O triunfo de David Brin

Várias postagens deste belogue dão conta de minha progressiva leitura dos livros onde Isaac Asimov construiu sua magistral História do futuro. Embora desordenadamente, o Bom Doutor escreveu contos de robôs, romances de robôs, romances do Império e sete livros da Fundação. Esse material está detalhado na Web inteira, inclusive (bastante) na Wikipedia e aqui. Até eu fiz meu próprio resumo.

Agora, após onze anos, sete dias e 31 livros, acabei. Anteontem terminei a leitura de Foundation’s Triumph, último livro da Segunda Trilogia da Fundação. Ainda existem algumas minisséries escritas por outros autores e ambientadas neste universo, parte delas iniciada enquanto Asimov ainda estava vivo, até agora totalizando 29 livros. Nessas não vou entrar por ora, e considero que a aventura esteja concluída. Mais abaixo explico por quê. Hoje quero tratar justamente de Foundation’s Triumph.

Foundation's Triumph

Foundation’s Triumph

Antes, uma recapitulação. Nos livros de robôs — sejam os contos, ambientados no século 21, sejam os romances, no século 35 –, o principal tema são as Três Leis da Robótica.

Primeira Lei: um robô não pode causar dano a um humano, nem, por omissão, permitir que seja causado dano a um humano. Com esta Lei, os robôs são seguros.

Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens de um humano, exceto se conflitarem com a Primeira Lei. Com esta Lei, os robôs são úteis.

Terceira Lei: um robô deve preservar sua existência, exceto se conflitar com a Primeira ou a Segunda Lei. Com esta Lei, os robôs são econômicos.

Os contos e romances de robôs desenvolvem consequências lógicas e não necessàriamente previsíveis dessas Leis em diversos cenários, quase sempre em alguma busca detetivesca pela explicação de comportamentos aparentemente ilógicos dos robôs. Em todas essas histórias, as Três Leis aparecem como características inalienáveis dos robôs, sem as quais não seria sequer possível construí-los no universo de Asimov.

Se dispusermos os livros dos robôs, do Império e da Fundação na ordem cronológica em que as histórias acontecem (e não na ordem de publicação), o resultado é a sequência abaixo, onde estou pulando as poucas histórias que não têm relevância para a Segunda Trilogia.

*** CUIDADO: DAQUI PARA BAIXO, SPOILERS EM MASSA. ***

1. Contos de robôs — no século 21, a robopsicóloga Susan Calvin decifra a mente dos robôs aplicando as Três Leis da Robótica com uma racionalidade fria e radical. Em um dos contos, é inventada a propulsão hiperespacial, que permite vencer distâncias interestelares instantaneamente.

2. The Caves of Steel e The Naked Sun — no século 35, os habitantes da Terra vivem em metrópoles subterrâneas e têm fobia e ódio dos robôs. Em cinquenta outros planetas vivem os Spacers, descendentes dos colonizadores que lá chegaram com tecnologia hiperespacial. Os terráqueos são desprezados pelos Spacers, cujas economias, por sua vez, dependem totalmente dos robôs. Na Terra e na colônia Spacer de Solaria, o detetive Elijah Baley investiga dois homicídios e nisso recebe ajuda de Daneel Olivaw, um dos recentes e raros robôs que conseguem se passar por humanos.

3. The Robots of Dawn — no planeta Aurora, a primeira colônia Spacer, o roboticista Han Fastolfe sugere a possibilidade de que o comportamento humano possa ser previsto por leis matemáticas que ainda estariam por ser descobertas, em uma espécie de psico-história. Baley resolve mais um crime com ajuda de Daneel e do robô Giskard e vence a resistência dos Spacers a uma nova onda de emigração da Terra. Baley descobre que, graças a um acidente de construção, Giskard é secretamente um telepata.

4. Robots and Empire — trezentos anos após Robots of Dawn, Solaria está deserta e ninguém sabe desde quando, como nem por quê. Em Aurora, Daneel e Giskard descobrem que as cinquenta colônias de Spacers estão estagnadas e fadadas à extinção devido a sua dependência dos robôs e consequente acomodação. Novas colônias foram fundadas por orgulhosos terráqueos que, em lugar de robôs e comodidade, levaram consigo apenas espírito empreendedor e disposição para o trabalho. São os Settlers, cuja cultura é bem diferente da cultura Spacer. Giskard deduz lògicamente a existência da Zeroésima Lei da Robótica: um robô não pode causar dano à humanidade, nem, por omissão, permitir que seja causado dano à humanidade. A partir da Zeroésima Lei, Daneel e Giskard adotam uma medida drástica para tornar inevitável a continuidade da recém-iniciada emigração da Terra pelos Settlers. Giskard confere seu poder telepático a Daneel, que se compromete a descobrir e usar as regras do comportamento humano para salvar a humanidade de si mesma.

5. The Stars Like Dust — após milênios de colonização, os vários planetas da Galáxia disputam poder cosmopolítico, tal como os antigos reinos feudais da Terra. Entre eles, os Reinos Nebulares incluem Nephelos e Widemos, liderados pela família de Biron Farrill, e Rhodia, liderado pelos Hinriads. A Terra está radioativa e, nos Reinos Nebulares, quase ninguém sabe onde ela fica. No início do livro, Biron estuda na universidade da Terra, quando recebe a notícia de que o reino de Tyrann está promovendo um golpe de Estado em Nephelos, na tentativa de anexá-lo. Biron junta-se à princesa de Rhodia e, com auxílio dos dirigentes do planeta Lingane, eles escapam à dominação de Tyrann. Biron e a princesa dos Hinriads casam-se em união real. Esse romance ruim é um dos três romances do Império.

6. The Currents of Space — um pesquisador descobre que no espaço sideral há correntes de matéria orgânica, as quais influem no ecossistema dos planetas e cujo estudo permite prever catástrofes. O pesquisador tenta advertir sobre a iminente destruição do planeta Florina, dominado pelo vizinho Sark. Para salvar Florina, ele busca ajuda do Império de Trantor, que domina metade da Galáxia. Fora do Império de Trantor, ninguém sabe onde fica a Terra. Esse é outro romance do Império, também ruim.

7. Pebble in the Sky — neste que foi o primeiro romance do Império a ser escrito, acontece um acidente no século 21: um raio de táquions experimental transporta o aposentado Joseph Schwartz, de Chicago para sua sucessora de 10.000 anos no futuro. A Terra está ainda mais radioativa do que em The Stars Like Dust. Os terráqueos são vistos como inferiores pelo Império Galáctico, sediado em Trantor e dominador de todos os planetas habitados. Na Terra, um movimento revoltoso, fruto do ressentimento, pretende espalhar uma arma biológica por todo o Império. Schwartz ganha poderes telepáticos, ajuda a derrotar o plano rebelde e obtém a promessa do Império de tentar eliminar a radioatividade da Terra.

8. “Blind Alley” — esta é a única história deste universo onde se vê alguma forma de vida inteligente mas não humana em toda a Galáxia. Uma civilização alienígena foi encurralada pelo crescimento do Império e está a caminho da extinção. O burocrata Antyok manipula a Administração pública imperial e oferece aos alienígenas uma oportunidade de fuga para outra galáxia.

9. Prelude to Foundation — neste romance, publicado em 1988, o Império Galáctico já tem 12 mil anos. O jovem matemático Hari Seldon chega a Trantor e apresenta seu teorema, que demonstra ser possível descobrir as leis matemáticas que regem o comportamento de grandes populações. Esse é o primeiro grande marco na incipiente ciência da Psico-História. O Primeiro-Ministro Eto Demerzel percebe na Psico-História a chave para salvar o Império de sua atual decadência e estimula Seldon a desenvolvê-la. Seldon descobre que, no passado, a humanidade criou seres artificiais, hoje desaparecidos, chamados “robôs”. Em um dos setores de Trantor, a população é composta de xenófobos tradicionalistas, que organizaram uma religião em torno do passado longínquo, quando seus ancestrais viviam rodeados de robôs em Aurora. Esses fanáticos são considerados bizarros pelos demais setores.

Ao fim do livro, Demerzel revela-se como uma identidade secreta do robô Daneel, que ainda luta para salvar a humanidade, mas agora nas sombras, manipulando eventos polìticamente.

10. Forward the Foundation — este livro, publicado em 1993, divide-se em cinco partes e conta cinquenta anos da vida de Hari Seldon enquanto ele desenvolve a Psico-História. Seldon modela o comportamento de populações com leis e equações matemáticas e, com elas, descobre que o Império está em crise, rumando para a extinção em trezentos anos. Na esteira do fim do Império, a Psico-História indica que sobrevirão trinta milênios de ignorância e desunião. Então, Seldon começa a conceber seu grande Plano, com o qual poderá salvar a humanidade das trevas. Na última parte do livro, ele descobre que sua neta faz parte de uma minoria de humanos a quem uma mutação deu poderes telepáticos, e pede a ela que procure outros telepatas.

11. Trilogia da Fundação — estas são nove histórias, dispostas ao longo dos três livros Foundation, Foundation and Empire e Second Foundation, respectivamente publicados em 1951, 1952 e 1953. A primeira história apresenta o leitor ao matemático Hari Seldon, à Psico-História e ao Plano Seldon para a Fundação. Aqui, Seldon tem que defender seu plano contra acusações de traição pela Comissão de Segurança Pública do Império. Ao explicá-lo aos julgadores, o matemático também o revela ao leitor, que passa a ter contexto para as histórias subsequentes.

Eis o plano: o fim do Império é inevitável e será seguido por 30 mil anos de conflitos. Para abreviar esse período tenebroso para “apenas” mil anos, Seldon cria a Fundação, reunindo especialistas em Ciências Exatas no planeta Terminus, isolado na borda mais externa da Galáxia. Ali compilarão a Enciclopédia Galáctica, com todo o conhecimento acumulado pelo Império, para posterior divulgação, qual farol na escuridão dos tempos (como foram os mosteiros medievais após o fim do Império Romano).

Mas esse plano é um engodo. Nas histórias subsequentes, o leitor descobre que o verdadeiro Plano Seldon é que a Fundação, valendo-se do conhecimento privilegiado, seja a semente do Segundo Império Galáctico. Percorrendo quinhentos anos, oito histórias mostram o crescente domínio da Fundação sobre seus vizinhos rumo a um destino glorioso. Sem que a Fundação saiba, seu desenvolvimento é gerido pela secreta Segunda Fundação, também estabelecida por Seldon e composta pelos descendentes dos psicólogos e telepatas reunidos por sua neta.

Nas últimas histórias, o Plano Seldon descarrila quando, de forma não prevista pelas equações da Psico-História, surge o Mulo, um mutante com extremos poderes telepáticos. Com a sutileza de um rolo compressor, o Mulo conquista a Fundação e muitos outros planetas, e sòmente a muito custo a Segunda Fundação consegue restabelecer o cumprimento do Plano.

12. Foundation’s Edge — o político Golan Trevize tem a fama de nunca ter tomado uma decisão errada. Banido da Fundação, ele parte em busca da Terra. Ao mesmo tempo, a Segunda Fundação descobre que uma terceira força está ajustando o Plano Seldon para um sentido não programado. Trevize e a Segunda Fundação descobrem que essa força é o planeta Gaia, onde humanos, robôs e toda a natureza compõem uma só mente unificada, vivendo em harmonia. Gaia pretende estender sua unidade aos demais planetas, fundindo a todos em uma mente única chamada “Galaxia”, mas somente o fará se tiver a concordância de Trevize.

