Laboratório da evolução, 2010

Diz a teoria da evolução que, quando as condições ambientais mudam, as espécies mais adaptadas vão sobreviver, enquanto as outras vão se extinguir. (Aliás, é com base nisso que Richard Dawkins tenta levantar seu astral dizendo que você necessariamente descende de uma linhagem de vencedores.)

Antigamente, o metrô do Rio de Janeiro era simples. Na linha 1, as estações terminais eram Botafogo e Saenz Peña. Qualquer trem que você pegasse em uma dessas estações iria te levar, necessariamente, a todas as demais, inclusive Estácio.

Mesmo assim, todo dia alguma desdentada me perguntava, “moço, qual é o trem que vai pro Estácio?” Meu ódio fervia por causa do óbvio, até o dia em que minha colega Maria Luiza, engenheira hidráulica que é exemplo de profissionalismo e discrição e que pega trem lá pra não sei onde, esclareceu-me que, na Central do Brasil, você tem que saber em qual trem está embarcando, porque não tem uma linha só; e essa gente está acostumada é com isso. Vá lá. Entretanto, continuo com ódio, porque, diabos, basta olhar em volta. Tem mapa, tem sinalização, tem tudo.

Mas, enfim, aqueles tempos eram simples. Só tinha um tipo de trem na linha 1, e o único lugar onde as faxineiras mudavam de linha era no Estácio. Simples, simples, simples, e, mesmo assim, toda vez eu tinha que responder.

Os tempos mudaram e com eles veio uma confusão do catso. Depois da obra entregue este ano (note bem que eu não disse “terminada este ano”), o metrô passou a ter trens circulando na linha 1 sem serem exatamente da linha 1. O trem da linha 1, mesmo, circula com um painel de LEDs vermelhos, avisando que é o trem da linha 1. Aí vem um trem lá de Deusmelivre, ocupando os mesmos trilhos da linha 1, mas só circulando na linha 1 entre Central e Botafogo. Os LEDs desse trem são verdes, indicando que é um trem da linha 2. Além disso, acabou a conexão no Estácio, e os pobres têm várias opções de estação para mudarem de um trem para outro: todas entre Central e Botafogo.

Exceto que não exatamente. Porque à noite, nos fins de semana, nos feriados, nos dias que terminam em “-feira”, e nos horários entre 6 da manhã e 18 horas, ou bàsicamente quando eles querem, o Metrô Rio costuma suspender esse esquema e voltar ao esquema antigo. Apagam os LEDs dos trens da linha 1 (porque òbviamente só podem ser da linha 1, certo?, pra que os LEDs?), e volta a necessidade de fazer conexão no Estácio. Então fica assim: tem dia que duas linhas ocupam os trilhos da linha 1; tem dia que a linha 2 sai da linha 1, passa pela Central mas daí vai direto a São Cristóvão sem passar pelo Estácio; e tem dia que, para passar da linha 1 para a linha 2, tem que descer no Estácio tal como antigamente. E às vezes eles não avisam. Ou seja, um bundalelê do ca**lho, onde ninguém se entende e onde, mais de uma vez, já vi os seguranças inúteis, mal orientados, dando informação errada pro passageiro.

Hoje, por exemplo, resolvi pegar o metrô no final do expediente, como não fazia havia meses, achando que estaria menos cheio por ser dia enforcado (ontem foi Corpus Christi, amanhã é sábado) e porque agora, supostamente, acabou a megatransferência dos pobres do Estácio, de modo que eles estariam todos no outro trem. Ledo engano. Foi eu passar meu cartão pré-pago maldito, rodar a catraca, e ouvir o infeliz do PA avisando que, hoje, “excepcionalmente” (“rá rá rá”, riu-se o Doutor Plausível), a conexão voltou a ser necessária no Estácio. Lá fui eu ter que esperar um trem menos entupido para dividir meus seis centímetros quadrados com a metade da população mais odiada pelo Deputado Justo Veríssimo.

E foi aí que me dei conta de uma coisa. Já faz vários meses que não vejo mais as lavadeiras perguntadeiras. Nada daquelas aflições com lenço na cabeça e Folha universal na mão, perguntando qual é o trem que vai pro Estácio. Considerando a mudança súbita das condições ambientais nos meses precedentes, e sabendo da reduzida capacidade que algumas pessoas têm de se adaptarem a mudanças, estou entendendo que essa espécie tenha sido extinta.

