Este artigo foi publicado originalmente na encarnação anterior da Caixa de sabão, lá no finado Geocities, em 08/06/2004. Estimulado por meu irmão Leandro M. Pinto, republico-o com mínimas alterações. É um prosseguimento da série que, através de exemplos, procurava mostrar a dinâmica do processo de tradução para dublagem de Jornada nas Estrelas. Desta vez, trataremos de um tema que, há tempos, traz dúvidas a muitos trekkers: o grau hierárquico do Chefe O’Brien.

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Oficiais e praças

Em todo o mundo, a hierarquia militar é dividida em dois grandes estratos: os oficiais e as praças (assim mesmo, no feminino). Existem várias diferenças entre os dois grupos, mas a principal é que somente os oficiais podem assumir funções permanentes de comando, seja de um pequeno pelotão (no caso de um Segundo-Tenente) ou de um exército inteiro (caso de um General-de-Exército). Existem exceções a essa regra, chamadas praças especiais, aí compreendidos os cadetes e aspirantes, mas delas não trataremos aqui.

Outra diferença é que somente os oficiais possuem uma patente. Segundo o Aurélio, patente significa claro, visível. Assim, uma patente industrial é o título que exibe uma invenção, para que todos saibam que seus privilégios são exclusivos do inventor. Da mesma forma, uma carta patente é o documento que comprova o grau hierárquico do oficial.

Em inglês, os oficiais são ditos officers, palavra que tem um sentido mais abrangente do que o português oficial e não necessariamente se refere a militares. Assim, o policial civil também é dito police officer, assim como uma empresa tem seu Chief Executive Officer (CEO). Para especificar os oficiais militares, o inglês chama-os de commissioned officers (“oficiais comissionados”), porque, em séculos passados, suas prerrogativas eram estabelecidas por uma carta de comissão emitida pelo Rei — à semelhança de nossa carta patente. Portanto, quando um oficial inglês é punido e loses his commission, diz-se, em português, que ele perde sua patente.

Em contraste, as praças, em sua maioria, são ditas petty officers ou non-commissioned officers (“oficiais não comissionados”), o que, frequentemente, abrevia-se para non-com ou NCO. Todas as praças também são chamadas de enlisted, mas essa palavra costuma ser mais usada especificamente para as praças dos níveis hierárquicos mais baixos.

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Petty officers

Segundo se vê na literatura, Gene Roddenberry determinou que

A categoria de “praças” [“enlisted men“] não existe. Jornada nas Estrelas funciona com a premissa de que todo homem e mulher a bordo da U.S.S. Enterprise seja equivalente a um astronauta qualificado, portanto um oficial [officer].

(WHITFIELD, Stephen E.; RODDENBERRY, Gene. The Making of Star Trek. New York: Ballantine, 1991. p. 209.)

Confirmando meu artigo sobre a natureza militar da Frota (atualmente fora do ar), esse texto é ambíguo. Para “oficial”, o original diz apenas “officer”, não necessariamente excluindo os non-commissioned officers. Isso permite o entendimento de que haja praças, contanto que sejam NCO, que têm maior qualificação. Mesmo assim, a interpretação mais popular atribui ao Grande Pássaro da Galáxia a declaração de que sua Frota Estelar realmente não teria praças. Isso encaixa-se na analogia aos astronautas, que, no tempo da primeira edição do livro (1968), eram sempre oficiais.

Entretanto, Jornada nas Estrelas é uma obra compartilhada, tendo ganhado vida própria e fugido ao controle de seu criador. Das diversas evidências contra aquela posição original, destacam-se duas: o tripulante Simon Tarses, que “The Drumhead” enfatizou não ser um oficial; e o Chefe O’Brien, com sua célebre “insígnia mutante”. Ao longo das séries, O’Brien já foi visto com insígnias idênticas às de Tenente e de Alferes, além de outras duas que não apareceram em nenhum oficial, apesar de, aparentemente, ter sido promovido apenas uma vez.

Independentemente das insígnias, o que importa é que O’Brien já disse e repetiu que não é um oficial:

“That’s why I stayed an enlisted man.” (“É por isso que eu não virei oficial.”) — “Past Tense, Part I”.

Mais ainda: em “Family”, Sergey Rojenko fica feliz em cumprimentar o irlandês, “um Chief Petty Officer” como ele. Nos dias de hoje, petty officer é um nome comum a vários graus hierárquicos de praças da Marinha dos Estados Unidos, equivalentes a nossos sargentos. Isso sugere traduzir petty officer como sargento; mas, para tanto, seria preciso que o termo original fosse sergeant (conforme usado pelas outras forças de lá), o que não é. Petty vem do francês petit (pequeno) e, efetivamente, aquela Marinha chama suas praças de “oficiais pequenos”. Idealmente, a tradução de Chief Petty Officer deve, de algum modo, repetir o étimo da palavra oficial.

No caso de “Family”, também era preciso encontrar uma locução que se encaixasse na bocada do ator. Apesar de o CPO ser uma praça, isso conseguia-se pelo uso da palavra oficial mais outra que a completasse, de modo que este consultor escolheu oficial ajudante. Contudo, tal escolha passava a impressão errada, e o raciocínio seguido permitia conflitos no futuro. Era preciso encontrar uma tradução substituta e, nos anos seguintes, tracei o que se segue.

Em primeiro lugar, é preciso que a tradução para petty officer denote estar “abaixo” dos oficiais, ao mesmo tempo em que apareça a palavra oficial. Portanto, propõe-se suboficial. Surge, aí, um problema: a expressão petty officer não se aplica a um, mas a sete graus hierárquicos navais (Petty Officer First Class, Chief Petty Officer, etc.), enquanto, no Brasil, Suboficial é o nome dado a apenas *um* grau hierárquico da Marinha.