13. Foundation and Earth — Ainda em busca da Terra, Trevize parte de Gaia e visita algumas das cinquenta colônias de Spacers, já desabitadas. Em Solaria, descobre que a população nunca abandonou o planeta, mas vive oculta no subterrâneo. Em Alpha Centauri, encontra os descendentes dos últimos terráqueos, evacuados pelo Império depois que fracassou o plano de eliminação da radioatividade. Afinal Trevize chega à Lua, onde conhece Daneel, que informa ter fundado Gaia e estar prosseguindo no plano de salvar a humanidade através de Galaxia.

Conforme observei aqui, o que Asimov fez nos anos 80, principalmente com The Robots of Dawn, Robots and Empire e Prelude to Foundation, foi conectar as diferentes épocas nas quais se situavam suas obras, unificando-as.

Ou seja: de início, havia apenas períodos históricos desconectados. Então, o Bom Doutor unificou-os em uma linha temporal única, que estivera inicialmente oculta dos leitores. Nesta continuidade retroativa, Asimov olhava para trás, para obras já escritas, e interpretava-as sob uma óptica de materialismo histórico, em que as circunstâncias de um período levavam ao período seguinte, em uma relação de causa e efeito.

Após a morte de Asimov (1992), e a pedido de seu espólio, o escritor Gregory Benford concebeu o tema de três novos livros, que viriam a ser conhecidos como a Segunda Trilogia da Fundação. O próprio Benford escreveu o primeiro livro, Foundation’s Fear, publicado em 1997, e delegou os demais a Greg Bear (Foundation and Chaos, 1998) e David Brin (Foundation’s Triumph, 1999).

A Segunda Trilogia não é uma continuação das histórias da Fundação. Os três livros ambientam-se entre as histórias de Prelude to Foundation, de Forward the Foundation e do próprio Foundation. Conforme já detalhei aqui, Foundation’s Fear é bem fraco, mas Foundation and Chaos já traz uma melhora, e Foundation’s Triumph fecha muito bem a série.

Eu sempre dou preferência a consumir obras em ordem de publicação. O grande motivo é que, quase sempre, o conteúdo de uma obra mais antiga é pressuposto das obras mais recentes, o que é intensamente verdadeiro também no caso desta Segunda Trilogia. Embora o terceiro livro avance mais rápido e tenha mais conteúdo, ele infelizmente depende de eventos dos dois primeiros livros.

Mas eu disse que Triumph fecha bem a série. Porque David Brin teve o talento de reunir todos os elementos de todos os livros anteriores e, com uma muito bem amarrada retrocontinuidade, dar-lhes um sentido panorâmico que o próprio Asimov certamente não imaginou. Brin desenvolveu explicações que, em retrospecto, fazem com que haja uma contínua linha de sentido e propósito ligando todos os livros de Asimov desde o primeiro conto de robô, escrito em 1939. O ponto em que se apoia essa engenhosa unificação é a Zeroésima Lei da Robótica.

Explico.

De todos os livros de robôs escritos pelo próprio Asimov, o último foi Robots and Empire. Ao introduzir a Zeroésima Lei da Robótica, esta história, dependendo da interpretação do Leitor, pode pôr a perder todo o sentido das Três Leis.

Tendo deduzido a Zeroésima Lei, Giskard convence Daneel, que a incorpora a sua própria programação. O vilão auroriano Amadiro, motivado por vingança, pretende iniciar um processo que transformará a Terra em uma vastidão radioativa inabitável. Os dois robôs impedem Amadiro, mas percebem que, se a radioatividade da Terra for aumentada gradualmente, a consequência será que, ao longo de séculos, a humanidade será forçada a evacuar seu planeta natal e conquistar as estrelas, vindo a formar o Império Galáctico. Assim, com base na Zeroésima Lei, os robôs ativam a máquina de Amadiro em um ajuste de baixa intensidade.

Com esse evento, Asimov retroativamente justificava por que a Terra era radioativa na época do Império em The Stars Like Dust e Pebble In the Sky. Também justificava por que, ao tempo da Fundação, ninguém mais sabia onde ficava a Terra, que já era considerada um planeta mítico.

Porém a Zeroésima Lei traz seus próprios problemas. O primeiro que se vê, e mais filosófico, é: se nem mesmo os humanos conseguem enxergar adiante as consequências de seus próprios atos, como esperar que a mente de um robô faça um exercício de futurologia e calcule quais ações causarão dano ou benefício ao conjunto da humanidade? Como se mede ou sequer percebe esse dano ou benefício? É necessário um poder de abstração que difìcilmente se veria na mente de u’a máquina. Em Robots and Empire, Giskard e Daneel deduzem que, a longo prazo, será mais benéfico que a humanidade emigre da Terra; mas eles não podem ter essa certeza, enquanto é certo que, em prazo mais curto, milhões morrerão por efeito da radiação, contrariando a Primeira Lei.

Além disso, para humanos esse já seria um sério dilema ético, enfrentado há muito tempo (lembro-me de “The Conscience of the King”, episódio de Star Trek), e nós mesmos tenderíamos a preservar as vidas imediatas de quem habita a Terra. Não faz muito sentido que os robôs, construídos para servir e limitados pelas Três Leis, decidam o que é melhor e passem a agir como pastores da humanidade.

Também existe uma questão operacional mas também de coerência. Em todos os livros anteriores, sempre esteve claro que as Três Leis são implementadas em um nível fundamental, provàvelmente no hardware dos robôs. Com a introdução da Zeroésima Lei, fica evidente que os robôs podem acrescentar leis fundamentais a sua programação de alto nível. Por extensão, retroativamente fica estabelecido que as Três Leis não são pressupostos da construção dos robôs, mas comandos programáveis e removíveis. Eis aí uma incômoda contradição diante de todas as maravilhosas histórias anteriores, que tão sadiamente afastavam o complexo de Frankenstein. Diante da Zeroésima Lei, em teoria um robô passava a poder até mesmo matar um humano se essa ação beneficiasse a humanidade.

Pois voltemos à Segunda Trilogia da Fundação. Em uma postagem anterior, critiquei bastante a execução de seu primeiro livro por Gregory Benford. O livro é ruim mesmo, mas, sendo justo, não sei quanto do brilhantismo unificador do segundo e do terceiro livro vem dos próprios Autores e quanto foi imaginado por Benford em seu plano para o conjunto.

No segundo livro desta Trilogia, Foundation and Chaos, o leitor vem a descobrir que, quando Daneel começou a seguir a Zeroésima Lei, ele passou a recrutar seus semelhantes para seu grande plano de salvação da humanidade. Os aliados de Daneel agem ocultos, protegendo a humanidade contra si mesma como uma criança irresponsável, que não sabe o que é melhor para si nem pode sequer saber que outros estão cuidando de seu destino.

Os robôs adeptos da Zeroésima Lei, liderados por Daneel, eram os giskardianos, pois Giskard foi o descobridor da lei. Em Foundation and Chaos, Daneel confessa a Hari Seldon que, no passado distante, para cumprir a Zeroésima Lei, os giskardianos cometeram um grande crime, que ele não revela qual foi.

Para minimizar o sofrimento humano, os giskardianos tiveram que amortecer todas as forças sociais que trazem renovação e criatividade, e formou-se um Império Galáctico pacífico e materialmente próspero porém baseado em conservadorismo, estagnação e, principalmente, amnésia sobre suas origens. Por isso é que, em todo o Império, raras são as pessoas que dão crédito ou importância à Terra como planeta de origem da raça humana. O passado pré-imperial é impenetrável e desimportante.

Portanto, esta Segunda Trilogia mostra que o Império e a Fundação, bem como todo o ambiente cultural em que se inserem, são o resultado da obediência de Daneel e seus colaboradores à Zeroésima Lei da Robótica.

Porém, nem todos os robôs concordam com a existência da Zeroésima Lei. Um grupo de radicais conservadores são chamados Calvinianos, por aderirem somente às Três Leis propugnadas por Susan Calvin. Os calvinianos veem no gentil cajado de Daneel uma interferência indevida no rumo natural da humanidade e uma subversão da finalidade dos robôs. Por isso, antes mesmo do estabelecimento do Império, instaurou-se uma guerra civil entre calvinianos e giskardianos. Graças à imitação quase perfeita, os robôs continuaram disfarçados entre os humanos, que nunca desconfiaram do conflito.

Agora, em razão das mesmas características que mantiveram o Império estável durante 12 mil anos, essa grande entidade política já não tem força para suprimir os crescentemente frequentes afloramentos de caos social. Cada vez mais planetas estão incidindo na mesma doença: súbitos renascimentos de criatividade, seguidos de severos conflitos internos e desagregação social.

Por isso é que, à medida que o Império dá mostras de implosão, Daneel vê no Plano Seldon a solução para conduzir a civilização a uma nova estrutura com mínimos efeitos colaterais. Já os calvinianos percebem que, apesar do fim iminente do Império, Daneel continua querendo manipular o destino da humanidade através do Plano Seldon, e tentam impedir o exílio da Fundação em Terminus. Ao mesmo tempo, agentes do Império descobrem uma telepata extremamente poderosa, aberrante e renegada, e tentam usá-la para, de uma só vez, eliminar Seldon, os demais telepatas e os robôs, todos os quais são percebidos como ameaças. Após o clímax onde calvinianos e telepata são derrotados, o livro repete ipsis litteris a cena do julgamento de Seldon.

Então chegamos a Foundation’s Triumph. Neste romance, Hari Seldon já exauriu seu papel na História da humanidade. Os membros da Fundação estão emigrando de Trantor para Terminus e a Psico-História está nas mãos da Segunda Fundação. O velho matemático prepara-se para morrer em breve, quando é convidado a uma nova aventura por Horis Antic, um pesquisador de solos. Antic ficou intrigado quando descobriu que, de modo geral, os planetas habitados têm solos de mesma composição, indicando alguma espécie de preparação. Também descobriu que o surgimento do caos está correlacionado a planetas onde o solo é diferente do padrão e que se situam no caminho de correntes do espaço. Eis aqui a única ocorrência das correntes do espaço fora do livro a que dão nome, reconhecendo importância a um conteúdo que nunca tinha sido abordado novamente.

A partir deste ponto, Foundation’s Triumph segue uma estrutura semelhante à dos romances de Asimov, seguindo o herói em uma fuga por vários planetas da Galáxia, durante a qual vai reunindo pistas para entender o panorama político. O piloto da nave é um nobre da família Biron, senhor dos planetas Nephelos, Rhodia e Widemos —novamente, em referência aos romances do Império. Ele sabe que um de seus antepassados estudou na universidade da Terra e busca registros da História desaparecida.

A parada mais importante desta jornada é dentro de uma nuvem de poeira cósmica, onde há milênios estão guardados segredos aos quais a humanidade jamais poderá ter acesso: são naves robóticas terraformadoras (explico-as adiante) e milhões de bilhões de arquivos, reunindo todo o conhecimento que a humanidade conseguiu preservar antes da grande amnésia que acometeu o Império. Tanto Seldon como os robôs reconhecem que, se alguém encontrar esses arquivos, haverá imediatas manifestações do caos em toda a Galáxia. Para que o Plano Seldon funcione, é imperioso que a humanidade continue progredindo às cegas, sem saber que tudo já foi previsto nem conhecer suas origens. Por isso, Seldon autoriza os robôs a destruírem os arquivos milenares.

Imediatamente após a destruição dos arquivos, um grupo de calvinianos sequestra Seldon, levando-o à Terra para submetê-lo ao mesmo raio taquiônico que deslocou Joseph Schwartz a seu respectivo futuro (e que ainda está ativo desde o século 21, pois ninguém soube desligá-lo). Os calvinianos pretendem avançar Seldon quinhentos anos, para que ele julgue se seu Plano se revelou benéfico, e estão dispostos a se curvarem a esse julgamento.

