Sintomas de um mercado editorial incipiente

De vez em quando eu resmungo que este é um povo de pouca instrução, pouco dado à leitura. Pelo que leio por aí, parece que estou sendo injusto quanto a essa segunda parte, porque BAxt e pacamanca já me convenceram de que a aversão à leitura dever ter algo de universal.

De todo modo, é um povo pouco instruído, sim. O tratamento que os livros recebem no Brasil é quase o de algo proibido. De fato, alguns anos atrás, um amigo de meu irmão ficou espantadíssimo quando, visitando-nos em nossa casa, surpreendeu-me lendo durante as férias, como se eu fosse maluco de estar desperdiçando meu tempo com uma tarefa que só deveria cumprir se fosse obrigado.

Então, eu passava agora há pouco em frente à livraria Eldorado da Tijuca, quando uma capa chamou minha atenção. Vários homens jovens, com traje de vôo, sentados na asa de um avião inglês da II Guerra Mundial, em uma fotografia em preto e branco típica da época (incidentalmente, dá pra dizer que o avião é inglês pela forma do motor que aparece no canto). O livro era Há muito o que contar… aqui, de A.L. Kennedy. Fiquei imaginando que fossem histórias de aviação durante a guerra, tema que sempre me atrai. Como não gosto de comprar um livro só pela capa, fui pesquisar por aí.

Primeiro, procurei A.L. Kennedy na Amazon. Encontrei Day, que tem a seguinte descrição:

Kennedy’s contemplative, stylized sixth novel (after Paradise) follows former Royal Air Force tail gunner Alfred Day as he relives his experiences in a WWII German prison camp. It’s 1949, and (…) He volunteers as an extra on the set of a war documentary, (…) The film set experience grows darker as Alfred begins reliving his time in the prison camp (…)

A capa era diferente da que eu tinha visto. Para confirmar que o livro fosse o mesmo, fui ao saite da Saraiva, a conferir a descrição. Olhe só o que encontrei:

A historia de um homem que foi piloto de um bombardeiro da Força Aérea Britânica durante a segunda Guerra Mundial.
Após a guerra, em 1949, ele participa como figurante num filme em que revive sua experiência de prisioneiro de guerra.

Está notando algo diferente? No original, ele era tail gunner: atirador de cauda, aquele cara que vai dentro de uma jaulinha no rabo do avião, dando tiro nos alemães que vêm atacar por trás. No comentário brasileiro, ele se tornou piloto.

Relevando o ataque à ortografia (“historia” sem acento) e a impropriedade dos nomes (“Força Aérea Britânica”, em vez de “Real Força Aérea” ou de “Força Aérea britânica”, como se o “Britânica” fizesse parte do nome, o que não faz; e “segunda Guerra Mundial”, com o “segunda” iniciado por minúscula), resta o fato de que a resenha brasileira está, muito provàvelmente, errada quanto aos fatos. Quer dizer, não sei qual das duas, mas, se eu tivesse que apostar dinheiro, diria que a errada é a brasileira.

(No mínimo, porque é menor: meu Word contou 126 palavras, contra as 315 das duas resenhas da Amazon combinadas. Não vou contar o fato de que a Amazon deixa os leitores comentarem a obra, que seria covardia. Oito pessoas deixaram lá suas observações, muito mais úteis (e algumas mais extensas) do que as resenhas editoriais e, aliás, confirmando que Day era tail gunner. Aliás de novo, é por essa e inúmeras outras razões que eu adoro a Amazon: ela sempre dá vasta informação sobre o produto, permitindo que você saiba exatamente o que esperar dele, qual é a edição, o que chamou a atenção dos leitores etc. Você não toma nenhuma decisão no escuro. Já deixei de comprar inúmeros livros que compraria de outro modo, só com base nas resenhas deixadas lá.)

Você poderá argumentar que isso não faça diferença e que o livro terá valor, ou não, independentemente da posição que Day ocupava a bordo. Só que, se a idéia é expor o produto para que eu escolha se o quero, então tudo conta para meu julgamento. Sinceramente, eu, Atoz, dou mais valor à história do tail gunner do que à de um piloto, por duas simples razões. Uma, que as perspectivas são completamente diferentes: o piloto é um oficial, comandante da tripulação, responsável por erros e acertos e com poder de decisão sobre para onde leva o avião, enquanto o atirador de cauda não é um oficial, fica impotente para comandar qualquer coisa além de sua metralhadora, opera em um espaço bem mais confinado, e submete-se aos mesmos riscos do piloto mais o de levar um tiro na cara, que o piloto, em regra, não. São pontos de vista bem diferentes. Outra, que o ponto de vista do piloto está narrado em dezenas de livros e revistas sobre a guerra, mas o do atirador é bem mais difícil de se encontrar, e valorizo-o mais por isso.

Então, como você pode ver, o consumidor incauto, que não pesquisa em outros saites ou não fala inglês, é levado pela Saraiva a uma impressão errada sobre o livro. Além do mais, existe uma norma básica, né: o que não se pode é errar; se não sabe, então não escreva nada. Não vai cair a mão se, na dúvida, o livreiro escrever “tripulante” em vez de “piloto”.

Naturalmente, tudo isso decorre da displicência de quem não teve cuidado suficiente antes de resenhar Há muito o que contar… aqui. Imputo essa negligência ao espírito geral, reinante no Brasil, de se equiparar livro a mercadoria de camelô. É aquela noção de fazer tudo sem cuidado, porque tanto faz. Duvido que isso acontecesse em um país que desse valor à leitura.

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Dia de franceses tosquiarem cabeças

Há 64 anos, em 8 de maio de 1945, os Aliados aceitaram a rendição alemã, pondo fim ao maior conflito armado que a humanidade já sofreu. Dia de grande euforia na Europa — mas uma euforia amarga e meio vazia, com cheiro de fumaça e sabor de lágrimas, porque famílias estavam desfeitas, milhões de pessoas estavam mortas, cidades estavam arrasadas, e muito sofrimento ainda viria com a fome e a penúria nos anos seguintes.

Em entrevista no excelente documentário Senta a Pua, o Brigadeiro Rui Moreira Lima conta a sensação que teve quando, jovem tenente da FAB, recebeu a notícia de que não teria mais que bombardear nem metralhar alemães no Norte da Itália: uma profunda alegria de que ninguém mais tinha que morrer e ninguém mais ia ter que dar tiro e todos poderiam voltar para casa.

Estou sendo insistente de propósito. Esse assunto é sério. Ainda tem muita gente que gosta de guerra. Não é pra gostar. Admito que gosto de estudar as guerras, em particular a própria IIGM, mas isso não quer dizer que eu goste delas, assim como não necessariamente um advogado penalista gosta de homicídios, um médico de doenças ou um fiscal da Receita de sonegação. Sort of.

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64 anos atrás hoje

Há 64 anos, em 7 de maio de 1945, a Alemanha se rendeu em Reims. No Brasil, o dia 8 de maio é comemorado como Dia da Vitória; nos Estados Unidos e Inglaterra, é chamado V-E Day (vitória na Europa — ainda faltava Japão, que foi em agosto).

23 milhões de mortos na União Soviética, 6 milhões de judeus nos campos de extermínio, 42 milhões nas cidades; 73 milhões de mortos no total.

Que nunca mais se repita e que sirva como escarmento para todas as gerações futuras.

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Mudando de assunto: só quem pega gripe suína é espírito de porco. Deve tá cheio de gente contaminada à minha volta.

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