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A imbecilidade humana, mais de perto

Vou começar com a seguinte premissa: o Metrô está errado. Não há como livrar a cara da empresa. Tudo que vem dando errado nos últimos meses, tudo, tudo, é culpa do Metrô Rio.

Pra você, que não usa o sistema, permita-me explicar. Aqui no Rio, existem duas linhas de metrô: linha 1 e linha 2. Para passar de uma para outra, você desce na estação Estácio e sobe ou desce a escada. Alguns meses atrás, os governos estadual e federal e o Metrô fizeram o maior alarde para dizer que isso tinha acabado e que, agora, você embarca na linha 2 e vai direto até o ponto final da linha 1, sem mudar de linha. Se você, que está fora do Rio, está se perguntando como pode e desconfiando que não faça sentido, é porque não faz mesmo. Na verdade, era mentira. Ainda é necessário descer no Estácio.

Exceto que, durante a semana, na linha 1, circulam trens das duas linhas. Então, é o seguinte; preste atenção: quando você está na linha 1 e vem um trem, é preciso reparar na tabuleta na frente do trem. Se estiver escrito “Pavuna”, é que, lá na frente, ele vai mudar da linha 1 para a linha 2. Se estiver escrito “Saenz Peña”, é que ele vai permanecer na linha 1. Além disso, existe na plataforma um LCD que diz para onde está indo o trem, nos mesmos termos. Basta ler a droga da tabuleta ou o raio do LCD que você vai para onde quer.

É claro que um sistema desses é absolutamente confuso. Não bastasse o fato de que, a cada seis meses, eles mudam os nomes das direções na linha 1 (já foram Tijuca e Botafogo, depois passaram a ser Zona Sul e Zona Norte, depois Saenz Peña e General Osório, e assim até acabarem os nomes, quando então ciclarão de volta), eles òbviamente tinham que up the ante e aumentar o valor da aposta, fazendo os trens das duas linhas andarem nos mesmos trilhos. Com a população analfabeta que temos, realmente ajuda muito. Some-se a isso o desastre das integrações multiplicando por um milhão o número de passageiros, mais os trens que não aguentam mais a quantidade de gado que estão carregando e cujo sistema de ar condicionado pede arrego, mais as quebras e paradas inúmeras que acontecem durante o dia, mais o eventual desligamento do arcond (antigamente, ele ficava ligado mas os retardados achavam que não, porque continuava quente. O imbecil queria geladinho até num dia de 40 graus com o triplo de gente que o vagão comportaria, já que o imbecil não sabe como arcond funciona. Agora é diferente, eles desligam mesmo), e você tem o quadro catastrófico que só quem viaja sente.

Agora, a ressalva é a seguinte. Este nosso povo desdentado, mulambento, que arrasta chinelo pelo chão por absoluta preguiça de levantar o pé, este povo de beiço pendurado e se entupindo de salgadinho Torcida, este povo com a bermuda que põe a bunda à mostra ou encrava o shortinho no rêgo (dependendo do sexo), este povo que acha estèticamente desejável a mulambice escrotástica e repulsiva da Gata da Hora do jornal O dia (outro dia, li no mesmo jornal que já teve até travesti na capa e, pelo visto, nenhum desses boçais rematados percebeu a diferença), este povo, enfim, que “é brasileiro e não desiste nunca” de pelar o saco, este povo faz questão, questão de não prestar atenção, um minuto que seja, aos avisos que são dados pelo sistema de alto-falante.

Acompanhe o caso. Hoje, embarquei quando o LCD dizia “Saenz Peña”, o que estava repetido na tabuleta, lá na frente. Dentro do trem, duas mulambas, vestidas com aqueles trapos de R$ 0,99 mas certamente se achando a caminho de alguma festa bizuleu regada a Skol em lata, conversavam entre si e totalmente ignoravam os avisos insistentes que o desgraçado do condutor repetia a cada parada: “este trem está indo para a estação Saenz Peña. Para tomar a linha 2, os passageiros devem descer na estação Estácio”. Chegou ao Estácio e metade do trem saiu. As duas mulambas imediatamente sentaram à minha frente e continuaram a não dar bola para avisos sonoros, indiferentes ao fato de metade do trem ter saído. Até que viraram pra trás e perguntaram para o rapaz a meu lado: “ué, não tá indo pro Estácio não?”