Depois de várias peripécias, David Brin faz como Asimov: ao fim do livro, monta o quebra-cabeças das peças que foi dispondo pelo caminho. Neste ponto, Foundation’s Triumph estabelece uma gigantesca continuidade retroativa e revela inúmeros fatos que sempre foram verdade ao longo de todos os livros anteriores mas que estiveram escondidos do leitor (e, na verdade, também do próprio Asimov):

– Na Terra, após o século 21, um agente biológico tornou-se o causador de uma doença mental que leva as sociedades a rejeitar novidades e da qual a maioria dos humanos são portadores. Após surtos criativos, essa doença causa o caos das civilizações, que acabam se retraindo. Na Terra, a invenção dos robôs e da propulsão hiperespecial, em tão pouco tempo, resultou numa fobia que levou os terráqueos a se enfurnarem em cidades subterrâneas (“cavernas de aço”). Inevitàvelmente, antigas cepas da doença chegaram às colônias de Spacers, que entraram em obsessão xenofóbica, isolamento e definhamento. Sòmente após várias gerações é que alguns terráqueos se recuperaram do surto criativo, iniciando a emigração dos Settlers, que, porém, também levaram a doença consigo.

– Após Robots and Empire, os giskardianos procuraram estimular e facilitar a expansão de Settlers a novas colônias, sem que os Settlers pudessem saber. Com essa intenção, em poucos séculos, milhares de naves robóticas ajustaram os solos dos planetas de clima adequado a uma futura ocupação, terraformando-os em segredo adiante da onda de colonizadores. Isso explicava a improvável semelhança entre os solos de milhões de planetas. Toda forma de vida pré-existente era eliminada pela terraformação, como quase aconteceu aos alienígenas de “Blind Alley”.

– Nos planetas terraformados, os giskardianos estabeleceram dispositivos biológicos, tecnológicos e sociais de amortecimento, que suprimiam a criatividade e induziam a comportamentos pacíficos de conformidade. Tais dispositivos evitavam o surgimento de novas ideias e dos conflitos de onde brota a evolução, mas também evitavam o caos e estabeleciam as bases de estabilidade do Império.

– Nos planetas onde a terraformação não foi completada por algum motivo, os solos permaneceram na forma original, fugindo ao padrão estatístico descoberto por Horis Antic. Ausentes os mecanismos de amortecimento social, esses planetas vieram a ser os mais suscetíveis ao surgimento do caos. É o caso de Lingane e Sark, o primeiro por se localizar numa zona que foi colonizada antes que os robôs a alcançassem e o segundo por se situar sobre uma corrente do espaço, onde a terraformação é inutilizada em pouco tempo.

– O grande e inconfessável crime dos giskardianos não é completamente definido em Foundation’s Triumph, mas fica claro que é um dentre dois: ou foi o envenenamento radioativo da Terra em Robots and Empire, com o qual os robôs tomaram as rédeas do destino da humanidade sem o conhecimento dela; ou foi a eliminação de outras formas de vida na terraformação, que Horis Antic sabia ter sido impedida no caso de uma espécie inteligente por seu antepassado Antyok, em “Blind Alley”.

– O Império é uma criação de Daneel, que o vem promovendo há 12 mil anos, sob várias identidades secretas. Em uma dessas identidades, Daneel foi a figura histórica que criou as bases da administração confucionista do Império.

– O nobre piloto Biron também descende da família dos Hinriads, que històricamente se opõe aos giskardianos. Seu motivo para pilotar a nave com Seldon e Antic é a perspectiva de, seguindo as correntes do espaço, encontrar os arquivos com o conhecimento oculto da História, do qual os giskardianos privaram o Império.

– A arma biológica de Pebble in the Sky era derivada da doença do caos e levaria à desagregação do Império. Quem identificou o plano terráqueo de contaminação e concedeu telepatia a Joseph Schwartz foi um agente secreto de Daneel.

– Ao detectar a crise que levaria à implosão do Império, Daneel percebeu que sòmente com a Psico-História seria possível prever o comportamento da civilização e descobrir o caminho para uma nova solução. Mas uma criatura jamais conhece os desígnios de seu criador, de modo que Daneel sabia ser incapaz de compreender os humanos. Além disso, a descoberta das leis da Psico-História requeria intuição e criatividade, que estavam além da capacidade dos robôs. Então, através de genética, formação escolar e pedagogia, Daneel e seus agentes selecionaram e aprimoraram o próprio Hari Seldon, seu talento matemático e sua obstinação por ser capaz de prever o rumo da História. A aparente descoberta de Seldon por Demerzel foi apenas o completamento de uma etapa deste projeto.

– O surgimento de mutantes telepatas também é obra de Daneel, que espera promover o surgimento de Galaxia após séculos de contínua propagação desses genes. Infelizmente, a mistura genética de várias cepas de telepatia é propensa a alguns exageros dramáticos e imprevisíveis, o primeiro dos quais é a renegada que se dispõe a ajudar o Império a pôr fim aos demais telepatas. Outro exemplo inesperado será o Mulo.

– Se a Enciclopédia Galáctica é um engodo de Seldon para ocultar seu Plano de mil anos, por outro lado o próprio Plano Seldon é um engodo de Daneel para seu verdadeiro plano de longo prazo, que é Galaxia. Nesta futura comunidade, a união de mentes evitará todo tipo de conflito, promovendo eterna harmonia. Este projeto precisa de, no mínimo, quinhentos anos de preparação. Nesse ínterim, a Fundação é uma forma de passar o tempo distraindo a raça humana rumo a outro propósito (ilusório) de união e prosperidade.

– No momento apropriado, Daneel secretamente preparará outro humano da mesma forma como preparou Seldon. Desta vez, Daneel preordenará circunstâncias que farão parecer que o sujeito sempre tome a decisão correta. Esse humano será levado a escolher Galaxia em detrimento da Fundação, convencendo os robôs de que essa tenha sido uma escolha espontânea de alguém que sempre acerta. Isso evitará uma nova guerra civil entre giskardianos e calvinianos, que também serão absorvidos por Galaxia.

Em Foundation’s Triumph, David Brin levou a continuidade retroativa um passo além do ponto aonde a levara o próprio Asimov. Como se pode ver dessas revelações finais, Brin introduziu a noção de que todos os eventos deste universo tenham uma causa subjacente desde os contos de robôs. Essa causa seria o caos que ressurge a cada vez que uma civilização atravessa um período de grande criatividade, interrompendo o progresso tecnológico e social em surtos espasmódicos.

Na nova e adicional continuidade retroativa de Brin, vê-se que o robô Daneel sempre lutou contra o caos desde o momento em que descobriu a Zeroésima Lei da Robótica. No permanente esforço de defender a humanidade do caos, Daneel dirigiu os humanos a formarem o Império Galáctico, sem que eles mesmos soubessem que estavam sendo guiados. Também foi Daneel que estimulou a criação da Psico-História e do Plano Seldon, para preservar a civilização após o fim do Império. Por fim, é Daneel que pretende dar início à solução definitiva para todos os problemas humanos, na forma de Galaxia.

Em Triumph, Brin acrescenta mais uma camada de complexidade ao universo asimoviano: a sucessão de eventos passa a ser vista como o reflexo visível de um conflito oculto, de uma dialética da qual a raça humana participa como executora mas não como conhecedora. A evolução da civilização humana é retratada como uma consequência deliberada de uma só mente planejadora, que enxerga todo o panorama e testemunha 20 mil anos de História.

Em síntese, Brin mostrou que havia um sentido finalístico deliberado por trás de todas as histórias escritas por Asimov e ambientadas neste universo. A raça humana, personagem dessas histórias, desconhecia essa intenção com a qual era guiada; e o próprio Autor original das histórias também a desconhecia!

Infelizmente, a Segunda Trilogia também atenta contra um dos fundamentos da obra de Asimov. Um dos personagens de Foundation and Chaos e Foundation’s Triumph é um robô que, embora seja um dos agentes secretos de Daneel, sofre um acidente que o liberta das quatro Leis da Robótica. Esse evento implica que, desde Robots and Empire, a concepção tenha sido de que as Três Leis tenham sido programadas, em lugar de fìsicamente gravadas nos robôs. É um rompimento sério em relação à concepção original de Asimov, pois as Três Leis haviam sido imaginadas de modo que fosse fìsicamente impossível um robô que não as seguisse. Já na Segunda Trilogia, os robôs obedecem às Três Leis (e à Zeroésima) da mesma forma como humanos obedecem às leis que criam: meramente por atos de vontade, decorrentes da noção de sua obrigatoriedade. As Leis da Robótica deixaram de ser tratadas como implementações orgânicas para serem meras leis jurídicas, a que os robôs obedecem por convicção racional.

O conflito entre giskardianos e calvinianos é uma das consequências dessa mudança de paradigma. Se as Três Leis estivessem implantadas fìsicamente, não haveria possibilidade de diferentes convencimentos racionais entre diferentes robôs, nem, portanto, qualquer divergência ideológica ou filosófica.

Com esse tratamento, também desmorona o único pressuposto relevante das histórias de robôs de Asimov, pois o cumprimento da Primeira Lei depende da cognição pessoal dos robôs, que assim deixam de ser inerentemente seguros. Quando os robôs ganham a capacidade de filosofar, eles deduzem novas leis que se impõem às Leis da Robótica. Com isso, “comem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal” e atentam contra o criador que impôs essas leis (a raça humana). Eis uma curiosa inversão em relação ao livro do Gênesis: é pelo pecado original cometido por dois robôs que a raça humana, sua criadora, é expulsa do paraíso na Terra.

Foundation’s Triumph chega a comparar os humanos a deuses aos olhos dos robôs, mas lembra a lição de que servos que pensam deixam de ser seguros e se tornam indignos de confiança.

***

Minha motivação para a leitura sequencial do universo de Asimov era o fascínio pela habilidade desse Autor em montar uma História unificada do futuro. Agora, já li todas as obras que o Bom Doutor situou neste universo (exceto, talvez, sete contos do computador Multivac, que fogem ao escopo deste texto). Movido pela curiosidade, até mesmo fui além, terminando quatro livros com que outros Autores davam continuidade à obra original: Foundation’s Friends e a Segunda Trilogia da Fundação.

Quanto a Foundation’s Friends, supus que fossem pequenas histórias bem humoradas para homenagear o criador deste universo, e algumas eram mesmo. Quanto à Segunda Trilogia, imaginei que fosse uma continuação ambientada em momento posterior a Foundation and Earth. Não era, mas, uma vez iniciada a leitura, eu não ia interrompê-la, e fui até o fim.

Ainda restam por ler as minisséries Robot City, Robots and Aliens, Robots in Time, e a Segunda e Terceira Séries dos Robôs. Entretanto, esses livros também foram escritos por outros Autores e, do que pude apurar, são histórias laterais, fora da linha principal contínua que vai dos contos de robôs até Foundation and Earth. Robot City e Robots and Aliens foram publicadas enquanto Asimov estava vivo, mas as demais minisséries são posteriores a 1992 e, portanto, à morte do Autor original.

(Foundation’s Triumph chega a fazer referência a um dos livros da Segunda Série dos Robôs. Quando Daneel resume as tentativas fracasssadas de fundar novas sociedades imunes ao caos, ele menciona os robôs fabricados com Leis da Robótica mais flexíveis no planeta de Isaac Asimov’s Inferno, que é parte dessa Segunda Série.)

Da mesma forma, falta ler a trilogia I, Robot, que narra o início da carreira de Susan Calvin (portanto antes de todos os outros livros), e Psychohistorical Crisis, que se passa mais de quinhentos anos após Foundation and Earth (portanto após todos os outros livros). Esses quatro livros foram publicados na década de 2010.

