Minha contribuição à paranoia global

A partir do final do século XIX, a pólvora negra foi deixando de ser usada nas armas de fogo. Em seu lugar, passou-se a usar nitrocelulose, que é mais energética e menos sensível a atrito e pressão, causa menos corrosão nas armas, tem um processo de fabricação mais seguro e faz muito menos fumaça. Por todas essas razões é que, nos últimos cem anos, a munição de todas as armas de fogo não usa pólvora como propelente, mas nitrocelulose, apesar de o público leigo continuar chamando de pólvora.

Ora, esmalte de unha é, basicamente, nitrocelulose dissolvida em acetato. Quando se diz que esmalte é inflamável, talvez seja tècnicamente mais apropriado dizer que seja explosivo, porque é isso que ele é.

Agora, falemos na segurança dos aeroportos do mundo. Nas salas de embarque espalhadas por todo este lindo planeta azul, cartazes advertem da proibição de determinados itens na sua bagagem: armas brancas e de fogo, substâncias inflamáveis, corrosivas ou tóxicas, animais, explosivos…

Peraí. “Explosivos”?

Isso vale para esmalte de unha?

Sssshhhh!!!!… Vale, sim. Por enquanto, os agentes de segurança ainda não se deram conta disso, nem proibiram as madames de embarcarem com suas últimas tonalidades da moda. Quero ver o rebu que vai ser quando perceberem que qualquer perua inconsequente pode iniciar um incêndio a 20 mil pés…

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Intreináveis insidiosos

Minha irmã voltou de Curitiba anteontem. Conta-me dos percalços da volta.

Primeiro, chegou cedo ao aeroporto para fazer um voo direto ao Santos-Dumont, partindo às 11:05 h. A moça-do-checkin disse-lhe que seu voo sairia 10 e pouco, teria escala em Campinas e chegaria ao Galeão. Apesar da insistência de minha irmã, a moça-do-checkin teimou que o voo dela tinha sido cancelado e que minha irmã teria que vir no voo das 10 e pouco. Já dentro da área de embarque, minha irmã procurou um moço-do-balcão da companhia aérea, esclareceu o mal-entendido e ouviu dele que seu voo original, direto, partindo às 11:05 h e chegando ao Galeão, estava confirmado.

Que houvera no balcão de checkin?

Bem, não sei. O que importa é que se consertou o voo. O moço-do-balcão perguntou se ela tinha bagagem despachada. Tinha. Então, ele foi pro rádio e mandou retificar.

Chegando ao Rio, minha irmã não encontrou sua bagagem. Procurou o moço-das-reclamações. O moço-das-reclamações perguntou como era a mala e, diante da resposta, também foi para o rádio: “Fulano! Eu já falei mil vezes, vou falar pela última vez: é pra descarregar a bagagem não identificada! Põe na esteira um!” A esteira 1 começou a andar e a mala de minha irmã apareceu.

Você reparou? “Bagagem não identificada.” Sabe o que isso significa? Que, lá no aeroporto internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, alguém teve o trabalho de tirar a etiqueta errada, mas não o de apor alguma correta. Entendo a dificuldade logística de se trazer a mala de volta para dentro do prédio e de se reemitir uma etiqueta que batesse com o cartão de embarque, mas, pombas, etiqueta NENHUMA???

Apideite: tem mais uma, que só lembrei depois. Todos já a bordo, o piloto anuncia que o destino é Santos-Dumont e uma passageira se assusta: peraí, Santos-Dumont? Eu estou indo para Congonhas! Este avião não vai para Congonhas? Diante da negativa, saiu apressada.

Aí você vê: òbviamente, a criatura se enfiou em qualquer portão de embarque sem conferir o que dizia a tela; e ninguém deu a mínima para o cartão dela. Bem sei disso, porque já reparei que difìcilmente as moças que recolhem cartão de embarque chegam a ler o que está escrito. Ou seja, ninguém está nem aí. Ah, quer saber? A primeira pessoa a prestar atenção tinha que ser a passageira. Merecia ir para o Santos-Dumont! [/apideite]

Já demonstrei aqui que o Brasil está caindo vítima dos Intreináveis. A empresa em questão é mais uma refém da falta de qualificação de pessoal da Grande Nação Brasileira. Se, antes, só os encontrávamos atrás do balcão do KFC e do Bob’s, agora eles parecem penetrar alguns domínios mais arriscados da economia brasileira, como são as atividades de terra dos aeroportos. Em breve, a segurança dos voos estará nas mãos deles (ou talvez já esteja). Não é animador? Fico pensando naqueles filmes de invasão alienígena, onde o herói descobre que está cercado, que todo o mundo em volta é inimigo e que não há a quem pedir socorro. São aqueles conquistadores silenciosos, que, quando você percebe, já tomaram tudo. Mais ou menos como os chineses na SAARA.

O que me deixa mais admirado não é a bagagem chegar sem etiqueta. É terem deixado ENTRAR NO AVIÃO sem etiqueta. Se isso acontecesse em Heathrow, ou em algum lugar igualmente pouco civilizado, fico pensando se não mandariam todo o mundo descer do avião, esquadrão antibombas e o escambau, e se não iria lá aquele robozinho sobre esteiras, levantando a mala de minha irmã até um canto remoto da pista, para explodi-la em segurança.

Intreináveis.