— O Estácio já passou.

— Ué, mas tem que fazer a baldeação? Disseram que tinha acabado a baldeação.

— Não acabou não. Pra fazer baldeação, tem que descer no Estácio e pegar a linha 2.

— Ué, mas eu perguntei pro rapaz [deve ter sido um segurança] e ele disse que tinha acabado a baldeação no Estácio. [Quer dizer: se for verdade, ainda por cima os empregados continuam dando informação errada. Realmente, o nível de orientação que costumo testemunhar nos empregados do Metrô costuma ser sub-Bob’s.]

Nisso, saíram para pegar o trem em sentido oposto, a fim de voltar para o Estácio e lá pegar linha 2 para seu baile fanque. Mas você vê? Ninguém presta atenção a NA-DA. Já vi isso acontecer inúmeras vezes: o condutor avisa e repete, insiste, enche o saco, mas, quando chega no Estácio e sai aquele mundo de gente, sempre tem um retardado que permanece a bordo e não se toca de que todos os demais arrasta-chinelos saíram de uma vez. O imbecil sempre se surpreende quando chega à Saenz Peña e descobre que tem que voltar.

Não vejo outra explicação para o que relatou meu ex-padawan Rumpelstiltskin. Que me perdoe seu ponto de vista tão condescendente dessa vez, mas só pode ser isso: permanente ânimo que têm de JAMAIS prestar atenção a qualquer aviso.

Na empresa onde trabalho, todo ano eles fazem uma simulação de incêndio, para manter a proficiência da evacuação do prédio. O aviso de emergência é dado por uma gravação no sistema de som: “atenção. É necessário abandonar este andar”. Tenho certeza de que, no dia em que for real, essas mulambas vão todas morrer. Acenderei uma vela para São Darwin, agradecendo também a elas por contribuírem para a melhoria da raça humana pelo maravilhoso mecanismo da seleção natural.

Desgraçadas.

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Tomara que os maias tenham acertado a previsão

Hoje eu estava olhando as reações dos belogues à vitória do Brasil nos Jogos Olímpicos de 2016.

(Ué, não era isso? Bom, mas já deve ter gente por aí achando que é. “O Brasil ganhou os Jogos Olímpicos de 2016.” Assim, por antecipação.)

É muito engraçado. Váááários belogues e comentários com atitude ambivalente. De um lado, condenam os negativistas, os derrotistas, e ufanam-se com a grande vitória que afaga nossa auto-estima (“auto-estima” agora é sem hífen? Pesquisaí). Que o Rio é tão bom quanto Oslo e que Liechtenstein tem problemas urbanos iguaizinhos aos nossos. De outro lado, admitem que “vai ser a maior roubalheira”, “não resolve nossos problemas”, “cabe a nós a fiscalização” etc.

Como sempre, não sei de nada. Mas o metrô vai até a Barra. Então, o sujeito vai sair lááá da Pavuna, vai dar a maioooor volta, vai passar pelo Centro, vai até a Barra. O que eu não entendi é como é que vou fazer para descer na Carioca. Sim, porque, quando você achava que não tinha como aumentar o grau de compactação, vêm os guardas com chicotes que dão choque e te fazem perceber que, se ficar na ponta do pé, até dá pra respirar. “Atenção! Todo o mundo bidimensional aê! Aperta mais! Você aí! Molda na parede! Isso!”

(Eu já contei de quando não consegui mover a cabeça no metrô? É angustiante. Não podia girar a cabeça para os lados. Não há nem que temer o batedor de carteiras, porque ele também não consegue mexer a mão. Em condições assim, nem precisava de vagão das mulheres.)

E não venham me dizer que estou amargo. Agora somos internacionalizados. Eu estou é demi-sec.

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As mensagens que você passa

Refletindo sobre o episódio da menininha no metrô, fui lembrado de perguntar por que ela me pediu para ler a revista. Até agora, pensei em meus próprios termos, julgando que a revista tivesse algo em si mesma que despertasse o interesse da menina. Como a revista estava comigo, ela teria que pedir acesso.