Ora, vê-se que não pára de crescer a quantidade de livros ambientados no universo dos robôs, Império e Fundação. Se eu me dispuser a acompanhar estas histórias enquanto forem publicadas, não conseguirei ler outra coisa. Como não é mais Asimov escrevendo, mas quinze outros Autores, não seria possível correr mais que eles, o que me põe em uma clara desvantagem. Então, chega um momento em que é preciso traçar uma linha.

Por isso, chega por ora. Os 29 livros de outros Autores entram na fila infinita dos livros que pretendo ler, e um dia hei de alcançá-los (estimo que daqui a, digamos, 13.098 livros). Se não conseguir, paciência.

EOF

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Gregory Benford e o Princípio de Lavoisier

Como já noticiei em outras ocasiões (por exemplo, aqui e aqui), prossigo no empreendimento de ler todas as histórias de Asimov ambientadas em seu universo dos robôs, do Império e da Fundação. Houve alguns desvios de rota, quando descobri que, sem querer, havia pulado algumas histórias que não conhecia e voltei para consertar essas omissões. Até agora, porém, acredito ter lido tudo em uma ordem relativamente próxima da ideal (i.e. ordem de publicação das histórias). Todos os livros que ainda restam à frente foram publicados depois dos que já ficaram para trás, que são:

  • I, Robot, de 1950 (contendo nove contos e uma história que os costura);
  • Foundation, de 1951 (contendo cinco noveletas e sendo o primeiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Foundation and Empire, de 1952 (contendo duas noveletas; segundo livro da Trilogia da Fundação);
  • Second Foundation, de 1953 (contendo duas noveletas; terceiro livro da Trilogia da Fundação);
  • Pebble in the Sky, de 1950 (romance);
  • The Stars Like Dust, de 1951 (romance);
  • The Currents of Space, de 1952 (romance);
  • The Caves of Steel, de 1954 (romance);
  • The End of Eternity, de 1955 (romance);
  • The Naked Sun, de 1957 (romance);
  • The Early Asimov, de 1974 (contendo histórias que são verdadeiros rascunhos do universo dos robôs e da Fundação, mais os contos Blind Alley e Mother Earth);
  • The Rest of the Robots, de 1964 (com contos que não entraram em I, Robot);
  • Nightfall and Other Stories, de 1969 (com mais alguns contos que ficaram de fora);
  • The Bicentennial Man and Other Stories, de 1976 (com a noveleta de mesmo nome);
  • The Complete Robot, de 1984 (com os contos faltantes até aqui);
  • Foundation’s Edge, de 1982 (romance);
  • The Robots of Dawn, de 1983 (romance);
  • Robots and Empire, de 1986 (romance);
  • Foundation and Earth, de 1986 (romance);
  • Robot Dreams, de 1986 (com os contos faltantes até aqui);
  • Prelude to Foundation, de 1988 (romance);
  • Nemesis, de 1990 (romance);
  • Robot Visions, de 1990 (contos e ensaios);

e então Asimov morreu em 1992, deixando o romance Forward the Foundation, de 1993, completo porém póstumo.

Enquanto Asimov ainda vivia, em 1989, seu amigo Martin Greenberg editou uma compilação de diversos Autores intitulada Foundation’s Friends, ambientada no universo dos robôs e da Fundação. Naturalmente, tive que lê-la, já na segunda edição, de 1997, que contém obituários do Bom Doutor.

Estou agora relativamente perto do fim. Faltam três livros ambientados neste universo: Foundation’s Fear, de Gregory Benford; Foundation and Chaos, de Greg Bear; e Foundation’s Triumph, de David Brin. Essas três obras, todas posteriores ao falecimento do Grande Mestre, foram autorizadas por seu espólio e, portanto, constam das listas de obras oficiais, compondo a “Segunda Trilogia da Fundação”. Quando terminar esses três livros, abordarei alguns contos esparsos escritos por fãs, mais a história de toda essa bibliografia narrada por Johnny Pez, e darei o trabalho por encerrado.

Por ora, estou deixando de lado algumas séries de romances de outros Autores, também autorizadas por Asimov e ambientadas no mesmo universo porém, até onde pesquisei, suficientemente autônomas. São uma espécie de via acessória, um meandro para fora do rio, aproveitando elementos da história principal mas sem contribuir de volta para dentro dela nem lhe dar continuidade. Pretendo voltar a estes livros oportunamente, mas já não têm prioridade. São as séries Isaac Asimov’s Robot City, Robots and Aliens e Robot Mystery e a trilogia Caliban. Por fim, o romance não autorizado Psychohistorical Crisis, também deixado para depois.

Lembro ao Leitor que as noveletas e romances da Fundação têm como base os últimos dias de glória do Império Galáctico, que está em seu ápice no momento em que entra na história o teórico Hari Seldon. O talentoso Seldon cria um ramo da Matemática chamado Psico-História, no qual consegue descrever o comportamento de populações humanas por meio de equações. Manejando esse conhecimento, Seldon percebe que, contrariando o senso comum e as evidências imediatas, o Império já começou seu declínio e, em alguns séculos, estará fragmentado em barbárie. Os primeiros livros da Fundação narram como Seldon institui uma forma de restabelecer a civilização após o fim do Império, e os últimos dois livros da Fundação escritos pelo próprio Asimov (Prelude to Foundation e Forward the Foundation) são prequels, contando a vida de Seldon e as experiências que o levaram a formular a Psico-História.

O que me motivou a escrever hoje foram algumas descobertas que fiz ao ler Foundation’s Fear, de 1997. Este livro ambienta-se entre as partes I e II de Forward the Foundation e pretende revelar algumas experiências com que Seldon completou lacunas na modelagem da Psico-História.

Capa de Foundation's Fear

O medo é do que aconteceria com a Trilogia depois que Asimov morreu!

Até agora li 67% do livro e não estou bem impressionado. Para começar, já fiquei um pouco decepcionado quando descobri que a Segunda Trilogia não era a continuação das histórias da Fundação, pois se ambientava em momentos intermediários dentro de histórias já publicadas. Minha experiência com prequels e midquels* já não é boa, depois dos pequenos desastres de Star Trek: Enterprise e Discovery e de Star Wars Episódios I, II e III. Só que isso não seria um problema se o livro fosse bom.
* Midquel: um termo que acabei de inventar para me referir a histórias passadas no meio de outras. Você viu primeiro aqui!

Vejamos. Em determinada passagem, dois personagens coadjuvantes recuperam e incrementam arquivos de computador que são reconstruções de Voltaire e Joana d’Arc. Postas a rodar em um ambiente virtual, essas reconstruções deveriam comportar-se exatamente conforme os originais, permitindo que a plateia comparasse os pontos de vista respectivos, da Razão e da Fé. Entretanto, as duas simulações descobrem que são apenas imitações digitais, e o livro gasta dezenas de sofridas páginas descrevendo as percepções que as duas personalidades têm do ambiente do computador por dentro. Ora é como se estivessem dentro dos cenários de Tron, ora dentro de um holodeck de Jornada nas Estrelas, só que com inúmeras metáforas, subjetivismos, simbolismos, e, na maior parte do tempo, não dá para saber do que estão falando. Foi um suplício superar essas passagens, que não dizem nada e só enrolam o leitor em verborragia e cansaço. Há pouco ou nenhum propósito, e nenhum nexo, em relação ao restante do próprio livro e à obra original de Asimov. Uma perda de tempo rematada.

De repente, do nada, Benford leva Hari Seldon a tirar férias no planeta turístico Panucópia, cujos visitantes dividem seu tempo entre a beira da piscina, as festas e os safáris. Originalmente, o clima tropical de Panucópia serviu para que cientistas pesquisassem o comportamento de vários animais selvagens em seu estado natural, o que é muito raro no Império Galáctico. Com a limitação de fundos para pesquisa, os cientistas tiveram que ser criativos, construindo um hotel de luxo junto à base e cobrando por visitas guiadas à selva. O dinheiro assim arrecadado passou a financiar a continuidade dos trabalhos.

É importante entender que, na Galáxia das histórias da Fundação, há milhões de planetas habitáveis, muitos dos quais colonizados pela raça humana e compondo o Império Galáctico. Não existe vida inteligente além da humana (exceto em Blind Alley e em dois dos primeiros contos de robôs), e as poucas faunas e floras nativas foram facilmente dominadas. Na Era Galáctica (para além do século 180), a humanidade abandonou a Terra há tanto tempo que ninguém mais sabe onde ela ficava, a tal ponto que é considerada um mito, e todo o conhecimento sobre este planetinha é apenas o resultado de deduções com base em evidências praticamente inexistentes.

Então, em Fear, o chefe dos pesquisadores de Panucópia explica a Seldon que os animais do planeta não são nativos, tendo sido levados para lá por alguma expedição muitos milênios antes, tanto tempo que ninguém mais sabe como nem para quê. Supostamente seriam animais oriundos da Terra nos quais teriam sido feitos experimentos genéticos que transformaram as espécies originais. O livro refere-se a símios chamados “pans”, que, pela descrição, tenho certeza de que são chimpanzés. Refere-se, também, a “rabuínos”, o resultado de experimentos sobre outros símios (òbviamente babuínos) que os teriam transformado em uma nova espécie, carnívora, onde as mãos teriam evoluído para garras curtas e as patas traseiras teriam ganhado força para correrem. Refere-se, ainda, a “gigantílopes”, que, pela descrição, seriam paquidermes supostamente derivados dos antílopes.

Um dos serviços oferecidos por Panucópia é a imersão, criada originalmente para fins científicos mas depois estendida aos turistas. Alguns símios foram submetidos a cirurgias, com a implantação de circuitos elétricos e antenas diretamente no cérebro. Na estação de pesquisa, a cada animal fica associada uma câmara de imersão, onde um usuário se conecta e recebe sinais do sistema nervoso do animal. A imersão dá acesso imediato ao que o símio está vendo e ouvindo, a suas emoções e a toda a sua percepção subjetiva, essencialmente permitindo que o usuário viva o chimpanzé. Uma longa passagem de Foundation’s Fear narra como Seldon experimenta a imersão sucessivas vezes, estudando o comportamento dos “pans” como uma versão simplificada do comportamento humano, sem os vernizes civilizatórios que escondem as motivações animais subjacentes a nossos atos. (Aliás, neste ponto lembra muito aquele filme doido, Being John Malkovich, onde as pessoas conhecem o ator “por dentro”.)

Em toda essa passagem, os pans são ameaçados por bandos de rabuínos, e há um momento em que Benford se refere a estes predadores pelo nome científico Carnopapio grandis. Teòricamente rabuínos não existem, mas, mesmo assim, joguei esse nome no Google com a noção de obter alguma descrição precisa, alguma ilustração, quiçá até de descobrir que, na verdade, seriam babuínos, apenas com outro nome.

Foi aí que algumas revelações se descortinaram para mim.

Primeiro, descobri que os rabuínos e gigantílopes não foram inventados por Benford. Ambas as espécies constam do livro de ficção biológica After Man: a Zoology of the Future, do escocês Dougal Dixon, publicado em 1981. Dixon especula sobre espécies que poderiam surgir na Terra 50 milhões de anos após o fim da raça humana.

Até aí, tanto melhor. É sempre bacana ver a criação de um escritor sendo aproveitada por outro, que constrói uma história em cima.

Só que o Google também me mostrou que o nome Carnopapio grandis aparecia em outro livro. Immersion, de Gregory Benford, aparece na Internet Speculative Fiction Database como uma história publicada em março de 1996 e integrante da antologia Immersion and Other Short Novels, de 2002.

