Afundação Biblioteca Nacional

Você não leu errado o título deste texto.

Hoje cedo, eu estava lendo a capa de meu exemplar de O retorno do Super-Homem no. 3, que foi publicado em 1994. Ali existem um ISBN-10 (85-7305-120-5) e um ISBN-13 (978-85-7305-120-9). Muito curioso: que eu soubesse, ISBN-13 não existia em 1994.

(É, eu sei: ninguém nem repara naqueles algarismos. Mas eu reparo em tudo. Quando digo que leio os livros inteiros, é pra valer. Leio até sumário, e só não leio índice porque tomaria muito tempo.)

Fui pesquisar. Comecei pela Wikipedia, que me disse que a migração forçada para ISBN-13 começou em 2005, com o abandono do ISBN-10 até 2007. Teòricamente, já existiam números ISBN-13 desde os anos 80, mas eu não os via nas capas dos livros, provàvelmente pelo simples motivo de não serem obrigatórios nem, portanto, atribuídos com frequência. Então, fui ao saite da Fundação Biblioteca Nacional, onde existem algumas páginas sobre o tema, para saber desde quando são usados no Brasil.

Sabe quando eu contei que a página de entrada da Academia Brasileira de Letras tinha erros de português? Então. É a mesma vergonha. Na BN, você encontra algumas pérolas nesta página:

Comunicado Importante ao Editor !
O que vai mudar ?
A partir de 01 de janeiro de 2007 o ISBN passará a ter 10 dígitos?.
Não. A nova numeração será precedida pelo número 978, que irá identificar o produto livro e o número de controle será recalculado.

Vamos devagar. O que é o “produto livro”? Da Wikipedia, entendi que o ISBN-13 foi concebido de modo que seus números estivessem no padrão EAN, que é o código de barras universal, também com treze algarismos. O EAN é usado para tudo: panela, chiclete, máquina fotográfica, faqueiro, sabão em pó. Quando uma leitora de EAN vê um código começando com 978, ela entende que é livro e continua a ler os demais algarismos de modo a identificar qual livro.

Só que a BN não explica nada disso. Então, o leitor fica perdido no espaço para entender a frase: “irá identificar o produto livro”, certo?

Além disso, vem cá: não tá faltando vírgula não? “… pelo número 978, que irá identificar o produto livro VÍRGULA e o número de controle será recalculado.” Oração adjetiva explicativa tem que vir entre vírgulas.

O texto continua: “Todos os livros publicados a partir de 01/01/2007, deverão ter ano de edição 2007 (…)”. Claramente se nota que é uma obra do neoportuguês: o infeliz tirou a vírgula de onde era obrigatória, mas, para ser coerente, é claro que tinha que pôr aquela ali onde é proibido: entre sujeito e verbo. Aliás, é batata: quando não se vai à escola, esse tipo de erro é garantido.

Mas isso não é tudo. Veja só: “Quando o ‘prefixo 978’ se esgotar, será adotado o ‘prefixo 979’, que ocorrerá nova mudança de prefixo editorial para os Editores.” Entendeu? QUE ocorrerá nova mudança. Simples: é só faltar à aula sobre pronomes relativos e usá-los como quiser.

Muito bem. Isso tudo eu encontrei, não na roça, nem no garimpo, nem numa borracharia — lugares onde o cuidado com o português está no final da lista de prioridades. Encontrei, isto sim, em uma página informativa da BIBLIOTECA NACIONAL. Vou repetir: BIBLIOTECA NACIONAL. Então, quando digo que vão ter que usar a tecnologia de exploração em águas ultraprofundas da Petrobras para encontrar o nível atual do padrão de qualidade, não é realmente um exagero. Aliás, já caiu tanto que saiu do outro lado e foi parar na China.

Eu quero parar de resmungar, mas eles não dão uma chance à paz!

EOF

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Relação sinal/ruído em queda

Na minha infância (mais ou menos na época em que estavam construindo as pirâmides do Egito), o português dos jornais e revistas tinha um padrão de qualidade que era referência até na escola. A quem não tinha o hábito de ler livros, aconselhava-se que, pelo menos, procurasse manter sua proficiência lendo periódicos. Empìricamente, sempre constatei que a publicidade seguia a mesma regra: era extremamente raro encontrar erro de português em anúncio — qualquer tipo de anúncio.

Agora, você abre os jornais online e não encontra uma linha que não tenha nenhum erro de concordância, onde não falte nem sobre nenhuma palavra e onde se tenha certeza de que o estagiário-redator não tenha matado a aula de pronomes relativos. São textos que, na minha escola, teriam sido classificados abaixo do subcrítico (é com hífen?), com os mesmos nomes sendo grafados de duas ou três maneiras diferentes na mesma frase. Não raro, existem sequências que contradizem a chamada ou sequer fazem sentido.

Aí, chegamos ao maldito spam. Todo dia recebo aquelas mensagens pedindo que eu atualize meu módulo de segurança em algum banco onde não tenho conta. Sabe como é, “clique aqui para instalar um cavalo-de-troia na sua máquina e liberar acesso a suas senhas”. Uma das formas de se identificar esse tipo de mensagem é que sempre vem num português pavoroso, começando frase com minúscula, cheio de erros de ortografia, concordância nenhuma etc. e tal.