Mas contei a história ao Raposo, que é pai de um menino mais ou menos da mesma idade e que me fez observar alguns meta-aspectos que eu estava deixando de lado. Segundo ele, provàvelmente a menina não estava tão interessada em algum conteúdo que tivesse percebido na revista. Acontece que ela viu um sujeito de terno, gravata e pastinha de couro, provàvelmente voltando do trabalho, com toda a aparência de seriedade mas lendo revistinha. Ora, certamente ela associa quadrinhos a infância (é o que faz a ignorante maioria das pessoas), mas viu um sujeito adulto lendo quadrinhos. Então, terá ficado curiosa, primeiro com o aparente contrassenso; segundo, com essa revista que devia ter algo de muito especial. É nesse ponto que ela quereria saber o quê.

Até ali, eu, sem saber, já havia deixado algumas mensagens para ela: que é lícito ler quadrinhos em idade adulta; que a leitura é algo tão bom que a gente a pratica sempre que tem um tempinho, até no metrô; e que, por mais atarefado e profissional que se seja, sempre se consegue um tempo para essa gratificação, mesmo que seja no metrô.

É claro que também se pode entender que eu seja um pobre-diabo tão atarefado que só mesmo no metrô vá ter tempo para a leitura.

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Cumprindo minha missão

NT100

A capa é a mesma de Team Titans #1-A.

Hoje, eu voltava do trabalho em pé no metrô, lendo Os Novos Titãs no. 100. À minha frente, estava sentada uma menina, seus 8 a 10 anos, ao lado da mãe. De repente, a menina deu um toque na revista, chamando minha atenção.

— Posso ler com você? — perguntou da maneira mais despojada e aparentemente sincera.

— Cuma?

— Posso ler com você?

A primeira voz que ouvi foi a do egoísmo mesquinho: não, não pode, é minha e eu quero continuar a ler. Essa voz foi prontamente espancada e silenciada.

A segunda voz foi a da razão: impossível deferir ao pedido. Se estou em pé na frente dela, não tem como ela ler junto comigo. Um de nós teria que girar 180 graus. Além do mais, a história é complexa e violenta demais para uma menina da idade dela, cheia de palavras e conceitos que requerem uma cultura geral que ela não tem. Também é continuação da edição 99, de modo que ela não a entenderia. Não bastasse tudo isso, a história é simplesmente ruim. Não a recomendo nem a uma criança de oito anos, que deveria estar lendo alguma coisa mais divertida e mais instrutiva.

A terceira voz foi a da sabedoria. Se tem uma coisa que eu NÃO vou fazer é me tornar em obstáculo entre uma criança e a leitura. Taqui, na minha frente, uma oportunidade de ouro, que talvez nunca se repita, de facilitar o caminho entre ela e o mundo dos livros; os quadrinhos são uma excelente via para isso. É um momento em que nenhum adulto metido está impondo um livro chato a ela: ao contrário, ela está, espontaneamente, deixando-se levar pela curiosidade de ler alguma coisa. A revista está sendo puxada por ela, não empurrada a ela. E eu tenho o DEVER auto-imposto de facilitar o acesso, ou não me chamo Atoz (vá ao Google: veja por que me chamo Atoz. Dica: jogue, também, as palavras-chaves Sarpeidon e “Beta Niobe”).

Enquanto a mãe morria de vergonha e tentava censurar a menina, respondi à última ignorando a primeira.

— Isso vai ser um pouco difícil, porque nós estamos um de frente para o outro. — Fiquei pensando, aqui estou eu, de terno e gravata, discutindo geometria espacial com uma menina desconhecida de oito anos. Os buracos em que se metem as mentes cartesianas iludidas.

A menina não entendeu nada, “hã?”, porém continuei, “mas a gente pode fazer o seguinte: você vai lendo até a gente chegar na Tijuca”, e estendi-lhe a revista.

Ávida, ela foi abrindo as páginas, toda estabanada, e vi que a segunda metade da revista se separava da primeira ao longo da lombada.

— Cuidado, vai abrir as páginas.

Ela passou a folhear com mais cuidado e pensei, raios, ela vai entender que não é pra ler, e não é nada disso. Então, voltei à página que se abria e mostrei, “tá vendo, se abrir muito vai rasgar”.

— Ih! Por que que fica assim?

— Porque é velha. (Verdade. NT 100 é de julho de 1994 e o papel está seco.)

Foi lendo. Abriu numa página.

— Era aqui que você tava?

— Não, eu já tinha passado daí.

Voltou para o começo e foi lendo a revista em voz alta, com uma sensível dificuldade que, na idade dela, eu não tinha mais: para mim, aos oito anos,  ia tudo fluindo. Também pensei, na minha época, depois do CA não tinha mais isso de ler em voz alta, a gente aprendia leitura silenciosa. Não tem alfabetização não? Não importa.