Capa de Foundation's Fear

Se você plagia a si mesmo, não é plágio.

Pela evidência que encontrei no Google Books, percebo que Immersion é exatamente o trecho de Foundation’s Fear ambientado em Panucópia, palavra por palavra. Houve mera troca dos nomes dos personagens, a substituição de Panucópia pela África, a dos “pans” por chimpanzés e a da Psico-História por Sócio-História, o que é muito fácil de se conseguir com a função “substituir tudo” do Word. Como o Google Books nunca mostra o conteúdo inteiro dos livros, não pude comparar as duas obras com precisão milimétrica, mas a amostra que tive foi suficiente.

Aliás, conforme lia Foundation’s Fear, percebi que as várias partes do livro são completamente desconexas umas das outras. É como se fossem obras distintas que foram reunidas dentro de um mesmo par de capas, sem uma verdadeira costura que as ligasse. Esse vício de origem fica particularmente claro quando se vê que Benford foi capaz de reaproveitar uma parte inteira do livro como uma noveleta autônoma de algum sucesso, trocando apenas os nomes dos personagens.

Na medida em que Immersion está datada de 1996 e Foundation’s Fear é de 1997, poderíamos pensar que, na verdade, a primeira obra seja a original e a segunda, seu reaproveitamento. Porém, do que li de Immersion, o personagem principal traz características de Hari Seldon. Além disso, claramente sua Sócio-História, baseada em Matemática, é a Psico-História imaginada por Asimov. Portanto, o conteúdo de Immersion já foi concebido com elementos do universo de Asimov, apenas com outros nomes. E a diferença de tempo entre os lançamentos das obras é de apenas um ano. Minha hipótese de trabalho é que esta parte de Fear tenha ficado pronta antes do resto do livro e Benford a tenha lançado antes, possìvelmente até para ter uma estimativa do sucesso que faria o romance mais longo.

Igualmente lamentável é o fato de que esta parte de Foundation’s Fear é a única que conseguiu atrair meu interesse em alguma medida. Até aqui, a maior parte do livro foi um lodaçal, onde avancei contra enorme resistência. Maçante, monótono, perdido em digressões sem ir a lugar nenhum.

As críticas que faço a Foundation’s Fear são várias e estão muito bem resumidas por esta resenha de alguém que se apresenta com o pseudônimo Stettin Palver**, que encontrei quando pesquisava para este artigo, em <http://www.scifi-review.net/foundations-fear-by-gregory-benford.html>. Traduzindo as partes mais relevantes:
** Stettin Palver é o nome de um dos personagens de Forward the Foundation.

“1. Buracos de minhoca: existe uma vasta rede de buracos de minhoca que parece ser parcialmente natural e parcialmente artificial, criada e mantida para ligar o Império. Este é um conceito completamente novo e que é acrescentado, aparentemente do nada [em contraste com o fato de que, nos livros da Fundação de Asimov, a navegação espacial é feita pelo hiperespaço, sem menção a nenhum buraco de minhoca]. Onde estavam esses buracos de minhoca no resto da série de Asimov? Benford não faz qualquer tentativa de reconciliar essa inconsistência [o que poderia fazer facilmente com a famosa técnica da continuidade retroativa]. O próprio Asimov sempre se desculpava em retrospecto após se descobrir que eram impossíveis as tecnologias ou teorias que ele integrava nas histórias, mas não vejo por que haja a necessidade de ACRESCENTAR tecnologia a uma série que já está tão bem estabelecida.

“2. Tiktoks: robôs com mentes simples são usados como mão de obra. Estes não são mencionados por Asimov neste ponto da linha de tempo [da Fundação], onde seres mecânicos são tabu. Benford salta e associa o tabu apenas à função mental e à aparência [humanoide]. Não creio que Asimov aprovasse.

“3. Sims: eu fiquei incomodado pelo arco de história das simulações de Joana d’Arc e Voltaire na primeira vez em que li este livro, e isso não mudou. Sims também são tabu na mesma categoria dos Robôs. Essencialmente 150-200 páginas são dedicadas a exposição de personagens para estas duas simulações e à questão se a vida digital está ‘viva’ ou possui uma alma. Já li resenhas que sugeriram que o romance fica muito melhor simplesmente pulando esta parte, e tenho que concordar [eu também — não contribui em nada]. Se você gosta de diálogo teológico que não tem qualquer impacto no conjunto da história, siga em frente e leia.

“4. Panucópia: esta parte tem aproximadamente cem páginas, mas creio que as ideias poderiam ter sido apresentadas muito mais concisamente. Entretanto, essas foram provàvelmente as cem páginas de texto mais rápidas de todo o romance [para mim também]. Definitivamente, Benford me manteve interessado, pois eu li essa parte inteira de uma assentada só, o que é incomum para mim, especialmente em relação a este romance.

“5. Erros: ‘Dors Vanabili’ deveria escrever-se ‘Venabili’. Se você está dando continuidade à obra de um grande mestre como Isaac Asimov, pelo menos verifique os nomes dos personagens! (…)

“6. Tudo mais: há uma nova tecnologia constantemente sendo introduzida e excessivamente explicada ao longo de todo o livro. Foi só por volta da página 30 que eu percebi isso pela primeira vez. Isso faz com que o Império pareça muito mais avançado e nem tanto em declínio assim.”

Você poderia perguntar, “então por que não pára de ler Foundation’s Fear?” A resposta está no início do texto: após 23 livros, faltando apenas três (e sei lá se os próximos dois são melhores), não vou pular esta parte da saga só porque é chata. Houve outras quase tão chatas quanto (lembro-me de Black Friar of the Flame e de dois dos três romances do Império) e, mesmo assim, prossegui. Não vai ser agora, faltando tão pouco, que vou deixar um vácuo e ficar sem saber o que aconteceu.

EOF

Resenha: Forward the Foundation. Capítulo final (mas nem tanto)

Nesta postagem, tracei um panorama dos livros pelos quais Isaac Asimov é mais conhecido e que se passam no universo dos robôs e da Fundação.

Desde então, já li The End of Eternity e Nightfall e estou lendo Forward the Foundation. A saber:

– Em regra, The End of Eternity é tratado como um livro que não se relaciona ao universo da Fundação e do Império. No entanto, alguns textos de melhores conhecedores indicaram que havia uma ligação. Agora posso confirmar que ele faz, sim, referência a esse universo, mas podemos entender por que é costumeiramente tratado fora do conjunto. É uma história que em NADA influi na história da Fundação. Por outro lado, (1) faz referência a uma tecnologia primeiramente mencionada nos livros da Fundação (não direi qual tecnologia, mas tampouco faz diferença), e (2) a história (e as justificativas) por trás do próprio End of Eternity, que só ficam claras ao fim do livro, só fazem sentido para quem tiver lido os livros da Fundação.

– Até agora, Nightfall não parece guardar qualquer ligação com o universo da Fundação. Trata-se de uma novela desenvolvida a partir do supercelebrado e premiado conto de mesmo nome, publicado em 1941. O terço central da novela é essencialmente uma transcrição ipsis litteris do conto, apenas mudando parcialmente os nomes dos personagens. Os outros dois terços são acréscimos de Robert Silverberg. Especulo, porém, se até o fim de Forward the Foundation encontrarei ligação, ou quiçá em algum dos livros com que outros Autores deram continuidade à obra do Bom Doutor.

Forward the Foundation é uma prequel. Na cronologia dos eventos da série, encaixa-se exatamente entre a prequel anterior, Prelude to Foundation, e o próprio Foundation. Ambos são leituras necessárias para que Forward faça sentido. Aliás, mesmo antes de terminar Forward, já percebi que engatará precisamente ao início de Foundation da mesma forma como Rogue One engata ao início do Episódio IV de Star Wars.

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O que me traz aqui hoje é o reforço de uma constatação. Na abertura de Nemesis, Asimov diz que este livro não tem qualquer ligação com os livros dos Robôs ou da Fundação, embora admita que, mais tarde, se tivesse tempo, pudesse tentar vinculá-los de algum modo (como já tinha feito ao unir os contos de robôs, os romances de robôs e as histórias do Império e da Fundação). Conforme já detalhei na postagem anterior, ele termina Nemesis com uma referência bastante óbvia e um tanto indireta, onde os conhecedores poderão ver que, na verdade, a ligação já está feita; apenas não está detalhada.

Pois muito bem. Nemesis foi publicado em 1990. Não se passaram mais do que dois anos para que seu Autor reforçasse a inserção desse livro no universo da Fundação. Em Forward the Foundation, na parte 4, capítulo 5, página 327 (no meu exemplar, com ISBN 978-0-553-56507-2), o protagonista comenta:

Existe uma história curiosa, de cerca de vinte mil anos atrás e portanto datando das origens enevoadas das viagens hiperespaciais. É sobre uma jovem, com não muito mais idade do que Wanda, que conseguia se comunicar com todo um planeta, que circundava um sol chamado Nêmesis.

Na verdade, o “planeta” era uma lua, Erythro, que orbitava um planeta, e este, sim, orbitava Nêmesis. Mas não importa. Nota-se, nesse parágrafo, que Forward vem integrar Nemesis ao universo da Fundação, justamente ao tempo em que é o último livro deste universo escrito por Asimov.

A primeira interpretação que nos vem é que, tal como no caso de outras “lendas” do universo da Fundação, a história de Nemesis faz parte da continuidade e só ganhou o rótulo de lendária por causa do decurso de vários milênios. Mas considere o Leitor que vários dos elementos de Nemesis tornam este livro incompatível com o universo da Fundação, especialmente a ausência de menção a robôs e a invenção relativamente tardia da propulsão hiperespacial. Com essa perspectiva, posso admitir a ideia de que, dentro do universo da Fundação, Nemesis tenha sido realmente uma história de ficção, não uma história real transformada em lenda.

Mas admitamos que Nemesis faça parte do universo da Fundação, já que essa parece ter sido a sutil intenção do Autor, que certamente se divertiu com a perspectiva de que seus Leitores a perceberiam. Há inconsistências, mas são até esperadas, pois o próprio Asimov sempre se confessou preguiçoso em ficar perseguindo continuidades absolutas entre seus livros. Nem se poderia esperar outro resultado, considerando que os escritores mudam com o tempo e que é muito difícil respeitar continuidades em universos construídos ao longo de anos (vejam os casos da Terra Média de Tolkien, dos quadrinhos da DC e da Marvel, de Star Trek, e até mesmo de Babylon 5, que foi desenvolvida ao longo de um intervalo bem mais curto do que os desses exemplos).

Infelizmente, e justamente por causa dessa virtude de se conectar a livros anteriores, Forward the Foundation padece de uma síndrome: o Autor estava jogando para a galera. Nisso ele foi até explícito, pois a dedicatória do livro diz que é para todos os seus leitores leais. Em inglês, o nome disso é fan service. Trata-se do mesmo mal que acomete produções criadas depois que já existem legiões de fãs de uma original, como é o lamentável caso de Star Trek: Discovery. #faleiesaícorrendo

Explico-me. Nos anos 1940, Asimov foi inovador, genial e vigoroso ao imaginar um pujante Império Galáctico. No primeiro livro da Fundação, o visionário Hari Seldon fazia uso de indecifráveis abstrações matemáticas para prever que, contrariando todas as aparências e o bom senso do cidadão comum, o Império estava em decadência, rumando para uma inevitável extinção em cerca de trezentos anos. À volta dos personagens, tudo parecia indicar a continuidade do progresso dos milênios antecedentes, sem qualquer evidência de que o Império pudesse um dia rumar para o fim. Os sinais da queda sòmente podiam ser detectados nos fenômenos socioeconômicos de larga escala e com ferramentas avançadas de análise. Essa era a genialidade inovadora que Asimov somou à inspiração que lhe viera do Declínio e queda do Império Romano.

