maio de 1990). Nos quadrinhos, foi uma experiência traumática cujos efeitos se estenderam e ramificaram por todo o universo DC por um longo tempo. No filme — veremos. Mas ele me pareceu curado depois de um mero grito de desespero e lamúria.

É claro que, morto Zod, você não ouviu vozes, suspiros aliviados nem agradecimentos dos terráqueos que estavam acuados no canto, nem os viu rodeando o Homem de Aço diante do general inerte. Ao contrário: só o que se vê é uma pequena e densa nuvem de fumaça preta, vindo justamente de onde Zod os encurralara. Alguma dúvida de que foram efetivamente torrados a despeito dos esforços do Azulão? Imagino que uma das intenções dos roteiristas, ostensiva ou mesmo subconsciente, fosse ter Kal-El punindo Zod com a pena capital em razão desse específico homicídio.

E isso era o que eu tinha para comentar. Sua vez.

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Falsa resenha de Star Trek: Into Darkness (Jornada nas Estrelas: Além da Escuridão)

Não vou resenhar o filme. Já tem gente demais fazendo isso pela Internet e, a bem da verdade, nunca dei muita relevância às resenhas dos outros: são impressões subjetivas de quem gostou ou não gostou, e terei minhas próprias impressões, gostando ou não gostando eu mesmo. Se tenho essa atitude em relação às resenhas dos outros, com mais razão hei de considerar justo quem a tenha em relação às minhas.

O que vou fazer, isto sim, é relatar detalhes que chamaram minha atenção e que podem passar despercebidos para parte da audiência. Tal como fiz com outros filmes, minha esperança é ajudar a digestão dos trekkers que já foram ver, ou, nos casos de quem não se importa com spoilers, preparar para a curtição que poderia não acontecer.

Aliás não sei se esta exposição será útil. A esta altura, os dois meses de pré-estreia já foram suficientes para todos os trekkers que estavam ansiosos, e já se passaram duas semanas e dois dias desde a estreia. Todomundo a quem aproveitaria meu texto já teve sua oportunidade de gastar R$ 37 no ingresso e duvido que vá ver de novo. Mesmo assim, fica este registro para escarmento do futuro e, quiçá, aproveitamento no Blu-ray.

Portanto, prepare-se: mega spoilers abaixo! Para não causar dano inadvertidamente, estou mudando a cor da fonte para branco e pedindo a você que, se realmente quiser ler, dê um copia-cola e leve o texto para o Word, o bloco de notas, sei lá.

Segue o relato.

O filme começa no planeta Nibiru. Esse é o nome que os babilônios davam a Júpiter, e os lunáticos de hoje dizem que é o nome do (inexistente) planeta que extinguirá a raça humana por meio de distúrbios gravitacionais quando entrar sùbitamente no Sistema Solar.

Na cena de abertura, a correria de Kirk e McCoy é totalmente reminiscente das cenas de abertura nos filmes de James Bond. Supostamente somos apresentados a mais um dia rotineiro na vida do herói aventureiro, sem nenhuma ligação com a história principal porém suficiente para sermos apresentados aos personagens.

Enterprise debaixo d’água?!?! Deixando de lado as queixas do Sr. Scott sobre os efeitos da água salgada (em princípio desprezíveis, já que o casco é feito de durânio), essa nave foi projetada para aguentar pressão de dentro para fora — não o contrário! Se não deveria sequer voar dentro de uma atmosfera (o que fez duas vezes neste filme), menos ainda dentro do oceano!

Se eu visse a Enterprise saindo da água na minha frente, eu também ia cair de joelhos no chão feito os nativos de Nibiru, mas por diferentes razões. #coraçãodetrekker

Não tenho a menor dúvida de que o uniforme de almirante de Pike (cinza e branco) é uma referência ao uniforme que Kirk usava em ST:TMP. Eu só gostaria de que o filme não fosse um desfile de moda dos uniformes. No caso de Kirk, por exemplo, tem a camisa amarela, a túnica cinza e o macacão azul escuro. Convinha usarem UNIformes. Da mesma forma, Chekov não mudaria de especialidade só porque foi para a Engenharia. Na verdade, talvez até estivesse errado em usar amarelo em primeiro lugar, já que era o pequeno gênio do teletransporte no filme anterior.

Então Kirk violou a Diretriz Primeira. Grandesm*rda. Pela “evolução natural” daquela sociedade de pigmeus espaciais, o vulcão ia explodir e MATAR TODOMUNDO. Se quer falar em Diretriz Primeira de não interferir, o “natural” era não haver mais sociedade nenhuma. No momento em que salvou os nativos, a Enterprise já interferiu demais e, desse ponto em diante, já que não tinham morrido, a meu juízo eles até poderiam idolatrar nossos bravos tripulantes. É melhor isso do que estarem mortos.