De repente, me peguei sem estar lendo nada e sentindo uma terrível crise de abstinência: eu quero alguma coisa pra ler e estou sem nada! A menina ficou com minha revista! Negativo. Abri a pasta e puxei meu exemplar de O príncipe, de Maquiavel, impresso em 1933. E segui lendo.

Chegando à Saenz Peña, confesso que senti um ligeiro medo de que a menina não fosse me devolver a revista. Infundado, primeiro porque a mãe não ia deixar, segundo porque eu já tinha lido todas as histórias e, terceiro, porque NT 100 é ruim mesmo, então não seria uma grande perda: melhor ficar com quem dá mais valor do que eu.

O trem parou, abriu as portas e somente então a mocinha fechou a revista e me devolveu.

— Agradece o moço. (É “ao moço”, dona.)

— ’Brigada.

— De nada.

APIDÊITE DO APEDEUTA (27/07/2009, 21:41 h): uma grande amiga, a quem vou dar o pseudônimo de Carolina Matoso, lembrou-me a seguinte possibilidade.

“já pensou se a menininha do metrô vê vc. lendo O Príncipe, larga a hq de lado e diz:

“- Ei, moço, prefiria ler Maquiavel!”

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Prezado Cliente

Agora é assim: eu entro na estação do Metrô de manhã. É aquele mundo de gente caminhando no mesmo sentido, todos apressados e com cara de idiota (eu não sou exceção). Só pela multidão em movimento, Metropolis-style (Fritz Lang, não Siegel & Shuster), já dá pra antecipar que, dentro do vagão, vai estar todo o mundo socado (no mau sentido mesmo).

Aí, dos alto-falantes vem uma voz descarnada de mulher, toda entusiástica. A pontuação, por esquisita que seja, é realmente a que eles usam: “Prezado Cliente! O Metrô Rio, agradece, a preferência, e deseja, um bom, dia!” Segue-se uma voz masculina: “Prezado, Cliente!, aguarde o desembarque dos demais passageiros antes de embarcar?! Evite, acidentes. (…)”

Só pode ser molecagem, né? Só pode ser espírito de porco. Primeiro, a hipocrisia sarcástica e debochada da moça pseudo-educada. Depois, o paternalismo da gravação que me trata feito criança.

A lamentável culminação disso é que não tenho sequer a quem mandar tomar no

APIDÊITE posterior ao primeiro comentário abaixo: eu tinha esquecido outra gravaçãozinha irritante. É assim: “Prezado Cliente: o Metrô Rio destina carros exclusivos para às mulheres [sic na crase] nos dias úteis, entre seis, e nove horas da manhã, e entre cinco da tarde, e oito da noite. Respeitar a lei, é uma questão, de Cida Dania. Carro das Mulheres: respeito é bom e elas merecem.”

Olha só: cidadania é ter direitos políticos, poder votar e ser votado. Faveladinho usando computador não é cidadania, é demagogia e salsinhação do Orkut. Então, respeitar a lei não é questão de cidadania, não; é apenas uma forma inteligente de evitar as bordunadas dos brutamontes do Metrô, que ficam em frente ao vagão das mulheres, torcendo para aparecer um desavisado e descer-lhe a mamona. Não tem nada a ver com direitos políticos. E mais: respeitar a lei não é sequer questão de educação ou de caráter; é simplesmente um dever que você ou cumpre, ou vai pra cadeia, ou paga multa, ou a sanção que for. Algumas pessoas, querendo manter um discurso falacioso, vêm com essa de que cumprir a lei é questão de educação, como se a gente tivesse outra escolha. Não tem. Quem está no território do Estado tem que cumprir a lei do Estado, mesmo que não goste, mesmo que seja contra.

E como assim, “elas merecem”? Por que a ênfase? Por que a discriminação? Só elas é que merecem? Homem não merece?

Vou dizer a vocês, de fora do Rio (e também a quem está no Rio mas porventura não conhece a ratio legis): o motivo de existir um vagão destinado somente a mulheres é que, supostamente, tinha homem passando a mão na bunda das mulheres na hora do rush. Então, o simples fato de eu entrar no vagão não é, em si mesmo, alguma ofensa à dignidade feminina. Não se trata de algum território de propriedade das mulheres, tal que, entrando, eu estaria ofendendo-as, desrespeitando algo que fosse delas. Não. Apenas o Estado do Rio não quer que eu entre no vagão — eu estaria desrespeitando o Estado, que me proibiu de entrar. Não é o vagão nem são as mulheres, é o ato.