Só que, agora, com o agravamento da tragédia escolar nacional, mesmo as mensagens legítimas vêm povoadas de erros crassos. Então, não dá mais pra separar o trigo do joio. Qualquer dia, vou receber algum aviso importante mas identificá-lo como spam (no que provàvelmente acertarei, sem contradição mas cheio de doublethink).

Nessa inversão contemporânea de valores, pelo menos já consegui identificar algumas regras do neoportuguês, a saber:

– Toda vez em que o português correto proíbe o “a” craseado, o neoportuguês exige-o. Quando o português o exige, o neoportuguês proíbe-o. Por exemplo: a frase

A partir de segunda-feira, nosso horário de funcionamento começa às 8 h. — A Gerência.

, quando vertida para neoportuguês, fica assim:

À partir de segunda-feira, nosso horário de funcionamento começa as 8 h. — À Gerência.

– Toda vez que o português correto exige a forma “há” do verbo haver, o neoportuguês transforma-o em “a” isolado ou em “à”, craseado, à escolha de quem escreve. Assim, a frase

Há muitos anos não vou à escola.

é transformada em

À muitos anos não vou a escola.

– Toda vez que o português correto usa a construção “nada a ver”, o neoportuguês transforma-a em “nada haver” ou “nada a haver”.

– Toda vez que um verbo vem antes de seu sujeito, o neoportuguês exige que o verbo fique no singular, mesmo que o sujeito esteja no plural:

Chegou as novas regras de concordância!

– Toda vez que um verbo vem antes do sujeito e está na voz passiva, o neoportuguês exige que o verbo auxiliar e o particípio permaneçam sem qualquer concordância com esse sujeito:

Foi dado várias ordens para desocupar a praça.

E assim sucessivamente. Se você descobrir alguma regra do neoportuguês que não esteja aqui, por favor me informe. Preciso aprender essa nova língua urgentemente, para poder manter uma vida negocial saudável.

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Manifesto anti-houveram

Não aguento mais (agora sem trema) me deparar com “houveram”.

Casos em que “houveram” está certo: “eles houveram de ouvir tudo que foi dito” (“eles tiveram que ouvir tudo que foi dito”).

Todos os outros casos estão errados. Não tem essa de “houveram vários acidentes”, nem de “houveram muitos casos de gripe suína”. Infelizmente, em todos os casos em que tenho encontrado a palavra “houveram” nos últimos, sei lá, quinze anos, o uso está errado. QUANDO O VERBO “HAVER” TEM O SIGNIFICADO DE “EXISTIR” OU “ACONTECER”, NÃO É PRA PASSÁ-LO PARA O PLURAL. NUNCA.

Por favor, parem com essa agressão ao português. Se vocês ouvirem alguém usando “houveram” desse modo errado (e podem ter certeza de que é o único modo como vão ouvir), por favor, apertem o botão de ejeção do infeliz.

Obrigado.

***
Em uma nota não relacionada, quero saber por que é que há um helicóptero Super Puma da Força Aérea fazendo círculos em cima da Tijuca a esta hora da manhã de uma segunda-feira.

EOF

Verbos defectivos

Quando eu estava na quarta série, meu livro de conjugações verbais não tinha o imperativo do verbo querer. A professora dizia que o verbo era defectivo — ou seja, um verbo que não tem conjugação em todos os tempos verbais. Ninguém me explicou o porquê, mas deduzi que fosse pelo contrassenso: você não teria como mandar uma pessoa querer alguma coisa. Apesar da aparência de razoabilidade, ainda fiquei pensando que isso era uma omissão grave na língua: normalmente, você não mandaria alguém querer nada, mas o português deveria ter essa possibilidade. Vai que, uma vez a cada Lua Azul (A Gata e o Rato, alguém?), um escritor precise expressar o conceito por alguma razão abstrata. Afinal, as possibilidades de pensamentos são infinitas, e deveria haver língua para exprimi-los.

Foi só vários anos depois que me dei conta: o verbo querer tem imperativo, sim. “Por favor, queira se retirar”, “queiram dirigir-se ao balcão”. Mesmo que não tivesse, observe que o imperativo afirmativo se constrói por repetição do presente do indicativo, sem o S, no caso da segunda pessoa, e por repetição do presente do subjuntivo no caso da terceira pessoa: “contanto que você digite o texto” (presente do subjuntivo de digitar), “por favor, digite o texto” (imperativo afirmativo de digitar). O imperativo negativo também tem fórmula, mas eu esqueci qual é; isso não vem ao caso, o que importa é que tenha fórmula. Portanto, automàticamente, querer tem imperativo, sim.

“Tu queres” –> “quere tu”
“Você queira” –> “queira você”
“Nós queiramos” –> “queiramos nós”
“Vós quereis” –> “querei vós”
“Vocês queiram” –> “queiram vocês”

O fato de uma formulação não ser muito usada não deveria significar que não existisse na língua.

Mas a pergunta mais importante é outra: por que os livros e professores estão ensinando a língua incompletamente, como se alguns conceitos não existissem?

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