Por outro lado, não existe nenhuma outra expressão da Marinha americana que se deva traduzir como suboficial. Então, não há incompatibilidade; poderemos traduzir como Suboficial de Primeira Classe, Suboficial-Chefe etc. Portanto, fica a ressalva de que o nome Suboficial na Marinha americana não é como o Suboficial na Marinha do Brasil. Este é um caso de tradução com significado diferente do que a palavra tem no Brasil, mas não seria o único: por exemplo, o Sub-Lieutenant (oficial) da Real Marinha (Reino Unido) está no mesmo nível de nosso Segundo-Tenente e acima de nosso Subtenente (praça); o Sergeant Major é um sargento (praça), mas o Sargento-Mor do Brasil Colônia tornou-se o atual Major (oficial).

Assim, ficou escolhido que Chief Petty Officer poderia traduzir-se como Suboficial-Chefe.

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Confirmação

Em Guaratinguetá, SP, a Força Aérea Brasileira mantém sua Escola de Especialistas da Aeronáutica. Ali são formados mecânicos de aeronaves, técnicos em eletrônica avançada e controladores de vôo, que, após concluir o curso, são as praças mais qualificadas daquela Força. Quando eu acreditava que esta matéria já estivesse pronta, descobri que a Força Aérea Argentina possuía uma escola semelhante, que, na bibliografia, foi objeto do seguinte comentário:

“The Escuela de Suboficiales (NCO School), (…)”

(MOSQUERA, Javier; CETTOLO, Vladimiro; MARINO, Atilio. Argentine Air Force. Air International, Stamford, Lincs, UK, v. 64, n. 4, p. 45, Apr. 2003.)

Podemos tomar essa como uma confirmação da possibilidade de se traduzir non-commissioned officer como suboficial. Considerada a analogia entre NCO e petty officer, esse é um argumento favorável. Naturalmente, isso dependerá do contexto, pois “praça” também pode aplicar-se.

Consulte-se, ainda, o Dicionário inglês-português editado por Antônio Houaiss (Rio de Janeiro: Record, 2002). Ali, a tradução dada a petty officer é suboficial, sem dúvida pela carência de um termo sem outro significado. (Por outro lado, discordo de muitas traduções que o mesmo dicionário dá para postos militares.)

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“Hippocratic Oath”

Para este episódio da quarta temporada de Deep Space Nine, surgiu a missão de traduzir a passagem abaixo, referente a O’Brien.

Rank: Chief Petty Officer. You are what Starfleet refers to as a “noncom”.

A grafia sem hífen veio da versão em DVD.

Para designar o grau hierárquico de qualquer militar, a única palavra inglesa é rank. No Brasil, a palavra correta varia. Nos termos do Estatuto dos Militares (Lei no. 6.880, de 9 de dezembro de 1980), artigo 16 (com grifos deste autor),

§ 1o. Posto é o grau hierárquico do oficial, (…) confirmado em Carta Patente. (…)

§ 3o. Graduação é o grau hierárquico da praça, (…).

Ora, se O’Brien é uma praça, a frase “Rank: Chief Petty Officer” é fácil de se traduzir como “Graduação: Suboficial-Chefe”. O problema é que, logo em seguida, o trecho abaixo é dito a respeito de Bashir.

Rank of Lieutenant… with a specialty in the sciences.

E agora? Bashir é um oficial; logo, o correto seria dizer “Posto de Tenente”. Mas o objetivo do original em usar a mesma palavra rank foi enfatizar a diferença hierárquica entre os dois personagens. As distintas traduções posto e graduação impedem o uso de uma mesma palavra em português e, com ela, a comparação.

Impedem? O Estatuto deixou uma brecha: ambos os parágrafos mencionam grau hierárquico, tornando a expressão comum aos dois casos. Infelizmente, não há espaço na bocada para rank se tornar grau hierárquico: conte as sílabas! Portanto, o Leitor poderá ouvir, na versão dublada do episódio, as falas que se seguem.

Grau: Suboficial-Chefe. É o que a Frota chama de “praça”.

Grau de Tenente… É um especialista em Ciências.

Por curtas que sejam, essas falas sintetizam toda a dedicação desta equipe à tradução de Jornada nas Estrelas para a audiência brasileira. De fato, cada pequena frase que se ouve pode congregar horas de pesquisa e reflexão. Nesta peça, o autor espera ter contribuído para formar uma percepção do trabalho que se derrama sobre cada detalhe, cujo resultado verificamos quando assistimos às séries dubladas.

João Paulo Cursino foi oficial do Exército até 2003 e é o consultor para termos militares e técnicos nas traduções das séries Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager para a televisão brasileira.
Este artigo foi registrado no Escritório de Direitos Autorais da Fundação Biblioteca Nacional sob o número 320.480, livro 586, folha 140, e está protegido pela lei 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. A reprodução só é franqueada a quem obtiver minha permissão expressa, específica e nas condições ditadas por mim. Eu costumava autorizar a reprodução, até que encontrei meu artigo Uma cronologia de Jornada nas Estrelas na página de uma organização com a qual nunca havia tido contato. O texto havia sido adulterado, com omissão da autoria e meu nome apenas na “bibliografia”. Sob minha insistência, concordaram em tirar a obra do ar, mas insinuaram que eu não podia provar ser o autor. Por isso, agora, tudo é registrado.