Outro dia, ouvi de uma moça no elevador: um rapaz, pilotando cadeira de rodas, entrou no vagão feminino por engano. Quando viu onde estava, a porta já tinha fechado. Foi imediatamente escorraçado por uma senhora. Ora, pombas, qual é o mal que pode fazer um moço em cadeira de rodas contra a bunda das circunstantes? Quem tá perto dele não tá olhando pra ele mesmo? Alguém vai dar esse mole? Mas, òbviamente, a imbecil julgava ter o especial direito de, sei lá, ter mais espaço.

O vagão das mulheres não é um direito das mulheres; é uma proibição aos homens. Antes que me venham com essa de que “mas o direito de um termina onde começa o do outro” ou de que, sempre que alguém tem um direito, é que alguém tem uma obrigação, deixa eu te dizer: existe um negócio chamado crime formal. Não, eu não estou dizendo que entrar no vagão das mulheres seja crime, estou apenas fazendo uma comparação. No crime formal, só de o sujeito praticar a ação, ele já merece punição, mesmo que não haja consequência (agora sem trema). Então, mesmo que não haja vítima, ele já incorreu em uma conduta proibida.

Poderão dizer, ah, mas a vítima é a sociedade. Bem, certamente. Só que, aí, é TODA a sociedade, inclusive eu e os demais homens, e não apenas as mulheres do vagão. Então não é isso.

Taí, viu? Comecei reclamando das gravações ofensivas e terminei no vagão das mulheres. Então, me deixa sair antes de levar p**rada.

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O Olho Viu

Esta não dá pra não passar adiante.

O baruno, colega de minha irmã, edita o fotologue O Olho Que Tudo Vê. Em geral, são placas com erros grosseiros de português ou falhas gritantes de lógica, do tipo “leve um e pague dois”. Ele fotografa e mostra pra todo o mundo.

Infelizmente, hoje à tarde, eu não tinha câmera (nem meu celular a tinha) na estação de metrô da Carioca. Então, vou ter que narrar. Acompanhe.

Tem u’as máquinas de vender livro, iguais às que vendem chocolate e biscoitinho. Tem a máquina da esquerda, a máquina da direita, e os livros presos lá dentro, querendo sair.

Na máquina da esquerda, os livros têm códigos: 011, 012, 013 etc. Na vitrine da máquina, um papel havia sido colado com durex: “acrescente um zero na frente dos códigos dos livros desta máquina”. Pensei: ué, já não tem o zero? Então são dois zeros? Seriam 0011, 0012, 0013… Bom, pode ser. Quem define os códigos são eles.

Na máquina da direita, os livros têm códigos: 21, 22, 23…

Entende o que aconteceu? O idiota colocou o aviso na máquina errada.

É disso que falo, é a isso que me refiro quando escrevo sobre os Intreináveis. Não adianta. Enquanto continuar contratando mão-de-obra desqualificada, desleixada, desidiosa, analfabeta, negligente e indolente, é isso que vai continuar acontecendo.

E isso é por toda parte. Canso de verificar semelhantes exemplos várias vezes por dia. Gente que não está nem aí e ainda espera receber salário por isso.

***
A esse respeito, hoje cunhei outra máxima: CONTROL-CÊ-CONTROL-VÊ É PRA SER USADO COMO SUBSTITUTO DA DIGITAÇÃO — NÃO DO PENSAMENTO! Na faina diária, farto-me de encontrar exemplos em que pessoas simplesmente copiam um texto inteiro sem fazer revisão e, em consequência, sai tudo errado. Já quando eu copio um texto inteiro, geralmente o texto é meu mesmo e eu reviso ele todinho. O copia-cola é pra ser usado como substituto do tedioso trabalho de digitar tudo de novo, mas não é pra substituir o olhar atento de revisor. O usuário não deve — NÃO PODE — presumir que “ah, é tudo igual” e nem olhar o que está fazendo.

Argh, que, se o mundo fosse gerido por mim, tava todo o mundo na rua. Não ia ter emprego pra ninguém, e a indústria ia parar. Ainda bem que não sou eu que respondo.

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