Quando Pike diz a Kirk que ele despreza regras, está descrevendo nosso bom e velho Capetão e, ao mesmo tempo, abordando um ponto que ficou pendente ao fim do filme anterior. Como se aceitaria que, desde o fim do filme anterior, a Frota Estelar mantivesse um moleque impulsivo e imaturo como capitão de uma nave estelar? Resposta: não aceitaria. Foi bom encarar isso neste filme aqui, de modo absolutamente explícito. Embora, a meu juízo, tenham cometido um erro no roteiro: Kirk não cometeu nenhum crime, de modo que não se justificaria que fosse rebaixado a comandante. Observe que isso não acontece nas forças armadas do mundo e certamente não acontece em Star Trek. Mesmo em ST IV, foi necessário que ele cometesse crimes militares e fosse julgado pelo próprio Conselho da Federação para ser rebaixado de almirante. Aqui não poderia ser diferente. Não é por conveniência do serviço ou por prerrogativa disciplinar que se rebaixam oficiais. Nomeou mal? Agora conviva.

Ao mesmo tempo, a preocupação de Pike com regras tem relação com o homem que vimos em “The Cage”.

É interessante que o Kirk da série não seja impulsivo como este moleque interpretado por Chris Pine. Mas também é interessante que, no piloto “Where No Man Has Gone Before”, Kirk não é sequer o aventureiro descumpridor de regras, espada em punho na proa do navio, que viríamos a conhecer. Ele era muito mais cerebral, filosófico, “enciclopédia ambulante” (ou algo assim) como o descreveu Gary Mitchell. Foi só a partir do episódio seguinte que pudemos vê-lo como o popular jogador de pôquer e enganador da morte, fruto, sem dúvida, de uma deliberada mudança no modo de se escrever e interpretar o personagem.

“John Harrison?” você pensa. Já viu alguém com esse nome em todos os 46 anos da franquia? Claramente era pseudônimo.

Na sala onde Kirk vai pedir a Marcus que lhe restitua o comando, consegui identificar alguns modelos de naves sobre a mesa. O primeiro é o Wright Flyer; depois vêm o Spirit of St. Louis, o X-15 (até hoje recordista de velocidade para aviões, pilotado por alguns candidatos a astronautas, como Scott Crossfield e Neil Armstrong, e um dos integrantes da abertura da malfadada série Enterprise), uma cápsula Mercury, uma Vostok, a space shuttle Enterprise, a XCV-330 Enterprise (a nave civil em forma de anel que aparece em Star Trek: the Motion Picture e que foi vezes demais ignorada pela cronologia), a Phoenix, de Cochrane, o protótipo de “First Flight” e a NX-01. Veja detalhes dos modelos aqui.

Perdi a fala do Almirante Marcus onde ele defere o pedido de Kirk para reassunção da Enterprise. A cabeça dele deu um pulo e uma frase não era continuação da outra. É que o Cinemark fez a gentileza de trocar os rolos de fita (ainda existe isso?) e cortar o discurso do ator. Acho que, agora, só no Blu-ray.

Como assim o Alte. Marcus revela a existência da Seção 31? Certamente os caras têm backups em algum lugar, certamente os agentes deles estão por aí. Não era para revelar nada! Referência gratuita para quem já conhece e inútil para quem não conhece. E agora Kirk e Spock estão a par da pouco querida Seção.

Quando a Tenente Wallace se apresentou, logo pensei, “Janet Wallace” (“The Deadly Years”)? Mas era Carol. Aí, claro, descobrimos que era a jovem que, mais tarde, criaria o Dispositivo Gênesis. De certo modo, a fala de Spock dentro do vulcão (“as necessidades da maioria se impõem às necessidades da minoria”) e a presença de Carol no filme foram duas introduções que nos disseram quem realmente seria o vilão, embora só depois de uma cola da Mãe do Movimento Trekker Brasileiro (descubra você quem é) eu tenha reconhecido a primeira como uma dica.

A cena da lingerie da Ten. Marcus foi injustificada, gratuita. Para as mulheres, ofensiva; para os homens, mostrou muito pouco. Se era para fazer só isso, melhor seria não ter feito nada. Parece até que era para cumprir alguma cota (como foi o caso no filme anterior).

Quando a Enterprise chegou a Qo’noS, você viu Praxis explodida? Eu vi. É uma semi-esfera no céu, com uma nuvem de detritos espalhando-se para a direita. A paisagem está lá para quem quer vê-la.

Vá lá que os diálogos abordam a preocupação com a Enterprise ser detectada pelos klingons enquanto está no espaço deles. Mas fico espantado em ver que longo tempo se passa sem que eles a detectem.

Quando Kirk retoma o comando do Ten. Sulu, o jovem oriental observa que é difícil largar a cadeira. A uma, creio que uma frase muito parecida já tenha sido usada em ST V; a duas, parece-me uma premonição em referência ao estimado Capitão Sulu, um dos favoritos dos fãs.

Questões tecnológicas. A nave do Alte. Marcus não deveria ser capaz de disparar os phasers enquanto estava em velocidade de dobra. Vários episódios da TNG (que acontece em uma era de tecnologia mais avançada) deixam claro que isso não é possível. Por outro lado, a tecnologia desta versão de Jornada avançou mais rápido do que a do universo Prime, ainda mais com ajuda de Khan, de modo que tudo é possível.