Assim é que Fundação começa sob a óptica de um cidadão das províncias visitando Trantor, o planeta-capital, e deslumbrando-se, olhos arregalados a maravilhas oriundas de todos os cantos da Galáxia, a uma atividade frenética e incessante de ruas lotadas, cores, luzes e a uma azáfama onde é fácil se perder. Ao longo desse livro, dos dois seguintes da trilogia (Foundation and Empire, Second Foundation) e dos dois romances ambientados subsequentemente (Foundation’s Edge, Foundation and Earth), o Leitor tem o privilégio de acompanhar panoramicamente a contração, a perda de controle e a Queda do Império, seguidas pelo ingresso de seus planetas na mesma escuridão milenar em que caiu a Europa ao fim do Império Romano. Perde-se o antigo conhecimento e todas as maravilhas retraem ao status de lendas. Mas eu reforço: na pioneira e histórica inauguração do primeiro livro da Fundação, os contemporâneos de Hari Seldon, especialmente os habitantes de Trantor, não tinham como perceber qualquer evidência da já iniciada decadência.

Já em Forward the Foundation, de 1993, presume-se que o Leitor já conheça todas as histórias publicadas anteriormente e portanto já saiba o destino do Império. Nesta prequel, o Leitor acompanha a vida de Hari Seldon a desenvolver a Psico-História enquanto é cercado de graves eventos políticos em Trantor. As cinco partes do livro retratam diferentes momentos da vida do matemático, separados um do outro por dez anos cada, e ao Leitor são reveladas a melancolia e a impotência de Seldon à medida que sinais óbvios se acumulam de que o Império já não consegue se sustentar. A dissipação e a insuficiência de recursos, o decaimento das instalações, o esvaziamento das ruas e das instituições, a rebeldia das províncias, tudo são evidências cumulativas, e os outros personagens gradualmente são forçados a concordar com a inevitabilidade do fim.

Mas justamente esse é ponto! Certamente, para o Bom Doutor, a lembrança que ele tinha, e a percepção que ele sabia que seus leitores teriam, era de que o Império estivesse em colapso ao tempo de Hari Seldon. Ao escrever Forward the Foundation, Asimov sabe que o Leitor tem seu próprio conhecimento privilegiado de que o Império está em crise, e então apresenta ao Leitor um cenário que confirma esse conhecimento, construído pelos livros anteriores. Só que é através dos olhos dos personagens que ele descreve um tal cenário. O Autor parece esquecer-se de que, na concepção original, os personagens não teriam sido capazes de perceber a decadência, nem muito menos deveriam ser capazes agora, em uma prequel. Por isso digo que, trazendo alegria e conforto ao Leitor ao confirmar seu antigo conhecimento, Asimov está jogando para a galera e, com isso, desrespeitando as ideias que ele mesmo havia construído.

Infelizmente, e decerto por causa dessa revisita a antigos conceitos, Forward the Foundation deixa de ter o vigor inovador dos primeiros livros. Em vez disso, parece atender ao desejo de quem espera ler mais do mesmo na longa fileira de títulos iniciada meio século antes.

Forward também enfatiza o envelhecimento de Hari Seldon. Em um período de cinquenta anos, o matemático vai gradualmente perdendo seus entes queridos, sua saúde e suas esperanças. Consequentemente, seu humor torna-se mais resmungão e mais impaciente, suas alegrias escasseiam, e vão crescendo seus sensos de urgência e de desamparo diante da crescente noção de que não conseguirá completar sua obra magistral, perdendo-se o esforço de décadas. Tenho certeza de que essa descrição é um intencional espelho dos sentimentos do próprio Asimov, que já contava 72 anos quando escreveu este último romance.

Até agora, só li 84% de Forward, mas desde o início já me vinha o sentimento de estar me aproximando do fim de uma jornada, pois foi a última visita que Asimov fez a seu tão longamente elaborado universo da Fundação — e todavia ainda com tanto, virtualmente infinito espaço para crescimento. Prova disso é que, após esta obra póstuma, ainda viriam outros quatro títulos autorizados para lhe dar continuidade sob a pena de outros escritores notáveis: Foundation’s Friends, Foundation’s Fear, Foundation and Chaos e Foundation’s Triumph. Serão os próximos na minha fila.

Além desses, há ainda mais numerosos romances não autorizados, ambientados no mesmo universo, como os da série Robot Mystery (quatro até agora), a Segunda Série dos Robôs, de Roger MacBride Allen, e romances isolados como Psychohistorical Crisis, de Donald Kingsbury.

… Aos quais chegarei no devido tempo. Por hoje, é o que eu tinha a comentar. :-)

O Bom Doutor, esse espertinho

Já por algumas vezes tentei escrever meu texto definitivo sobre o universo comum onde se passam inúmeras das histórias do futuro de Isaac Asimov. Terminei alguns textos parciais, que você encontra neste mesmo belogue. Agora, acho que saiu o texto que eu tanto queria. Não é definitivo, porque ainda não acabei de ler todos os livros do dito universo, mas já transmite a visão global que eu vinha buscando há um tempo.

O prolífico escritor americano Isaac Asimov (Petrovichi, Rússia, 1920 – Nova Iorque, 1992) publicou algumas centenas de livros. A maioria são de divulgação científica, mas os livros que o tornaram mais famoso foram os de ficção científica, em particular os contos de robôs positrônicos, aos quais o Autor ficou para sempre associado.

Nem todas as obras de ficção científica de Asimov tratam de robôs. O Bom Doutor publicou vários contos e romances, muitos dos quais são independentes, completamente desconectados de qualquer outra obra. Entetanto, muitos outros (perfazendo cerca de três dezenas de livros) são ambientados em um mesmo universo, a que os textos especializados se referem como o universo dos Robôs, Império e Fundação. Trata-se de uma extensa obra já revirada e analisada por uma multidão de leitores fiéis, que descreve o futuro da humanidade ao longo de milênios e que trouxe a Asimov reconhecimento como um dos maiores Autores de ficção científica até hoje. Nestes livros, os longos diálogos entre os personagens são o veículo para aquilo que mais tarde se convencionou chamar de world-building: extensas descrições da História, Geografia e sociedade do futuro, em uma visão grandiosa onde mais importante é o cenário do que as histórias.

Estes livros foram publicados ao longo de cinco décadas, na ordem em que ao Autor veio a vontade de escrevê-los: uma ordem bem diferente daquela em que se passam seus eventos. Então, existem pelo menos duas formas de se ler esta criação: a ordem histórica de publicação (à qual sempre dou preferência, tal como faço com quadrinhos, J.R.R. Tolkien, Jornada nas Estrelas e Babylon 5) e a ordem cronológica em que os eventos transcorrem no universo criado pelo Autor. As duas ordens estão minuciosamente analisadas em numerosos saites na Web. Para seguir a ordem histórica de publicação, pode-se procurar o artigo na Wikipedia, assim como numerosas fontes online; para seguir a ordem cronológica dos eventos, pode-se procurar a Lista de Ficção Insanamente Completa de Johnny Pez. Para uma história que explica como surgiu e evoluiu esta grande obra espalhada em vários livros, clique na Parte 1 da História das Histórias de Robôs Positrônicos e da Fundação.

Daqui para baixo, SPOILERS. Você foi avisado.

De 1939 até 1982, Asimov criou três universos narrativos sem conexão entre si:

1) Os contos de robôs, ambientados no Sistema Solar no século 21. A colonização dos planetas é auxiliada pela mão de obra dos robôs positrônicos, que são proibidos na Terra mas largamente empregados no espaço. Um número significativo destas histórias é protagonizado pela Robopsicóloga Susan Calvin; algumas, de fundo mais cômico, pelos especialistas Powell e Donovan. A maioria das histórias explora as consequências das Três Leis da Robótica, uma criação de Asimov que caracteriza seus robôs como máquinas úteis à raça humana, evitando o Complexo de Frankenstein. A maior parte destes contos estão agrupados nas coletâneas I, Robot (o mais famoso de todos os livros de Asimov, de 1950), The Rest of the Robots (1964), The Bicentennial Man and Other Stories (1976), Robot Dreams (1986), Robot Visions (1990) e na que reúne os dois primeiros, The Complete Robot (1982), embora alguns contos desses livros não façam parte do universo dos contos de robôs, por não serem compatíveis com as Três Leis.

2) Os romances de robôs, ambientados alguns milênios em nosso futuro. Fazendo uso da tecnologia hiperespacial, a humanidade alcançou cinquenta planetas em sistemas estelares próximos e neles fundou colônias, cujos habitantes são denominados Spacers. As colônias têm baixíssima densidade populacional, enquanto a Terra, superpovoada, é vista por elas como um planeta atrasado, doente e decadente. Enquanto a Terra continua a rejeitar a presença de robôs, as colônias fazem extenso uso deles como sua principal mão de obra. Isso as torna tão economicamente eficientes que a vida dos Spacers é um paraíso hedonista, onde ninguém precisa trabalhar e todos são mais saudáveis e longevos do que seus contemporâneos terráqueos. Essa dicotomia provoca hostilidade entre os dois grupos de humanos, terráqueos de um lado e Spacers do outro, os últimos vendo-se como um novo passo da evolução e os primeiros percebendo-os como elitistas esnobes. Oriundo de Nova Iorque, o Detetive Elijah Baley investiga homicídios na Terra e nas colônias com seu parceiro improvável, o andróide R. Daneel Olivaw, e os dois tornam-se grandes amigos. As obras são os romances The Caves of Steel (1954), ambientado em Nova Iorque, e The Naked Sun (1957), ambientado na quinquagésima colônia, Solaria, mais o conto Mirror Image (1972). Ainda, o conto Mother Earth (1949) passa-se alguns séculos antes dos romances e não faz uso dos mesmos personagens, mas integra o mesmo conjunto.

3A) Os romances do Império, ambientados alguns milênios depois dos romances de robôs. A humanidade espalhou-se e colonizou toda a Galáxia. Dos inúmeros planetas ocupados, Trantor expandiu sua influência a ponto de se tornar a capital de um crescente império, cujo tamanho é diferente de um para outro livro. A Terra é um planeta radioativo, visto como a escória decadente da Galáxia (ou até esquecido, dependendo da época). Os romances são os fracos Pebble in the Sky (de 1950, sendo o mais conhecido e menos ruim deste conjunto), The Stars, Like Dust (1951) e The Currents of Space (1952). Não há robôs nestas histórias.