Quando a nave do Alte. Marcus — maior, mais poderosa, mais veloz do que a Enterprise — vai disparar o tiro de misericórdia, descobre-se que o Sr. Scott a sabotou. Ao apertar do botão, os sistemas caem e o Sr. Scott revela sua pequena intervenção. Ecos da Excelsior em ST III.

Khan menciona que o sistema de suporte de vida fica na parte de trás de uma das naceles. Isso não faz o MENOR sentido. Tem toda a cara de que foi enchimento de diálogo feito com o propósito de ser substituído na revisão técnica, mas que passou.

Nimoy-Spock volta a aparecer. Mas J.J. Abrams não disse que não ia mais fazer isso? Veja bem: é sempre agradável rever o Marmitão da Galáxia, mas há uma hora em que se deve largar as muletas. A passagem da tocha foi feita no filme anterior e com muita legitimidade por sinal, mas não se pode depender dessa conexão para sempre. Se era para ser reboot, era para ser reboot.

“Conseguiram derrotar Khan?” “Yes — at great cost.” Tell me about it. Se tem alguém que sabe do custo, é ele, não é mesmo?

Quando Kirk dialoga com Scott pouco antes de entrar no reator, os trekkers atentos à tradição podem contar com o iminente ato heróico. Quando pôs Scott para dormir, podia-se ter plena certeza. Nesse instante, meu pensamento foi, “mas sem mind meld, como que ele vai sobreviver?!”

Então Kirk entra no reator. Não sei nem por onde começar a criticar isso. Dentro do reator, matéria e antimatéria encontram-se no vácuo; nosso bravo Capetão não deveria ser capaz de respirar ali dentro. Além disso, não é que a radiação fosse envenená-lo: a intensa produção de energia deveria transformá-lo em átomos saltitantes imediatamente. Também muito me admira que um componente feito para lidar com potências da ordem das usadas pela Enterprise, uma vez desalinhado, vá voltar para o lugar com alguns chutes. Ainda que volte: todo o aspecto das peças mostra que são componentes de alta precisão. O tratamento ministrado por nosso nobre desbravador do espaço não deveria ser exatamente um exemplo de eficácia.

Outra questão tecnológica. Quando Kirk põe o reator para funcionar, a energia retorna e Spock ordena o acionamento dos manobradores (thrusters). Do modo como se conduziu o diálogo, fica evidente que o reator era necessário para que os manobradores funcionassem; do contrário, Sulu já os teria operado bem antes. Pois bem. Inúmeros episódios (TNG “Booby Trap”, Voyager “The Cloud”) já deixaram muito clara a noção de que os dois sistemas são completamente independentes. Os manobradores funcionam com seus próprios reatores de fusão, que não são afetados pelo que ocorre ao reator de dobra. Então, com todo o efeito dramático, a cena contrariou uma consistência já estabelecida.

Quando a nave estava novamente funcionando e a voz de Scott veio da Engenharia à ponte chamando Spock com urgência, posso afiançar a vocês que as falas de Scott foram as mesmas, e todas as falas de Scott (“You will flood the whole comparment!”), Spock e Kirk, até certo ponto, também foram as mesmas da morte original de Spock, lá em 1982. O vidro separando os dois e a saudação vulcana final foram os detalhes mais marcantes. Mas isso você também já sabia. De meu lado, se o diálogo teve a intenção de ser o mesmo, penso que deveria ter sido o mesmo até o fim, com exatamente as mesmas falas.

Bem perto do fim do filme, Spock comenta que nunca houve uma missão de cinco anos. Não??! De acordo com a literatura, “The Cage” aconteceu justamente durante a missão de cinco anos de Pike. Até o equívoco chamado Enterprise lançou a nave em uma prolongada missão de exploração do espaço. Não dá pra acreditar que, em quase cem anos de existência da Frota Estelar (mais, se contarmos o tempo antes da fundação da Federação), ninguém tenha tentado uma missão desse tipo.

Ao fim de tudo, reparo que os personagens estão mais entrosados e que os atores estão mais próximos desses personagens do que no filme anterior, em particular McCoy (Karl Urban perfeito nos resmungos e perdas de paciência) e Scott, que é mais do que um sotaque de Aberdeen.

Há um detalhe que me chamou atenção no filme anterior e que continua presente neste, que é o nível de detalhe com que Zachary Quinto conseguiu reconstruir o desempenho de Leonard Nimoy. Na série original e em seus filmes, Nimoy sempre apareceu caminhando de um modo peculiar, deliberado, típico de um idoso. Pode-se ver que levanta bem os pés, realçando sua magreza. Provàvelmente de modo intencional, Quinto emula o caminhar de Nimoy e, com isso, traz Spock de volta sem que a audiência média consiga apontar o dedo para onde, exatamente, está a semelhança.

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