3B) A Trilogia da Fundação. Trata-se de oito noveletas publicadas isoladamente de 1942 a 1950 e posteriormente agrupadas em três livros, junto com uma nona e tardia história. Entre os admiradores do escritor, esta trilogia é considerada sua obra-prima, tendo sido fortemente inspirada pela leitura do clássico Declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon. As noveletas mostram os dias finais do Império, ainda sediado em Trantor e, a esta altura, existente já há 12.000 anos. O Império estende-se por todos os milhões de mundos habitados por humanos nesta Galáxia, cada um com sua variada cultura, totalizando quatrilhões de súditos. Sua eclética capital, toda coberta de edifícios, representa a epítome da burocracia, para ela afluindo representantes dos mais variados cantos da Galáxia. (Costumo dizer que Londres, capital de um império onde o Sol não se punha, é a mais próxima imagem que hoje temos de Trantor. Imagino que, em Star Wars Episódio I, George Lucas tenha criado Coruscant à imagem daquele planeta-cidade.) Nesse contexto, o cientista Hari Seldon cria um novo ramo da Matemática ao qual batiza de Psico-história. Nesta ciência, as equações formuladas por Seldon permitem deduzir as tendências comportamentais de grandes populações com base em leis sociológicas e probabilidades e, com isso, essencialmente prever o futuro com suficiente e assustadora precisão; quanto maior a amostra, mais acuradas são as previsões. Esse conhecimento avançado permite a Seldon descobrir que o Império já está decadente e cairá em poucos séculos. Da mesma forma, para se atingir determinado resultado a longo prazo, as previsões da Psico-história permitem identificar quais são as ações eficazes. Assim, para preservar o conhecimento de milênios e abreviar a iminente idade das trevas, Seldon calcula que o melhor a fazer é instituir a Fundação, uma nova organização que sucederá o Império em meio a guerras e outros conflitos planetários. A Trilogia narra os desdobramentos da criação da Fundação e do Plano de Seldon ao longo dos séculos subsequentes, sendo constituída pelos livros Foundation (de 1951, abrangendo quatro histórias mais uma que se passa antes das demais mas que foi escrita por último, especialmente para este livro), Foundation and Empire (de 1952, com as duas seguintes histórias originais) e Second Foundation (de 1953, com as últimas duas histórias originais). Não se veem robôs em qualquer um desses livros.

Em algumas destas histórias do Império e da Fundação, fica implícito e, noutras, explícito que a raça humana é a única espécie inteligente em toda a Galáxia. Com isso, Asimov pôde concentrar-se em descrever sòmente conflitos envolvendo a própria raça humana, sem preocupações com alienígenas. (Havia uma motivação editorial antirracista por trás disso, explicada por ele mesmo em The Early Asimov (1972), que não vem ao caso agora.) Como, porém, o Autor nunca se preocupou muito com coesão ou consistência, existem alguns contos de robôs, e outros tantos que mencionam planetas do Império Galáctico, onde se dá o confronto entre a humanidade e outras civilizações. Pode-se considerar que estas histórias estejam fora do conjunto das demais apesar de conterem elementos que lhes são comuns. São elas Victory Unintentional (de 1942, continuação de Not Final!, de 1941) e Black Friar of the Flame (de 1942, fazendo referência a Trantor e a outros planetas do Império). Uma outra, Blind Alley (1945), também envolve alienígenas, mas, mesmo assim, é compatível com os romances do Império.

As obras dos três conjuntos acima ambientavam-se em épocas tão distintas que seu tratamento era absolutamente independente. Essencialmente, Asimov exercitava-se em três universos desconectados, um no futuro próximo, outro no futuro distante e um terceiro no futuro bem remoto, sem nenhuma intenção, plano ou esforço de reuni-los. Esse comportamento mudou nos anos 80, quando o Autor começou uma grande unificação dos três universos ficcionais, fundindo-os em um só. Ao longo daquela década, os novos trabalhos passaram a incluir referências bastante ostensivas aos elementos de histórias já conhecidas, costurando os diferentes retalhos em um tecido único.

A tarefa começou em The Robots of Dawn (1983), que é mais um romance de robôs com Baley e Daneel. Ambientado em Aurora, a primeira das Cinquenta colônias, The Robots of Dawn faz referências a eventos dos contos de robôs como parte de um passado já distante, ao mesmo tempo em que um de seus personagens especula sobre um futuro onde seja possível prever o comportamento da civilização com alguma espécie de “Psico-história”.

Nesse ponto, havia uma incompatibilidade entre os períodos históricos dos universos dos robôs e da Fundação. Se a humanidade já entregara à tecnologia robótica todo o trabalho braçal nos romances de robôs, como se explicaria que, milênios depois, não houvesse um só robô nas histórias de Império e Fundação?

A resposta veio do romance de robôs seguinte, ambientado alguns séculos após The Robots of Dawn, com o título de Robots and Empire (1985). Aqui, aprende-se que, conforme fôra previsto em The Robots of Dawn, os Cinquenta Mundos estagnaram e suas culturas começaram a definhar em razão do uso indiscriminado de robôs, que tirou todo o desafio da vida colonial. Ainda no intervalo entre um e outro livro, iniciou-se uma segunda onda de colonização do espaço a partir da Terra, sem o auxílio de robôs. Os mundos da segunda colonização começaram a disputar espaço político com os primeiros, mas seu vigor tende a prevalecer. Ao fim, inicia-se um processo onde a Terra se torna gradualmente radioativa, motivando a emigração e o paulatino abandono pela humanidade, e as colônias da segunda onda estabelecem as bases de um futuro Império Galáctico sem robôs, com o concomitante desvanecimento das Cinquenta colônias originais. Fica explicada a origem da radioatividade da Terra e do esquecimento do planeta original da humanidade nos livros do Império e da Fundação.

Nesse meio tempo, Asimov publicou um romance continuando a Trilogia da Fundação, com o nome de Foundation’s Edge (1982). Após esse livro, assim como havia começado a estender para o futuro os romances de robôs de modo a conectá-los às histórias do Império e da Fundação, da mesma forma ele passou a estender-se também a partir da extremidade oposta, contando, em retrospectiva, como os Cinquenta Mundos haviam dado lugar ao Império. Assim, em Foundation and Earth (1986), continuação de Foundation’s Edge, os protagonistas partem em busca da Terra, agora já um planeta mítico, de cuja existência muitos duvidam. No processo, encontram restos de algumas das já abandonadas Cinquenta primeiras colônias, deparam-se com Daneel (ainda operacional após tanto tempo) e descobrem que ele foi o grande mentor, tanto da formação do Império como da posterior Fundação. Com Foundation’s Edge e Foundation and Earth, passa a haver uma Série da Fundação, para além da Trilogia original.

Pouco depois (1988), Asimov publicou a prequel Prelude to Foundation, que relata um momento da juventude de Hari Seldon, pouco após o matemático inventar o conceito de Psico-história. Em uma das passagens, descobre-se que o setor mais tradicionalista de Trantor é ocupado por descendentes dos habitantes de Aurora, em uma cultura que reverencia o passado perdido, em que eram mestres de robôs. Ao fim do livro, Seldon descobre que ainda existem alguns robôs, disfarçados entre os humanos, um dos quais é Daneel, que continua a influenciar vigorosamente a evolução da humanidade.

É inevitável que, ao longo de cinquenta anos de publicações e sendo tão numerosas as histórias, existam inúmeras inconsistências dentro desta majestosa obra. Apesar de ser um só Autor por trás de todos os livros, Asimov sempre se confessou indisposto ao esforço de compatibilizar novas histórias com as velhas, preferindo concentrar-se na diversão criativa e, por vezes, estabelecendo o que se costuma chamar de continuidade retroativa (quando novas obras essencialmente reescrevem o passado, substituindo o conhecimento dos eventos que o leitor tinha a partir de histórias mais antigas).

Eu só escrevi todo este resumo porque queria comentar o romance que terminei na semana passada, Nemesis, de 1989. Este foi o primeiro romance de Asimov que se pretendeu autônomo em sua obra desde 1972, com uma história original não relacionada às de robôs ou da Fundação. Ambientado no século 23, ele conta como a primeira colônia orbital sai do Sistema Solar e, em uma longa viagem, vai acercar-se de uma estrela anã vermelha descoberta a apenas dois anos-luz do Sol. Ao longo do livro, os personagens inventam a tecnologia hiperespacial, que permite viagens instantâneas entre localidades situadas a anos-luz uma da outra.

Na Nota do Autor ao início de Nemesis, Asimov diz (e traduzo livremente do original, pois não tenho à mão um exemplar da edição da Nova Fronteira) que “este livro não é parte da Série da Fundação, da Série dos Robôs, nem da Série do Império. Ele se sustenta independentemente. Apenas pensei em alertar o Leitor para evitar uma apreensão mal dirigida. É claro, posso um dia escrever outro romance ligando este aos demais, mas, por outro lado, pode ser que não. Afinal, por quanto tempo conseguirei chicotear minha mente para fazer funcionarem estas complexidades da História do futuro?”

Essa passagem é intencionalmente ambivalente. De um lado, Asimov liberava-se para escrever uma obra original, sem compromisso com o universo estabelecido entre robôs e Fundação. Por outro lado, nota-se a intenção, ainda embrionária, de inserir o livro no conjunto da obra maior.

No entanto, olha só o discurso de uma personagem que se encontra a duas páginas do fim do livro: “no fim, talvez a Galáxia venha a ter dois tipos de mundos, mundos de terráqueos e mundos de mais eficientes pioneiros, os verdadeiros Spacers. Eu me pergunto como isso se resolveria. Certamente significaria que o futuro estaria com eles. Em certa medida, eu lamento isso”. Nas duas últimas páginas, outro personagem “sabia que a humanidade correria de estrela para estrela tão facilmente como tinha corrido de continente para continente (…). A mesma anarquia, a mesma degeneração, a mesma mentalidade inconsequente de curto prazo, todas as mesmas disparidades culturais e sociais continuariam a prevalecer — por toda a Galáxia. O que haveria agora? Impérios galácticos? Todos os pecados e tolices graduados de um mundo para milhões? (…) Quem conseguiria enxergar sentido em uma Galáxia, quando ninguém conseguira enxergar sentido em um único mundo? Quem aprenderia a ler as tendências e prever o futuro em uma Galáxia inteira fervilhando de humanidade?”

Quando cheguei a esse trecho, imediatamente percebi o propósito do Bom Doutor. Era quase uma pilantragem: embora ele não assumisse qualquer compromisso de tornar Nemesis compatível com os livros anteriores, desobrigando-se de eliminar inconsistências e de conectar uma história às outras, estava claro que se referia ao período histórico dos romances de robôs, ao Império Galáctico e à Psico-história. Certamente é por causa dessas duas passagens que os pesquisadores situam Nemesis como “tangencialmente” situado no universo da Fundação.

Mais recentemente, descobri que o clássico The End of Eternity, de 1955, também “tangencia” a Série da Fundação. Considerando o ano de publicação, decerto o Autor terá feito isso de forma menos deliberada. Ainda assim, creio que terei que lê-lo prioritàriamente, antes de passar aos últimos livros: Forward the Foundation (1993) e, da pena de outros Autores, Foundation’s Friends (1989), Foundation’s Fear (1997), Foundation and Chaos (1998) e Foundation’s Triumph (1999).

Antes de fechar, quero apenas observar que todos esses livros (até onde sei) foram publicados no Brasil, vários em traduções castiças pela editora Hemus (nos áureos tempos), outros tantos pela Record. Nos últimos três ou quatro anos, os romances de robôs e do Império e os sete livros da Fundação têm saído em novas traduções pela editora Aleph, que parece ressurgida das cinzas com várias traduções de clássicos, não sòmente de Isaac Asimov mas também de Arthur Clarke, Philip Dick e outros veneráveis mestres. A meus estimados Leitores que porventura tenham tido a paciência de chegar até aqui, recomendo embarcar nessa viagem, que, até agora, já me tomou belos oito anos de leituras e há de tomar ainda mais alguns.

ATUALIZAÇÃO EM 4 DE MARÇO DE 2018:
Já li The End of Eternity e estou lendo Forward the Foundation. Veja como é que o primeiro se integra ao universo da Fundação e como foi que afinal Asimov conectou Nemesis a esse universo, clicando aqui.

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Foundation and Empire (Fundação e Império), de Isaac Asimov

Pesquisando Isaac Asimov na Web, descobri que sua obra mais aclamada é a trilogia da Fundação. Diz a lenda (ou melhor, a Lenda, porque é o próprio Asimov quem conta) que ele havia acabado de ler o Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon, e que estava agitado para escrever uma história semelhante, mas ambientada no futuro. Expôs a ideia a seu editor, que a encomendou.

No caso do Império Romano do Ocidente, aconteceu o seguinte. Após abranger metade da Europa e todo o entorno do Mediterrâneo, Roma estava demasiadamente estendida, e já não era possível manter as linhas de comunicação nem a coesão do império. Gradualmente, aumentou a dependência do governo central sobre as províncias, cujos senhores locais foram ganhando autonomia. Ao mesmo tempo, a abastança da capital gerou imperadores acomodados, que já não se ocupavam de estratégias de expansão nem de manutenção da infraestrutura. Das províncias, vinha tanta riqueza que os imperadores gastavam a maior parte do tempo em intrigas palacianas e terminavam assassinados por usurpadores. Ocupando-se do próprio umbigo, o poder central descuidou-se de manter a pax romana e, com isso, foi regredindo e permitindo a projeção dos poderes periféricos. Um dia, vieram invasões. Os poderes periféricos, conquistados pelos bárbaros ou não, tiveram que se virar sem o apoio do império, que acabou caindo também. Esse foi o início da Alta Idade Média, com a Europa dividida em inúmeros reinos e principados. Com a institucionalização das culturas germânicas sobre os escombros do Império, veio o feudalismo.

O que Asimov fez de 1942 a 1945 foi contar uma história semelhante, mas ambientada em um futuro indefinido em que a Galáxia começa sob o domínio do grande Império Galáctico. Sua capital, Trantor, é aquele pujante entroncamento de culturas e tecnologia que George Lucas representou como Coruscant. Pessoalmente, penso sempre numa Londres metálica e de dimensões planetárias. Afinal, Londres é a antiga capital do Império onde o Sol não se punha, recebendo tributos e visitantes das culturas mais variadas da Terra. Como a BAxt poderá confirmar, ali você encontra desde comida tailandesa até jóias do Azerbaijão.

A história começa com a inevitável queda do Império Galáctico e concentra-se na iniciativa de um brilhante matemático, Hari Seldon, cuja nova ciência da Psico-história permite, através de equações, prever o futuro mais provável de uma civilização com percentuais de probabilidade que equivalem à certeza. Seldon descobre que o Império deixará de existir em menos de trezentos anos, e que se seguirão trezentos séculos de barbárie. Para abreviar essa grande noite da ignorância, concebe a Fundação, situada em um planeta no limite mais externo da Galáxia. De acordo com o Plano de Seldon, a Fundação abrigará o conhecimento científico do Império e servirá como um farol na escuridão, permitindo o surgimento de um novo império em apenas mil anos. (Só uma coisa: mais alguém notou que essa é a mesma premissa da série Gene Roddenberry’s Andromeda?)

A narrativa da Fundação desenrola-se em oito grandes contos que a acompanham ao longo dos séculos e que foram publicados naquelas clássicas revistas de ficção científica dos anos 40. No início dos anos 50, uma editora iniciante se dispôs a compilar esse material. Então, o Autor escreveu mais um conto, que passou a ser o primeiro da sequência, e agrupou os nove contos em três livros: Foundation, Foundation and Empire e Second Foundation, que passaram a ser chamados, coletivamente, de “trilogia da Fundação”. Nos anos 80, Asimov publicou duas continuações (Foundation’s Edge e Foundation and Earth) e dois romances que se passam antes da trilogia (Forward the Foundation e Prelude to Foundation), mas eles não têm a mesma reputação do material original.

Hoje de madrugada, terminei o sétimo conto e, com ele, o segundo livro. Atenção: no trecho identado abaixo, vou contar detalhes da história até aqui e revelar o final do livro. Prossiga sob seu próprio risco.

No primeiro livro, aprendemos como a Fundação, inicialmente confiante no apoio do Império, acaba isolada entre planetas ignorantes e belicosos. Ora, clàssicamente, os detentores da tecnologia sempre foram temidos como magos encerrados em seus castelos, senhores de mistérios da vida e da morte: haja vista o arquétipo que alimenta as histórias do Golem, dos alquimistas, do Fausto de Goethe, de Frankenstein, de Gandalf e dos tecnomagos de Babylon 5. Então, a Fundação se vale disso e cria uma religião com que seus “sacerdotes” dominam os novos reinos que a rodeiam. Mais tarde, ela começa a vender as traquitanas de suas inovações tecnológicas cujo desenvolvimento o agonizante Império já não consegue acompanhar; e passa a dominar pelo dinheiro.

Na primeira metade de Foundation and Empire, um general tenta reconquistar a Fundação, em um último espasmo de glória a um imperador que só se preocupa com as frivolidades da corte. Nesses dias de ocaso do Império, o cinismo impede a sobrevivência de idealismos patrióticos, regulando a política de nobres que só querem expandir sua parcela de poder pessoal. Nos estertores, o Império decai para a autofagia, e o general é acusado de traidor por pretendentes do trono que preferem nivelar por baixo e veem nele uma ameaça a seus planos.

Na segunda metade de Foundation and Empire, surge a Mula, um mutante misterioso que ràpidamente subjuga alguns reinos relativamente poderosos. Um casal de cidadãos da Fundação é enviado a Kalgan, a mais recente e espetacular conquista da Mula, para descobrir quem é esse sujeito e qual é seu poder tão especial que dominou o planeta sem dar um tiro. Durante a visita, o casal resgata um homem esquisitíssimo e vestiço de palhaço, que estava sendo assediado por soldados. Na fuga, descobrem que se trata do bobo da corte da Mula e, na esperança de obter segredos úteis, dão-lhe asilo político na Fundação. O homem revela-se sempre inofensivo e inocente, mas pouco útil, porque se comporta feito uma criança autista e se apresenta sempre tão apavorado que não consegue articular um pensamento.

Fiquei um bocado desconfiado do palhaço. Afinal, ele é esquisito, a Mula é um mutante, sua aparição é tão conveniente aos dois espiões, e continuamos sem ver nem saber quem é a Mula.

Pouco depois, a Mula exige que a Fundação devolva seu palhaço, que alega ter sido sequestrado. Não sei por quê, mas foi nesse ponto que comecei a pensar que o palhaço era a própria Mula. Deve ter sido meu cinismo, que sempre parte do pressuposto de que, quanto mais perigosa a ameaça, mais inofensiva ela vai tentar parecer. De todo modo, o “sequestro” é a desculpa da Mula para mover guerra à Fundação, que também é conquistada sem violência. No último dia antes da invasão, o casal espião foge levando o palhaço para uma das colônias, que serve como refúgio à resistência.

O palhaço continua sendo desprezado por todos, que o deixam a sós com suas tolices. A Mula continua avançando, e continuamos a não vê-la. Minhas suspeitas aumentam.

Como garantia contra o fracasso do Plano, Seldon também havia estabelecido uma Segunda Fundação no lado oposto da Galáxia, a respeito da qual, até aqui, só sabemos que existe e mais nada. Na fuga, o casal espião é acompanhado por um matemático que procura reconstruir o conhecimento de Hari Seldon, perdido há séculos na desagregação do Império, para descobrir onde fica a Segunda Fundação e, com isso, avisá-la contra o avanço inexorável da Mula. O plano do matemático envolve uma viagem às ruínas de Trantor, onde é possível que ainda estejam os antigos arquivos.

A colônia resistente é conquistada sem luta, e a esposa observa que é muita coincidência: o casal está sempre um passo à frente, escapando no último minuto. Nesse ponto, eu ainda não tinha certeza de que o palhaço fosse a Mula: imaginei que ele pudesse apenas ter um daqueles localizadores que, nos filmes, o herói encontra embaixo do carro. Mas minha aposta continuava sendo que ele fosse a Mula sim.

A caminho de Trantor, a nave do casal é interceptada. Marido e palhaço são levados como reféns, separados um do outro mas devolvidos sem demora. Marido crê que a nave tenha sido enviada pela Mula, cujos homens conseguiram segui-los de algum modo. Palhaço tem outra teoria, que o convence e desconversa. Minha desconfiança transforma-se em certeza.

Em Trantor, a história se acelera e se enche de sinais de que algo está para acontecer, o que me fez perceber que o clímax estava perto apesar de faltarem dezenas de páginas. O matemático passa semanas revirando os antigos registros e calcula a localização da Segunda Fundação. Então, percebendo que vai morrer, elimina todos os rascunhos e diz ao casal que vai revelar o segredo só a eles — na frente do palhaço. Antes que ele diga, a esposa explode sua cabeça. O marido cobra uma explicação. E ela demonstra, item por item da história que acabei de lhe contar (revendo muito mais e menores detalhes, é óbvio), que o palhaço só pode ser a própria Mula.

Pela primeira vez, o palhaço fala como um ser humano normal. E confirma.

Fim. As páginas seguintes eram de anúncios de outros livros.

Aí, sem sacanagem: li as trinta últimas páginas de um pulo. Eu virava, já ia pro final — porque percebi que algo importante estava acontecendo e não aguentava o suspense — e tinha que voltar para ler de verdade, devagar.

Talvez eu tenha visto uma quantidade suficiente de episódios de seriados que lidam com mistério. Talvez seja o fato de estar assistindo a Babylon 5, que é cheia de sinais espalhados ao longo da história e onde ninguém é o que parece. Talvez eu tenha visto episódios demais de Scooby-Doo. Talvez Asimov tenha dado bandeira, semeando muita coisa que parecia não contar para a história e, com isso, despertando minha desconfiança (afinal, é sempre assim: quando o mistério é esclarecido, você descobre que sempre tivera os elementos, que eles nunca pareciam importantes e que bastava tê-los ligado com senso crítico, sem o envolvimento que os personagens têm). Talvez o excesso de atenção dada pelo Autor ao palhaço, aliado ao fato de que ele, na verdade, nunca fazia nada nem contribuía para os acontecimentos, tenha colocado um holofote em cima dele. Talvez o palhaço fosse a famosa arma de fogo de Chekhov.

De um lado, fiquei me sentindo vitorioso, por ter decifrado o mistério antes que o Autor o revelasse. Por outro, fiquei pensando se não era exatamente isso que ele queria, em uma espécie de parceria comigo. Em 1942, Asimov lançou uma ponte para alcançar mentes no presente e no futuro, inclusive a minha. É como um pequeno vislumbre e compartilhamento daquilo que o divertia, como um pequeno presente que ele me deu. Só tenho a agradecer.

A seguir, O príncipe, de Maquiavel, em tradução de 1933 pela editora Calvino Filho; e, depois, a Segunda Fundação.

Visitas recentes:
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Recém-lidas:
Os Novos Titãs no. 97 (abril de 1994), inclusive “Childhood’s End”, originalmente publicada em Team Titans #1-A (setembro de 1992);
primeiras histórias de Team Titans #1-A a 1-E (setembro de 1992), publicadas em Os Novos Titãs no. 100 (julho de 1994). A primeira é imitação da origem do Dr. Manhattan, de Watchmen. Todas têm premissas genèricamente interessantes, mas todas são cheias de clichês e têm péssimos diálogos, desenvolvimentos sofríveis e desenhos feios e carregados de poluição visual;
Action Comics #682 (outubro de 1992), “Gauntlet”, publicada em Super-homem no. 125 (novembro de 1994);
Justice League Europe #42 (setembro de 1992), “Mother of Monsters”, publicada em Liga da Justiça e Batman no. 7 (fevereiro de 1995) — os desenhos são pavorosos e o colorido está todo errado, mas a história traz um interessante desenvolvimento a Power Girl. A jovem ruma para resolver suas inseguranças através do contato com a deusa-mãe que, do interior da terra, estimula sua feminilidade e, com isso, nutre a vida e desperta a criatividade.

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